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  • Sapiens – uma breve história

    Sapiens – uma breve história

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    DADOS DE COPYRIGHT Sobre a obra:

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    "Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível."

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    Em memória do meu pai, Shlomo Harari, com amor

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    Cronologia

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    Parte 1: A Revolução Cognitiva

    Parte um A Revolução Cognitiva

    1. A marca de uma mão humana de cerca de 30 mil anos atrás, na parede na caverna de Chauvet-Pont-d’Arc, no sul da França. Alguém tentou dizer

    “Estive aqui!”.

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    1. Um animal insignificante

    Um animal insignificante HÁ CERCA DE 13,5 BILHÕES DE ANOS, A MATÉRIA, A ENERGIA, O TEMPO E O ESPAÇO surgiram naquilo que é conhecido como o Big Bang. A história dessas características fundamentais do nosso universo é denominada física.

    Por volta de 300 mil anos após seu surgimento, a matéria e a energia começaram a se aglutinar em estruturas complexas, chamadas átomos, que então se combinaram em moléculas. A história dos átomos, das moléculas e de suas interações é denominada química.

    Há cerca de 3,8 bilhões de anos, em um planeta chamado Terra, certas moléculas se combinaram para formar estruturas particularmente grandes e complexas chamadas organismos. A história dos organismos é denominada biologia.

    Há cerca de 70 mil anos, os organismos pertencentes à espécie Homo sapiens começaram a formar estruturas ainda mais elaboradas chamadas culturas. O desenvolvimento subsequente dessas culturas humanas é denominado história.

    Três importantes revoluções definiram o curso da história. A Revolução Cognitiva deu início à história, há cerca de 70 mil anos. A Revolução Agrícola a acelerou, por volta de 12 mil anos atrás. A Revolução Científica, que começou há apenas 500 anos, pode muito bem colocar um fim à história e dar início a algo completamente diferente. Este livro conta como essas três revoluções afetaram os seres humanos e os demais organismos.

    Muito antes de haver história, já havia seres humanos. Animais bastante similares aos humanos modernos surgiram por volta de 2,5 milhões de anos atrás. Mas, por incontáveis gerações, eles não se destacaram da miríade de outros organismos com os quais partilhavam seu habitat.

    Em um passeio pela África Oriental de 2 milhões de anos atrás, você poderia muito bem observar certas características humanas familiares: mães ansiosas acariciando seus bebês e bandos de crianças despreocupadas brincando na lama; jovens temperamentais rebelando-se contra as regras da sociedade e idosos cansados que só queriam ficar em paz; machos orgulhosos tentando impressionar as beldades locais e velhas matriarcas sábias que já tinham visto de

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    tudo. Esses humanos arcaicos amavam, brincavam, formavam laços fortes de amizade e competiam por status e poder – mas os chimpanzés, os babuínos e os elefantes também. Não havia nada de especial nos humanos. Ninguém, muito menos eles próprios, tinha qualquer suspeita de que seus descendentes um dia viajariam à Lua, dividiriam o átomo, mapeariam o código genético e escreveriam livros de história. A coisa mais importante a saber acerca dos humanos pré-históricos é que eles eram animais insignificantes, cujo impacto sobre o ambiente não era maior que o de gorilas, vaga-lumes ou águas-vivas.

    Os biólogos classificam os organismos em espécies. Consideram que os animais pertencem a uma mesma espécie se eles tendem a acasalar uns com os outros, gerando descendentes férteis. Cavalos e jumentos têm um ancestral recente em comum e partilham muitos traços físicos, mas demonstram pouco interesse sexual uns pelos outros. Acasalam entre si se forem induzidos a isso – entretanto seus descendentes, chamados mulas, são estéreis. Mutações no DNA dos jumentos podem nunca ter passado para os cavalos, e vice-versa. Os dois tipos de animais são consequentemente considerados duas espécies diferentes, trilhando caminhos evolucionários distintos. Já um buldogue e um spaniel podem ser muito diferentes em aparência, mas são membros da mesma espécie, partilhando a mesma informação de DNA. Acasalam entre si alegremente, e seus filhotes, ao crescer, cruzam com outros cachorros e geram mais filhotes.

    As espécies que evoluíram de um mesmo ancestral são agrupadas em um “gênero”. Leões, tigres, leopardos e jaguares são espécies diferentes do gênero Panthera. Os biólogos nomeiam os organismos com um nome duplo latino, o gênero seguido da espécie. Os leões, por exemplo, são chamados Panthera leo, a espécie leo do gênero Panthera. Ao que tudo indica, todos os que estão lendo este livro são Homo sapiens – a espécie sapiens (sábia) do gênero Homo (homem).

    Os gêneros, por sua vez, são agrupados em famílias, como a dos felídeos (leões, guepardos, gatos domésticos), a dos canídeos (lobos, raposas, chacais) e a dos elefantídeos (elefantes, mamutes, mastodontes). Todos os membros de uma família remontam a um mesmo patriarca ou matriarca original. Todos os gatos, por exemplo, dos menores gatos domésticos ao leão mais feroz, têm em comum um ancestral felídeo que viveu há cerca de 25 milhões de anos.

    O Homo sapiens também pertence a uma família. Esse fato banal costumava ser um dos segredos mais bem guardados da história. Durante muito

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    tempo, o Homo sapiens preferiu conceber a si mesmo como separado dos animais, um órfão destituído de família, carente de primos ou irmãos e, o que é mais importante, sem pai nem mãe. Mas isso simplesmente não é verdade.

    Gostemos ou não, somos membros de uma família grande e particularmente ruidosa chamada grandes primatas. Nossos parentes vivos mais próximos incluem os chimpanzés, os gorilas e os orangotangos. Os chimpanzés são os mais próximos. Há apenas 6 milhões de anos, uma mesma fêmea primata teve duas filhas. Uma delas se tornou a ancestral de todos os chimpanzés; a outra é nossa avó.

    Esqueleto no armário

    O Homo sapiens guardou um segredo ainda mais perturbador. Não só temos inúmeros primos não civilizados, como um dia também tivemos irmãos e irmãs.

    Costumamos pensar em nós mesmos como os únicos humanos, pois, nos últimos 10 mil anos, nossa espécie de fato foi a única espécie humana a existir. Porém, o verdadeiro significado da palavra humano é “animal pertencente ao gênero Homo”, e antes havia várias outras espécies desse gênero além do Homo sapiens.

    Além disso, conforme veremos no último capítulo deste livro, num futuro não muito distante possivelmente teremos de enfrentar humanos não sapiens. Para melhor explicar este ponto, usarei o termo “sapiens” para designar membros da espécie Homo sapiens, ao passo que reservarei o termo “humano” para me referir a todos os membros do gênero Homo.

    Os humanos surgiram na África Oriental há cerca de 2,5 milhões de anos, a partir de um gênero anterior de primatas chamado Australopithecus, que significa “macaco do Sul”. Por volta de 2 milhões de anos atrás, alguns desses homens e mulheres arcaicos deixaram sua terra natal para se aventurar e se assentar em vastas áreas da África do Norte, da Europa e da Ásia. Como a sobrevivência nas florestas nevadas do norte da Europa requeria características diferentes das necessárias à sobrevivência nas florestas úmidas da Indonésia, as populações humanas evoluíram em direções diferentes. O resultado foram várias espécies distintas, a cada uma das quais os cientistas atribuíram um nome latino pomposo.

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    2. Nossos irmãos, de acordo com reconstruções especulativas (da esquerda para a direita): Homo rudolfensis (África Oriental); Homo erectus (Ásia

    Oriental); e Homo neanderthalensis (Europa e Ásia Ocidental). Todos são humanos.

    Os humanos na Europa e na Ásia Ocidental deram origem ao Homo neanderthalensis (“homem do vale do Neander”), popularmente conhecidos como “neandertais”. Os neandertais, mais robustos e mais musculosos do que nós, sapiens, estavam bem adaptados ao clima frio da Eurásia ocidental da era do gelo. As regiões mais ocidentais da Ásia foram povoadas pelo Homo erectus, “Homem ereto”, que sobreviveu na região por quase 1,5 milhão de anos, sendo a espécie humana de maior duração. Esse recorde dificilmente será quebrado, mesmo por nossa própria espécie. É questionável se o Homo sapiens ainda existirá daqui a mil anos, de modo que 2 milhões de anos certamente está fora do nosso alcance.

    Na ilha de Java, na Indonésia, viveu o Homo soloensis, “homem do vale do Solo”, que estava adaptado para a vida nos trópicos. Em outra ilha indonésia – a pequena ilha de Flores –, humanos arcaicos passaram por um processo que levou ao nanismo. Os humanos chegaram pela primeira vez à ilha de Flores quando o nível do mar estava excepcionalmente baixo, facilitando o acesso à ilha a partir do continente. Quando o nível do mar voltou a subir, algumas pessoas ficaram presas na ilha, que era pobre em recursos. As pessoas grandes, que necessitavam muita comida, morriam primeiro. Os indivíduos menores tinham muito mais chances de sobrevivência. Com o passar das gerações, as pessoas de Flores se tornaram anãs. Essa espécie única, conhecida pelos cientistas como Homo

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    floresiensis, chegava uma altura máxima de apenas um metro e pesava não mais de 25 quilos. Ainda assim, era capaz de produzir ferramentas de pedra e ocasionalmente conseguia abater alguns dos elefantes da ilha – embora, a bem da verdade, os elefantes também fossem uma espécie diminuta.

    Em 2010, outro irmão perdido foi resgatado do esquecimento, quando cientistas, escavando a caverna de Denisova, na Sibéria, descobriram um osso de dedo fossilizado. A análise genética comprovou que o dedo pertencia a uma espécie humana até então desconhecida, que foi denominada Homo denisova.

    Sabe-se lá quantos de nossos parentes perdidos estão esperando para ser descobertos em outras cavernas, em outras ilhas e em outros climas.

    Enquanto esses humanos evoluíam na Europa e na Ásia, a evolução na África Oriental não parou. O berço da humanidade continuou a nutrir numerosas espécies novas, como o Homo rudolfensis (“homem do lago Rudolf”), o Homo ergaster (“homem trabalhador”) e, finalmente, nossa própria espécie, que, sem modéstia alguma, denominamos Homo sapiens (“homem sábio”).

    Alguns membros de algumas dessas espécies eram gigantes e outros, diminutos. Alguns eram caçadores destemidos, e outros, dóceis coletores de plantas. Alguns viviam em uma única ilha, ao passo que muitos perambulavam por continentes. Mas todos pertenciam ao gênero Homo. Eram seres humanos.

    É uma falácia comum conceber essas espécies como dispostas em uma linha reta de descendência, com os ergaster dando origem aos erectus, os erectus dando origem aos neandertais e os neandertais dando origem a nós. Esse modelo linear dá a impressão equivocada de que, em determinado momento, apenas um tipo de humano habitou a Terra e de que todas as espécies anteriores foram meros modelos mais antigos de nós mesmos. A verdade é que, de aproximadamente 2 milhões de anos a 10 mil anos atrás, o mundo foi habitado por várias espécies humanas ao mesmo tempo. E por que não? Hoje há muitas espécies de raposas, ursos e porcos. O mundo de 100 mil anos atrás foi habitado por pelo menos seis espécies humanas diferentes. É nossa exclusividade atual, e não a multiplicidade de espécies em nosso passado, que é peculiar – e, talvez, incriminadora. Como logo veremos, nós, sapiens, temos boas razões para reprimir a lembrança de nossos irmãos.

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    O custo de pensar

    Apesar de suas muitas diferenças, todas as espécies humanas têm em comum várias características que as definem. Mais notadamente, os humanos têm o cérebro extraordinariamente grande em comparação com o de outros animais.

    Mamíferos pesando 60 quilos têm um cérebro com tamanho médio de 200 centímetros cúbicos. Os primeiros homens e mulheres, há 2,5 milhões de anos, tinham cérebros de cerca de 600 centímetros cúbicos. Sapiens modernos apresentam um cérebro de 1200 a 1400 centímetros cúbicos. Os cérebros dos neandertais eram ainda maiores.

    Que a evolução devesse selecionar cérebros maiores pode nos parecer óbvio. Somos tão apaixonados por nossa inteligência superior que presumimos que, em se tratando de capacidade cerebral, mais deve ser melhor. Mas, se fosse assim, a família dos felídeos também teria produzido gatos capazes de fazer cálculos, e porcos teriam a esta altura lançado seus próprios programas espaciais.

    Por que cérebros gigantes são tão raros no reino animal?

    O fato é que um cérebro gigante é extremamente custoso para o corpo.

    Não é fácil de carregar, sobretudo quando envolvido por um crânio pesado. É ainda mais difícil de abastecer. No Homo sapiens, o cérebro equivale a 2 ou 3% do peso corporal, mas consome 25% da energia do corpo quando este está em repouso. Em comparação, o cérebro de outros primatas requer apenas 8% de energia em repouso. Os humanos arcaicos pagaram por seu cérebro grande de duas maneiras. Em primeiro lugar, passaram mais tempo em busca de comida.

    Em segundo lugar, seus músculos atrofiaram. Como um governo desviando dinheiro da defesa para a educação, os humanos desviaram energia do bíceps para os neurônios. Dificilmente pensaríamos que essa é uma boa estratégia para a sobrevivência na savana. Um chimpanzé não pode ganhar uma discussão com um Homo sapiens, mas pode parti-lo ao meio como uma boneca de pano.

    Hoje, nosso cérebro grande é uma vantagem, porque podemos produzir carros e armas que permitem nos locomovermos mais rápido que os chimpanzés e atirar neles de uma distância segura em vez de enfrentá-los em um combate corpo a corpo. Mas carros e armas são um fenômeno recente. Por mais de 2 milhões de anos, as redes neurais dos humanos continuaram se expandindo, mas, com exceção de algumas facas de sílex e varetas pontiagudas, os humanos tiraram muito pouco proveito disso. Então, o que impulsionou a evolução do

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    enorme cérebro humano durante esses 2 milhões de anos? Francamente, nós não sabemos.

    Outro traço humano singular é que andamos eretos sobre duas pernas. Ao ficar eretos, é mais fácil esquadrinhar a savana à procura de animais de caça ou de inimigos, e os braços, desnecessários para a locomoção, são liberados para outros propósitos, como atirar pedras ou sinalizar. Quanto mais coisas essas mãos eram capazes de fazer, mais sucesso tinham os indivíduos, de modo que a pressão evolutiva trouxe uma concentração cada vez maior de nervos e músculos bem ajustados nas palmas e nos dedos. Em consequência, os humanos podem realizar tarefas complexas com as mãos. Em particular, podem produzir e usar ferramentas sofisticadas. Os primeiros indícios de produção de ferramentas datam de aproximadamente 2,5 milhões de anos atrás, e a manufatura e o uso de ferramentas são os critérios pelos quais os arqueólogos reconhecem humanos antigos.

    Mas caminhar com a coluna ereta tem lá suas desvantagens. O esqueleto de nossos ancestrais primatas se desenvolveu durante milhões de anos para sustentar uma criatura que andava de quatro e tinha uma cabeça relativamente pequena. Adaptar-se a uma posição ereta foi um grande desafio, sobretudo quando a estrutura precisou sustentar um crânio extragrande. A humanidade pagou por sua visão elevada e suas mãos habilidosas com dores nas costas e rigidez no pescoço.

    As mulheres pagaram ainda mais. Um andar ereto exigia quadris mais estreitos, constringindo o canal do parto – e isso justamente quando a cabeça dos bebês se tornava cada vez maior. A morte durante o parto se tornou uma grande preocupação para as fêmeas humanas. As mulheres que davam à luz mais cedo, quando o cérebro e a cabeça do bebê ainda eram relativamente pequenos e maleáveis, se saíam melhor e sobreviviam para ter mais filhos. Em consequência, a seleção natural favoreceu nascimentos precoces. E, de fato, em comparação com outros animais, os humanos nascem prematuramente, quando muitos de seus sistemas vitais ainda estão subdesenvolvidos. Um potro pode trotar logo após o nascimento; um gatinho deixa a mãe para buscar alimento por conta própria com poucas semanas de vida. Os bebês humanos são indefesos e durante muitos anos dependem dos mais velhos para sustento, proteção e educação.

    Esse fato contribuiu enormemente para as extraordinárias habilidades

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    sociais da humanidade e, ao mesmo tempo, para seus peculiares problemas sociais. Mães solitárias dificilmente conseguiam obter comida suficiente para sua prole e para si mesmas tendo crianças necessitadas sob seus cuidados. Criar filhos requeria ajuda constante de outros membros da família e de vizinhos. É necessária uma tribo para criar um ser humano. A evolução, assim, favoreceu aqueles capazes de formar fortes laços sociais. Além disso, como os humanos nascem subdesenvolvidos, eles podem ser educados e socializados em medida muito maior do que qualquer outro animal. A maioria dos mamíferos sai do útero como cerâmica vidrada saindo de um forno – qualquer tentativa de moldá-los novamente apenas irá rachá-los ou quebrá-los. Os humanos saem do útero como vidro derretido saindo de uma fornalha. Podem ser retorcidos, esticados e moldados com surpreendente liberdade. É por isso que hoje podemos educar nossos filhos para serem cristãos ou budistas, capitalistas ou socialistas, belicosos ou pacifistas.

    Presumimos que um cérebro grande, o uso de ferramentas, uma capacidade superior de aprender e estruturas sociais complexas são vantagens enormes.

    Parece óbvio que esses atributos tornaram a humanidade o animal mais poderoso da Terra. Mas os humanos desfrutaram de todas essas vantagens por 2 milhões de anos, durante os quais continuaram sendo criaturas fracas e marginais. Assim, humanos que viveram há 1 milhão de anos, apesar de seus cérebros grandes e ferramentas de pedra afiadas, viviam com medo constante de predadores, raramente caçavam animais grandes e subsistiam principalmente coletando plantas, pegando insetos, capturando animais pequenos e comendo a carniça deixada por outros carnívoros mais fortes.

    Um dos usos mais comuns das primeiras ferramentas de pedra foi abrir ossos para chegar até o tutano. Alguns pesquisadores acreditam que esse foi nosso nicho original. Assim como os pica-paus se especializam em extrair insetos dos troncos das árvores, os primeiros humanos se especializaram em extrair o tutano dos ossos. Por que o tutano? Bem, suponhamos que você esteja observando um bando de leões abater e devorar uma girafa. Você espera pacientemente até eles terminarem. Mas ainda não é a sua vez, porque primeiro as hienas e os chacais – e você não ousa se meter com eles – reviram as sobras. Só então você e seu bando ousam se aproximar da carcaça, olhando com cuidado à sua volta, e explorar o único tecido comestível que restou.

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    Isso é essencial para entender nossa história e nossa psicologia. A posição do gênero Homo na cadeia alimentar era, até muito pouco tempo atrás, solidamente intermediária. Durante milhões de anos, os humanos caçaram criaturas menores e coletaram o que podiam, ao passo que eram caçados por predadores maiores. Somente há 400 mil anos que várias espécies de homem começaram a caçar animais grandes de maneira regular, e só nos últimos 100 mil anos – com a ascensão do Homo sapiens – esse homem saltou para o topo da cadeia alimentar.

    Esse salto espetacular do meio para o topo teve enormes consequências.

    Outros animais no topo da pirâmide, como os leões e os tubarões, evoluíram para essa posição gradualmente, ao longo de milhões de anos. Isso permitiu que o ecossistema desenvolvesse formas de compensação e equilíbrio que impediam que leões e tubarões causassem destruição em excesso. À medida que os leões se tornavam mais ferozes, a evolução fez as gazelas correrem mais rápido, as hienas cooperarem melhor, e os rinocerontes serem mais mal-humorados.

    Diferentemente, a humanidade ascendeu ao topo tão rapidamente que o ecossistema não teve tempo de se ajustar. Além disso, os próprios humanos não conseguiram se ajustar. A maior parte dos grandes predadores do planeta são criaturas grandiosas. Milhões de anos de supremacia os encheram de confiança em si mesmos. O sapiens, diferentemente, está mais para um ditador de uma república de bananas. Tendo sido até tão pouco tempo atrás um dos oprimidos das savanas, somos tomados por medos e ansiedades quanto à nossa posição, o que nos torna duplamente cruéis e perigosos. Muitas calamidades históricas, de guerras mortais a catástrofes ecológicas, resultaram desse salto apressado.

    Uma raça de cozinheiros

    Um passo importante rumo ao topo foi a domesticação do fogo. Já há 800 mil anos, algumas espécies humanas faziam uso esporádico do fogo. Por volta de 300 mil anos atrás, os Homo erectus, os neandertais e os antepassados do Homo sapiens usavam o fogo diariamente. Os humanos agora tinham uma fonte confiável de luz e de calor e uma arma letal contra os leões à espreita. Não muito tempo depois, os humanos podem até mesmo ter começado a deliberadamente a

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    fazer queimadas em suas áreas. Um fogo cuidadosamente manejado podia transformar bosques cerrados intransponíveis em campos cheios de animais de caça. Além disso, quando o fogo se apagava, os empreendedores da Idade da Pedra podiam caminhar pelos restos fumegantes e coletar animais, nozes e tubérculos carbonizados. Mas a melhor coisa que o fogo possibilitou foi o hábito de cozinhar.

    Alimentos que os humanos não conseguem digerir em sua forma natural – como trigo, arroz e batata – se tornaram itens essenciais da nossa dieta graças ao cozimento. O fogo não só mudava a química dos alimentos; mudava também sua biologia. Cozinhar matava germes e parasitas que infestavam os alimentos.

    Também passou a ser muito mais fácil para os humanos mastigar e digerir seus alimentos favoritos, como frutas, nozes, insetos e carniça, se cozidos. Enquanto os chimpanzés passam cinco horas por dia mastigando alimentos crus, uma hora é suficiente para as pessoas comerem alimentos cozidos.

    O advento do hábito de cozinhar possibilitou aos humanos comer mais tipos de comida, dedicar menos tempo à alimentação e se virar com dentes menores e intestino mais curto. Alguns estudiosos acreditam que existe uma relação direta entre o advento do hábito de cozinhar, o encurtamento do trato intestinal e o crescimento do cérebro humano. Considerando que tanto um intestino longo quanto um cérebro grande consomem muita energia, é difícil ter os dois ao mesmo tempo. Ao encurtar o intestino e reduzir seu consumo de energia, o hábito de cozinhar inadvertidamente abriu caminho para o cérebro enorme dos neandertais e dos sapiens.1 O fogo também abriu a primeira brecha significativa entre o homem e os outros animais. O poder de quase todos os animais depende de seu corpo: a força de seus músculos, o tamanho de seus dentes, a envergadura de suas asas. Embora possam fazer uso de ventos e correntes, são incapazes de controlar essas forças da natureza e estão sempre limitados por sua estrutura física. As águias, por exemplo, identificam colunas térmicas emanando do solo, abrem suas asas gigantes e permitem que o ar quente as faça alçar voo, mas não podem controlar a localização das colunas térmicas, e sua capacidade máxima de carga é estritamente proporcional à envergadura de suas asas.

    Ao domesticar o fogo, os humanos ganharam controle de uma força obediente e potencialmente ilimitada. Ao contrário das águias, os humanos

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    podiam escolher onde e quando acender uma chama, e foram capazes de explorar o fogo para inúmeras tarefas. O que é mais importante, o poder do fogo não era limitado pela forma, estrutura ou força do corpo humano. Uma única mulher com uma pedra ou vareta podia produzir fogo para queimar uma floresta inteira em uma questão de horas. A domesticação do fogo foi um sinal do que estava por vir.

    Mapa 1. O Homo sapiens conquista o globo.

    Os cuidadores de nossos irmãos

    Apesar dos benefícios do fogo, há 150 mil anos os humanos ainda eram criaturas marginais. Agora eles podiam espantar leões, se aquecer durante noites frias e queimar uma ou outra floresta. Mas, considerando todas as espécies juntas, possivelmente o número de humanos vivendo entre o arquipélago indonésio e a Península Ibérica ainda não passava de 1 milhão, um mero ponto no radar ecológico.

    Nossa espécie, Homo sapiens, já estava presente no palco do mundo, mas, até então, estivera apenas vivendo sua vidinha num canto da África. Não sabemos exatamente onde ou quando animais que podem ser classificados como

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    Homo sapiens evoluíram pela primeira vez a partir algum tipo anterior de humano, mas a maioria dos cientistas concorda que há 150 mil anos a África Oriental estava povoada por sapiens que se pareciam exatamente como nós. Se um deles aparecesse em um necrotério moderno, o patologista local não notaria nada peculiar. Graças às bênçãos do fogo, eles tinham mandíbulas e dentes menores que seus ancestrais, ao passo que tinham cérebros enormes, iguais aos nossos em tamanho.

    Os cientistas também concordam que há cerca de 70 mil anos, sapiens da África Oriental se espalharam na península Arábica e de lá rapidamente tomaram o território da Eurásia.

    Quando o Homo sapiens chegou à Arábia, a maior parte da Eurásia já era ocupada por outros humanos. O que aconteceu com eles? Há duas teorias conflitantes. A “teoria da miscigenação” conta uma história de atração, sexo e miscigenação. À medida que os imigrantes africanos se espalharam pelo mundo, eles procriaram com outras populações humanas, e as pessoas, hoje, são resultado dessa miscigenação.

    Por exemplo, quando os sapiens chegaram ao Oriente Médio e à Europa, encontraram os neandertais. Esses humanos eram mais musculosos que os sapiens, tinham cérebro maior e eram mais bem adaptados a climas frios.

    Usavam ferramentas e fogo, eram caçadores exímios e, ao que parece, cuidavam dos doentes e debilitados (arqueólogos encontraram ossos de neandertais que viveram por muitos anos com várias deficiências físicas, indícios de que eram cuidados por seus parentes). Os neandertais muitas vezes são retratados em caricaturas como o arquetípico “homem das cavernas” bruto e estúpido, mas indícios recentes mudaram essa imagem.

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    3. Reconstrução especulativa de uma criança neandertal. As evidências genéticas indicam que pelo menos alguns neandertais podem ter tido pele e cabelo claros.

    De acordo com a teoria da miscigenação, quando o Homo sapiens se

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    espalhou por terras neandertais, os sapiens procriaram com neandertais até que as duas populações se fundiram. Se isso for verdade, então os eurasianos de hoje não são sapiens puros. São uma mistura de sapiens e neandertais. De forma semelhante, quando chegaram à Ásia Oriental, os sapiens se misturaram com os locais Homo erectus, de forma que os chineses e coreanos são uma mistura de sapiens e Homo erectus.

    A visão oposta, chamada de “teoria da substituição”, conta uma história muito diferente – uma história de incompatibilidade, repulsa e, talvez, até mesmo genocídio. Sapiens e neandertais tinham anatomias diferentes, e muito provavelmente hábitos de acasalamento e até mesmo odor corporal diferentes.

    Provavelmente tinham pouco interesse sexual uns pelos outros. Mesmo que um Romeu neandertal e uma Julieta sapiens se apaixonassem, não poderiam produzir descendentes férteis porque o abismo genético separando as duas populações já era intransponível. As duas populações teriam permanecido distintas, e quando os neandertais morreram, ou foram mortos, seus genes teriam morrido com eles.

    De acordo com essa teoria, sapiens substituíram todas as populações humanas anteriores sem se misturar com nenhuma delas. Nesse caso, a origem de todas as linhagens humanas existentes pode ser atribuída exclusivamente à África Oriental de 70 mil anos atrás.

    Muita coisa depende desse debate. De uma perspectiva evolutiva, 70 mil anos é um intervalo relativamente curto. Se a teoria da substituição estiver correta, todos os humanos existentes têm mais ou menos a mesma bagagem genética, e as distinções raciais entre eles são desprezíveis. Mas se a teoria da miscigenação estiver correta, pode muito bem haver entre africanos, europeus e asiáticos diferenças genéticas que remontam a centenas de milhares de anos atrás. Trata-se de uma dinamite política que poderia fornecer matéria-prima para teorias raciais explosivas.

    Nas últimas décadas, a teoria da substituição prevaleceu entre os cientistas.

    Tinha bases arqueológicas mais sólidas e era politicamente mais correta (os cientistas não tinham desejo algum de abrir a caixa de Pandora do racismo ao afirmar a existência de uma diversidade genética significativa entre as populações humanas modernas). Mas isso terminou em 2010, quando foram publicados os resultados de um esforço de quatro anos para mapear o genoma dos neandertais. Geneticistas conseguiram coletar DNA intacto de fósseis de

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    neandertais em quantidade suficiente para fazer uma comparação detalhada com o DNA de humanos contemporâneos Os resultados desconcertaram a comunidade científica.

    Revelou-se que de 1% a 4% do DNA das populações modernas no Oriente Médio e na Europa são DNA de neandertal. Não é uma grande quantidade, mas é significante. Um segundo choque veio meses depois, quando foi mapeado o DNA extraído do dedo fossilizado de Denisova. Os resultados comprovaram que até 6% do DNA humano dos melanésios e dos aborígenes australianos modernos são DNA denisovano!

    Se esses resultados forem válidos – e é importante ter em mente que estão sendo realizadas mais pesquisas que podem tanto corroborar quanto modificar essas conclusões –, os defensores da teoria da miscigenação acertaram em pelo menos alguns aspectos. Mas isso não significa que a teoria da substituição esteja completamente errada. Uma vez que os neandertais e os denisovanos contribuíram apenas com uma pequena proporção de DNA para nosso genoma atual, é impossível falar de uma “fusão” entre os sapiens e outras espécies humanas. Embora as diferenças entre elas não fossem grandes o suficiente para evitar completamente a geração de descendentes férteis, eram suficientes para fazer que tais contatos fossem muito raros.

    Sendo assim, como devemos entender as relações biológicas entre sapiens, neandertais e denisovanos? Claramente, não eram espécies completamente distintas, como são os cavalos e os jumentos. Por outro lado, não eram apenas populações diferentes da mesma espécie, como os buldogues e os spaniels. A realidade biológica não é em preto e branco. Há também áreas cinza importantes. Quaisquer duas espécies que tenham evoluído de um único ancestral, como os cavalos e os jumentos, foram, em algum momento, apenas duas populações da mesma espécie, como os buldogues e os spaniels. Com o tempo, as diferenças entre elas se acumularam, até que elas seguiram caminhos evolutivos separados. Deve ter havido um ponto em que as duas populações já eram bem diferentes uma da outra, mas ainda capazes, em raras ocasiões, de ter relações sexuais e gerar descendentes férteis. Então houve mutação em mais um ou dois genes, e esse último fio que as conectava se perdeu para sempre.

    Ao que parece, há cerca de 50 mil anos, sapiens, neandertais e denisovanos se encontravam nesse limite. Eram espécies quase separadas, mas não

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    totalmente. Como veremos no próximo capítulo, os sapiens já eram bem diferentes dos neandertais e dos denisovanos não só em seu código genético e em seus traços físicos, como também sua capacidade cognitiva e habilidades sociais.

    Mas ainda era igualmente possível, em raras ocasiões, que um sapiens e um neandertal tivessem um filho. Portanto, as populações não se fundiram – mas alguns genes sortudos de neandertais pegaram uma carona no Expresso Sapiens.

    É um tanto perturbador – e, talvez, fascinante – pensar que nós, sapiens, possamos em algum momento ter tido relações sexuais com um animal de uma espécie diferente e gerado descendentes.

    Mas se neandertais, denisovanos e outras espécies humanas não simplesmente se miscigenaram com os sapiens, por que desapareceram? Uma possibilidade é que o Homo sapiens as levou à extinção. Imagine um bando de sapiens chegando a um vale nos Bálcãs onde os neandertais viviam há centenas de milhares de anos. Os recém-chegados começaram a caçar os cervos e a colher as nozes e as bagas que eram tradicionalmente a base alimentar dos neandertais. Os sapiens eram melhores caçadores e coletores – graças à superioridade de sua tecnologia e de suas habilidades sociais –, de modo que se multiplicaram e se espalharam. Os neandertais, menos engenhosos, tinham cada vez mais dificuldade para se alimentar. Sua população definhou e pouco a pouco desapareceu, exceto, talvez, por um ou dois membros que se uniram a seus vizinhos sapiens.

    Outra possibilidade é que a competição por recursos tenha irrompido em violência e genocídio. A tolerância não é uma marca registrada dos sapiens. Nos tempos modernos, uma pequena diferença em cor de pele, dialeto ou religião tem sido suficiente para levar um grupo de sapiens a tentar exterminar outro grupo. Os sapiens antigos teriam sido mais tolerantes para com uma espécie humana totalmente diferente? É bem possível que, quando os sapiens encontraram os neandertais, o resultado tenha sido a primeira e mais significativa campanha de limpeza étnica na história.

    O que quer que tenha acontecido, os neandertais (e outras espécies humanas) apresentam um dos grandes “e ses” da história. Imagine o que poderia ter acontecido se os neandertais ou denisovanos tivessem sobrevivido ao lado do Homo sapiens. Que tipos de cultura, sociedade e estrutura política teriam surgido em um mundo em que várias espécies humanas diferentes coexistissem? Como,

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    por exemplo, as fés religiosas teriam se desenvolvido? O livro do Gênesis teria declarado que os neandertais descenderam de Adão e Eva, Jesus teria morrido pelos pecados dos denisovanos, e o Corão teria reservado lugares no Paraíso para todos os humanos corretos, independentemente da espécie? Os neandertais teriam recebido um lugar no sistema de castas hindu, ou na vasta burocracia da China imperial? A Declaração da Independência dos Estados Unidos teria considerado como uma verdade evidente que todos os membros do gênero Homo foram criados iguais? Karl Marx teria instado os trabalhadores de todas as espécies a se unirem?

    Nos últimos 10 mil anos, o Homo sapiens esteve tão acostumado a ser a única espécie humana que é difícil para nós concebermos qualquer outra possibilidade. A ausência de irmãos ou irmãs torna fácil imaginar que somos o epítome da criação e que um cisma nos separa do resto do reino animal. Quando Charles Darwin sugeriu que o Homo sapiens era apenas mais uma espécie animal, as pessoas ficaram furiosas. Ainda hoje, muitos se recusam a acreditar nisso. Se os neandertais tivessem sobrevivido, ainda conceberíamos a nós mesmos como uma criatura distinta? Talvez tenha sido exatamente por isso que nossos ancestrais eliminaram os neandertais. Eles eram similares demais para se ignorar, mas diferentes demais para se tolerar.

    Se a culpa é dos sapiens ou não, o fato é que, tão logo eles chegavam a um novo local, a população nativa era extinta. Os últimos remanescentes do Homo soloensis datam de cerca de 50 mil anos atrás. O Homo denisova desapareceu logo depois. Os neandertais sumiram há cerca de 30 mil anos. Os últimos humanos diminutos desapareceram da ilha de Flores há aproximadamente 12 mil anos. Deixaram para trás alguns ossos, ferramentas de pedra, uns poucos genes em nosso DNA e uma porção de perguntas sem resposta. Também deixaram a nós, Homo sapiens, a última espécie humana.

    Qual o segredo do sucesso dos sapiens? Como conseguimos nos instalar tão rapidamente em tantos habitats distantes e tão diversos em termos ecológicos?

    Como condenamos todas as outras espécies humanas ao esquecimento? Por que nem mesmo os neandertais, fortes, de cérebro grande e resistentes ao frio, conseguiram sobreviver a nosso ataque violento? O debate continua a se alastrar.

    A resposta mais provável é propriamente aquilo que torna o debate possível: o Homo sapiens conquistou o mundo, acima de tudo, graças à sua linguagem única.

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    2. A árvore do conhecimento

    A árvore do conhecimento NO CAPÍTULO ANTERIOR VIMOS QUE EMBORA OS SAPIENS JÁ HABITASSEM A África Oriental há 150 mil anos, apenas por volta de 70 mil anos atrás eles começaram a dominar o resto do planeta Terra e levar as demais espécies humanas à extinção. Nos milhares de anos desse período, embora esses sapiens arcaicos se parecessem exatamente conosco e embora seu cérebro fosse tão grande quanto o nosso, eles não gozavam de qualquer vantagem notável sobre outras espécies humanas, não produziam ferramentas particularmente sofisticadas e não realizavam nenhum outro feito especial.

    De fato, no primeiro encontro registrado entre sapiens e neandertais, os neandertais levaram a melhor. Por volta de 100 mil anos atrás, alguns grupos de sapiens migraram para o Levante – que era território neandertal –, mas foram incapazes de garantir sua sobrevivência. Isso pode ter se devido à crueldade dos nativos, a um clima inclemente ou à presença de parasitas com os quais não estavam familiarizados. Qualquer que seja o motivo, os sapiens acabaram por se retirar, deixando os neandertais como senhores do Oriente Médio.

    Esse registro escasso de conquistas levou especialistas a especularem que a estrutura interna do cérebro desses sapiens provavelmente era diferente da nossa.

    Eles se pareciam conosco, mas suas capacidades cognitivas – aprendizado, memória, comunicação – eram muito mais limitadas. Ensinar português a um desses sapiens antigos, persuadi-lo da verdade do dogma cristão ou fazê-lo entender a teoria da evolução provavelmente teriam sido tarefas infrutíferas. Por outro lado, teríamos muita dificuldade para aprender sua linguagem e compreender seu modo de pensar.

    Mas então, a partir de 70 mil anos atrás, o Homo sapiens começou a fazer coisas muito especiais. Nessa época, bandos de sapiens deixaram a África pela segunda vez. Dessa vez, eles expulsaram os neandertais e todas as outras espécies humanas não só do Oriente Médio como também da face da Terra. Em um período incrivelmente curto, os sapiens chegaram à Europa e ao leste da Ásia.

    Há aproximadamente 45 mil anos, conseguiram atravessar o mar aberto e chegaram à Austrália – um continente até então intocado por humanos. O período de 70 mil anos atrás a 30 mil anos atrás testemunhou a invenção de

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    barcos, lâmpadas a óleo, arcos e flechas e agulhas (essenciais para costurar roupas quentes). Os primeiros objetos que podem ser chamados de arte e joalheria datam dessa era, assim como os primeiros indícios incontestáveis de religião, comércio e estratificação social.

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    4. Estatueta em marfim de um “homem-leão” (ou “mulher-leoa”) da caverna de

    Stadel, na Alemanha (c. 32 mil anos atrás). O corpo é humano, mas a cabeça é leonina. Este é um dos primeiros exemplos indiscutíveis de arte, e provavelmente de religião e da capacidade da mente humana de imaginar coisas que não existem de fato.

    A maioria dos pesquisadores acredita que essas conquistas sem precedentes foram produto de uma revolução nas habilidades cognitivas dos sapiens. Eles sustentam que os indivíduos que levaram os neandertais à extinção, que se instalaram na Austrália e que esculpiram o homem-leão de Stadel eram tão inteligentes, criativos e sensíveis como nós. Se nos deparássemos com os artistas da caverna de Stadel, poderíamos aprender a língua deles, e eles, a nossa.

    Seríamos capazes de lhes explicar tudo que conhecemos – das aventuras de Alice no País das Maravilhas aos paradoxos da física quântica – e eles poderiam nos ensinar como seu povo concebia o mundo.

    O surgimento de novas formas de pensar e se comunicar, entre 70 mil anos atrás a 30 mil anos atrás, constitui a Revolução Cognitiva. O que a causou? Não sabemos ao certo. A teoria mais aceita afirma que mutações genéticas acidentais mudaram as conexões internas do cérebro dos sapiens, possibilitando que pensassem de uma maneira sem precedentes e se comunicassem usando um tipo de linguagem totalmente novo. Poderíamos chamá-las de mutações da árvore do conhecimento. Por que ocorreram no DNA do sapiens e não no DNA dos neandertais? Até onde pudemos verificar, foi uma questão de puro acaso. Mas é mais importante entender as consequências das mutações da árvore do conhecimento do que suas causas. O que havia de tão especial na nova linguagem dos sapiens que nos permitiu conquistar o mundo?[1] Essa não foi a primeira linguagem. Todos os animais têm alguma forma de linguagem. Até mesmo os insetos, como abelhas e formigas, sabem se comunicar de maneiras sofisticadas, informando uns aos outros sobre o paradeiro de alimentos. Tampouco foi a primeira linguagem vocal. Muitos animais, incluindo todas as espécies de macaco, têm uma linguagem vocal. Por exemplo, macacos-verdes usam gritos de vários tipos para se comunicar. Os zoólogos identificaram um grito que significa: “Cuidado! Uma águia!”. Um grito um pouco diferente alerta: “Cuidado! Um leão!”. Quando os pesquisadores reproduziram uma gravação do primeiro grito para um grupo de macacos, estes

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    pararam o que estavam fazendo e olharam para cima assustados. Ao ouvir uma gravação do segundo grito, o aviso do leão, o grupo subiu rapidamente em uma árvore. Os sapiens podem produzir muitos mais sons do que os macacos-verdes, mas as baleias e os elefantes têm habilidades igualmente impressionantes. Um papagaio pode dizer qualquer coisa proferida por Albert Einstein, além de imitar o som de telefones chamando, portas batendo e sirenes tocando. Qualquer que fosse a vantagem de Einstein sobre um papagaio, não era vocal. O que, então, há de tão especial em nossa linguagem?

    A resposta mais comum é que nossa linguagem é incrivelmente versátil.

    Podemos conectar uma série limitada de sons e sinais para produzir um número infinito de frases, cada uma delas com um significado diferente. Podemos, assim, consumir, armazenar e comunicar uma quantidade extraordinária de informação sobre o mundo à nossa volta. Um macaco-verde pode gritar para seus camaradas: “Cuidado! Um leão!”, mas um humano moderno pode dizer aos amigos que esta manhã, perto da curva do rio, ele viu um leão atrás de um rebanho de bisões. Pode então descrever a localização exata, incluindo os diferentes caminhos que levam à área em questão. Com essas informações, os membros do seu bando podem pensar juntos e discutir se devem se aproximar do rio, expulsar o leão e caçar os bisões.

    Uma segunda teoria concorda que nossa linguagem singular evoluiu como um meio de partilhar informações sobre o mundo. Mas as informações mais importantes que precisavam ser comunicadas eram sobre humanos, e não sobre leões e bisões. Nossa linguagem evoluiu como uma forma de fofoca. De acordo com essa teoria, o Homo sapiens é antes de mais nada um animal social. A cooperação social é essencial para a sobrevivência e a reprodução. Não é suficiente que homens e mulheres conheçam o paradeiro de leões e bisões. É muito mais importante para eles saber quem em seu bando odeia quem, quem está dormindo com quem, quem é honesto e quem é trapaceiro.

    A quantidade de informações que é preciso obter e armazenar a fim de rastrear as relações sempre cambiantes até mesmo de umas poucas dezenas de indivíduos é assombrosa. (Em um bando de cinquenta indivíduos, há 1.225 relações de um para um, e incontáveis combinações sociais mais complexas.) Todos os macacos mostram um ávido interesse por tais informações sociais, mas eles têm dificuldade para fofocar de fato. Os neandertais e os Homo sapiens

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    arcaicos provavelmente também tiveram dificuldade para falar pelas costas uns dos outros – uma habilidade muito difamada que, na verdade, é essencial para a cooperação em grande número. As novas habilidades linguísticas que os sapiens modernos adquiriram há cerca de 70 milênios permitiram que fofocassem por horas a fio. Graças a informações precisas sobre quem era digno de confiança, pequenos grupos puderam se expandir para bandos maiores, e os sapiens puderam desenvolver tipos de cooperação mais sólidos e mais sofisticados.1 A teoria da fofoca pode parecer uma piada, mas vários estudos a corroboram. Ainda hoje, a maior parte da comunicação humana – seja na forma de e-mails, telefonemas ou colunas nos jornais – é fofoca. É tão natural para nós que é como se nossa linguagem tivesse evoluído exatamente com esse propósito. Você acha que quando almoçam juntos professores de história conversam sobre as causas da Primeira Guerra Mundial, ou que físicos nucleares passam o intervalo do café em conferências científicas falando sobre partículas subatômicas? Às vezes. Mas com muito mais frequência eles fofocam sobre a professora que flagrou o marido com outra, ou sobre a briga entre o chefe do departamento e o reitor, ou sobre os rumores de que um colega usou sua verba de pesquisa para comprar um Lexus. A fofoca normalmente gira em torno de comportamentos inadequados. Os que fomentam os rumores são o quarto poder original, jornalistas que informam a sociedade sobre trapaceiros e aproveitadores e, desse modo, a protegem.

    Muito provavelmente, tanto a teoria da fofoca quanto a teoria do leão perto do rio são válidas. Mas a característica verdadeiramente única da nossa linguagem não é sua capacidade de transmitir informações sobre homens e leões. É a capacidade de transmitir informações sobre coisas que não existem. Até onde sabemos, só os sapiens podem falar sobre tipos e mais tipos de entidades que nunca viram, tocaram ou cheiraram.

    Lendas, mitos, deuses e religiões apareceram pela primeira vez com a Revolução Cognitiva. Antes disso, muitas espécies animais e humanas foram capazes de dizer: “Cuidado! Um leão!”. Graças à Revolução Cognitiva, o Homo sapiens adquiriu a capacidade de dizer: “O leão é o espírito guardião da nossa tribo”. Essa capacidade de falar sobre ficções é a característica mais singular da linguagem dos sapiens.

    É relativamente fácil concordar que só o Homo sapiens pode falar sobre

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    coisas que não existem de fato e acreditar em meia dúzia de coisas impossíveis antes do café da manhã. Você nunca convencerá um macaco a lhe dar uma banana prometendo a ele bananas ilimitadas após a morte no céu dos macacos.

    Mas isso é tão importante? Afinal, a ficção pode ser perigosamente enganosa ou confusa. As pessoas que vão à floresta à procura de fadas e unicórnios parecem ter uma chance menor de sobrevivência do que as que vão à procura de cogumelos e cervos. E, se você passa horas rezando para espíritos guardiães inexistentes, não está perdendo um tempo precioso, tempo que seria mais bem utilizado procurando comida, guerreando e copulando?

    Mas a ficção nos permitiu não só imaginar coisas como também fazer isso coletivamente. Podemos tecer mitos partilhados, tais como a história bíblica da criação, os mitos do Tempo do Sonho dos aborígenes australianos e os mitos nacionalistas dos Estados modernos. Tais mitos dão aos sapiens a capacidade sem precedentes de cooperar de modo versátil em grande número. Formigas e abelhas também podem trabalhar juntas em grande número, mas elas o fazem de maneira um tanto rígida, e apenas com parentes próximos. Lobos e chimpanzés cooperam de forma muito mais versátil do que formigas, mas só o fazem com um pequeno número de outros indivíduos que eles conhecem intimamente. Os sapiens podem cooperar de maneiras extremamente flexíveis com um número incontável de estranhos. É por isso que os sapiens governam o mundo, ao passo que as formigas comem nossos restos e os chimpanzés estão trancados em zoológicos e laboratórios de pesquisa.

    A lenda da Peugeot

    Nossos primos chimpanzés normalmente vivem em pequenos bandos de várias dezenas de indivíduos. Eles formam fortes laços de amizade, caçam juntos e lutam lado a lado contra babuínos, guepardos e chimpanzés inimigos. Sua estrutura social tende a ser hierárquica. O membro dominante, que quase sempre é um macho, é denominado “macho alfa”. Outros machos e fêmeas demonstram sua submissão ao macho alfa curvando-se diante dele enquanto emitem grunhidos, de modo não muito diferente de súditos humanos se ajoelhando diante de um rei. O macho alfa se esforça para manter a harmonia social em seu bando. Quando dois indivíduos brigam, ele intervém e impede a

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    violência. Em uma atitude menos benevolente, ele pode monopolizar alimentos particularmente cobiçados e evitar que machos de postos inferiores na hierarquia acasalem com as fêmeas.

    Quando dois machos estão disputando a posição de alfa, eles normalmente fazem isso formando grandes coalizões de apoiadores, tanto machos quanto fêmeas, dentro do grupo. Os laços entre os membros da coalizão se baseiam em contato íntimo diário – abraçar, tocar, beijar, alisar e fazer favores mútuos.

    Assim como os políticos humanos em campanha eleitoral saem por aí distribuindo apertos de mão e beijando bebês, também os aspirantes à posição superior em um grupo de chimpanzés passam muito tempo abraçando, dando tapinhas nas costas e beijando filhotes. O macho alfa normalmente conquista essa posição não porque seja fisicamente mais forte, mas porque lidera uma coalizão grande e estável. Essas coalizões exercem um papel central não só durante as lutas pela posição de alfa como também em quase todas as atividades cotidianas. Membros de uma mesma coalizão passam mais tempo juntos, partilham alimentos e ajudam uns aos outros em momentos de dificuldade.

    Há limites claros ao tamanho dos grupos que podem ser formados e mantidos de tal forma. Para funcionar, todos os membros de um grupo devem conhecer uns aos outros intimamente. Dois chimpanzés que nunca se encontraram, nunca lutaram e nunca se alisaram mutuamente não saberão se podem confiar um no outro, se valerá a pena ajudar um ao outro nem qual deles é superior na hierarquia. Em condições normais, um típico bando de chimpanzés consiste de 20 a 50 indivíduos. À medida que o número em um bando de chimpanzés aumenta, a ordem social se desestabiliza, levando enfim à ruptura e à formação de um novo bando por alguns dos animais. Apenas em alguns casos os zoólogos observaram grupos maiores que cem. Grupos separados raramente cooperam e tendem a competir por território e por alimentos. Os pesquisadores documentaram guerras prolongadas entre grupos, e até mesmo um caso de atividade “genocida” em que um bando assassinou sistematicamente a maioria dos membros de um bando vizinho.2 Padrões similares provavelmente dominaram a vida social dos primeiros humanos, incluindo o Homo sapiens arcaico. Os humanos, como os chimpanzés, têm instintos sociais que possibilitaram aos nossos ancestrais construir amizades e hierarquias e caçar ou lutar juntos. No entanto, como os instintos sociais dos

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    chimpanzés, os dos humanos só eram adaptados para pequenos grupos íntimos.

    Quando o grupo ficava grande demais, sua ordem social se desestabilizava, e o bando se dividia. Mesmo se um vale particularmente fértil pudesse alimentar 500 sapiens arcaicos, não havia jeito de tantos estranhos conseguirem viver juntos.

    Como poderiam concordar sobre quem deveria ser o líder, quem deveria caçar onde, ou quem deveria acasalar com quem?

    Após a Revolução Cognitiva, a fofoca ajudou o Homo sapiens a formar bandos maiores e mais estáveis. Mas até mesmo a fofoca tem seus limites.

    Pesquisas sociológicas demonstraram que o tamanho máximo “natural” de um grupo unido por fofoca é de cerca de 150 indivíduos. A maioria das pessoas não consegue nem conhecer intimamente, nem fofocar efetivamente sobre mais de 150 seres humanos.

    Ainda hoje, um limite crítico nas organizações humanas fica próximo desse número mágico. Abaixo desse limite, comunidades, negócios, redes sociais e unidades militares conseguem se manter principalmente com base em relações íntimas e no fomento de rumores. Não há necessidade de hierarquias formais, títulos e livros de direito para manter a ordem.3 Um pelotão de 30 soldados ou mesmo uma companhia de cem soldados podem funcionar muito bem com base em relações íntimas, com um mínimo de disciplina formal. Um sargento respeitado pode se tornar “rei da companhia” e exercer autoridade até mesmo sobre oficiais de patente. Um pequeno negócio familiar pode sobreviver e florescer sem uma diretoria, um CEO ou um departamento de contabilidade.

    Mas, quando o limite de 150 indivíduos é ultrapassado, as coisas já não podem funcionar dessa maneira. Não é possível comandar uma divisão com milhares de soldados da mesma forma que se comanda um pelotão. Negócios familiares de sucesso normalmente enfrentam uma crise quando crescem e contratam mais funcionários. Se não forem capazes de se reinventar, acabam falindo.

    Como o Homo sapiens conseguiu ultrapassar esse limite crítico, fundando cidades com dezenas de milhares de habitantes e impérios que governam centenas de milhões? O segredo foi provavelmente o surgimento da ficção. Um grande número de estranhos pode cooperar de maneira eficaz se acreditar nos mesmos mitos.

    Toda cooperação humana em grande escala – seja um Estado moderno,

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    uma igreja medieval, uma cidade antiga ou uma tribo arcaica – se baseia em mitos partilhados que só existem na imaginação coletiva das pessoas. As igrejas se baseiam em mitos religiosos partilhados. Dois católicos que nunca se conheceram podem, no entanto, lutar juntos em uma cruzada ou levantar fundos para construir um hospital porque ambos acreditam que Deus encarnou em um corpo humano e foi crucificado para redimir nossos pecados. Os Estados se baseiam em mitos nacionais partilhados. Dois sérvios que nunca se conheceram podem arriscar a vida para salvar um ao outro porque ambos acreditam na existência da nação sérvia, da terra natal sérvia e da bandeira sérvia. Sistemas judiciais se baseiam em mitos jurídicos partilhados. Dois advogados que nunca se conheceram podem unir esforços para defender um completo estranho porque acreditam na existência de leis, justiça e direitos humanos – e no dinheiro dos honorários.

    Mas nenhuma dessas coisas existe fora das histórias que as pessoas inventam e contam umas às outras. Não há deuses no universo, nem nações, nem dinheiro, nem direitos humanos, nem leis, nem justiça fora da imaginação coletiva dos seres humanos.

    As pessoas entendem facilmente que os “primitivos” consolidam sua ordem social acreditando em deuses e espíritos e se reunindo a cada lua cheia para dançar juntos em volta da fogueira. Mas não conseguimos avaliar que nossas instituições modernas funcionam exatamente sobre a mesma base.

    Considere, por exemplo, o mundo das corporações. Os executivos e advogados modernos são, de fato, feiticeiros poderosos. A principal diferença entre eles e os xamãs tribais é que os advogados modernos contam histórias muito mais estranhas. A lenda da Peugeot nos fornece um bom exemplo.

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    5. O leão da Peugeot

    Um ícone que lembra um pouco o homem-leão de Stadel aparece hoje em carros, caminhões e motocicletas de Paris a Sydney. É o ornamento que adorna o capô dos veículos fabricados pela Peugeot, uma das maiores e mais antigas fabricantes de carros da Europa. A Peugeot começou como um negócio familiar no vilarejo de Valentigney, a apenas 300 quilômetros da caverna de Stadel. Hoje a empresa emprega cerca de 200 mil pessoas em todo o mundo, a maioria delas completamente estranhas umas às outras. Esses estranhos cooperam de maneira tão eficaz que em 2008 a Peugeot produziu mais de 1,5 milhão de automóveis, gerando uma receita de aproximadamente 55 bilhões de euros.

    Em que sentido podemos afirmar que a Peugeot SA (nome oficial da empresa) existe? Há muitos veículos da Peugeot, mas estes obviamente não são a empresa.

    Mesmo que todos os Peugeot no mundo fossem descartados ao mesmo tempo e vendidos para o ferro-velho, a Peugeot SA não desapareceria. Continuaria a fabricar novos carros e a publicar seu relatório anual. A empresa tem fábricas, maquinário e showrooms e emprega mecânicos, contadores e secretárias, mas tudo isso junto não constitui a Peugeot. Um desastre poderia matar cada um dos empregados da Peugeot e destruir todas as suas linhas de montagem e todos os seus escritórios executivos. Mesmo assim, a empresa poderia obter empréstimos,

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    contratar novos empregados, construir novas fábricas e comprar novo maquinário. A Peugeot tem gestores e acionistas, mas eles também não constituem a empresa. Todos os gestores poderiam ser demitidos e todas as suas ações, vendidas; mas a empresa propriamente dita permaneceria intacta.

    Isso não significa que a Peugeot SA seja invulnerável ou imortal. Se um juiz ordenasse a dissolução da empresa, suas fábricas permaneceriam de pé e seus trabalhadores, contadores, gestores e acionistas continuariam a viver – mas a Peugeot SA desapareceria imediatamente. Em suma, a Peugeot SA parece não ter conexão alguma com o mundo físico. Ela existe de fato?

    A Peugeot é um produto da nossa imaginação coletiva. Os advogados chamam isso de “ficção jurídica”. Não pode ser sinalizada; não é um objeto físico. Mas existe como entidade jurídica. Como você ou eu, está submetida às leis dos países em que opera. Pode abrir uma conta bancária e ter propriedades.

    Paga impostos e pode ser processada, até mesmo separadamente de qualquer um de seus donos ou das pessoas que trabalham para ela.

    A Peugeot pertence a um gênero particular de ficção jurídica chamado “empresas de responsabilidade limitada”. A ideia por trás de tais empresas está entre as invenções mais engenhosas da humanidade. O Homo sapiens viveu sem elas por milênios. Durante a maior parte da história de que se tem registro, a propriedade só poderia pertencer a seres humanos de carne e osso, do tipo que anda sobre duas pernas e tem cérebro grande. Se na França do século XIII Jean abrisse uma oficina para fabricar vagões, ele próprio seria o negócio. Se um vagão por ele fabricado parasse de funcionar uma semana após a compra, o comprador insatisfeito processaria Jean pessoalmente. Se Jean tomasse emprestadas mil moedas de ouro para abrir sua oficina e o negócio falisse, ele teria de pagar o empréstimo vendendo sua propriedade privada – sua casa, sua vaca, sua terra. Talvez até precisasse vender seus filhos como escravos. Se não pudesse honrar a dívida, poderia ser jogado na prisão pelo Estado ou ser escravizado por seus credores. Ele era totalmente responsável, de maneira ilimitada, por todas as obrigações assumidas por sua oficina.

    Se tivesse vivido naquela época, você provavelmente pensaria duas vezes antes de abrir um negócio próprio. E, com efeito, essa situação jurídica desencorajava o empreendedorismo. As pessoas tinham medo de começar novos negócios e assumir riscos econômicos. Dificilmente parecia valer a pena

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    correr o risco de sua família acabar totalmente destituída.

    Foi por isso que as pessoas começaram a imaginar coletivamente a existência de empresas de responsabilidade limitada. Tais empresas eram legalmente independentes das pessoas que as fundavam, ou investiam dinheiro nelas, ou as gerenciavam. Ao longo dos últimos séculos, essas empresas se tornaram os principais agentes na esfera econômica, e estamos tão acostumados a elas que nos esquecemos de que existem apenas na nossa imaginação. Nos Estados Unidos, o termo técnico para uma empresa de responsabilidade limitada é “corporação”, o que é irônico, porque o termo deriva de “corpus” (“corpo” em latim) – exatamente aquilo de que as corporações carecem. Apesar de não ter um corpo real, o sistema jurídico norte-americano trata as corporações como pessoas jurídicas, como se fossem seres humanos de carne e osso.

    Também foi isso o que fez o sistema jurídico francês em 1896, quando Armand Peugeot, que herdara de seus pais uma oficina de fundição de metal que fabricava molas, serrotes e bicicletas, decidiu entrar no ramo de automóveis.

    Para isso, ele criou uma empresa de responsabilidade limitada. Batizou a empresa com seu nome, mas ela era independente dele. Se um dos carros quebrasse, o comprador poderia processar a Peugeot, e não Armand Peugeot. Se a empresa tomasse emprestados milhões de francos e então falisse, Armand Peugeot não deveria a seus credores um único franco. O empréstimo, afinal, fora concedido à Peugeot, a empresa, e não a Armand Peugeot, o Homo sapiens.

    Armand Peugeot morreu em 1915. A Peugeot, a empresa, continua firme e forte.

    Como exatamente Armand Peugeot, o homem, criou a Peugeot, a empresa? Praticamente da mesma forma como os padres e os feiticeiros criaram deuses e demônios ao longo da história e como milhares de padres católicos franceses continuaram recriando o corpo de Cristo todo domingo nas igrejas da paróquia. Tudo se resumia a contar histórias e convencer as pessoas a acreditarem nelas. No caso dos padres franceses, a história crucial foi a da vida e morte de Cristo tal como contada pela Igreja Católica. De acordo com essa história, se um padre católico usando suas vestes sagradas pronunciasse solenemente as palavras certas no momento certo, o pão e o vinho mundano se transformariam na carne e no sangue de Deus. O padre exclamava: “Hoc est corpus meum!” (“Este é meu corpo” em latim) e abracadabra! – o pão se

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    transformava no corpo de Cristo. Vendo que o padre havia observado assiduamente todos os procedimentos, milhões de católicos franceses devotos se comportavam como se Deus de fato existisse no pão e no vinho consagrados.

    No caso da Peugeot SA, a história crucial foi o código jurídico francês, tal como redigido pelo parlamento francês. De acordo com os legisladores franceses, se um advogado certificado seguisse todos os rituais e liturgias adequados, escrevesse todos os discursos e juramentos requeridos em um pedaço de papel maravilhosamente decorado e afixasse sua assinatura ornamentada ao pé do documento, abracadabra! – uma nova empresa era incorporada. Quando, em 1896, Armand Peugeot quis criar sua empresa, ele pagou para que um advogado fizesse todos esses procedimentos sagrados. Uma vez que o advogado tivesse desempenhado todos os rituais corretos e pronunciado todos os discursos e juramentos necessários, milhões de cidadãos franceses honrados se comportaram como se a empresa Peugeot realmente existisse.

    Contar histórias eficazes não é fácil. A dificuldade está não em contar a história, mas em convencer todos os demais a acreditarem nela. Grande parte da nossa história gira em torno desta questão: como convencer milhões de pessoas a acreditarem em histórias específicas sobre deuses, ou nações, ou empresas de responsabilidade limitada? Mas, quando isso funciona, dá aos sapiens poder imenso, porque possibilita que milhões de estranhos cooperem para objetivos em comum. Tente imaginar o quão difícil teria sido criar Estados, ou igrejas, ou sistemas jurídicos se só fôssemos capazes de falar sobre coisas que realmente existem, como rios, árvores e leões.

    Com o passar dos anos, as pessoas teceram uma rede incrivelmente complexa de histórias. Nessa rede, ficções como a da Peugeot não só existem como acumulam enorme poder. Têm mais poder do que qualquer leão ou bando de leões.

    Os tipos de coisa que as pessoas criam por meio dessa rede de histórias são conhecidos nos meios acadêmicos como “ficções”, “construtos sociais” ou “realidades imaginadas”. Uma realidade imaginada não é uma mentira. Eu minto se digo que há um leão perto do rio quando sei perfeitamente que não há leão algum. Não há nada de especial nas mentiras. Macacos-verdes e chimpanzés podem mentir. Já se observou, por exemplo, um macaco-verde gritando “Cuidado! Um leão!” quando não havia leão algum por perto.

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    Convenientemente, esse alarme falso afastava outro macaco que tinha acabado de encontrar uma banana, abrindo caminho para que o mentiroso roubasse o prêmio para si.

    Ao contrário da mentira, uma realidade imaginada é algo em que todo mundo acredita e, enquanto essa crença partilhada persiste, a realidade imaginada exerce influência no mundo. O escultor da caverna de Stadel pode ter acreditado sinceramente na existência do espírito guardião do homem-leão.

    Alguns feiticeiros são charlatães, mas a maioria acredita sinceramente na existência de deuses e demônios. A maioria dos milionários acredita sinceramente na existência do dinheiro e das empresas de responsabilidade limitada. A maioria dos ativistas dos direitos humanos acredita sinceramente na existência de direitos humanos. Ninguém estava mentindo quando, em 2011, a ONU exigiu que o governo líbio respeitasse os direitos humanos de seus cidadãos, embora a ONU, a Líbia e os direitos humanos sejam todos produtos de nossa fértil imaginação.

    Desde a Revolução Cognitiva, os sapiens vivem, portanto, em uma realidade dual. Por um lado, a realidade objetiva dos rios, das árvores e dos leões; por outro, a realidade imaginada de deuses, nações e corporações. Com o passar do tempo, a realidade imaginada se tornou ainda mais poderosa, de modo que hoje a própria sobrevivência de rios, árvores e leões depende da graça de entidades imaginadas, tais como deuses, nações e corporações.

    Superando o genoma

    A capacidade de criar uma realidade imaginada com palavras possibilitou que um grande número de estranhos coopere de maneira eficaz. Mas também fez algo mais. Uma vez que a cooperação humana em grande escala é baseada em mitos, a maneira como as pessoas cooperam pode ser alterada modificando-se os mitos – contando-se histórias diferentes. Nas circunstâncias adequadas, os mitos podem mudar muito depressa. Em 1789, a população francesa, quase da noite para o dia, deixou de acreditar no mito do direito divino dos reis e passou a acreditar no mito da soberania do povo. Em consequência, desde a Revolução Cognitiva o Homo sapiens tem sido capaz de revisar seu comportamento rapidamente de acordo com necessidades em constante transformação. Isso

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    abriu uma via expressa de evolução cultural, contornando os engarrafamentos da evolução genética. Acelerando por essa via expressa, o Homo sapiens logo ultrapassou todas as outras espécies humanas em sua capacidade de cooperar.

    O comportamento de outros animais sociais é determinado em grande medida por seus genes. O DNA não é um autocrata. O comportamento animal também é influenciado por fatores ambientais e por peculiaridades individuais.

    No entanto, em um ambiente estável, animais da mesma espécie tendem a se comportar de maneira similar. Em geral, mudanças significativas no comportamento social não podem ocorrer sem mutações genéticas. Por exemplo, os chimpanzés comuns têm uma tendência genética a viver em grupos hierárquicos liderados por um macho alfa. Membros de uma espécie de chimpanzé muito próxima, os bonobos, normalmente vivem em grupos mais igualitários dominados por alianças femininas. As fêmeas dos chimpanzés comuns não podem aprender com suas parentes bonobos e conduzir uma revolução feminista. Os chimpanzés machos não podem se reunir em uma assembleia constituinte para abolir o cargo do macho alfa e declarar que de agora em diante todos os chimpanzés devem ser tratados como iguais. Tais mudanças drásticas de comportamento só ocorreriam se algo mudasse no DNA dos chimpanzés.

    Por razões similares, os humanos arcaicos não iniciavam revoluções. Até onde sabemos, as mudanças nos padrões sociais, a invenção de novas tecnologias e a consolidação de novos hábitos decorreram mais de mutações genéticas e pressões ambientais do que de iniciativas culturais. É por isso que levou centenas de milhares de anos para os humanos darem esses passos. Há 2 milhões de anos, mutações genéticas resultaram no surgimento de uma nova espécie humana chamada Homo erectus. Seu surgimento foi acompanhado pelo desenvolvimento de uma nova tecnologia de ferramentas de pedra, hoje reconhecida como uma característica decisiva dessa espécie. Enquanto o Homo erectus não passou por novas alterações genéticas, suas ferramentas de pedra continuaram mais ou menos as mesmas – por quase 2 milhões de anos!

    Por sua vez, desde a Revolução Cognitiva, os sapiens têm sido capazes de mudar seu comportamento rapidamente, transmitindo novos comportamentos a gerações futuras sem necessidade de qualquer mudança genética ou ambiental.

    Por exemplo, considere o advento repetido de elites sem filhos, como a classe

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    sacerdotal católica, as ordens monásticas budistas e as burocracias eunucas chinesas. A existência de tais elites vai contra os princípios mais fundamentais da seleção natural, já que esses membros dominantes da sociedade deliberadamente abrem mão da procriação. Enquanto, entre os chimpanzés, os machos alfa usam seu poder para ter relações sexuais com tantas fêmeas quanto possível – e, consequentemente, gerar uma grande proporção dos filhotes do grupo –, os machos alfa católicos se abstêm completamente das relações sexuais e dos cuidados dos filhos. Essa abstinência não resulta de condições ambientais singulares, tais como a carência severa de alimentos ou de parceiros em potencial. Tampouco é resultado de alguma mutação genética peculiar. A Igreja Católica sobreviveu por séculos não por transmitir um “gene do celibato” de um papa ao seguinte, mas por transmitir as histórias do Novo Testamento e do direito canônico católico.

    Em outras palavras, enquanto os padrões de comportamento dos humanos arcaicos permaneceram inalterados por dezenas de milhares de anos, os sapiens conseguem transformar suas estruturas sociais, a natureza de suas relações interpessoais, suas atividades econômicas e uma série de outros comportamentos no intervalo de uma ou duas décadas. Considere uma habitante de Berlim nascida em 1900 e vivendo longevos cem anos. Ela passou a infância no Império Hohenzollern de Guilherme II; seus anos adultos na República de Weimar, no Terceiro Reich nazista e na Alemanha Oriental comunista; e morreu cidadã de uma Alemanha democrática reunificada. Conseguiu ser parte de cinco sistemas sociopolíticos muito diferentes, embora seu DNA tenha permanecido exatamente o mesmo.

    Isso foi essencial para o sucesso dos sapiens. Em uma briga de um para um, provavelmente um neandertal teria derrotado um sapiens. Mas em um conflito de centenas, os neandertais não teriam uma chance sequer. Os neandertais podiam partilhar informações sobre o paradeiro de leões, mas provavelmente não podiam contar – e revisar – histórias sobre espíritos tribais.

    Sem a capacidade de criar ficção, os neandertais não conseguiam cooperar efetivamente em grande número nem adaptar seu ambiente social para responder aos desafios em rápida transformação.

    Embora não possamos adentrar a mente de um neandertal para entender como eles pensavam, temos indícios indiretos dos limites de sua capacidade

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    cognitiva em comparação com seus rivais sapiens. Ao escavar sítios habitados por sapiens há 30 mil anos no interior do continente europeu, os arqueólogos ocasionalmente encontram conchas da costa mediterrânea e da costa atlântica. É muito provável que essas conchas tenham chegado ao interior do continente por meio de escambo a longa distância entre diferentes bandos de sapiens. Os sítios de neandertais não têm indícios de tal escambo. Cada grupo fabricava suas próprias ferramentas com materiais encontrados no local.4 Outro exemplo vem do Pacífico Sul. Bandos de sapiens que viveram na ilha de Nova Irlanda, no norte da Nova Guiné, usaram um vidro vulcânico chamado obsidiana para manufaturar ferramentas particularmente fortes e afiadas. A Nova Irlanda, entretanto, não tem depósitos naturais de obsidiana. As análises de laboratório revelaram que a obsidiana que eles usaram foi trazida de depósitos na Nova Bretanha, uma ilha a 400 quilômetros de distância. Alguns dos habitantes dessas ilhas devem ter sido navegantes habilidosos que percorriam longas distâncias negociando de ilha em ilha.5 O comércio pode parecer uma atividade muito pragmática, que não requer nenhuma base fictícia. Mas o fato é que nenhum outro animal além do sapiens pratica o comércio, e todas as redes de comércio dos sapiens sobre as quais temos informações detalhadas se baseiam em ficções. O comércio não pode existir sem confiança, e é muito difícil confiar em estranhos. A rede de comércio global de nossos dias se baseia em nossa confiança em entidades fictícias tais como o dólar, o Federal Reserve Bank e as marcas registradas das corporações.

    Quando dois estranhos em uma sociedade tribal querem fazer comércio, eles geralmente constroem confiança mútua recorrendo a um deus, ancestral mítico ou animal totêmico em comum.

    Se sapiens arcaicos que acreditavam em tais ficções trocaram conchas e obsidianas, é razoável pensar que também podem ter trocado informações, criando assim redes de conhecimento muito mais amplas e mais densas do que a que serviu aos neandertais e a outros humanos arcaicos.

    As técnicas de caça são outro exemplo dessas diferenças. Os neandertais geralmente caçavam sozinhos ou em pequenos grupos. Os sapiens, por outro lado, desenvolveram técnicas que se apoiavam na cooperação entre dezenas de indivíduos, e talvez até mesmo entre bandos diferentes. Um método particularmente eficaz era cercar um rebanho inteiro de animais, como cavalos

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    selvagens, e então acossá-los em um desfiladeiro, onde era fácil abatê-los em massa. Se tudo saísse de acordo com o plano, os bandos podiam obter toneladas de carne, gordura e pele animal em uma única tarde de esforço coletivo, e consumir essas riquezas numa grande festividade, ou secá-las e congelá-las para uso posterior. Os arqueólogos descobriram sítios em que rebanhos inteiros eram abatidos anualmente dessa maneira. Há inclusive sítios onde se ergueram cercas e obstáculos a fim de criar armadilhas artificiais e abatedouros.

    Podemos presumir que os neandertais não ficaram felizes ao ver seus campos de caça tradicionais transformados em abatedouros controlados pelos sapiens. No entanto, se a violência irrompeu entre as duas espécies, os neandertais não se saíram muito melhor do que os cavalos selvagens. Cinquenta neandertais cooperando em padrões tradicionais e estáticos não eram páreo para cinco centenas de sapiens versáteis e inovadores. E, mesmo que os sapiens perdessem o primeiro round, logo eram capazes de inventar novos estratagemas que lhes possibilitariam vencer o segundo.

    O que aconteceu na Revolução Cognitiva?

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    História e biologia

    A imensa diversidade de realidades imaginadas que os sapiens inventaram e a diversidade resultante de padrões de comportamento são os principais componentes do que chamamos “culturas”. Desde que apareceram, as culturas nunca cessaram de se transformar e se desenvolver, e essas alterações irrefreáveis são o que denominamos “história”. A Revolução Cognitiva é, portanto, o ponto em que a história declarou independência da biologia. Até a Revolução Cognitiva, os feitos de todas as espécies humanas pertenciam ao reino da biologia, ou, se quisermos, da pré-história (eu tendo a evitar o termo “pré-história” pois sugere, erroneamente, que até mesmo antes da Revolução Cognitiva os humanos constituíam uma categoria própria). A partir da Revolução Cognitiva, as narrativas históricas substituem as narrativas biológicas como nosso

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    principal meio de explicar o desenvolvimento do Homo sapiens. Para entender a ascensão do cristianismo ou a Revolução Francesa, não basta compreender a interação entre genes, hormônios e organismos. É necessário, também, levar em consideração a interação entre ideias, imagens e fantasias.

    Isso não significa que o Homo sapiens e a cultura humana tenham se tornado isentos de leis biológicas. Ainda somos animais, e nossas capacidades físicas, emocionais e cognitivas continuam sendo moldadas por nosso DNA.

    Nossas sociedades são construídas com os mesmos tijolos que as sociedades dos neandertais ou dos chimpanzés, e, quanto mais examinamos esses tijolos – sensações, emoções, laços familiares –, menos diferenças encontramos entre nós e outros primatas.

    No entanto, é um erro procurar as diferenças no nível do indivíduo ou da família. Nas comparações entre indivíduos, ou mesmo entre grupos de dez, somos embaraçosamente similares aos chimpanzés. As diferenças significativas só começam a aparecer quando ultrapassamos o limite de 150 indivíduos, e, quando chegamos a mil ou 2 mil indivíduos, as diferenças são assombrosas. Se você tentasse agrupar milhares de chimpanzés na praça Tiananmen, em Wall Street, no estádio do Maracanã ou na sede da ONU, o resultado seria um pandemônio. Já os sapiens se reúnem regularmente aos milhares em tais lugares.

    Juntos, criam padrões ordenados – tais como redes de negócios, celebrações em massa e instituições políticas – que jamais poderiam criar de forma isolada. A diferença real entre nós e os chimpanzés é a cola mítica que une grandes quantidades de indivíduos, famílias e grupos. Essa cola nos tornou os mestres da criação.

    É claro, também precisamos de outras coisas, como a capacidade de confeccionar e usar ferramentas. Mas a confecção de ferramentas é insignificante se não estiver associada com a capacidade de cooperar com muitas outras pessoas. Como é possível que hoje tenhamos mísseis intercontinentais com ogivas nucleares se há 30 mil anos tínhamos apenas lanças com pontas de sílex? Fisiologicamente, não houve qualquer melhoria significativa em nossa capacidade de confeccionar ferramentas nos últimos 30 mil anos.

    Albert Einstein era muito menos hábil com as mãos do que um antigo caçadorcoletor. No entanto, nossa capacidade de cooperar com um grande número de estranhos aumentou consideravelmente. A antiga lança com ponta de sílex era

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    manufaturada em minutos por uma única pessoa, que confiava no conselho e no auxílio de uns poucos amigos íntimos. A produção de uma ogiva nuclear moderna requer a cooperação de milhões de estranhos em todo o mundo – dos trabalhadores que extraem o minério de urânio das profundezas da terra aos estudiosos da física que escrevem longas fórmulas matemáticas para descrever as interações entre partículas subatômicas.

    Para resumir as relações entre a biologia e a história após a Revolução Cognitiva:

    a. A biologia estabelece os parâmetros básicos para o comportamento e as capacidades do Homo sapiens. Toda a história acontece dentro dos limites dessa arena biológica.

    b. No entanto, essa arena é extraordinariamente grande, possibilitando que os sapiens joguem uma incrível variedade de jogos. Graças à sua habilidade de criar ficções, os sapiens inventam jogos cada vez mais complexos, que cada geração desenvolve e elabora ainda mais.

    c. Em consequência, a fim de entender como os sapiens se comportam, devemos descrever a evolução histórica de suas ações. Considerar apenas nossos limites biológicos seria como um locutor esportivo que, ao transmitir uma partida da Copa do Mundo, oferecesse aos ouvintes uma descrição detalhada do campo, em vez de relatar o que os jogadores estão fazendo.

    Que jogo nossos ancestrais da Idade da Pedra jogaram na arena da história? Até onde sabemos, as pessoas que esculpiram o homem-leão de Stadel há cerca de 30 mil anos tinham as mesmas capacidades físicas, emocionais e intelectuais que nós temos. O que elas faziam assim que acordavam? O que comiam no café da manhã – e no almoço? Como eram suas sociedades? Tinham relações monogâmicas e famílias nucleares? Tinham cerimônias, códigos morais, competições esportivas e rituais religiosos? Travavam guerras? O próximo capítulo espreita detrás da cortina das eras, examinando como era a vida nos milênios que separam a Revolução Cognitiva da Revolução Agrícola.

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    [1] Aqui e nas páginas que seguem, ao mencionar a linguagem sapiens, refiro-me às habilidades linguísticas básicas de nossa espécie, e não a um dialeto em específico. Inglês, hindi e chinês são todos variantes de linguagem sapiens.

    Aparentemente, até mesmo na época da Revolução Cognitiva diferentes grupos sapiens falavam dialetos diferentes.

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    3. Um dia na vida de Adão e Eva

    Um dia na vida de Adão e Eva PARA ENTENDER NOSSA NATUREZA, NOSSA HISTÓRIA E NOSSA PSICOLOGIA, DEVEMOS entrar na cabeça dos nossos ancestrais caçadores-coletores. Durante praticamente toda a história da nossa espécie, os sapiens viveram como caçadores-coletores. Os últimos 200 anos, durante os quais um número cada vez maior de sapiens ganham o pão de cada dia como trabalhadores urbanos e funcionários administrativos, e os 10 mil anos precedentes, durante os quais a maioria dos sapiens vivia como agricultores e pastores, são um piscar de olhos em comparação com as dezenas de milhares de anos durante os quais nossos ancestrais foram caçadores e coletores.

    O campo próspero da psicologia evolutiva afirma que muitas de nossas características psicológicas e sociais do presente foram moldadas durante essa longa era pré-agrícola. Ainda hoje, afirmam especialistas da área, nosso cérebro e nossa mente são adaptados para uma vida de caça e coleta. Nossos hábitos alimentares, nossos conflitos e nossa sexualidade são todos consequência do modo como nossa mente de caçadores-coletores interage com o ambiente pós-industrial de nossos dias, com megacidades, aviões, telefones e computadores.

    Esse ambiente nos dá mais recursos materiais e vida mais longa do que a desfrutada por qualquer geração anterior, mas também nos faz sentir alienados, deprimidos e pressionados. Para entender por quê, apontam os psicólogos evolutivos, precisamos nos aprofundar no mundo de caçadores-coletores que nos moldou, o mundo que, subconscientemente, ainda habitamos.

    Por que, por exemplo, as pessoas se regalam com alimentos altamente calóricos que tão pouco bem fazem a seus corpos? As sociedades afluentes de hoje estão tomadas por uma praga de obesidade, que está rapidamente se alastrando para países em desenvolvimento. É intrigante tentar entender por que nos empanturramos com os alimentos mais doces e mais gordurosos que conseguimos encontrar, até considerarmos os hábitos alimentares dos nossos ancestrais caçadores-coletores. Nas savanas e florestas que eles habitavam, alimentos doces e calóricos eram extremamente raros, e a comida em geral era escassa. Um caçador-coletor típico de 30 mil anos atrás só tinha acesso a um tipo de comida doce: frutas maduras. Se uma mulher da Idade da Pedra se deparasse com uma árvore repleta de figos, a coisa mais razoável a fazer era ingerir o

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    máximo que pudesse imediatamente, antes que um bando de babuínos comesse tudo. Hoje, podemos morar em apartamentos com geladeiras abarrotadas, mas nosso DNA ainda pensa que estamos em uma savana. É isso o que nos motiva a comer um pote inteiro de sorvete quando encontramos um no freezer e fazê-lo descer com uma Coca-Cola grande.

    Essa teoria do “gene guloso” é amplamente aceita. Outras teorias são muito mais controversas. Por exemplo, alguns psicólogos evolutivos afirmam que bandos antigos de caçadores-coletores não eram compostos de famílias nucleares centradas em casais monogâmicos. Em vez disso, eles viviam em comunidades onde não havia propriedade privada, relações monogâmicas ou mesmo paternidade. Em um bando como esse, uma mulher podia ter relações sexuais e formar laços íntimos com vários homens (e mulheres) ao mesmo tempo, e todos os adultos do bando cooperavam para cuidar das crianças. Os homens mostravam igual preocupação por todas as crianças, uma vez que nenhum sabia ao certo quais eram definitivamente filhos seus.

    Tal estrutura social não é uma utopia aquariana. É bem documentada entre animais, notadamente entre nossos parentes mais próximos, os chimpanzés e os bonobos. Há, inclusive, uma série de culturas humanas nos dias de hoje em que se pratica a paternidade coletiva, como, por exemplo, entre os índios barés. De acordo com as crenças de tais sociedades, uma criança não nasce do esperma de um único homem, mas da acumulação de esperma no útero de uma mulher.

    Uma boa mãe trata de ter relações sexuais com vários homens diferentes, sobretudo enquanto está grávida, para que seu filho receba as qualidades (e os cuidados paternos) não só do melhor caçador como também do melhor contador de histórias, do guerreiro mais forte e do amante mais atencioso. Se isso parece estúpido, tenha em mente que antes do desenvolvimento dos estudos embriológicos modernos as pessoas não tinham provas concretas de que os bebês invariavelmente são concebidos por um único pai, e não por vários.

    Os defensores dessa teoria da “comunidade antiga” afirmam que as infidelidades frequentes que caracterizam os casamentos modernos e o índice elevado de divórcios, sem falar da profusão de complexos psicológicos que acometem crianças e adultos, todos resultam de forçar os humanos a viver em famílias nucleares e relações monogâmicas, que são incompatíveis com nosso programa biológico.1

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    Muitos acadêmicos rejeitam veementemente essa teoria, insistindo que a monogamia e a formação de famílias são comportamentos essencialmente humanos. Esses pesquisadores afirmam que, embora as antigas sociedades caçadoras-coletoras tendessem a ser mais comunais e igualitárias do que as sociedades modernas, eram, no entanto, constituídas de células separadas, cada uma delas contendo um casal ciumento e os filhos que eles tinham em comum. É por isso que hoje as relações monogâmicas e as famílias nucleares são a norma na grande maioria das culturas, que homens e mulheres tendem a ser muito possessivos com relação a seus parceiros e filhos e que até mesmo em Estados modernos como a Coreia do Norte e a Síria a autoridade política passa de pai para filho.

    A fim de resolver essa controvérsia e entender nossa sexualidade, nossa sociedade e nossa política, precisamos saber algumas coisas sobre as condições de vida de nossos ancestrais, a fim de examinar como viviam os sapiens entre a Revolução Cognitiva de 70 mil anos atrás e o começo da Revolução Agrícola, há cerca de 12 mil anos.

    Infelizmente, há poucas certezas a respeito da vida de nossos ancestrais caçadores-coletores. O debate entre os defensores da “comunidade antiga” e os da “monogamia eterna” se baseia em indícios escassos. Obviamente, não temos registros escritos da época dos caçadores-coletores, e as evidências arqueológicas consistem basicamente de ossos fossilizados e ferramentas de pedra. Artefatos feitos de materiais mais perecíveis – como madeira, bambu ou couro – só sobrevivem em condições especiais. A impressão comum de que os humanos pré-agrícolas viveram em uma idade da pedra é um conceito equivocado baseado nessa tendência arqueológica. Seria mais adequado chamar a Idade da Pedra de Idade da Madeira, pois a maioria das ferramentas usadas pelos antigos caçadores-coletores era feita de madeira.

    Toda reconstrução da vida dos antigos caçadores-coletores com base nos artefatos remanescentes é extremamente problemática. Uma das diferenças mais gritantes entre eles e seus descendentes agrícolas e industriais é que, para começar, os caçadores-coletores tinham pouquíssimos artefatos, e estes exerciam um papel comparativamente modesto em suas vidas. Ao longo de sua vida, um típico membro de uma sociedade moderna afluente possui vários

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    milhões de artefatos – de carros e casas a fraldas descartáveis e caixas de leite.

    Dificilmente há uma atividade, uma crença ou mesmo uma emoção que não seja mediada por objetos concebidos por nós mesmos. Nossos hábitos alimentares são mediados por uma coleção impressionante de tais itens, de colheres e copos a laboratórios de engenharia genética e navios transoceânicos gigantes. Para brincar, usamos uma série de brinquedos, de cartas de plástico a estádios com 100 mil lugares. Nossas relações românticas e sexuais são equipadas por anéis, camas, roupas bonitas, lingeries sensuais, camisinhas, restaurantes da moda, motéis baratos, salas de espera de aeroporto, salões de festa e empresas de catering. As religiões trazem o sagrado à nossa vida com igrejas góticas, mesquitas muçulmanas, ashrams hindus, rolos de Torá, rodas de oração tibetanas, batinas eclesiásticas, velas, incenso, árvores de natal, lápides e ícones.

    Mal percebemos o quanto nossos objetos são onipresentes até precisarmos nos mudar para uma casa nova. Os caçadores-coletores se mudavam todo mês, toda semana e, às vezes, todo dia, carregando nas costas o que quer que possuíssem. Não havia empresas de mudança, carroças e nem mesmo animais de carga para dividir o fardo. Consequentemente, eles tinham de se virar apenas com as posses essenciais. É razoável presumir, portanto, que a maior parte de sua vida mental, religiosa e emotiva fosse conduzida sem a ajuda de artefatos. Um arqueólogo trabalhando daqui a 100 mil anos seria capaz de recompor um cenário razoável da crença e da prática muçulmana com base nos vários objetos encontrados em escavações nas ruínas de uma mesquita. Mas, hoje, estamos praticamente perdidos tentando compreender as crenças e os rituais dos antigos caçadores-coletores. É, em grande medida, o mesmo dilema que um futuro historiador enfrentaria se tivesse de retratar o mundo social dos adolescentes do século XXI unicamente com base no que sobrevivesse das cartas trocadas entre eles – já que não restariam registros de conversas telefônicas, e-mails, blogs e mensagens de texto.

    A dependência dos artefatos, portanto, resulta em um relato tendencioso da vida dos antigos caçadores-coletores. Uma maneira de remediar isso é observar as sociedades caçadoras-coletoras modernas. Estas podem ser estudadas diretamente, por meio de observação antropológica. Mas há boas razões para ser cauteloso ao fazer inferências a partir das sociedades caçadoras-coletoras

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    modernas sobre as antigas.

    Em primeiro lugar, todas as sociedades caçadoras-coletoras que sobreviveram até nossos dias foram influenciadas por sociedades agrícolas e industriais adjacentes. Portanto, é arriscado presumir que o que é verdade sobre elas também foi verdade há dezenas de milhares de anos.

    Em segundo lugar, as sociedades caçadoras-coletoras modernas sobreviveram principalmente em áreas com condições climáticas difíceis e terreno inóspito, inadequado para a agricultura. As sociedades que se adaptaram às condições extremas de lugares como o deserto de Kalahari, no sul da África, podem muito bem fornecer um modelo um tanto enganoso para entender sociedades antigas em áreas férteis como o vale do rio Yangtzé. Em particular, a densidade populacional em uma área como o deserto de Kalahari é muito mais baixa do que foi na região do antigo Yangtzé, e isso tem implicações profundas para questões essenciais sobre o tamanho e a estrutura dos bandos humanos e a relação entre eles.

    Em terceiro lugar, a característica mais notável das sociedades caçadorascoletoras é o quanto elas são diferentes umas das outras. Diferem não só de uma parte do mundo a outra como inclusive na mesma região. Um bom exemplo é a enorme variedade que os primeiros colonizadores europeus encontraram entre os povos aborígenes da Austrália. Logo antes da conquista britânica, entre 300 mil e 700 mil caçadores-coletores viviam no continente distribuídos em 200 a 600 tribos, cada uma dividida em vários bandos.2 Cada tribo tinha seu próprio idioma, religião, normas e costumes. Perto do que hoje é Adelaide, no sul da Austrália, viviam vários clãs patrilineares, que se baseavam na descendência por parte de pai. Esses clãs se uniam em tribos por razões estritamente territoriais. Por sua vez, algumas tribos no norte da Austrália davam mais importância à ancestralidade materna de uma pessoa, e sua identidade tribal não se baseava em território, e sim em seu totem.

    É razoável pensar que a variedade étnica e cultural entre os antigos caçadores-coletores fosse igualmente impressionante e que os 5-8 milhões de caçadores-coletores que povoaram o mundo à véspera da Revolução Agrícola se dividissem em milhares de tribos com milhares de idiomas e culturas diferentes.3 Esse, afinal, foi um dos principais legados da Revolução Cognitiva. Graças ao surgimento da ficção, até mesmo pessoas com a mesma composição genética e

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    vivendo em condições ecológicas similares foram capazes de criar realidades imaginadas muito diferentes, que se manifestavam em diferentes normas e valores.

    Por exemplo, temos todas as razões para acreditar que um bando de caçadores-coletores que viveram há 20 mil anos na região da atual Lisboa teria falado uma língua diferente daquele que viveu onde hoje se situa a cidade do Porto. Um bando pode ter sido beligerante e o outro, pacífico. Talvez o bando de Lisboa fosse comunal, e o do Porto se baseasse em famílias nucleares. O povo de Lisboa talvez passasse horas esculpindo estátuas de madeira de seus espíritos guardiães, ao passo que seus contemporâneos do Porto mostravam sua devoção por meio da dança. Os primeiros talvez acreditassem em reencarnação, enquanto os últimos consideravam isso absurdo. Em uma sociedade, relações homossexuais podem ter sido aceitas, ao passo que na outra eram um tabu.

    Em outras palavras, embora as observações antropológicas dos caçadorescoletores modernos possam nos ajudar a entender algumas das possibilidades disponíveis para os caçadores-coletores antigos, o horizonte de possibilidades daquela época era muito mais amplo e, em sua maior parte, é desconhecido para nós.[1] Os debates acalorados sobre o “estilo de vida natural” do Homo sapiens perdem de vista a questão principal. Desde a Revolução Cognitiva, não existe um único estilo de vida natural para os sapiens. Há apenas escolhas culturais, dentro de um conjunto assombroso de possibilidades.

    A sociedade afluente original

    Que generalizações podemos fazer sobre a vida no mundo pré-agrícola, então?

    Parece seguro afirmar que a grande maioria das pessoas vivia em pequenos bandos compostos de várias dezenas ou, no máximo, várias centenas de indivíduos e que todos esses indivíduos eram humanos. É importante observar esse último aspecto, porque está longe de ser óbvio. A maioria dos membros de sociedades agrícolas e industriais são animais domesticados. Eles não são iguais a seus senhores, é claro, mas ainda assim são membros. Hoje, a sociedade chamada Nova Zelândia é composta de 4,5 milhões de sapiens e 50 milhões de ovelhas.

    Havia apenas uma exceção a essa regra: o cão. O cachorro foi o primeiro

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    animal domesticado pelo Homo sapiens, e isso ocorreu antes da Revolução Agrícola. Os especialistas discordam quanto à data exata, mas temos indícios incontroversos de domesticação de cachorros que datam de 15 mil anos atrás.

    Eles podem ter se unido aos humanos milhares de anos antes.

    Os cachorros eram usados para caçar e guerrear e também como sistema de alarme contra animais selvagens e intrusos humanos. Com o passar das gerações, as duas espécies coevoluíram para se comunicar bem uns com os outros. Os cachorros que eram mais atentos às necessidades e aos sentimentos de seus companheiros humanos recebiam mais cuidados e alimentos e tinham mais probabilidade de sobreviver. Ao mesmo tempo, os cachorros aprenderam a manipular as pessoas para satisfazer suas próprias necessidades. Um vínculo de 15 mil anos resultou em uma compreensão e laços afetivos muito mais profundos entre humanos e cachorros do que entre humanos e qualquer outro animal.4 Em alguns casos, cachorros mortos eram enterrados em cerimônias, de modo muito similar aos humanos.

    6. O primeiro bichinho de estimação? Um túmulo de 12 mil anos encontrado no norte de Israel. Contém o esqueleto de uma mulher de cinquenta anos ao lado do esqueleto de um filhote de cachorro (canto superior direito). O filhote foi enterrado perto da cabeça da mulher. A mão esquerda dela está pousada no

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    cachorro de maneira que poderia indicar uma conexão emotiva. Há, é claro, outras explicações possíveis. Talvez, por exemplo, o cachorro fosse um presente para o guardião do mundo seguinte.

    Membros de um mesmo bando se conheciam intimamente e eram cercados por amigos e parentes durante a vida inteira. A solidão e a privacidade eram raras. Bandos vizinhos provavelmente competiam por recursos e até lutavam uns com os outros, mas também tinham contatos amigáveis. Eles intercambiavam membros, caçavam juntos, comerciavam artigos raros, construíam alianças políticas e celebravam festividades religiosas. Tal cooperação foi uma das marcas importantes do Homo sapiens e lhe deu uma vantagem crucial sobre outras espécies humanas. Às vezes, as relações com os bandos vizinhos eram sólidas o suficiente a ponto de eles constituírem uma única tribo, partilhando a mesma língua, os mesmos mitos, as mesmas normas e os mesmos valores.

    Mas não devemos superestimar a importância de tais relações externas.

    Mesmo que em tempos de crise os bandos vizinhos se aproximassem, e mesmo que se reunissem ocasionalmente para caçar ou comer juntos, eles ainda passavam a maior parte do tempo em completo isolamento e independência. O comércio era basicamente limitado a itens de prestígio como conchas, âmbar e pigmentos. Não há indícios de que as pessoas comercializassem itens essenciais como frutas e carne, ou que a existência de um bando dependesse da importação de alimentos de outro. As relações sociopolíticas também tendiam a ser esporádicas. A tribo não servia como um marco político permanente, e, mesmo que houvesse lugares de reunião sazonais, não havia cidades ou instituições permanentes. Em média, uma pessoa vivia muitos meses sem ver ou ouvir um indivíduo de fora de seu bando e, ao longo de sua vida, encontrava não mais do que algumas centenas de humanos. A população sapiens vivia espalhada por vastos territórios. Antes da Revolução Agrícola, a população humana do planeta inteiro era menor do que a de São Paulo hoje.

    A maioria dos bandos sapiens vivia se deslocando, vagando de um lado para outro em busca de alimento. Seus movimentos eram influenciados pela mudança das estações, pela migração anual de animais e pelo ciclo de crescimento das plantas. Eles costumavam viajar de um lado para outro no mesmo território, uma área cuja extensão ficava entre várias dezenas e muitas

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    centenas de quilômetros quadrados.

    De vez em quando, bandos saíam de seu território e exploravam novas terras, fosse devido a calamidades climáticas, conflitos violentos, pressões demográficas, fosse por iniciativa de um líder carismático. Essas perambulações foram o motor da expansão humana pelo mundo. Se um bando de caçadorescoletores se dividisse uma vez a cada 40 anos e o novo grupo migrasse para um novo território cem quilômetros para o leste, a distância da África Oriental à China teria sido coberta em aproximadamente 10 mil anos.

    Em alguns casos excepcionais, quando as fontes de alimento eram particularmente abundantes, os bandos se assentavam em acampamentos sazonais e até mesmo permanentes. Técnicas para secar, defumar e (nas regiões árticas) congelar alimentos também tornaram possível permanecer em um mesmo lugar por períodos mais longos. Mais importante ainda: em áreas próximas de rios e mares ricos em frutos do mar e aves aquáticas, os humanos fundaram aldeias permanentes de pescadores – os primeiros assentamentos permanentes na história, muito antes da Revolução Agrícola. As aldeias de pescadores podem ter aparecido no litoral das ilhas indonésias já há 45 mil anos.

    Estas possivelmente foram a base a partir da qual o Homo sapiens iniciou seu primeiro empreendimento transoceânico: a invasão da Austrália.

    Na maioria dos habitats, os bandos de sapiens se alimentavam de maneira versátil e oportunista. Eles saíam à procura de cupins, coletavam bagas, desenterravam raízes, capturavam coelhos e caçavam bisões e mamutes. Apesar da imagem difundida de “caçador”, a coleta era a atividade principal do sapiens e lhe fornecia a maior parte de suas calorias, além de matérias-primas como sílex, madeira e bambu.

    Os sapiens não saíam apenas à procura de alimentos e materiais. Também saíam à procura de conhecimento. Para sobreviver, precisavam de um detalhado mapa mental de seu território. Para maximizar a eficiência de sua busca cotidiana por alimento, precisavam de informações sobre os padrões de crescimento de cada planta e os hábitos de cada animal. Precisavam saber quais alimentos eram nutritivos, quais eram nocivos e quais podiam ser usados como remédio e de que forma. Precisavam conhecer o progresso das estações do ano e os sinais de alerta que precediam uma tempestade ou um período de seca.

    Estudavam cada corrente, nogueira, caverna de urso e depósito de sílex nas

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    redondezas. Cada indivíduo precisava entender como fabricar uma faca de pedra, como remendar um manto rasgado, como preparar uma armadilha para um coelho e como enfrentar avalanches, picadas de cobra ou leões famintos. O domínio de cada uma dessas muitas habilidades requeria anos de aprendizado e prática. Em média, um antigo caçador-coletor era capaz de transformar um pedaço de sílex em uma ponta de lança em minutos. Quando tentamos imitar essa proeza, em geral fracassamos terrivelmente. A maioria de nós carece de conhecimento específico sobre as propriedades cortantes do sílex e do basalto e das habilidades motoras refinadas necessárias para trabalhá-los com precisão.

    Em outras palavras, o caçador-coletor médio tinha conhecimentos mais abrangentes, mais profundos e mais variados de seu meio imediato do que a maioria de seus descendentes modernos. Hoje, a maioria das pessoas nas sociedades industriais não precisa saber muito para sobreviver. O que você realmente precisa saber sobre o mundo natural para sobreviver como engenheiro de sistemas, agente de seguros, professor de história ou operário? Você precisa saber muito sobre sua diminuta área de especialização, mas para a grande maioria das necessidades da vida você se apoia cegamente em outros especialistas, cujo conhecimento também é limitado a uma área de especialização minúscula. A coletividade humana conhece, hoje, muito mais do que os bandos antigos. Mas, no nível individual, os antigos caçadores-coletores foram o povo mais conhecedor e habilidoso da história.

    Há alguns indícios de que o tamanho médio do cérebro de um sapiens efetivamente diminuiu desde a era dos caçadores-coletores.5 A sobrevivência naquela época requeria de cada indivíduo habilidades mentais sofisticadas.

    Quando a agricultura e a indústria surgiram, as pessoas puderam contar cada vez mais com as habilidades de outros para sobreviver, e se abriram novos nichos para “ignorantes”. Um indivíduo podia sobreviver e transmitir seus genes obtusos para a geração seguinte trabalhando como carregador ou como operário em uma linha de montagem.

    Os caçadores-coletores dominaram não só o mundo dos animais, plantas e objetos à sua volta como também o mundo interno de seu próprio corpo e sensações. Eles ouviam o menor movimento na grama para saber se havia uma cobra à espreita. Observavam cuidadosamente a folhagem das árvores para descobrir frutas, colmeias e ninhos de pássaros. Moviam-se com um mínimo de

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    esforço e ruído e sabiam como sentar, caminhar e correr da maneira mais ágil e eficiente. O uso constante e variado do corpo os tornava tão aptos quanto maratonistas. Eles tinham um nível de destreza física que as pessoas hoje são incapazes de alcançar, mesmo após anos de prática de yoga ou de tai chi.

    Os hábitos dos antigos caçadores-coletores diferiam significativamente de região para região e de uma estação do ano para outra, mas, em geral, eles pareciam desfrutar de um estilo de vida mais confortável e compensador do que a maioria dos camponeses, pastores, operários e funcionários administrativos que seguiram seus passos.

    Enquanto as pessoas nas sociedades afluentes de hoje trabalham, em média, de 40 a 45 horas por semana, e as pessoas nos países em desenvolvimento trabalham 60 ou mesmo 80 horas por semana, os caçadores-coletores que hoje vivem nos habitats mais inóspitos – como o deserto de Kalahari – trabalham, em média, apenas 35-45 horas por semana. Eles caçam apenas uma vez a cada três dias, e a coleta leva não mais do que de três a seis horas diárias. Em épocas normais, isso é suficiente para alimentar o bando. É bem possível que os antigos caçadores-coletores vivendo em zonas mais férteis do que o Kalahari gastassem ainda menos tempo obtendo alimento e matérias-primas. Além disso, eles tinham uma carga mais leve de tarefas domésticas: não tinham pratos para lavar, tapetes para limpar, pisos para polir, fraldas para trocar ou contas para pagar.

    A economia dos caçadores-coletores proporcionava à maioria dos indivíduos vidas mais interessantes do que a agricultura ou a indústria.

    Atualmente, um operário chinês sai de casa por volta das sete da manhã e atravessa ruas poluídas rumo a uma fábrica com condições precárias de trabalho, onde opera a mesma máquina, da mesma maneira, dia após dia, durante dez longas horas, voltando para casa por volta das sete da noite para lavar a louça e a roupa. Há 30 mil anos, um caçador-coletor chinês possivelmente saía do acampamento com seus companheiros às oito da manhã. Eles perambulavam pelas florestas e savanas das redondezas, colhendo cogumelos, desenterrando raízes comestíveis, capturando rãs e às vezes fugindo de tigres. No começo da tarde, estavam de volta ao acampamento para almoçar. Isso lhes deixava tempo suficiente para fofocar, contar histórias, brincar com os filhos ou simplesmente descansar na companhia uns dos outros. É claro que às vezes alguém era pego por um tigre, ou picado por uma cobra, mas por outro lado eles não precisavam

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    lidar com acidentes de automóvel ou poluição industrial.

    Em quase todos os lugares e em quase todas as épocas, a atividade caçadora-coletora fornecia a nutrição ideal. Isso dificilmente surpreende – essa foi a dieta humana durante centenas de milhares de anos, e o corpo humano estava bem adaptado a ela. Evidências de esqueletos fossilizados indicam que os antigos caçadores-coletores tinham menos tendência a passar fome ou sofrer desnutrição e em geral eram mais altos e mais saudáveis do que seus descendentes camponeses. Ao que parece, a expectativa de vida era de apenas 30 a 40 anos, mas isso se devia, em grande parte, à incidência elevada de mortalidade infantil. As crianças que sobreviviam aos perigosos primeiros anos tinham boas chances de chegar aos 60, e algumas chegavam aos 80. Entre os caçadores-coletores modernos, as mulheres de 45 anos podem esperar viver outros 20, e cerca de 5 a 8% da população tem mais de 60 anos.6 O segredo do sucesso dos caçadores-coletores, que os protegia da fome e da desnutrição, era sua dieta variada. Os agricultores tendem a ingerir uma dieta muito limitada e desequilibrada. Especialmente nos tempos pré-modernos, a maior parte das calorias que alimentam uma população agrícola vinha de uma única colheita – como trigo, batata ou arroz – que carece de algumas das vitaminas, sais minerais e outros nutrientes de que os humanos necessitam. Já os antigos caçadores-coletores comiam regularmente dezenas de alimentos distintos. O camponês chinês típico comia arroz no café da manhã, arroz no almoço e arroz no jantar. Se tivesse sorte, podia esperar comer o mesmo no dia seguinte. Diferentemente, os antigos caçadores-coletores comiam dúzias de tipos diferentes de comida. Ancestral do camponês, o caçador-coletor talvez comesse bagas e cogumelos no café da manhã; algumas frutas e tartaruga no almoço; e carne de coelho com cebola selvagem no jantar. É bem provável que o menu do dia seguinte fosse completamente diferente. Essa variedade garantia que os antigos caçadores-coletores recebessem todos os nutrientes necessários.

    Além disso, ao não depender de um único tipo de comida, eles eram menos propensos a sofrer na ausência de uma fonte específica de alimento. As sociedades agrícolas são arruinadas pela fome quando uma seca, um incêndio ou um terremoto devastam a colheita anual de arroz ou de batata. As sociedades caçadoras-coletoras não estavam imunes a desastres naturais e sofriam períodos de fome e privação, mas em geral eram capazes de lidar com tais calamidades

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    mais facilmente. Se perdiam alguns de seus alimentos essenciais, podiam coletar ou caçar outras espécies, ou migrar para uma área menos afetada.

    Os antigos caçadores-coletores também eram menos afetados por doenças infecciosas. A maioria das doenças infecciosas que acometeram as sociedades agrícolas e industriais (como varíola, sarampo e tuberculose) se originou em animais domésticos e passou para os humanos somente após a Revolução Industrial. Os antigos caçadores-coletores, que domesticaram apenas cachorros, estavam livres desses males. Além disso, a maioria das pessoas nas sociedades agrícolas e industriais vivia em assentamentos permanentes que eram populosos e pouco higiênicos – uma incubadora ideal para doenças. Os antigos caçadorescoletores percorriam a terra em pequenos bandos, o que não alimentava epidemias.

    A dieta completa e variada, a semana de trabalho relativamente curta e a raridade de doenças infecciosas levaram muitos especialistas a definir as sociedades caçadoras-coletoras pré-agrícolas como “as sociedades afluentes originais”. Seria um erro, no entanto, idealizar a vida desses povos antigos.

    Embora eles tivessem uma vida melhor do que a maioria das pessoas nas sociedades agrícolas e industriais, seu mundo ainda podia ser cruel e implacável.

    Períodos de dificuldade e privação não eram raros, a mortalidade infantil era alta e um acidente que hoje seria pouco significativo podia facilmente se tornar uma sentença de morte. A maioria das pessoas provavelmente desfrutava da intimidade do bando, mas os desafortunados que eram alvo de hostilidade ou de zombaria dos colegas de bando decerto padeciam terrivelmente. Os caçadorescoletores modernos ocasionalmente abandonam e até matam pessoas idosas ou deficientes que não conseguem acompanhar o bando. Bebês e crianças indesejados podem ser assassinados, e há inclusive casos de religiosidade inspirados em sacrifício humano.

    Os achés, caçadores-coletores que viveram nas selvas do Paraguai até os anos 1960, dão uma ideia do lado negro do sistema de caça e coleta. Quando um membro valorizado do bando morria, os achés costumavam matar uma garotinha e enterrar os dois juntos. Os antropólogos que entrevistaram os achés registraram um caso em que um bando abandonou um homem de meia-idade que adoeceu e não conseguia acompanhar os demais. Ele foi deixado sob uma árvore. Abutres se empoleiraram sobre ela, à espera de uma refeição

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    substanciosa. Mas o homem se recuperou e, caminhando depressa, conseguiu se juntar ao grupo novamente. Seu corpo estava coberto de fezes de pássaros, e por isso ele foi apelidado de “Excremento de Abutre”.

    Quando uma mulher aché idosa se tornava um fardo para o resto do bando, um dos homens mais jovens se esgueirava atrás dela e a matava com um golpe de machado na cabeça. Um homem aché contou aos antropólogos histórias sobre seus primeiros anos na selva. “Eu costumava matar mulheres idosas. Matei minhas tias […] As mulheres tinham medo de mim […] Agora, aqui com os brancos, eu me tornei fraco.” Bebês nascidos sem cabelo, considerados subdesenvolvidos, eram mortos imediatamente. Uma mulher lembrou que sua primeira bebê foi morta porque os homens não queriam mais uma menina no bando. Em certa ocasião, um homem matou um garotinho porque ele estava “de mau humor e a criança estava chorando”. Outra criança foi enterrada viva porque “tinha uma aparência engraçada e as outras crianças riam dela”.7 No entanto, devemos ter cuidado para não julgar os achés depressa demais. Os antropólogos que viveram com eles durante anos relatam que a violência entre adultos era muito rara. Mulheres e homens eram livres para escolher seus parceiros à vontade. Eles sorriam e riam constantemente, não tinham hierarquia e geralmente esquivavam-se de povos dominadores. Eram extremamente generosos com suas poucas posses e não eram obcecados com sucesso nem com riqueza. As coisas que mais valorizavam na vida eram boas interações sociais e boas amizades.8 Eles viam a morte de crianças, pessoas doentes e idosos como muitas pessoas hoje veem o aborto e a eutanásia.

    Também deve ser observado que os achés eram caçados e mortos sem piedade pelos fazendeiros paraguaios. É bem provável que a necessidade de escapar de seus inimigos os levasse a adotar uma atitude atipicamente cruel para com qualquer um que pudesse se tornar um fardo para o bando.

    A verdade é que a sociedade aché, como toda sociedade humana, era muito complexa. Devemos tomar cuidado para não os demonizar nem idealizá-los com base em um conhecimento superficial. Os achés não eram anjos nem demônios – eram humanos. Como também eram os antigos caçadores-coletores.

    Espíritos falantes

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    O que podemos dizer sobre a vida mental e espiritual dos antigos caçadorescoletores? A base da economia caçadora-coletora pode ser reconstruída com certa segurança segundo fatores objetivos e quantificáveis. Por exemplo, podemos calcular quantas calorias por dia uma pessoa precisava para sobreviver, quantas calorias eram obtidas de um quilograma de nozes e quantas nozes podiam ser colhidas em um quilômetro quadrado de floresta. Com esses dados, podemos fazer uma estimativa fundamentada da importância relativa das nozes em sua dieta.

    Mas eles consideravam as nozes uma iguaria ou um alimento trivial?

    Acreditavam que as nogueiras eram habitadas por espíritos? Consideravam bonitas as folhas da nogueira? Se um rapaz quisesse levar uma garota para um lugar romântico, a sombra da nogueira era conveniente? O mundo do pensamento, da crença e do sentimento é, por definição, muito mais difícil de decifrar.

    A maioria dos acadêmicos concorda que as crenças animistas eram comuns entre os antigos caçadores-coletores. O animismo (de “anima”, alma ou espírito em latim) é a crença de que praticamente todo lugar, todo animal, toda planta e todo fenômeno natural tem consciência e sentimentos, e que pode se comunicar diretamente com os humanos. Desse modo, os animistas podem acreditar que a grande rocha no alto da colina tem desejos e necessidades. A rocha pode se irritar com alguma coisa que as pessoas fizerem e se alegrar com alguma outra ação. Pode advertir as pessoas ou pedir favores. Os humanos, por sua vez, podem se dirigir à rocha, para acalmá-la ou ameaçá-la. Não só a rocha, mas também o carvalho ao pé da colina são seres animados, e também o rio que corre abaixo da colina, a nascente na clareira da floresta, os arbustos que crescem à sua volta, o caminho para a clareira e os camundongos, lobos e corvos que bebem ali. No mundo animista, objetos e coisas vivas não são os únicos seres animados. Há também entidades imateriais – os espíritos dos mortos, e seres benévolos e malévolos, do tipo que hoje chamamos de demônios, fadas e anjos.

    Os animistas acreditam que não existe barreira entre os humanos e outros seres. Eles podem se comunicar diretamente por meio da fala, da música, da dança e de cerimônias. Um caçador pode se dirigir a um rebanho de cervos e pedir que um deles se sacrifique. Se a caçada tiver sucesso, o caçador pode pedir perdão ao animal morto. Quando alguém fica doente, um xamã pode contatar o

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    espírito que causou a doença e tentar pacificá-lo ou afugentá-lo. Se necessário, o xamã pode pedir a ajuda de outros espíritos. O que caracteriza todos esses atos de comunicação é que as entidades sendo abordadas são seres locais. Não são deuses universais, e sim um cervo em particular, uma árvore em particular, um rio em particular, um espírito em particular.

    Assim como não existe barreira entre os humanos e outros seres, tampouco existe uma hierarquia rígida. As entidades não humanas não existem meramente para atender às necessidades humanas. Tampouco são deuses todo-poderosos que governam o mundo a seu bel-prazer. O mundo não gira em torno dos humanos ou de qualquer grupo de seres em particular.

    O animismo não é uma religião específica. É um nome genérico para milhares de religiões, cultos e crenças muito diferentes. O que torna todos eles “animistas” é sua maneira de encarar o mundo e o lugar que atribuem ao homem nesse mundo. Dizer que os antigos caçadores-coletores provavelmente eram animistas é como dizer que os agricultores pré-modernos eram quase todos teístas. O teísmo (de “theos”, deus em grego) é a visão de que a ordem universal se baseia em uma relação hierárquica entre humanos e um pequeno grupo de entidades etéreas chamadas deuses. É com certeza correto afirmar que os agricultores pré-modernos tendiam a ser teístas, mas isso não nos diz muito sobre suas particularidades. A rubrica genérica “teístas” abrange rabinos judeus da Polônia do século XVIII, puritanos queimadores de bruxas do Massachusetts do século XVII, padres astecas do México do século XV, místicos sufistas do Irã do século XII, guerreiros vikings do século X, legionários romanos do século II e burocratas chineses do século I. As diferenças entre as crenças e práticas de grupos de caçadores-coletores “animistas” provavelmente eram tão grandes quanto. Sua experiência religiosa pode ter sido turbulenta e cheia de controvérsias, reformas e revoluções.

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    7. Uma pintura da caverna de Lascaux, c. 15 mil-20 mil anos atrás. O que vemos exatamente, e qual é o significado dessa pintura? Alguns afirmam que vemos um homem com a cabeça de um pássaro e um pênis ereto sendo morto por um bisão. Sob o homem há outro pássaro que possivelmente simboliza a alma, libertada do corpo no momento da morte. Se for assim, a pintura retrata não um prosaico acidente de caçada, mas a passagem deste mundo para o seguinte.

    Mas não temos como saber se essas especulações são corretas. É como um teste de Rorschach: revela muito sobre as ideias preconcebidas dos acadêmicos modernos e pouco sobre as crenças dos antigos caçadores-coletores.

    Porém, essas generalizações cautelosas são o mais longe a que podemos chegar. Qualquer tentativa de descrever as especificidades da espiritualidade arcaica é mera especulação, já que quase não existem indícios para nos guiar e os poucos indícios que temos – um punhado de artefatos e pinturas em cavernas – podem ser interpretados de muitíssimas formas. As teorias dos acadêmicos que afirmam saber o que os caçadores-coletores sentiam dizem muito mais sobre os preconceitos de seus autores do que sobre as religiões da Idade da Pedra.

    Em vez de elaborar um sem-número de teorias com base em um punhado

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    de relíquias, pinturas rupestres e estatuetas de ossos, é melhor sermos francos e admitirmos que temos apenas noções muito vagas sobre as religiões dos antigos caçadores-coletores. Presumimos que eles foram animistas, mas isso não é muito informativo. Não sabemos para quais espíritos eles rezavam, que festivais celebravam ou a que tabus obedeciam. O que é mais importante: não sabemos que histórias eles contavam. Essa é uma das maiores lacunas em nossa compreensão da história humana.

    8. Caçadores-coletores fizeram essas impressões de mãos há cerca de 9 mil anos na “Cova das Mãos”, na Argentina. É como se essas mãos mortas há muito tempo estivessem saindo da rocha e tentando nos alcançar. É uma das relíquias mais tocantes do mundo dos antigos caçadores-coletores – mas ninguém sabe o que significa.

    O mundo sociopolítico dos caçadores-coletores é outra área sobre a qual não sabemos quase nada. Conforme explicado anteriormente, os acadêmicos não conseguem sequer chegar a um acordo quanto ao básico, como a existência de propriedade privada, famílias nucleares e relações monogâmicas. É provável que bandos diferentes tivessem estruturas diferentes. Alguns podem ter sido tão

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    hierarquizados, tensos e violentos como o mais virulento bando de chimpanzés, ao passo que outros podem ter sido tão tranquilos, pacíficos e lascivos quanto um bando de bonobos.

    Em Sungir, na Rússia, arqueólogos descobriram em 1955 um cemitério de 30 mil anos pertencente a uma cultura de caçadores de mamutes. Em um túmulo, encontraram o esqueleto de um homem de 50 anos coberto com colares de contas de marfim de mamute, contendo cerca de 3 mil contas no total. Na cabeça do homem morto havia um chapéu decorado com dentes de raposa, e nos punhos, 25 braceletes de marfim. Outros túmulos do mesmo cemitério continham muito menos objetos. Os acadêmicos deduziram que os caçadores de mamutes de Sungir viviam em uma sociedade hierárquica e que o homem morto talvez fosse o líder de um bando ou de uma tribo inteira compreendendo vários bandos. É improvável que algumas dezenas de membros de um único bando pudessem ter produzido tantos objetos funerários.

    Os arqueólogos, então, descobriram um túmulo ainda mais interessante.

    Continha dois esqueletos enterrados lado a lado. Um era de um garoto de 12 ou 13 anos de idade e o outro, de uma garota de 9 ou 10 anos. O garoto estava coberto com 5 mil contas de marfim. Ele usava um chapéu com dentes de raposa e um cinto com 250 dentes desse animal (pelo menos 60 raposas precisaram ter seus dentes removidos para se obter essa quantia). A garota estava adornada com 5,25 mil contas de marfim. Ambas as crianças estavam cercadas por estatuetas e vários objetos de marfim. Um artesão (ou artesã) habilidoso provavelmente precisaria de uns 45 minutos para preparar uma única conta de marfim. Em outras palavras, para fabricar as 10 mil contas de marfim que cobriam as duas crianças, sem mencionar os outros objetos, seriam necessárias aproximadamente 7,5 mil horas de trabalho delicado, bem mais de três anos de trabalho de um artesão experiente!

    É extremamente improvável que, em uma idade tão jovem, as crianças de Sungir tivessem se consolidado como líderes ou caçadoras de mamutes. Somente crenças culturais podem explicar por que receberam um enterro tão extravagante. Uma teoria é que deviam sua posição hierárquica aos pais. Talvez fossem filhos do líder, em uma cultura que acreditava em carisma familiar ou em regras estritas de sucessão. De acordo com uma segunda teoria, as crianças foram identificadas ao nascer como encarnações de espíritos mortos há muito

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    tempo. Uma terceira teoria afirma que o enterro das crianças reflete o modo como morreram, e não seu status em vida. Foram sacrificadas em um ritual – talvez como parte dos ritos funerários do líder – e então enterradas com pompa e circunstância.9 Qualquer que seja a resposta correta, as crianças de Sungir estão entre as evidências mais sólidas de que há 30 mil anos os sapiens eram capazes de inventar códigos sociopolíticos que iam muito além dos ditames do nosso DNA e dos padrões de comportamento de outras espécies de humanos e de animais.

    Paz ou guerra?

    Finalmente, há a questão delicada do papel da guerra nas sociedades de caçadores-coletores. Alguns acadêmicos imaginam as antigas sociedades de caçadores-coletores e argumentam que a guerra e a violência só surgiram com a Revolução Agrícola, quando as pessoas começaram a acumular propriedade privada. Outros estudiosos sustentam que o mundo dos antigos caçadorescoletores era excepcionalmente cruel e violento. Ambas as escolas de pensamento são castelos no ar, conectados à terra pelo fio tênue de restos arqueológicos escassos e observações antropológicas dos caçadores-coletores de nossos dias.

    As evidências arqueológicas são intrigantes, mas muito problemáticas. Os caçadores-coletores de hoje vivem principalmente em áreas isoladas e inóspitas, como o Ártico ou o Kalahari, onde a densidade populacional é muito baixa e as oportunidades de lutar com outras pessoas são limitadas. Além disso, nas gerações recentes, os caçadores-coletores têm sido cada vez mais submetidos à autoridade dos Estados modernos, que evitam a eclosão de conflitos em grande escala. Estudiosos europeus tiveram apenas duas oportunidades de observar populações grandes e relativamente densas de caçadores-coletores independentes: no noroeste da América do Norte no século XIX e no norte da Austrália durante o século XIX e no início do século XX. Tanto as culturas ameríndias quanto as aborígenes australianas testemunharam frequentes conflitos armados. É discutível, porém, se isso representa uma condição atemporal ou o impacto do imperialismo europeu.

    As descobertas arqueológicas são escassas e opacas. Que pistas

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    reveladoras poderiam restar de qualquer guerra acontecida há dezenas de milhares de anos? Não havia muros nem fortificações na época, nem bombas de artilharia ou mesmo espadas e escudos. Uma ponta de lança antiga pode ter sido usada na guerra, mas também pode ter sido usada para caçar. Ossos humanos fossilizados são igualmente difíceis de interpretar. Uma fratura poderia indicar uma ferida de guerra ou um acidente. A ausência de fraturas e cortes em um esqueleto antigo tampouco é prova conclusiva de que a pessoa a quem o esqueleto pertenceu não sofreu uma morte violenta. A morte pode ter sido causada por trauma em tecidos moles, que não deixa marcas nos ossos. O que é ainda mais importante: durante as guerras pré-industriais, mais de 90% das mortes ocorriam por fome, frio e doença, e não por armas. Imagine que há 30 mil anos uma tribo derrotou a tribo vizinha e a expulsou dos cobiçados terrenos propícios para caça e coleta. Na batalha decisiva, dez membros da tribo derrotada foram mortos. No ano seguinte, outra centena de membros da tribo perdedora morreu de fome, frio e doença. Os arqueólogos que se deparassem com esses 110 esqueletos poderiam concluir facilmente que a maioria foi vítima de algum desastre natural. Como poderíamos afirmar que todos eles foram vítimas de uma guerra impiedosa?

    Devidamente alertados, podemos agora nos voltar para as descobertas arqueológicas. Em Portugal, realizou-se um levantamento de 400 esqueletos do período imediatamente anterior à Revolução Agrícola. Apenas dois esqueletos apresentaram marcas nítidas de violência. Um levantamento similar de 400 esqueletos do mesmo período em Israel revelou uma única fratura em um único crânio que poderia ser atribuída a violência humana.

    Um terceiro levantamento de 400 esqueletos de vários sítios pré-agrícolas no vale do Danúbio encontrou indícios de violência em 18 esqueletos. Dezoito em 400 pode não parecer muito, mas na verdade é um percentual muito alto. Se todos os 18 realmente foram mortos de forma violenta, significa que cerca de 4,5% das mortes no antigo vale do Danúbio foram causadas por violência humana. Hoje, a média global é de apenas 1,5%, considerando guerras e crimes.

    Durante o século XX, apenas 5% das mortes humanas resultaram de violência humana – e isso em um século que viu as guerras mais sangrentas e os maiores genocídios da história. Se essa descoberta for representativa, o antigo vale do Danúbio foi tão violento quanto o século XX.[2]

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    A cortina de silêncio

    As descobertas deprimentes sobre o vale do Danúbio são corroboradas por uma sequência de descobertas igualmente deprimentes em outras regiões. Em Jabel Sahaba, no Sudão, descobriu-se um cemitério de 12 mil anos contendo 59 esqueletos. Pontas de flecha e de lança foram encontradas incrustadas ou caídas perto de ossos de 24 esqueletos, 40% dos encontrados. O esqueleto de uma mulher revelou doze ferimentos. Na caverna de Ofnet, na Baviera, os arqueólogos descobriram os restos de 38 caçadores-coletores, em sua maioria mulheres e crianças, que foram atirados em duas valas. Metade dos esqueletos, incluindo alguns de crianças e de bebês, apresentava claros sinais de ferimentos por armas humanas, como porretes e facas. Os poucos esqueletos pertencentes a homens mais maduros tinham as piores marcas de violência. É muito provável que um bando inteiro de caçadores-coletores tenha sido massacrado em Ofnet.

    O que representa melhor o mundo dos antigos caçadores-coletores: os esqueletos pacíficos de Israel e de Portugal ou os matadouros de Jabel Sahaba e Ofnet? A resposta é: nem um, nem outro. Assim como os caçadores-coletores apresentavam uma ampla gama de religiões e estruturas sociais, também provavelmente apresentavam diferentes índices de violência. Enquanto algumas áreas e alguns períodos podem ter desfrutado de paz e tranquilidade, outros possivelmente foram dilacerados por conflitos violentos.10 A cortina de silêncio Se é difícil reconstruir o panorama geral da vida dos antigos caçadores-coletores, os eventos particulares são quase irrecuperáveis. Quando um bando de sapiens adentrou pela primeira vez um vale habitado por neandertais, os anos seguintes talvez tenham testemunhado um drama histórico de tirar o fôlego. Infelizmente, nada teria sobrevivido de tal encontro, exceto, quando muito, uns poucos ossos fossilizados e um punhado de ferramentas de pedra que permanecem mudos diante das mais intensas investigações acadêmicas. Podemos extrair deles informações sobre anatomia humana, tecnologia humana, dieta humana e talvez até mesmo estrutura social humana. Mas eles não revelam nada sobre a aliança política formada entre bandos de sapiens vizinhos, sobre os espíritos dos mortos que abençoavam essa aliança ou sobre as contas de marfim secretamente ofertadas ao curandeiro local a fim de garantir a bênção dos espíritos.

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    Essa cortina de silêncio encobre dezenas de milhares de anos de história.

    Esses longos milênios podem muito bem ter testemunhado guerras e revoluções, movimentos religiosos arrebatadores, teorias filosóficas elaboradas, obras artísticas incomparáveis. Os caçadores-coletores podem ter tido seus Napoleões governando impérios da metade do tamanho de Luxemburgo; Beethovens dotados, carentes de orquestras sinfônicas, mas capazes de levar as pessoas às lágrimas com o som de suas flautas de bambu; e profetas carismáticos que revelavam as palavras de um carvalho da região em vez das de um deus criador universal. Mas isso tudo não passa de conjectura. A cortina de silêncio é tão espessa que não podemos nem mesmo ter certeza de que tais coisas ocorreram – que dirá descrevê-las em detalhe.

    Os acadêmicos tendem a fazer apenas as perguntas que podem esperar responder de modo razoável. A não ser que um dia tenhamos acesso a novas ferramentas de pesquisa, provavelmente nunca saberemos em que acreditavam os antigos caçadores-coletores ou que dramas viveram. Mas é vital fazer perguntas para as quais não há respostas, do contrário poderíamos ser tentados a descartar 60 mil dos 70 mil anos de história humana com a desculpa de que “as pessoas que viveram naquela época não fizeram nada de importante”.

    A verdade é que fizeram muitas coisas importantes. Especificamente, moldaram o mundo à nossa volta de forma mais profunda do que a maior parte das pessoas se dá conta. Os peregrinos que visitam a tundra siberiana, os desertos da Austrália central e a floresta tropical amazônica acreditam que adentraram paisagens inexploradas, praticamente intocadas por mãos humanas. Mas isso é uma ilusão. Os antigos caçadores-coletores estiveram lá antes de nós e provocaram mudanças drásticas, mesmo nas florestas mais densas e nos desertos mais desolados. O próximo capítulo explica como os antigos caçadores-coletores remodelaram completamente a ecologia do nosso planeta muito antes de a primeira aldeia agrícola ser construída. Os bandos errantes de sapiens contadores de histórias foram a força mais importante e mais destrutiva que o reino animal já produziu.

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    [1] Um “horizonte de possibilidades” significa todo o espectro de crenças, práticas e experiências que se apresentam diante de determinada sociedade, considerando suas limitações ecológicas, tecnológicas e culturais. Cada sociedade e cada indivíduo normalmente explora apenas uma pequena fração de seu horizonte de possibilidades.

    [2] Pode-se argumentar que decerto nem todos os dezoito caçadores-coletores do vale do Danúbio realmente morreram da violência cujas marcas podem ser observadas em seus restos. Alguns podem ter sido meramente feridos. No entanto, isso provavelmente é contrabalançado por mortes decorrentes de traumas em tecidos moles e das privações invisíveis que acompanham a guerra.

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    4. A inundação

    A inundação ANTES DA REVOLUÇÃO COGNITIVA, HUMANOS DE TODAS AS ESPÉCIES VIVIAM exclusivamente no continente afro-asiático. É verdade, eles povoaram algumas ilhas atravessando curtas distâncias de água a nado ou em jangadas improvisadas. A ilha de Flores, por exemplo, foi colonizada há 850 mil anos. Mas esses humanos eram incapazes de se aventurar no mar aberto, e nenhum deles chegou à América, à Austrália ou a ilhas remotas como Madagascar, Nova Zelândia ou Havaí.

    A barreira marítima impediu não só os humanos como também muitos outros animais afro-asiáticos de chegarem a esse “Mundo Exterior”. Em consequência, os organismos de terras distantes como Austrália e Madagascar evoluíram em isolamento por milhões e milhões de anos, assumindo formas e características muito diferentes das de seus distantes parentes afro-asiáticos. O planeta Terra era dividido em vários ecossistemas distintos, cada um deles composto de um conjunto singular de animais e de plantas. O Homo sapiens esteve prestes a pôr um fim a essa exuberância biológica.

    Após a Revolução Cognitiva, os sapiens adquiriram a tecnologia, as habilidades organizacionais e, talvez, até mesmo a visão necessária para sair do continente afro-asiático e povoar o Mundo Exterior. Sua primeira conquista foi a colonização da Austrália há cerca de 45 mil anos. Os especialistas são pressionados a explicar esse feito. Para chegar à Austrália, os humanos precisaram atravessar uma série de canais marítimos, alguns com mais de cem quilômetros de largura, e em seguida se adaptar praticamente da noite para o dia a um ecossistema completamente novo.

    A teoria mais razoável afirma que, há cerca de 45 mil anos, os sapiens que habitavam o arquipélago indonésio (um grupo de ilhas separadas da Ásia e umas das outras por estreitos) desenvolveram as primeiras sociedades de marinheiros.

    Eles aprenderam a construir e a manobrar navios transoceânicos e se tornaram pescadores, comerciantes e exploradores de longa distância. Isso teria acarretado uma transformação sem precedentes nas habilidades e no estilo de vida humanos. Um em cada dois mamíferos que foram para o mar – focas, peixesboi, golfinhos – teve de evoluir por um longo período para desenvolver órgãos

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    especializados e um corpo hidrodinâmico. Os sapiens na Indonésia, descendentes dos macacos que viveram na savana africana, se tornaram marinheiros do Pacífico sem o desenvolvimento de nadadeiras e sem ter de esperar que seu nariz migrasse para o alto da cabeça como fizeram as baleias. Em vez disso, construíram barcos e aprenderam a navegá-los. E tais habilidades lhes permitiram chegar à Austrália e lá se estabelecer.

    É verdade que os arqueólogos ainda não encontraram jangadas, remos ou aldeias de pescadores de 45 mil anos atrás (seria difícil descobri-los, porque o nível do mar, cada vez mais elevado, enterrou a antiga costa indonésia sob cem metros de oceano). Entretanto, há sólidas evidências circunstanciais para corroborar essa teoria, especialmente o fato de que, nos milhares de anos que se seguiram ao povoamento da Austrália, os sapiens colonizaram uma série de ilhas isoladas ao norte. Algumas, como Buka e Manus, eram separadas da terra mais próxima por 200 quilômetros de mar aberto. É difícil acreditar que alguém poderia ter chegado a Manus e a colonizado sem contar com navios e habilidades de navegação sofisticados. Conforme mencionado anteriormente, também há sólidas evidências de um comércio marítimo regular entre algumas dessas ilhas, como a Nova Irlanda e a Nova Bretanha.1 A jornada dos primeiros humanos à Austrália é um dos acontecimentos mais importantes da história, pelo menos tão importante quanto a viagem de Colombo à América ou a expedição da Apollo 11 à Lua. Foi a primeira vez que um humano conseguiu deixar o sistema ecológico afro-asiático – na verdade, a primeira vez que um grande mamífero terrestre conseguiu ir desse continente à Austrália. Ainda mais importante foi o que os pioneiros humanos fizeram nesse novo mundo. O momento em que o primeiro caçador-coletor pôs os pés no litoral australiano foi o momento em que o Homo sapiens subiu ao topo da cadeia alimentar num território específico e a partir daí se tornou a espécie mais mortífera do planeta Terra.

    Até então os humanos haviam apresentado alguns comportamentos e adaptações inovadores, mas seu efeito sobre o ambiente fora insignificante. Eles haviam demonstrado sucesso notável ao se adaptar em vários habitats, mas o fizeram sem mudar drasticamente esses habitats. Os povoadores da Austrália, ou, mais precisamente, seus conquistadores, não simplesmente se adaptaram; eles transformaram o ecossistema australiano de tal forma que já não seria possível

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    reconhecê-lo.

    A primeira pegada humana nas areias de uma praia australiana foi imediatamente apagada pelas ondas. Mas ao penetrar o continente, os invasores deixavam para trás uma pegada diferente, que jamais seria apagada. À medida que prosseguiram, encontraram um universo estranho de criaturas desconhecidas que incluía um canguru de 200 quilos e 2 metros de altura e um leão-marsupial, grande como um tigre moderno, que foi o maior predador do continente. Coalas grandes demais para serem fofinhos e mimosos farfalhavam nas árvores, e aves com o dobro do tamanho de avestruzes corriam pelas planícies. Lagartos similares a dragões e cobras com 5 metros de comprimento se arrastavam pela terra. O diprotodonte, um vombate de 2,5 toneladas, vagava pelas florestas. Com a exceção das aves e dos répteis, todos esses animais eram marsupiais – como os cangurus, davam à luz bebês minúsculos e indefesos com aparência de fetos, que então eles nutriam com leite em suas bolsas abdominais. Os mamíferos marsupiais eram praticamente desconhecidos na África e na Ásia, mas na Austrália reinavam absolutos.

    Em alguns milhares de anos, virtualmente todos esses gigantes desapareceram. Das 24 espécies animais australianas pesando 50 quilos ou mais, 23 foram extintas.2 Um grande número de espécies menores também desapareceu. Cadeias alimentares em todo o ecossistema australiano foram quebradas e reorganizadas. Foi a transformação mais importante do ecossistema australiano em milhões de anos. Foi tudo culpa do Homo sapiens?

    Declarados culpados

    Alguns acadêmicos tentam exonerar nossa espécie, colocando a culpa nas excentricidades do clima (o bode expiatório usual em casos como esse). Mas é difícil acreditar que o Homo sapiens tenha sido completamente inocente. Há três evidências que enfraquecem o álibi climático e implicam nossos ancestrais na extinção da megafauna australiana.

    Em primeiro lugar, embora o clima australiano tenha mudado há cerca de 45 mil anos, não foi uma reviravolta muito marcante. É difícil conceber como os novos padrões climáticos, por si sós, poderiam ter causado uma extinção tão generalizada. Hoje, é comum explicar tudo como consequência de mudanças

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    climáticas, mas a verdade é que o clima da Terra nunca para. Está em fluxo constante. Todo acontecimento na história teve como pano de fundo alguma mudança climática.

    Em particular, nosso planeta passou por vários ciclos de resfriamento e aquecimento. Durante o último milhão de anos, houve uma era glacial aproximadamente a cada 100 mil anos. A última durou mais ou menos de 75 mil a 15 mil anos atrás. De maneira não atipicamente severa para uma era glacial, teve dois picos, o primeiro há cerca de 70 mil anos e o segundo há cerca de 20 mil anos. O diprotodonte apareceu na Austrália há mais de 1,5 milhão de anos e tinha conseguido resistir a pelo menos dez outras eras glaciais. Também sobreviveu ao primeiro pico da última era glacial, há cerca de 70 mil anos. Por que, então, desapareceu há 45 mil anos? É claro, se os diprotodontes fossem os únicos animais grandes a terem desaparecido nessa época, poderia ter sido apenas um acaso. No entanto, mais de 90% da megafauna australiana desapareceu junto com o diprotodonte. As evidências são circunstanciais, mas é difícil imaginar que os sapiens, por mera coincidência, tenham chegado à Austrália no momento exato em que todos esses animais estavam morrendo de frio.3 Em segundo lugar, quando a mudança climática causa extinções em massa, as criaturas marinhas normalmente são tão atingidas quanto as terrestres.

    Mas não há indícios de um desaparecimento significativo da fauna oceânica há 45 mil anos. O envolvimento humano pode explicar facilmente por que a onda de extinção destruiu a megafauna terrestre da Austrália ao mesmo tempo em que poupou a dos oceanos à sua volta. Apesar de suas habilidades de navegação, o Homo sapiens ainda era predominantemente uma ameaça terrestre.

    Em terceiro lugar, extinções em massa similares a essa dizimação australiana arquetípica ocorreram repetidas vezes nos milênios seguintes – onde quer que as pessoas se estabelecessem em outra parte do Mundo Exterior. Nesses casos, a culpa dos sapiens é irrefutável. Por exemplo, a megafauna da Nova Zelândia – que sobrevivera à suposta “mudança climática” de cerca de 45 mil anos atrás sem um único arranhão – sofreu golpes devastadores imediatamente depois que os primeiros humanos puseram os pés nas ilhas. Os maoris, os primeiros colonizadores sapiens da Nova Zelândia, chegaram às ilhas há cerca de 800 anos. Em poucos séculos, a maior parte da megafauna local foi extinta,

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    junto com 60% de todas as espécies de pássaros.

    Um destino similar acometeu a população de mamutes da ilha de Wrangel, no oceano Ártico (200 quilômetros ao norte da costa siberiana). Os mamutes prosperaram por milhões de anos na maior parte do hemisfério norte, mas, quando o Homo sapiens se espalhou – primeiro pela Eurásia e depois pela América do Norte –, eles recuaram. Há 10 mil anos, não havia um único mamute a ser encontrado no mundo, exceto em algumas poucas ilhas remotas no Ártico, mais notadamente na de Wrangel. Os mamutes de Wrangel continuaram a prosperar por mais alguns milênios e então desapareceram de maneira abrupta há cerca de 4 mil anos, justo quando os primeiros humanos chegaram à ilha.

    Se a extinção australiana fosse um acontecimento isolado, poderíamos conceder aos humanos o benefício da dúvida. Mas o registro histórico faz o Homo sapiens parecer um assassino em série da ecologia.

    Tudo o que os povoadores da Austrália tinham à sua disposição era a tecnologia da Idade da Pedra. Como poderiam causar um desastre ecológico? Há três explicações que se complementam.

    Os animais grandes – as principais vítimas da extinção australiana – procriam devagar. A gestação é longa, a quantidade de filhotes por gestação é pequena e há longos intervalos entre uma gestação e outra. Em consequência, mesmo se os humanos abatessem um único diprotodonte a cada poucos meses, seria suficiente para fazer com que o número de mortes de diprotodonte fosse superior ao número de nascimentos. Em alguns milhares de anos, o último diprotodonte solitário morreria e, com ele, a espécie inteira.4 De fato, apesar do seu tamanho, os diprotodontes e outros animais gigantes da Austrália provavelmente não eram muito difíceis de se caçar, porque devem ter sido pegos totalmente de surpresa por seus assaltantes bípedes. Várias espécies humanas estiveram perambulando e evoluindo no continente afroasiático por 2 milhões de anos. Elas aperfeiçoaram lentamente suas habilidades de caça e começaram a perseguir animais grandes por volta de 400 mil anos atrás. Os maiores animais da África e da Ásia aprenderam a evitar os humanos, de forma que, quando o novo megapredador – Homo sapiens – surgiu na cena afro-asiática, os animais grandes já sabiam como manter distância de criaturas semelhantes a ele. Já os gigantes australianos não tiveram tempo de aprender a fugir. Os humanos não aparentam ser particularmente perigosos. Eles não têm

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    dentes longos e afiados nem corpo ágil e musculoso. Assim, quando um diprotodonte, o maior marsupial a caminhar pela Terra, pela primeira vez pôs os olhos nesse primata de aparência frágil, ele provavelmente logo virou as costas e continuou mastigando suas folhas. Esses animais ainda precisavam desenvolver medo dos seres humanos, mas foram extintos antes que pudessem fazê-lo.

    A segunda explicação é que, quando os sapiens chegaram à Austrália, já tinham dominado a técnica da queimada. Diante de um ambiente estranho e hostil, deliberadamente queimaram grandes áreas de florestas densas e bosques impenetráveis a fim de criar campos abertos, que atraíam animais mais fáceis de se caçar e eram mais adequados às suas necessidades. Desse modo, em poucos milênios eles mudaram totalmente a ecologia de grandes regiões da Austrália.

    Um conjunto de evidências que corroboram essa visão é o registro fóssil de plantas. Árvores de eucalipto eram raras na Austrália há 45 mil anos. Mas a chegada do Homo sapiens inaugurou uma era de ouro para essa espécie. Como são especialmente resistentes ao fogo, os eucaliptos se espalharam por toda parte, enquanto outras árvores e arbustos desapareceram.

    Essas mudanças na vegetação influenciaram os animais que comiam as plantas e os carnívoros que comiam os herbívoros. Os coalas, que subsistiam exclusivamente de folhas de eucalipto, prosperaram nos novos territórios. A maioria dos outros animais foi muitíssimo afetada. Muitas cadeias alimentares australianas foram destruídas, levando os elos mais frágeis à extinção.5 Uma terceira explicação admite que a caça e a queimada exerceram um papel significativo na extinção, mas enfatiza que não podemos ignorar completamente o papel do clima. As mudanças climáticas que atingiram a Austrália por volta de 45 mil anos atrás desestabilizaram o ecossistema e o tornaram particularmente vulnerável. Em circunstâncias normais, o sistema provavelmente teria se recuperado, como acontecera muitas vezes antes. No entanto, os humanos entraram em cena exatamente nesse momento crítico e empurraram o frágil ecossistema para o abismo. A combinação de mudança climática e caça humana é especialmente devastadora para animais grandes, já que os ataca por diferentes ângulos. É difícil encontrar uma boa estratégia de sobrevivência que funcione simultaneamente diante de múltiplas ameaças.

    Sem dispor de mais evidências, não há como decidir entre os três cenários.

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    Mas certamente há boas razões para acreditar que, se o Homo sapiens nunca tivesse pisado na Austrália, esta ainda seria o lar de leões-marsupiais, diprotodontes e cangurus-gigantes.

    O fim da preguiça

    A extinção da megafauna australiana foi provavelmente a primeira marca significativa que o Homo sapiens deixou em nosso planeta. Foi seguida de um desastre ecológico ainda maior, desta vez na América. O Homo sapiens foi a primeira e única espécie humana a chegar ao continente no hemisfério ocidental, há cerca de 16 mil anos, ou seja, por volta de 14000 a.C. Os primeiros americanos chegaram a pé, o que foi possível porque, na época, o nível do mar era baixo o suficiente para que uma ponte de terra conectasse o nordeste da Sibéria com o noroeste do Alasca. Não que tenha sido fácil – a jornada foi árdua, talvez ainda mais difícil do que a travessia marítima para a Austrália. Para empreendê-la, os sapiens primeiro precisaram aprender a suportar as condições climáticas extremas do norte da Sibéria, uma área em que o sol nunca aparece no inverno e onde a temperatura pode cair para -50ºC.

    Nenhuma espécie humana anterior havia conseguido penetrar em lugares como o norte da Sibéria. Mesmo os neandertais, adaptados ao frio, se restringiram a regiões de clima relativamente mais brando, mais ao sul. Mas o Homo sapiens, cujo corpo estava adaptado para viver na savana africana, e não em terras de neve e gelo, concebeu soluções engenhosas. Quando bandos de sapiens caçadores-coletores migraram para climas cada vez mais frios, eles aprenderam a fazer sapatos para neve e roupas térmicas eficazes compostas de camadas de pele de animal, costuradas firmemente com a ajuda de agulhas.

    Eles desenvolveram novas armas e técnicas de caça sofisticadas que lhes permitiram perseguir e abater mamutes e os outros grandes animais de caça do extremo norte. À medida que suas roupas térmicas e suas técnicas de caça foram aprimoradas, os sapiens ousaram se embrenhar cada vez mais nas regiões glaciais. E, conforme avançavam para o norte, suas roupas, estratégias de caça e outras técnicas de sobrevivência continuaram a se aperfeiçoar.

    Mas por que eles se deram ao trabalho? Por que se autoexilar na Sibéria?

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    Talvez alguns bandos tenham sido impelidos para o norte em decorrência de guerras, pressões demográficas ou desastres naturais. Outros talvez tenham sido atraídos para as regiões setentrionais por razões mais prementes, como a proteína animal. As terras do Ártico estavam cheias de animais grandes e carnudos, como renas e mamutes. Cada mamute era fonte de uma vasta quantidade de carne (que, considerando-se as temperaturas glaciais, podia inclusive ser congelada para mais tarde), gordura saborosa, pele quente e marfim valioso. Como atestam as descobertas em Sungir, os caçadores de mamute não apenas sobreviveram no norte glacial – eles prosperaram. Com o passar do tempo, os bandos se espalharam, perseguindo mamutes, mastodontes, rinocerontes e renas. Por volta de 14000 a.C., a perseguição levou alguns deles do nordeste da Sibéria ao Alasca.

    É claro que eles não sabiam que estavam descobrindo um novo mundo. Tanto para os mamutes como para os homens, o Alasca era uma mera extensão da Sibéria.

    No início, as geleiras bloquearam o caminho do Alasca para o resto da América, possibilitando que não mais do que alguns poucos pioneiros isolados explorassem as terras mais ao sul. No entanto, por volta de 12000 a.C., o aquecimento global derreteu o gelo e abriu uma passagem mais fácil. Fazendo uso do novo corredor, as pessoas migraram em massa para o sul, espalhando-se por todo o continente. Embora originalmente adaptadas para caçar animais grandes no Ártico, logo se ajustaram a uma incrível variedade de climas e ecossistemas. Os descendentes dos siberianos povoaram as florestas densas do leste dos Estados Unidos, os pântanos do delta do Mississippi, os desertos do México e as florestas escaldantes da América Central. Alguns se instalaram no mundo fluvial da bacia do rio Amazonas, outros criaram raízes nos vales das montanhas andinas ou nos pampas abertos da Argentina. E tudo isso aconteceu em apenas um ou dois milênios! Em 10000 a.C., os humanos já habitavam o ponto mais meridional da América, a ilha da Terra do Fogo, no extremo sul do continente. O ataque-relâmpago dos humanos à América atesta a engenhosidade incomparável e a adaptabilidade insuperável do Homo sapiens. Nenhum outro animal migrou tão depressa para uma variedade tão grande de habitats diferentes, usando, em toda parte, praticamente os mesmos genes.6 O povoamento da América não ocorreu sem derramamento de sangue.

    Deixou para trás um longo rastro de vítimas. A fauna americana há 14 mil anos

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    era muito mais rica do que hoje. Quando os primeiros americanos marcharam rumo ao sul, do Alasca para as planícies do Canadá e o oeste dos Estados Unidos, encontraram mamutes e mastodontes, roedores do tamanho de ursos, rebanhos de cavalos e de camelos, leões gigantes e dezenas de espécies grandes que são completamente desconhecidas em nossos dias, entre as quais os temíveis tigresdentes-de-sabre e as preguiças-gigantes, que chegavam a pesar 8 toneladas e podiam ter até 6 metros de altura. A América do Sul abrigava uma coleção ainda mais exótica de grandes mamíferos, répteis e aves. As Américas eram um grande laboratório de experimentação evolutiva, um lugar em que animais e plantas desconhecidos na África e na Ásia haviam evoluído e prosperado.

    Mas não mais. Dois mil anos após a chegada dos sapiens, a maioria dessas espécies singulares havia desaparecido. De acordo com as estimativas atuais, nesse curto intervalo a América do Norte perdeu 34 de seus 47 gêneros de grandes mamíferos. A América do Sul perdeu 50 de 60. Os tigres-dentes-desabre, depois de florescer por mais de 30 milhões de anos, desapareceram, tal como as preguiças-gigantes, os leões-americanos, os cavalos e camelos nativos do continente, os roedores gigantes e os mamutes. Milhares de espécies de mamíferos menores, répteis, aves e até mesmo insetos e parasitas também se extinguiram (quando os mamutes morreram, todas as espécies de carrapatos de mamute tiveram o mesmo destino).

    Há décadas, paleontólogos e zooarqueólogos – pessoas que procuram e estudam restos de animais – vasculham as planícies e montanhas das Américas em busca de ossos fossilizados de camelos antigos e de fezes petrificadas de preguiças-gigantes. Quando encontram o que procuram, os tesouros são cuidadosamente embalados e enviados para laboratórios, onde cada osso e cada coprólito (o nome técnico para as fezes fossilizadas) é meticulosamente estudado e datado. De tempos em tempos, essas análises produzem os mesmos resultados:

    os coprólitos mais novos e os ossos de camelo mais recentes datam do mesmo período em que os humanos inundaram a América, isto é, entre aproximadamente 12000 e 9000 a.C. Somente em uma região os cientistas descobriram coprólitos mais novos: em várias ilhas do Caribe, em particular Cuba e Hispaniola, eles encontraram excrementos petrificados de preguiçagigante datando de cerca de 5000 a.C. Foi exatamente nessa época em que os primeiros humanos conseguiram atravessar o mar do Caribe e povoar as duas

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    A arca de Noé

    grandes ilhas.

    Mais uma vez, alguns acadêmicos tentam exonerar o Homo sapiens e culpar as mudanças climáticas (para isso é necessário postular que, por alguma razão misteriosa, o clima nas ilhas caribenhas permaneceu inalterado por 7 mil anos, enquanto o resto do hemisfério ocidental se aqueceu). Mas, na América, as fezes fossilizadas não podem ser ignoradas. Somos os culpados. Não há como escapar a essa verdade. Mesmo que mudanças climáticas tenham nos ajudado, a contribuição humana foi decisiva.7 A arca de Noé Se juntarmos as extinções em massa na Austrália e na América e acrescentarmos as extinções em menor escala que aconteceram enquanto o Homo sapiens se espalhava pela África e pela Ásia – tais como a extinção de todas as outras espécies humanas – e as que ocorreram quando os antigos caçadores-coletores povoaram ilhas remotas como Cuba, a conclusão inevitável é que a primeira onda de colonização dos sapiens foi um dos maiores e mais rápidos desastres ecológicos a acometer o reino animal. Mais duramente atingidos foram as grandes criaturas peludas. Na época da Revolução Cognitiva, o planeta abrigava cerca de 200 gêneros de grandes mamíferos terrestres pesando mais de 50 quilos. Na época da Revolução Agrícola, restavam apenas cem. O Homo sapiens levou à extinção cerca de metade dos grandes animais do planeta muito antes de os humanos inventarem a roda, a escrita ou ferramentas de ferro.

    Essa tragédia ecológica foi reencenada em miniatura inúmeras vezes depois da Revolução Agrícola. O registro arqueológico de ilha após ilha conta a mesma história triste. A tragédia começa com uma cena mostrando uma população rica e variada de grandes animais, sem vestígio algum de humanos.

    Na cena dois, os sapiens aparecem, evidenciados por um osso humano, uma ponta de lança ou, talvez, um pedaço de um utensílio de cerâmica. Logo vem a cena três, em que homens e mulheres ocupam o centro do palco e a maioria dos animais grandes, junto com muitos dos menores, desapareceu.

    A grande ilha de Madagascar, a uns 400 quilômetros a leste do continente africano, oferece um exemplo famoso. Ao longo de milhões de anos de

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    isolamento, desenvolveu-se ali uma coleção singular de animais. Entre eles encontravam-se o pássaro-elefante, uma criatura incapaz de voar, com 3 metros de altura e pesando quase meia tonelada – a maior ave do mundo – e os lêmuresgigantes, os maiores primatas do globo. Os pássaros-elefantes e os lêmuresgigantes, junto com a maioria dos outros grandes animais de Madagascar, desapareceram de maneira abrupta há cerca de 1,5 mil anos – precisamente quando os primeiros humanos puseram os pés na ilha.

    No oceano Pacífico, a principal onda de extinção começou por volta de 1500 a.C., quando agricultores polinésios se estabeleceram nas ilhas Salomão, Fiji e Nova Caledônia. Eles exterminaram, direta ou indiretamente, centenas de espécies de aves, insetos, caracóis e outros habitantes locais. Dali, a onda de extinção avançou gradativamente para o leste, o sul e o norte, até o coração do oceano Pacífico, eliminando, no caminho, a fauna peculiar de Samoa e Tonga (1200 a.C.); as ilhas Marquesas (1); a ilha de Páscoa, as ilhas Cook e o Havaí (500); e por fim a Nova Zelândia (1200).

    Desastres ecológicos similares ocorreram em praticamente cada uma das milhares de ilhas que pontilham o oceano Atlântico, o oceano Índico, o oceano Ártico e o mar Mediterrâneo. Os arqueólogos descobriram, até mesmo nas ilhas menores, indícios da existência de aves, insetos e caracóis que viveram lá por inúmeras gerações e só desapareceram quando os primeiros agricultores humanos chegaram. Apenas algumas poucas ilhas extremamente remotas escaparam do olhar do homem até a idade moderna, e essas ilhas mantiveram sua fauna intacta. As ilhas Galápagos, para dar um exemplo famoso, permaneceram inabitadas por humanos até o século XIX, preservando assim sua coleção única, incluindo suas tartarugas-gigantes, que, como os antigos diprotodontes, não têm medo de humanos.

    A Primeira Onda de Extinção, que acompanhou a disseminação dos caçadores-coletores, foi seguida pela Segunda Onda de Extinção, que acompanhou a disseminação dos agricultores e nos dá uma perspectiva importante sobre a Terceira Onda de Extinção, que a atividade industrial está causando hoje. Não acredite nos abraçadores de árvores que afirmam que nossos ancestrais viveram em harmonia com a natureza. Muito antes da Revolução Industrial, o Homo sapiens já era o recordista, entre todos os organismos, em levar as espécies de plantas e animais mais importantes à

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    extinção. Temos a honra duvidosa de ser a espécie mais mortífera nos anais da biologia.

    Talvez se mais pessoas estivessem cientes da Primeira e da Segunda Onda de Extinção, seriam menos indiferentes à Terceira Onda, da qual fazem parte. Se soubéssemos quantas espécies já erradicamos, poderíamos ser mais motivados a proteger as que ainda sobrevivem. Isso é especialmente relevante para os grandes animais dos oceanos. Ao contrário de seus equivalentes terrestres, os grandes animais marinhos sofreram relativamente pouco com a Revolução Cognitiva e a Revolução Agrícola. Mas hoje muitos deles estão prestes a se extinguirem em consequência da poluição industrial e do uso excessivo dos recursos oceânicos por parte dos humanos. Se as coisas prosseguirem no ritmo atual, é provável que baleias, tubarões, atuns e golfinhos sigam os diprotodontes, as preguiças-gigantes e os mamutes rumo ao desaparecimento. De todas as grandes criaturas do mundo, os únicos sobreviventes da inundação humana serão os próprios humanos e os animais domésticos que servem como escravos nas galés da Arca de Noé.

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    Parte 2: A Revolução Agrícola

    Parte dois A Revolução Agrícola

    9. Pintura rupestre de um túmulo egípcio, datada de aproximadamente 3,5 mil anos atrás, retratando cenas agrícolas típicas.

    Imagem 1 da página 83 (sem descrição)

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    5. A maior fraude da história

    A maior fraude da história DURANTE 2,5 MILHÕES DE ANOS, OS HUMANOS SE ALIMENTARAM COLETANDO plantas e caçando animais que viviam e procriavam sem sua intervenção. O Homo erectus, o Homo ergaster e os neandertais colhiam figos silvestres e caçavam ovelhas selvagens sem decidir onde as figueiras criariam raízes, em que campina um rebanho de ovelhas deveria pastar ou que bode inseminaria que cabra. O Homo sapiens se espalhou do leste da África para o Oriente Médio, a Europa e a Ásia e finalmente para a Austrália e a América – mas, a todo lugar que ia, também continuava a viver coletando plantas silvestres e caçando animais selvagens. Por que fazer outra coisa se seu estilo de vida fornece alimento abundante e sustenta um mundo repleto de estruturas sociais, crenças religiosas e dinâmica política?

    Tudo isso mudou há cerca de 10 mil anos, quando os sapiens começaram a dedicar quase todo seu tempo e esforço a manipular a vida de algumas espécies de plantas e de animais. Do amanhecer ao entardecer, os humanos espalhavam sementes, aguavam plantas, arrancavam ervas daninhas do solo e conduziam ovelhas a pastos escolhidos. Esse trabalho, pensavam, forneceria mais frutas, grãos e carne. Foi uma revolução na maneira como os humanos viviam – a Revolução Agrícola.

    A transição para a agricultura começou por volta de 9500-8500 a.C. no interior montanhoso do sudeste da Turquia, no oeste do Irã e no Levante.

    Começou devagar em uma área geográfica restrita. Trigo e bodes foram domesticados por volta de 9000 a.C.; ervilhas e lentilhas, em torno de 8000 a.C.; oliveiras, cerca de 5000 a.C.; cavalos, por volta de 4000 a.C.; e videiras, em 3500 a.C. Alguns animais e sementes, como camelos e castanhas-de-caju, foram domesticados ainda mais tarde, mas em 3500 a.C. a principal onda de domesticação havia chegado ao fim. Mesmo hoje, com toda a nossa tecnologia avançada, mais de 90% das calorias que alimentam a humanidade vêm do punhado de plantas que nossos ancestrais domesticaram entre 9500 e 3500 a.C. – trigo, arroz, milho, batata, painço e cevada. Nenhuma planta ou animal importante foi domesticado nos últimos 2 mil anos. Se nossa mente é a dos caçadores-coletores, nossa culinária é a dos antigos agricultores.

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    Os acadêmicos um dia acreditaram que a agricultura se espalhou de um único ponto de origem no Oriente Médio para os quatro cantos do mundo. Hoje, os estudiosos concordam que a agricultura surgiu em outras partes do mundo não pela ação dos agricultores do Oriente Médio exportando sua revolução, e sim de modo totalmente independente. Povos na América Central domesticaram milho e feijão sem saber nada a respeito do cultivo de trigo e ervilha no Oriente Médio.

    Os sul-americanos aprenderam a domesticar batata e lhamas sem saber o que estava acontecendo no México nem no Levante. Os primeiros revolucionários da China domesticaram arroz, painço e porcos. Os primeiros agricultores da América do Norte foram os que se cansaram de vasculhar o subsolo à procura de abóboras comestíveis e decidiram cultivar abóbora. Os habitantes da Nova Guiné domesticaram a cana-de-açúcar e a banana, ao passo que os primeiros fazendeiros da África Ocidental produziam painço africano, arroz africano, sorgo e trigo conforme suas necessidades. Desses pontos iniciais, a agricultura se espalhou para o mundo inteiro. No século I da era cristã, a grande maioria dos povos na maior parte do mundo era de agricultores.

    Por que irromperam revoluções agrícolas no Oriente Médio, na China e na América Central, mas não na Austrália, no Alasca ou na África do Sul? A razão é simples: a maioria das espécies de plantas e de animais não pode ser domesticada. Os sapiens podiam desenterrar trufas deliciosas e caçar mamutes lanudos, mas domesticar qualquer uma dessas espécies estava fora de questão.

    Os fungos eram esquivos demais, os animais gigantes eram ferozes demais. Dos milhares de espécies que nossos ancestrais caçaram e coletaram, apenas algumas eram candidatas adequadas para a agricultura e o pastoreio. Essas poucas espécies se situavam em lugares específicos, e esses são os lugares onde as revoluções agrícolas ocorreram.

    Acadêmicos um dia declararam que a Revolução Agrícola foi um grande salto para a humanidade. Eles contaram uma história de progresso alimentado pela capacidade intelectual humana. A evolução, pouco a pouco, produziu pessoas cada vez mais inteligentes. As pessoas acabaram por se tornar tão inteligentes que foram capazes de decifrar os segredos da natureza, o que lhes permitiu domar ovelhas e cultivar trigo. Assim que isso ocorreu, elas abandonaram alegremente a vida espartana, perigosa e muitas vezes parca dos caçadores-coletores, estabelecendo-se em uma região para aproveitar a vida

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    farta e agradável dos agricultores.

    Mapa 2. Locais e datas das revoluções agrícolas. A data é controversa, e o mapa está sendo redesenhado constantemente para incorporar as últimas descobertas arqueológicas.1 Essa história é uma fantasia. Não há indícios de que as pessoas tenham se tornado mais inteligentes com o tempo. Os caçadores-coletores conheciam os segredos da natureza muito antes da Revolução Agrícola, já que sua sobrevivência dependia de um conhecimento íntimo dos animais que eles caçavam e das plantas que coletavam. Em vez de prenunciar uma nova era de vida tranquila, a Revolução Agrícola proporcionou aos agricultores uma vida em geral mais difícil e menos gratificante que a dos caçadores-coletores. Estes passavam o tempo com atividades mais variadas e estimulantes e estavam menos expostos à ameaça de fome e doença. A Revolução Agrícola certamente aumentou o total de alimentos à disposição da humanidade, mas os alimentos extras não se traduziram em uma dieta melhor ou em mais lazer. Em vez disso, se traduziram em explosões populacionais e elites favorecidas. Em média, um agricultor trabalhava mais que um caçador-coletor e obtinha em troca uma dieta pior. A Revolução Agrícola foi a maior fraude da história.2 Quem foi responsável? Nem reis, nem padres, nem mercadores. Os

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    culpados foram um punhado de espécies vegetais, entre as quais o trigo, o arroz e a batata. As plantas domesticaram o Homo sapiens, e não o contrário.

    Pense por um instante na Revolução Agrícola do ponto de vista do trigo. Há dez mil anos, o trigo era apenas uma gramínea silvestre, uma de muitas, confinada a uma pequena região do Oriente Médio. De repente, em apenas alguns milênios, estava crescendo no mundo inteiro. De acordo com os critérios evolutivos elementares de sobrevivência e reprodução, o trigo se tornou uma das plantas mais prósperas na história do planeta. Em áreas como as Grandes Planícies da América do Norte, onde há 10 mil anos não crescia um único pé de trigo, hoje podemos caminhar por centenas e centenas de quilômetros sem encontrar nenhuma outra planta. No mundo inteiro, o trigo cobre cerca de 2,25 milhões de quilômetros quadrados da superfície do globo, quase dez vezes o tamanho da Grã-Bretanha. Como essas gramíneas passaram de insignificantes a onipresentes?

    O trigo fez isso manipulando o Homo sapiens a seu bel-prazer. Esse primata vivia uma vida confortável como caçador-coletor até por volta de 10 mil anos atrás, quando começou a dedicar cada vez mais esforços ao cultivo do trigo. Em poucos milênios, os humanos em muitas partes do mundo estavam fazendo não muito mais do que cuidar de plantas de trigo do amanhecer ao entardecer.

    Não foi fácil. O trigo demandou muito deles. O trigo não gostava de rochas nem pedregulhos, e por isso os sapiens deram duro para limpar os campos. O trigo não gostava de dividir espaço, água e nutrientes com outras plantas, e assim homens e mulheres trabalharam longas jornadas sob o sol abrasador eliminando ervas daninhas. O trigo ficava doente, e por isso os sapiens tinham de ficar de olho em vermes e pragas. O trigo era atacado por coelhos e nuvens de gafanhotos, então os agricultores construíram cercas e passaram a vigiar os campos. O trigo tinha sede, então os humanos cavaram canais de irrigação ou passaram a carregar baldes pesados de poços para regá-lo. Os sapiens até mesmo passaram a coletar fezes de animais para nutrir o solo em que ele crescia.

    O corpo do Homo sapiens não havia evoluído para tais tarefas. Estava adaptado para subir em macieiras e correr atrás de gazelas, não para remover rochas e carregar baldes de água. A coluna, os joelhos, o pescoço e os arcos plantares dos humanos pagaram o preço. Estudos de esqueletos antigos indicam

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    que a transição para a agricultura causou uma série de males, como deslocamento de disco, artrite e hérnia. Além disso, as novas tarefas agrícolas demandavam tanto tempo que as pessoas eram forçadas a se instalar permanentemente ao lado de seus campos de trigo. Isso mudou por completo seu estilo de vida. Nós não domesticamos o trigo; o trigo nos domesticou. A palavra “domesticar” vem do latim domus, que significa “casa”. Quem é que estava vivendo em uma casa? Não o trigo. Os sapiens.

    Como o trigo convenceu o Homo sapiens a trocar uma vida boa por uma existência mais miserável? O que ofereceu em troca? Não ofereceu uma dieta melhor. Lembre-se, os humanos são primatas onívoros, que prosperam com uma grande variedade de alimentos. Antes da Revolução Agrícola, os grãos compunham apenas uma pequena parte da dieta humana. Uma dieta baseada em cereais é pobre em vitaminas e sais minerais, difícil de digerir e péssima para os dentes e as gengivas.

    O trigo não deu às pessoas segurança econômica. A vida de um camponês é menos segura que a de um caçador-coletor. Os caçadores-coletores contavam com dezenas de espécies para sobreviver e, portanto, conseguiam resistir a anos difíceis mesmo quando não tinham estoques de alimentos em conserva. Se uma espécie se tornava menos disponível, eles podiam caçar e coletar mais de outra espécie. As sociedades agrícolas, até bem recentemente, dependiam de uma pequena variedade de plantas domesticadas para a maior parte das calorias que ingeriam. Em muitas regiões, elas dependiam de um único alimento, como trigo, batata ou arroz. Se não chovia, ou se as plantações eram atacadas por uma nuvem de gafanhotos ou infectadas por um fungo, os camponeses morriam aos milhares e aos milhões.

    O trigo tampouco podia oferecer segurança contra a violência humana. Os primeiros agricultores eram pelo menos tão violentos quanto seus ancestrais caçadores-coletores, se não mais. Os agricultores tinham mais posses e necessitavam de terra para plantar. A perda de pasto para vizinhos inimigos podia significar a diferença entre a subsistência e a fome, e por isso havia muito menos possibilidade de acordos. Quando um bando de caçadores-coletores era ameaçado por um rival mais forte, geralmente podia ir embora. Era difícil e perigoso, mas viável. Quando um inimigo forte ameaçava um vilarejo agrícola, recuar significava abrir mão de campos, casas e celeiros. Em muitos casos, isso

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    condenou os refugiados à fome. Os agricultores, portanto, tendiam a ficar e lutar até o fim.

    Muitos estudos antropológicos e arqueológicos indicam que em sociedades agrícolas simples, sem estruturas políticas além da aldeia e da tribo, a violência humana era responsável por cerca de 15% das mortes, incluindo 25% das mortes masculinas. Na Nova Guiné de hoje, a violência responde por 30% das mortes masculinas em uma sociedade tribal agrícola, os danis, e 35% em outra, os engas. No Equador, possivelmente 50% dos waoranis adultos encontram uma morte violenta nas mãos de outro humano!3 Com o tempo, a violência humana foi controlada por meio do desenvolvimento de estruturas sociais maiores – cidades, reinos e estados. Mas levou milhares de anos para que se construíssem tais estruturas políticas grandes e eficazes.

    A vida em comunidade certamente trouxe alguns benefícios imediatos aos primeiros fazendeiros, tal como uma melhor proteção contra animais ferozes, chuva e frio. Porém, para o indivíduo médio, as desvantagens provavelmente eram mais significativas que as vantagens. É difícil as pessoas nas sociedades prósperas de hoje compreendê-lo. Como temos abundância e segurança, e como nossa abundância e segurança foram construídas sobre as bases assentadas pela Revolução Agrícola, presumimos que a Revolução Agrícola foi uma melhoria incrível. Mas é errado julgar milhares de anos de história da perspectiva de hoje.

    Um ponto de vista muito mais representativo é o da garotinha de três anos de idade morrendo de desnutrição na China do século I porque a lavoura de seu pai não vingou. Ela diria “estou morrendo de desnutrição, mas em 2 mil anos as pessoas terão comida em abundância e viverão em casas grandes com arcondicionado, então meu sofrimento é um sacrifício válido”?

    Então, o que o trigo ofereceu aos agricultores, incluindo essa garotinha chinesa subnutrida? Não ofereceu nada para as pessoas enquanto indivíduos, mas concedeu algo ao Homo sapiens enquanto espécie. O cultivo de trigo proporcionou muito mais alimento por unidade de território e, com isso, permitiu que o Homo sapiens se multiplicasse exponencialmente. Por volta de 13000 a.C., quando as pessoas se alimentavam coletando plantas silvestres e caçando animais selvagens, a área em torno do oásis de Jericó, na Palestina, podia sustentar no máximo um bando nômade de cerca de cem indivíduos relativamente saudáveis e bem nutridos. Por volta de 8500 a.C., quando as plantas silvestres deram lugar

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    aos campos de trigo, o oásis sustentava uma aldeia grande mas abarrotada de mil pessoas que padeciam muito mais de doenças e má nutrição.

    A moeda da evolução não é fome nem dor, e sim cópias de hélices de DNA. Assim como o sucesso econômico de uma empresa é medido apenas pelo número de dólares em sua conta bancária, não pela felicidade de seus empregados, o sucesso evolutivo de uma espécie é medido pelo número de cópias de seu DNA. Se não restam mais cópias de DNA, a espécie está extinta, assim como a empresa sem dinheiro está falida. Se uma espécie ostenta muitas cópias de DNA, é um sucesso, e a espécie prospera. Em tal perspectiva, mil cópias é sempre melhor do que cem cópias. Essa é a essência da Revolução Agrícola: a capacidade de manter mais pessoas vivas em condições piores.

    Mas por que os indivíduos deveriam se importar com esse cálculo evolutivo? Por que uma pessoa em sã consciência reduziria seu padrão de vida só para multiplicar o número de cópias do genoma do Homo sapiens? Ninguém concordou com isso: a Revolução Agrícola foi uma armadilha.

    A armadilha do luxo

    A ascensão da agricultura ocorreu de maneira muito gradativa ao longo de séculos e milênios. Um bando de Homo sapiens coletando cogumelos e nozes e caçando cervos e coelhos não se instalou de súbito em um assentamento permanente, arando campos, colhendo trigo e carregando água do rio. A mudança aconteceu em etapas, cada uma das quais envolvendo apenas uma pequena alteração na vida cotidiana.

    O Homo sapiens chegou ao Oriente Médio há cerca de 70 mil anos.

    Durante os 50 mil anos seguintes, nossos ancestrais prosperaram na região sem se dedicar à agricultura. Os recursos naturais eram suficientes para sustentar sua população humana. Em períodos de fartura, as pessoas tinham mais filhos e, em períodos de escassez, um pouco menos. Os humanos, como muitos mamíferos, têm mecanismos genéticos e hormonais que ajudam a controlar a procriação.

    Em épocas boas, as fêmeas chegam à puberdade mais cedo, e suas chances de engravidar são um pouco maiores. Em épocas ruins, a puberdade é tardia e a fertilidade diminui.

    A esses controles populacionais naturais somavam-se mecanismos

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    culturais. Bebês e crianças pequenas, que se locomovem devagar e demandam muita atenção, eram um fardo para caçadores-coletores nômades. As pessoas tentavam ter filhos a cada três ou quatro anos. As mulheres faziam isso amamentando seus filhos o dia todo e por mais anos (a amamentação constante diminui significativamente as chances de engravidar). Outros métodos incluíam abstinência sexual total ou parcial (apoiada, talvez, por tabus culturais), abortos e, ocasionalmente, infanticídio.4 Durante esses longos milênios, as pessoas comiam grãos de trigo de vez em quando, mas estes eram parte secundária de sua dieta. Há cerca de 18 mil anos, a última era glacial deu lugar a um período de aquecimento global. Com o aumento das temperaturas, aumentaram também as chuvas. O novo clima era ideal para o trigo e outros cereais do Oriente Médio, que se multiplicaram e se espalharam. As pessoas começaram a comer mais trigo e, sem querer, favoreceram seu crescimento e difusão. Como era impossível comer grãos silvestres sem antes escolhê-los, moê-los e cozinhá-los, as pessoas que coletavam esses grãos os carregavam a seus acampamentos temporários para processá-los.

    Os grãos de trigo são pequenos e numerosos, e alguns deles inevitavelmente caíam a caminho do acampamento e se perdiam. Com o tempo, cada vez mais trigo cresceu perto dos acampamentos e dos caminhos preferidos pelos humanos.

    Ao promover queimadas em florestas e matagais, os humanos também ajudavam o trigo. O fogo limpava árvores e arbustos, permitindo que o trigo e outras gramíneas monopolizassem a luz do sol, a água e os nutrientes. Onde o trigo se tornava particularmente abundante, e a carne de caça e outras fontes de alimento também eram abundantes, os bandos humanos puderam, pouco a pouco, abandonar seu estilo de vida nômade e se assentar em acampamentos onde se estabeleciam por uma estação inteira, ou mesmo em caráter permanente.

    No começo, talvez eles acampassem por quatro semanas durante a colheita. Na geração seguinte, com a multiplicação e o alastramento do trigo, o acampamento da colheita talvez durasse cinco semanas, depois seis, até que se tornou um assentamento permanente. Evidências de tais acampamentos foram encontradas em todo o Oriente Médio, sobretudo no Levante, onde a cultura natufiana floresceu de 12500 a.C. a 9500 a.C. Os natufianos eram caçadorescoletores que subsistiam à base de dezenas de espécies silvestres, mas viviam em

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    assentamentos permanentes e dedicavam grande parte de seu tempo à coleta intensiva e ao processamento de cereais silvestres. Eles construíam casas e celeiros de pedra e armazenavam grãos para épocas de necessidade. Inventaram novas ferramentas, como foices de pedra para colher trigo silvestre e pilões de pedra para moê-lo.

    No período que se seguiu a 9500 a.C., os descendentes dos natufianos continuaram a coletar e processar cereais, mas também começaram a cultivá-los de formas cada vez mais elaboradas. Ao coletar grãos silvestres, eles tomavam o cuidado de reservar parte da colheita para semear os campos na estação seguinte. Descobriram que poderiam obter resultados muito melhores semeando os grãos em camadas mais profundas do solo do que espalhando-os de maneira aleatória pela superfície. Então, começaram a capinar e arar. Aos poucos, também começaram a arrancar as ervas daninhas dos campos para protegê-los contra parasitas e a regá-los e fertilizá-los. À medida que dedicavam mais esforços ao cultivo de cereais, havia menos tempo para coletar e caçar espécies silvestres. Os caçadores-coletores se tornaram agricultores.

    Não houve uma única etapa separando as mulheres que coletavam trigo silvestre das que cultivavam trigo domesticado, por isso, é difícil dizer exatamente quando aconteceu a transição decisiva para a agricultura. Mas, em 8500 a.C., o Oriente Médio estava repleto de assentamentos permanentes como Jericó, cujos habitantes passavam a maior parte do tempo cultivando algumas poucas espécies domesticadas.

    Com a mudança para assentamentos permanentes e o aumento na oferta de alimentos, a população começou a crescer. Ao abandonar o estilo de vida nômade, as mulheres puderam ter um filho por ano. Os bebês eram desmamados em uma idade mais precoce – podiam ser alimentados com mingaus e papinhas. As mãos extras eram extremamente necessárias nos campos. Mas as bocas extras logo acabaram com o excedente de alimento, e ainda mais campos precisaram ser cultivados. Quando as pessoas começaram a viver em assentamentos infestados de doenças, à medida que as crianças passaram a se alimentar mais de cereais e menos do leite materno e cada uma teve de dividir seu mingau com mais e mais irmãos, a mortalidade infantil disparou. Na maioria das sociedades agrícolas, pelo menos uma em cada três crianças morria antes de chegar aos 20 anos.5 Mas o aumento no número de

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    nascimentos ainda superava o aumento no número de mortes; os humanos continuavam tendo mais e mais filhos.

    Com o tempo, a “barganha do trigo” se tornou cada vez mais onerosa. As crianças morriam aos montes, e os adultos comiam pão com o suor da fronte.

    Em média, um indivíduo na Jericó de 8500 a.C. tinha uma vida mais difícil do que um indivíduo na Jericó de 9500 a.C. ou de 13000 a.C. Mas ninguém percebeu o que estava acontecendo. Cada geração continuou a viver como a geração anterior, realizando apenas pequenas melhorias aqui e ali no modo como as coisas eram feitas. Paradoxalmente, uma série de “melhorias”, cada uma das quais concebida para tornar a vida mais fácil, sobrecarregaram ainda mais esses agricultores.

    Por que as pessoas cometeram um erro de cálculo tão fatídico? Pela mesma razão pela qual as pessoas cometeram erros de cálculo ao longo de toda a história. As pessoas foram incapazes de compreender todas as consequências de suas decisões. Sempre que decidiam fazer um pouco de trabalho extra – por exemplo, capinar os campos em vez de espalhar sementes na superfície –, pensavam: “Sim, vamos precisar trabalhar mais. Mas a colheita será tão abundante! Não precisaremos mais nos preocupar com anos magros. Nossos filhos jamais dormirão com fome”. Fazia sentido. Se trabalhassem mais, teriam uma vida melhor. Esse era o plano.

    A primeira parte do plano correu bem. As pessoas de fato trabalharam mais. Mas não previram que o número de crianças aumentaria, o que significava que o trigo extra teria de ser partilhado entre mais filhos. Os primeiros agricultores também não perceberam que alimentar crianças com mais mingau e menos leite materno debilitaria seu sistema imunológico e que os assentamentos permanentes seriam incubadoras para doenças infecciosas. Eles não previram que, ao se tornar mais dependentes de uma única fonte de alimento, estavam, na verdade, expondo-se ainda mais às desolações da seca. Os agricultores também não previram que, em anos bons, seus celeiros abarrotados atrairiam ladrões e inimigos, o que os levaria a construir muros e a ficar de guarda.

    Então por que os humanos não abandonaram a agricultura quando o plano saiu pela culatra? Em parte, porque demorou gerações até que pequenas mudanças se acumulassem e transformassem a sociedade, e, a essa altura,

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    ninguém se lembrava de que algum dia vivera de modo diferente. E, em parte, porque o crescimento populacional não deixou outra alternativa aos humanos. Se a adoção do arado aumentou a população de um vilarejo de 100 para 110, que dez pessoas teriam se voluntariado para passar fome enquanto as demais poderiam voltar aos bons velhos tempos? Não havia volta. A armadilha fora acionada.

    A busca de uma vida mais fácil resultou em muitas dificuldades, e não pela última vez. Acontece conosco hoje. Quantos jovens universitários recém-formados aceitam empregos exigentes em empresas importantes, prometendo que darão duro para ganhar dinheiro que lhes permitirá se aposentarem e irem atrás de seus verdadeiros interesses quando chegarem aos 35? Mas, quando chegam a essa idade, eles têm grandes hipotecas para quitar, filhos para educar, casas em zonas residenciais que necessitam pelo menos de dois carros por família e uma sensação de que a vida não vale a pena sem um bom vinho e férias caras no exterior. O que se espera que façam, voltem a arrancar raízes?

    Não, eles redobram seus esforços e continuam se escravizando.

    Uma das poucas leis férreas da história é que os luxos tendem a se tornar necessidades e a gerar novas obrigações. Uma vez que as pessoas se acostumam a um certo luxo, elas o dão como garantido. Passam a contar com ele. Acabam por chegar a um ponto em que não podem viver sem. Tomemos outro exemplo familiar de nosso tempo. Nas últimas décadas, inventamos inúmeros instrumentos que supostamente economizam tempo e tornam a vida mais fácil – lavadoras de roupa e de louça, aspiradores de pó, telefones, aparelhos celulares, computadores, e-mail. Antes, dava muito trabalho escrever uma carta, endereçar e selar um envelope e levá-lo até o correio. Levava-se dias ou semanas, talvez até meses, para obter uma resposta. Hoje em dia eu posso escrever um e-mail às pressas, enviá-lo para o outro lado do mundo e (se meu destinatário estiver on-line) receber uma resposta um minuto depois. Economizei todo aquele trabalho e tempo, mas tenho uma vida mais tranquila?

    Infelizmente, não. Antes, as pessoas só escreviam cartas quando tinham algo importante para relatar. Em vez de escrever a primeira coisa que lhes vinha à cabeça, consideravam cuidadosamente o que queriam dizer e como expressá-lo. Esperavam receber uma resposta igualmente atenciosa. A maioria das pessoas escrevia e recebia não mais de um punhado de cartas por mês e

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    raramente se sentia compelida a responder de imediato. Hoje recebo dezenas de e-mails todos os dias, todos de pessoas que esperam uma resposta imediata.

    Pensamos que estávamos economizando tempo; em vez disso, colocamos a roda da vida para girar a dez vezes sua velocidade anterior e tornamos nossos dias mais ansiosos e agitados.

    Aqui e ali, um luddista, avesso aos avanços tecnológicos, se recusa a abrir uma conta de e-mail, assim como há milhares de anos, alguns bandos de humanos se recusaram a adotar a agricultura e assim escaparam da armadilha do luxo. Mas a Revolução Agrícola não precisava da adesão de todo e qualquer bando em determinada região. Quando um bando se instalava e começava a cultivar a terra, fosse no Oriente Médio ou na América Central, já não se podia resistir à agricultura. Como esta criava as condições para um rápido crescimento demográfico, os agricultores quase sempre superavam os caçadores-coletores por estarem em maior número. Os caçadores-coletores podiam ir embora, abandonando seus terrenos de caça para os campos e pastos, ou pegar o arado eles mesmos. De um jeito ou de outro, o estilo de vida antigo estava condenado.

    A história da armadilha do luxo traz uma lição importante. A busca da humanidade por uma vida mais fácil desencadeou forças imensas de mudança que transformaram o mundo de uma maneira que ninguém havia imaginado ou desejado. Ninguém planejou a Revolução Agrícola ou quis que os humanos dependessem do cultivo de cereais. Uma série de decisões triviais que quase sempre tinha por objetivo alimentar algumas bocas e obter um pouco de segurança teve o efeito cumulativo de forçar os antigos caçadores-coletores a passarem seus dias carregando baldes de água sob um sol abrasador.

    Intervenção divina

    O cenário acima descrito explica a Revolução Agrícola como um erro de cálculo. É muito plausível. A história é repleta de erros de cálculo muito mais grosseiros. Mas há outra possibilidade. E se não foi a busca por uma vida mais fácil o que provocou a transformação? E se os sapiens tinham outras aspirações e estavam conscientemente dispostos a tornar sua vida mais difícil a fim de alcançá-las?

    Os cientistas normalmente procuram atribuir os desdobramentos históricos

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    a fatores econômicos e demográficos objetivos. Isso casa melhor com seus métodos matemáticos e racionais. No caso da história moderna, os acadêmicos não podem evitar levar em consideração fatores não materiais, como ideologia e cultura. As evidências escritas os obrigam a isso. Temos documentos, cartas e memórias suficientes para provar que a Segunda Guerra Mundial não foi causada por escassez de alimentos ou pressões demográficas. Mas não temos documentos da cultura natufiana e, sendo assim, ao lidar com períodos antigos a escola materialista reina absoluta. É difícil provar que os povos pré-letrados fossem motivados por fé, e não por necessidade econômica.

    10. Esquerda: as ruínas de uma estrutura monumental de Göbekli Tepe.

    Direita: um dos pilares de pedra decorados (com cerca de 5 metros de altura).

    Mas, em alguns casos raros, temos a sorte de encontrar pistas reveladoras.

    Em 1995, os arqueólogos começaram a escavar um sítio no sudeste da Turquia chamado Göbekli Tepe. No estrato mais antigo, eles não descobriram nenhum indício de assentamento, casas ou atividades cotidianas. No entanto, encontraram estruturas monumentais sustentadas por pilares e decoradas com gravuras espetaculares. Cada pilar de pedra pesava até 7 toneladas e chegava a 5 metros de altura. Em uma pedreira nas proximidades, encontraram um pilar semiesculpido pesando 50 toneladas. Ao todo, descobriram mais de dez estruturas monumentais, a maior delas com quase 30 metros de largura.

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    Os arqueólogos estão familiarizados com estruturas monumentais desse tipo encontradas em sítios em todo o mundo – o exemplo mais conhecido é Stonehenge, na Inglaterra. Mas, ao estudarem Göbekli Tepe, descobriram um fato incrível. Stonehenge data de 2500 a.C. e foi construída por uma sociedade agrícola desenvolvida. As estruturas em Göbekli Tepe datam de cerca de 9500 a.C., e todas as evidências disponíveis indicam que foram construídas por caçadores-coletores! No início, a comunidade arqueológica considerou difícil acreditar nessas descobertas, mas uma análise após outra confirmou a data precoce das estruturas e a sociedade pré-agrícola daqueles que as construíram.

    As habilidades dos antigos caçadores-coletores, e a complexidade de suas culturas, parecem ser muito mais impressionantes do que suspeitávamos.

    Por que uma sociedade de caçadores-coletores construiria tais estruturas?

    Elas não tinham nenhuma finalidade utilitária evidente. Não eram abatedouros de mamutes nem lugares para se abrigar da chuva ou se esconder de leões. Isso nos deixa com a teoria de que foram construídas para algum propósito cultural misterioso que os cientistas têm dificuldade de decifrar. Qualquer que tenha sido esse propósito, os caçadores-coletores consideravam que valia todo o esforço e tempo dedicados. A única maneira de construir Göbekli Tepe era que milhares de caçadores-coletores pertencentes a diferentes tribos e bandos cooperassem por um longo período. Apenas um sistema ideológico ou religioso sofisticado poderia sustentar tais esforços.

    Göbekli Tepe guardava mais um segredo sensacional. Por muitos anos, os geneticistas vinham buscando as origens do trigo domesticado. As descobertas recentes indicam que pelo menos uma variante domesticada – o trigo einkorn – se originou nas colinas de Karaca Dag, a cerca de 30 quilômetros de Göbekli Tepe.6 Isso dificilmente é uma coincidência. É provável que o centro cultural de Göbekli Tepe esteja, de alguma forma, conectado à domesticação inicial do trigo pela humanidade e da humanidade pelo trigo. Para alimentar as pessoas que construíram e usaram as estruturas monumentais, eram necessárias quantidades particularmente grandes de alimento. Pode ser que os caçadores-coletores tenham passado da coleta de trigo silvestre para o cultivo intensivo de trigo não para aumentar a oferta normal de alimento, mas para sustentar a construção e a manutenção de um templo. No cenário convencional, primeiro os pioneiros

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    fundavam um vilarejo e, quando este prosperava, construíam um templo no meio. Mas Göbekli Tepe indica que o templo pode ter sido construído primeiro e que mais tarde um vilarejo cresceu à sua volta.

    Vítimas da revolução

    A barganha faustiana entre humanos e grãos não foi o único pacto feito por nossa espécie. Descobriu-se outro pacto com relação ao destino de animais como ovelhas, cabras, porcos e galinhas. Os bandos nômades que caçavam ovelhas selvagens pouco a pouco alteraram a composição dos rebanhos capturados. Esse processo provavelmente teve início com a caça seletiva. Os humanos aprenderam que era vantajoso para eles caçar apenas carneiros adultos e ovelhas velhas ou doentes. Eles poupavam as fêmeas férteis e os cordeiros jovens para proteger a vitalidade do rebanho a longo prazo. O segundo passo talvez tenha sido defender ativamente o rebanho de predadores, afastando leões, lobos e bandos humanos rivais. Depois, o bando talvez tenha encurralado o rebanho em um desfiladeiro para controlá-lo e defendê-lo melhor. As pessoas começaram a fazer uma seleção mais cuidadosa das ovelhas para adaptá-las às necessidades humanas. Os carneiros mais agressivos, aqueles que mostravam mais resistência ao controle humano, eram abatidos primeiro, como também as fêmeas mais curiosas e mais magras. (Os pastores não gostam de ovelhas cuja curiosidade as leva para longe do rebanho.) A cada geração, as ovelhas se tornaram mais gordas, mais submissas e menos curiosas. Voilà! Mary tinha um carneirinho e a todo lugar que ela ia, ele ia também.

    Outra possibilidade é que os caçadores capturassem e “adotassem” um cordeiro, engordando-o durante os meses de fartura e abatendo-o em época de escassez. Em algum momento, eles começaram a manter um número maior de tais cordeiros. Alguns deles chegavam à puberdade e começavam a procriar. Os mais agressivos e rebeldes eram abatidos primeiro. Os mais submissos e atraentes tinham a chance de viver mais tempo e procriar. O resultado foi um rebanho de ovelhas domesticadas e submissas.

    Tais animais domesticados – ovelhas, galinhas, jumentos e outros – forneciam comida (carne, leite, ovos), matérias-primas (pele, lã) e força muscular. O transporte, o arado, a moenda e outras tarefas, até então realizados

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    por força humana, foram progressivamente executados por animais. Na maioria das sociedades agrícolas, as pessoas priorizavam o cultivo de espécies vegetais; criar animais era uma atividade secundária. Mas um novo tipo de sociedade também apareceu em alguns lugares, tendo por base primordialmente a exploração de animais: tribos de pastores.

    À medida que os humanos se espalharam pelo mundo, os animais domesticados também o fizeram. Há dezenas de milhares de anos, não mais de alguns milhões de ovelhas, vacas, cabras, javalis e galinhas viviam em nichos seletos na África e na Ásia. Hoje o mundo tem cerca de um bilhão de ovelhas, um bilhão de porcos, mais de um bilhão de cabeças de gado e mais de 25 bilhões de galinhas. E eles estão pelo mundo todo. As galinhas domesticadas são as aves mais disseminadas até hoje. Depois do Homo sapiens, o gado, o porco e a ovelha são, nessa ordem, os grandes mamíferos mais difundidos no mundo. De uma perspectiva estritamente evolutiva, que mede o sucesso de uma espécie pelo número de cópias de DNA, a Revolução Agrícola foi uma grande vantagem para galinhas, vacas, porcos e ovelhas.

    Infelizmente, a perspectiva evolutiva é um parâmetro de sucesso relativo.

    Julga tudo segundo os critérios de sobrevivência e reprodução, sem considerar o sofrimento e a felicidade individuais. As galinhas e as vacas domesticadas podem ser uma história de sucesso evolutivo, mas também estão entre as criaturas mais miseráveis que já existiram. A domesticação de animais se baseou em uma série de práticas brutais que só se tornaram cada vez mais cruéis com o passar dos séculos.

    A expectativa de vida natural de galinhas selvagens é de 7 a 12 anos, e de bovinos é de 20 a 25 anos. Na natureza, a maioria das galinhas e das vacas morria muito antes disso, mas ainda tinha uma boa chance de viver por um número respeitável de anos. Já a grande maioria das galinhas e vacas domesticadas é abatida com algumas semanas ou no máximo alguns meses de vida, porque essa sempre foi a idade ideal para abatê-las de uma perspectiva econômica. (Por que continuar alimentando um galo por três anos se ele já chegou a seu peso máximo depois de três meses?) Galinhas chocadeiras, vacas leiteiras e animais de carga às vezes têm a chance de viver por muitos anos. Mas o preço é a sujeição a um estilo de vida completamente alheio a suas necessidades e desejos. É razoável supor, por

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    exemplo, que os bois preferem passar seus dias vagando por pradarias abertas na companhia de outros bois e vacas do que puxando carroças e arados sob o jugo de um primata com chicote.

    A fim de transformar bois, cavalos, jumentos e camelos em animais de carga obedientes, seus instintos naturais e laços sociais tiveram de ser destruídos, sua agressão e sexualidade, contidas e sua liberdade de movimento, restringida.

    Os criadores desenvolveram técnicas como trancar animais em jaulas e currais, contê-los com rédeas e arreios, treiná-los com chicotes e aguilhadas e mutilá-los.

    O processo de domesticar quase sempre envolve a castração dos machos. Isso restringe sua agressividade e permite que os humanos controlem seletivamente a procriação do rebanho.

    Em muitas sociedades da Nova Guiné, a riqueza de uma pessoa é tradicionalmente determinada pelo número de porcos que ela possui. Para garantir que os porcos não fujam, os criadores no norte da Nova Guiné cortam um pedaço do focinho do animal. Isso causa dor intensa sempre que o porco tenta cheirar. Como os porcos não conseguem encontrar comida ou mesmo se orientar no espaço sem cheirar, essa mutilação os torna completamente dependentes de seus proprietários humanos. Em outra região da Nova Guiné, é costume arrancar os olhos dos porcos, para que eles não possam nem mesmo ver para onde estão indo.7

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    11. Pintura de um túmulo egípcio, por volta de 1200 a.C.: um par de bois arando um campo. Na natureza, o gado perambulava livremente em bandos com uma estrutura social complexa. Os bois castrados e domesticados desperdiçavam a vida sob chicotadas e num curral apertado, trabalhando sozinhos ou em pares de uma maneira que não satisfazia suas necessidades físicas, emocionais ou sociais. Quando um boi já não era capaz de puxar o arado, era abatido.

    (Observe a postura arqueada do agricultor egípcio que, como o boi, passava a vida realizando trabalho duro e opressivo para seu corpo, sua mente e suas relações sociais.) A indústria de laticínios tem suas próprias maneiras de forçar os animais a fazerem sua vontade. Vacas, cabras e ovelhas produzem leite só depois de parir bezerros, cabritos e cordeiros e apenas enquanto seus filhotes mamam. Para ter uma oferta contínua de leite animal, um fazendeiro precisa ter bezerros, cabritos ou cordeiros para amamentar, mas deve impedi-los de monopolizar o leite. Um método comum ao longo da história foi simplesmente abater os filhotes logo após o nascimento, extrair todo o leite da mãe e então fazer que ela fique prenha novamente. Essa é, ainda hoje, uma técnica muito usual. Em várias fazendas de laticínios modernas, uma vaca leiteira vive cerca de cinco anos antes de ser abatida. Durante esses cinco anos, ela está prenha constantemente e é fertilizada

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    entre 60 e 120 dias depois de parir, a fim de preservar a máxima produção de leite. Seus bezerros são separados dela logo após o nascimento. As fêmeas são criadas para se tornar a próxima geração de vacas leiteiras, ao passo que os machos são entregues aos cuidados da indústria da carne.8 Outro método é manter os bezerros e os cabritos perto da mãe, mas evitar, por meio de vários estratagemas, que eles suguem muito leite. A maneira mais simples de fazer isso é permitir que o filhote comece a mamar, mas afastá-lo assim que o leite começa a fluir. Esse método geralmente encontra resistência do filhote e da mãe. Algumas tribos de pastores costumavam matar o filhote, comer sua carne e empalhá-lo. O filhote empalhado era então presenteado à mãe para que sua presença encorajasse a produção de leite. A tribo dos núeres, no Sudão, chegava ao ponto de espalhar urina da mãe nos animais empalhados, para que tivessem um odor vivo e familiar. Outra técnica dos núeres era atar uma coroa de espinhos ao redor da boca do bezerro, para que ele furasse a mãe e fizesse com que ela resistisse à amamentação.9 Os tuaregues, povo criador de camelos no deserto do Saara, costumavam perfurar ou cortar partes do focinho e do lábio superior de filhotes de camelo para tornar a alimentação dolorosa, evitando, assim, que consumissem muito leite.10 Nem todas as sociedades agrícolas foram tão cruéis com seus animais. A vida de alguns animais domesticados podia ser muito boa. Ovelhas criadas para lã, cachorros e gatos de estimação, cavalos de guerra e cavalos de corrida muitas vezes desfrutavam de condições confortáveis. O imperador romano Calígula supostamente planejou nomear seu cavalo favorito, Incitatus, ao posto de cônsul.

    Pastores e agricultores ao longo da história mostraram afeição por seus animais e cuidaram muito bem deles, assim como muitos senhores sentiram afeição e preocupação por seus escravos. Não foi nenhum acaso reis e profetas se apresentarem como pastores e compararem o modo como eles e seus deuses cuidavam de seu povo com o cuidado de um pastor com seu rebanho.

    Mas do ponto de vista do rebanho, e não do pastor, é difícil evitar a impressão de que para a grande maioria dos animais domesticados a Revolução Agrícola foi uma catástrofe terrível. Seu “sucesso” evolutivo não significa nada.

    Um raro rinoceronte selvagem à beira da extinção provavelmente é mais feliz do que um boi que passa sua breve vida dentro de uma jaula minúscula, alimentado para produzir carnes suculentas. O rinoceronte não é menos contente por estar os

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    últimos de sua espécie. O sucesso numérico da espécie bovina é pouco consolo para o sofrimento que o indivíduo padece.

    Essa discrepância entre sucesso evolutivo e sofrimento individual é, talvez, a lição mais importante que podemos tirar da Revolução Agrícola. Quando estudamos a história de plantas como trigo e milho, talvez a perspectiva puramente evolutiva faça sentido. Mas no caso de animais como bois, ovelhas e sapiens, cada um com um mundo complexo de sensações e emoções, temos de considerar em que medida o sucesso evolutivo se traduz em experiência individual. Nos capítulos seguintes, veremos mais uma vez como um aumento drástico no poder coletivo e o visível sucesso de nossa espécie andaram de mãos dadas com muito sofrimento individual.

    Um bezerro em uma fazenda industrial. Imediatamente após o nascimento, o bezerro é separado da mãe e trancado em uma jaula minúscula, não muito maior do que seu próprio corpo. Lá, o bezerro passa o resto da vida – em média, cerca de quatro meses. Nunca sai da jaula, nem pode brincar com outros bezerros ou mesmo caminhar, de modo que seus músculos não se

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    desenvolvem. Músculos fracos significam uma carne macia e suculenta. A primeira vez que o bezerro tem uma chance de caminhar, esticar os músculos e tocar outros bezerros é a caminho do matadouro. Em termos evolutivos, o boi representa uma das espécies de animal mais prósperas que já existiram. Ao mesmo tempo, está entre os animais mais sofridos do planeta.

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    6. Construindo pirâmides

    Construindo pirâmides A REVOLUÇÃO AGRÍCOLA É UM DOS ACONTECIMENTOS MAIS CONTROVERSOS DA história.

    Alguns defensores afirmam que ela colocou a humanidade no caminho da prosperidade e do progresso; outros insistem que a levou à perdição. Esse foi o ponto decisivo, afirmam, em que os sapiens abandonaram sua íntima simbiose com a natureza e correram rumo à ganância e à alienação. Qualquer que fosse a direção dessa estrada, não havia retorno. A agricultura permitiu que as populações aumentassem de maneira tão rápida e radical que nenhuma sociedade agrícola complexa poderia se sustentar novamente se voltasse a se dedicar à caça e à coleta. Por volta de 10000 a.C., antes da transição para a agricultura, a Terra era o lar de 5 a 8 milhões de caçadores-coletores nômades.

    No século I, restavam apenas de 1 a 2 milhões de caçadores-coletores (principalmente na Austrália, na América e na África), mas os 250 milhões de agricultores no mundo fizeram com que esse número continuasse diminuindo.1 A grande maioria dos agricultores vivia em assentamentos permanentes; apenas alguns eram pastores nômades. Os assentamentos permanentes faziam com que o terreno da maioria dos povos fosse drasticamente reduzido. Os antigos caçadores-coletores geralmente viviam em territórios com muitas dezenas e até centenas de quilômetros quadrados. “Lar” era o território inteiro, com suas colinas, rios, florestas e céu aberto. Os camponeses, por sua vez, passavam a maior parte de seus dias trabalhando um pequeno campo ou pomar, e sua vida doméstica se centrava em uma estrutura apertada de madeira, pedra ou barro, medindo não mais do que algumas dezenas de metros: a casa. O camponês típico desenvolveu um vínculo muito forte com essa estrutura. Essa foi uma revolução de longo alcance, cujo impacto foi psicológico, tanto quanto arquitetônico. Daí em diante, o vínculo com a “minha casa” e a separação dos vizinhos se tornaram o paradigma psicológico de uma criatura muito mais autocentrada.

    Os novos territórios agrícolas eram não só muito menores que os dos antigos caçadores-coletores como também muito mais artificiais. Com a exceção do uso do fogo, os caçadores-coletores faziam poucas modificações deliberadas nas terras por onde perambulavam. Os agricultores, por outro lado, viviam em ilhas humanas artificiais que eles talhavam laboriosamente a partir da natureza ao redor. Eles derrubavam florestas, cavavam canais, limpavam

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    campos, construíam casas, sulcavam a terra e plantavam árvores frutíferas em fileiras ordenadas. O habitat artificial resultante era destinado apenas aos humanos e “suas” plantas e animais, sendo muitas vezes delimitado por muros e cercas. As famílias de agricultores faziam tudo o que estava a seu alcance para manter distância de animais selvagens e ervas daninhas impertinentes. Se tais intrusos conseguiam entrar, eram expulsos. Se persistiam, seus adversários humanos procuravam maneiras de exterminá-los. Erguiam-se defesas particularmente fortes ao redor da casa. Do início da agricultura até nossos dias, bilhões de humanos armados com galhos, mata-moscas, sapatos e pulverizadores de veneno têm travado guerras incansáveis contra formigas diligentes, baratas furtivas, aranhas aventureiras e besouros desorientados que se infiltram constantemente no domicílio humano.

    Durante a maior parte da história, esses enclaves feitos pelo homem permaneceram muito pequenos, cercados por extensões de natureza selvagem. A superfície do planeta mede cerca de 510 milhões de quilômetros quadrados, dos quais 155 milhões são terra. Em 1400, a grande maioria dos agricultores, junto com suas plantas e animais, se reunia em uma área de apenas 11 milhões de quilômetros quadrados – 2% da superfície da Terra.2 Todos os outros lugares eram frios demais, quentes demais, secos demais, úmidos demais ou de alguma outra forma inadequados para o cultivo. Esses minúsculos 2% da superfície do planeta constituíam o palco em que a história se desenrolou.

    As pessoas tinham dificuldade de abandonar suas ilhas artificiais. Elas não podiam abandonar suas casas, campos e celeiros sem um grave risco de perdê-los. Além disso, com o passar do tempo elas acumularam cada vez mais coisas – objetos, não facilmente transportáveis, que as prendiam ao local. Os antigos agricultores podem nos parecer miseráveis, mas uma família típica tinha mais artefatos que uma tribo inteira de caçadores-coletores.

    A chegada do futuro

    Enquanto o espaço agrícola se reduziu, o tempo agrícola se expandiu. Os caçadores-coletores normalmente não perdiam muito tempo pensando no mês ou no verão seguinte. Os agricultores viajavam, em sua imaginação, anos e décadas no futuro.

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    Os caçadores-coletores desconsideravam o futuro porque viviam do que havia disponível e somente com dificuldade conseguiam conservar alimentos ou acumular bens. É claro que eles faziam alguns planos. Os criadores da arte rupestre de Chauvet, Lascaux e Altamira quase certamente pretendiam que sua obra durasse gerações. As alianças sociais e as rivalidades políticas eram negócios de longo prazo. Muitas vezes se levava anos para retribuir um favor ou vingar uma ofensa. No entanto, na economia de subsistência da caça e da coleta, havia um limite óbvio a tal planejamento de longo prazo. Paradoxalmente, isso poupava os caçadores-coletores de muitas ansiedades. Não fazia sentido se preocupar com coisas que eles não podiam controlar.

    A Revolução Agrícola tornou o futuro muito mais importante do que havia sido até então. Os agricultores sempre precisam ter o futuro em mente e trabalhar em função dele. A economia agrícola se baseava em um ciclo sazonal de produção, compreendendo longos meses de cultivo seguidos de breves períodos de colheita. Na noite após o fim de uma colheita farta, os camponeses podiam celebrar tudo o que tinham obtido, mas dali a uma semana estavam novamente se levantando ao amanhecer para uma longa jornada de trabalho no campo. Embora houvesse comida suficiente para o dia seguinte, a semana seguinte e até mesmo o mês seguinte, eles precisavam se preocupar com os anos seguintes.

    A preocupação com o futuro tinha origem não só nos ciclos sazonais de produção como também na incerteza fundamental da agricultura. Uma vez que a maioria dos vilarejos vivia do cultivo de uma variedade limitada de plantas e animais domesticados, eles estavam à mercê de secas, inundações e pestes. Os camponeses eram obrigados a produzir mais do que consumiam para que pudessem acumular reservas. Sem grãos no silo, frascos de azeite no porão, queijo na despensa e linguiças pendendo das vigas no telhado, eles passariam fome em anos ruins. E eles estavam fadados a se deparar com anos ruins, mais cedo ou mais tarde. Um camponês vivendo com base na suposição de que não haveria anos ruins não vivia por muito tempo.

    Em consequência, desde o advento da agricultura as preocupações com o futuro se tornaram atores importantes no teatro da mente humana. Onde os agricultores dependiam da chuva para regar seus campos, o início da estação chuvosa significava que todas as manhãs eles olhavam para o horizonte,

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    cheirando o vento e apertando os olhos. Aquilo era uma nuvem? As chuvas viriam em tempo? Choveria o suficiente? Tempestades violentas varreriam as sementes dos campos e destruiriam as mudas? Enquanto isso, nos vales dos rios Eufrates, Indo e Amarelo, outros camponeses monitoravam, com não menos apreensão, o nível da água. Eles precisavam que os rios subissem a fim de espalhar a camada superior de solo fértil trazida das terras altas, e enchessem de água seus vastos sistemas de irrigação. Mas as cheias fora de hora ou abundantes demais podiam destruir os campos tanto quanto uma seca.

    Os camponeses se preocupavam com o futuro não só porque tinham mais motivos para se preocupar, mas também porque podiam fazer algo a respeito.

    Podiam limpar outro campo, cavar outro canal de irrigação, diversificar os tipos de cultivo. O camponês ansioso era tão frenético e trabalhador quanto uma formiga-cortadeira no verão, suando para plantar oliveiras cujo azeite seria prensado por seus filhos e netos, protelando até o inverno ou até o ano seguinte o consumo do alimento desejado no presente.

    O estresse representado pela agricultura teve consequências importantes.

    Foi a base dos sistemas políticos e sociais de grande escala. Infelizmente, mesmo trabalhando duro, os camponeses quase nunca alcançaram a segurança econômica futura que tanto ansiavam. Em toda parte, brotaram governantes e elites, vivendo do excedente dos camponeses e deixando-os com o mínimo para a subsistência.

    Esses excedentes de alimento confiscados alimentaram a política, a guerra, a arte e a filosofia. Construíram palácios, fortes, monumentos e templos. Até o fim da era moderna, mais de 90% dos humanos eram camponeses que se levantavam todas as manhãs para trabalhar a terra com o suor da fronte. Os excedentes que produziam alimentavam a ínfima minoria das elites – reis, oficiais do governo, soldados, padres, artistas e pensadores –, que enchem os livros de história. A história é o que algumas poucas pessoas fizeram enquanto todas as outras estavam arando campos e carregando baldes de água.

    Uma ordem imaginada

    Os excedentes de comida produzidos por camponeses, aliados à nova tecnologia de transportes, acabaram por permitir que cada vez mais pessoas se apinhassem

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    primeiro em aldeias maiores, depois em vilarejos e enfim em cidades, todas as reunidas sob novos reinos e redes de comércio.

    Mas, para tirar vantagem dessas novas oportunidades, os excedentes de alimento e a melhoria no transporte não eram suficientes. O mero fato de que se pode alimentar mil pessoas na mesma cidade ou um milhão de pessoas no mesmo reino não garante que elas concordem sobre como dividir a terra e a água, como resolver disputas e conflitos e como agir em tempos de seca ou de guerra. E, se não se chega a um acordo, a discórdia corre solta, mesmo se os armazéns estiverem transbordando. Não foi a escassez de alimentos que causou a maior parte das guerras e revoluções da história. A Revolução Francesa foi liderada por importantes advogados, e não por camponeses famintos. A República Romana chegou ao auge de seu poder no século I, quando navios de tesouro de todo o Mediterrâneo enriqueciam os romanos em tal nível que seus ancestrais jamais sonharam. Mas foi nesse momento de máxima afluência que a ordem política romana ruiu em uma série de guerras civis sanguinárias. A Iugoslávia em 1991 tinha recursos mais do que suficientes para alimentar todos os seus habitantes e ainda assim se desintegrou em um terrível banho de sangue.

    O problema na raiz de tais calamidades é que os humanos evoluíram por milhões de anos em pequenos bandos de algumas dezenas de indivíduos. O punhado de milênios separando a Revolução Agrícola do surgimento de cidades, reinos e impérios não foi tempo suficiente para possibilitar o desenvolvimento de um instinto de cooperação em massa.

    Apesar da ausência de tais instintos biológicos, durante a era dos caçadores-coletores centenas de estranhos foram capazes de cooperar graças a seus mitos partilhados. No entanto, essa cooperação era frouxa e limitada. Todos os bandos de sapiens continuavam a tocar a vida de maneira independente e a satisfazer a maior parte de suas próprias necessidades. Um sociólogo arcaico vivendo há 20 mil anos, sem conhecimento do que aconteceria após a Revolução Agrícola, poderia muito bem ter concluído que a mitologia tem um escopo um tanto limitado. Histórias sobre espíritos ancestrais e totens tribais tinham influência suficiente para fazer com que 500 pessoas usassem conchas como moeda, celebrassem uma festividade ocasional e unissem forças para exterminar um bando de neandertais – mas não mais do que isso. A mitologia, o antigo sociólogo teria pensado, não teria como convencer milhões de estranhos a

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    cooperarem diariamente.

    Mas isso se mostrou um engano. Os mitos, como se veio a saber, são mais influentes do que qualquer um poderia ter imaginado. Quando a Revolução Agrícola criou oportunidades para a criação de cidades populosas e impérios poderosos, as pessoas inventaram histórias sobre grandes deuses, pátrias-mães e empresas de capital aberto para fornecer os elos sociais necessários. Enquanto a evolução humana estava rastejando no seu usual ritmo de tartaruga, a imaginação humana estava construindo redes impressionantes de cooperação em massa, diferentes de qualquer outra já vista.

    Por volta de 8500 a.C., os maiores assentamentos do mundo eram vilarejos como Jericó, que continha algumas centenas de indivíduos. Em 7000 a.C., a cidade de Çatal Hüyük, na Anatólia, tinha entre 5 mil e 10 mil indivíduos. É bem possível que fosse o maior assentamento do mundo na época. Durante o quinto e o quarto milênio antes de Cristo, cidades com dezenas de milhares de habitantes floresceram no Crescente Fértil, e cada uma delas tinha influência sobre muitos vilarejos nas proximidades. Em 3100 a.C., todo o vale do baixo Nilo estava unido no primeiro reino egípcio. Seus faraós governavam milhares de quilômetros quadrados e centenas de milhares de pessoas. Por volta de 2250 a.C., Sargão, o Grande, construiu o primeiro império, o Acadiano. Ostentava mais de um milhão de súditos e um exército permanente de 5,4 mil soldados.

    Entre 1000 a.C. e 500 a.C., apareceram os primeiros megaimpérios no Oriente Médio: o Império Assírio, o Império Babilônico e o Império Persa. Eles governavam muitos milhões de súditos e comandavam dezenas de milhares de soldados.

    Em 221 a.C., a dinastia Qin unificou a China, e logo depois Roma unificou a bacia do Mediterrâneo. Os impostos cobrados dos 40 milhões de súditos Qin financiavam um exército permanente de centenas de milhares de soldados e uma burocracia complexa que empregava mais de 100 mil oficiais. O Império Romano, em seu auge, arrecadava impostos de até 100 milhões de súditos. Essa receita financiava um exército permanente de 250 mil a 500 mil soldados, uma rede rodoviária ainda em uso quinze séculos depois e teatros e anfiteatros que abrigam espetáculos ainda hoje.

    Impressionante, sem dúvida, mas não devemos alimentar ilusões otimistas sobre “redes de cooperação em massa” do Egito faraônico ou do Império

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    Romano. “Cooperação” soa muito altruísta, mas nem sempre é voluntária e raramente é igualitária. A maior parte das redes de cooperação humana foi concebida para a opressão e a exploração. Os camponeses pagavam por tais redes de cooperação com seus preciosos excedentes de alimento, caindo em desespero quando o cobrador de impostos confiscava um ano inteiro de trabalho pesado com um único rabisco de sua pena. Os famosos anfiteatros romanos foram quase todos construídos por escravos para que romanos ricos e ociosos pudessem assistir outros escravos se enfrentarem nos odiosos combates de gladiadores. Até mesmo as prisões e os campos de concentração são redes de cooperação e só podem funcionar porque milhares de estranhos conseguem, de algum modo, coordenar suas ações.

    Todas essas redes de cooperação – das cidades da antiga Mesopotâmia aos impérios Qin e Romano – foram “ordens imaginadas”. As normas sociais que as sustentavam não se baseavam em instintos arraigados nem em relações pessoais, e sim na crença em mitos partilhados.

    Como os mitos podem sustentar impérios inteiros? Já discutimos um desses exemplos: a Peugeot. Examinemos dois dos mitos mais conhecidos da história: o Código de Hamurabi, de aproximadamente 1776 a.C., que serviu como um manual de cooperação para centenas de milhares de babilônios na Antiguidade; e a Declaração de Independência dos Estados Unidos, de 1776, que ainda hoje serve como um manual de cooperação para centenas de milhões de norteamericanos.

    Em 1776 a.C., a Babilônia era a maior cidade do mundo. O Império Babilônico era provavelmente o maior do mundo, com mais de um milhão de súditos. Governava a maior parte da Mesopotâmia, incluindo quase todo o território do atual Iraque e partes da Síria e do Irã. O mais famoso rei babilônico foi Hamurabi. Sua fama se deve principalmente ao texto que recebe seu nome, o Código de Hamurabi. Este foi uma coleção de leis e decisões judiciais cujo objetivo era apresentar Hamurabi como modelo de um rei justo, servir como base para um sistema jurídico mais uniforme em todo o Império Babilônico e ensinar às gerações futuras o que é justiça e como age um rei justo.

    As gerações futuras prestaram atenção. A elite intelectual e burocrática da antiga Mesopotâmia canonizou o texto, e escribas aprendizes continuaram a copiá-lo muito depois de Hamurabi morrer e de seu império cair em ruína. O

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    Código de Hamurabi é, portanto, uma boa fonte para entender o antigo ideal de ordem social dos mesopotâmios.3 O texto começa afirmando que os deuses Anu, Enlil e Marduk – as principais deidades do panteão mesopotâmico – nomearam Hamurabi para “fazer a justiça prevalecer na terra, abominar o que é mau e perverso, impedir que os fortes oprimam os fracos”.4 Então, lista cerca de trezentos julgamentos, de acordo com a seguinte fórmula estabelecida: “Se tal e tal coisa acontecer, tal é o julgamento”. Por exemplo, os julgamentos 196-199 e 209-214 afirmam:

    196. Se um homem superior arrancar o olho de outro homem superior, deverá ter seu olho arrancado.

    197. Se ele quebrar o osso de outro homem superior, deverá ter seu osso quebrado.

    198. Se ele arrancar o olho de um homem comum, ou quebrar o osso de um homem comum, deverá pagar 60 siclos de prata.

    199. Se ele arrancar o olho do escravo de um homem superior, ou quebrar o osso do escravo de um homem superior, deve pagar metade do valor do escravo (em prata).5 209. Se um homem superior bater em uma mulher superior e a fizer abortar, deverá pagar 10 siclos de prata pelo feto.

    210. Se essa mulher morrer, a filha dele deverá ser morta.

    211. Se ele bater em uma mulher comum e a fizer abortar, deverá pagar 5 siclos de prata.

    212. Se essa mulher morrer, ele deverá pagar 30 siclos de prata.

    213. Se ele bater em uma escrava e a fizer abortar, deverá pagar 2 siclos de prata.

    214. Se essa escrava morrer, ele deverá pagar 20 siclos de prata.6 Depois de listar seus julgamentos, Hamurabi declara novamente que Essas são as justas leis que Hamurabi, o rei sábio, estabeleceu e, por meio delas, conduziu a terra no caminho da verdade e da retidão […] eu sou

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    Hamurabi, rei nobre. Não me eximi da minha responsabilidade para com a humanidade, entregue a meus cuidados pelo rei Enlil, e de cuja condução deus Marduk me encarregou.7 O Código de Hamurabi afirma que a ordem social babilônica tem origem em princípios universais e eternos de justiça ditados pelos deuses. O princípio de hierarquia é de suma importância. De acordo com o código, as pessoas estão divididas em dois gêneros e três classes: os superiores, os comuns e os escravos.

    Os membros de cada gênero e classe têm valores diferentes. A vida de uma mulher comum vale 30 siclos de prata e a de uma escrava, 20 siclos de prata, ao passo que o olho de um homem comum vale 60 siclos de prata.

    O código também estabelece uma hierarquia estrita no interior das famílias, de acordo com a qual as crianças não são pessoas independentes, e sim propriedade de seus pais. Portanto, se um homem superior matar a filha de outro homem superior, a filha do assassino deve ser executada em punição! Para nós, pode parecer estranho que o assassino permaneça incólume enquanto sua filha inocente é morta, mas para Hamurabi e os babilônios isso parecia perfeitamente justo. O Código de Hamurabi se baseava na premissa de que, se todos os súditos do rei aceitassem sua posição na hierarquia e agissem de acordo com ela, o milhão de habitantes do império seria capaz de cooperar de maneira eficaz. Sua sociedade poderia, então, produzir alimentos suficientes para seus membros, distribuí-los de forma eficaz, se proteger dos inimigos e expandir seu território a fim de obter mais riqueza e segurança.

    Aproximadamente 3,5 mil anos após a morte de Hamurabi, os habitantes de 13 colônias britânicas na América do Norte consideraram que o rei da Inglaterra os estava tratando de maneira injusta. Seus representantes se reuniram na cidade de Filadélfia e, em 4 de julho de 1776, as colônias declararam que seus habitantes já não eram súditos da Coroa britânica. Sua Declaração de Independência proclamou princípios universais e eternos de justiça que, como os de Hamurabi, foram inspirados por um poder divino. No entanto, o princípio mais importante ditado pelo deus americano era bem diferente do princípio ditado pelos deuses da Babilônia. A Declaração de Independência dos Estados Unidos afirma o seguinte:

    Consideramos estas verdades evidentes por si mesmas, que todos os

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    homens são criados iguais, que são dotados por seu Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a procura de felicidade.

    Como o Código de Hamurabi, o documento fundacional norte-americano promete que, se os humanos agirem de acordo com seus princípios sagrados, milhões deles serão capazes de cooperar de maneira eficaz, vivendo em paz e segurança em uma sociedade justa e próspera. Como o Código de Hamurabi, a Declaração de Independência dos Estados Unidos foi não só um documento de seu tempo e lugar – também foi aceita por gerações futuras. Há mais de 200 anos, as crianças nas escolas norte-americanas a copiam e aprendem de cor.

    Os dois textos nos apresentam um dilema óbvio. Tanto o Código de Hamurabi quanto a Declaração de Independência dos Estados Unidos afirmam definir princípios universais e eternos de justiça, mas de acordo com os norteamericanos todas as pessoas são iguais e conforme os babilônios as pessoas são decididamente desiguais. Os norte-americanos diriam, é claro, que eles estão certos e que Hamurabi está errado. Hamurabi, naturalmente, retorquiria que ele está certo e que os norte-americanos estão errados. Na verdade, ambos estão errados. Tanto Hamurabi quanto os pais fundadores dos Estados Unidos imaginaram uma realidade governada por princípios universais e imutáveis de justiça, como igualdade ou hierarquia. Mas o único lugar em que tais princípios universais existem é na imaginação fértil dos sapiens e nos mitos que eles inventam e contam uns aos outros. Esses princípios não têm nenhuma validade objetiva.

    É fácil para nós aceitar que a divisão das pessoas em “superiores” e “comuns” é produto da imaginação. Mas a ideia de que todos os humanos são iguais também é um mito. Em que sentido todos os humanos são iguais uns aos outros? Existe alguma realidade objetiva, fora da imaginação humana, em que somos verdadeiramente iguais? Todos os humanos são iguais do ponto de vista biológico? Tentemos traduzir a frase mais famosa da Declaração de Independência dos Estados Unidos em termos biológicos:

    Consideramos estas verdades evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais, que são dotados por seu Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a procura de

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    felicidade.

    De acordo com a ciência da biologia, as pessoas não foram “criadas”; elas evoluíram. E certamente não evoluíram para ser “iguais”. A ideia de igualdade está intrinsecamente ligada à ideia de criação. Os norte-americanos tiraram a ideia de igualdade do cristianismo, que afirma que todo indivíduo tem uma alma de origem divina e que todas as almas são iguais diante de Deus. No entanto, se não acreditamos nos mitos cristãos sobre Deus, criação e almas, o que significa dizer que todas as pessoas são “iguais”? A evolução se baseia na diferença, e não na igualdade. Cada pessoa carrega um código genético um pouco diferente e é exposta, desde o nascimento, a diferentes influências ambientais. Isso leva ao desenvolvimento de diferentes qualidades que carregam consigo diferentes chances de sobrevivência. Portanto, “são criados iguais” deveria ser traduzido como “evoluíram de forma diferente”.

    Assim como as pessoas nunca foram criadas, tampouco, de acordo com a ciência da biologia, existe um “Criador” que as tenha “dotado” de alguma coisa.

    Há apenas um processo evolutivo cego, destituído de propósito, levando ao nascimento de indivíduos. “São dotados por seu Criador” deveria ser traduzido simplesmente como “nasceram”.

    Igualmente, não existem direitos na biologia. Há apenas órgãos, habilidades e características. Os pássaros voam não porque têm o direito de voar, mas porque têm asas. E não é verdade que esses órgãos, habilidades e características são “inalienáveis”. Muitos deles passam por mutações constantes e podem muito bem se perder completamente com o tempo. O avestruz é uma ave que perdeu a capacidade de voar. Portanto, “direitos inalienáveis” deveria ser traduzido como “características mutáveis”.

    E quais são as características que evoluíram nos humanos? “Vida”, certamente. Mas “liberdade”? Isso não existe na biologia. Assim como igualdade, direitos e empresas de responsabilidade limitada, a liberdade é algo que as pessoas inventaram e que só existe em nossa imaginação. De uma perspectiva biológica, não faz sentido dizer que os humanos em sociedades democráticas são livres, ao passo que os humanos em sociedades ditatoriais não o são. E quanto a “felicidade”? Até o momento as pesquisas biológicas foram incapazes de propor uma definição clara de felicidade ou uma maneira de medi-la objetivamente. A

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    maioria dos estudos biológicos reconhece apenas a existência de prazer, que é mais facilmente definido e medido. Portanto, “a vida, a liberdade e a procura da felicidade” deveria ser traduzido como “a vida e a procura do prazer”.

    Então, aqui está a frase da Declaração de Independência dos Estados Unidos traduzida em termos biológicos:

    Consideramos estas verdades evidentes por si mesmas, que todos os homens evoluíram de forma diferente, que nasceram com certas características mutáveis, que entre estas estão a vida e a procura do prazer.

    Os defensores da igualdade e dos direitos humanos talvez fiquem escandalizados com essa linha de raciocínio. Sua reação provavelmente será:

    “Nós sabemos que as pessoas não são iguais biologicamente! Mas se acreditarmos que somos todos iguais em essência, isso nos permitirá criar uma sociedade estável e próspera”. Eu não tenho nenhum argumento contra isso. É exatamente o que quero dizer com “ordem imaginada”. Acreditamos em uma ordem em particular não porque seja objetivamente verdadeira, mas porque acreditar nela nos permite cooperar de maneira eficaz e construir uma sociedade melhor. Ordens imaginadas não são conspirações malignas ou miragens inúteis.

    Ao contrário, são a única forma pela qual grandes números de seres humanos podem cooperar efetivamente. Lembre-se, no entanto, que Hamurabi pode ter defendido seu princípio de hierarquia usando a mesma lógica: “Eu sei que homens superiores, comuns e escravos não são tipos de pessoas inerentemente diferentes. Mas se acreditarmos que são, isso nos permitirá criar uma sociedade estável e próspera”.

    Os que realmente acreditam

    É provável que alguns leitores tenham se contorcido na cadeira ao ler os parágrafos anteriores. A maioria de nós é educada para reagir dessa forma. É fácil aceitar o Código de Hamurabi como um mito, mas não queremos ouvir que os direitos humanos também são um mito. Se as pessoas perceberem que os direitos humanos só existem na imaginação, nossa sociedade não corre o risco de desmoronar? Voltaire afirmou, a respeito de Deus: “Deus não existe, mas não

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    conte isso ao meu servo, para que ele não me mate durante a noite”. Hamurabi teria dito o mesmo sobre seu princípio de hierarquia, e Thomas Jefferson, sobre os direitos humanos. O Homo sapiens não tem direitos naturais, assim como aranhas, hienas e chimpanzés não têm direitos naturais. Mas não conte isso aos nossos servos, para que eles não nos matem durante a noite.

    Tais temores são justificados. Uma ordem natural é uma ordem estável.

    Não existe a menor chance de que a gravidade deixe de funcionar amanhã, mesmo que as pessoas deixem de acreditar nela. Por sua vez, uma ordem imaginada está sempre sob ameaça de colapso, porque depende de mitos, e os mitos desaparecem quando as pessoas deixam de acreditar neles. Para salvaguardar uma ordem imaginada, são necessários esforços árduos e contínuos. Alguns desses esforços assumem a forma de violência e coerção.

    Exércitos, forças policiais, tribunais e prisões estão o tempo todo em ação, forçando as pessoas a agirem de acordo com a ordem imaginada. Se um antigo babilônio cegasse seu vizinho, normalmente era necessária certa dose de violência para que se cumprisse a lei do “olho por olho”. Quando, em 1860, uma maioria de cidadãos norte-americanos concluiu que os escravos africanos são seres humanos e devem, portanto, gozar do direito de liberdade, foi necessária uma guerra civil sanguinária para que os estados do Sul concordassem.

    No entanto, uma ordem imaginada não pode se sustentar apenas por meio da violência. Requer também que algumas pessoas realmente acreditem nela. O príncipe Talleyrand, que começou sua carreira camaleônica sob Luís XVI, para posteriormente servir o regime revolucionário e o napoleônico e enfim trocar sua lealdade a tempo de terminar seus dias trabalhando para a monarquia restaurada, resumiu décadas de experiência governamental afirmando que “podemos fazer muitas coisas com baionetas, mas é muito desconfortável sentar sobre elas”. Um único padre muitas vezes faz o trabalho de uma centena de soldados – só que é muito mais barato e eficaz. Além do mais, não importa quão eficientes sejam as baionetas, alguém precisa empunhá-las. Por que os soldados, carcereiros, juízes e policiais manteriam uma ordem imaginada em que não acreditassem? De todas as atividades humanas coletivas, a mais difícil de organizar é a violência.

    Dizer que uma ordem social é mantida por força militar imediatamente levanta a pergunta: o que mantém a ordem militar? É impossível organizar um exército unicamente por meio de coerção. Pelo menos alguns dos comandantes e

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    soldados precisam acreditar realmente em alguma coisa, seja Deus, honra, pátria, coragem ou dinheiro.

    Uma questão ainda mais interessante diz respeito àqueles que se situam no topo da pirâmide social. Por que eles desejariam impor uma ordem imaginada se eles mesmos não acreditam nela? É muito comum argumentar que a elite pode fazer isso por ganância cínica. Mas um cínico que não acredita em nada dificilmente é ganancioso. Não é preciso muito para satisfazer as necessidades biológicas objetivas do Homo sapiens. Depois que tais necessidades são satisfeitas, mais dinheiro pode ser gasto na construção de pirâmides, sair de férias pelo mundo, financiar campanhas eleitorais, bancar uma organização terrorista ou investir na bolsa de valores e ganhar mais dinheiro – todas as quais são atividades que um cínico de verdade consideraria absolutamente sem sentido.

    Diógenes, o filósofo grego que fundou a escola cínica, vivia em um barril.

    Quando Alexandre Magno certa vez visitou Diógenes enquanto ele descansava ao sol e perguntou se havia alguma coisa que pudesse fazer por ele, o cínico respondeu ao conquistador todo-poderoso: “Sim, há algo que possa fazer. Por favor, vá um pouco para o lado. Você está tapando o sol”.

    É por isso que os cínicos não constroem impérios e que uma ordem imaginada só pode ser mantida se grandes segmentos da população – e, em particular, grandes segmentos da elite e das forças de segurança – realmente acreditarem nela. O cristianismo não teria durado 2 mil anos se a maioria dos bispos e padres não acreditasse em Cristo. A democracia norte-americana não teria durado 250 anos se a maioria dos presidentes e congressistas não acreditasse nos direitos humanos. O sistema econômico moderno não teria durado um único dia se a maioria dos investidores e banqueiros não acreditasse no capitalismo.

    Os muros da prisão

    Como você faz as pessoas acreditarem em uma ordem imaginada como o cristianismo, a democracia ou o capitalismo? Primeiro, você nunca admite que a ordem é imaginada. Você sempre insiste que a ordem que sustenta a sociedade é uma realidade objetiva criada pelos grandes deuses ou pelas leis da natureza. As pessoas são diferentes não porque Hamurabi disse isso, mas porque Enlil e Marduk decretaram isso. As pessoas são iguais não porque Thomas Jefferson

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    disse isso, mas porque Deus as criou dessa maneira. Os livres mercados são o melhor sistema econômico não porque Adam Smith disse isso, mas porque essas são as leis imutáveis da natureza.

    Você também educa as pessoas o tempo todo. Do momento em que nascem, você as lembra constantemente dos princípios da ordem imaginada, que estão presentes em tudo. Estão presentes nos contos de fada, nos dramas, nas pinturas, nas canções, na etiqueta, na propaganda política, na arquitetura, nas receitas e na moda. Por exemplo, hoje as pessoas acreditam em igualdade, então é moda as crianças ricas usarem jeans, que originalmente eram vestimenta da classe trabalhadora. Na Idade Média as pessoas acreditavam em divisões de classe, então nenhum jovem da nobreza usaria um traje de camponês. Na época, ser chamado de “senhor” ou “senhora” era um privilégio raro reservado para a nobreza e muitas vezes adquirido com sangue. Hoje, todas as correspondências formais, independente do destinatário, começam com “Prezado(a) senhor(a)”.

    As humanidades e as ciências sociais dedicam a maior parte de suas energias a explicar exatamente como a ordem imaginada é tecida na trama da vida. No espaço limitado à nossa disposição, só podemos arranhar a superfície.

    Três fatores principais impedem as pessoas de perceberem que a ordem que organiza nossa vida só existe em nossa imaginação:

    a. A ordem imaginada está incrustada no mundo material. Embora só exista em nossa mente, a ordem imaginada pode se entremear na realidade à nossa volta, e até mesmo ser gravada em pedra. Atualmente, a maioria dos ocidentais acredita no individualismo. Eles acreditam que todo ser humano é um indivíduo, cujo valor não depende do que outras pessoas pensam a seu respeito. Cada um de nós tem dentro de si um raio de luz brilhante que dá valor e significado à vida. Nas escolas ocidentais de hoje, os professores e os pais dizem às crianças que, se os colegas zombarem delas, elas devem ignorar. Somente elas mesmas, e não os outros, conhecem seu verdadeiro valor.

    Na arquitetura moderna, esse mito sai da imaginação e toma forma em tijolo e argamassa. A casa moderna ideal é dividida em muitos aposentos pequenos para que cada criança possa ter um espaço privado, ocultado da vista, proporcionando o máximo de autonomia. Esse espaço privado quase sempre tem uma porta, e em muitos lares é uma prática aceita que a criança feche ou

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    inclusive tranque a porta. Mesmo os pais são proibidos de entrar sem bater e pedir permissão. O quarto é decorado como o filho quiser, com pôsteres de astros do rock na parede e meias sujas no chão. Alguém crescendo em tal espaço não pode deixar de se imaginar como “um indivíduo”, seu verdadeiro valor emanando de dentro, e não de fora.

    Os homens nobres na Europa medieval não acreditavam no individualismo.

    O valor de uma pessoa era determinado por seu lugar na hierarquia social e por aquilo que outras pessoas diziam a seu respeito. Ser alvo de zombarias era uma indignidade terrível. Os nobres ensinavam seus filhos a protegerem seu nome a qualquer preço. Como o individualismo moderno, o sistema de valores medieval deixou a imaginação e se manifestou na pedra dos castelos medievais. O castelo raramente tinha aposentos privativos para as crianças (ou, aliás, para qualquer pessoa). O filho adolescente de um barão medieval não tinha um quarto só seu no segundo andar do castelo, com pôsteres de Ricardo Coração de Leão e do rei Artur nas paredes e uma porta trancada que seus pais não tinham permissão para abrir. Ele dormia ao lado de muitos outros jovens em um grande salão. Estava sempre à vista e sempre tinha que levar em consideração o que os outros viam e diziam. Alguém crescendo em tais condições naturalmente concluía que o verdadeiro valor de um homem era determinado por seu lugar na hierarquia social e por aquilo que outras pessoas diziam a seu respeito.8 b. A ordem imaginada define nossos desejos. A maioria das pessoas não quer aceitar que a ordem que governa sua vida é imaginária, mas na verdade cada pessoa nasce em uma ordem imaginada preexistente, e seus desejos são moldados desde o nascimento pelos mitos dominantes. Nossos desejos pessoais, portanto, se tornam as defesas mais importantes da ordem imaginada.

    Por exemplo, os desejos mais valorizados dos ocidentais de hoje são definidos por mitos românticos, nacionalistas, capitalistas e humanistas que estão aí há séculos. Amigos dando conselhos muitas vezes dizem uns aos outros: “Siga seu coração”. Mas o coração é um agente duplo que geralmente recebe instruções dos mitos dominantes do momento, e a própria recomendação de “seguir seu coração” era implantada em nossa mente por uma combinação de mitos românticos do século XIX e mitos consumistas do século XX. A Coca-Cola Company, por exemplo, promoveu a Diet Coke pelo mundo sob o slogan “Diet

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    Coke. Do what feels good” [“Coca-Cola Diet. Faça o que lhe faz bem”].

    Mesmo aqueles que as pessoas imaginam serem seus desejos mais pessoais geralmente são programados pela ordem imaginada. Consideremos, por exemplo, o desejo popular de passar férias no exterior. Não há nada de natural ou óbvio nisso. Um chimpanzé macho alfa jamais pensaria em usar seu poder para passar férias no território de um bando de chimpanzés vizinho. A elite do Egito antigo gastou sua fortuna construindo pirâmides e mumificando seus cadáveres, mas quase ninguém pensou em ir fazer compras na Babilônia ou ir esquiar na Fenícia. As pessoas hoje gastam grandes somas de dinheiro com férias no exterior porque realmente acreditam nos mitos do consumismo romântico.

    O romantismo nos diz que para aproveitar ao máximo nosso potencial humano devemos ter tantas experiências diferentes quanto possível. Devemos nos abrir a um amplo leque de emoções; experimentar vários tipos de relacionamento; provar culinárias diferentes; aprender a apreciar diferentes estilos de música. Uma das melhores maneiras de fazer tudo isso é escapar da nossa rotina diária, deixar para trás nosso cenário familiar e viajar para terras distantes, onde podemos “vivenciar” a cultura, os aromas, os sabores e as normas de outros povos. Ouvimos repetidas vezes os mitos românticos sobre “como uma nova experiência abriu meus olhos e mudou minha vida”.

    O consumismo nos diz que para sermos felizes precisamos consumir tantos produtos e serviços quanto possível. Se sentimos que algo está faltando ou fora de lugar, provavelmente precisamos comprar um produto (um carro, roupas novas, comida orgânica) ou um serviço (limpeza doméstica, terapia de casais, aulas de yoga). Todo comercial de televisão é mais uma pequena lenda sobre como consumir algum produto ou serviço tornará a vida melhor.

    O romantismo, que encoraja a variedade, casa perfeitamente com o consumismo. Esse casamento deu à luz o infinito “mercado de experiências”

    sobre o qual se ergueu a indústria de turismo moderna. A indústria de turismo não vende passagens aéreas e quartos de hotel; vende experiências. Paris não é uma cidade, nem a Índia é um país – são ambos experiências cuja realização supostamente expande nossos horizontes, satisfaz nosso potencial humano e nos torna mais felizes. Consequentemente, quando a relação entre um milionário e sua esposa está passando por um período difícil, ele a leva para uma viagem cara a Paris. A viagem não é um reflexo de algum desejo independente, mas antes

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    uma crença fervorosa nos mitos do consumismo romântico. Um homem rico no Egito antigo jamais teria sonhado em resolver uma crise de relacionamento levando a esposa para uma viagem à Babilônia. Em vez disso, ele talvez construísse para ela a tumba suntuosa que ela sempre quis.

    Como a elite do Egito antigo, a maioria das pessoas na maioria das culturas dedica a vida a construir pirâmides. Só os nomes, as formas e os tamanhos dessas pirâmides mudam de uma cultura para outra. Elas podem assumir a forma, por exemplo, de uma casa de campo com piscina e grama sempre verde, ou uma bela cobertura com uma vista invejável. Poucas questionam os mitos que nos levam a desejar a pirâmide.

    c. A ordem imaginada é intersubjetiva. Mesmo que, por um esforço sobrehumano, eu consiga livrar meus desejos pessoais das garras da ordem imaginada, sou só uma pessoa. Para mudar a ordem imaginada, preciso convencer milhões de estranhos a cooperarem comigo, pois a ordem imaginada não é uma ordem subjetiva que só existe na minha imaginação – é, antes, uma ordem intersubjetiva, que existe na imaginação partilhada de milhares e milhões de pessoas.

    Para entender isso, precisamos compreender a diferença entre “objetivo”, “subjetivo” e “intersubjetivo”.

    Um fenômeno objetivo existe independentemente da consciência humana e das crenças humanas. A radioatividade, por exemplo, não é um mito. Emissões radioativas ocorriam muito antes de serem descobertas e são perigosas ainda que as pessoas não acreditem nelas. Marie Curie, uma das pessoas que descobriram a radioatividade, não sabia, durante seus longos anos estudando materiais radioativos, que eles pudessem causar danos a seu corpo. Embora não acreditasse que a radioatividade pudesse matá-la, ainda assim morreu de anemia aplástica, uma doença causada pela exposição excessiva a materiais radioativos.

    Subjetivo é algo que existe dependendo da consciência e das crenças de um único indivíduo. Desaparece ou muda se aquele indivíduo em particular mudar suas crenças. Muitos, quando crianças, acreditam na existência de um amigo imaginário que é invisível e inaudível para o resto do mundo. O amigo imaginário existe unicamente na consciência subjetiva da criança e, quando a criança cresce e deixa de acreditar nele, ele desaparece.

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    Intersubjetivo é algo que existe na rede de comunicação ligando a consciência subjetiva de muitos indivíduos. Se um único indivíduo mudar suas crenças, ou mesmo morrer, será de pouca importância. No entanto, se a maioria dos indivíduos na rede morrer ou mudar suas crenças, o fenômeno intersubjetivo se transformará ou desaparecerá. Fenômenos intersubjetivos não são fraudes malévolas nem charadas insignificantes. Eles existem de uma maneira diferente de fenômenos físicos como a radioatividade, mas seu impacto no mundo ainda pode ser gigantesco. Muitas das forças mais importantes da história são intersubjetivas: leis, dinheiro, deuses, nações.

    A Peugeot, por exemplo, não é o amigo imaginário do CEO da Peugeot. A empresa existe na imaginação partilhada de milhões de pessoas. O CEO acredita na existência da empresa porque os diretores também acreditam nisso, bem como os advogados da empresa, as secretárias no escritório ao lado, os caixas no banco, os corretores na bolsa de valores e os revendedores de automóveis da França à Austrália. Se o CEO sozinho de repente deixasse de acreditar na existência da Peugeot, ele seria levado imediatamente ao hospital psiquiátrico mais próximo e outra pessoa ocuparia seu cargo.

    De maneira similar, o dólar, os direitos humanos e os Estados Unidos da América existem na imaginação partilhada de bilhões de pessoas, e um indivíduo sozinho não pode ameaçar sua existência. Se eu, sozinho, deixasse de acreditar no dólar, nos direitos humanos ou nos Estados Unidos, não faria muita diferença.

    Essas ordens imaginadas são intersubjetivas, de modo que para mudá-las precisamos mudar simultaneamente a consciência de bilhões de pessoas, o que não é fácil. Uma mudança de tal magnitude só pode ser alcançada com a ajuda de uma organização complexa, como um partido político, um movimento ideológico ou um culto religioso. No entanto, para construir tais organizações complexas, é necessário convencer muitos estranhos a cooperarem uns com os outros. E isso só acontecerá se esses estranhos acreditarem em alguns mitos partilhados. Daí decorre que para mudar uma ordem imaginada existente precisamos primeiro acreditar em uma ordem imaginada alternativa.

    Para desmantelar a Peugeot, por exemplo, precisamos imaginar algo mais poderoso, como o sistema jurídico francês. Para desmantelar o sistema jurídico francês, precisamos imaginar algo ainda mais poderoso, como o Estado francês.

    E, se desejarmos desmantelar isso também, teremos de imaginar algo ainda

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    mais poderoso.

    Não há como escapar à ordem imaginada. Quando derrubamos os muros da nossa prisão e corremos para a liberdade, estamos, na verdade, correndo para o pátio mais espaçoso de uma prisão maior.

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    7. Sobrecarga de memória

    Sobrecarga de memória A EVOLUÇÃO NÃO DOTOU OS HUMANOS COM A CAPACIDADE DE JOGAR FUTEBOL. É verdade, produziu pernas para chutar, cotovelos para cometer faltas e bocas para xingar, mas tudo o que isso nos permite fazer é, talvez, praticar chutes de pênalti sozinhos. Para participar de um jogo com estranhos que encontramos no pátio da escola em uma tarde qualquer, precisamos não só trabalhar em conjunto com dez companheiros de equipe que possivelmente nunca encontramos antes como também saber que os onze jogadores do time oposto estão jogando conforme as mesmas regras. Outros animais que se envolvem em agressão ritualizada com estranhos o fazem em grande parte por instinto – cachorrinhos do mundo inteiro têm as regras da brincadeira de luta gravadas em seus genes. Mas os adolescentes humanos não têm genes para o futebol. E, no entanto, podem jogar com completos estranhos porque todos aprenderam um conjunto idêntico de ideias sobre futebol. Essas ideias são totalmente imaginárias, mas, se todos as conhecem, podemos jogar.

    O mesmo se aplica, em uma escala maior, a reinos, igrejas e redes de comércio, com uma diferença importante. As regras do futebol são relativamente simples e concisas, como as que são necessárias para a cooperação em um bando de caçadores-coletores ou em uma pequena aldeia.

    Cada jogador pode armazená-las facilmente no cérebro e ainda ter espaço para canções, imagens e listas de compras. Mas grandes sistemas de cooperação que envolvem não 22, mas milhares ou mesmo milhões de seres humanos requerem o manuseio e o armazenamento de quantidades enormes de informação, muito mais do que um único cérebro humano pode conter e processar.

    As grandes sociedades encontradas em algumas outras espécies, como formigas e abelhas, são estáveis e resilientes porque a maior parte das informações de que necessitam para se sustentar está codificada no genoma. A larva de uma abelha melífera pode, por exemplo, crescer para se tornar rainha ou operária, dependendo de com que é alimentada. Seu DNA programa os comportamentos necessários para qualquer papel que ela possa vir a desempenhar na vida. As colmeias podem ser estruturas sociais muito complexas, contendo muitos tipos diferentes de abelhas-operárias – tais como campeiras, nutrizes e faxineiras. Mas, até agora, os pesquisadores não

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    conseguiram identificar abelhas advogadas. As abelhas não precisam de advogados, porque não existe o risco de elas esquecerem ou tentarem violar a constituição da colmeia. As rainhas não roubam das abelhas-faxineiras seu alimento e nunca entram em greve exigindo melhores salários.

    Mas os humanos fazem coisas desse tipo o tempo todo. Uma vez que a ordem social dos sapiens é imaginada, os humanos não conseguem preservar as informações cruciais para administrá-la simplesmente fazendo cópias de seu DNA e transmitindo estas a seus descendentes. É preciso fazer um esforço consciente para sustentar leis, costumes, procedimentos e maneiras, do contrário, a ordem social rapidamente entraria em colapso. Por exemplo, o rei Hamurabi decretou que as pessoas são divididas em superiores, comuns e escravos.

    Diferentemente do sistema de classes da colmeia, essa não é uma divisão natural – não existe nenhum vestígio disso no genoma humano. Se os babilônios não se lembrassem dessa “verdade”, sua sociedade teria deixado de funcionar. De maneira similar, quando Hamurabi transmitiu seu DNA a seus descendentes, não deixou codificada a regra de que, se um homem superior matasse uma mulher comum, deveria pagar 30 siclos de prata. Hamurabi teve de instruir seus filhos nas leis do império, e seus filhos e netos tiveram de fazer o mesmo.

    Os impérios geram quantidades enormes de informação. Além das leis, os impérios precisam manter registro de transações e impostos, inventários de suprimentos militares e navios mercantes e calendários de festividades e vitórias.

    Durante milhões de anos, as pessoas armazenaram informações em um único lugar: o cérebro. Infelizmente, o cérebro humano não é um bom dispositivo de armazenamento para bancos de dados do tamanho de impérios por três razões principais.

    A primeira razão é que sua capacidade é limitada. É verdade que algumas pessoas têm memória impressionante, e em tempos antigos havia profissionais da memória que podiam guardar na cabeça a topografia de províncias inteiras e os códigos jurídicos de Estados inteiros. No entanto, há um limite que nem mesmo os mestres da mnemônica conseguem transcender. Um advogado poderia saber de memória todo o código jurídico do estado de Massachusetts, mas não os detalhes de cada procedimento jurídico que aconteceu em Massachusetts dos julgamentos das bruxas de Salém em diante.

    A segunda razão é que os humanos morrem, e seu cérebro morre com

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    eles. Toda informação armazenada em um cérebro será apagada em menos de um século. É possível, é claro, transmitir memórias de um cérebro para outro, mas, depois de algumas transmissões, a informação tende a ser deturpada ou se perder.

    A terceira razão, e a mais importante, é que o cérebro humano foi adaptado para armazenar e processar apenas determinados tipos de informação.

    Para sobreviver, os antigos caçadores-coletores tinham de lembrar as formas, as características e os padrões de comportamento de milhares de espécies de plantas e de animais. Eles tinham de lembrar que um cogumelo amarelo enrugado crescendo no outono debaixo de um olmeiro é, muito provavelmente, venenoso, ao passo que um cogumelo de aspecto similar crescendo no inverno debaixo de um carvalho é um bom remédio para dor de estômago. Os caçadores-coletores também precisavam ter em mente as opiniões e as relações das várias dezenas de membros do bando. Se Lucy precisasse da ajuda de um membro do bando para fazer John parar de molestá-la, era importante que se lembrasse que na semana anterior John brigou com Mary, que, portanto, seria uma aliada provável e entusiasta. Consequentemente, as pressões evolutivas adaptaram o cérebro humano para armazenar quantidades imensas de informações botânicas, zoológicas, topográficas e sociais.

    Mas quando, depois da Revolução Agrícola, começaram a aparecer sociedades particularmente complexas, um novo tipo de informação se tornou vital: os números. Os caçadores-coletores nunca precisaram lidar com grandes quantidades de dados matemáticos. Nenhum caçador-coletor precisava lembrar, por exemplo, a quantidade de frutas em cada árvore na floresta, de modo que o cérebro humano não se adaptou para armazenar e processar números. Mas, para manter um reino grande, dados matemáticos eram fundamentais. Nunca foi suficiente criar leis e contar histórias sobre deuses guardiães. Também era preciso cobrar impostos. Para arrecadar impostos de centenas de milhares de pessoas, era fundamental recolher dados sobre a renda e as posses das pessoas; dados sobre os pagamentos realizados; dados sobre atrasos, dívidas e multas; dados sobre descontos e isenções. Isso somava milhões de dados, que tinham de ser armazenados e processados. Sem essa capacidade, o Estado jamais saberia de que recursos dispunha e que recursos adicionais poderia obter. Quando confrontado com a necessidade de memorizar, lembrar e manipular todos esses

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    números, o cérebro da maioria dos humanos se sobrecarregava ou ficava letárgico.

    Essa limitação mental restringia severamente o tamanho e a complexidade dos coletivos humanos. Quando a quantidade de pessoas e propriedades em determinada sociedade ultrapassava um limite crítico, passava a ser necessário armazenar e processar grandes quantidades de dados matemáticos. Como o cérebro humano não era capaz de fazer isso, o sistema ruía. Durante milhares de anos após a Revolução Agrícola, as redes sociais humanas permaneceram relativamente pequenas e simples.

    Os primeiros a superar o problema foram os antigos sumérios, que viviam no sul da Mesopotâmia. Lá, um sol abrasador banhando planícies lamacentas e férteis produziu colheitas fartas e cidades prósperas. Conforme o número de habitantes cresceu, também aumentou a quantidade de informações requeridas para coordenar seus assuntos. Entre os anos 3500 e 3000 a.C., alguns gênios sumérios desconhecidos inventaram um sistema para armazenar e processar informações fora do cérebro concebido especialmente para lidar com grandes quantidades de dados matemáticos. Com isso, os sumérios libertaram sua ordem social das limitações do cérebro humano, abrindo caminho para o surgimento de cidades, reinos e impérios. O sistema de processamento de dados inventado pelos sumérios é chamado “escrita”.

    Assinado, Kushim

    A escrita é um método para armazenar informações por meio de símbolos materiais. O sistema de escrita sumério fez isso combinando dois tipos de símbolos, que eram gravados em pequenas tábuas de argila. Um tipo de símbolo representava os números. Havia símbolos para 1, 10, 60, 600, 3600 e 36000 (os sumérios usavam uma combinação de sistemas numéricos de base 6 e de base 10. Seu sistema de base 6 nos deixou vários legados importantes, como a divisão do dia em 24 horas e do círculo em 360 graus). O outro tipo de símbolo representava pessoas, animais, mercadorias, territórios, datas e assim por diante.

    Ao combinar ambos os tipos de símbolos, os sumérios foram capazes de preservar muito mais dados do que qualquer cérebro humano poderia se lembrar ou qualquer cadeia de DNA poderia codificar.

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    Nesse estágio inicial, a escrita era limitada a fatos e números. O grande romance sumério, se é que existiu algum, nunca foi gravado em tábuas de argila.

    A escrita consumia tempo, e o público leitor era diminuto, de modo que ninguém via razão alguma para usá-la para outro propósito que não o registro de informações essenciais. Se procuramos as primeiras palavras de sabedoria vindas de nossos ancestrais, há 5 mil anos, é melhor nos prepararmos para uma grande decepção. As primeiras mensagens que nossos ancestrais deixaram foram do tipo: “29.086 medidas cevada 37 meses Kushim”. A leitura mais provável dessa frase é a seguinte: “Um total de 29.086 medidas de cevada foram recebidas no decurso de 37 meses. Assinado, Kushim”. Infelizmente, os primeiros textos de história não contêm reflexões filosóficas, poesias, lendas, leis ou triunfos reais. São documentos econômicos monótonos, registrando o pagamento de impostos, a acumulação de dívidas e títulos de propriedades.

    13. Tábua de argila com um texto administrativo da cidade de Uruk, c. 3400-

    3000 a.C. A tábua aparentemente registra um total de 29.086 medidas de cevada recebido por Kushim ao longo de 37 meses. “Kushim” pode ser o título genérico de um funcionário público ou o nome de um indivíduo em particular. Se Kushim foi mesmo uma pessoa, talvez seja o primeiro indivíduo na história cujo nome conhecemos! Todos os nomes usados nos estágios antigos da história humana – os neandertais, os natufianos, a caverna de Chauvet, Göbekli Tepe –

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    são invenções modernas. Não temos ideia de como os construtores de Göbekli Tepe batizaram o lugar. Com o surgimento da escrita, começamos a ouvir a história da boca de seus protagonistas. Ao designá-lo, os vizinhos de Kushim podem ter na verdade gritado “Kushim!”. É revelador que o primeiro nome registrado na história pertença a um contador, e não a um profeta, poeta ou grande conquistador.1 Apenas um outro tipo de texto sobreviveu desses dias antigos, e é ainda menos empolgante: listas de palavras, copiadas repetidas vezes por escribas aprendizes como exercício. Mesmo que um estudante entediado quisesse escrever alguns de seus poemas em vez de uma cópia de um recibo de compra e venda, ele não poderia fazer isso. Em seus primórdios, o sistema de escrita sumério era parcial, e não completo. Um sistema de escrita completo é um sistema de símbolos materiais que pode representar de maneira mais ou menos fiel a linguagem falada. Pode, portanto, expressar tudo que as pessoas podem dizer, inclusive poesia. Um sistema de escrita parcial, por outro lado, é um sistema de símbolos materiais que só pode representar determinados tipos de informação, pertencentes a um campo de atividade limitado. O latim, os hieróglifos do antigo Egito e o braile são sistemas de escrita completos. Pode-se usá-los para escrever registros de impostos, poemas de amor, livros de história, receitas de culinária e leis empresariais. Já o primeiro sistema de escrita sumério, assim como as notações musicais e os símbolos matemáticos modernos, é um sistema de escrita parcial. Você pode usar símbolos matemáticos para fazer cálculos, mas não pode usá-los para escrever poemas de amor.

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    O sistema de escrita parcial não pode expressar todo o espectro de uma língua falada, mas pode expressar coisas que estão fora do escopo da língua falada.

    Sistemas de escrita parciais como as notações matemáticas e sumérias não podem ser usados para escrever poesia, mas podem manter registros contábeis de maneira muito eficaz.

    Não incomodava os sumérios o fato de que seu sistema de escrita não era apropriado para escrever poesia. Eles não o inventaram para copiar a língua falada, e sim para fazer coisas que a língua falada não conseguia fazer. Houve algumas culturas, como as dos Andes pré-colombianos, que usaram apenas sistemas de escrita parciais durante toda a sua história, sem se deixar abalar pelas limitações de seus sistemas de escrita e sem sentir necessidade alguma de uma versão completa. O sistema de escrita andino era muito diferente de seu equivalente sumério. De fato, era tão diferente que muitas pessoas afirmariam que nem sequer era um sistema de escrita. Não era registrado em tábuas de argila ou pedaços de papel. Em vez disso, era registrado por meio de nós atados em cordas coloridas chamadas quipos. Cada quipo consistia de muitas cordas de

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    cores distintas, feitas de lã ou de algodão. Em cada corda, atavam-se vários nós em diferentes lugares. Um único quipo podia conter centenas de cordas e milhares de nós. Ao combinar diferentes nós em diferentes cordas com diferentes cores, era possível registrar grandes quantidades de dados matemáticos referentes, por exemplo, à arrecadação de impostos e ao registro de propriedades.2 Durante centenas, talvez milhares de anos, os quipos foram essenciais para o negócio de cidades, reinos e impérios.3 Eles alcançaram todo seu potencial sob o Império Inca, que governou 10-12 milhões de pessoas e abarcou toda a área do Peru, Equador e Bolívia, bem como pedaços do Chile, da Argentina e da Colômbia. Graças aos quipos, os incas puderam salvar e processar grandes quantidades de dados, sem os quais não teriam sido capazes de manter o complexo maquinário administrativo que um império desse tamanho requer.

    De fato, os quipos eram tão eficazes e precisos que, nos primeiros anos após a conquista espanhola da América do Sul, os próprios espanhóis empregaram esse sistema no trabalho de administrar seu novo império. O problema era que os espanhóis não sabiam como registrar e ler quipos, o que os tornava dependentes dos profissionais locais. Os novos governantes do continente perceberam que isso os colocava em uma posição difícil – os nativos especialistas em quipos poderiam facilmente enganar seus senhores. Por isso, uma vez que o domínio da Espanha estava mais consolidado, os quipos foram desativados e os registros do novo império foram mantidos totalmente em latim e numerais. Pouquíssimos quipos sobreviveram à ocupação espanhola, e a maioria dos que restaram são indecifráveis, já que, infelizmente, a arte de ler quipos se perdeu.

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    14. Um quipo andino datando do século XII.

    As maravilhas da burocracia

    Os habitantes da Mesopotâmia passaram a querer registrar coisas que não apenas os monótonos dados matemáticos. Entre 3000 e 2500 a.C., mais e mais símbolos foram acrescentados ao sistema sumério, transformando-o progressivamente em um sistema de escrita completo que hoje chamamos de cuneiforme. Em 2500 a.C., reis usavam a escrita cuneiforme para emitir decretos, sacerdotes a usavam para registrar oráculos e cidadãos menos elevados a usavam para escrever cartas pessoais. Aproximadamente na mesma época, os egípcios desenvolveram um sistema completo chamado escrita hieroglífica. Outros sistemas de escrita completos foram desenvolvidos na China por volta de 1200 a.C. e na América Central por volta de 1000-500 a.C.

    Desses centros iniciais, os sistemas de escrita completos se espalharam por toda parte, assumindo várias novas formas e novas tarefas. As pessoas começaram a escrever poesia, livros de história, romances, dramas, profecias e livros de culinária. Mas a tarefa mais importante da escrita continuou sendo o

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    armazenamento de pacotes de dados matemáticos, e essa tarefa continuou sendo prerrogativa dos sistemas de escrita parciais. A Bíblia hebraica, a Ilíada grega, o Mahabharata hindu e o Tipitaka budista, todos começaram como obras orais. Por muitas gerações, foram transmitidos oralmente, e teriam continuado assim se a escrita jamais tivesse sido inventada. Mas os registros de impostos e burocracias complexas nasceram junto com o sistema de escrita parcial e permanecem inexoravelmente unidos, como gêmeos siameses, até os dias de hoje – pense nas entradas crípticas em planilhas e bases de dados computadorizadas.

    À medida que cada vez mais coisas eram escritas e, em especial, que os arquivos administrativos cresciam, atingindo enormes proporções, novos problemas surgiam. As informações armazenadas no cérebro de uma pessoa são fáceis de acessar. Meu cérebro armazena bilhões de dados, mas eu posso rapidamente, quase instantaneamente lembrar o nome da capital da Itália, em seguida lembrar o que fiz em 11 de setembro de 2001 e então reconstruir o caminho que vai da minha casa à Universidade Hebraica em Jerusalém.

    Exatamente como o cérebro faz isso continua sendo um mistério, mas todos sabemos que o sistema cerebral de acesso de informações é incrivelmente eficaz, a não ser quando você está tentando lembrar onde colocou as chaves do carro.

    Mas como encontrar e recuperar informações armazenadas em cordas de quipos ou em tábuas de argila? Se você tiver apenas dez tábuas ou uma centena de tábuas, isso não é um problema. Mas e se tiver acumulado milhares delas, como fez um dos contemporâneos de Hamurabi, o rei Zimri-Lim, de Mari?

    Imagine por um instante que estamos em 1776 a.C. Dois habitantes de Mari estão brigando pela posse de um campo de trigo. Jacó insiste que comprou o campo de Esaú há 30 anos. Esaú retorque que, na verdade, ele alugou o campo de Jacó por um período de 30 anos e que agora, findo o prazo, o quer de volta.

    Eles gritam e discutem e começam a empurrar um ao outro antes de perceber que podem resolver a disputa indo ao arquivo real, onde estão guardados as escrituras e os recibos de compra e venda que se aplicam a todas as propriedades do reino. Ao chegar ao arquivo, eles são transferidos de um oficial a outro.

    Esperam, tomam vários chás, são orientados a voltar no dia seguinte e acabam sendo conduzidos por um funcionário queixoso para procurar a tábua de argila em questão. O funcionário abre uma porta e os leva a uma sala enorme, forrada

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    do chão ao teto com milhares de tábuas de argila. Não é de admirar que o funcionário está de cara feia. Como se espera que ele localize a escritura do campo de trigo disputado registrada há 30 anos? Mesmo que a encontre, como será capaz de verificar a informação para garantir que o documento de 30 anos atrás é o último relacionado ao campo em questão? Se não puder encontrá-la, isso prova que Esaú nunca vendeu nem alugou o campo? Ou simplesmente que o documento se perdeu, ou foi danificado quando uma chuva gotejou no arquivo?

    Claramente, o mero ato de gravar um documento em argila não é suficiente para garantir um processamento de dados eficaz, preciso e conveniente. Isso requer métodos de organização como catálogos, métodos de reprodução como fotocopiadoras, métodos de acesso rápido e preciso como algoritmos de computador, e bibliotecários pedantes (mas, com sorte, solícitos) que saibam usar essas ferramentas.

    Inventar tais métodos se mostrou muito mais difícil do que inventar a escrita. Muitos sistemas de escrita se desenvolveram de maneira independente em culturas distantes umas das outras no tempo e no espaço. A cada década os arqueólogos descobrem mais alguns sistemas de escrita esquecidos. Alguns deles podem se revelar ainda mais antigos do que os arranhões sumérios em argila.

    Mas a maioria não passa de curiosidades, porque quem os inventou não conseguiu criar maneiras eficientes de catalogar e acessar dados. O que distingue a Suméria, bem como o Egito faraônico, a China antiga e o Império Inca, é que essas culturas desenvolveram boas técnicas de arquivamento, catalogação e consulta de registros escritos. Elas também investiram em escolas para escribas, escriturários, bibliotecários e contadores.

    Um exercício de escrita de uma escola na antiga Mesopotâmia que foi descoberto por arqueólogos modernos nos dá uma ideia da vida desses estudantes, por volta de 4 mil anos atrás:

    Eu entrei e me sentei, e meu professor leu minha tábua.

    Ele falou: “Tem algo faltando!”.

    E me castigou com a vara.

    Uma das pessoas responsáveis falou: “Por que você abriu a boca sem minha permissão?”.

    E me castigou com a vara.

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    O responsável pelas regras falou: “Por que você se levantou sem minha permissão?”.

    E me castigou com a vara.

    O porteiro falou: “Por que você está saindo sem minha permissão?”.

    E me castigou com a vara.

    O guardião do caneco de cerveja falou: “Por que você se serviu sem minha permissão?”.

    E me castigou com a vara.

    O professor sumério falou: “Por que você falou em acadiano?”.[1] E me castigou com a vara.

    Meu professor falou: “Sua caligrafia não é boa!”.

    E me castigou com a vara.4 Os antigos escribas aprendiam não só a ler e escrever como também a usar catálogos, dicionários, calendários, formulários e tabelas. Eles estudavam e internalizavam técnicas de catalogação, acesso e processamento de informações que eram muito diferentes das usadas pelo cérebro. No cérebro, todos os dados são associados livremente. Quando vou com minha esposa contratar um financiamento imobiliário para nossa casa nova, eu me lembro do primeiro lugar em que moramos juntos, que me faz lembrar da nossa lua de mel em Nova Orleans, que me faz lembrar de crocodilos, que me fazem lembrar de dragões, que me fazem lembrar de O anel dos Nibelungos, e, de repente, antes que eu perceba, lá estou eu cantarolando o tema de Siegfried para um bancário perplexo. Na burocracia, as coisas precisam ser mantidas separadas. Há uma gaveta para financiamentos imobiliários, outra para certidões de casamento, uma terceira para registros de impostos e uma quarta para ações judiciais. Do contrário, como podemos encontrar alguma coisa? As coisas que pertencem a mais de uma gaveta, como os dramas musicais wagnerianos (devo arquivá-los em “música”, “teatro”, ou inventar uma categoria totalmente nova?) são uma dor de cabeça terrível. Assim, estamos sempre acrescentando, eliminando e reordenando gavetas.

    Para funcionar, as pessoas que operam tal sistema de gavetas devem ser reprogramadas para parar de pensar como humanos e começar a pensar como escriturários e contadores. Como todo mundo sabe, dos tempos antigos até hoje,

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    escriturários e contadores pensam de uma maneira não humana. Eles pensam como armários de arquivo. Não é culpa deles. Se não pensarem dessa maneira, suas gavetas ficarão todas misturadas, e eles não serão capazes de fornecer os serviços de que seu governo, sua empresa ou sua organização necessita. O impacto mais importante do sistema de escrita na história humana é precisamente este: pouco a pouco, mudou a forma como os humanos pensam e concebem o mundo. A livre associação e o pensamento holístico deram lugar à compartimentalização e à burocracia.

    A linguagem dos números

    Com o passar dos séculos, métodos burocráticos de processamento de dados ficaram cada vez mais diferentes do modo como os humanos pensam naturalmente – e cada vez mais importantes. Um passo crucial foi dado um pouco antes do século IX, quando se inventou um novo sistema de escrita parcial, que podia armazenar e processar dados matemáticos com eficiência sem precedentes. Esse sistema de escrita parcial era composto de dez símbolos representando os números de 0 a 9. Confusamente, esses símbolos são conhecidos como algarismos arábicos, embora tenham sido inventados pelos hindus (ainda mais confusamente, os árabes de hoje usam um conjunto de dígitos com aspecto bem diferente dos usados pelos ocidentais). Mas os árabes receberam o crédito porque, quando invadiram a Índia, encontraram o sistema, entenderam sua utilidade, o aperfeiçoaram e o espalharam pelo Oriente Médio e então pela Europa. Quando vários outros símbolos foram posteriormente acrescentados aos algarismos arábicos (como os símbolos para adição, subtração e multiplicação), surgiu a base da notação matemática moderna.

    Embora esse sistema de escrita continue sendo parcial, se tornou a linguagem dominante no mundo. Quase todos os Estados, empresas, organizações e instituições – quer falem árabe, híndi, inglês ou norueguês – usam notação matemática para registrar e processar dados. Cada informação que possa ser traduzida em notação matemática é armazenada, disseminada e processada com velocidade e eficiência impressionantes.

    Uma pessoa que deseja influenciar as decisões de governos, organizações e empresas deve, portanto, aprender a falar em números. Os especialistas fazem

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    o que podem para traduzir até mesmo ideias como “pobreza”, “felicidade” e “honestidade” em números (“a linha de pobreza”, “níveis de bem-estar subjetivos”, “índice de credibilidade”). Campos inteiros do conhecimento, como a física e a engenharia, já perderam quase todo o contato com a linguagem humana falada e são mantidos unicamente por notação matemática.

    Mais recentemente, a notação matemática deu origem a um sistema de escrita ainda mais revolucionário, um sistema binário computadorizado de apenas dois símbolos: 0 e 1. As palavras que estou escrevendo agora em meu teclado são escritas no interior do meu computador por diferentes combinações de 0 e 1.

    A escrita nasceu como uma serva da consciência humana, mas pouco a pouco se tornou sua senhora. Nossos computadores têm dificuldade para entender como o Homo sapiens fala, sente e sonha. Portanto, estamos ensinando o Homo sapiens a falar, sentir e sonhar na linguagem dos números, que pode ser entendida por computadores.

    E esse não é o fim da história. O campo da inteligência artificial está procurando criar um novo tipo de inteligência baseado unicamente no sistema binário de computadores. Filmes de ficção científica como Matrix e O exterminador do futuro falam de um dia em que o sistema binário se livra da opressão da humanidade. Quando os humanos tentam reobter o controle do sistema rebelde, ele reage tentando eliminar a raça humana.

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    Equação para calcular a aceleração da massa i sob a influência da gravidade, de acordo com a Teoria da Relatividade. Quando a maioria das pessoas leigas vê uma equação como essa, geralmente entra em pânico e fica paralisada, como um cervo surpreendido pelos faróis de um veículo em alta velocidade. A reação é absolutamente natural e não denuncia falta de inteligência ou de curiosidade.

    Com raras exceções, o cérebro humano é simplesmente incapaz de pensar em conceitos como relatividade e mecânica quântica. Os físicos, entretanto, conseguem, porque deixam de lado a maneira de pensar tradicional dos humanos e aprendem a pensar novamente com a ajuda de sistemas externos de processamento de dados. Partes cruciais de seu processo de pensamento acontecem não na cabeça, mas dentro de computadores ou em uma lousa escolar.

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    [1] Mesmo depois que o acadiano se tornou a língua falada, o sumério continuou sendo a língua da administração e, portanto, a língua escrita. Sendo assim, os aspirantes a escriba tinham de falar sumério.

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    8. Não existe justiça na história

    Não existe justiça na história ENTENDER A HISTÓRIA HUMANA NOS MILÊNIOS QUE SUCEDERAM À REVOLUÇÃO Agrícola se resume a uma única questão: como os humanos se organizavam em redes de cooperação em massa, uma vez que careciam de instintos biológicos para sustentar tais redes? A resposta sucinta é que os humanos criaram ordens imaginadas e desenvolveram sistemas de escrita. Essas duas invenções preencheram as lacunas deixadas por nossa herança biológica.

    No entanto, o aparecimento de tais redes foi, para muitos, uma vantagem duvidosa. As ordens imaginadas que sustentavam essas redes nunca foram neutras nem justas. Elas dividiram as pessoas em pretensos grupos, dispostos em uma hierarquia. Os níveis superiores desfrutavam de privilégios e poder, enquanto os inferiores sofriam discriminação e opressão. O Código de Hamurabi, por exemplo, estabelecia uma ordem hierárquica formada por homens superiores, homens comuns e escravos. Os superiores ficavam com todas as coisas boas da vida. Os homens comuns ficavam com o que sobrava. Os escravos ficavam com uma surra, se reclamassem.

    Apesar de sua proclamação da igualdade entre todos os homens, a ordem imaginada constituída pelos norte-americanos em 1776 também estabeleceu uma divisão. Criou uma hierarquia entre homens, que se beneficiavam dela, e mulheres, que ficaram desprovidas de autoridade. Criou uma hierarquia entre brancos, que desfrutavam de liberdade, e negros e indígenas, considerados humanos de uma espécie inferior, não compartilhando, assim, dos direitos igualitários dos homens. Muitos dos que assinaram a Declaração da Independência eram senhores de escravos. Eles não libertaram escravos depois que assinaram a Declaração nem se consideraram hipócritas. Em sua visão, os direitos dos homens pouco tinham a ver com os negros.

    A ordem norte-americana também consagrou a hierarquia entre ricos e pobres. A maioria dos norte-americanos da época quase não tinha problemas com a desigualdade causada por pais ricos que passavam seu dinheiro e negócios para os filhos. Na visão deles, igualdade significava apenas que as mesmas leis se aplicavam a ricos e pobres. Não tinha nada a ver com seguro-desemprego, educação integrada ou seguro-saúde. A liberdade também tinha conotações

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    muito diferentes das que tem hoje. Em 1776, não significava que os desprivilegiados (pelo menos não negros, índios e, muito menos, mulheres) podiam conquistar e exercer o poder. Significava simplesmente que o Estado não podia, exceto em circunstâncias incomuns, confiscar a propriedade privada de um cidadão nem dizer a ele o que fazer com ela. A ordem norte-americana, com isso, endossou a hierarquia da riqueza, que alguns pensavam ter sido ordenada por Deus e outros viam como a representação das leis imutáveis da natureza. A natureza, alegava-se, recompensava mérito com riqueza, enquanto penalizava a indolência.

    Todas as distinções mencionadas aqui – entre homens livres e escravos, brancos e negros, ricos e pobres – se baseiam em ficções. (A hierarquia entre homens e mulheres será discutida posteriormente.) Ainda assim, é uma lei férrea da história que toda hierarquia imaginada negue suas origens ficcionais e afirme ser natural e inevitável. Por exemplo, muitas pessoas que viam a hierarquia dos homens livres e dos escravos como natural e correta argumentaram que a escravidão não é uma invenção humana. Hamurabi a via como algo ordenado por Deus. Aristóteles afirmou que os escravos tinham uma “natureza escrava”, enquanto os homens livres tinham uma natureza “livre”. Seu status na sociedade não passava de um reflexo de sua natureza inata.

    Pergunte aos defensores da supremacia branca sobre hierarquia racial e prepare-se para ouvir uma palestra pseudocientífica sobre as diferenças biológicas entre as raças. É provável que digam que há algo no sangue ou nos genes caucasianos que torna os brancos naturalmente mais inteligentes, trabalhadores e virtuosos. Pergunte a um capitalista obstinado sobre a hierarquia da riqueza e provavelmente ouvirá que se trata do resultado inevitável de diferenças objetivas na capacidade dos indivíduos. Segundo essa visão, os ricos têm mais dinheiro porque são mais capazes e aplicados. Portanto, ninguém deveria se incomodar se os ricos têm melhor serviço de saúde, melhor educação e melhor nutrição. Eles são merecedores de todos os benefícios de que desfrutam.

    Os hindus que aderem a um sistema de castas acreditam que forças cósmicas fizeram uma casta superior a outra. De acordo com um famoso mito de criação hindu, os deuses criaram o mundo a partir do corpo de um ser primitivo, Purusha. O Sol foi criado dos olhos de Purusha; a Lua, do cérebro de

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    Purusha; os brâmanes (sacerdotes), de sua boca; os xátrias (guerreiros), de seus braços; os vaixás (camponeses e mercadores), de suas coxas; os sudras (criados), de suas pernas. Aceite essa explicação, e as diferenças sociopolíticas entre brâmanes e sudras passam a ser tão naturais e eternas quanto as diferenças entre o Sol e a Lua.1 Os antigos chineses acreditavam que, quando sua deusa Nu Kua criou os humanos a partir da terra, ela fez os aristocratas com uma bela argila amarela, enquanto os homens comuns foram moldados com barro marrom.2 Ainda assim, até onde sabemos, essas hierarquias são produto da imaginação humana. Brâmanes e sudras não foram realmente criados por deuses a partir de diferentes partes do corpo de um ser primitivo. Em vez disso, a distinção entre as duas castas foi criada por leis e normas inventadas por humanos no norte da Índia, há cerca de 3 mil anos. Ao contrário do que dizia Aristóteles, não se conhece nenhuma diferença biológica entre escravos e homens livres. Leis e normas humanas transformaram algumas pessoas em escravos e outras em senhores. Entre negros e brancos existem algumas diferenças biológicas objetivas, como cor da pele e tipo de cabelo, mas não há nenhuma evidência de que essas diferenças se estendam à inteligência ou à moral.

    A maioria das pessoas afirma que sua hierarquia social é natural e justa, enquanto as de outras sociedades são baseadas em critérios falsos e ridículos. Os ocidentais modernos são ensinados a desprezar a ideia de hierarquia racial. Eles ficam chocados com as leis que proíbem os negros de viver em bairros de brancos, ou estudar em escolas de brancos, ou ser tratados em hospitais de brancos. Mas a hierarquia de ricos e pobres, que autoriza os ricos a viver em bairros distintos e mais luxuosos, estudar em escolas distintas e de mais prestígio e receber tratamento médico em instalações distintas e bem equipadas, parece perfeitamente sensata para muitos norte-americanos e europeus. Mas é um fato comprovado que a maior parte dos ricos são ricos pelo simples motivo de terem nascido em uma família rica, enquanto a maior parte dos pobres continuarão pobres no decorrer da vida simplesmente por terem nascido em uma família pobre.

    Infelizmente, sociedades humanas complexas parecem exigir hierarquias imaginadas e discriminação injusta. É claro que nem todas as hierarquias são

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    moralmente idênticas, e algumas sociedades sofreram tipos mais extremos de discriminação do que outras. Apesar disso, os estudiosos não têm conhecimento de nenhuma grande sociedade que tenha sido capaz de prescindir totalmente da discriminação. Repetidas vezes, as pessoas estabeleceram a ordem em sua sociedade classificando a população em categorias imaginadas, como homens superiores, homens comuns e escravos; brancos e negros; patrícios e plebeus; brâmanes e sudras; ricos e pobres. Essas categorias regulamentaram as relações entre milhões de seres humanos ao tornar algumas pessoas superiores a outras em termos jurídicos, políticos ou sociais.

    As hierarquias têm uma função importante. Elas permitem que estranhos saibam como tratar uns aos outros sem desperdiçar o tempo e a energia necessários para se tornarem pessoalmente familiarizados. Em Pigmaleão, de Bernard Shaw, Henry Higgins não precisa se tornar íntimo de Eliza Doolittle para entender como deve se relacionar com ela. Só de ouvi-la falar, ele deduz que se trata de um membro de classe baixa com quem pode fazer o que quiser – por exemplo, usá-la como títere em sua aposta de fazer uma vendedora de flores ambulante se passar por duquesa. Uma Eliza dos tempos modernos trabalhando em uma floricultura precisa saber quanto esforço dedicar à venda de rosas e gladíolos para as pessoas que entram na loja todos os dias. Não pode fazer uma indagação detalhada dos gostos e bolsos de cada indivíduo. Em vez disso, usa algumas pistas – o modo como a pessoa está vestida, sua idade e, se não for politicamente correta, a cor da pele. É assim que ela imediatamente faz a distinção entre o sócio da firma de contabilidade que tem grande probabilidade de comprar um buquê de rosas caro e o mensageiro que só tem um dólar para gastar num punhado de margaridas.

    Obviamente, as diferenças nas habilidades naturais também desempenham seu papel na formação de distinções sociais, mas tais diversidades de aptidão e caráter costumam ser mediadas por hierarquias imaginadas. Isso acontece de duas formas importantes. A primeira e a principal delas é que a maioria das habilidades precisa ser cultivada e desenvolvida. Mesmo que alguém nasça com um talento em particular, esse talento normalmente permanecerá latente se não for estimulado, lapidado e exercitado. Nem todas as pessoas têm a mesma chance de nutrir e aperfeiçoar suas habilidades. Ter ou não essa oportunidade costuma depender de sua posição na hierarquia imaginada pela sociedade em

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    que estão inseridas. Harry Potter é um bom exemplo. Tirado de sua família notável de bruxos e criado por trouxas ignorantes, ele chega a Hogwarts sem nenhuma experiência em magia. São necessários sete livros até que ele aprenda a dominar plenamente seus poderes e conheça suas habilidades excepcionais.

    A segunda é que, mesmo que pessoas pertencentes a classes diferentes desenvolvam exatamente as mesmas habilidades, é improvável que tenham o mesmo sucesso, porque terão que jogar segundo regras diferentes. Se, na Índia governada pela Inglaterra, um intocável, um brâmane, um irlandês católico e um inglês protestante tivessem, de alguma forma, desenvolvido exatamente o mesmo tino para os negócios, ainda assim não teriam as mesmas chances de enriquecer. O jogo econômico era manipulado por restrições jurídicas e barreiras invisíveis não oficiais.

    O círculo vicioso

    Todas as sociedades são baseadas em hierarquias imaginadas, mas não necessariamente nas mesmas hierarquias. O que explica essas diferenças? Por que as pessoas são classificadas na sociedade indiana tradicional de acordo com castas, na sociedade otomana de acordo com a religião e na sociedade norteamericana de acordo com a raça? Na maioria dos casos, a hierarquia surgiu em consequência de um conjunto de circunstâncias históricas acidentais e foi, então, perpetuada e refinada durante muitas gerações, à medida que diferentes grupos passaram a ter interesses pessoais em tal hierarquia.

    Por exemplo, muitos estudiosos supõem que o sistema de castas hindu tomou forma quando o povo indo-ariano invadiu o subcontinente indiano há cerca de 3 mil anos, subjugando a população local. Os invasores estabeleceram uma sociedade estratificada, em que – é claro – ocuparam as posições principais (sacerdotes e guerreiros), deixando aos nativos a condição de criados e escravos.

    Os invasores, em menor número, temiam perder seu status privilegiado e identidade singular. Para evitar esse risco, dividiram a população em castas, exigindo que cada uma delas se dedicasse a uma ocupação específica ou desempenhasse um determinado papel na sociedade. Cada uma tinha status legal, privilégios e deveres diferentes. A mistura de castas – interação social, casamento e até mesmo o compartilhamento de refeições – era proibida. E as

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    distinções não eram apenas legais: se tornaram uma parte inerente da mitologia e da prática religiosa.

    Os governantes argumentavam que o sistema de castas refletia uma realidade cósmica eterna, e não um processo histórico casual. Conceitos de pureza e impureza eram elementos essenciais no hinduísmo, e eram utilizados para sustentar a pirâmide social. Os hindus devotos aprendiam que o contato com membros de uma casta diferente podia contaminá-los não apenas pessoalmente, mas também a sociedade como um todo e, portanto, devia ser abominado. Essas ideias não são exclusividade dos hindus. No decorrer da história, e em praticamente todas as sociedades, conceitos de contaminação e pureza tiveram um papel fundamental na imposição de divisões políticas e sociais e foram explorados por muitas classes dominantes a fim de estas manterem seus privilégios. No entanto, o medo da contaminação não foi totalmente inventado por sacerdotes e príncipes. Provavelmente tem suas origens em mecanismos de sobrevivência que fazem os humanos sentirem uma repulsa instintiva por portadores de doenças em potencial, como pessoas enfermas e cadáveres. Se você quiser manter qualquer grupo humano isolado – mulheres, judeus, ciganos, gays, negros –, a melhor forma é convencer todos de que essas pessoas são fonte de contaminação.

    O sistema de castas hindu e as leis de pureza que o acompanham ficaram profundamente arraigados na cultura indiana. Bem depois que a invasão indoariana foi esquecida, os indianos continuaram a acreditar nesse sistema e a abominar a contaminação causada pela mistura de castas. As castas não são imunes a mudanças. De fato, com o passar do tempo, grandes castas foram divididas em subcastas. As quatro castas originais acabaram por se transformar em 3 mil agrupamentos diferentes chamados jati (literalmente, “nascimento”).

    Mas essa proliferação de castas não mudou o princípio básico do sistema, segundo o qual cada pessoa nasce em um determinado nível, e qualquer transgressão de suas regras contamina a pessoa e a sociedade como um todo. A jati de uma pessoa determina sua profissão, o alimento que pode comer, seu local de residência e os possíveis parceiros para casamento. Normalmente, uma pessoa só pode se casar com alguém de sua casta, e os filhos gerados herdam esse status.

    Sempre que surgia uma nova profissão ou entrava em cena um novo grupo

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    Pureza na América

    de pessoas, eles tinham de ser reconhecidos como casta para receber um lugar legítimo dentro da sociedade hindu. Grupos que não conseguiam obter reconhecimento como casta eram, literalmente, párias – nessa sociedade estratificada, não ocupavam sequer o patamar mais baixo. Eles ficaram conhecidos como intocáveis. Tinham de viver separados dos outros e tentar sobreviver de formas humilhantes e repulsivas, revirando latas de lixo em busca de sucata, por exemplo. Até mesmo membros das castas mais baixas evitavam se misturar com eles, comer com eles, tocá-los e, é claro, se casar com eles. Na Índia atual, questões de casamento e trabalho ainda são fortemente influenciadas pelo sistema de castas, apesar de todas as tentativas do governo democrático para acabar com tais distinções e convencer os hindus de que não há nenhuma contaminação na mistura de castas.3 Pureza na América Um círculo vicioso similar perpetuou a hierarquia racial na América moderna.

    Do século XVI ao XVIII, os conquistadores europeus importaram milhões de escravos africanos para trabalhar em minas e plantações do continente americano. Optaram por importar escravos da África e não da Europa ou do leste da Ásia devido a três fatores circunstanciais. Primeiro, a África era mais perto, então era mais barato importar escravos do Senegal que do Vietnã.

    Em segundo lugar, na África já existia um comércio de escravos bem desenvolvido (exportando principalmente para o Oriente Médio), enquanto na Europa a escravidão era muito rara. Era obviamente muito mais fácil comprar escravos em um mercado existente do que criar um do zero.

    O terceiro fator, e o mais importante, era que as fazendas em locais como a Virgínia, o Haiti e o Brasil estavam tomadas por malária e febre amarela, originárias da África. Os africanos haviam adquirido, durante gerações, uma imunidade genética parcial a essas doenças, enquanto os europeus eram totalmente indefesos e morriam aos montes. Portanto, era mais prudente para um dono de latifúndio investir seu dinheiro em um escravo africano do que em um escravo ou criado europeu. Paradoxalmente, a superioridade genética (em termos de imunidade) se traduziu em inferioridade social: precisamente por estarem mais adaptados a climas tropicais do que os escravos provenientes da

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    Europa, os africanos terminaram como escravos de senhores europeus! Devido a esses fatores circunstanciais, as novas sociedades em desenvolvimento no continente americano foram divididas em uma casta dominante de europeus brancos e uma casta subjugada de negros africanos.

    Mas as pessoas não gostam de dizer que mantêm escravos de uma certa raça ou origem simplesmente porque é conveniente em termos econômicos.

    Como os conquistadores arianos na Índia, os europeus brancos nas Américas não queriam ser vistos apenas como bem-sucedidos economicamente, mas também como piedosos, justos e objetivos. Mitos religiosos e científicos foram utilizados para ajudar a justificar essa divisão. Teólogos afirmaram que os africanos descendiam de Cam, filho de Noé amaldiçoado por seu pai, que disse que seus filhos seriam escravos. Biólogos afirmaram que os negros eram menos inteligentes que os brancos e que tinham senso moral menos desenvolvido.

    Médicos afirmaram que os negros viviam na sujeira e disseminavam doenças – em outras palavras, eram fonte de contaminação.

    Esses mitos repercutiram na cultura americana, e na cultura ocidental de modo geral. Continuaram a exercer influência bem depois que as condições que criaram a escravidão haviam desaparecido. No início do século XIX, o Império Britânico declarou a escravidão ilegal e interrompeu o comércio de escravos no Atlântico, e, nas décadas seguintes, a escravidão foi pouco a pouco sendo proibida em todo o continente americano. É digno de nota que essa foi a primeira e única vez na história que as sociedades escravocratas aboliram a escravidão voluntariamente. Mas, mesmo que os escravos tenham sido libertados, os mitos racistas que justificaram a escravidão persistiram. A separação das raças foi mantida por legislações e normas sociais racistas.

    O resultado foi um ciclo retroalimentado de causa e feito, um círculo vicioso. Considere, por exemplo, o sul dos Estados Unidos imediatamente após a guerra civil. Em 1865, a 13a emenda à Constituição dos Estados Unidos aboliu a escravatura, e a 14a impôs que não se podiam negar, com base na raça, cidadania e proteção igualitária perante a lei. No entanto, depois de dois séculos de escravidão, a maioria das famílias negras era muito mais pobre e menos instruída do que a maioria das famílias brancas. Assim, um negro nascido no Alabama em 1865 tinha muito menos chance de obter boa educação e um emprego bem pago do que seus vizinhos brancos. Seus filhos, nascidos nas

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    décadas de 1880 e 1890, iniciaram a vida com a mesma desvantagem – eles também nasceram em uma família pobre e pouco instruída.

    Mas a desvantagem econômica não era tudo. O Alabama também era lar de muitos brancos pobres que não tinham acesso às oportunidades disponíveis a seus irmãos de raça com melhores condições financeiras. Além disso, a Revolução Industrial e as ondas de imigração transformaram os Estados Unidos em uma sociedade extremamente fluida, em que se podia subir na vida rapidamente. Se o dinheiro fosse tudo o que importava, a rígida divisão entre as raças logo teria desaparecido, inclusive por meio do casamento inter-racial.

    Mas isso não aconteceu. Em 1865, os brancos, e também muitos negros, assumiam como certo o fato de que os negros eram menos inteligentes, mais violentos e sexualmente libertinos, mais preguiçosos e menos preocupados com higiene pessoal do que os brancos. Eram, dessa forma, agentes de violência, roubos, estupros e doenças – em outras palavras, contaminação. Se, em 1895, um negro residente do Alabama miraculosamente conseguisse obter uma boa educação e se candidatasse a um emprego respeitável – como caixa de banco, por exemplo –, as chances de ser aceito seriam muito menores do que as de um candidato branco com as mesmas qualificações. O estigma que rotulava os negros como, por natureza, pouco confiáveis, preguiçosos e menos inteligentes conspiraria contra ele.

    Pode-se pensar que as pessoas pouco a pouco entenderiam que esses estigmas eram mitos, e não fatos, e que, com o tempo, os negros seriam capazes de provar que são tão competentes, limpos e corretos quanto os brancos. Na verdade, aconteceu o oposto: esses preconceitos ficaram cada vez mais arraigados conforme o tempo foi passando. Como todos os melhores empregos eram dos brancos, ficou mais fácil acreditar que os negros eram realmente inferiores. “Veja”, dizia o cidadão branco médio, “os negros são livres há gerações e ainda assim quase não existem professores, advogados, médicos ou mesmo caixas de banco negros. Não é uma prova de que os negros são simplesmente menos inteligentes e trabalhadores?” Nesse círculo vicioso, negros não eram contratados para empregos administrativos porque eram considerados pouco inteligentes, e a escassez de negros em empregos administrativos era prova de sua inferioridade.

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    O círculo vicioso: uma situação histórica fortuita se traduz em um rígido sistema social.

    O círculo vicioso não acaba aí. À medida que os estigmas contra os negros se fortaleceram, foram traduzidos em um sistema de leis e normas chamadas “leis Jim Crow”, criado para proteger a ordem racial. Os negros eram proibidos de votar em eleições, estudar em escolas de brancos, comprar em lojas de brancos, comer em restaurantes de brancos, dormir em hotéis de brancos. A justificativa para tudo isso era que os negros eram sujos, indolentes e maldosos, de modo que os brancos tinham que se proteger deles. Os brancos não queriam dormir no mesmo hotel que os negros, ou comer no mesmo restaurante, por

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    medo de doenças. Eles não queriam que seus filhos estudassem na mesma escola que crianças negras, por medo de brutalidade e más influências. Não queriam que os negros votassem nas eleições, já que os negros eram ignorantes e imorais.

    Esses temores eram confirmados por estudos científicos que “provavam” que os negros eram, de fato, menos instruídos, que várias doenças eram mais comuns entre eles e que seus índices de criminalidade eram ainda mais altos (os estudos ignoravam o fato de que esses “fatos” resultavam da discriminação contra os negros).

    Em meados do século XX, a segregação nos antigos Estados confederados provavelmente era pior do que no fim do século XIX. Clennon King, um estudante negro que se candidatou à Universidade do Mississippi em 1958, foi forçado a ir para uma instituição psiquiátrica. O juiz responsável julgou que um negro só podia ser insano ao pensar que poderia ser admitido na Universidade do Mississippi.

    Nada era tão revoltante para os sulistas (e muitos nortistas) norteamericanos como relações sexuais e casamento entre homens negros e mulheres brancas. O sexo interracial se tornou um grande tabu, e qualquer violação, ou suspeita de violação, era vista como merecedora de punição imediata e sumária na forma de linchamento. A Ku Klux Klan, sociedade secreta dos defensores da supremacia branca, perpetrou muitas dessas matanças. Eles poderiam ensinar algumas coisinhas aos brâmanes hindus sobre leis de pureza.

    Com o tempo, o racismo se espalhou para cada vez mais esferas culturais.

    A cultura estética norte-americana foi construída sobre padrões brancos de beleza. Os atributos físicos da raça branca – por exemplo, pele branca e cabelos claros e lisos, nariz pequeno e arrebitado – começaram a ser identificados como belos. Traços tipicamente negros – pele escura, cabelos pretos e crespos, nariz achatado – eram considerados feios. Esses preconceitos impregnaram a hierarquia imaginada em um nível ainda mais profundo da consciência humana.

    Tais círculos viciosos podem continuar por séculos e até mesmo milênios, perpetuando uma hierarquia imaginada que surgiu de um acontecimento histórico ocasional. Com frequência, a discriminação tende a piorar com o tempo, e não a melhorar. Dinheiro gera dinheiro, e pobreza gera pobreza.

    Educação gera educação, e ignorância gera ignorância. Os que foram vítimas da história uma vez tendem a ser vitimados novamente. E aqueles que a história

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    privilegiou tendem a ser privilegiados novamente.

    A maioria das hierarquias sociopolíticas carece de base lógica ou biológica – elas não passam da perpetuação de eventos ocasionais sustentados por mitos.

    Esse é um bom motivo para se estudar história. Se a divisão entre negros e brancos, ou entre brâmanes e sudras, fosse fundada em realidades biológicas – ou seja, se os brâmanes realmente tivessem cérebro mais desenvolvido que os sudras –, a biologia seria suficiente para entender a sociedade humana. Como as distinções biológicas entre diferentes grupos de Homo sapiens são, na verdade, desprezíveis, a biologia não é capaz de explicar as complexidades da sociedade indiana ou a dinâmica racial norte-americana. Só podemos entender esses fenômenos estudando os acontecimentos, as circunstâncias e as relações de poder que transformaram produtos da imaginação em estruturas sociais cruéis – e muito reais.

    Ele e ela

    Diferentes sociedades adotam diferentes tipos de hierarquias imaginadas. A raça é muito importante para os norte-americanos modernos, mas era relativamente insignificante para os muçulmanos medievais. A casta era uma questão de vida e morte na Índia medieval, ao passo que na Europa moderna é algo que praticamente inexiste. Uma hierarquia específica, no entanto, foi de extrema importância em todas as sociedades humanas conhecidas: a hierarquia do gênero. Todos os povos se dividiram entre homens e mulheres. E em quase todos os lugares os homens foram privilegiados, pelo menos desde a Revolução Agrícola.

    Alguns dos textos chineses mais antigos são ossos oraculares que datam de 1200 a.C., utilizados para adivinhar o futuro. Em um deles estava entalhada a pergunta: “A gestação da sra. Hao será afortunada?”. Para a qual foi escrita a resposta: “Se a criança nascer em um dia ding, será afortunada; se nascer em um dia geng, terá um futuro promissor”. No entanto, a sra. Hao daria à luz em uma dia jiayin. O texto termina com a impertinente observação: “Três semanas e um dia depois, em um dia jiayin, nasceu a criança. Não foi afortunada. Era uma menina”.4 Mais de 3 mil anos depois, quando a China comunista decretou a

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    política do “filho único”, muitas famílias chinesas continuavam considerando o nascimento de uma menina uma desgraça. Os pais muitas vezes abandonavam ou matavam meninas recém-nascidas para ter mais uma chance de ter um menino.

    Em muitas sociedades, as mulheres eram mera propriedade dos homens, principalmente do pai, marido ou irmão. O estupro, em muitos sistemas jurídicos, era tratado como violação de propriedade – em outras palavras, a vítima não era a mulher estuprada, mas o homem a quem ela pertencia. Nesse caso, a sentença era a transferência de propriedade – o estuprador era obrigado a pagar o valor de uma noiva ao pai ou ao irmão da mulher, e a partir de então ela se tornava propriedade do estuprador. A Bíblia diz que “Se um homem se encontrar com uma moça sem compromisso de casamento e a violentar, e eles forem descobertos, ele pagará ao pai da moça cinquenta peças de prata. Terá que casar-se com a moça” (Deuteronômio, 22:28-29). Os antigos hebreus consideravam esse acordo razoável.

    Estuprar uma mulher que não pertencia a nenhum homem não era considerado crime algum, assim como pegar uma moeda perdida em uma rua movimentada não é considerado roubo. E se um marido estuprava a própria mulher, ele não cometia nenhum crime. Na verdade, a ideia de que um marido pudesse estuprar a esposa era um oximoro. Ser marido era ter controle absoluto da sexualidade da esposa. Dizer que um marido “estuprou” a própria esposa era tão ilógico quanto dizer que um homem roubou a própria carteira. Tal pensamento não se limitava ao antigo Oriente Médio. Em 2006, ainda havia 53 países em que um marido não podia ser processado por estuprar a esposa. Até mesmo na Alemanha, as leis de estupro foram modificadas apenas em 1997, criando-se uma categoria jurídica para o estupro conjugal.5 A divisão entre homens e mulheres é produto da imaginação, como o sistema de castas na Índia ou o sistema racial nos Estados Unidos, ou é uma divisão natural com raízes biológicas mais profundas? E, se houver, de fato, uma divisão natural, existem também explicações biológicas para a primazia dos homens sobre as mulheres?

    Algumas das disparidades culturais, jurídicas e políticas entre homens e mulheres refletem as diferenças biológicas óbvias entre os sexos. Gerar uma criança sempre foi trabalho das mulheres, porque os homens não têm útero.

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    Ainda assim, sobre essa verdade universal, todas as sociedades acumularam diversas camadas de ideias e normas culturais que pouco têm a ver com biologia.

    As sociedades associam masculinidade e feminilidade com uma série de atributos que, em sua maioria, não têm base biológica.

    Por exemplo, na Atenas democrática do século V a.C., um indivíduo provido de um útero não tinha status jurídico independente e era proibido de participar de assembleias populares ou ser juiz. Com poucas exceções, tal indivíduo não podia se beneficiar de uma boa educação nem se envolver em negócios ou discursos filosóficos. Nenhum dos líderes políticos de Atenas, nenhum de seus grandes filósofos, oradores, artistas ou mercadores tinha útero. O fato de ter útero faz com que uma pessoa seja biologicamente inadequada para essas profissões? Os atenienses da Antiguidade acreditavam que sim. Os atenienses dos dias de hoje discordam. Na Atenas atual, as mulheres votam, são eleitas para cargos públicos, fazem discursos, projetam de tudo, de joias a edifícios e softwares, e frequentam universidades. O útero não as impede de fazer nenhuma dessas coisas com o mesmo sucesso que os homens. É verdade que ainda são pouco representadas na política e nos negócios – apenas cerca de 12% dos membros do parlamento grego são mulheres. Mas não existe nenhuma barreira jurídica à sua participação na política, e grande parte dos gregos dos dias de hoje considera perfeitamente normal que uma mulher ocupe um cargo público.

    Muitos gregos da atualidade também pensam que uma parte integral de ser homem é se sentir sexualmente atraído apenas por mulheres e ter relações sexuais exclusivamente com o sexo oposto. Eles não enxergam isso como um preconceito cultural, mas sim como uma realidade biológica – relações entre duas pessoas do sexo oposto são algo natural, e entre duas pessoas do mesmo sexo, não. Na realidade, a Mãe Natureza não se importa se os homens se sentem sexualmente atraídos uns pelos outros. Apenas mães humanas inseridas em determinadas culturas fazem escândalo ao saber que seu filho tem um caso com o vizinho. A explosão de raiva da mãe não tem base biológica. Um número significativo de culturas humanas vê as relações homossexuais como algo não apenas legítimo como até mesmo socialmente construtivo, sendo a Grécia antiga o exemplo mais notável. A Ilíada não menciona que Tétis tivesse qualquer objeção às relações entre seu filho Aquiles e Pátroclo. A rainha Olímpia, da

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    Macedônia, foi uma das mulheres mais temperamentais e poderosas da Antiguidade e até mesmo mandou matar seu próprio marido, o rei Felipe. Mas ela não teve um ataque quando seu filho, Alexandre, o Grande, levou seu amante, Heféstion, para jantar em casa.

    Como podemos diferenciar aquilo que é biologicamente determinado daquilo que as pessoas apenas tentam justificar por meio de mitos biológicos?

    Um bom princípio básico é “a biologia permite, a cultura proíbe”. A biologia está disposta a tolerar um leque muito amplo de possibilidades. É a cultura que obriga as pessoas a concretizar algumas possibilidades e proíbe outras. A biologia permite que as mulheres tenham filhos – algumas culturas obrigam as mulheres a concretizar essa possibilidade. A biologia permite que homens pratiquem sexo uns com os outros – algumas culturas os proíbem de concretizar essa possibilidade.

    A cultura tende a argumentar que proíbe apenas o que não é natural. Mas, de uma perspectiva biológica, não existe nada que não seja natural. Tudo o que é possível é, por definição, também natural. Um comportamento verdadeiramente não natural, que vá contra as leis da natureza, simplesmente não teria como existir e, portanto, não necessitaria de proibição. Nenhuma cultura jamais se deu ao trabalho de proibir que os homens realizassem fotossíntese, que as mulheres corressem mais rápido do que a velocidade da luz, ou que elétrons com carga negativa atraíssem uns aos outros.

    Na verdade, nossos conceitos de “natural” e “não natural” não são tirados da biologia, mas da teologia cristã. O sentido teológico de “natural” é “de acordo com as intenções de Deus, que criou a natureza”. Os teólogos cristãos afirmam que Deus criou o corpo humano com a intenção de que cada membro e órgão servisse a um propósito em particular. Se usamos nossos membros e órgãos para o propósito previsto por Deus, trata-se de uma atividade natural. Usá-los de maneira diferente da intenção de Deus não é natural. Mas a evolução não tem propósito. Os órgãos não evoluíram com um propósito, e o modo como são usados está em constante mudança. Não existe um único órgão no corpo humano que execute apenas o trabalho que seu protótipo executava quando apareceu pela primeira vez, há centenas de milhões de anos. Os órgãos evoluem para executar uma função específica, mas, depois que existem, podem ser adaptados para outros usos também. A boca, por exemplo, surgiu porque os primeiros

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    organismos multicelulares precisavam de uma forma de levar nutrientes para o corpo. Ainda usamos a boca para isso, mas também a usamos para beijar, falar e, se formos o Rambo, para puxar o pino de nossas granadas de mão. Algum desses usos não é natural simplesmente porque nossos ancestrais vermiformes não faziam essas coisas com a boca há 600 milhões de anos?

    Da mesma forma, as asas não apareceram de repente com toda a sua maravilhosa aerodinâmica. Elas se desenvolveram a partir de órgãos que serviam a outro propósito. De acordo com uma teoria, as asas dos insetos evoluíram há milhões de anos a partir de protuberâncias no corpo de insetos não voadores. Insetos com calombos tinham uma área de superfície maior do que aqueles sem calombos, e isso permitiu que absorvessem mais luz do sol e, assim, ficassem mais aquecidos. Em um lento processo evolutivo, esses aquecedores solares ficaram maiores. A mesma estrutura que era boa para a máxima absorção da luz do sol – muita área de superfície, pouco peso – também, por coincidência, dava aos insetos um certo impulso quando saltavam e pulavam.

    Aqueles com protuberâncias maiores podiam saltar e pular mais longe. Alguns insetos começaram a usá-las para planar, e daí bastou um pequeno passo para chegar às asas capazes de realmente propulsar o inseto no ar. Da próxima vez em que um mosquito zumbir em seu ouvido, acuse-o de comportamento não natural.

    Se ele fosse bem-comportado e estivesse satisfeito com o que Deus lhe deu, usaria suas asas apenas como painéis solares.

    O mesmo conceito de multitarefas se aplica a nossos órgãos e comportamentos sexuais. O sexo evoluiu, a princípio, para procriação e rituais de galanteio, como uma forma de avaliar a adequação de um possível parceiro.

    Mas muitos animais atualmente fazem uso delas para uma série de propósitos sociais que pouco tem a ver com a criação de pequenas cópias de si mesmos. Os chimpanzés, por exemplo, utilizam o sexo para firmar alianças políticas, criar intimidade e neutralizar tensões. Isso é antinatural?

    Sexo e gênero

    Faz pouco sentido, então, afirmar que a função natural da mulher é dar à luz, ou que a homossexualidade não é natural. A maior parte das leis, normas, direitos e obrigações que definem masculinidade e feminilidade refletem mais a

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    imaginação humana do que a realidade biológica.

    Biologicamente, os humanos estão divididos entre os sexos masculino e feminino. O Homo sapiens do sexo masculino tem um cromossomo X e um cromossomo Y; um indivíduo do sexo feminino tem dois cromossomos X. Mas “homem” e “mulher” são categoriais sociais, não biológicas. Embora na grande maioria dos casos, na maior parte das sociedades humanas, homens sejam do sexo masculino e mulheres sejam do sexo feminino, os termos sociais carregam muita bagagem que tem uma relação apenas tênue, se é que tem alguma, com os termos biológicos. Um homem não é um sapiens com características biológicas específicas, como cromossomos XY, testículos e muita testosterona.

    Em vez disso, ele se enquadra em um compartimento específico da ordem humana imaginada da qual faz parte. Os mitos de sua cultura lhe designam papéis (como participar da política), direitos (como votar) e deveres (como serviço militar) masculinos específicos. Da mesma forma, uma mulher não é um sapiens com dois cromossomos X, um útero e muito estrogênio. Em vez disso, é um membro do sexo feminino de uma ordem humana imaginada. Os mitos de sua sociedade lhe atribuem papéis (criar filhos), direitos (proteção contra violência) e deveres (obediência ao marido) femininos específicos. Já que mitos, e não a biologia, definem os papéis, direitos e deveres de homens e mulheres, o significado de “masculinidade” e “feminilidade” varia imensamente de uma sociedade para outra.

    Para tornar as coisas menos confusas, os estudiosos costumam distinguir entre “sexo”, que é uma categoria biológica, e “gênero”, uma categoria cultural.

    O sexo se divide em masculino e feminino, e as características dessa divisão são objetivas e permaneceram constantes ao longo da história. O gênero se divide em homem e mulher (e algumas culturas reconhecem outras categorias). As chamadas características “masculinas” e “femininas” são intersubjetivas e passam por constantes mudanças. Por exemplo, existem muitas diferenças no comportamento, nos desejos, na vestimenta e até mesmo na postura corporal esperados das mulheres da Atenas clássica e da Atenas moderna.6

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    O sexo é brincadeira de criança, mas o gênero é coisa séria. Conseguir ser um membro do sexo masculino é a coisa mais simples do mundo. Basta nascer com um cromossomo X e um Y. Ser um indivíduo do sexo feminino é igualmente simples. Um par de cromossomos X resolve o assunto. Por outro lado, ser homem ou mulher é uma tarefa muito complicada e exigente. Como a maior parte das qualidades masculinas e femininas são culturais, e não biológicas, nenhuma sociedade coroa automaticamente cada pessoa do sexo masculino como homem e cada pessoa do sexo feminino como mulher.

    Tampouco cada um desses títulos são louros sobre os quais descansar assim que adquiridos. Os indivíduos do sexo masculino precisam provar sua masculinidade constantemente durante toda a vida, do berço ao túmulo, em uma série

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    interminável de ritos e performances. E o trabalho de uma mulher nunca tem fim – ela deve, continuamente, convencer a si mesma e aos demais de que é feminina o bastante.

    O sucesso não é garantido. Os indivíduos do sexo masculino, em particular, vivem um temor constante de perder sua afirmação de masculinidade. Durante toda a história, estiveram dispostos a arriscar e até mesmo sacrificar a vida, apenas para que as pessoas dissessem: “Ele é um homem de verdade!”.

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    15. Masculinidade no século XVIII: um retrato oficial do rei Luís XIV, da

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    França. Observe a peruca longa, a meia-calça, os sapatos de salto alto, a postura de bailarina – e a enorme espada. Na América contemporânea, todas essas coisas (com a exceção da espada) seriam consideradas marcas de caráter afeminado. Mas em seu tempo Luís era um paradigma europeu de masculinidade e virilidade.

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    16. Masculinidade no século XXI: um retrato oficial de Barack Obama. O que aconteceu com a peruca, a meia-calça, os saltos altos – e a espada? Homens dominantes nunca tiveram uma aparência tão tediosa e monótona quanto nos dias de hoje. Durante boa parte da história, os homens dominantes foram coloridos e exibicionistas, como os chefes indígenas americanos, com seus cocares de penas, e os marajás hindus, enfeitados com seda e diamantes. No reino animal, os machos tendem a ser mais coloridos e enfeitados que as fêmeas

    – como mostram a cauda do pavão e a juba do leão.

    O que há de tão bom nos homens?

    Pelo menos desde a Revolução Agrícola, a maior parte das sociedades humanas têm sido sociedades patriarcais que valorizam mais os homens do que as mulheres. Independentemente de como a sociedade definia “homem” e “mulher”, ser homem sempre foi melhor, sociedades patriarcais educam os homens para pensar e agir de modo masculino e as mulheres para pensar e agir de modo feminino, punindo qualquer um que ouse cruzar essas fronteiras. Apesar disso, não recompensam da mesma forma aqueles que se adaptam. Qualidades consideradas masculinas são mais valorizadas do que aquelas que são consideradas qualidades femininas, e membros de uma sociedade que personificam o ideal feminino recebem menos do que aqueles que exemplificam o ideal masculino. Menos recursos são investidos na saúde e na educação das mulheres; elas têm menos oportunidades econômicas, menos poder político e menos liberdade de movimento. O gênero é uma corrida em que os corredores competem apenas pela medalha de bronze.

    Certamente, um punhado de mulheres chegou à posição alfa, como Cleópatra, do Egito, a imperatriz Wu Zetian, da China (c. 700), e Elizabeth I, da Inglaterra. Mas elas são as exceções que confirmam a regra. Durante o reinado de 45 anos de Elizabeth, todos os membros do parlamento eram homens, todos os oficiais da marinha e do exército real eram homens, todos os juízes e advogados eram homens, todos os bispos e arcebispos eram homens, todos os teólogos e sacerdotes eram homens, todos os médicos e cirurgiões eram homens, todos os estudantes e professores de todas as universidades e faculdades eram homens, todos os prefeitos e xerifes eram homens, e quase todos os escritores, arquitetos, poetas, filósofos, pintores, músicos e cientistas eram homens.

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    O patriarcado tem sido a norma em quase todas as sociedades agrícolas e industriais. Resistiu teimosamente a levantes políticos, revoluções sociais e transformações econômicas. O Egito, por exemplo, foi conquistado inúmeras vezes no decorrer dos séculos. Assírios, persas, macedônios, romanos, árabes, mamelucos, turcos e britânicos o ocuparam – e sua sociedade sempre permaneceu patriarcal. O Egito foi governado pela lei faraônica, grega, romana, muçulmana, otomana e britânica – e todas discriminavam pessoas que não eram consideradas “homens de verdade”.

    Como o patriarcado é tão universal, não pode ser produto de algum círculo vicioso que teve início por um acontecimento ao acaso. É particularmente digno de nota que, mesmo antes de 1492, a maior parte das sociedades tanto das Américas quanto da África e da Ásia eram patriarcais, embora não tenham tido contato durante milhares de anos. Se o patriarcado na África e na Ásia resultou de algum acontecimento fortuito, por que os astecas e incas eram patriarcais? É muito mais provável que, embora o conceito preciso de “homem” e “mulher”

    varie entre as culturas, exista alguma razão biológica universal para quase todas as culturas valorizarem a masculinidade em detrimento da feminilidade. Não sabemos qual é essa razão. Há muitas teorias, nenhuma delas convincente.

    O poder dos músculos

    A teoria mais comum aponta para o fato de que os homens são mais fortes que as mulheres e utilizaram sua maior capacidade física para obrigá-las a se submeterem. Uma versão mais sutil dessa afirmação sustenta que sua força permite que eles monopolizem tarefas que demandam trabalho braçal, como arar e colher. Isso lhes dá o controle da produção de alimentos, o que, por sua vez, se traduz em influência política.

    Há dois problemas com essa ênfase no poder dos músculos. Primeiro, a declaração de que “os homens são mais fortes que as mulheres” é verdadeira apenas na média, e apenas se considerando certos tipos de força. As mulheres geralmente são mais resistentes a fome, doenças e fadiga que os homens. Há também muitas mulheres capazes de correr mais rápido e levantar mais peso que muitos homens. Além disso, o maior problema dessa teoria é que as mulheres, ao longo da história, foram excluídas sobretudo de empregos que

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    exigiam pouco esforço físico (como o sacerdócio, lei e política), enquanto se dedicavam a trabalho braçal nos campos, no artesanato e nos cuidados com a casa. Se o poder social fosse dividido diretamente com base em vigor ou força física, as mulheres teriam se dado muito melhor.

    E, o que é ainda mais importante, simplesmente não existe relação direta entre força física e poder social entre os humanos. Pessoas na casa dos 60 anos de idade costumam exercer poder sobre pessoas de 20 e poucos anos, ainda que os mais novos sejam muito mais fortes. O típico fazendeiro do Alabama de meados do século XIX poderia ser derrotado em segundos por qualquer um dos escravos que trabalhavam nos campos de algodão. Não se usavam lutas de boxe para selecionar faraós egípcios ou papas católicos. Em sociedades de caçadorescoletores, a dominância política costuma residir com quem tem a melhor aptidão social, e não a musculatura mais desenvolvida. No crime organizado, o chefão não é necessariamente o homem mais forte. Quase sempre é um homem mais velho que raramente faz uso de seus punhos; consegue que os mais jovens e com melhor preparo físico façam o trabalho sujo por ele. Um cara que pensa que a forma de dominar o grupo é acabar com o chefe provavelmente não vive o bastante para aprender com seu erro. Até mesmo entre os chimpanzés, o macho alfa conquista sua posição construindo uma coalizão estável com outros machos e fêmeas, e não por meio de violência sem discernimento.

    Na verdade, a história humana mostra que costuma haver uma relação inversa entre proeza física e poder social. Na maioria das sociedades, são as classes mais baixas que fazem o trabalho braçal. Isso possivelmente reflete a posição do Homo sapiens na cadeia alimentar. Se as habilidades físicas fossem as únicas a serem consideradas, os sapiens estariam em um degrau no meio da escada. Mas suas habilidades mentais e sociais os colocaram no topo. É, portanto, simplesmente natural que a cadeia de poder dentro da espécie também seja determinada mais por habilidades mentais e sociais do que pela força bruta. É, portanto, difícil acreditar que a hierarquia social mais influente e mais estável da história seja fundada sobre a capacidade física dos homens de coagir as mulheres.

    A escória da sociedade

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    Outra teoria explica que a dominância masculina resulta não da força, mas da agressão. Milhões de anos de evolução tornaram os homens muito mais violentos que as mulheres. As mulheres podem se igualar aos homens no que diz respeito a ódio, ambição e violência, mas, quando a situação fica crítica, em tese, os homens estão muito mais dispostos a partir para a violência física. É por isso que, em toda a história, a guerra sempre foi uma prerrogativa masculina.

    Em tempos de guerra, o controle dos homens sobre as forças armadas também os transformou nos senhores da sociedade civil. Eles, então, usaram o controle que tinham sobre a sociedade civil para travar cada vez mais guerras, e quanto maior o número de guerras, maior o controle dos homens sobre a sociedade. Esse ciclo retroalimentado explica tanto a onipresença da guerra quanto a onipresença do patriarcado.

    Estudos recentes dos sistemas hormonal e cognitivo de homens e mulheres fortalecem a hipótese de que os homens de fato têm tendências mais agressivas e violentas e, portanto, são, no geral, mais adequados para servirem como soldados comuns. Mas, considerando que todos os soldados são homens, devemos concluir que aqueles que gerenciam a guerra e colhem seus frutos também são homens?

    Isso não faz sentido. É como presumir que, como todos os escravos que cultivam campos de algodão são negros, o dono da plantação também é negro. Assim como uma força de trabalho formada apenas por negros pode ser controlada exclusivamente por brancos, por que um corpo de soldados composto apenas por homens não poderia ser controlado por uma liderança totalmente, ou pelo menos em parte, feminina? De fato, em inúmeras sociedades ao longo da história, os oficiais de mais alto escalão não começaram como soldados. Aristocratas, pessoas ricas e bem instruídas eram automaticamente designadas a patentes mais altas, sem nunca terem servido um único dia como soldados.

    Quando o duque de Wellington, inimigo de Napoleão, se alistou no exército britânico aos 18 anos, foi imediatamente nomeado oficial. Ele não tinha muita consideração pelos plebeus sob seu comando. “Temos nas forças armadas a escória da Terra na função de soldados comuns”, escreveu a um companheiro aristocrata durante a guerra contra a França. Esses soldados comuns costumavam ser recrutados entre os mais pobres ou entre minorias étnicas (como os católicos irlandeses). A chance de subirem na hierarquia militar era irrisória. Os postos superiores estavam reservados para duques, príncipes e reis.

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    Mas por que só para duques, e não para duquesas?

    O império francês na África foi consolidado e defendido pelo suor e pelo sangue de senegaleses, argelinos e franceses da classe trabalhadora. O percentual de franceses bem-nascidos nas linhas de combate era insignificante.

    Ainda assim, o percentual de franceses bem-nascidos dentro da pequena elite que conduziu o exército francês, comandou o império e colheu seus frutos era muito alto. Por que apenas franceses, e não francesas?

    Na China havia uma longa tradição de subjugar o exército à burocracia civil, de modo que mandarins que nunca haviam empunhado uma espada muitas vezes comandavam as guerras. “Não se gasta um bom ferro para produzir pregos”, dizia um ditado chinês popular, cujo significado era que as pessoas realmente talentosas faziam parte da burocracia civil, e não do exército. Por que, então, todos esses mandarins eram homens?

    Não se pode argumentar racionalmente que fraqueza física ou baixos níveis de testosterona impediam as mulheres de se tornarem mandarinas, generais e políticas. Para gerenciar uma guerra, certamente é preciso vigor, mas não tanto força física ou agressividade. Guerras não são brigas de bar. São projetos muito complexos que exigem um grau extraordinário de organização, cooperação e capacidade de conciliação. A capacidade de manter a paz em casa, fazer aliados no exterior e entender o que passa pela cabeça das outras pessoas (particularmente seus inimigos) costuma ser a chave para a vitória. Por conseguinte, um homem bruto e agressivo muitas vezes é a pior escolha para coordenar uma guerra. Uma opção muito melhor é uma pessoa colaborativa que saiba como apaziguar, como manipular e como ver as coisas de diferentes perspectivas. É disso que são feitos os que constroem impérios. Augusto, militarmente incompetente, foi bem-sucedido na consolidação de um regime imperial estável, conquistando algo que desconcertou Júlio Cesar e Alexandre Magno, que eram generais muito melhores. Tanto seus contemporâneos quanto os historiadores modernos costumam atribuir essa façanha à sua virtude de clementia – moderação e clemência.

    As mulheres frequentemente são estereotipadas como melhores manipuladoras e apaziguadoras que os homens e são famosas por sua capacidade superior de enxergar as coisas da perspectiva dos outros. Se há alguma verdade nesses estereótipos, então as mulheres teriam sido excelentes políticas e

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    construtoras de impérios, deixando o trabalho sujo nos campos de batalha para os machos carregados de testosterona e desprovidos de sutileza. Apesar dos mitos populares, isso raras vezes aconteceu no mundo real. Não está nem um pouco claro qual seria o motivo.

    Genes patriarcais

    Um terceiro tipo de explicação de ordem biológica atribui menos importância à força bruta e à violência, e sugere que, em milhões de anos de evolução, homens e mulheres desenvolveram estratégias diferentes de sobrevivência e de reprodução. Como os homens competiam entre si pela oportunidade de engravidar mulheres férteis, a chance de reprodução de um indivíduo dependia, acima de tudo, de sua capacidade de superar em desempenho e derrotar outros homens. Com o decorrer do tempo, os genes masculinos que conseguiam passar para a geração seguinte eram aqueles pertencentes aos homens mais ambiciosos, agressivos e competitivos.

    Uma mulher, por outro lado, não tinha dificuldade em encontrar um homem disposto a engravidá-la. No entanto, se quisesse que seus filhos lhe dessem netos, precisava carregá-los no útero durante nove árduos meses e depois cuidar deles durante anos. Durante esse período, tinha poucas oportunidades de obter comida e necessitava de muita ajuda. Precisava de um homem. Para garantir sua própria sobrevivência e a de seus filhos, a mulher não tinha muita escolha além de concordar com quaisquer condições que o homem estipulasse para ficar por perto e dividir o fardo. Com o tempo, os genes femininos que chegaram à geração seguinte pertenciam a mulheres de caráter cuidador e submisso. Mulheres que passavam tempo excessivo em disputas por poder não deixaram nenhum desses genes poderosos para as gerações futuras.

    O resultado dessas diferentes estratégias de sobrevivência – segundo esta teoria – é que os homens foram programados para serem ambiciosos e competitivos e se sobressaírem na política e nos negócios, enquanto as mulheres tendiam a se recolherem e a dedicarem a vida a apoiar a carreira do marido e dos filhos.

    Mas essa abordagem também parece ser desmentida pelas evidências empíricas. Particularmente problemática é a suposição de que a dependência,

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    por parte das mulheres, de ajuda externa as tornou dependentes dos homens, e não de outras mulheres, e de que a competitividade masculina fez dos homens seres socialmente dominantes. Existem muitas espécies de animais, como os elefantes e os bonobos, em que a dinâmica entre fêmeas dependentes e machos competitivos resulta em uma sociedade matriarcal. Como as fêmeas necessitam de ajuda externa, são obrigadas a desenvolver suas habilidades sociais e aprender a cooperar e apaziguar. Elas constroem redes sociais totalmente femininas que ajudam cada um dos membros a criar seus filhos. Os machos, enquanto isso, passam o tempo lutando e competindo. Suas habilidades e laços sociais permanecem subdesenvolvidos. Sociedades de bonobos e elefantes são controladas por fortes redes de fêmeas colaborativas, enquanto os machos egocêntricos e não colaborativos são jogados para escanteio. Embora as fêmeas de bonobo sejam geralmente mais fracas que os machos, elas costumam formar grupos para subjugar os machos que passam dos limites.

    Se isso é possível entre bonobos e elefantes, por que não entre Homo sapiens? Os sapiens são animais relativamente fracos, cuja vantagem está em sua capacidade de cooperar em grande escala. Nesse caso, deveríamos esperar que mulheres dependentes, mesmo que sejam dependentes de homens, usassem suas habilidade sociais superiores para cooperar a fim de superar estrategicamente e manipular homens agressivos, autônomos e egocêntricos.

    Como foi que, em uma espécie cujo sucesso depende sobretudo da cooperação, os indivíduos supostamente menos colaborativos (homens) controlaram os indivíduos supostamente mais colaborativos (mulheres)? Até o momento presente, não temos uma resposta satisfatória. Talvez as suposições comuns estejam simplesmente erradas. Quem sabe os machos da espécie Homo Sapiens não são caracterizados por força física, agressividade e competitividade, e sim por habilidades sociais superiores e uma tendência maior a cooperar?

    Simplesmente não sabemos.

    O que sabemos, no entanto, é que durante o último século os papéis sociais de gênero passaram por uma revolução enorme. Hoje, cada vez mais sociedades não só concedem a homens e mulheres status jurídico, direitos políticos e oportunidades econômicas iguais, como também repensam por completo suas concepções mais elementares de gênero e sexualidade. Embora as diferenças entre os gêneros ainda sejam significativas, as coisas vêm avançando

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    rapidamente. Em 1913, a ideia de conceder direito a voto às mulheres era vista, nos Estados Unidos, como ultrajante; a perspectiva de uma ministra ou juíza da Suprema Corte era simplesmente ridícula; e a homossexualidade era um tabu tão grande que não podia sequer ser discutida na sociedade educada. Em 2015, o direito a voto feminino é ponto pacífico; ministras dificilmente são motivo de comentário; e cinco juízes da Suprema Corte dos Estados Unidos, três deles mulheres, decidiram a favor da legalização do casamento entre membros do mesmo sexo (invalidando as objeções de quatro juízes homens).

    Essas mudanças drásticas são precisamente o que torna a história do gênero tão desconcertante. Se, como hoje se vem demonstrando de maneira tão clara, o sistema patriarcal se baseou em mitos infundados e não em fatos biológicos, o que explica a universalidade e a estabilidade desse sistema?

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    Parte 3: A unificação da humanidade

    Parte três A unificação da humanidade

    17. Peregrinos circundando a Caaba, em Meca.

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    9. A seta da história

    A seta da história DEPOIS DA REVOLUÇÃO AGRÍCOLA, AS SOCIEDADES HUMANAS FICARAM AINDA maiores e mais complexas, enquanto os constructos imaginados que sustentavam a ordem social também se tornaram mais elaborados. Mitos e ficções habituaram as pessoas, praticamente desde o momento do nascimento, a pensar de determinadas maneiras, a se comportar de acordo com certos padrões, a desejar certas coisas e a seguir certas regras. Dessa forma, criaram instintos artificiais que permitiram que milhões de estranhos cooperassem de maneira efetiva. Essa rede de instintos artificiais é chamada de “cultura”.

    Durante a primeira metade do século XX, os acadêmicos ensinaram que todas as culturas eram completas e harmoniosas, detentoras de uma essência imutável que as definia por toda a eternidade. Cada grupo humano tinha sua própria visão de mundo e sistema de organização social, jurídica e política que fluíam de maneira tão uniforme quanto os planetas girando em torno do sol. De acordo com essa visão, as culturas relegadas a seus próprios recursos não mudavam. Simplesmente continuavam seguindo no mesmo ritmo e na mesma direção. Apenas uma força externa poderia mudá-las. Assim, antropólogos, historiadores e políticos falavam de “cultura samoana” ou de “cultura tasmaniana” como se as mesmas crenças, normas e valores tivessem caracterizado samoanos e tasmanianos desde o início dos tempos.

    Hoje, a maioria dos estudiosos de cultura concluiu que, na verdade, acontece o oposto. Cada cultura tem crenças, normas e valores característicos, mas estes estão em transformação constante. A cultura pode se transformar em resposta a mudanças em seu ambiente ou por meio da interação com culturas vizinhas, mas também passa por transições decorrentes de sua própria dinâmica interna. Nem mesmo uma cultura completamente isolada, existindo em um ambiente ecologicamente estável, pode evitar mudanças. Diferentemente das leis da física, que estão livres de inconsistências, toda ordem criada pelo homem é cheia de contradições internas. As culturas estão o tempo todo tentando conciliar essas contradições, e esse processo alimenta a mudança.

    Por exemplo, na Europa medieval, a nobreza acreditava, ao mesmo tempo, no cristianismo e no código de cavalaria. Um nobre típico ia à igreja pela manhã e ouvia o sacerdote dissertar sobre a vida dos santos. “Vaidade das

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    vaidades”, dizia o pregador, “tudo é vaidade. Riquezas, luxúria e honra são tentações perigosas. É preciso superá-las e seguir os passos de Cristo. Ser dócil como Ele, evitar violência e extravagâncias e, se atacado, simplesmente oferecer a outra face.” Voltando para casa num humor tranquilo e reflexivo, o nobre vestia suas melhores sedas e ia a um banquete no castelo de seu soberano.

    Lá, o vinho fluía como água, o menestrel entoava canções sobre Lancelot e Guinevere e os convidados compartilhavam piadas sujas e narrativas sangrentas de guerra. “É preferível morrer”, declaravam os barões, “a levar uma vida de humilhação. Se alguém questionar sua honra, só o sangue poderá anular o insulto.

    E o que pode ser melhor do que ver nossos inimigos fugindo e ter suas belas filhas estremecendo a nossos pés?”

    A contradição nunca foi totalmente resolvida. Mas à medida que a nobreza, o clero e a plebe europeia tratavam de superá-la, sua cultura mudava. Uma tentativa de solucioná-la resultou nas Cruzadas. Durante a cruzada, os cavaleiros podiam demonstrar, de um só golpe, suas proezas militares e sua devoção religiosa. A mesma contradição gerou ordens militares como os Templários e a Ordem Hospitaleira de São João de Deus, que tentavam combinar ainda mais as ideias do cristianismo e as da cavalaria. Ela também foi responsável por grande parte da arte e da literatura medievais, como as histórias do Rei Artur e o Santo Graal. O que era Camelot senão uma tentativa de provar que um bom cavaleiro podia, e devia, ser um bom cristão e que entre os bons cristãos estavam os melhores cavaleiros?

    Outro exemplo é a ordem política moderna. Desde a Revolução Francesa, pessoas do mundo inteiro pouco a pouco passaram a ver a igualdade e a liberdade individual como valores fundamentais. Mas os dois valores são contraditórios. A igualdade só pode ser assegurada se forem diminuídas as liberdades daqueles que estão em melhores condições. Garantir que cada indivíduo seja livre para fazer o que desejar inevitavelmente compromete a igualdade. Toda a história política do mundo desde 1789 pode ser vista como uma série de tentativas de superar essa contradição.

    Qualquer um que tenha lido um romance de Charles Dickens sabe que os regimes liberais da Europa do século XIX davam prioridade à liberdade individual, mesmo que isso significasse jogar famílias insolventes na prisão e dar aos órfãos pouca escolha além de se juntar a grupos de batedores de carteiras.

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    Qualquer um que tenha lido um romance de Alexander Soljenítsin sabe que o ideal igualitário do comunismo produziu tiranias cruéis que tentaram controlar todos os aspectos da vida cotidiana.

    A política contemporânea dos Estados Unidos também gira em torno dessa contradição. Os democratas querem uma sociedade mais igualitária, mesmo que isso signifique aumentar os impostos para financiar programas para ajudar pobres, idosos e enfermos. Mas isso infringe a liberdade dos indivíduos de gastar seu dinheiro como desejarem. Por que o governo deve me obrigar a pagar por um seguro-saúde se prefiro usar o dinheiro para mandar meus filhos para a faculdade? Os republicanos, por outro lado, querem ampliar a liberdade individual, mesmo que isso signifique que o abismo entre a renda dos ricos e a dos pobres aumentará ainda mais e que um grande número de cidadãos norteamericanos não terá condições de pagar pelo seguro-saúde.

    Assim como a cultura europeia medieval não conseguiu conciliar o código de cavalaria e o cristianismo, o mundo moderno não consegue conciliar liberdade e igualdade. Mas isso não é um defeito. Tais contradições são inerentes a toda cultura humana. Na verdade, são aquilo que move a cultura, responsáveis pela criatividade e dinamismo da nossa espécie. Da mesma forma que duas notas musicais discordantes tocadas ao mesmo tempo colocam em movimento uma composição musical, a dissonância em nossos pensamentos, ideias e valores nos compele a pensar, reavaliar e criticar. A consistência é o parque de diversões das mentes entorpecidas.

    Se tensões, conflitos e dilemas irremediáveis são o tempero de todas as culturas, um ser humano pertencente a qualquer cultura específica deve ter crenças contraditórias e ser dilacerado por valores incompatíveis. É uma característica tão essencial a qualquer cultura que até recebeu um nome:

    dissonância cognitiva. A dissonância cognitiva é, com frequência, considerada uma falha da psique humana. Na verdade, trata-se de uma qualidade vital. Se as pessoas não fossem capazes de ter crenças e valores contraditórios, provavelmente seria impossível construir e manter qualquer cultura humana.

    Se um cristão, digamos, realmente quiser entender realmente os muçulmanos que frequentam aquela mesquita perto da sua casa, ele não deveria procurar por um conjunto imaculado de valores que todos os muçulmanos prezam. Em vez disso, deveria investigar os impasses da cultura muçulmana,

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    aqueles lugares em que as regras estão sendo combatidas e os padrões estão em disputa. É exatamente no ponto em que os muçulmanos oscilam entre dois fundamentos que é possível entendê-los melhor.

    O satélite de espionagem

    As culturas humanas estão em constante fluxo. Mas esse fluxo é completamente aleatório ou segue algum padrão geral? Em outras palavras: a história tem uma direção?

    A resposta é sim. No decorrer dos milênios, culturas pequenas e simples se aglutinaram gradualmente, formando civilizações maiores e mais complexas, de modo que existem no mundo cada vez mais megaculturas, sendo cada uma delas maior e mais complexa. Trata-se, é claro, de uma generalização grosseira, aplicada apenas em nível macro. Em nível micro, ao que parece, para cada grupo de culturas que se aglutina em uma megacultura, existe uma megacultura que se desmembra. O império mongol se expandiu e dominou uma enorme faixa da Ásia, e até mesmo partes da Europa, e depois se fragmentou. O cristianismo converteu milhões de pessoas, ao mesmo tempo que se ramificou em inúmeras seitas. A língua latina se espalhou pelo oeste e centro da Europa e então se dividiu em dialetos locais que acabaram se transformando em idiomas nacionais. Mas essas rupturas são inversões temporárias em uma tendência inexorável rumo à unidade.

    Entender a direção da história é, na verdade, uma questão de perspectiva privilegiada. Quando nos distanciamos e temos uma visão panorâmica da história, examinando desenvolvimentos em termos de décadas ou séculos, é difícil dizer se a história avança rumo à unidade ou à diversidade. No entanto, para entender processos de longo prazo, esse tipo de visão panorâmica é míope demais. Faríamos melhor em adotar, isso sim, a visão de um satélite de espionagem, que analisa milênios em vez de séculos. De um ponto de observação desses, fica nítido que a história está se movimentando incessantemente rumo à unidade. A ramificação do cristianismo e a queda do império mongol são apenas quebra-molas na autoestrada da história.

    A melhor forma de avaliar a direção geral da história é contar o número de mundos humanos distintos que coexistiram em um dado momento no planeta

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    Terra. Hoje, estamos acostumados a pensar no planeta inteiro como uma unidade, mas durante a maior parte da história a Terra era uma galáxia inteira de mundos humanos isolados.

    Considere a Tasmânia, uma ilha de tamanho médio no sul da Austrália. Ela foi isolada do continente por volta de 10000 a.C., quando o fim da Era do Gelo fez o nível do mar se elevar. Alguns milhares de caçadores-coletores ficaram na ilha sem contato algum com outros humanos até a chegada dos europeus, no século XIX. Durante 12 mil anos, ninguém soube que os tasmanianos existiam, e eles não sabiam da existência de outras pessoas no mundo. Tiveram suas guerras, lutas políticas, oscilações sociais e transformações culturais. Ainda assim, para os imperadores da China ou os governantes da Mesopotâmia, a Tasmânia podia muito bem estar localizada em uma das luas de Júpiter. Os tasmanianos viviam em um mundo próprio.

    A América e a Europa também foram mundos separados durante a maior parte de sua história. Em 378, o imperador romano Valente foi derrotado e morto pelos godos na batalha de Adrianópolis. No mesmo ano, o rei Chak Tok Ich’aak, de Tikal, foi derrotado e morto pelo exército de Teotihuacan. (Tikal era uma cidade-Estado maia importante, e Teotihuacan era a maior cidade da América, com quase 250 mil habitantes – da mesma ordem de magnitude de sua contemporânea, Roma). Não houve absolutamente nenhuma ligação entre a queda de Roma e a ascensão de Teotihuacan. Roma podia muito bem se localizar em Marte e Teotihuacan, em Vênus.

    Quantos mundos diferentes coexistiram na Terra? Por volta de 10000 a.C., nosso planeta continha milhares deles. Em 2000 a.C., o número diminuiu para centenas, no máximo alguns poucos milhares. Em 1450, o número caiu ainda mais drasticamente. Na época, pouco antes da era das Grandes Navegações, a Terra ainda apresentava um número significativo de mundos diminutos como a Tasmânia, mas cerca de 90% dos humanos viviam em um único megamundo: o mundo da Afro-Ásia. Em sua maior parte, a Ásia, a Europa e a África (incluindo grandes extensões da África subsaariana) já estavam conectadas por laços culturais, políticos e econômicos significativos.

    Grande parte dos 10% restantes da população mundial era dividida em quatro mundos de tamanho e complexidade consideráveis:

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    1. 1. o mundo mesoamericano, que englobava quase toda a América Central e partes da América do Norte;
    2. 2. o mundo andino, que abrangia a maior parte do oeste da América do Sul;
    3. 3. o mundo australiano, que abarcava o continente da Austrália;
    4. 4. o mundo oceânico, que compreendia a maioria das ilhas do sudoeste do

    Pacífico, do Havaí à Nova Zelândia.

    Durante os 300 anos seguintes, o gigante afro-asiático engoliu todos os outros mundos. Consumiu o mundo mesoamericano em 1521, quando os espanhóis conquistaram o Império Asteca. Deu a primeira mordida no mundo oceânico no mesmo período, durante a circum-navegação de Fernão de Magalhães pelo globo, e logo depois completou sua conquista. O mundo andino ruiu em 1532, quando conquistadores espanhóis acabaram com o Império Inca.

    O primeiro europeu desembarcou no continente australiano em 1606, e aquele mundo intocado chegou ao fim quando a colonização britânica realmente teve início, em 1788. Quinze anos depois, os bretões fundaram a primeira colônia na Tasmânia, trazendo, assim, o último mundo humano autônomo para a esfera de influência afro-asiática.

    O gigante afro-asiático levou vários séculos para digerir tudo o que havia engolido, mas o processo era irreversível. Hoje, quase todos os humanos partilham do mesmo sistema geopolítico (o planeta inteiro está dividido em Estados reconhecidos internacionalmente), do mesmo sistema econômico (as forças do mercado capitalista moldam até mesmo os rincões mais remotos do globo); do mesmo sistema jurídico (as leis internacionais e os direitos humanos são válidos em todos os lugares, pelo menos em teoria); e do mesmo sistema científico (especialistas no Irã, em Israel, na Austrália e na Argentina partilham dos mesmíssimos conceitos quanto à estrutura dos átomos ou ao tratamento da tuberculose).

    A cultura global única não é homogênea. Assim como um corpo orgânico único contém vários tipos diferentes de órgãos e células, nossa cultura global única contém tipos diferentes de povos e estilos de vida, de corretores de ações de Nova York a pastores afegãos. Mas todos estão intimamente relacionados e influenciam uns aos outros de inúmeras maneiras. Ainda discutem e lutam, mas

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    discutem usando os mesmos conceitos e lutam usando as mesmas armas. Um verdadeiro “choque de civilizações” é como o proverbial diálogo entre surdos:

    ninguém consegue entender o que o outro está dizendo. Hoje em dia, quando o Irã e os Estados Unidos fazem ameaças um ao outro, ambos falam a língua dos Estados-nação, das economias capitalistas, dos direitos internacionais e da física nuclear.

    Ainda falamos muito sobre culturas “autênticas”, mas se com “autênticas”

    nos referimos a algo que se desenvolveu de maneira independente e que consiste de tradições locais ancestrais, livres de influências externas, então não restam culturas autênticas na face da Terra. Nos últimos séculos, todas as culturas foram modificadas, a ponto de ficarem quase irreconhecíveis, por uma enxurrada de influências globais.

    Um dos exemplos mais interessantes dessa globalização é a cozinha “étnica”. Em um restaurante italiano, esperamos encontrar espaguete com molho de tomate; em restaurantes poloneses e irlandeses, muita batata; em um restaurante argentino, podemos escolher entre dezenas de cortes de carne bovina; em um restaurante indiano, pimentas fortes são incorporadas a quase tudo; e o destaque de qualquer cafeteria suíça é o chocolate quente cremoso servido com uma montanha de chantilly. Mas nenhum desses alimentos é originário dessas nações. Tomate, pimenta e cacau são de origem mexicana e chegaram à Europa e à Ásia apenas depois que os espanhóis conquistaram o México. Júlio César e Dante Alighieri nunca enrolaram espaguete coberto de molho de tomate com seus garfos (os garfos nem haviam sido inventados), Guilherme Tell nunca experimentou chocolate, e Buda nunca temperou a comida com pimenta. As batatas chegaram à Polônia e à Irlanda há pouco mais de 400 anos. O único bife que se podia obter na Argentina em 1492 era o de lhama.

    Os filmes de Hollywood perpetuaram uma imagem dos índios das planícies como cavaleiros valentes, atacando corajosamente as carroças dos pioneiros europeus para proteger os costumes de seus ancestrais. No entanto, esses cavaleiros nativos norte-americanos não foram defensores de uma cultura autêntica, ancestral. Ao contrário, foram produto de uma grande revolução militar e política que varreu as planícies do oeste da América do Norte nos séculos XVII e XVIII, uma consequência da chegada dos cavalos europeus. Em 1492 não havia cavalos nos Estados Unidos. A cultura sioux e apache do século

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    XIX tem muitas características interessantes, mas foi muito mais uma cultura moderna – resultado de forças globais – do que “autêntica”.

    A visão global

    De uma perspectiva prática, o estágio mais importante do processo de unificação global ocorreu nos últimos séculos, quando os impérios cresceram e o comércio se intensificou. Ligações cada vez mais próximas se formaram entre os povos da Afro-Ásia, América, Austrália e Oceania. Assim, pimentas mexicanas foram parar na comida indiana, e o gado espanhol começou a pastar na Argentina. Mas, de uma perspectiva ideológica, um avanço ainda mais importante ocorreu durante o primeiro milênio a.C., quando a ideia de ordem universal criou raízes.

    Antes, durante milhares de anos, a história já estava se movendo lentamente rumo à unidade global, mas a ideia de uma ordem universal que governasse o mundo inteiro ainda era estranha para a maioria.

    O Homo sapiens evoluiu para achar que as pessoas se dividiam entre “nós”

    e “eles”. “Nós” era o grupo imediatamente à sua volta, independentemente de quem você fosse, e “eles” eram todos os outros. Na verdade, nenhum animal social jamais é guiado pelos interesses de toda a espécie à qual pertence.

    Nenhum chimpanzé se importa com os interesses da espécie chimpanzé, nenhuma lesma levantará um tentáculo em nome da comunidade global de lesmas, nenhum leão macho alfa tem intenção de se tornar o rei de todos os leões, e ninguém encontrará na entrada de uma colmeia o slogan “Abelhasoperárias do mundo, uni-vos!”.

    Porém, desde a Revolução Cognitiva, o Homo sapiens se tornou cada vez mais excepcional a esse respeito. As pessoas começaram a cooperar regularmente com completos estranhos, que elas imaginavam como “irmãos” ou “amigos”. Mas essa irmandade não era universal. Em algum lugar no vale vizinho, ou depois de uma cadeia de montanhas, ainda era possível identificar quem eram “eles”. Quando o primeiro faraó, Menés, unificou o Egito por volta de 3000 a.C., ficou claro para os egípcios que havia uma fronteira e que, depois dessa fronteira, os “bárbaros” estavam à espreita. Os bárbaros eram forasteiros, ameaçadores e interessantes apenas na medida em que tinham terras ou recursos naturais que os egípcios desejavam. Todas as ordens imaginadas que as pessoas

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    criavam tendiam a ignorar uma parte considerável da humanidade.

    O primeiro milênio a.C. testemunhou o aparecimento de três ordens potencialmente universais, cujos devotos, pela primeira vez, podiam imaginar o mundo inteiro, e a raça humana inteira, como uma unidade governada por um único conjunto de leis. Todos eram “nós”, pelo menos potencialmente. Não havia mais “eles”. A primeira ordem universal a surgir foi econômica: a ordem monetária. A segunda ordem universal foi política: a ordem imperial. A terceira ordem universal foi religiosa: a ordem das religiões universais como o budismo, o cristianismo e o islamismo.

    Mercadores, conquistadores e profetas foram os primeiros a conseguir transcender a divisão evolutiva binária entre “nós” e “eles”, e a prever a potencial unidade da raça humana. Para os mercadores, o mundo inteiro era um único mercado e todos os humanos eram clientes em potencial. Eles tentaram estabelecer uma ordem econômica que se aplicasse a todos, em todos os lugares.

    Para os conquistadores, o mundo inteiro era um único império e todos os humanos eram súditos em potencial, e para os profetas, o mundo inteiro carregava uma verdade única, e todos os humanos eram crentes em potencial.

    Eles também tentaram estabelecer uma ordem que se aplicasse a todos, em todos os lugares.

    Durante os últimos milênios, as pessoas fizeram cada vez mais tentativas ambiciosas de concretizar essa visão global. Os três capítulos a seguir discutem como o dinheiro, os impérios e as religiões universais se espalharam e como assentaram as bases do mundo unificado de hoje. Começamos com a história do maior conquistador de todos os tempos, um conquistador imbuído de extrema tolerância e capacidade de adaptação, que transformou, assim, as pessoas em discípulos fervorosos. Esse conquistador é o dinheiro. Pessoas que não acreditam no mesmo deus nem obedecem ao mesmo rei estão mais do que dispostas a utilizar o mesmo dinheiro. Osama bin Laden, apesar de todo o ódio pela cultura, religião e política norte-americanas, adorava dólares. Como o dinheiro teve êxito onde deuses e reis fracassaram?

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    Mapa 3. A Terra em 1450. Os locais denominados dentro do mundo afroasiático foram lugares visitados pelo viajante muçulmano Ibn Battuta, do século XIV. Nativo de Tânger, no Marrocos, Ibn Battuta visitou Timbuktu, Zanzibar, o sul da Rússia, a Ásia Central, a Índia, a China e a Indonésia. Suas viagens ilustram a unidade da Afro-Ásia às vésperas da era moderna.

    Imagem 1 da página 181 (sem descrição)

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    10. O cheiro do dinheiro

    O cheiro do dinheiro EM 1519, HERNÁN CORTÉS E SEUS CONQUISTADORES INVADIRAM O MÉXICO, ATÉ então um mundo humano isolado. Os astecas, como se autodenominavam as pessoas que viviam lá, logo notaram que os forasteiros demonstravam um interesse extraordinário por um certo metal amarelo. Na verdade, pareciam nunca parar de falar nisso. Os nativos estavam familiarizados com o ouro – era bonito e fácil de se trabalhar, e eles o usavam para fazer joias e estátuas e, de vez em quando, usavam pó de ouro como meio de troca. Mas, quando um asteca queria comprar alguma coisa, normalmente pagava em grãos de cacau ou rolos de tecido. A obsessão espanhola por ouro, portanto, parecia inexplicável. O que havia de tão importante em um metal, que não podia ser comido, bebido ou tecido, e que era frágil demais para ser utilizado em ferramentas ou armas? Quando os nativos questionaram Cortés sobre o porquê de os espanhóis terem tanta paixão por ouro, o conquistador respondeu: “Porque eu e meus companheiros sofremos de uma doença do coração que só pode ser curada com ouro”.1 No mundo afro-asiático de onde vinham os espanhóis, a obsessão por ouro era de fato uma epidemia. Mesmo os inimigos mais ferrenhos cobiçavam o mesmo e inútil metal amarelo. Três séculos antes da conquista do México, os ancestrais de Cortés e seu exército travaram uma guerra religiosa sangrenta contra os reinos muçulmanos na Península Ibérica e na África do Norte. Os seguidores de Cristo e de Alá mataram uns aos outros aos milhares, devastaram campos e pomares e transformaram cidades prósperas em ruínas em chamas – tudo em nome da imensa glória de Cristo ou de Alá.

    Conforme os cristãos foram ganhando a supremacia, eles marcaram suas vitórias não apenas destruindo mesquitas e construindo igrejas como também cunhando novas moedas de ouro e prata com o sinal da cruz e agradecimentos a Deus por Sua ajuda no combate aos infiéis. Mas, junto com a nova moeda, os vencedores cunharam outro tipo de moeda, chamada millares, que carregava uma mensagem um tanto quanto diferente. Essas moedas quadradas feitas pelos conquistadores cristãos eram adornadas com inscrições em árabe que declaravam: “Não há outro deus além de Alá, e Maomé é o mensageiro de Alá”.

    Até mesmo os bispos católicos de Melgueil e de Agde emitiram essas cópias fiéis

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    Quanto custa?

    de moedas muçulmanas populares, e cristãos tementes a Deus as usaram de bom grado.2 A tolerância floresceu também do outro lado da colina. Mercadores muçulmanos da África do Norte conduziram negócios utilizando moedas cristãs como o florim florentino, o ducado veneziano e o gigliato napolitano. Até mesmo os governantes muçulmanos que convocaram o jihad contra os cristãos infiéis ficavam satisfeitos em receber impostos em moedas que invocavam Cristo e Sua Virgem Mãe.3 Quanto custa?

    Os caçadores-coletores não tinham dinheiro. Cada bando caçava, coletava e produzia quase tudo de que necessitava, de carne a medicamentos, de sandálias a necromancia. Diferentes membros do bando podiam se especializar em diferentes tarefas, mas compartilhavam seus bens e serviços em uma economia de favores e obrigações. Um pedaço de carne fornecido de graça levava consigo a suposição de reciprocidade – por exemplo, assistência medicinal gratuita. O bando era economicamente independente; apenas alguns itens raros que não podiam ser encontrados localmente – conchas, pigmentos, obsidianas e coisas do tipo – precisavam ser obtidos com estranhos. Isso podia ser feito por meio de escambo simples: “Nós trocamos belas conchas do mar por sílex de boa qualidade”.

    Pouca coisa mudou depois do início da Revolução Agrícola. A maioria das pessoas continuou vivendo em comunidades pequenas e íntimas. De maneira similar a um bando de caçadores-coletores, cada aldeia tinha uma unidade econômica autossuficiente, mantida por obrigações e favores mútuos, além de um pouco de escambo com forasteiros. Um aldeão podia ser particularmente apto para fazer sapatos, outro para fornecer cuidados médicos, de modo que seus vizinhos sabiam a quem recorrer quando ficavam descalços ou doentes. Mas os povoados eram pequenos e suas economias eram limitadas, por isso não podia haver sapateiros e médicos em tempo integral.

    A ascensão de cidades e reinos e o aprimoramento da infraestrutura de transporte proporcionaram novas oportunidades de especialização. Cidades densamente povoadas ofereciam empregos em tempo integral não só para

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    sapateiros e médicos profissionais como também para carpinteiros, sacerdotes, soldados e advogados. Vilarejos que conquistaram uma reputação por produzir bom vinho, azeite ou cerâmica descobriram que valia a pena se especializarem quase que exclusivamente em um determinado produto e trocá-lo com outros povoados por todos os outros bens de que necessitavam. Isso fazia muito sentido.

    Climas e solos são diferentes, então por que beber um vinho medíocre produzido em seu quintal quando é possível comprar uma variedade mais refinada de um local cujo solo e clima são muito mais adequados para a plantação de videiras?

    Se a argila de sua região resulta em recipientes mais resistentes e mais bonitos, é possível realizar uma troca. Além disso, com dedicação em tempo integral, comerciantes de vinho e oleiros, sem mencionar médicos e advogados, podem aperfeiçoar sua qualificação em benefício de todos. Mas a especialização criou um problema: como gerenciar a troca de bens entre os especialistas?

    Uma economia baseada em favores e obrigações não funciona quando grandes números de estranhos tentam cooperar. Uma coisa é fornecer assistência gratuita para uma irmã ou um vizinho; outra bem diferente é cuidar de estranhos que podem nunca retribuir o favor. É possível recorrer ao escambo, mas ele só é eficiente quando se troca uma gama limitada de produtos. Não serve para formar a base de uma economia complexa.4 Para entender as limitações do escambo, imagine que você tem um pomar nas montanhas que produz as maçãs mais doces e viçosas de toda a província.

    Você trabalha tanto no pomar que seus sapatos se desgastam. Então prepara uma carroça puxada por um jumento e desce para a cidade-mercado à beira do rio.

    Seu vizinho havia dito que um sapateiro que fica na extremidade sul do mercado fez para ele um par de botas muito resistentes que durou cinco estações. Você encontra o estabelecimento do sapateiro e oferece algumas de suas maçãs em troca dos sapatos de que necessita.

    O sapateiro hesita. Quantas maçãs deve pedir em pagamento? Todos os dias ele encontra dezenas de clientes, alguns dos quais trazem sacos de maçãs, enquanto outros têm trigo, cabras ou tecido – todos de qualidade variável. Outros ainda oferecem sua expertise em fazer requisições ao rei ou curar dores nas costas. A última vez que o sapateiro trocou sapatos por maçãs foi há três meses e na época pediu três sacos da fruta. Ou será que foram quatro? Mas, pensando bem, aquelas eram maçãs ácidas do vale, e não maçãs nobres das montanhas.

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    Por outro lado, na ocasião anterior, as maçãs foram trocadas por sapatos femininos pequenos. Esse sujeito está pedindo botas de tamanho masculino.

    Além disso, nas últimas semanas uma praga dizimou os rebanhos da cidade e o couro está ficando escasso. Os curtumeiros estão começando a exigir o dobro de sapatos finalizados em troca da mesma quantidade de couro. Isso não deveria ser levado em consideração?

    Em uma economia de troca, o sapateiro e o produtor de maçãs terão que reaprender todos os dias os preços relativos de dezenas de mercadorias. Se cem produtos diferentes são trocados no mercado, compradores e vendedores terão que saber 4,95 mil taxas de câmbio diferentes. E, se mil produtos diferentes são trocados, compradores e vendedores terão que lidar com 499,5 mil taxas de câmbio diferentes!5 Como resolver isso?

    E fica ainda pior. Mesmo que se possa calcular quantas maçãs equivalem a um par de sapatos, o escambo nem sempre é possível. Afinal, em uma troca, é necessário que ambos os lados queiram o que o outro tem a oferecer. O que acontece se o sapateiro não gosta de maçãs e se, no momento em questão, o que ele realmente quer é um divórcio? É verdade, o fazendeiro até poderia encontrar um advogado que goste de maçãs e fazer um acordo a três. Mas e se o advogado estiver cheio de maçãs e precisar mesmo de um corte de cabelo?

    Algumas sociedades tentaram resolver o problema estabelecendo um sistema central de escambo que coletava produtos de cultivadores e manufaturadores especializados e os distribuía àqueles que precisavam. O maior e mais famoso desses experimentos foi conduzido na União Soviética, e foi um fracasso absoluto. “Todo mundo trabalharia conforme suas necessidades” se transformou, na prática, em “todo mundo trabalharia o mínimo possível e receberia o máximo que conseguisse.” Experimentos mais moderados e bemsucedidos foram feitos em outras ocasiões, como, por exemplo, no Império Inca.

    No entanto, a maioria das sociedades encontrou uma forma mais fácil de conectar um grande número de especialistas – o dinheiro.

    Conchas e cigarros

    O dinheiro foi criado muitas vezes, em muitos lugares. Seu desenvolvimento não exigiu nenhum progresso tecnológico: foi uma revolução puramente mental.

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    Envolveu a criação de uma nova realidade intersubjetiva que existe apenas na imaginação coletiva das pessoas.

    Dinheiro não se resume a moedas e cédulas. Dinheiro é qualquer coisa que as pessoas estejam dispostas a usar para representar sistematicamente o valor de outras coisas com o propósito de trocar bens e serviços. O dinheiro permite que as pessoas comparem de maneira fácil e rápida o valor de diferentes mercadorias (como maçãs, sapatos e divórcios), troquem uma coisa pela outra com facilidade e armazenem riqueza de forma conveniente. Existiram muitos tipos de dinheiro. O mais conhecido é a moeda, que é uma peça padronizada de metal gravado. Mas o dinheiro já existia muito antes da invenção da cunhagem, e várias culturas prosperaram usando outras coisas como unidade monetária, como conchas, gado, couro, sal, grãos, contas, tecido e notas promissórias. Conchas de cauri foram usadas como dinheiro por cerca de 4 mil anos em toda a África, sul da Ásia, leste da Ásia e Oceania. No início do século XX, ainda se podiam pagar impostos em conchas de cauri na Uganda britânica.

    Em prisões modernas e campos de prisioneiros de guerra, com frequência se utilizavam cigarros como dinheiro. Até prisioneiros não fumantes aceitavam cigarros como pagamento e calculavam o valor de todos os outros bens e serviços em cigarros. Um sobrevivente de Auschwitz descreveu o uso de cigarros como unidade monetária no campo: “Tínhamos nossa própria moeda, cujo valor ninguém questionava: o cigarro. O preço de cada artigo era declarado em cigarros […] Em tempos ‘normais’, ou seja, quando os candidatos às câmaras de gás chegavam em um ritmo regular, um pedaço de pão custava 12 cigarros; uma embalagem com 300 gramas de margarina, 30; um relógio, de 80 a 200; um litro de álcool, 400 cigarros!”.6 Na verdade, mesmo hoje, moedas e cédulas são uma forma rara de dinheiro. A soma de todo o dinheiro do mundo é de cerca de 60 trilhões de dólares, mas a soma total de moedas e cédulas é de menos de 6 trilhões de dólares.7 Mais de 90% de todo o dinheiro – mais de 50 trilhões de dólares que aparecem em nossas contas – existem apenas em servidores de computador.

    Assim, a maior parte das transações é executada por meio da movimentação de dados eletrônicos de um arquivo de computador para outro, sem qualquer troca de dinheiro físico. Só um criminoso compra uma casa, por exemplo, entregando uma maleta cheia de notas. Enquanto as pessoas estiverem dispostas a trocar

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    bens e serviços por dados eletrônicos, será algo ainda melhor do que moedas brilhantes e cédulas amassadas – mais leve, menos volumoso e mais fácil de controlar.

    Para sistemas comerciais complexos funcionarem, algum tipo de dinheiro é indispensável. Um sapateiro, em uma economia monetária, precisa saber apenas o preço cobrado por diversos tipos de sapatos – não há necessidade de memorizar as taxas de câmbio entre sapatos e maçãs ou cabras. O dinheiro também livra os produtores de maçãs da obrigação de procurar sapateiros ávidos pela fruta, porque todos sempre querem dinheiro. Essa talvez seja sua qualidade mais básica. Todos sempre querem dinheiro porque todos os outros também sempre querem dinheiro, o que significa que você pode trocá-lo por qualquer coisa que desejar ou precisar. O sapateiro sempre aceitará seu dinheiro de bom grado, porque o que quer que ele deseje realmente – maçãs, cabras ou um divórcio – poderá obter em troca de dinheiro.

    O dinheiro é, portanto, um meio universal de troca que permite que as pessoas convertam quase tudo em praticamente qualquer outra coisa. Força física é convertida em intelecto quando um soldado dispensado do exército financia sua faculdade com os benefícios militares recebidos. Terras são convertidas em lealdade quando um barão vende uma propriedade para sustentar seus empregados. Saúde é convertida em justiça quando um médico utiliza o dinheiro que cobra pelas consultas para contratar um advogado – ou subornar um juiz. É possível até mesmo converter sexo em salvação, como faziam prostitutas do século XV ao dormir com homens por dinheiro que, por sua vez, elas usavam para comprar indultos da Igreja Católica.

    Tipos ideais de dinheiro permitem que as pessoas não apenas transformem uma coisa em outra como também acumulem riqueza. Muitas coisas de valor não podem ser guardadas – como tempo ou beleza. Algumas coisas podem ser armazenadas somente por um breve período, como morangos. Outras são mais duráveis, mas ocupam muito espaço e exigem cuidados e instalações custosos.

    Grãos, por exemplo, podem ser armazenados durante anos, mas para isso é preciso construir depósitos enormes e protegê-los de ratos, bolor, água, fogo e ladrões. O dinheiro, seja papel, bits de computador ou conchas de cauri, resolve o problema. Conchas de cauri não apodrecem, não são agradáveis ao paladar dos ratos, podem sobreviver a incêndios e são compactas o bastante para serem

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    trancadas em um cofre.

    Para utilizar a riqueza, não basta armazená-la. Com frequência, é preciso transportá-la de um lugar para outro. Algumas formas de riqueza, como bens imobiliários, não podem ser transportadas de forma alguma. Mercadorias como trigo e arroz são transportados com dificuldade. Imagine um rico fazendeiro que vive em uma terra sem dinheiro e migra para uma província distante. Sua riqueza consiste principalmente de sua casa e de sua plantação de arroz. O fazendeiro não pode levar consigo a casa nem a plantação. Poderia trocá-las por toneladas de arroz, mas seria trabalhoso e caro transportá-las. O dinheiro resolve esses problemas. O fazendeiro pode vender sua propriedade em troca de um saco de conchas de cauri, que pode carregar com facilidade para onde quer que vá.

    Por ser capaz de converter, armazenar e transportar riqueza de maneira fácil e barata, o dinheiro fez uma contribuição vital ao surgimento de redes comerciais complexas e mercados dinâmicos. Sem dinheiro, redes comerciais e mercados teriam sido condenados a permanecer muito limitados em tamanho, complexidade e dinamismo.

    Como o dinheiro funciona?

    Conchas de cauri e dólares só têm valor em nossa imaginação coletiva. Seu valor não é inerente à estrutura química, cor ou forma das conchas e do papel. Em outras palavras, dinheiro não é uma realidade material – é um construto psicológico. Ele funciona convertendo matéria em espírito. Mas por que tem êxito? Por que alguém estaria disposto a trocar um fértil arrozal por um punhado de conchas inúteis? Por que você está disposto a fritar hambúrgueres, vender seguros-saúde ou cuidar de três pestinhas insolentes se tudo o que ganha pelo esforço são alguns pedaços de papel colorido?

    As pessoas estão dispostas a fazer essas coisas quando confiam no produto da imaginação coletiva. A confiança é a matéria-prima com que todos os tipos de dinheiro são cunhados. Quando um fazendeiro abastado vendeu suas posses por um saco de conchas de cauri e viajou com elas para outra província, confiou que, ao chegar em seu destino, outras pessoas estariam dispostas a lhe vender arroz, casas e campos em troca de conchas. O dinheiro é, consequentemente, um

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    sistema de confiança mútua, e não só isso: o dinheiro é o mais universal e mais eficiente sistema de confiança mútua já inventado.

    O que criou essa confiança foi uma complexa rede de relações políticas, sociais e econômicas de longo prazo. Por que eu acredito na concha de cauri, na moeda de ouro ou na nota de dólar? Porque meus vizinhos acreditam nessas coisas. E meus vizinhos acreditam nelas porque eu acredito. E todos acreditamos porque nosso rei acredita e as exige na forma de impostos, e porque nosso sacerdote acredita e as exige na forma de dízimo. Pegue uma nota de um dólar e observe-a com atenção. Você verá que é simplesmente um pedaço colorido de papel com a assinatura do secretário do Tesouro dos Estados Unidos de um lado e o slogan “In God We Trust” do outro. Nós aceitamos o dólar como pagamento porque confiamos em Deus e no secretário do Tesouro dos Estados Unidos. O papel crucial da confiança explica por que nossos sistemas financeiros são tão intimamente relacionados aos sistemas político, social e ideológico, por que crises financeiras com frequência são desencadeadas por processos políticos e por que o mercado de ações pode subir ou cair dependendo de como os executivos se sentem naquela manhã em particular.

    Inicialmente, quando as primeiras versões de dinheiro foram criadas, as pessoas não tinham esse tipo de confiança, então era necessário definir como “dinheiro” coisas que tinham valor real intrínseco. A primeira forma de dinheiro conhecida na história – os grãos de cevada sumérios – é um bom exemplo.

    Apareceu na Suméria por volta de 3000 a.C., no mesmo período e lugar, e sob as mesmas circunstâncias, do aparecimento da escrita. Assim como a escrita se desenvolveu para atender às necessidades de se intensificar as atividades administrativas, o dinheiro de cevada se desenvolveu para atender às necessidades de se intensificar as atividades econômicas.

    O dinheiro de cevada era simplesmente cevada – quantidades fixas de grãos utilizadas como medida universal para avaliar e trocar por todos os outros bens e serviços. A medida mais comum era a sila, mais ou menos equivalente a um litro. Tigelas padronizadas, cada uma capaz de conter uma sila, eram produzidas em massa de modo que, sempre que as pessoas precisassem comprar ou vender qualquer coisa, fosse fácil medir a quantidade necessária de cevada.

    Os salários também eram estabelecidos e pagos em silas de cevada. Um trabalhador do sexo masculino ganhava 60 silas por mês, e um do sexo feminino,

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    30 silas. Um capataz podia ganhar entre 1,2 mil e 5 mil silas. Nem mesmo o mais voraz deles conseguiria consumir 5 mil litros de cevada por mês, mas podia usar as silas que não comesse para comprar todo tipo de mercadoria – óleo, cabras, escravos e outros alimentos, além da cevada.8 Embora a cevada tenha um valor intrínseco, não era fácil convencer as pessoas a usá-la como dinheiro, e não apenas como mais uma mercadoria. Para entender por que, pense no que aconteceria se você levasse uma saca de cevada até o centro comercial mais próximo e tentasse comprar uma camisa ou uma pizza. Os atendentes provavelmente chamariam os seguranças. Ainda assim, era mais fácil aprender a confiar na cevada como o primeiro tipo de dinheiro, pois os grãos têm um valor biológico inerente. Humanos podem comê-los. Por outro lado, era difícil armazenar e transportar cevada. O verdadeiro avanço na história monetária aconteceu quando as pessoas passaram a confiar em um dinheiro desprovido de valor inerente, mas que era mais fácil de armazenar e transportar.

    Esse dinheiro apareceu na antiga Mesopotâmia, em meados do terceiro milênio a.C. Era o siclo de prata. O siclo de prata não era uma moeda, e sim 8,33 gramas de prata. Quando o Código de Hamurabi declarou que um homem que matasse uma escrava deveria pagar 20 siclos ao dono dela, isso significava que ele teria de pagar 166 gramas de prata, não 20 moedas. A maioria dos termos monetários do Antigo Testamento são expressos em prata, e não em moedas. Os irmãos de José o venderam aos ismaelitas por 20 siclos, ou 166 gramas de prata (o mesmo preço de uma escrava – afinal, ele era jovem).

    Ao contrário da sila de cevada, o siclo de prata não tinha valor inerente.

    Não é possível comer, beber ou se vestir com prata, e o metal era muito pouco resistente para a fabricação de ferramentas úteis – lâminas de arado ou espadas de prata se amassariam rapidamente, como se fossem feitas de papel de alumínio. Quando utilizados para alguma coisa, prata e ouro são transformados em joias, coroas e outros símbolos de status – produtos de luxo que membros de uma cultura específica identificam com status social elevado. Seu valor é puramente cultural.

    Pesos padronizados de metais preciosos acabaram dando origem às moedas. As primeiras moedas da história foram criadas por volta de 640 a.C. pelo rei Aliates da Lídia, no oeste da Anatólia. Essas moedas tinham um peso padronizado de ouro ou prata e eram gravadas com uma marca de identificação. A marca

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    atestava duas coisas. Primeiro, indicava quanto metal precioso havia na moeda.

    Segundo, identificava a autoridade que emitiu a moeda e que garantia seu conteúdo. Quase todas as moedas em uso hoje são descendentes das moedas lídias.

    As moedas apresentavam duas vantagens importantes em relação aos lingotes de metal sem marcas. Primeiro, estes últimos tinham de ser pesados em todas as transações. Segundo, pesar o lingote não é suficiente. Como o sapateiro sabe que o lingote de prata que paguei por minhas botas é realmente feito de prata pura, e não de chumbo coberto por uma fina camada de prata? As moedas ajudam a resolver esses problemas. A marca gravada nelas atesta seu valor exato, de modo que o sapateiro não precisa ter uma balança ao lado da caixa registradora. E, o que é mais importante, a marca na moeda é a assinatura de alguma autoridade política que garante seu valor.

    A forma e o tamanho da marca variaram muitíssimo ao longo da história, mas a mensagem era sempre a mesma: “Eu, o grande rei Fulano de Tal, dou minha palavra de que esse disco de metal contém exatamente cinco gramas de ouro. Se alguém ousar falsificar essa moeda, significa que está falsificando minha própria assinatura, o que seria uma mancha em minha reputação. Punirei tal crime com extrema severidade”. É por isso que falsificar dinheiro sempre foi considerado um crime muito mais sério do que outros tipos de fraude.

    Falsificação não é apenas fraude – é uma quebra de soberania, um ato de subversão contra o poder, os privilégios e a pessoa do rei. O termo jurídico é lèse majesté (lesa-majestade), e costumava ser punida com tortura e morte. Contanto que as pessoas confiassem no poder e na integridade do rei, confiavam em suas moedas. Completos estranhos podiam concordar facilmente quanto ao valor da moeda de denário romana, porque confiavam no poder e na integridade do imperador romano, cujo nome e imagem a adornavam.

    Por sua vez, o poder do imperador se apoiava no denário. Imagine como teria sido difícil manter o Império Romano sem moedas – se o imperador tivesse que recolher impostos e pagar salários com cevada e trigo. Seria impossível recolher impostos em cevada na Síria, transportar os fundos para o tesouro central em Roma e transportá-los novamente para a Britânia para pagar as legiões locais. Teria sido igualmente difícil manter o império se os habitantes de Roma acreditassem em moedas de ouro, mas gauleses, gregos, egípcios e sírios

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    rejeitassem essa crença, depositando sua confiança em conchas de cauri, contas de marfim e rolos de tecido.

    O evangelho do ouro

    A confiança nas moedas de Roma era tão forte que, mesmo fora das fronteiras do império, as pessoas aceitavam de bom grado pagamento em denários. No século I, as moedas romanas eram um meio de troca aceito nos mercados da Índia, embora a legião romana mais próxima estivesse a milhares de quilômetros de distância. Os indianos tinham tanta confiança no denário e na imagem do imperador que quando os governantes locais cunharam suas próprias moedas, imitaram o denário à risca, até mesmo o retrato do imperador! O nome “denário” se tornou uma denominação genérica para moedas. Califas muçulmanos adaptaram o nome ao árabe e criaram os “dinares”. Dinar ainda é o nome oficial da moeda da Jordânia, do Iraque, da Sérvia, da Macedônia, da Tunísia e de vários outros países.

    Enquanto a cunhagem em estilo lídio se espalhava do Mediterrâneo para o oceano Índico, a China desenvolvia um sistema monetário um pouco diferente, baseado em moedas de bronze e lingotes de prata e ouro não marcados. Mas os dois sistemas monetários tinham suficientes pontos em comum (em especial o fato de se basearem em ouro e prata) para que se estabelecessem sólidas relações monetárias e comerciais entre as zonas chinesa e lídia. Mercadores e conquistadores muçulmanos e europeus disseminaram gradualmente o sistema lídio e o evangelho do ouro aos quatro cantos do planeta. No fim da era moderna, o mundo inteiro era uma única zona monetária, primeiro baseada em ouro e prata e depois em algumas moedas confiáveis como a libra esterlina e o dólar americano.

    O surgimento de uma única zona monetária transnacional e transcultural assentou as bases para a unificação da Afro-Ásia, e, com o tempo, do mundo inteiro, em uma única esfera econômica e política. As pessoas continuaram a falar línguas mutuamente incompreensíveis, obedecer a governantes diferentes e adorar deuses distintos, mas todos acreditavam em ouro e prata e em moedas de ouro e de prata. Sem essa crença partilhada, as redes de comércio mundiais teriam sido praticamente impossíveis. O ouro e a prata que os conquistadores do

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    século XVI encontraram na América permitiram que os mercadores europeus comprassem seda, porcelana e especiarias no leste da Ásia, movendo assim as rodas do crescimento econômico tanto na Europa quanto no leste da Ásia. A maior parte do ouro e da prata extraídos no México e nos Andes escapou por entre os dedos dos europeus e encontrou um bom lar nas bolsas dos produtores de seda e porcelana chineses. O que teria acontecido à economia global se os chineses não tivessem sofrido da mesma “doença do coração” que afligiu Cortés e seus companheiros – e tivessem se recusado a aceitar pagamento em ouro e prata?

    Ainda assim, por que chineses, indianos, muçulmanos e espanhóis – que pertenciam a culturas muito diferentes, que não tinham quase nada em comum – partilham da crença no ouro? Por que não aconteceu de os espanhóis acreditarem em ouro, os muçulmanos, em cevada, os indianos, em conchas de cauri e os chineses, em rolos de seda? Os economistas têm uma resposta pronta.

    Assim que o comércio conecta duas áreas, as forças de oferta e procura tendem a equalizar os preços dos bens transportáveis. Para entender o porquê, considere um caso hipotético. Suponha que, quando teve início o comércio regular entre a Índia e o Mediterrâneo, os indianos não tinham o menor interesse em ouro, de modo que ele praticamente não tinha valor. Mas, no Mediterrâneo, o ouro era um símbolo de status cobiçado e, por conseguinte, seu valor era alto. O que aconteceria depois?

    Mercadores que viajavam entre a Índia e o Mediterrâneo notariam a diferença no valor do ouro. Para lucrar, começariam a comprar ouro barato na Índia e vendê-lo por um valor bem mais alto no Mediterrâneo. Logo, a demanda por ouro na Índia dispararia, assim como seu valor. Ao mesmo tempo, o Mediterrâneo experimentaria um influxo de ouro, cujo valor consequentemente cairia. Em um curto período, o valor do ouro na Índia e no Mediterrâneo passaria a ser muito similar. O mero fato de o povo do Mediterrâneo acreditar no ouro faria com que os indianos começassem a acreditar nele também. Mesmo que os indianos ainda não tivessem encontrado uma utilidade real para o ouro, o fato de o povo do Mediterrâneo o desejar seria o suficiente para fazer com que os indianos o valorizassem.

    Do mesmo modo, o fato de outra pessoa acreditar em conchas de cauri, dólares ou dados eletrônicos é suficiente para fortalecer nossa própria crença

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    neles, mesmo que essa pessoa seja odiada, desprezada ou ridicularizada por nós.

    Cristãos e muçulmanos, incapazes de concordar em termos de crença religiosa, concordam quando se trata de uma crença monetária, porque, enquanto a religião nos pede para acreditar em algo, o dinheiro nos pede para acreditar que outras pessoas acreditam em algo.

    Durante milhares de anos, filósofos, pensadores e profetas demonizaram o dinheiro e o consideraram a raiz de todos os males. Seja como for, o dinheiro é também o apogeu da tolerância humana. O dinheiro é mais tolerante que linguagem, leis estaduais, códigos culturais, crenças religiosas e hábitos sociais. O dinheiro é o único sistema de crenças criado pelos humanos que pode transpor praticamente qualquer abismo cultural e que não discrimina com base em religião, gênero, raça, idade ou orientação sexual. Graças ao dinheiro, até mesmo pessoas que não se conhecem e não confiam umas nas outras são capazes de cooperar de maneira efetiva.

    O preço do dinheiro

    O dinheiro é baseado em dois princípios universais:

    a. convertibilidade universal: com o dinheiro como alquimista, é possível transformar terras em lealdade, justiça em saúde e violência em conhecimento; b. confiança universal: com o dinheiro como intermediário, quaisquer duas pessoas podem cooperar em qualquer projeto.

    Esses princípios permitiram que milhões de estranhos cooperassem no comércio e na indústria de maneira eficaz. Mas tais princípios aparentemente benignos têm um lado obscuro. Quando tudo é conversível, e quando a confiança se baseia em moedas e conchas de cauri anônimas, corroem-se tradições locais, relações íntimas e valores humanos, substituindo-os pelas leis frias da oferta e da procura.

    As comunidades humanas e as famílias sempre se basearam na crença em coisas “de valor inestimável”, como honra, lealdade, moral e amor. Essas coisas ficam de fora do domínio do mercado e não deveriam ser compradas ou vendidas por dinheiro. Mesmo que o mercado ofereça um bom preço, certas

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    coisas simplesmente não devem ser feitas. Pais não devem vender seus filhos como escravos; um cristão devoto não deve cometer um pecado mortal; um cavaleiro leal não deve trair seu senhor; e terras de tribos ancestrais não devem ser vendidas a estrangeiros.

    O dinheiro sempre tentou romper essas barreiras, como água penetrando por rachaduras em uma barragem. Pais se viram obrigados a vender alguns de seus filhos como escravos para poder alimentar os outros. Cristãos devotos assassinaram, roubaram e traíram – e depois usaram seus espólios para comprar o perdão da igreja. Cavaleiros ambiciosos leiloaram sua aliança a quem pagasse mais, enquanto garantiam a lealdade de seus próprios seguidores por meio de pagamentos em dinheiro. Terras tribais foram vendidas para estrangeiros do outro lado do mundo para se comprar um bilhete de entrada para a economia global.

    O dinheiro tem um lado ainda mais obscuro. Embora gere confiança universal entre estranhos, essa confiança não é investida em humanos, comunidades ou valores sagrados, mas no próprio dinheiro e nos sistemas impessoais que lhe servem de apoio. Não confiamos no estranho, ou no vizinho – confiamos na moeda que possuem. Se suas moedas acabarem, acaba nossa confiança. Ao mesmo tempo em que o dinheiro derruba as barragens de comunidade, religião e Estado, o mundo corre o risco de se tornar um mercado enorme e um tanto cruel.

    Por isso, a história econômica da humanidade é uma dança delicada. As pessoas contam com o dinheiro para facilitar a cooperação com estranhos, mas temem que ele corrompa relações íntimas e valores humanos. Com uma mão, elas destroem voluntariamente as barragens comunais que por tanto tempo contiveram o movimento do dinheiro e do comércio, mas com a outra constroem novas barragens para proteger a sociedade, a religião e o meio ambiente da escravidão das forças do mercado.

    Atualmente, é comum acreditar que o mercado sempre prevalece e que as barragens erguidas por reis, sacerdotes e comunidades não são mais capazes de conter o fluxo do dinheiro. Trata-se de uma crença ingênua. Guerreiros cruéis, fanáticos religiosos e cidadãos preocupados conseguiram derrotar repetidas vezes os mercadores calculistas e até mesmo reformular a economia. É, portanto, impossível compreender a unificação da humanidade como um processo

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    puramente econômico. Para entender como milhares de culturas isoladas se uniram ao longo do tempo a fim de formar a aldeia global que existe hoje, devemos levar em consideração o papel do ouro e da prata, mas não podemos ignorar o papel igualmente crucial do aço.

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    11. Visões imperiais

    Visões imperiais OS ANTIGOS ROMANOS ESTAVAM ACOSTUMADOS A SER DERROTADOS. COMO OS governantes da maioria dos grandes impérios da história, eles podiam perder uma batalha após a outra, mas ainda vencer a guerra. Um império incapaz de receber um golpe e continuar de pé não é um império de verdade. Mas até mesmo os romanos acharam difícil digerir as notícias que chegaram do norte da Península Ibérica em meados do século II a.C. Uma pequena e insignificante cidade montanhosa chamada Numância, habitada por celtas nativos da península, ousou resistir à dominação romana. Roma, na época, era senhora inquestionável de toda a bacia do Mediterrâneo, tendo conquistado os impérios macedônio e selêucida, subjugado as gloriosas cidades-Estado da Grécia e reduzido Cartago a ruínas em chamas. Os numantinos não tinham nada ao seu lado além de um amor brutal pela liberdade e por suas terras inóspitas. Ainda assim, obrigaram diversas legiões a se renderem ou recuarem humilhadas.

    Finalmente, em 134 a.C., a paciência de Roma se esgotou. O senado decidiu enviar Cipião Emiliano, principal general de Roma e homem que havia derrubado Cartago, para dar um jeito nos numantinos. Ele recebeu um exército gigantesco de mais de 30 mil soldados. Cipião, que respeitava o espírito de luta e as habilidades marciais dos numantinos, preferiu não desgastar seus soldados em combate desnecessário. Em vez disso, cercou a Numância com uma linha de fortificações, bloqueando o contato da cidade com o mundo exterior. A fome fez o trabalho por ele. Depois de mais de um ano, a provisão de alimentos se esgotou.

    Quando os numantinos se deram conta de que não havia mais esperança, incendiaram a própria cidade; segundo relatos romanos, a maioria se matou para não se tornar escrava de Roma.

    Mais tarde, a Numância se tornou um símbolo da independência e coragem espanholas. Miguel de Cervantes, autor de Dom Quixote, escreveu uma tragédia chamada O cerco de Numância, que termina com a destruição da cidade, mas também com uma visão da futura grandiosidade da Espanha. Poetas compuseram panegíricos de seus bravos defensores, e pintores retrataram o cerco majestosamente em suas telas. Em 1882, as ruínas foram declaradas “monumento nacional” e se tornaram um local de peregrinação para os patriotas

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    espanhóis. Nas décadas de 1950 e 1960, as histórias em quadrinhos mais populares na Espanha não eram as do Super-Homem ou do Homem-Aranha, e sim as aventuras de El Jabato, um antigo herói ibérico fictício que combatia os opressores romanos. Os antigos numantinos são, até hoje, paradigmas espanhóis do heroísmo e do patriotismo, retratados como modelos para os jovens do país.

    Ainda assim, os patriotas exaltam os numantinos em espanhol – língua românica que nasceu do latim de Cipião. Os numantinos falavam uma língua celta que hoje está morta e perdida. Cervantes escreveu O cerco de Numância em alfabeto latino, e a peça segue modelos artísticos greco-romanos. Numância não tinha teatros. Os patriotas espanhóis que admiram o heroísmo numantino tendem a ser também leais seguidores da Igreja Católica Romana – não ignore essa última palavra –, uma igreja cujo líder ainda fica em Roma e que se dirige a Deus preferivelmente em latim. Da mesma forma, o direito moderno espanhol deriva da lei romana; a política espanhola se baseia na romana; e a cozinha e a arquitetura espanholas devem muito mais a legados romanos do que celtas ou ibéricos. Não restou nada da Numância além de ruínas. Até mesmo sua história só chegou até nós graças aos escritos de historiadores romanos. Foi feita sob medida para o gosto do público romano, que adorava contos de bárbaros amantes da liberdade. A vitória de Roma sobre a Numância foi tão completa que os vitoriosos se apropriaram até da memória dos derrotados.

    Não é o nosso tipo de história. Gostamos de ver os menos favorecidos vencerem. Mas não há justiça na história. A maioria das culturas do passado, mais cedo ou mais tarde, acabou se tornando vítima dos exércitos de algum império implacável, que as relegou ao esquecimento. Os impérios também acabam sucumbindo, mas tendem a deixar para trás legados ricos e duradouros.

    No século XXI, praticamente todas as pessoas são fruto de algum império.

    O que é um império?

    Um império é uma ordem política com duas características importantes. Em primeiro lugar, para se qualificar para essa designação é preciso dominar um número significativo de povos distintos, cada um com seu próprio território e identidade cultural. Quantos povos exatamente? Dois ou três não são suficientes.

    Vinte ou trinta é bastante. O limiar do império fica em algum ponto

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    intermediário.

    Em segundo lugar, impérios são caracterizados por fronteiras flexíveis e um apetite potencialmente ilimitado. Eles podem engolir e digerir cada vez mais nações e territórios sem alterar sua estrutura ou identidade básicas. O Estado britânico atual tem fronteiras bastante claras que não podem ser ultrapassadas sem alterar a estrutura e a identidade fundamentais do Estado. Um século atrás, praticamente qualquer lugar da Terra poderia se tornar parte do Império Britânico.

    Diversidade cultural e flexibilidade territorial dão aos impérios não só seu caráter singular como também seu papel central na história. Foi graças a essas duas características que os impérios conseguiram unir politicamente diversos grupos étnicos e zonas ecológicas e, desse modo, fundir segmentos cada vez maiores da espécie humana e do planeta Terra.

    Deve-se enfatizar que um império é definido unicamente por sua diversidade e fronteiras flexíveis, e não por suas origens, forma de governo, extensão territorial ou tamanho de sua população. Um império não precisa emergir de conquistas militares. O Império Ateniense começou como uma liga voluntária, e o Império de Habsburgo nasceu de um matrimônio, pavimentado por uma série de alianças sagazes por meio de casamentos. Um império também não precisa ser governado por um imperador autocrático. O Império Britânico, o maior da história, foi conduzido por uma democracia. Entre outros impérios democráticos (ou pelo menos republicanos), estiveram incluídos os modernos impérios Holandês, Francês, Belga e Norte-Americano, assim como os impérios pré-modernos de Novgorod, Roma, Cartago e Atenas.

    O tamanho também não tem tanta importância. Impérios podem ser pequenos. O Império Ateniense, em seu apogeu, era muito menor em tamanho e população do que a Grécia de hoje. O Império Asteca era menor do que o México atual. No entanto, ambos eram impérios, enquanto a Grécia e o México modernos não são, porque os primeiros subjugaram gradualmente dezenas, e até centenas, de unidades políticas diferentes, e os últimos não. Atenas dominou mais de cem cidades-Estado antes independentes, e o Império Asteca, se pudermos confiar nos registros de impostos cobrados, governou 371 tribos e povos diferentes.1 Como foi possível espremer tamanha mistura humana no território de um

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    modesto Estado moderno? Foi possível porque, no passado, havia muito mais povos distintos no mundo, cada um deles com uma população menor e ocupando menos território do que um povo típico dos dias de hoje. As terras entre o Mediterrâneo e o rio Jordão, que hoje lutam para satisfazer as ambições de apenas dois povos, acomodaram facilmente, nos tempos bíblicos, dezenas de nações, tribos, pequenos reinos e cidades-Estado.

    Os impérios foram uma das principais razões para a drástica redução da diversidade humana. O rolo compressor imperial pouco a pouco destruiu as características singulares de inúmeros povos (como os numantinos), forjando, a partir deles, grupos novos e muito maiores.

    Impérios do mal?

    Nos dias de hoje, “imperialista” só fica atrás de “fascista” no léxico de palavrões políticos. A crítica contemporânea aos impérios normalmente assume duas formas:

    1. 1. Os impérios não funcionam. No fim das contas, não é possível governar de maneira eficaz um grande número de povos conquistados.
    2. 2. Mesmo que seja possível, não deve ser feito, porque os impérios são máquinas do mal, destruidoras e exploradoras. Todo povo tem direito à soberania e nunca deveria ser submetido ao jugo de outro.

    De uma perspectiva histórica, o primeiro enunciado não faz o mínimo sentido e o segundo é extremamente problemático.

    A verdade é que o império foi a forma mais comum de organização política do mundo nos últimos 2,5 mil anos. A maioria dos humanos, durante esses dois milênios e meio, viveu em impérios. O império também é uma forma muito estável de governo. A maior parte deles tinha uma facilidade imensa para sufocar rebeliões. Em geral, só foram derrubados por invasões externas ou por divisões no interior da elite dominante. Por outro lado, não existe um bom histórico de povos conquistados que tenham conseguido se libertar de seus soberanos imperiais. A maioria desses povos permaneceu subjugada por centenas de anos. Quase sempre, foram lentamente digeridos pelo império conquistador, até que suas culturas singulares desapareceram.

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    Por exemplo, quando o Império Romano do Ocidente finalmente sucumbiu às tribos germânicas invasoras em 476, os numantinos, arvernos, helvécios, samnitas, lusitanos, umbrianos, etruscos e centenas de outros povos esquecidos que os romanos haviam conquistado séculos antes não emergiram da carcaça estripada do império, como Jonas da barriga do grande peixe. Não restou nenhum deles. Os descendentes biológicos dos povos que haviam se identificado como membros dessas nações, que falavam sua língua, cultuavam seus deuses e disseminavam seus mitos e lendas, agora pensavam, falavam e cultuavam como os romanos.

    Em muitos casos, a destruição de um império não significava a independência dos povos dominados. Em vez disso, um novo império ocupava o vácuo criado quando o antigo ruía ou se rendia. Em nenhum outro lugar isso foi tão evidente quanto no Oriente Médio. A atual constelação política na região – um equilíbrio de poder entre muitas entidades políticas independentes com fronteiras mais ou menos estáveis – praticamente não tem paralelos nos últimos milênios. A última vez que o Oriente Médio vivenciou essa situação foi no século VIII a.C. – há quase 3 mil anos! Da ascensão do Império Neoassírio, no século VIII a.C., até o colapso dos impérios britânico e francês, em meados do século XX, o Oriente Médio passou das mãos de um império às de outro, como um bastão em uma corrida de revezamento. E, quando os britânicos e franceses finalmente largaram o bastão, os arameus, os amonitas, os fenícios, os filisteus, os moabitas, os edomitas e os outros povos conquistados pelos assírios já haviam desaparecido há tempos.

    É verdade que os judeus, os armênios e os georgianos de hoje afirmam, com certa dose de justiça, que são descendentes dos antigos povos do Oriente Médio. Mas essas são apenas exceções que provam a regra, e mesmo tais afirmações são um tanto quanto exageradas. Não é preciso dizer que as práticas políticas, econômicas e sociais dos judeus modernos, por exemplo, devem muito mais aos impérios sob os quais eles viveram nos últimos dois milênios do que às tradições do antigo reino de Judá. Se o rei Davi aparecesse em uma sinagoga ultraortodoxa nos dias de hoje, ficaria perplexo ao encontrar pessoas vestindo roupas do leste europeu, falando em dialeto germânico (iídiche) e tendo discussões infinitas sobre o significado de um texto babilônico (o Talmude). Não havia sinagogas, volumes do Talmude nem rolos da Torá na antiga Judá.

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    Construir e manter um império normalmente exigia o massacre cruel de grandes populações e a opressão brutal de todos os que sobravam. O kit padrão de ferramentas imperiais incluía guerras, escravidão, deportação e genocídio.

    Quando os romanos invadiram a Escócia em 83, encontraram forte resistência das tribos caledônias locais e reagiram devastando o país. Em resposta às ofertas de paz de Roma, o chefe Cálgaco chamou os romanos de “rufiões do mundo” e disse que “à pilhagem, à matança e a roubos deram o nome mentiroso de império; fizeram um deserto e chamaram isso de paz”.2 Isso não significa, entretanto, que os impérios não deixam nada de valor em seu rastro. Pintar todos os impérios de preto e condenar todos os legados imperiais é rejeitar a maior parte da cultura humana. As elites imperiais usaram os lucros da conquista para financiar não só exércitos e fortificações como também filosofia, arte, justiça e caridade. Uma proporção significativa das grandes realizações culturais da humanidade deve sua existência à exploração das populações conquistadas. Os ganhos e a prosperidade trazidos pelo imperialismo romano propiciaram a Cícero, Sêneca e Santo Agostinho o tempo livre e os recursos necessários para pensar e escrever; o Taj Mahal não poderia ter sido construído sem a riqueza acumulada pela exploração mogol de seus súditos indianos; e os lucros do império de Habsburgo, provenientes do domínio sobre suas províncias falantes de eslavo, húngaro e romeno, pagaram os salários de Haydn e as comissões de Mozart. Nenhum escritor caledônio preservou o discurso de Cálgaco para a posterioridade. Nós o conhecemos graças ao historiador romano Tácito. Na verdade, Tácito provavelmente o inventou. Hoje, muitos estudiosos concordam que Tácito inventou não só o discurso como também a personalidade de Cálgaco, o chefe caledônio, para servir de porta-voz para o que ele e a elite romana pensavam de seu próprio país.

    Mesmo se olharmos além da cultura de elite e das artes superiores e focarmos apenas o mundo das pessoas comuns, encontraremos legados imperiais na maioria das culturas modernas. Hoje, a maioria de nós fala, pensa e sonha em línguas imperiais que foram impostas a nossos ancestrais pela espada. A maior parte dos habitantes do leste asiático fala e sonha na língua do Império Han.

    Independentemente de suas origens, quase todos os habitantes dos dois continentes americanos, da península de Barrow, no Alasca, ao estreito de Magalhães, se comunicam em uma das quatro línguas imperiais: espanhol,

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    português, francês ou inglês. Os egípcios da atualidade falam árabe, concebem a si mesmos como árabes e se identificam totalmente com o Império Árabe que conquistou o Egito no século VII e reprimiu com punho de ferro as repetidas revoltas que irromperam contra seu domínio. Cerca de 10 milhões de zulus na África do Sul remetem à era de glória do século XIX, embora a maior parte deles descenda de tribos que lutaram contra o Império Zulu e tenha sido incorporada a ele por meio de campanhas militares sangrentas.

    É para o seu próprio bem

    O primeiro império sobre o qual temos informações definitivas foi o Império Acádio, de Sargão, o Grande (c. 2250 a.C.). Sargão começou sua carreira como rei de Kish, uma pequena cidade-Estado na Mesopotâmia. Em poucas décadas, ele conseguiu conquistar não só todas as outras cidades-Estado mesopotâmicas como também grandes territórios fora do centro da Mesopotâmia. Sargão se gabava de ter conquistado o mundo inteiro. Na realidade, seu domínio ia do Golfo Pérsico ao Mediterrâneo e incluía grande parte do território que hoje corresponde ao Iraque e à Síria, além de algumas partes do Irã e da Turquia.

    O Império Acádio não durou muito depois da morte de seu fundador, mas Sargão deixou para trás um trono disputado com frequência. Durante os 17 séculos seguintes, reis assírios, babilônios e hititas adotaram Sargão como modelo, ostentando que eles também haviam conquistado o mundo inteiro.

    Depois, por volta de 550 a.C., Ciro, o Grande, rei da Pérsia, viria a se vangloriar de algo ainda mais impressionante.

    Os reis da Assíria sempre continuaram sendo os reis da Assíria. Mesmo quando afirmavam governar o mundo inteiro, era óbvio que o faziam para enaltecer a Assíria, e não sentiam remorso algum por isso. Ciro, por outro lado, não só afirmava governar o mundo inteiro como também alegava fazer isso em nome de todos os povos. “Estamos conquistando vocês pelo seu próprio bem”, diziam os persas. Ciro queria que os povos conquistados o amassem e se considerassem afortunados por serem vassalos da Pérsia. O exemplo mais famoso das tentativas inovadoras de Ciro de conquistar a aprovação de uma nação dominada por seu império foi a ordem de que os judeus exilados na Babilônia tivessem permissão para retornar à sua terra natal e reconstruir seu

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    templo. Ele inclusive lhes ofereceu auxílio financeiro. Ciro não se via como um rei persa que governava os judeus – ele era também o rei dos judeus e, portanto, responsável por seu bem-estar.

    A presunção de governar o mundo inteiro para o bem de todos os seus habitantes era impressionante. A evolução fez o Homo sapiens, assim como outros mamíferos sociais, uma criatura xenofóbica. Os sapiens dividem a humanidade instintivamente em duas partes, “nós” e “eles”. Nós somos pessoas como você e eu, que partilhamos a mesma língua, a mesma religião e os mesmos costumes. Nós somos todos responsáveis uns pelos outros, mas não por “eles”. Nós somos sempre distintos deles, e não devemos nada a eles. Nós não queremos ver nenhum deles em nosso território, e não nos importamos nem um pouco com o que acontece no território deles. Eles mal são humanos. Na língua dos dinkas, do Sudão, “dinka” significa simplesmente “pessoas”. Pessoas que não são dinkas não são pessoas. Os piores inimigos dos dinkas são os nuers. O que a palavra “nuer” significa na língua nuer? Significa “pessoas legítimas”. A milhares de quilômetros do deserto do Sudão, nas terras geladas do Alasca e no nordeste da Sibéria, vivem os yupiks. O que “yupik” significa na língua deles? Significa “pessoas reais”.3 Em contraste com essa exclusividade étnica, a ideologia imperial de Ciro em diante tendia a ser inclusiva e universal. Embora, frequentemente, tenha enfatizado diferenças raciais e culturais entre dominadores e dominados, ainda assim reconhecera a unidade fundamental do mundo inteiro, a existência de um único conjunto de princípios governando todos os lugares e épocas, e as responsabilidades mútuas de todos os seres humanos. A humanidade é vista como uma grande família: os privilégios dos pais andam de mãos dadas com a responsabilidade pelo bem-estar dos filhos.

    Essa nova visão imperial passou de Ciro e dos persas para Alexandre Magno, e dele para reis helenísticos, imperadores romanos, califas muçulmanos, dinastas indianos e, mais tarde, até mesmo primeiros-ministros soviéticos e presidentes norte-americanos. Essa visão imperial benevolente justificou a existência de impérios e refutou não só as tentativas de revolta dos povos dominados como também as tentativas dos povos independentes de resistir à expansão imperial.

    Visões imperiais similares se desenvolveram independentemente do

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    modelo persa em outras partes do mundo, em particular na América Central, na região andina e na China. Segundo uma tradicional teoria política chinesa, o Céu (Tian) é a fonte de toda autoridade legítima na Terra. O Céu escolhe a pessoa, ou família, mais merecedora e lhe concede o Mandato do Céu. Essa pessoa, ou família, então, governa Tudo Sob o Céu (Tianxia) em benefício de todos os seus habitantes. Assim, uma autoridade legítima é, por definição, universal. Se um governante não tem o Mandato do Céu, então lhe falta legitimidade para governar até mesmo uma única cidade. Se um governante tem o Mandato, ele é obrigado a disseminar justiça e harmonia pelo mundo todo. O Mandato do Céu não podia ser concedido a vários candidatos ao mesmo tempo, e, por conseguinte, não se podia legitimar a existência de mais de um Estado independente.

    O primeiro imperador da China unificada, Qín Shi Huángdì, se vangloriava de que “em todas as seis direções [do universo], tudo pertence ao imperador […] onde quer que exista uma pegada humana, há alguém que se tornou súdito [do imperador] […] sua bondade chega até mesmo aos bois e cavalos. Não há ninguém que não se beneficie dela. Todos os homens estão em segurança sob o teto dele”.4 Daí em diante, no pensamento político chinês, assim como na memória histórica chinesa, os períodos imperiais foram vistos como eras de ouro da ordem e da justiça. Em contradição com a visão do mundo ocidental moderno de que um mundo justo é composto por Estados-nação distintos, na China os períodos de fragmentação política eram vistos como eras obscuras de caos e injustiça. Essa percepção teve implicações de longo alcance para a história chinesa. Sempre que um império ruía, a teoria política dominante estimulava os detentores do poder a não se contentarem com míseros principados independentes, mas tentar a reunificação. Mais cedo ou mais tarde, essas tentativas sempre acabavam dando certo.

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    Mapa 4. O Império Acádio e o Império Persa.

    Quando eles se tornam nós

    Os impérios desempenharam um papel decisivo em amalgamar muitas pequenas culturas em um número menor de culturas maiores. Ideias, pessoas, mercadorias e tecnologia se disseminam mais facilmente dentro das fronteiras de um império do que em uma região politicamente fragmentada. Com frequência, eram os próprios impérios que disseminavam deliberadamente ideias, instituições, costumes e normas. Uma razão era tornar a vida mais fácil para eles mesmos. É difícil governar um império em que cada pequeno distrito tem seu próprio conjunto de leis, sua própria forma de escrever, sua própria língua e seu próprio dinheiro. A padronização era uma vantagem para os imperadores.

    Uma segunda razão, igualmente importante, pela qual os impérios disseminavam ativamente uma cultura comum era obter legitimidade. Pelo menos desde a época de Ciro e de Qín Shĭ Huángdì, os impérios justificaram suas ações – fosse a construção de estradas ou o derramamento de sangue – como

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    necessárias para disseminar uma cultura superior da qual os conquistados se beneficiariam ainda mais que os conquistadores.

    Os benefícios às vezes eram notáveis – aplicação de leis, planejamento urbano, padronização de pesos e medidas – e outras vezes, questionáveis – impostos, serviço militar obrigatório, culto ao imperador. Mas a maior parte das elites imperiais acreditava firmemente que estava trabalhando para o bem-estar geral dos habitantes do império. A classe dominante chinesa tratava os vizinhos de seu país e seus súditos estrangeiros como bárbaros miseráveis a quem o império deveria levar os benefícios da cultura. O Mandato do Céu foi concedido ao imperador não para explorar o mundo, mas para educar a humanidade. Os romanos também justificaram seu domínio argumentando que estavam concedendo paz, justiça e refinamento aos bárbaros. Os alemães selvagens e os gauleses pintados viviam na imundície e na ignorância até que os romanos os adestraram com a lei, os lavaram em casas de banho públicas e os aprimoraram com a filosofia. O Império Máuria, no século III a.C., adotou como missão a disseminação dos ensinamentos de Buda a um mundo ignorante. Os califas muçulmanos receberam uma ordem divina para difundir a revelação do Profeta, de forma pacífica, se possível, mas com o uso da espada, se necessário. Os impérios espanhol e português proclamaram que não eram riquezas o que procuravam nas Índias e na América, e sim adeptos para a fé verdadeira. O sol nunca se punha na missão britânica de difundir as mensagens do liberalismo e do livre comércio. Os soviéticos se sentiram obrigados a facilitar a inexorável marcha histórica do capitalismo rumo à utópica ditadura do proletariado. Hoje, muitos norte-americanos sustentam que seu governo tem o dever moral de levar aos países do Terceiro Mundo os benefícios da democracia e dos direitos humanos, mesmo que estes sejam entregues por mísseis de cruzeiro e F-16s.

    As ideias culturais disseminadas pelo império raramente eram uma criação exclusiva da elite dominante. Uma vez que a visão imperial tende a ser, por natureza, universal e inclusiva, foi relativamente fácil para as elites imperiais adotar ideias, normas e tradições onde quer que as encontrassem, em vez de se ater com fanatismo a uma única tradição conservadora. Embora alguns imperadores procurassem purificar suas culturas e retornar ao que consideravam suas raízes, a maior parte dos impérios gerou civilizações híbridas que absorveram muito dos povos dominados. A cultura imperial de Roma era grega

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    quase tanto quanto romana. A cultura imperial abássida era parte persa, parte grega e parte árabe. A cultura imperial mongol era uma imitação da chinesa. No império dos Estados Unidos, um presidente norte-americano com sangue queniano pode comer pizza italiana enquanto assiste a seu filme preferido, Lawrence da Arábia, um épico britânico sobre a rebelião árabe contra os turcos.

    Não que esse caldeirão cultural tenha tornado o processo de assimilação mais fácil para os conquistados. A civilização imperial pode muito bem ter absorvido inúmeras contribuições de diversos povos conquistados, mas o resultado híbrido ainda era estranho à grande maioria. O processo de assimilação era, com frequência, doloroso e traumático. Não é fácil abrir mão da tradição local e familiar, assim como é difícil e estressante entender e adotar uma nova cultura. Pior ainda, mesmo quando os povos dominados adotavam a cultura imperial com sucesso, podia levar décadas, se não séculos, até que a elite os aceitasse como parte de “nós”. As gerações que viviam entre a conquista e a aceitação eram deixadas ao relento. Já haviam perdido sua querida cultura local, mas não tinham permissão para participar em condição de igualdade no mundo imperial: pelo contrário, a cultura adotada continuava a vê-las como bárbaros.

    Imagine um ibérico de boa ascendência vivendo um século antes da queda da Numância. Ele fala seu dialeto celta nativo com seus pais, mas aprendeu um latim impecável, com um sotaque muito leve, porque é necessário para conduzir seus negócios e lidar com as autoridades. Alimenta a predileção de sua esposa por bugigangas enfeitadas, mas fica um pouco constrangido porque ela, como outras mulheres locais, guarda esse resquício do gosto celta – ele preferiria que ela adotasse a simplicidade das joias usadas pela esposa do governante romano.

    Ele mesmo usa túnicas romanas e, graças ao sucesso como comerciante de gado, devido em grande parte à sua experiência com o complicado direito romano, conseguiu construir um casarão em estilo romano. Contudo, mesmo sendo capaz de recitar o Livro III das Geórgicas, de Virgílio, de memória, os romanos ainda o tratam como um semibárbaro. Ele percebe, com frustração, que nunca receberá uma nomeação para o governo ou terá acesso aos melhores assentos no anfiteatro.

    No fim do século XIX, muitos indianos bem instruídos aprenderam a mesma lição com os mestres britânicos. Uma história famosa é a de um indiano ambicioso que dominou as complexidades da língua inglesa, fez aulas de dança

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    ocidental e até se acostumou a comer com garfo e faca. Equipado com seus novos modos, viajou à Inglaterra, estudou direito na University College London e se tornou advogado. Mesmo assim, esse jovem homem das leis, aprumado em seu terno e gravata, foi jogado para fora de um trem na colônia britânica da África do Sul por insistir em viajar na primeira classe em vez de se acomodar na terceira, onde homens “de cor” como ele deviam viajar. Seu nome era Mohandas Karamchand Gandhi.

    Em alguns casos, o processo de aculturação e assimilação acabou rompendo as barreiras entre os recém-chegados e a antiga elite. Os conquistados já não viam o império como um sistema estrangeiro de ocupação, e os conquistadores passaram a enxergar seus conquistados como iguais. Dominantes e dominados passaram a ver “eles” como “nós”. Todos os súditos de Roma, depois de séculos de dominação imperial, acabaram recebendo a cidadania romana. Não romanos ascenderam e passaram a ocupar os cargos mais altos entre os oficiais das legiões romanas e foram nomeados ao senado. Em 48, o imperador Cláudio admitiu no senado vários gauleses notáveis cujos “costumes, cultura e laços de matrimônio se misturaram com os nossos”, conforme observou em um discurso. Senadores arrogantes protestaram contra a inclusão desses ex-inimigos no cerne do sistema político romano. Cláudio os recordou de uma verdade inconveniente. A maioria das famílias senatoriais descendia de tribos italianas que um dia lutaram contra Roma e, mais tarde, obtiveram cidadania romana. Na verdade, conforme recordou o imperador, sua própria família era de ascendência sabina.5 Durante o século II, Roma foi governada por uma linhagem de imperadores nascidos na Península Ibérica, em cujas veias provavelmente corriam pelo menos algumas gotas de sangue ibérico. Os reinados de Trajano, Adriano, Antonino Pio e Marco Aurélio geralmente são considerados a era de ouro do império. Depois disso, todas as barreiras étnicas foram derrubadas. O imperador Lúcio Sétimo Severo (193-211) descendia de uma família púnica da Líbia. Heliogábalo (218-222) era sírio. O imperador Filipe (244-249) era conhecido informalmente como “Filipe, o Árabe”. Os novos cidadãos do império adotaram a cultura imperial romana com tanto entusiasmo que, durante séculos, e até milênios, depois que o império ruiu, continuaram a falar a língua do império, acreditar no Deus cristão que o império havia adotado de uma de suas

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    províncias levantinas e viver segundo as leis do império.

    Um processo similar ocorreu no Império Árabe. Quando foi estabelecido, em meados do século VII, era baseado em uma nítida divisão entre a elite dominante árabe-muçulmana e os subjugados egípcios, sírios, iranianos e berberes, que não eram nem árabes, nem muçulmanos. Muitos dos súditos do império adotaram gradualmente a fé muçulmana, a língua árabe e uma cultura imperial híbrida. A antiga elite árabe via esses arrivistas com profunda hostilidade, temendo perder seu status e identidade singulares. Os convertidos frustrados clamavam por uma parte equivalente no império e no mundo islâmico. Com o tempo, conseguiram. Egípcios, sírios e mesopotâmios começaram a ser cada vez mais vistos como “árabes”. Os árabes, por sua vez – fossem os árabes “autênticos” da Arábia ou os recém-cunhados do Egito e da Síria –, passaram a ser cada vez mais dominados por muçulmanos não árabes, em particular iranianos, turcos e berberes. O grande sucesso do projeto imperial árabe foi que a cultura imperial que criou foi adotada entusiasticamente por inúmeros povos não árabes, que continuaram a preservá-la, desenvolvê-la e disseminá-la – mesmo depois que o império original ruiu e os árabes, como grupo étnico, perderam seu domínio.

    Na China, o sucesso do projeto imperial foi ainda mais absoluto. Por mais de 2 mil anos, uma série de grupos étnicos e culturais primeiramente considerados bárbaros foram integrados com sucesso à cultura imperial chinesa e se tornaram chineses Han (assim denominados devido ao Império Han, que governou a China de 206 a.C. a 220). A maior conquista do império chinês é continuar firme e forte, apesar de ser difícil enxergá-lo como império, exceto em áreas remotas como o Tibete e Xinjiang. Mais de 90% da população da China se considera Han e é reconhecida como tal.

    Podemos entender o processo de descolonização das últimas décadas de forma similar. Durante a era moderna, os europeus conquistaram grande parte do globo com o pretexto de disseminar uma cultura ocidental superior. Foram tão bem-sucedidos que, pouco a pouco, bilhões de pessoas começaram a adotar partes significativas dessa cultura. Indianos, africanos, árabes, chineses e maoris aprenderam francês, inglês e espanhol. Começaram a acreditar em direitos humanos e no princípio da autodeterminação e adotaram ideologias ocidentais como liberalismo, capitalismo, comunismo, feminismo e nacionalismo.

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    Durante o século XX, grupos locais que haviam adotado valores ocidentais reivindicaram igualdade em relação a seus conquistadores europeus em nome desses mesmos valores. Muitas lutas anticolonialistas foram travadas sob as bandeiras da autodeterminação, do socialismo e dos direitos humanos, todas legados ocidentais. Assim como os egípcios, os iranianos e os turcos adotaram e adaptaram a cultura imperial que herdaram dos conquistadores árabes originais, também os indianos, africanos e chineses da atualidade aceitaram grande parte da cultura imperial de seus antigos soberanos ocidentais, ao mesmo tempo que procuraram moldá-la de acordo com suas necessidades e tradições.

    O ciclo imperial

    Mocinhos e bandidos na história

    É tentador dividir a história entre mocinhos e bandidos, colocando todos os impérios do lado dos bandidos. Afinal, quase todos esses impérios foram edificados sobre sangue e mantiveram seu poder por meio de opressão e guerra.

    Mas grande parte das culturas de hoje se baseia em legados imperiais. Se os impérios são, por definição, ruins, o que isso diz sobre nós?

    Existem escolas de pensamento e movimentos políticos que procuram expurgar a cultura humana do imperialismo, deixando o que afirmam ser uma

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    civilização pura e autêntica, não contaminada pelo pecado. Essas ideologias são, na melhor das hipóteses, ingênuas; na pior, servem como uma camuflagem hipócrita para o nacionalismo bruto e para a intolerância. Talvez seja possível argumentar que algumas das inúmeras culturas que surgiram no início da história registrada fossem puras, intocadas pelo pecado e não adulteradas por outras sociedades. Mas nenhuma cultura desde aquele início pode fazer essa afirmação, pelo menos nenhuma cultura que ainda existe sobre a face da Terra. Todas as culturas humanas são, em parte, legado de impérios e civilizações imperiais, e nenhuma cirurgia acadêmica ou política pode remover esse legado sem matar o paciente.

    Pense, por exemplo, na relação de amor e ódio entre a república independente da Índia atual e a Índia britânica. A conquista e ocupação da Índia pelos britânicos custou a vida de milhões de indianos e foi responsável pela humilhação e exploração contínua de outras centenas de milhões. Ainda assim, muitos indianos adotaram, com o entusiasmo dos convertidos, ideias ocidentais, como autodeterminação e direitos humanos, e ficaram consternados quando os britânicos se recusaram a colocar em prática seus próprios valores declarados e conceder aos indianos nativos direitos iguais como súditos britânicos ou independência.

    No entanto, o Estado indiano moderno é filho do Império Britânico. Os britânicos mataram, feriram e perseguiram os habitantes do subcontinente, mas também uniram um mosaico desconcertante de reinos, principados e tribos em guerra, criando uma consciência nacional partilhada e um país que funcionava mais ou menos como uma unidade política. Eles assentaram as bases do sistema jurídico indiano, criaram sua estrutura administrativa e construíram a rede de ferrovias que foi fundamental para a integração econômica. A Índia independente adotou a democracia ocidental, em sua encarnação britânica, como forma de governo. O inglês ainda é a língua franca do subcontinente, uma língua neutra que falantes nativos de híndi, tâmil e malaiala podem usar para se comunicar. Os indianos são apaixonados por críquete e chai (chá), e tanto o jogo quanto a bebida são legados britânicos. O cultivo comercial de chá não existia na Índia até meados do século XIX, quando foi introduzido pela Companhia Britânica das Índias Orientais. Foram os esnobes sahibs britânicos que disseminaram o costume de tomar chá por todo o subcontinente.

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    Quantos indianos, hoje em dia, gostariam que houvesse uma votação para destituí-los da democracia, da língua inglesa, da rede de ferrovias, do sistema jurídico, do críquete e do chá, utilizando o argumento de serem legados imperiais? Mesmo que isso acontecesse, o próprio fato de fazerem uma votação para decidir a questão não demostraria sua dívida para com os ex-soberanos?

    18. A estação de trem Chhatrapati Shivaji, em Mumbai. Originalmente, chamava-se Estação Victoria, em Bombaim. Os britânicos a construíram em estilo neogótico, popular na Grã-Bretanha no fim do século XIX. Um governo nacionalista hindu mudou tanto o nome da estação quanto o da cidade, mas não demonstrou nenhum desejo de demolir uma construção tão magnífica, mesmo tendo sido construída por opressores estrangeiros.

    Mesmo se fôssemos condenar completamente o legado de um império brutal na esperança de reconstruir e salvaguardar as culturas “autênticas” que o precederam, com toda a probabilidade o que estaríamos defendendo não seria nada além do legado de um império mais antigo e não menos brutal. Aqueles que se ressentem da mutilação da cultura indiana pela Índia britânica santificam inadvertidamente os legados do Império Mogol e do Sultanato de Délhi. E quem

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    quer que tente resgatar a “cultura indiana autêntica” das influências estrangeiras desses impérios muçulmanos está santificando os legados do Império Gupta, do Império Kushana e do Império Máuria. Se um nacionalista extremo hindu fosse destruir todas as construções deixadas pelos conquistadores britânicos, como a principal estação de trem de Mumbai, o que faria com as estruturas deixadas pelos conquistadores muçulmanos, como o Taj Mahal?

    Ninguém sabe ao certo como resolver a questão espinhosa da herança cultural. Qualquer que seja o caminho escolhido, o primeiro passo é reconhecer a complexidade do dilema e aceitar que a divisão simplista entre mocinhos e bandidos não leva a lugar nenhum. A menos, é claro, que estejamos dispostos a admitir que costumamos seguir o exemplo dos bandidos.

    19. O Taj Mahal. Exemplo de cultura indiana “autêntica” ou criação estrangeira do imperialismo muçulmano?

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    O novo império global

    Desde mais ou menos 200 a.C., a maioria dos humanos viveu em impérios.

    Parece provável que no futuro também a maioria dos humanos viva em um.

    Mas, dessa vez, o império será verdadeiramente global. A visão imperial de um único domínio sobre o mundo inteiro pode ser iminente.

    À medida que avançamos no século XXI, o nacionalismo perde terreno rapidamente. Cada vez mais pessoas acreditam que toda a humanidade é fonte legítima de autoridade política, e não composta por membros de nações específicas, e que a garantia dos direitos humanos e a proteção dos interesses de toda a espécie humana devem nortear a política. Sendo assim, ter cerca de 200 Estados independentes é um obstáculo, não uma ajuda. Já que suecos, indonésios e nigerianos merecem ter os mesmos direitos humanos, não seria mais simples que um único governo global os protegesse?

    O aparecimento de problemas essencialmente globais, como o derretimento das calotas polares, acaba com qualquer legitimidade que reste aos Estados-nação independentes. Nenhum Estado soberano será capaz de superar sozinho o aquecimento global. O Mandato do Céu chinês foi concedido pelo céu para resolver os problemas da humanidade. O Mandato do Céu moderno será concedido pela humanidade para resolver o problema do céu, como o buraco na camada de ozônio e o acúmulo de gases do efeito estufa. A cor do império global pode muito bem ser o verde.

    Em pleno 2015, o mundo ainda é politicamente fragmentado, mas os Estados estão perdendo sua independência rapidamente. Nenhum deles é realmente capaz de executar políticas econômicas independentes, declarar e travar guerras quando quiser, ou mesmo conduzir as próprias questões internas como julgar conveniente. Os Estados estão cada vez mais abertos às maquinações dos mercados globais, à interferência de ONGs e empresas globais e à supervisão do público global e do sistema jurídico internacional. Os Estados são obrigados a se adequar aos padrões globais de comportamento financeiro, política ambiental e justiça. Correntes imensamente poderosas de capital, trabalho e informação giram e moldam o mundo, com uma crescente desconsideração pelas fronteiras e opiniões dos Estados.

    O império global que está sendo forjado diante de nossos olhos não é governado por nenhum Estado ou grupo étnico em particular. De maneira similar

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    ao Império Romano tardio, é governado por uma elite multiétnica e se mantém unido por cultura e interesses em comum. Em todo o mundo, cada vez mais empresários, engenheiros, especialistas, acadêmicos, advogados e gerentes são chamados para fazer parte do império. Eles devem ponderar se responderão ao chamado imperial ou se permanecerão fiéis a seu Estado e a seu povo. É cada vez maior o número daqueles que escolhem o império.

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    12. A lei da religião

    A lei da religião NO MERCADO MEDIEVAL EM SAMARCANDA, UMA CIDADE CONSTRUÍDA EM UM OÁSIS no centro da Ásia, mercadores sírios acariciavam finas sedas chinesas, membros de tribos ferozes das estepes exibiam o último lote de escravos de cabelo de palha do extremo oeste, e lojistas embolsavam moedas de ouro brilhantes gravadas com letras exóticas e imagens de reis pouco familiares. Ali, na época uma das principais encruzilhadas entre Ocidente e Oriente, Norte e Sul, a unificação da humanidade era um fato cotidiano. O mesmo processo pôde ser observado quando o exército de Kublai Khan se reuniu para invadir o Japão em 1281.

    Cavaleiros mongóis usando peles de animais lutavam lado a lado com soldados de infantaria chineses que usavam chapéus de bambu, auxiliares coreanos bêbados brigavam com marinheiros tatuados do mar do sul da China, engenheiros da Ásia Central ouviam boquiabertos as histórias fantásticas das aventuras europeias, e todos obedeciam ao comando de um único imperador.

    Enquanto isso, em volta da Caaba sagrada em Meca, a unificação humana acontecia por outros meios. Se você fosse um peregrino em Meca, circundando o santuário mais sagrado do Islã no ano 1300, possivelmente se veria na companhia de um grupo da Mesopotâmia, com suas túnicas flutuando ao vento, os olhos brilhando em êxtase e a boca repetindo, um após outro, os 99 nomes de Deus.

    Logo à frente você poderia ver um patriarca turco castigado pelo clima das estepes asiáticas, andando pesadamente com um cajado e acariciando a barba de modo pensativo. De um lado, com joias de ouro reluzindo sobre a pele cor de azeviche, poderia haver um grupo de muçulmanos do reino africano de Mali. O aroma de cravo, cúrcuma, cardamomo e sal marinho teria sinalizado a presença de irmãos da Índia, ou, talvez, das misteriosas ilhas de especiarias mais ao leste.

    Hoje a religião é, muitas vezes, considerada uma fonte de discriminação, desavença e desunião. Mas, na verdade, a religião foi o terceiro maior unificador da humanidade, junto com o dinheiro e os impérios. Uma vez que todas as hierarquias e ordens sociais são imaginadas, elas são todas frágeis, e, quanto maior a sociedade, mais frágil ela é. O papel histórico crucial da religião foi dar legitimidade sobre-humana a essas estruturas frágeis. As religiões afirmam que nossas leis não são resultado de capricho humano, e sim determinadas por uma autoridade suprema e absoluta. Isso ajuda a tornar inquestionáveis pelo menos

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    algumas leis fundamentais, garantindo, desse modo, a estabilidade social.

    A religião pode ser definida, portanto, como um sistema de normas e valores humanos que se baseia na crença em uma ordem sobre-humana. Isso envolve dois critérios distintos:

    (1) A religião postula a existência de uma ordem sobre-humana, que não é produto de caprichos ou acordos humanos. O futebol profissional não é uma religião, porque, apesar de suas muitas leis, cerimônias e, com frequência, rituais estranhos, todos sabemos que os próprios seres humanos inventaram o futebol, e a FIFA pode, a qualquer momento, aumentar o tamanho da goleira ou anular a regra do impedimento.

    (2) Com base nessa ordem sobre-humana, a religião estabelece normas e valores que considera obrigatórios. Hoje, muitos ocidentais acreditam em fantasmas, fadas e reencarnação, mas essas crenças não dão origem a padrões morais e de comportamento. Sendo assim, não constituem uma religião.

    Apesar de sua capacidade de legitimar ordens políticas e sociais disseminadas, nem todas as religiões usaram esse potencial. A fim de unir sob sua égide uma grande extensão de território habitado por grupos diferentes de seres humanos, uma religião precisa ter outras duas qualidades. Em primeiro lugar, precisa sustentar uma ordem sobre-humana abrangente que seja verdadeira sempre e em toda parte. Em segundo lugar, precisa insistir em difundir essa crença para todos. Dito de outro modo, precisa ser universal e missionária.

    As religiões mais conhecidas da história, como o islamismo e o budismo, são universais e missionárias. Em consequência, as pessoas tendem a acreditar que todas as religiões são como elas. Na verdade, a maioria das religiões antigas eram locais e exclusivas. Seus seguidores acreditavam em espíritos e deidades locais e não tinham interesse algum em converter toda a raça humana. Até onde sabemos, as religiões universais e missionárias só começaram a aparecer no primeiro milênio a.C. Seu surgimento foi uma das revoluções mais importantes da história e fez uma contribuição vital à unificação da humanidade, assim como o surgimento de impérios universais e do dinheiro universal.

    Silenciando os inocentes

    Quando o animismo era o sistema de crença dominante, as normas e os valores

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    humanos tinham de levar em consideração a perspectiva e os interesses de uma infinidade de outros seres, tais como animais, plantas, fadas e fantasmas. Por exemplo, um bando de caçadores-coletores no vale do Ganges pode ter estabelecido uma lei proibindo as pessoas de cortarem uma figueira particularmente grande, para evitar que o espírito da figueira ficasse furioso e se vingasse. Outro bando de caçadores-coletores vivendo no vale do Indo pode ter proibido as pessoas de caçar raposas de cauda branca, porque uma raposa de cauda branca certa vez revelou a uma velha sábia onde o bando poderia encontrar obsidiana preciosa.

    Tais religiões tendiam a ter uma perspectiva muito local e a enfatizar as características singulares de lugares, climas e fenômenos específicos. A maioria dos caçadores-coletores passava a vida inteira em uma área de não mais de mil quilômetros quadrados. Para sobreviver, os habitantes de um determinado vale precisavam entender a ordem sobre-humana que regulava esse vale e adequar seu comportamento a tal ordem. Não fazia sentido tentar convencer os habitantes de um vale distante a seguir as mesmas regras. As pessoas do Indo não se preocupavam em enviar missionários ao Ganges para convencer os locais a não caçarem raposas de cauda branca.

    A Revolução Agrícola parece ter sido acompanhada de uma revolução religiosa. Os caçadores-coletores caçavam animais selvagens e coletavam plantas silvestres, que podiam ser vistos como iguais em status ao Homo sapiens.

    O fato de que os homens caçavam ovelhas não tornava as ovelhas inferiores aos homens, assim como o fato de que os tigres caçavam homens não tornava os homens inferiores aos tigres. Os seres se comunicavam diretamente uns com os outros e negociavam as regras que governavam o habitat por eles partilhado. Já os agricultores possuíam e manipulavam plantas e animais e dificilmente se rebaixavam ao negociar suas posses. Portanto, o primeiro efeito religioso da Revolução Agrícola foi transformar as plantas e os animais de membros iguais de uma mesa-redonda espiritual em propriedade.

    Isso, no entanto, criou um grande problema. Os agricultores podem ter desejado o controle absoluto de suas ovelhas, mas sabiam perfeitamente bem que seu controle era limitado. Eles podiam trancar as ovelhas em currais, castrar os carneiros e criar ovelhas seletivamente, mas não tinham como garantir que as ovelhas conceberiam e dariam à luz cordeiros saudáveis, tampouco tinham como

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    evitar a erupção de epidemias mortais. Como, então, proteger a fecundidade dos bandos?

    Uma teoria bastante aceita sobre a origem dos deuses afirma que estes ganharam importância porque ofereciam uma solução para tal problema.

    Deuses como a deusa da fertilidade, o deus do céu e o deus da medicina se tornaram protagonistas quando plantas e animais perderam sua capacidade de falar, e a principal função dos deuses era fazer a mediação entre os humanos e as plantas e os animais calados. Grande parte da mitologia antiga é, na verdade, um contrato em que os humanos prometem a devoção eterna aos deuses em troca do domínio de plantas e animais – os primeiros capítulos do livro do Gênesis são um exemplo excelente. Durante milhares de anos após a Revolução Agrícola, a liturgia religiosa consistiu principalmente em humanos sacrificando cordeiros e ofertando-os com pão e vinho aos poderes divinos, que, por sua vez, prometiam colheitas abundantes e rebanhos fecundos.

    No início, a Revolução Agrícola teve um impacto muito menor no status de outros membros do sistema animista, como rochas, nascentes, fantasmas e demônios. No entanto, pouco a pouco estes também perderam status em favor dos novos deuses. Enquanto as pessoas passavam a vida toda em territórios limitados de algumas centenas de quilômetros quadrados, a maior parte de suas necessidades podia ser atendida por espíritos locais. Mas, quando os reinos e as redes de comércio se expandiram, as pessoas precisaram contatar entidades cujo poder e autoridade abarcassem um reino inteiro ou uma região comercial inteira.

    A tentativa de satisfazer essas necessidades levou ao surgimento de religiões politeístas (do grego poli = muitos e theos = deuses). Essas religiões entendiam que o mundo era controlado por um grupo de deuses poderosos, como a deusa da fertilidade, o deus da chuva e o deus da guerra. Os humanos podiam rogar a esses deuses, e os deuses podiam, se recebessem devoções e sacrifícios, dignar-se a trazer chuva, vitória e saúde.

    O animismo não desapareceu totalmente com o advento do politeísmo.

    Demônios, fadas, fantasmas, rochas sagradas, nascentes sagradas e árvores sagradas continuaram sendo parte integral de quase todas as religiões politeístas.

    Esses espíritos eram muito menos importantes que os grandes deuses, mas eram bons o bastante para satisfazer as necessidades mundanas de muitas pessoas comuns. Enquanto o rei em sua capital sacrificava dezenas de carneiros gordos

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    para o grande deus da guerra, rezando para que ele lhe concedesse a vitória sobre os bárbaros, o camponês em sua cabana acendia uma vela para a fada da figueira, rezando para que ela o ajudasse a curar seu filho doente.

    Mas o maior impacto da ascensão dos grandes deuses não foi sobre ovelhas ou demônios, e sim sobre o status do Homo sapiens. Os animistas acreditavam que os humanos fossem apenas uma das muitas criaturas que habitam o mundo.

    Os politeístas, por outro lado, cada vez mais viam o mundo como um reflexo da relação entre deuses e humanos. Nossas preces, nossos sacrifícios, nossos pecados e nossas boas ações determinavam o destino de todo o ecossistema.

    Uma inundação terrível poderia exterminar bilhões de formigas, gafanhotos, tartarugas, antílopes, girafas e elefantes, só porque alguns poucos sapiens estúpidos exasperaram os deuses. O politeísmo, portanto, exaltava não só o status dos deuses como também o da humanidade. Os membros menos afortunados do velho sistema animista perderam sua estatura e se tornaram figurantes ou objetos de cena silenciosos no grande drama da relação do homem com os deuses.

    Os benefícios da idolatria

    Dois mil anos de lavagem cerebral monoteísta fizeram com que a maioria dos ocidentais veja o politeísmo como uma idolatria ignorante e infantil. Esse é um estereótipo injusto. Para entender a lógica inerente ao politeísmo, é necessário compreender a ideia central por trás da crença em muitos deuses.

    O politeísmo não necessariamente contesta a existência de um único poder ou lei que governa o universo inteiro. Na verdade, a maioria das religiões politeístas e mesmo animistas reconhecia tal poder supremo por trás dos diferentes deuses, demônios e rochas sagradas. No politeísmo grego clássico, Zeus, Hera, Apolo e seus colegas estavam sujeitos a um poder onipotente que abarcava tudo – o Destino (Moira, Ananke). Os deuses nórdicos também eram servos do destino, que os condenou a perecer no cataclismo de Ragnarök (o Crepúsculo dos Deuses). Na religião politeísta dos iorubás, da África Ocidental, todos os deuses nasciam do deus supremo Olodumare e continuavam sujeitados a ele. No politeísmo hindu, um único princípio, Atman, controla os vários deuses e espíritos, a humanidade e o mundo físico e biológico. Atman é a essência ou alma eterna de todo o universo, bem como de cada indivíduo e de cada

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    fenômeno.

    A ideia fundamental do politeísmo, que o distingue do monoteísmo, é que o poder supremo que governa o mundo é destituído de interesses e inclinações e, portanto, não está preocupado com os anseios, os cuidados e os desejos mundanos dos humanos. Não faz sentido pedir a esse poder a vitória na guerra, a saúde ou a chuva, porque de sua perspectiva universal não faz diferença se um reino específico ganha ou perde, se uma cidade específica prospera ou definha, se uma pessoa específica se recupera ou morre. Os gregos não desperdiçavam sacrifícios com o Destino, e os hindus não construíam templos para Atman.

    O único motivo para abordar o poder supremo do universo seria para renunciar a todos os desejos e abraçar o mal junto com o bem – abraçar até mesmo a derrota, a pobreza, a doença e a morte. Desse modo, alguns hindus, conhecidos como sadhus ou sannyasis, dedicam a vida a se unir com Atman, atingindo assim a iluminação. Eles se esforçam para ver o mundo do ponto de vista desse princípio fundamental, para perceber que, de sua perspectiva eterna, todos os desejos e temores mundanos são fenômenos efêmeros e sem sentido.

    A maioria dos hindus, no entanto, não são sadhus. Eles estão imersos no lamaçal das preocupações mundanas, onde Atman não é de grande ajuda. Para obter auxílio em tais questões, os hindus se dirigem aos deuses com poderes parciais. Precisamente porque seus poderes são parciais em vez de universais, deuses como Ganesha, Lakshmi e Saraswati têm interesses e inclinações. Os humanos podem, portanto, negociar com esses poderes parciais e contar com sua ajuda a fim de vencer guerras e se recuperar de enfermidades.

    Há, necessariamente, muitos desses poderes menores, já que, quando começamos a dividir o poder universal de um princípio supremo, inevitavelmente acabamos chegando a mais de uma deidade. Daí a pluralidade de deuses.

    A ideia do politeísmo leva a uma tolerância religiosa muito maior. Como os politeístas acreditam, por um lado, em um poder supremo e completamente desinteressado e, por outro lado, em muitos poderes parciais e tendenciosos, não há dificuldade para os devotos de um deus aceitarem a existência e a eficácia de outros deuses. O politeísmo é inerentemente tolerante e raramente persegue “hereges” e “infiéis”.

    Mesmo quando conquistaram impérios gigantescos, os politeístas não

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    tentaram converter seus súditos. Os egípcios, os romanos e os astecas não enviaram missionários a terras estrangeiras para disseminar o culto a Osíris, Júpiter ou Huitzilopochtli (o principal deus asteca) e certamente não mandaram exércitos com esse propósito. Esperava-se que os súditos em todo o império respeitassem os deuses e os rituais do império, já que esses deuses e rituais protegiam e legitimavam o império. Mas não se exigia que eles abdicassem de seus deuses e rituais locais. No Império Asteca, os súditos eram obrigados a construir templos para Huitzilopochtli, mas esses templos eram construídos junto com os dos deuses locais, e não em substituição a eles. Em muitos casos, a própria elite imperial adotava os deuses e os rituais dos súditos. Os romanos incluíram de bom grado a deusa asiática Cibele e a deusa egípcia Ísis em seu panteão.

    O único deus que, durante muito tempo, os romanos se recusaram a tolerar foi o deus monoteísta e evangelizador dos cristãos. O Império Romano não exigia que os cristãos abdicassem de suas crenças e rituais, mas esperavam que eles respeitassem os deuses protetores do Império e a divindade do imperador. Isso era visto como uma declaração de lealdade política. Quando os cristãos se recusaram veementemente a fazer isso, rejeitando todas as tentativas de se chegar a um acordo, os romanos reagiram perseguindo o que entendiam como uma facção politicamente subversiva. Nos 300 anos decorridos desde a crucificação de Cristo até a conversão do imperador Constantino, os imperadores romanos politeístas iniciaram não mais que quatro perseguições gerais aos cristãos. Os administradores e governantes locais também incitaram certa violência contra os cristãos. Ainda assim, se considerarmos todas as vítimas de todas essas perseguições, veremos que, nesses três séculos, os romanos politeístas mataram não mais que alguns milhares de cristãos.1 Os cristãos, por sua vez, ao longo dos 15 séculos seguintes, assassinaram cristãos aos milhões por defenderem interpretações ligeiramente diferentes da religião do amor e da compaixão.

    As guerras religiosas entre católicos e protestantes que varreram a Europa nos séculos XVI e XVII são particularmente conhecidas. Todos os envolvidos aceitavam a divindade de Cristo e Seu evangelho de amor e compaixão. No entanto, eles discordavam quanto à natureza desse amor. Os protestantes acreditavam que o amor divino é tão grande que Deus encarnou e se permitiu ser

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    torturado e crucificado, redimindo, desse modo, o pecado original e abrindo as portas do Céu a todos aqueles que professassem a fé Nele. Os católicos defendiam que a fé, embora essencial, não era suficiente. Para entrar no Céu, os crentes tinham de participar de rituais na igreja e fazer boas ações. Os protestantes se recusavam a aceitar isso, argumentando que essa compensação diminuía a grandeza e o amor de Deus. Quem quer que pense que a entrada no Céu depende de suas boas ações magnifica sua própria importância e insinua que o sofrimento de Cristo na cruz e o amor de Deus pela humanidade não são suficientes.

    Essas disputas teológicas ficaram tão violentas que durante os séculos XVI e XVII católicos e protestantes mataram uns aos outros às centenas de milhares.

    Em 23 de agosto de 1572, católicos franceses, que enfatizavam a importância de boas ações, atacaram comunidades de protestantes franceses, que salientavam o amor de Deus pela humanidade. Nesse ataque, o Dia do Massacre de São Bartolomeu, entre 5 mil e 10 mil protestantes foram assassinados em menos de 24 horas. Quando o papa em Roma ficou sabendo do ocorrido na França, foi tomado de tanta alegria que organizou preces festivas para celebrar a ocasião e encarregou Giorgio Vasari de decorar um dos aposentos do Vaticano com um afresco do massacre (o aposento atualmente está inacessível aos visitantes).2 Mais cristãos foram mortos por outros cristãos naquelas 24 horas do que pelo Império Romano politeísta durante toda a sua existência.

    Deus é um só

    Com o tempo alguns seguidores de divindades politeístas apegaram-se tanto a seu deus que acabaram por se afastar da ideia politeísta básica. Eles começaram a acreditar que seu deus era o único Deus, e que Ele era, na verdade, o poder supremo do universo. Porém, ao mesmo tempo, continuaram a vê-Lo como tendo interesses e inclinações, e acreditaram que poderiam chegar a acordos com Ele. Assim nasceram as religiões monoteístas, cujos seguidores rogam ao poder supremo do universo auxílio para se recuperar de uma doença, ganhar na loteria e vencer uma guerra.

    A primeira religião monoteísta de que temos notícia apareceu no Egito por volta de 1350 a.C., quando o faraó Aquenáton declarou que uma das deidades

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    menores do panteão egípcio, o deus Aton, era, na verdade, o poder supremo governando o universo. Aquenáton institucionalizou o culto a Aton como religião do Estado e tentou controlar o culto a todos os outros deuses. Sua revolução religiosa, no entanto, não teve êxito. Após sua morte, o culto a Aton foi abandonado em favor do antigo panteão.

    Aqui e ali, o politeísmo continuou a dar origem a outras religiões monoteístas, mas elas permaneceram marginais, sobretudo porque foram incapazes de condensar sua própria mensagem universal. O judaísmo, por exemplo, afirmava que o poder supremo do universo tem interesses e inclinações, mas seu principal interesse é na minúscula nação judaica e na obscura terra de Israel. O judaísmo tinha pouco a oferecer a outras nações e durante a maior parte de sua existência não foi uma religião missionária. Esse estágio pode ser chamado de estágio do “monoteísmo local”.

    O grande avanço veio com o cristianismo. Essa fé começou como uma seita judaica esotérica que procurava convencer os judeus de que Jesus de Nazaré era seu tão esperado messias. No entanto, um dos primeiros líderes da seita, Paulo de Tarso, ponderou que, se o poder supremo do universo tem interesses e inclinações, e se Ele se deu ao trabalho de encarnar e morrer na cruz para a salvação da humanidade, então isso é algo que deve ser comunicado a todos, e não só aos judeus. Portanto, era necessário difundir a boa palavra – o evangelho – sobre Jesus para o mundo inteiro.

    Os argumentos de Paulo caíram em solo fértil. Em toda parte, os cristãos começaram a organizar atividades missionárias dirigidas a todos os humanos. Em uma das guinadas mais estranhas da história, essa seita judaica esotérica controlou o poderoso Império Romano.

    O sucesso dos cristãos serviu de modelo para outra religião monoteísta que apareceu na Península Arábica no século XVII: o islamismo. Como o cristianismo, o islamismo também começou como uma pequena seita em um canto remoto do mundo, mas em uma surpresa histórica ainda mais estranha e mais rápida, conseguiu escapar dos desertos da Arábia e conquistar um império imenso que ia do oceano Atlântico à Índia. Daí em diante, a ideia monoteísta exerceu um papel central na história mundial.

    Os monoteístas são no geral muito mais fanáticos e missionários que os politeístas. Uma religião que reconhece a legitimidade de outras crenças implica

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    ou que seu deus não é o deus supremo do universo, ou que ela recebeu de Deus apenas parte da verdade universal. Como os monoteístas costumam acreditar que são detentores de toda a mensagem de um único Deus, são compelidos a descrer de todas as outras religiões. Nos últimos dois milênios, os monoteístas tentaram, repetidas vezes, se fortalecer exterminando de maneira violenta toda concorrência.

    Funcionou. No começo do século I, quase não havia monoteístas no mundo.

    Por volta do ano 500, um dos maiores impérios do mundo – o império romano – era um regime cristão, e os missionários estavam ocupados difundindo o cristianismo para outras partes da Europa, da Ásia e da África. No fim do primeiro milênio da era cristã, a maioria das pessoas na Europa, no oeste da Ásia e na África do Norte eram monoteístas, e impérios do oceano Atlântico ao Himalaia afirmavam ser ordenados pelo único grande Deus. No início do século XVI, o monoteísmo dominou a maior parte da Afro-Ásia, com exceção do leste da Ásia e de partes no sul da África, e começou a estender seus tentáculos para a África do Sul, a América e a Oceania. Hoje, a maioria das pessoas fora do leste da Ásia segue alguma religião monoteísta, e a ordem política global foi erguida sobre bases monoteístas.

    Mas, assim como o animismo continuou a sobreviver no interior do politeísmo, o politeísmo também continuou a sobreviver no interior do monoteísmo. Em teoria, quando uma pessoa acredita que o poder supremo do universo tem interesses e inclinações, qual o sentido de cultuar poderes parciais?

    Quem ia querer conversar com um burocrata inferior quando o gabinete do presidente está à disposição? A teologia monoteísta tende a negar a existência de todos os deuses exceto o Deus supremo e a condenar ao fogo do inferno qualquer um que ouse cultuá-los.

    Mas sempre houve um cisma entre as teorias teológicas e as realidades históricas. A maioria das pessoas considerou difícil assimilar totalmente a ideia monoteísta. Elas continuaram a dividir o mundo em “nós” e “eles” e a ver o poder supremo do universo como estranho e distante demais para suas necessidades mundanas. As religiões monoteístas expulsaram os deuses pela porta da frente com muito barulho, para em seguida aceitá-los de volta pela janela lateral. O cristianismo, por exemplo, desenvolveu seu próprio panteão de santos, cujos cultos pouco diferiam dos cultos aos deuses politeístas.

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    Assim como o deus Júpiter defendia Roma e Huitzilopochtli protegia o Império Asteca, todo reino cristão tinha seu próprio santo patrono que o ajudava a superar dificuldades e vencer guerras. A Inglaterra era protegida por São Jorge; a Escócia, por Santo André; a Hungria, por Santo Estêvão; e a França, por São Martinho. Cidades e vilas, profissões e até mesmo doenças – cada uma delas tinha seu próprio santo. A cidade de Milão tinha Santo Ambrósio, ao passo que São Marcos protegia Veneza. São Floriano protegia os limpadores de chaminés, enquanto são Mateus ajudava os cobradores de impostos em desespero. Se você tivesse dor de cabeça, teria de rezar para santo Acácio, mas, se tivesse dor de dente, santa Apolônia era uma plateia melhor.

    Os santos cristãos não só lembravam os velhos deuses politeístas como, muitas vezes, eram esses mesmos deuses disfarçados. Por exemplo, a principal deusa da Irlanda celta antes da chegada do cristianismo era Brígida. Quando a Irlanda foi cristianizada, Brígida também foi batizada. Ela se tornou santa Brígida, que até hoje é a santa mais reverenciada na Irlanda católica.

    A batalha entre o bem e o mal

    O politeísmo deu origem não só a religiões monoteístas como também a religiões dualistas. Estas reconhecem a existência de dois poderes opostos: o bem e o mal.

    Ao contrário do monoteísmo, o dualismo acredita que o mal é um poder independente, nem criado pelo Deus bom e nem subordinado a ele. O dualismo explica que todo o universo é um campo de batalha entre essas duas forças e que tudo que acontece no mundo é parte dessa batalha.

    O dualismo é uma visão de mundo muito atraente, porque tem uma resposta simples e sucinta para o famoso problema do mal, uma das preocupações fundamentais do pensamento humano. “Por que há mal no mundo? Por que há sofrimento? Por que acontecem coisas ruins com pessoas boas?” Os monoteístas têm de praticar uma ginástica intelectual para explicar como um Deus onisciente, todo-poderoso e perfeitamente bom permite tanto sofrimento no mundo. Uma explicação conhecida é que essa é a maneira que Deus encontrou de dotar os humanos de livre-arbítrio. Se não houvesse mal, os humanos não poderiam escolher entre o bem e o mal; por conseguinte, não haveria livre-arbítrio. Isso, no entanto, é uma resposta pouco intuitiva que

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    imediatamente levanta uma série de novas perguntas. O livre-arbítrio permite que os humanos escolham o mal. Com efeito, muitos escolhem o mal, e, de acordo com o relato monoteísta padrão, essa escolha deve ter como consequência a punição divina. Se Deus soubesse de antemão que determinada pessoa usaria seu livre-arbítrio para escolher o mal, e que, em consequência, ela seria punida por isso com torturas eternas no Inferno, por que Deus a criaria? Os teólogos escreveram inúmeros livros para responder a tais perguntas. Alguns consideram as respostas convincentes. Outros não. O que é inegável é que os monoteístas têm dificuldade de lidar com o problema do mal.

    Para os dualistas, é fácil explicar o mal. Coisas ruins acontecem até mesmo para pessoas boas porque o mundo não é governado tão-somente por um Deus bom. Há um poder maligno independente à solta no mundo. O poder maligno faz coisas ruins.

    O dualismo tem suas próprias desvantagens. Embora ofereça uma solução para o problema do mal, é incomodada pelo problema da ordem. Se o mundo foi criado por um só Deus, fica claro por que razão trata-se de um lugar tão ordeiro, onde tudo segue as mesmas leis. Mas se o Bem e o Mal lutam pelo controle do mundo, quem faz com que se cumpram as leis que governam essa guerra cósmica? Dois Estados rivais podem lutar um com o outro porque ambos obedecem às mesmas leis da física. Um míssil lançado do Paquistão pode acertar alvos na Índia porque a gravidade funciona do mesmo jeito em ambos os países. Quando Deus e o Diabo lutam, a que leis em comum obedecem, e quem decretou essas leis?

    Assim, o monoteísmo explica a ordem, mas não o mal. O dualismo oferece uma explicação para o mal, mas não para a questão da ordem. Há uma maneira lógica de resolver essa charada: afirmar que há um único Deus onipotente que criou o universo inteiro – e Ele é um Deus maligno. Mas ninguém, em toda a história, teve estômago para tal crença.

    As religiões dualistas floresceram por mais de mil anos. Em algum momento entre 1500 a.C. e 1000 a.C., um profeta chamado Zoroastro (Zaratustra) teve voz ativa em algum lugar no centro da Ásia. Seu credo passou de geração em geração até que se tornou a mais importante das religiões dualistas: o zoroastrismo. Os zoroastristas viam o mundo como uma batalha cósmica entre o deus bom Ahura Mazda e o deus mau Angra Mainyu. Os humanos tinham de

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    ajudar o deus bom nessa batalha. O zoroastrismo foi uma religião importante durante o Império Persa Aquemênida (550-330 a.C.) e mais tarde se tornou a religião oficial do Império Persa Sassânida (224-651). Ele exerceu grande influência sobre quase todas as religiões subsequentes no Oriente Médio e no centro da Ásia e inspirou uma série de outras religiões dualistas, como o gnosticismo e o maniqueísmo.

    Durante os séculos III e IV, o credo maniqueísta se alastrou da China à África do Norte e por um momento pareceu que derrotaria o cristianismo para se tornar a religião predominante no Império Romano. Mas os maniqueístas perderam a alma de Roma para os cristãos, o Império Sassânida zoroastrista foi derrotado por muçulmanos monoteístas, e a onda dualista se acalmou. Hoje, apenas um punhado de comunidades dualistas sobrevive na Índia e no Oriente Médio. No entanto, a onda cada vez maior de monoteísmo não eliminou verdadeiramente o dualismo. O monoteísmo judeu, cristão e muçulmano absorveu inúmeras crenças e práticas dualistas, e algumas das ideias mais elementares do que chamamos “monoteísmo” são, na verdade, dualistas em origem e espírito. Muitos cristãos, muçulmanos e judeus acreditam numa poderosa força do mal – como a que os cristãos chamam de diabo ou satã – que pode agir autonomamente, combater o Deus benévolo e criar destruição sem a permissão de Deus.

    Como pode um monoteísta aderir a tal crença dualista (que, aliás, não é encontrada em lugar nenhum no Velho Testamento)? Logicamente, é impossível.

    Ou você acredita em um único Deus onipotente ou você acredita em duas forças opostas, nenhuma das quais é onipotente. Porém, os humanos têm uma capacidade incrível de acreditar em contradições. Então não deveria nos causar surpresa o fato de milhões de fiéis cristãos, muçulmanos e judeus conseguirem acreditar ao mesmo tempo em um Deus onipotente e em um Diabo autônomo.

    Muitos cristãos, muçulmanos e judeus chegaram a imaginar que o Deus bom até mesmo precisa da nossa ajuda em sua luta contra o Diabo, o que os inspirou, entre outras coisas, a convocar os jihads e as cruzadas.

    Outro conceito dualista essencial, em particular no gnosticismo e no maniqueísmo, era a nítida distinção entre corpo e alma, entre matéria e espírito.

    Os gnósticos e os maniqueístas afirmavam que o deus bom criou o espírito e a alma, ao passo que a matéria e o corpo foram criação do deus mau. O homem,

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    de acordo com essa visão, serve como um campo de batalha entre a alma boa e o corpo mau. De uma perspectiva monoteísta, isso não faz sentido – por que distinguir tão nitidamente entre corpo e alma, ou entre matéria e espírito? E por que argumentar que o corpo e a matéria são maus? Afinal, tudo foi criado pelo mesmo Deus bom. Mas os monoteístas se deixaram cativar por dicotomias dualistas, precisamente porque elas os ajudavam a resolver o problema do mal.

    Desse modo, tais oposições acabaram por se tornar pilares do pensamento cristão e muçulmano. A crença no Céu (o reino do deus bom) e no Inferno (o reino do deus mau) também tem origem dualista. Não há nenhum vestígio dessa crença no Velho Testamento, que tampouco afirma que a alma das pessoas continua a viver após a morte do corpo.

    Na verdade, o monoteísmo, tal como se desenvolveu ao longo da história, é um caleidoscópio de legados monoteístas, dualistas e politeístas que se misturam sob um único conceito divino. O cristão típico acredita no Deus monoteísta, mas também no Diabo dualista, em santos politeístas e em fantasmas animistas. Os estudiosos das religiões têm um nome para essa aceitação simultânea de ideias diferentes e até mesmo contraditórias e a combinação de rituais e práticas tirados de fontes diferentes: sincretismo. O sincretismo talvez seja, de fato, a única grande religião mundial.

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    Mapa 5. A disseminação do cristianismo e do islamismo.

    A lei da natureza

    Todas as religiões que discutimos até agora têm em comum uma característica importante: giram em torno de uma crença em deuses e em outras entidades sobrenaturais. Isso parece óbvio para os ocidentais, que estão familiarizados principalmente com credos monoteístas e politeístas. No entanto, a história religiosa do mundo não se resume à história dos deuses. Durante o primeiro milênio a.C., religiões de um tipo totalmente diferente começaram a se espalhar pela Afro-Ásia. As recém-chegadas, como o jainismo e o budismo na Índia, o taoismo e o confucionismo na China e o estoicismo, o cinismo e o epicurismo na bacia do Mediterrâneo, se caracterizavam por prescindir dos deuses.

    Esses credos sustentavam que a ordem sobre-humana que governa o mundo é produto de leis naturais, e não de vontades e caprichos divinos. Parte

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    dessas religiões baseadas em leis naturais continuou a aceitar a existência de deuses, mas seus deuses estavam sujeitos às leis da natureza tanto quanto os humanos, os animais e as plantas. Os deuses tinham seu nicho no ecossistema, assim como elefantes e porcos-espinhos tinham os seus, mas, como os elefantes, não podiam mudar as leis da natureza. Um ótimo exemplo é o budismo, a mais importante das antigas religiões baseadas em leis naturais, até hoje um dos credos principais.

    A figura central do budismo não é um deus, e sim um ser humano, Sidarta Gautama. De acordo com a tradição budista, Gautama era herdeiro de um pequeno reino no Himalaia, em algum momento por volta de 500 a.C. O jovem príncipe ficou profundamente abalado com o sofrimento que viu à sua volta. Ele viu que homens e mulheres, crianças e velhos; todos sofriam não só de calamidades ocasionais como guerra e praga, mas também de ansiedade, frustração e descontentamento, que pareciam ser parte inseparável da condição humana. As pessoas almejam riqueza e poder, adquirem conhecimento e posses, geram filhos e filhas e constroem casas e palácios, mas, não importa o que conquistem, nunca estão contentes. Os que vivem na pobreza sonham com riquezas. Os que têm 1 milhão querem 2 milhões. Os que têm 2 milhões querem 10. Mesmo os ricos e famosos raramente estão satisfeitos. Eles também são assombrados por preocupações e angústias incessantes, até que a doença, a idade avançada e a morte lhes dão um fim amargo. Tudo o que foi acumulado desaparece como fumaça. A vida é uma corrida desenfreada e sem sentido. Mas como escapar disso?

    Com 29 anos, Gautama fugiu de seu palácio no meio da noite, deixando para trás sua família e suas posses. Ele viajou por todo o norte da Índia como um vagabundo sem teto, procurando uma forma de se livrar do sofrimento. Visitou ashrams e sentou aos pés de gurus, mas nenhum o libertou totalmente – sempre restava alguma insatisfação. Ele não se desesperou. Resolveu investigar o sofrimento por conta própria, até que descobriu um método para a libertação total. Passou seis anos meditando sobre a essência, as causas e as curas da angústia humana. No fim, chegou à conclusão de que o sofrimento não é causado por má sorte, por injustiças sociais ou por caprichos divinos. Na verdade, o sofrimento é causado pelos padrões de comportamento da nossa própria mente.

    O que Gautama compreendeu é que não importa o que a mente

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    experimente, ela geralmente reage com desejo, e o desejo sempre envolve insatisfação. Quando a mente experimenta algo desagradável, deseja se livrar da irritação. Quando experimenta algo agradável, deseja que o prazer permaneça e se intensifique. Desse modo, a mente está sempre insatisfeita e inquieta. Isso fica muito claro quando experimentamos coisas desagradáveis, como dor. Enquanto a dor persiste, estamos insatisfeitos e fazemos tudo que está a nosso alcance para evitá-la. Mas mesmo quando experimentamos coisas agradáveis nunca estamos contentes. Tememos que o prazer desapareça, ou esperamos que se intensifique.

    As pessoas sonham durante anos em encontrar o amor, mas raramente ficam satisfeitas quando o encontram. Algumas temem que o parceiro as deixe; outras sentem que se contentaram com pouco e que poderiam ter encontrado alguém melhor. E todos conhecemos pessoas que conseguem sentir as duas coisas ao mesmo tempo.

    Grandes deuses podem nos enviar chuva, instituições sociais podem proporcionar justiça e um bom serviço de saúde, e coincidências afortunadas podem nos transformar em milionários, mas nada disso pode mudar nossos padrões mentais elementares. Por isso, até mesmo os maiores reis estão condenados a viver em agonia, fugindo constantemente da tristeza e da angústia, o tempo todo indo atrás de prazeres maiores.

    Gautama descobriu que havia uma maneira de escapar desse ciclo vicioso.

    Se, quando sentir algo agradável ou desagradável, a mente simplesmente entender as coisas como são, não haverá sofrimento. Se você vivenciar a tristeza sem desejar que a tristeza desapareça, continuará a sentir tristeza, mas não sofrerá com isso. Com efeito, pode haver riqueza na tristeza. Se você vivenciar a alegria sem desejar que a alegria perdure e se intensifique, continuará a sentir alegria sem perder a paz de espírito.

    Mas como fazer com que a mente aceite as coisas como são, sem desejar?

    Aceitar a tristeza como tristeza, a alegria como alegria, a dor como dor?

    Gautama desenvolveu um conjunto de técnicas meditativas que treinam a mente para experimentar a realidade tal como é, sem desejos. Essas práticas nos ensinam a focar toda a atenção na pergunta “O que estou sentindo agora?” em vez de “O que eu preferiria estar sentindo?”. É difícil alcançar esse estado de espírito, mas não impossível.

    Gautama baseou essas técnicas de meditação em um conjunto de regras

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    éticas para ajudar as pessoas a se concentrarem na experiência real e a evitarem cair em desejos e fantasias. Ele instruiu seus seguidores a evitarem o assassinato, o sexo promíscuo e o roubo, já que tais atos necessariamente alimentavam o fogo do desejo (de poder, de prazer sensual, ou de riqueza). Quando as chamas estão completamente extintas, o desejo é substituído por um estado de perfeito contentamento e serenidade, conhecido como nirvana (cujo significado literal é “a extinção do fogo”). Aqueles que alcançaram o nirvana se libertaram totalmente de todo sofrimento. Eles vivenciam a realidade com clareza absoluta, livres de fantasias e ilusões. Embora muito provavelmente ainda encontrem desprazer e dor, essas experiências não lhes causam sofrimento. Uma pessoa que não deseja não sofre.

    De acordo com a tradição budista, o próprio Gautama alcançou o nirvana e se libertou totalmente do sofrimento. Daí em diante, ele ficou conhecido como “Buda”, que significa “o iluminado”. Buda passou o resto da vida explicando suas descobertas para outros, para que todos pudessem se livrar do sofrimento. Ele condensou seus ensinamentos em uma única lei: o sofrimento surge do desejo; a única forma de se livrar totalmente do sofrimento é se livrar totalmente do desejo; e a única forma de se livrar do desejo é ensinar a mente a experimentar a realidade tal como é.

    Essa lei, conhecida como dharma ou dhamma, é vista pelos budistas como uma lei universal da natureza. Que “o sofrimento surge do desejo” é sempre e em toda parte verdadeiro, assim como na física moderna “e” é sempre igual a “mc2”. Os budistas são pessoas que acreditam nessa lei e fazem dela o sustentáculo de todas as suas atividades. A crença em deuses, por outro lado, é de menor importância para eles. O primeiro princípio da religião monoteísta é “Deus existe. O que Ele quer de mim?”. O primeiro princípio do budismo é “O sofrimento existe. Como fugir dele?”.

    O budismo não nega a existência de deuses – eles são descritos como seres poderosos que podem trazer chuvas e vitórias –, mas eles não têm influência alguma na lei segundo a qual o sofrimento deriva do desejo. Se a mente de uma pessoa for livre de todo desejo, nenhum deus poderá torná-la miserável. Por outro lado, quando o desejo surge na mente de uma pessoa, nem todos os deuses do universo reunidos são capazes de salvá-la do sofrimento.

    Mas, de maneira muito similar às religiões monoteístas, as religiões pré-

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    modernas baseadas em leis naturais, como o budismo, nunca se livraram totalmente do culto aos deuses. O budismo dizia às pessoas que elas deveriam almejar o objetivo supremo da completa libertação do sofrimento, e não algumas paradas ao longo do caminho, como prosperidade econômica e poder político. No entanto, 99% dos budistas não alcançam o nirvana, e mesmo que esperem alcançá-lo em alguma vida futura, dedicam a maior parte de sua vida presente à busca de realizações mundanas, de modo que continuam a cultuar vários deuses, como os deuses hindus na Índia, os deuses bön no Tibete e os deuses xintoístas no Japão.

    Além disso, com o passar do tempo várias seitas budistas criaram panteões de budas e bodisatvas. Estes são seres humanos e não humanos com a capacidade de se livrar totalmente do sofrimento, mas que abriram mão dessa libertação por compaixão, a fim de ajudar os inúmeros seres que continuam presos no ciclo de sofrimento. Em vez de cultuar deuses, muitos budistas começaram a cultuar esses seres iluminados, pedindo ajuda não só para alcançar o nirvana como também para lidar com problemas mundanos. Assim, encontramos muitos budas e bodisatvas em todo o leste da Ásia que se dedicam a trazer chuvas, impedir pragas e até mesmo vencer guerras sanguinárias – em troca de preces, flores coloridas, incensos perfumados e oferendas de arroz e doces.

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    Mapa 6. A disseminação do budismo.

    O culto do homem

    Os últimos 300 anos muitas vezes são retratados como uma era de secularismo crescente, em que as religiões perderam cada vez mais sua importância. Se estamos falando de religiões teístas, isso é, em grande parte, correto. Mas, se levarmos em consideração as religiões baseadas em leis naturais, veremos que a modernidade é uma era marcada por intenso fervor religioso, esforços missionários sem paralelos e as guerras religiosas mais sanguinárias da história. A era moderna testemunhou a ascensão de uma série de religiões baseadas em leis naturais, como o liberalismo, o comunismo, o capitalismo, o nacionalismo e o nazismo. Esses credos não gostam de ser chamados de religiões e se referem a si mesmos como ideologias. Mas esse é apenas um exercício semântico. Se uma religião é um sistema de normas e valores humanos que se baseia na crença de

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    uma ordem sobre-humana, então o comunismo soviético é uma religião tanto quanto o islamismo.

    O islamismo é, obviamente, diferente do comunismo, porque o islamismo vê a ordem sobre-humana governando o mundo como o decreto de um deus criador onipotente, ao passo que o comunismo soviético não acreditava em deuses. Mas o budismo também dá pouca importância aos deuses, e ainda assim nós o classificamos como uma religião. Como os budistas, os comunistas acreditavam em uma ordem sobre-humana de leis naturais e imutáveis que devem guiar as ações humanas. Enquanto os budistas acreditam que a lei da natureza foi descoberta por Sidarta Gautama, os comunistas acreditavam que a lei da natureza foi descoberta por Karl Marx, Friedrich Engels e Vladimir Ilitch Lenin. A similaridade não termina aí. Como outras religiões, o comunismo também tem seus escritos sagrados e seus livros proféticos, como O Capital, de Marx, que previu que a história logo terminaria com a vitória inevitável do proletariado. O comunismo tinha seus feriados e festividades, como o Primeiro de Maio e o aniversário da Revolução de Outubro. Tinha teólogos adeptos da dialética marxista, e cada unidade no exército soviético tinha um capelão, chamado de comissário, que monitorava a devoção de soldados e oficiais. O comunismo teve mártires, guerras santas e heresias, como o trotskismo. O comunismo soviético foi uma religião fanática e missionária. Um comunista devoto não podia ser cristão nem budista, e se esperava que difundisse o evangelho de Marx e Lenin mesmo que isso lhe custasse a própria vida.

    Alguns leitores podem se sentir desconfortáveis com essa linha de raciocínio. Se isso o faz se sentir melhor, continue chamando o comunismo de ideologia em vez de religião. Não faz diferença. Podemos dividir os credos em religiões centradas em deus e ideologias sem deus que afirmam se basear em leis naturais. Mas então, para sermos coerentes, precisaríamos catalogar pelo menos algumas seitas budistas, taoistas e estoicas como ideologias em vez de religiões. Por outro lado, devemos notar que a crença em deuses persiste no seio de muitas ideologias modernas e que algumas delas, mais notadamente o liberalismo, têm pouco sentido sem essa crença.

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    A religião é um sistema de normas e valores humanos que se baseia na crença em uma ordem sobre-humana. A teoria da relatividade não é uma religião porque (pelo menos até agora) não há normas e valores humanos baseados nela.

    O futebol não é uma religião porque ninguém afirma que suas regras refletem decretos sobre-humanos. O islamismo, o budismo e o comunismo são religiões porque são sistemas de normas e valores humanos que se baseiam na crença em uma ordem sobre-humana. (Note a diferença entre “sobre-humano” e “sobrenatural”. A lei da natureza budista e as leis da história marxistas são sobre-humanas, já que não foram legisladas por humanos. Mas não são sobrenaturais.) Seria impossível investigar, aqui, a história de todos os credos modernos, especialmente porque não há fronteiras claras entre eles. São tão sincréticos

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    quanto o monoteísmo e o budismo popular. Assim como um budista pode cultuar deidades hindus e um monoteísta pode acreditar na existência de Satã, o norteamericano típico de nossos dias é simultaneamente um nacionalista (acredita na existência de uma nação norte-americana com um papel especial a exercer na história), capitalista de livre mercado (acredita que a competição aberta e a busca dos próprios interesses são as melhores maneiras de criar uma sociedade próspera) e humanista liberal (acredita que os humanos foram dotados pelo criador de certos direitos inalienáveis). O nacionalismo será discutido no capítulo 18. O capitalismo – a mais bem-sucedida das religiões modernas – tem um capítulo inteiro, o capítulo 16, que expõe suas principais crenças e rituais. Nas páginas restantes deste capítulo, abordarei as religiões humanistas.

    As religiões teístas focam o culto aos deuses (por isso são chamadas “teístas”, da palavra grega para deus, theos). As religiões humanistas cultuam a humanidade ou, mais corretamente, o Homo sapiens. O humanismo é a crença de que o Homo sapiens tem uma natureza única e sagrada, que é fundamentalmente diferente da natureza de todos os outros animais e todos os outros fenômenos. Os humanistas acreditam que a natureza única do Homo sapiens é a coisa mais importante do mundo e determina o significado de tudo que acontece no universo. O bem supremo é o bem do Homo sapiens. O resto do mundo e todos os outros seres só existem para o benefício dessa espécie.

    Todos os humanistas cultuam a humanidade, mas eles não concordam quanto à sua definição. Os humanistas se dividiram em três seitas rivais que disputam a definição exata de “humanidade”, assim como seitas cristãs rivais disputaram a definição exata de Deus. Hoje, a seita humanista mais importante é o humanismo liberal, que acredita que “humanidade” é uma qualidade de indivíduos humanos, e que a liberdade de indivíduos é portanto sacrossanta. De acordo com os liberais, a natureza sagrada da humanidade reside em cada Homo sapiens individual. A essência dos indivíduos humanos dá significado ao mundo e é a fonte de toda autoridade ética e política. Se nos depararmos com um dilema ético ou político, devemos olhar para dentro e escutar nossa voz interior – a voz da humanidade. Os principais mandamentos do humanismo liberal visam a proteger a liberdade dessa voz interior contra a intrusão ou o dano. Esses mandamentos são coletivamente conhecidos como “direitos humanos”.

    É por isso, por exemplo, que os liberais se opõem à tortura e à pena de

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    morte. Nos primórdios da Europa moderna, considerava-se que os assassinos violavam e desestabilizavam a ordem cósmica. Para restaurar o equilíbrio cósmico, era necessário torturar e executar publicamente o criminoso, para que todos pudessem ver a ordem restabelecida. Comparecer a execuções horrendas era um dos passatempos favoritos dos habitantes de Londres e de Paris na época de Shakespeare e de Molière. Na Europa de hoje, o assassinato é visto como uma violação da natureza sagrada da humanidade. Para restaurar a ordem, os europeus de hoje não torturam e executam criminosos. Em vez disso, punem um assassino da forma que consideram a mais “humana” possível, de modo a proteger e até mesmo reconstruir sua santidade humana. Ao honrar a natureza humana do assassino, todos são lembrados da santidade da humanidade, e a ordem é restabelecida. Ao defender o assassino, corrigimos o que o assassino estragou.

    Embora o humanismo liberal santifique os humanos, não nega a existência de Deus e, com efeito, se baseia em crenças monoteístas. A crença liberal na natureza livre e sagrada de cada indivíduo é um legado direto da crença cristã tradicional em almas individuais livres e eternas. Sem poder recorrer a almas eternas e um Deus Criador, fica embaraçosamente difícil para os liberais explicar o que há de tão especial nos indivíduos sapiens.

    Outra seita importante é o humanismo socialista. Os socialistas acreditam que a “humanidade” é coletiva, e não individualista. Eles consideram sagrada não a voz interna de cada indivíduo, mas da espécie Homo sapiens como um todo. Enquanto os humanistas liberais buscam tanta liberdade quanto possível para os indivíduos humanos, o humanismo socialista busca a igualdade entre todos os humanos. De acordo com os socialistas, a desigualdade é a pior blasfêmia contra a santidade da humanidade, porque privilegia qualidades periféricas dos humanos em detrimento de sua essência universal. Por exemplo, quando os ricos têm privilégios sobre os pobres, significa que damos mais valor ao dinheiro do que à essência universal de todos os humanos, que é a mesma para ricos e pobres.

    Como o humanismo liberal, o humanismo socialista também se baseia no monoteísmo. A ideia de que todos os humanos são iguais é uma versão renovada da convicção monoteísta de que todas as almas são iguais diante de Deus. A única seita humanista que rompeu com o monoteísmo tradicional é o humanismo

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    evolutivo, cujos representantes mais famosos são os nazistas. O que distinguia o nazismo de outras seitas humanistas era uma definição diferente de “humanidade”, que era fortemente influenciada pela teoria da evolução. À diferença de outros humanistas, os nazistas acreditavam que a humanidade não é algo eterno e universal, e sim uma espécie mutável que pode evoluir ou se degenerar. O homem pode evoluir e se tornar um super-homem, ou degenerar e se tornar um sub-humano.

    Religiões humanistas

    – Religiões que cultuam a humanidade A principal ambição dos nazistas era proteger a humanidade da degeneração e encorajar sua evolução progressiva. É por isso que os nazistas afirmavam que a raça ariana, a forma mais avançada de humanidade, tinha de ser protegida e encorajada, ao passo que tipos degenerados de Homo sapiens,

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    como judeus, ciganos, homossexuais e doentes mentais, tinham de ser colocados em quarentena e até mesmo exterminados. Os nazistas explicavam que o Homo sapiens surgiu quando uma população “superior” de humanos antigos evoluiu, ao passo que populações “inferiores” como os neandertais foram extintas. Essas populações diferentes, no início, eram não mais diferentes do que raças, mas evoluíram de maneira independente por seus próprios caminhos evolutivos. Isso poderia muito bem acontecer novamente. De acordo com os nazistas, o Homo sapiens já havia se dividido em várias raças distintas, cada uma delas com suas qualidades únicas. Uma dessas raças, a raça ariana, tinha as melhores qualidades – racionalismo, beleza, integridade, diligência. A raça ariana, portanto, tinha o potencial de transformar o homem em super-homem. Outras raças, como os judeus e os negros, eram os neandertais de hoje, apresentando qualidades inferiores. Se lhes fosse permitido procriar – e, em particular, procriar com arianos –, eles adulterariam todas as populações humanas e condenariam o Homo sapiens à extinção.

    20. Um cartaz de propaganda nazista mostrando, à direita, um “ariano racialmente puro” e, à esquerda, um “mestiço”. A admiração nazista pelo corpo

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    humano é evidente, bem como seu temor de que as raças inferiores pudessem contaminar a humanidade e causar sua degeneração.

    Desde então, os biólogos têm desmascarado a teoria racial nazista. Em particular, as pesquisas genéticas realizadas após 1945 demonstraram que as diferenças entre as várias linhagens humanas são muito menores do que os nazistas postulavam. Mas essas conclusões são relativamente novas. Dado o estado do conhecimento científico em 1933, as crenças nazistas dificilmente estavam em dissonância com o pensamento da época. A existência de raças humanas diferentes, a superioridade da raça branca e a necessidade de proteger e cultivar essa raça superior foram crenças amplamente aceitas pela maior parte das elites ocidentais. Acadêmicos nas universidades ocidentais mais prestigiosas, usando os métodos científicos ortodoxos da época, publicaram estudos que supostamente comprovavam que membros da raça branca eram mais inteligentes, mais éticos e mais habilidosos que africanos ou indianos. Políticos em Washington, Londres e Camberra davam como certo que era seu dever evitar a adulteração e a degeneração da raça branca ao, por exemplo, restringir a imigração da China ou mesmo da Itália para países “arianos” como os Estados Unidos e a Austrália.

    Essas posições não mudaram simplesmente porque novas pesquisas científicas foram publicadas. Os progressos sociológicos e políticos foram agentes muito mais poderosos de mudança. Nesse sentido, Hitler cavou não só o seu próprio túmulo como também o do racismo em geral. Quando iniciou a Segunda Guerra Mundial, ele compeliu seus inimigos a fazerem distinções claras entre “nós” e “eles”. Mais tarde, precisamente porque a ideologia nazista era tão racista, o racismo caiu em descrédito no Ocidente. Mas a mudança levou tempo.

    A supremacia branca continuou sendo uma ideologia dominante na política norteamericana pelo menos até os anos 1960. A política da Austrália branca, que restringia a imigração de povos não brancos ao país, continuou vigente até 1973.

    Os aborígenes australianos não tinham direitos políticos iguais até os anos 1960, e muitos eram proibidos de votar nas eleições porque eram considerados inaptos para atuarem como cidadãos.

    Os nazistas não detestavam a humanidade. Eles combatiam o humanismo liberal, os direitos humanos e o comunismo precisamente porque admiravam a humanidade e acreditavam no grande potencial da espécie humana. Mas,

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    seguindo a lógica da evolução darwinista, argumentavam que era preciso permitir que a seleção natural eliminasse os indivíduos inaptos e deixasse que apenas os mais aptos sobrevivessem e se reproduzissem. Ao socorrer os fracos, o liberalismo e o comunismo não só permitiam que indivíduos inaptos sobrevivessem como também lhes davam oportunidade de se reproduzir, dessa formam boicotando a seleção natural. Em tal mundo, os humanos mais aptos inevitavelmente afundariam em um mar de degenerados inaptos. A humanidade se tornaria cada vez menos apta com o passar das gerações – o que poderia levar à sua extinção.

    Um livro de biologia alemão de 1942 explica, no capítulo “As leis da natureza e a humanidade”, que a lei suprema da natureza é que todos os seres estão condenados a uma luta cruel pela sobrevivência. Depois de descrever como as plantas lutam por território, como os besouros lutam para encontrar parceiros para acasalar e assim por diante, o livro conclui que:

    A batalha pela existência é árdua e inclemente, mas é a única maneira de manter a vida. Essa luta elimina tudo que é inapto para a vida e seleciona tudo que é capaz de sobreviver. […] Essas leis naturais são incontroversas; as criaturas vivas as demonstram com sua própria sobrevivência. Elas são implacáveis. Os que resistem a elas serão exterminados. A biologia não nos fala apenas de animais e de plantas – também nos mostra as leis que devemos seguir em nossa vida e fortalece nossa disposição para viver e lutar de acordo com essas leis. O significado da vida é luta. Ai daquele que transgredir essas leis.

    Então, segue-se uma citação de Mein Kampf: “A pessoa que tenta lutar contra a lógica férrea da natureza luta contra os princípios aos quais deve agradecer por sua vida como ser humano. Lutar contra a natureza é provocar a própria destruição”.3 No início do terceiro milênio, o futuro do humanismo evolutivo não está claro. Durante 60 anos após o fim da guerra contra Hitler, foi um tabu associar humanismo com evolução e defender o uso de métodos biológicos para “aprimorar” o Homo sapiens. Mas hoje tais projetos estão em voga novamente.

    Ninguém fala de exterminar raças ou pessoas inferiores, mas muitos cogitam

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    usar nosso conhecimento cada vez maior da biologia humana para criar superhumanos.

    Ao mesmo tempo, uma brecha enorme está se abrindo entre os dogmas do humanismo liberal e as últimas descobertas das ciências da vida, uma brecha que não podemos ignorar por muito tempo. Nossos sistemas jurídicos e políticos liberais se baseiam na crença de que todo indivíduo tem uma natureza interna sagrada, indivisível e imutável, que dá significado ao mundo e que é a fonte de toda autoridade ética e política. Essa é uma reencarnação da crença cristã tradicional em uma alma livre e eterna que reside em cada indivíduo. Mas, nos últimos 200 anos, as ciências da vida minaram totalmente essa crença. Os cientistas que estudam o funcionamento interno do organismo humano não encontraram ali nenhuma alma. Eles argumentam cada vez mais que o comportamento humano é determinado por hormônios, genes e sinapses, e não pelo livre-arbítrio – as mesmas forças que determinam o comportamento de chimpanzés, lobos e formigas. Nossos sistemas jurídicos e políticos tentam varrer tais descobertas inconvenientes para debaixo do tapete. Mas, com toda a franqueza, por quanto tempo poderemos manter o muro que separa o departamento de biologia dos departamentos de direito e ciência política?

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    21. Uma charge nazista de 1933. Hitler é apresentado como um escultor que cria o super-homem. Um intelectual liberal de óculos fica chocado diante da

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    violência necessária para criar o super-homem. (Observe também a glorificação erótica do corpo humano.)

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    13. O segredo do sucesso

    O segredo do sucesso O COMÉRCIO, OS IMPÉRIOS E AS RELIGIÕES UNIVERSAIS LEVARAM QUASE TODOS OS sapiens, de todos os continentes, ao mundo globalizado em que vivemos hoje.

    Não que esse processo de expansão e unificação tenha sido linear ou ininterrupto.

    Olhando com perspectiva, porém, a transição de muitas culturas pequenas para algumas culturas maiores e, finalmente, para uma única sociedade global foi provavelmente o resultado inevitável da dinâmica da história humana.

    Mas dizer que uma sociedade global é inevitável não é o mesmo que dizer que o resultado final tinha de ser exatamente o tipo de sociedade que temos hoje.

    É possível imaginar outros resultados. Por que o idioma inglês é tão disseminado atualmente, e não o dinamarquês? Por que existem 2 bilhões de cristãos e 1,25 bilhão de muçulmanos, mas apenas 150 mil zoroastristas e nenhum maniqueísta?

    Se pudéssemos voltar 10 mil anos no tempo e reiniciar o processo repetidas vezes, sempre veríamos a ascensão do monoteísmo e o declínio do dualismo?

    Não é possível fazer tal experimento, então não há como saber realmente.

    Mas uma análise de duas características cruciais da história pode nos fornecer algumas pistas.

    1. A falácia da visão retrospectiva

    Cada ponto da história é um cruzamento. Uma única estrada percorrida leva do passado ao presente, mas uma série de caminhos se bifurca em direção ao futuro. Alguns desses caminhos são mais largos, mais planos e mais bem sinalizados, e, por isso, há uma chance maior de que sejam seguidos. Mas às vezes a história – ou as pessoas que fazem a história – dão voltas inesperadas.

    No início do século IV, o Império Romano se viu diante de um amplo horizonte de possibilidades religiosas. Poderia ter se atido a seu tradicional e diversificado politeísmo. Mas seu imperador, Constantino, rememorando um século de guerras civis incontroláveis, parece ter pensado que uma única religião, com uma doutrina clara, poderia ajudar a unificar seu domínio etnicamente diverso. Ele poderia ter escolhido qualquer um entre vários cultos da época como o credo de sua nação – o maniqueísmo, o mitraísmo, os cultos a Ísis ou Cibele, o

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    zoroastrismo, o judaísmo e até mesmo o budismo eram opções disponíveis. Por que ele optou por Jesus? Havia algo na teologia cristã que o atraía pessoalmente, ou talvez um aspecto da fé que o fez pensar que seria mais facilmente aplicável a seus propósitos? Ele teve uma experiência religiosa, ou algum de seus conselheiros sugeriu que os cristãos estavam ganhando devotos rapidamente e que o melhor seria aproveitar esse embalo? Os historiadores podem especular, mas não podem fornecer uma resposta definitiva. Podem descrever como o cristianismo tomou conta do Império Romano, mas não podem explicar por que essa possibilidade em particular se concretizou.

    Qual a diferença entre descrever “como” e explicar o “porquê”?

    Descrever “como” significa reconstruir a série de acontecimentos específicos que levaram de um ponto a outro. Explicar o “porquê” significa encontrar conexões causais que esclareçam a ocorrência dessa série específica de acontecimentos em detrimento de todas as outras.

    Alguns estudiosos fornecem, de fato, explicações deterministas para acontecimentos como a ascensão do cristianismo. Eles tentam reduzir a história humana à ação de forças biológicas, ecológicas e econômicas. Argumentam que havia algo na geografia, na genética ou na economia do Império Romano no Mediterrâneo que tornou inevitável a ascensão de uma religião monoteísta. Mas a maioria dos historiadores tende a ser cética com relação a tais teorias deterministas. Essa é uma das marcas características da história como disciplina acadêmica – quanto melhor se conhece um determinado período histórico, mais difícil se torna explicar por que as coisas aconteceram de um jeito, e não de outro. Aqueles que têm um conhecimento apenas superficial de um certo período tendem a se concentrar apenas na possibilidade que realmente ocorreu. Eles fornecem um relato exato para explicar, em retrospectiva, por que um determinado resultado era inevitável. Aqueles que têm um conhecimento mais profundo do período são muito mais conscientes das estradas não percorridas.

    Na verdade, as pessoas que conheciam melhor o período – as que viveram naquela época – eram as mais desavisadas de todas. Para um típico romano da época de Constantino, o futuro era uma névoa. É uma regra implacável da história que o que parece inevitável em retrospectiva está longe de ter sido óbvio na época. Hoje não é diferente. Saímos da crise econômica global ou o pior ainda está por vir? A China continuará crescendo até se tornar a principal

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    superpotência? Os Estados Unidos perderão sua hegemonia? O aumento do fundamentalismo monoteísta é a onda do futuro ou um redemoinho local de pouca importância no longo prazo? Estamos caminhando para um desastre ecológico ou para um paraíso tecnológico? Bons argumentos podem ser apresentados para corroborar qualquer um desses desfechos, mas não há como saber com certeza. Em algumas décadas, as pessoas vão olhar para trás e pensar que as respostas para todas essas perguntas eram óbvias.

    É particularmente importante enfatizar que possibilidades que parecem muito improváveis para os contemporâneos muitas vezes se concretizam.

    Quando Constantino assumiu o trono, em 306, o cristianismo não passava de uma seita oriental esotérica. Se alguém sugerisse que ele viria a ser a religião oficial de Roma, seria expulso da sala às gargalhadas, da mesma forma que aconteceria hoje com alguém que sugerisse que, por volta de 2050, Hare Krishna será a religião oficial dos Estados Unidos. Em outubro de 1913, os bolcheviques eram uma pequena facção radical russa. Nenhuma pessoa racional teria previsto que, em apenas quatro anos, eles dominariam o país. Em 600, a noção de que um bando de árabes que habitavam o deserto logo conquistaria uma extensa faixa do oceano Atlântico até a Índia era ainda mais absurda. De fato, se o exército bizantino tivesse conseguido evitar o ataque inicial, o islamismo provavelmente continuaria sendo um culto obscuro, conhecido apenas por um punhado de iniciados. Os estudiosos teriam, então, a tarefa muito fácil de explicar por que uma fé baseada em uma revelação feita a um mercador de meia-idade de Meca nunca poderia ir para a frente.

    Isso não quer dizer que tudo é possível. Forças geográficas, biológicas e econômicas criam restrições. Mas, ainda assim, essas restrições deixam muito espaço para desdobramentos inesperados, que não parecem ter ligação com qualquer lei determinista.

    Essa conclusão decepciona muita gente que prefere que a história seja determinista. O determinismo é atraente porque implica que nosso mundo e nossas crenças são um produto natural e inevitável da história. É natural e inevitável que vivamos em Estados-nação, organizemos nossa economia com base em princípios capitalistas e acreditemos fervorosamente em direitos humanos. Reconhecer que a história não é determinista é reconhecer que não passa de uma coincidência o fato de que a maioria das pessoas, hoje em dia,

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    acredita em nacionalismo, capitalismo e direitos humanos.

    A história não pode ser explicada de forma determinista e não pode ser prevista porque é caótica. Tantas forças estão em ação, e suas interações são tão complexas, que variações extremamente pequenas na intensidade dessas forças e na maneira com que interagem produzem diferenças gigantescas no resultado.

    E não é só isso: a história é o que chamamos de sistema caótico “nível 2”. Os sistemas caóticos podem ter duas formas. O caos nível 1 é o caos que não reage a previsões a seu respeito. O clima, por exemplo, é um sistema caótico nível 1.

    Embora seja influenciado por uma série de fatores, é possível criar modelos computadorizados que levem em consideração um número cada vez maior desses fatores e produzam previsões do tempo cada vez melhores.

    O caos nível 2 é o caos que reage a previsões a seu respeito e, por isso, nunca pode ser previsto com precisão. Os mercados, por exemplo, são um sistema caótico nível 2. O que vai acontecer se desenvolvermos um programa de computador que preveja com 100% de exatidão o preço do petróleo amanhã? O preço do petróleo vai reagir imediatamente à previsão que, consequentemente, não vai se concretizar. Se o preço atual do petróleo é 90 dólares o barril, e o programa de computador infalível prevê que amanhã será 100 dólares, os comerciantes vão correr para comprar petróleo, de modo que possam lucrar com a alta de preço prevista. Como resultado, o preço vai subir para 100 dólares o barril hoje, e não amanhã. Então, o que vai acontecer amanhã? Ninguém sabe.

    A política também é um sistema caótico de segunda ordem. Muitas pessoas criticam os especialistas em assuntos da antiga União Soviética por não terem previsto as revoluções de 1989 e castigam especialistas em Oriente Médio por não terem antecipado as revoluções da Primavera Árabe de 2011. Isso é injusto.

    Revoluções são, por definição, imprevisíveis. Uma revolução previsível nunca irrompe.

    Por que não? Imagine que, em 2010, algum cientista político genial, em conluio com um mago da computação, tivesse desenvolvido um algoritmo infalível que, incorporado a uma interface atraente, pudesse ser comercializado como um indicador de revolução. Eles oferecem seus serviços ao então presidente do Egito, Hosni Mubarak, e, em troca de um generoso pagamento, dizem a ele que, segundo as previsões, uma revolução certamente irromperia no Egito no decurso do ano seguinte. Como Mubarak reagiria? Muito provavelmente,

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    reduziria os impostos de imediato, distribuiria milhões de dólares para os cidadãos – e também reforçaria a polícia secreta, só por via das dúvidas. As medidas preventivas funcionam. O ano passa e, surpresa, não há revolução. Mubarak exige seu dinheiro de volta. “Seu algoritmo é inútil!”, ele grita para os cientistas.

    “No fim, eu poderia ter construído outro palácio em vez de distribuir todo aquele dinheiro!” “Mas a revolução não aconteceu justamente porque a previmos”, dizem os cientistas em sua defesa. “Profetas que preveem coisas que não acontecem?”, observa Mubarak enquanto faz sinal para que os guardas os prendam. “Eu poderia conseguir uma dezena deles por um preço irrisório no mercado do Cairo.”

    Sendo assim, por que estudar história? Diferente de física ou economia, a história não é um meio de fazer previsões exatas. Estudamos história não para conhecer o futuro, e sim para ampliar nossos horizontes, entender que nossa situação presente não é natural nem inevitável e que, consequentemente, existem mais possibilidades diante de nós do que imaginamos. Por exemplo, estudar como os europeus dominaram a África nos permite entender que não existe nada de natural ou inevitável na hierarquia racial e que o mundo poderia muito bem ser organizado de outra forma.

    2. Clio cega

    Não podemos explicar as escolhas que a história faz, mas podemos dizer algo muito importante sobre elas: as escolhas da história não são feitas em prol dos humanos. Não há prova alguma de que o bem-estar humano inevitavelmente se aprimora com o desenrolar da história. Não há prova alguma de que as culturas mais benéficas para os humanos devem inexoravelmente prosperar e se disseminar, enquanto as menos benéficas desaparecem. Não há prova alguma de que o cristianismo tenha sido uma escolha melhor do que o maniqueísmo, ou que o Império Árabe tenha sido mais benéfico que o dos persas sassânidas.

    Não há provas de que a história atua em prol dos humanos porque nos falta uma escala objetiva para medir tais benefícios. Culturas diferentes definem o bem de forma diferente, e não existe um parâmetro objetivo pelo qual julgá-las.

    Os vitoriosos, é claro, sempre acreditam que sua definição está correta. Mas por que devemos acreditar nos vitoriosos? Os cristãos acreditam que a vitória do

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    cristianismo sobre o maniqueísmo foi benéfica para a humanidade, mas, se não aceitamos a visão de mundo cristã, não temos motivo algum para concordar com eles. Os muçulmanos acreditam que a queda do Império Sassânida nas mãos dos muçulmanos foi benéfica para a humanidade. Mas esses benefícios só são evidentes se aceitarmos a visão de mundo muçulmana. É bem possível que estivéssemos em situação melhor se cristianismo e o islamismo tivessem sido esquecidos ou derrotados.

    Um número cada vez maior de estudiosos vê as culturas como um tipo de infecção ou parasita mental, sendo os humanos seus hospedeiros involuntários. Os parasitas orgânicos, como os vírus, vivem dentro do corpo de seus hospedeiros.

    Eles se multiplicam e se espalham de um hospedeiro a outro, alimentando-se deles, enfraquecendo-os e, às vezes, até os matando. Contanto que os hospedeiros vivam o bastante para transmitir o parasita, este pouco se importa com a condição em que seu hospedeiro se encontra. Da mesma forma, as ideias culturais vivem dentro da mente dos humanos. Elas se multiplicam e se disseminam de um hospedeiro a outro, às vezes enfraquecendo os hospedeiros e até mesmo os matando. Uma ideia cultural – tal como a crença no paraíso cristão nos céus ou no paraíso comunista aqui na Terra – pode forçar um ser humano a dedicar sua vida a espalhá-la, às vezes tendo a morte como preço. O humano morre, mas a ideia se espalha. Segundo essa abordagem, as culturas não são conspirações de algumas pessoas para tirar vantagem de outras (como os marxistas tendem a pensar). Ao contrário, as culturas são parasitas mentais que surgem acidentalmente e, depois, tiram vantagem de todas as pessoas infectadas por elas.

    Essa abordagem às vezes é chamada de memética. Ela supõe que, assim como a evolução orgânica é baseada na replicação de unidades de informação orgânica chamadas “genes”, a evolução cultural é baseada na replicação de unidades de informação cultural chamadas “memes”.1 Culturas bem-sucedidas são aquelas que se sobressaem ao reproduzir seus memes, independentemente dos custos e benefícios aos hospedeiros humanos.

    A maioria dos estudiosos da área de humanidades desdenha da memética, encarando-a como uma tentativa amadora de explicar processos culturais com analogias biológicas tacanhas. Mas muitos desses estudiosos aceitam seu irmão gêmeo – o pós-modernismo. Os pensadores pós-modernistas falam de discursos,

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    em vez de memes, como os blocos construtores de cultura. Porém, eles também veem as culturas como algo que se propaga sozinho, com pouca consideração pelo bem da humanidade. Por exemplo, os pensadores pós-modernistas descrevem o nacionalismo como uma praga mortal que se espalhou pelo mundo nos séculos XIX e XX, originando guerras, opressão, ódio e genocídio. Assim que as pessoas de um país eram infectadas por ele, os habitantes de países vizinhos também tinham propensão a pegar o vírus. O vírus nacionalista se apresentou como benéfico aos seres humanos, embora tenha beneficiado apenas a si mesmo.

    Argumentos similares são comuns nas ciências sociais, sob a égide da teoria dos jogos. A teoria dos jogos explica como, em sistemas com vários jogadores, visões e padrões de comportamento que prejudicam todos os jogadores ainda conseguem se arraigar e se disseminar. As corridas armamentistas são um exemplo famoso. Muitas levaram à falência todos aqueles que participaram delas, sem modificar realmente o equilíbrio de poder militar.

    Quando o Paquistão compra aviões modernos, a Índia responde na mesma moeda. Quando a Índia desenvolve bombas nucleares, o Paquistão faz o mesmo.

    Quando o Paquistão aumenta sua marinha, a Índia reage. No fim do processo, o equilíbrio de poder permanece praticamente igual ao que era, mas, enquanto isso, bilhões de dólares que poderiam ter sido investidos em educação ou saúde são gastos em armas. Ainda assim, é difícil resistir à dinâmica da corrida armamentista. “Corridas armamentistas” são um padrão de comportamento que se espalha como um vírus de um país a outro, prejudicando a todos, mas beneficiando a si mesmo segundo os critérios evolutivos de sobrevivência e reprodução. (Tenha em mente que a corrida armamentista, assim como os genes, não tem consciência – ela não procura sobreviver e se reproduzir conscientemente. Sua disseminação é o resultado involuntário de uma poderosa dinâmica.) Independentemente do nome – teoria dos jogos, pós-modernismo ou memética –, a dinâmica da história não está voltada para o aprimoramento do bem-estar humano. Não há nenhuma base para se pensar que as culturas mais bem-sucedidas da história sejam necessariamente as melhores para o Homo sapiens. Como a evolução, a história não considera a felicidade de organismos individuais. E os indivíduos humanos, por sua vez, costumam ser ignorantes e

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    fracos demais para influenciar o curso da história em benefício próprio.

    A história progride de uma bifurcação a outra, escolhendo, por razões misteriosas, seguir primeiro esse caminho, depois outro. Por volta de 1500, a história fez sua escolha mais importante, modificando não só o destino da humanidade como também provavelmente o destino de toda vida na Terra. Nós a chamamos de Revolução Científica. Começou na Europa Ocidental, em uma grande península na extremidade ocidental da Afro-Ásia, que até então não havia desempenhado nenhum papel importante na história. Por que a Revolução Científica começou bem ali, e não na China ou na Índia? Por que começou em meados do segundo milênio da era cristã, e não dois séculos antes, ou três séculos depois? Não sabemos. Os estudiosos propuseram dezenas de teorias, mas nenhuma delas é muito convincente.

    A história tem um horizonte muito amplo de possibilidades, e muitas delas nunca se concretizam. É concebível imaginar a história seguindo por gerações e mais gerações sem passar pela Revolução Científica, assim como é igualmente concebível imaginar a história sem o cristianismo, o Império Romano e moedas de ouro.

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    Parte 4: A Revolução Científica

    Parte quatro A Revolução Científica

    22. Alamogordo, 16 de julho de 1945, 5:29:53 da manhã. Oito segundos depois que a bomba atômica foi detonada. O físico nuclear Robert Oppenheimer, ao ver a explosão, citou o Bhagavad Gita: “Agora eu me torno a Morte, a destruidora de mundos”.

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    14. A descoberta da ignorância

    A descoberta da ignorância SE, POR EXEMPLO, UM CAMPONÊS ESPANHOL TIVESSE ADORMECIDO NO ANO 1000 e despertado quinhentos anos depois, ao som dos marinheiros de Colombo a bordo das caravelas Niña, Pinta e Santa Maria, o mundo lhe pareceria bastante familiar.

    Apesar das muitas mudanças na tecnologia, nos costumes e nas fronteiras políticas, esse viajante da Idade Média teria se sentido em casa. Mas se um dos marinheiros de Colombo tivesse caído em letargia similar e despertado ao toque de um iPhone do século XXI, ele se encontraria em um mundo estranho, para além de sua compreensão. “Estou no Céu?”, ele poderia muito bem se perguntar, “Ou, talvez, no Inferno?”

    Os últimos quinhentos anos testemunharam um crescimento fenomenal e sem precedentes no poderio humano. No ano 1500, havia cerca de 500 milhões de Homo sapiens em todo o mundo. Hoje, há 7 bilhões.1 Estima-se que o valor total dos bens e serviços produzidos pela humanidade no ano 1500 era 250 bilhões de dólares.2 Hoje, o valor de um ano de produção humana é aproximadamente 60 trilhões de dólares.3 Em 1500, a humanidade consumia por volta de 13 trilhões de calorias de energia por dia. Hoje, consumimos 1,5 quatrilhão de calorias por dia.4 (Preste atenção nesses números: a população humana aumentou 14 vezes; a produção, 240 vezes; e o consumo de energia, 115 vezes.) Suponha que um navio de batalha moderno fosse transportado de volta à época de Colombo. Em questão de segundos, poderia destruir a Niña, a Pinta e a Santa Maria e em seguida afundar as esquadras de cada uma das grandes potências mundiais da época sem sofrer um arranhão sequer. Cinco navios de carga modernos poderiam levar a bordo o carregamento das frotas mercantes do mundo inteiro.5 Um computador moderno poderia facilmente armazenar cada palavra e número em cada códice e pergaminho de cada biblioteca medieval com espaço de sobra. Qualquer grande banco de hoje tem mais dinheiro do que todos os reinos do mundo pré-moderno reunidos.6 Em 1500, poucas cidades tinham mais de 100 mil habitantes. A maioria das edificações eram construídas com barro, madeira e palha; um edifício de três andares era um arranha-céu. As ruas eram caminhos de terra cheios de sulcos, poeirentos no verão e lamacentos no inverno, trilhados por pedestres, cavalos,

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    cabras, galinhas e umas poucas carroças. Os ruídos urbanos mais comuns eram vozes de humanos e de animais, junto com o barulho ocasional de uma serra ou de um martelo. Quando o sol se punha, a cidade ficava um breu, com uma ou outra vela ou tocha tremeluzindo na escuridão. Se um habitante de uma dessas cidades pudesse visitar São Paulo, Nova York ou Mumbai hoje em dia, o que pensaria?

    Antes do século XVI, nenhum humano havia circum-navegado a Terra.

    Isso mudou em 1522, quando a expedição de Magalhães regressou à Espanha após uma viagem de 72 mil quilômetros. Levou três anos e custou a vida de quase todos os membros da tripulação, Magalhães incluído. Em 1873, Júlio Verne imaginou que Phileas Fogg, um rico aventureiro britânico, pudesse dar a volta ao mundo em oitenta dias. Hoje, qualquer pessoa de classe média pode circumnavegar a Terra de maneira fácil e segura em apenas 48 horas.

    Em 1500, os humanos estavam confinados à superfície da Terra. Eles podiam construir torres e escalar montanhas, mas o céu era reservado para pássaros, anjos e deidades. Em 20 de julho de 1969, os humanos aterrissaram na Lua. Essa foi não só uma conquista histórica como também um feito evolutivo e até mesmo cósmico. Durante os 4 bilhões de anos anteriores de evolução, nenhum organismo havia conseguido sequer sair da atmosfera terrestre, e certamente nenhum deixou uma pegada ou marca de tentáculo na Lua.

    Durante a maior parte da história, os humanos não sabiam nada sobre 99,99% dos organismos do planeta – em especial, os micro-organismos. Não que eles não fossem do nosso interesse. Cada um de nós carrega dentro de si bilhões de criaturas unicelulares, e não só como caronas. Elas são nossas melhores amigas e nossas piores inimigas. Algumas digerem nossos alimentos e limpam nossos intestinos, enquanto outras causam doenças e epidemias. Mas foi só em 1674 que um olho humano viu um micro-organismo pela primeira vez, quando Anton van Leeuwenhoek deu uma espiada através de seu microscópio caseiro e ficou impressionado ao ver um mundo inteiro de criaturas minúsculas dando voltas em uma gota d’água. Durante os 300 anos seguintes, os humanos se familiarizaram com uma enorme quantidade de espécies microscópicas.

    Conseguimos vencer a maioria das doenças contagiosas mais fatais que elas causam e usamos micro-organismos a serviço da medicina e da indústria. Hoje, projetamos bactérias para produzir medicamentos, fabricar biocombustível e

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    matar parasitas.

    Mas o momento mais notável e definidor dos últimos 500 anos ocorreu às 5h29m45s da manhã de 16 de julho de 1945. Naquele segundo exato, cientistas norte-americanos detonaram a primeira bomba atômica em Alamogordo, Novo México. Daquele ponto em diante, a humanidade teve a capacidade não só de mudar o curso da história como também de colocar um fim nela.

    O processo histórico que levou a Alamogordo e à Lua é conhecido como Revolução Científica. Durante essa revolução, a humanidade adquiriu novas capacidades gigantescas, investindo recursos em pesquisa científica. É uma revolução porque, até por volta de 1500, os humanos do mundo inteiro duvidavam de sua aptidão para adquirir novas capacidades médicas, militares e econômicas. Embora o governo e os patrocinadores destinassem fundos à educação e a bolsas de pesquisa, o objetivo era, em geral, preservar as capacidades existentes, em vez de adquirir novas. O típico governante pré-moderno dava dinheiro para padres, filósofos e poetas na esperança de que eles legitimassem seu poder e mantivessem a ordem social. Ele não esperava que eles descobrissem novos medicamentos, inventassem novas armas ou estimulassem o crescimento econômico.

    Ao longo dos últimos cinco séculos, os humanos passaram a acreditar que poderiam aumentar suas capacidades se investissem em pesquisa científica. Isso não era uma fé cega – foi, repetidas vezes, comprovado empiricamente. Quanto mais provas surgiam, mais recursos as pessoas ricas e os governos estavam dispostos a destinar à ciência. Jamais teríamos sido capazes de caminhar na Lua, projetar micro-organismos e dividir o átomo sem tais investimentos. O governo dos Estados Unidos, por exemplo, destinou, nas últimas décadas, bilhões de dólares para o estudo da física nuclear. O conhecimento produzido por essas pesquisas tornou possível a construção de usinas nucleares, que fornecem eletricidade barata para as indústrias norte-americanas, que pagam impostos para o governo dos Estados Unidos, que usa parte desses impostos para financiar mais pesquisas em física nuclear.

    Por que os humanos modernos desenvolveram uma crença cada vez maior em sua aptidão para adquirir novas capacidades por meio de pesquisas? O que construiu a relação entre ciência, política e economia? Este capítulo examina a natureza singular da ciência moderna a fim de fornecer parte da resposta. Os

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    dois capítulos seguintes analisam a formação da aliança entre a ciência, os impérios europeus e a economia do capitalismo.

    O ciclo de retroalimentação da Revolução Científica. Para progredir, a ciência precisa de mais do que pesquisas. Depende do reforço mútuo de ciência, política e economia. As instituições políticas e econômicas fornecem os recursos sem os quais a pesquisa científica é quase impossível. Em troca, a pesquisa científica fornece novas capacidades que são usadas, entre outras coisas, para obter novos recursos, alguns dos quais são reinvestidos em pesquisa.

    Ignoramus

    Os humanos procuram entender o universo pelo menos desde a Revolução Cognitiva. Nossos ancestrais dedicaram muito tempo e esforço a tentar descobrir as regras que governam o mundo natural. Mas a ciência moderna difere de todas as tradições de conhecimento anteriores em três aspectos cruciais:

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    a. A disposição para admitir ignorância: a ciência moderna se baseia na sentença latina ignoramus – “nós não sabemos”. Presume que não sabemos tudo. O que é ainda mais crucial, aceita que as coisas que achamos que sabemos podem se mostrar equivocadas à medida que adquirimos mais conhecimento. Nenhum conceito, ideia ou teoria é sagrado e inquestionável.

    b. O lugar central da observação e da matemática: tendo admitido a ignorância, a ciência moderna almeja obter novos conhecimentos e o faz reunindo observações e então usando ferramentas matemáticas para relacionar essas observações em teorias abrangentes.

    c. A aquisição de novas capacidades: a ciência moderna não se contenta em criar teorias. Usa essas teorias para adquirir novas capacidades e, em particular, para desenvolver novas tecnologias.

    A Revolução Científica não foi uma revolução do conhecimento. Foi, acima de tudo, uma revolução da ignorância. A grande descoberta que deu início à Revolução Científica foi a descoberta de que os humanos não têm as respostas para suas perguntas mais importantes.

    Tradições de conhecimento pré-modernas como o islamismo, o cristianismo, o budismo e o confucionismo afirmavam que tudo que é importante saber a respeito do mundo já era conhecido. Os grandes deuses, ou o Deus todopoderoso, ou as pessoas sábias do passado detinham uma sabedoria universal, que revelavam a nós por meio de escrituras e tradições orais. Os meros mortais adquiriam conhecimento ao estudar tais tradições e textos antigos e entendê-los da maneira adequada. Era inconcebível que a Bíblia, o Corão ou os Vedas estivessem omitindo um segredo crucial do universo – um segredo que ainda pode vir a ser descoberto por nós, criaturas de carne e osso.

    As antigas tradições de conhecimento só admitiam dois tipos de ignorância.

    Em primeiro lugar, um indivíduo podia ignorar algo importante. Para obter o conhecimento necessário, tudo que ele precisava fazer era perguntar a alguém mais sábio. Não havia necessidade de descobrir algo que qualquer pessoa já não soubesse. Por exemplo, se um camponês em alguma aldeia inglesa do século XIII quisesse saber como a raça humana se originou, ele presumia que a tradição cristã tinha a resposta definitiva. Tudo que precisava fazer era perguntar

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    ao padre local.

    Em segundo lugar, uma tradição inteira podia ignorar coisas sem importância. Por definição, o que quer que os grandes deuses ou os sábios do passado não tenham se dado ao trabalho de nos contar não era importante. Por exemplo, se nosso camponês inglês quisesse saber como as aranhas tecem suas teias, não fazia sentido perguntar ao padre, porque não havia resposta a essa pergunta em nenhuma das escrituras cristãs. Isso não significava, entretanto, que o cristianismo fosse falho. Ao contrário, significava que entender como as aranhas tecem suas teias não era importante. Afinal, Deus sabia perfeitamente bem como as aranhas fazem isso. Se fosse uma informação vital, necessária para a prosperidade e a salvação humana, Deus teria incluído uma explicação detalhada na Bíblia.

    O cristianismo não proibia as pessoas de estudarem as aranhas. Mas os estudiosos de aranhas – se é que houve algum na Europa medieval – tinham de aceitar seu papel periférico na sociedade e a irrelevância de suas descobertas para as verdades eternas do cristianismo. Não importa o que um estudioso descobrisse sobre aranhas, borboletas ou tentilhões das Galápagos, esse conhecimento era quase trivial, sem qualquer influência sobre as verdades fundamentais da sociedade, da política e da economia.

    Na realidade, as coisas nunca foram assim tão simples. Em todas as épocas, até mesmo nas mais devotas e conservadoras, houve pessoas que afirmaram que havia coisas importantes que sua tradição inteira ignorava. Mas tais pessoas geralmente eram marginalizadas ou perseguidas – ou então fundavam uma nova tradição e começavam a afirmar que elas sabiam tudo o que há para saber. Por exemplo, o profeta Maomé iniciou sua trajetória religiosa condenando seus colegas árabes por viverem na ignorância da verdade divina.

    Mas logo o próprio Maomé começou a afirmar que ele conhecia toda a verdade, e seus seguidores passaram a chamá-lo de “O Último dos Profetas”. Daí em diante, não havia necessidade de revelações além daquelas feitas a Maomé.

    A ciência de nossos dias é uma tradição de conhecimento peculiar, visto que admite abertamente a ignorância coletiva a respeito da maioria das questões importantes. Darwin nunca afirmou ser “O Último dos Biólogos” e ter decifrado o enigma da vida de uma vez por todas. Depois de séculos de pesquisas científicas, os biólogos admitem que ainda não têm uma boa explicação para

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    como o cérebro gera consciência. Os físicos admitem que não sabem o que causou o Big Bang, ou como conciliar a mecânica quântica com a Teoria Geral da Relatividade.

    Em outros casos, teorias científicas concorrentes são alvo de debate acalorado com base no surgimento constante de novas evidências. Um bom exemplo são os debates sobre como gerenciar melhor a economia. Embora os economistas possam afirmar que seu método é o melhor, a ortodoxia muda a cada crise financeira e a cada bolha na bolsa de valores, e é amplamente aceito que a palavra final em economia ainda está para ser dita.

    Em outros casos ainda, teorias específicas estão corroboradas de maneira tão consistente pelas evidências disponíveis que todas as alternativas foram há muito abandonadas. Tais teorias são aceitas como verdades – mas todos concordam que, se surgissem novas evidências contradizendo tais teorias, estas teriam de ser revisadas ou descartadas. Bons exemplos de teorias desse tipo são a teoria das placas tectônicas e a teoria da evolução.

    A disposição para admitir ignorância tornou a ciência moderna mais dinâmica, versátil e indagadora do que todas as tradições de conhecimento anteriores. Isso expandiu enormemente nossa capacidade de entender como o mundo funciona e nossa habilidade de inventar novas tecnologias, mas nos coloca diante de um problema sério que a maioria dos nossos ancestrais não precisou enfrentar. Nosso pressuposto atual de que não sabemos tudo e de que até mesmo o conhecimento que temos é provisório se estende aos mitos partilhados que possibilitam que milhões de estranhos cooperem de maneira eficaz. Se as evidências mostrarem que muitos desses mitos são duvidosos, como manter a sociedade unida? Como fazer com que as comunidades, os países e o sistema internacional funcionem?

    Todas as tentativas modernas de estabilizar a ordem sociopolítica não tiveram outra escolha senão confiar em um de dois métodos não científicos:

    a. tomar uma teoria científica e, em oposição a práticas científicas comuns, declarar que é uma verdade final e absoluta. Esse foi o método usado por nazistas (que afirmaram que suas políticas raciais eram corolários de fatos biológicos) e comunistas (que afirmaram que Marx e Lenin haviam revelado verdades econômicas que jamais poderiam ser

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    refutadas); b. deixar a ciência fora disso e viver de acordo com uma verdade absoluta não científica. Essa tem sido a estratégia do humanismo liberal, que se baseia em uma crença dogmática nos direitos e no valor singular dos seres humanos – uma doutrina que tem embaraçosamente pouco em comum com o estudo científico do Homo sapiens.

    Mas isso não deveria nos surpreender. Até mesmo a própria ciência tem de se apoiar em crenças ideológicas e religiosas para justificar e financiar suas pesquisas.

    A cultura atual, entretanto, tem mostrado muito mais disposição para abraçar a ignorância do que qualquer cultura anterior. Uma das coisas que tornaram possível que as ordens sociais modernas se mantenham coesas é a disseminação de uma crença quase religiosa na tecnologia e nos métodos da pesquisa científica, que, em certa medida, substituíram a crença em verdades absolutas.

    O dogma científico

    A ciência moderna não tem dogma. Mas tem um conjunto de métodos de pesquisa em comum, todos baseados em coletar observações empíricas – aquelas que podemos observar com pelo menos um dos nossos sentidos – e reuni-las com a ajuda de ferramentas matemáticas.

    Ao longo da história, as pessoas coletaram observações empíricas, mas a importância dessas observações geralmente era limitada. Por que desperdiçar recursos preciosos fazendo novas observações quando já temos todas as respostas de que necessitamos?

    Mas à medida que a pessoas modernas passaram a admitir que não conheciam as respostas para algumas perguntas muito importantes, acharam necessário procurar conhecimentos completamente novos. Em consequência, o método de pesquisa predominante na atualidade parte do princípio de que o conhecimento antigo é insuficiente. Em vez de estudar as antigas tradições, hoje se dá ênfase a novas observações e experimentos. Quando as observações atuais

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    se chocam com tradições passadas, damos precedência às observações. É claro, físicos examinando o espectro de galáxias distantes, arqueólogos analisando as descobertas de uma cidade da Era do Bronze e cientistas políticos estudando o surgimento do capitalismo não desconsideram a tradição. Eles começam estudando o que os sábios do passado disseram e escreveram. Mas, desde seu primeiro ano de faculdade, os aspirantes a físicos, arqueólogos e cientistas políticos aprendem que é sua missão ir além do que Einstein, Heinrich Schliemann e Max Weber conheceram.

    Meras observações, no entanto, não são conhecimento. Para entender o universo, precisamos relacionar as observações em teorias abrangentes. As tradições anteriores geralmente formulavam suas teorias na forma de histórias. A ciência moderna usa a matemática.

    Há muito poucas equações, gráficos e cálculos na Bíblia, no Corão, nos Vedas ou nos clássicos confucionistas. Quando as mitologias e escrituras tradicionais estabeleciam leis gerais, estas eram apresentadas em forma narrativa, em vez de matemática. Desse modo, um princípio fundamental da religião maniqueísta afirmava que o mundo é um campo de batalha entre o bem e o mal. Uma força maligna criou a matéria, ao passo que uma força benigna criou o espírito. Os humanos estão presos entre essas duas forças e devem escolher o bem em detrimento do mal. Contudo, o profeta Mani não fez qualquer tentativa de oferecer uma fórmula matemática que pudesse ser usada para prever escolhas humanas por meio da quantificação da força respectiva dessas duas forças. Ele nunca calculou que “a força atuando sobre um homem é igual à aceleração de seu espírito dividida pela massa de seu corpo”.

    Isso é exatamente o que os cientistas tentam alcançar. Em 1687, Isaac Newton publicou os Princípios matemáticos da filosofia natural, provavelmente o livro mais importante da história moderna. Newton apresentou uma teoria geral do movimento e da mudança. A grandeza da teoria de Newton foi sua capacidade de explicar e prever os movimentos de todos os corpos do universo, de maçãs despencando a estrelas cadentes, usando três leis matemáticas muito simples:

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    Daí em diante, qualquer pessoa que quisesse entender e prever o movimento de uma bala de canhão ou de um planeta simplesmente tinha de medir a massa, a direção e a aceleração do objeto e as forças atuando sobre ele.

    Ao inserir esses números na equação de Newton, podia prever a posição futura do objeto. Funcionava como mágica. Somente por volta do fim do século XIX os cientistas se depararam com algumas observações que não se enquadravam muito bem nas leis de Newton, e estas levaram às revoluções seguintes na física – a teoria da relatividade e a mecânica quântica.

    Newton mostrou que o livro da natureza está escrito na linguagem da matemática. Alguns capítulos (por exemplo) se reduzem a uma equação simples; mas estudiosos que tentaram reduzir a biologia, a economia e a psicologia a equações newtonianas precisas descobriram que esses campos têm um nível de complexidade que torna inútil tal aspiração. Mas isso não significa que eles desistiram da matemática. Ao longo dos últimos 200 anos, desenvolveu-se um novo ramo da matemática para lidar com os aspectos mais complexos da realidade: a estatística.

    Em 1744, dois clérigos presbiterianos na Escócia, Alexander Webster e Robert Wallace, decidiram criar um fundo de seguro de vida que pagaria pensões a viúvas e órfãos de clérigos falecidos. Eles propuseram que cada um dos pastores de sua igreja dedicasse uma pequena parte de sua renda para o fundo, que investiria o dinheiro. Se um pastor morresse, sua esposa receberia dividendos sobre os lucros do fundo. Isso lhe permitiria viver confortavelmente pelo resto da vida. Porém, para determinar quanto os pastores tinham de pagar a fim de que o fundo tivesse dinheiro suficiente para honrar suas obrigações, Webster e Wallace precisavam ser capazes de prever quantos pastores morreriam a cada ano, quantas viúvas e órfãos eles deixariam e quantos anos as viúvas viveriam a mais do que os maridos.

    Observe o que os dois clérigos não fizeram. Eles não rezaram para que

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    Deus lhes revelasse a resposta. Nem procuraram a resposta nas Escrituras Sagradas ou nas obras de teólogos antigos. Tampouco entraram em uma discussão filosófica abstrata. Sendo escoceses, eram sujeitos práticos. Então, contataram um professor de matemática da Universidade de Edimburgo, Colin Maclaurin. Os três reuniram dados sobre a idade em que as pessoas morriam e usaram esses dados para calcular quantos pastores provavelmente morreriam em determinado ano.

    Seu trabalho se baseou em vários avanços recentes no campo da estatística e da probabilidade. Um desses avanços foi a Lei dos Grandes Números, de Jacob Bernoulli. Bernoulli havia codificado o princípio de que, embora fosse difícil prever com certeza um acontecimento específico, como a morte de uma pessoa em particular, era possível prever com grande precisão o resultado médio de muitos acontecimentos similares. Isto é, embora Maclaurin não pudesse usar a matemática para prever se Webster e Wallace morreriam no ano seguinte, ele podia, com dados suficientes, dizer a Webster e Wallace quantos pastores presbiterianos na Escócia quase certamente morreriam no ano seguinte. Por sorte, eles já contavam com os dados que poderiam usar. Tábuas atuariais publicadas 50 anos antes por Edmond Halley mostraram-se especialmente úteis.

    Halley havia analisado registros de 1.238 nascimentos e 1.174 mortes, obtidos da cidade de Breslávia, na Alemanha. As tábuas de Halley permitiram constatar, por exemplo, que uma pessoa de 20 anos de idade tinha uma chance em 100 de morrer em determinado ano, mas uma pessoa de 50 anos de idade tinha uma chance em 39.

    Processando esses números, Webster e Wallace concluíram que, em média, haveria 930 pastores presbiterianos escoceses vivendo em um dado momento, e uma média de 27 pastores morria por ano, 18 dos quais deixariam viúvas. Cinco dos que não deixariam viúvas deixariam filhos órfãos, e dois dos que deixariam viúvas deixariam também filhos de casamentos anteriores que ainda não haviam completado 16 anos de idade. Posteriormente, eles calcularam quanto tempo deveria se passar até a viúva morrer ou se casar novamente (em ambos os casos, o pagamento da pensão cessaria). Com esses números, Webster e Wallace puderam determinar quanto dinheiro os pastores que aderissem ao fundo teriam de pagar para garantir o futuro de seus entes queridos. Contribuindo com 2 libras, 12 xelins e 2 pence por ano, um pastor podia garantir que a esposa

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    viúva receberia pelo menos 10 libras por ano – uma soma considerável naqueles dias. Se achasse que isso não era suficiente, podia escolher pagar mais, até o limite de 6 libras, 11 xelins e 3 pence por ano – o que garantiria à viúva a soma ainda mais atraente de 25 libras por ano.

    De acordo com seus cálculos, no ano 1765 o Fundo de Pensão para as Viúvas e os Filhos dos Pastores da Igreja da Escócia teria um capital totalizando 58.348 libras. Seus cálculos se mostraram incrivelmente precisos. Quando esse ano chegou, o capital do Fundo era 58.347 libras – apenas uma libra esterlina a menos que o previsto! Isso era ainda melhor do que as profecias de Habacuque, Jeremias ou são João. Hoje, o fundo de Webster e Wallace, conhecido simplesmente como Scottish Widows, é uma das maiores empresas de seguros e pensões do mundo. Com ativos no valor de 100 bilhões de libras, oferece garantias não só a viúvas escocesas, mas a qualquer um disposto a comprar suas apólices.7 Cálculos de probabilidade como os usados pelos dois pastores escoceses se tornaram a base não só da ciência atuarial, que é fundamental para o negócio de seguros e pensões, como também da ciência da demografia (fundada por outro clérigo, o anglicano Thomas Malthus). A demografia, por sua vez, foi o pilar sobre o qual Charles Darwin (que quase se tornou pastor anglicano) construiu sua teoria da evolução. Embora não existam equações capazes de prever que tipo de organismo evoluirá sob certas condições específicas, os geneticistas usam cálculos para determinar a probabilidade de uma mutação específica se disseminar em uma população dada. Modelos probabilísticos similares se tornaram centrais para a economia, a sociologia, a psicologia, a ciência política e as outras ciências sociais e naturais. Até mesmo a física acabou por complementar as equações clássicas de Newton com as nuvens de probabilidade da mecânica quântica.

    Basta observar a história da educação para perceber a que ponto esse processo nos levou. Durante a maior parte da história, a matemática era um campo hermético que até mesmo as pessoas instruídas raras vezes estudavam seriamente. Na Europa medieval, a lógica, a gramática e a retórica formavam o núcleo educacional, ao passo que o ensino de matemática quase nunca ia além da simples aritmética e geometria. Ninguém estudava estatística. A monarca incontestável de todas as ciências era a teologia.

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    Hoje, poucos estudam retórica; a lógica está restrita aos departamentos de filosofia, e a teologia, aos seminários. Mas cada vez mais estudantes são motivados – ou forçados – a estudar matemática. Há um movimento irresistível rumo às ciências exatas – definidas como “exatas” por usarem ferramentas matemáticas. Até mesmo áreas de estudo que tradicionalmente faziam parte das humanidades, como o estudo da linguagem humana (linguística) e da psique humana (psicologia), se apoiam cada vez mais na matemática e tentam se apresentar como ciências exatas. Os cursos de estatística hoje são parte dos requisitos básicos não só na física e na biologia como também na psicologia, na sociologia, na economia e na ciência política.

    No programa de psicologia da minha própria universidade, o primeiro curso obrigatório no currículo é “Introdução à Estatística e à Metodologia em Pesquisa Psicológica”. Estudantes de psicologia do segundo ano cursam “Métodos Estatísticos em Pesquisa Psicológica”. Confúcio, Buda, Jesus e Maomé teriam ficado perplexos se lhes contássemos que, para entender a mente humana e a cura de suas doenças, primeiro é preciso estudar estatística.

    Conhecimento é poder

    A maioria das pessoas tem dificuldade para digerir a ciência moderna porque sua linguagem matemática é de difícil entendimento ao nosso intelecto e suas descobertas muitas vezes contrariam nosso senso comum. Dos 7 bilhões de pessoas no mundo, quantas entendem realmente mecânica quântica, biologia celular ou macroeconomia? A ciência, entretanto, desfruta de enorme prestígio por causa dos novos poderes que nos concede. Presidentes e generais podem não entender física nuclear, mas entendem o que as bombas nucleares são capazes de fazer.

    Em 1620, Francis Bacon publicou um manifesto científico intitulado Novum Organum [Novo instrumento], no qual afirmou que “conhecimento é poder”. A real prova de fogo do “conhecimento” não é se é verdadeiro, mas se nos dá poder. Os cientistas geralmente presumem que nenhuma teoria é 100% correta.

    Em consequência, a verdade não é um bom parâmetro de teste para o conhecimento. O parâmetro real é sua utilidade. Uma teoria que nos permite fazer novas coisas constitui conhecimento.

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    Com o passar dos séculos, a ciência nos ofereceu muitas ferramentas novas. Algumas são ferramentas mentais, como aquelas usadas para prever taxas de mortalidade e crescimento econômico. Ainda mais importantes são as ferramentas tecnológicas. A conexão forjada entre ciência e tecnologia é tão forte que hoje as pessoas tendem a confundir as duas. Tendemos a pensar que é impossível desenvolver novas tecnologias sem pesquisas científicas e que as pesquisas têm pouco sentido se não resultarem em novas tecnologias.

    Na verdade, a relação entre ciência e tecnologia é um fenômeno muito recente. Antes de 1500, ciência e tecnologia eram campos totalmente separados.

    Quando Bacon associou os dois no início do século XVII, foi uma ideia revolucionária. Durante os séculos XVII e XVIII, suas relações se estreitaram, mas o nó só foi atado no século XIX. Mesmo em 1800, a maioria dos governantes que quisessem um exército forte e a maioria dos magnatas que quisessem um negócio próspero não se dava ao trabalho de financiar pesquisas em física, biologia ou economia.

    Não pretendo afirmar que não exista exceção a essa regra. Um bom historiador pode encontrar precedentes para tudo. Mas um historiador ainda melhor sabe quando esses precedentes não passam de curiosidades que obscurecem o grande cenário. De modo geral, a maioria dos governantes e empresários pré-modernos não financiava pesquisas sobre a natureza do universo a fim de desenvolver novas tecnologias, e a maioria dos pensadores não tentava traduzir suas descobertas em dispositivos tecnológicos. Os governantes financiavam instituições educacionais cuja função era disseminar o conhecimento tradicional com o propósito de sustentar a ordem existente.

    Aqui e ali, as pessoas desenvolviam novas tecnologias, mas estas geralmente eram criadas por artesãos não instruídos usando tentativa e erro, e não por estudiosos realizando uma pesquisa científica sistemática. Os fabricantes de carroças construíam as mesmas carroças, feitas dos mesmos materiais, ano após ano. Eles não reservavam um percentual de seus lucros anuais para pesquisar e desenvolver novos modelos de carroças. Ocasionalmente, o desenho da carroça era aprimorado, mas quase sempre graças à engenhosidade de algum carpinteiro local que nunca havia posto os pés em uma universidade e nem sequer sabia ler.

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    Era assim no setor público e também no setor privado. Enquanto os Estados modernos convocam seus cientistas para apresentar soluções em quase todas as áreas da política nacional, de energia e saúde a descarte de resíduos, os reinos antigos raramente faziam isso. O contraste entre passado e presente é mais pronunciado na fabricação de armas. Quando, em 1961, o presidente Dwight Eisenhower, prestes a deixar o cargo, alertou sobre o poder crescente do complexo militar-industrial, ele deixou de fora uma parte da equação. Deveria ter alertado seu país sobre o complexo militar-industrial-científico, porque as guerras de hoje são produções científicas. As forças militares do mundo iniciam, financiam e dirigem uma grande parte das pesquisas científicas e do desenvolvimento tecnológico da humanidade.

    Quando a Primeira Guerra Mundial se transformou em uma guerra de trincheiras interminável, ambos os lados convocaram cientistas para sair do impasse e salvar a nação. Os homens de branco atenderam o chamado, e dos laboratórios saiu um fluxo constante de novas superarmas: aeronaves de combate, gás venenoso, tanques, submarinos, metralhadoras, peças de artilharia, rifles e bombas cada vez mais eficazes.

    A ciência exerceu um papel ainda maior na Segunda Guerra Mundial. No fim de 1944, a Alemanha estava perdendo a guerra, e a derrota era iminente.

    Um ano antes, os italianos, aliados da Alemanha, haviam derrubado Mussolini e se rendido aos Aliados. Mas a Alemanha continuou lutando, embora os exércitos britânico, norte-americano e soviético estivessem se aproximando. Uma razão pela qual os soldados e civis alemães acharam que nem tudo estava perdido é que eles acreditaram que os cientistas alemães estavam prestes a virar o jogo com as chamadas armas milagrosas, como o foguete V2 e o avião a jato.

    Enquanto os alemães estavam trabalhando em foguetes e jatos, nos Estados Unidos o Projeto Manhattan conseguiu desenvolver bombas atômicas. Quando a bomba ficou pronta, no início de agosto de 1945, a Alemanha já havia se rendido, mas o Japão continuava lutando. As forças norte-americanas estavam prontas para invadir suas ilhas. Os japoneses juraram resistir à invasão e lutar até a morte, e havia todas as razões para acreditar que essa não era uma ameaça vazia. Os generais norte-americanos disseram ao presidente Harry S. Truman que uma invasão do Japão custaria a vida de 1 milhão de soldados norteamericanos e estenderia a guerra pelo menos até 1946. Truman decidiu usar a

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    nova bomba. Duas semanas e duas bombas atômicas depois, o Japão se rendeu incondicionalmente, e a guerra chegou ao fim.

    Mas a ciência não se resume a armas ofensivas: também exerce um importante papel em nossas defesas. Hoje, muitos norte-americanos acreditam que a solução para o terrorismo é tecnológica, e não política. Bastaria destinar outros milhões à indústria da nanotecnologia, pensam, e os Estados Unidos poderiam enviar moscas-espiãs biônicas a cada caverna afegã, fortificação iemenita e acampamento norte-africano. Com isso, os herdeiros de Osama bin Laden não seriam capazes de preparar uma xícara de café sem que uma moscaespiã da CIA transmitisse essa informação vital para a sede central em Langley.

    Bastaria destinar outros milhões à neurociência, e cada aeroporto poderia ser equipado com scanners de ressonância magnética cerebral ultrassofisticados que imediatamente seriam capazes de identificar pensamentos de raiva e de ódio no cérebro das pessoas. Isso funcionaria? Quem sabe. É sábio desenvolver moscas biônicas e scanners capazes de ler pensamentos? Não necessariamente. Seja como for, enquanto você lê estas linhas, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos está transferindo milhões de dólares para laboratórios de neurociência e nanotecnologia para trabalhar nessas ideias e em outras similares.

    Essa obsessão por tecnologia militar – de tanques e bombas atômicas a moscas-espiãs – é um fenômeno surpreendentemente recente. Até o século XIX, a grande maioria das revoluções militares foi produto de mudanças organizacionais, e não de mudanças tecnológicas. Quando duas civilizações estranhas se encontravam pela primeira vez, as diferenças tecnológicas às vezes exerciam um papel importante. Mas, mesmo em tais casos, poucos pensavam em criar ou acentuar deliberadamente tais diferenças. A maioria dos impérios não se ergueu graças à magia tecnológica, e seus governantes não davam muita atenção a melhorias tecnológicas. Os árabes não derrotaram o Império Sassânida graças a arcos ou espadas superiores, os seljúcidas não tinham qualquer vantagem tecnológica sobre os bizantinos, e os mongóis não conquistaram a China com a ajuda de alguma superarma. Na verdade, em todos esses casos os eliminados desfrutavam de tecnologias civil e militar superiores.

    O exército romano é um exemplo particularmente bom. Foi o melhor exército de sua época, mas, em termos tecnológicos, Roma não tinha vantagem alguma sobre Cartago, sobre a Macedônia ou sobre o Império Selêucida. Sua

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    vantagem se apoiava em organização eficiente, disciplina rígida e grandes reservas de força humana. O exército romano nunca instaurou um departamento de pesquisa e desenvolvimento, e suas armas continuaram mais ou menos as mesmas por séculos a fio. Se as legiões de Cipião Emiliano – o general que destruiu Cartago e derrotou os numantinos no século II a.C. – tivessem aparecido de repente 500 anos depois, na época de Constantino, o Grande, Cipião teria tido uma boa chance de derrotar Constantino. Agora imagine o que aconteceria com um general séculos atrás – por exemplo, Napoleão – se ele liderasse seu exército contra um batalhão modernamente armado. Napoleão foi um brilhante estrategista, e seus homens eram profissionais excelentes, mas suas habilidades seriam inúteis diante dos armamentos modernos.

    Como em Roma, também na China antiga, a maioria dos generais e filósofos não achava que fosse seu dever desenvolver novas armas. A invenção militar mais importante na história da China foi a pólvora. Mas, até onde sabemos, a pólvora foi inventada por acidente, por alquimistas taoistas à procura do elixir da vida. O destino da pólvora é ainda mais revelador. Alguém poderia pensar que os alquimistas taoistas teriam levado a China a dominar o mundo. Na verdade, os chineses usaram o novo composto principalmente para fabricar fogos de artifício. Mesmo quando o Império Song ruiu diante de uma invasão mongol, nenhum imperador iniciou um Projeto Manhattan medieval para salvar o império inventando uma arma apocalíptica. Foi só no século XV – cerca de 600 anos depois da invenção da pólvora – que os canhões se tornaram um fator decisivo nos campos de batalha da África e da Ásia. Por que levou tanto tempo para que o potencial letal dessa substância fosse usado para fins militares? Porque ela surgiu em uma época em que nem reis, nem estudiosos, nem mercadores pensavam que novas tecnologias militares pudessem salvá-los ou enriquecê-los.

    A situação começou a mudar nos séculos XV e XVI, mas outros 200 anos se passaram antes que a maioria dos governantes manifestasse algum interesse em financiar a pesquisa e o desenvolvimento de novas armas. A logística e a estratégia continuaram a ter um impacto muito maior no resultado das guerras do que a tecnologia. A máquina militar napoleônica que esmagou os exércitos das potências europeias em Austerlitz (1805) foi equipada com mais ou menos os mesmos armamentos que o exército de Luís XVI havia usado. O próprio Napoleão, apesar de ser um soldado de artilharia, tinha pouco interesse em novas

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    armas, embora cientistas e inventores tentassem persuadi-lo a financiar o desenvolvimento de máquinas voadoras, submarinos e foguetes.

    A ciência, a indústria e a tecnologia militar só se entrelaçaram com o advento do sistema capitalista e da Revolução Industrial. Mas, assim que se consolidou, essa relação transformou o mundo rapidamente.

    O ideal de progresso

    Até a Revolução Científica, a maioria das culturas humanas não acreditava em progresso. Elas pensavam que a Era de Ouro estava no passado e que o mundo estava estagnado, se não ruindo. A adesão estrita à sabedoria das eras poderia, talvez, trazer de volta os bons velhos tempos, e a engenhosidade humana poderia melhorar esse ou aquele aspecto da vida cotidiana. No entanto, considerava-se impossível que o conhecimento humano fosse capaz de superar os problemas fundamentais do mundo. Se até mesmo Maomé, Jesus, Buda e Confúcio – que sabiam tudo o que há para se saber – foram incapazes de abolir a fome, a doença, a pobreza e a guerra do mundo, como poderíamos esperar fazer isso?

    Muitos credos sustentavam que algum dia um messias apareceria e colocaria fim a todas as guerras, à fome e até mesmo à própria morte. Mas a noção de que a humanidade pudesse fazer isso adquirindo novos conhecimentos e inventando novas ferramentas era menos do que risível – era arrogante. A história da Torre de Babel, a história de Ícaro, a história do Golem e incontáveis outros mitos ensinavam as pessoas que qualquer tentativa de ir além das limitações humanas inevitavelmente levaria à frustração e ao desastre.

    Quando a cultura moderna admitiu que havia muitas coisas importantes que ainda não sabíamos, e quando a admissão da ignorância se casou com a ideia de que as descobertas científicas poderiam nos dar novas capacidades, as pessoas começaram a suspeitar que o progresso real poderia ser possível, afinal. À medida que a ciência começou a resolver um problema insolúvel atrás de outro, muitos se convenceram de que a humanidade poderia superar todo e cada um dos problemas que a aflige adquirindo e aplicando novos conhecimentos. A pobreza, a doença, as guerras, a fome, a velhice e a própria morte não eram o destino inevitável da humanidade. Eram simplesmente fruto da nossa ignorância.

    Um exemplo famoso é o relâmpago. Muitas culturas acreditavam que o

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    relâmpago fosse o martelo de um deus furioso, usado para punir os pecadores.

    Em meados do século XVIII, em um dos experimentos mais celebrados da história científica, Benjamin Franklin empinou uma pipa durante uma tempestade com relâmpagos para testar a hipótese de que o relâmpago é simplesmente uma corrente elétrica. As observações empíricas de Franklin, somadas ao seu conhecimento sobre as características da energia elétrica, lhe permitiram inventar o para-raios e desarmar os deuses.

    A pobreza é outro exemplo. Muitas culturas viam a pobreza como parte inescapável deste mundo imperfeito. De acordo com o Novo Testamento, logo antes da crucificação uma mulher untou Cristo com um bálsamo precioso no valor de 300 denários. Os discípulos de Jesus repreenderam a mulher por gastar uma soma tão grande de dinheiro em vez de dá-la aos pobres, mas Jesus a defendeu, dizendo: “Sempre tendes os pobres convosco, e podeis fazer-lhes bem, quando quiserdes; mas a mim nem sempre me tendes” (Marcos 14:7). Hoje, cada vez menos pessoas, incluindo cada vez menos cristãos, concordam com Jesus nesse aspecto. A pobreza é, cada vez mais, vista como um problema técnico passível de intervenção. É amplamente sabido que políticas baseadas nas últimas descobertas em agronomia, economia, medicina e sociologia podem eliminar a pobreza.

    E, de fato, muitas partes do mundo já se livraram das piores formas de privação. Ao longo da história, as sociedades padeceram de dois tipos de pobreza:

    a pobreza social, que nega a algumas pessoas as oportunidades disponíveis para outras; e a pobreza biológica, que põe em risco a própria vida dos indivíduos por falta de alimento e abrigo. Talvez a pobreza social jamais seja erradicada, mas em muitos países a pobreza biológica é coisa do passado.

    Até pouco tempo atrás, a maioria das pessoas estavam muito próximas da linha de pobreza biológica, abaixo da qual um indivíduo carece das calorias necessárias para sobreviver. Até mesmo pequenos infortúnios ou erros de cálculo podiam facilmente empurrá-las para baixo dessa linha, para a morte pela fome.

    Desastres naturais e calamidades provocadas pelo homem frequentemente precipitavam populações inteiras no abismo, causando a morte de milhões. Hoje, a maior parte das pessoas do mundo tem uma rede de proteção estendida abaixo delas. Os indivíduos são protegidos de infortúnios pessoais por meio de seguro, previdência social financiada pelo Estado e uma série de ONGs locais e

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    internacionais. Quando uma calamidade atinge uma região inteira, os esforços mundiais de ajuda humanitária muitas vezes conseguem evitar o pior. As pessoas ainda sofrem com uma série de degradações, humilhações e doenças associadas à pobreza, mas na maioria dos países ninguém está morrendo de fome. Na verdade, em muitas sociedades há mais pessoas correndo o risco de morrer de obesidade do que de fome.

    O projeto Gilgamesh

    De todos os problemas visivelmente insolúveis da humanidade, um continuou sendo o mais intrigante, interessante e importante: o problema da morte propriamente dita. Antes do fim da era moderna, a maioria das religiões e ideologias aceitava que a morte era nosso destino inevitável. Além disso, a maioria dos credos fazia da morte a principal fonte de significado em vida. Tente imaginar o islamismo, o cristianismo ou a antiga religião egípcia em um mundo sem morte. Esses credos ensinavam às pessoas que elas deviam acertar as contas com a morte e apostar suas fichas na vida após a morte, em vez de procurar superá-la e viver para sempre aqui na Terra. As mentes mais brilhantes estavam ocupadas dando significado à morte, e não tentando fugir dela.

    Esse é o tema do mito mais antigo a chegar até nós – o mito de Gilgamesh, da antiga Suméria. Seu herói é o homem mais forte e mais capaz em todo o mundo, o rei Gilgamesh de Uruk, que poderia vencer qualquer batalha. Um dia, o melhor amigo de Gilgamesh, Enkidu, morreu. Gilgamesh se sentou ao lado do corpo e o observou por muitos dias, até que viu um verme saindo da narina do amigo. Nesse momento, Gilgamesh foi tomado por um grande horror e decidiu que jamais morreria. De algum modo, ele encontraria uma forma de derrotar a morte. Então Gilgamesh empreendeu uma jornada até o fim do universo, matando leões, enfrentando homens-escorpiões e encontrando seu caminho até o submundo. Lá, ele destruiu as misteriosas “coisas de pedra” de Urshanabi, o balseiro do rio dos mortos, e encontrou Utnapishtim, o último sobrevivente da inundação primordial. Mas Gilgamesh fracassou em sua busca. Ele voltou para casa de mãos vazias, mortal como sempre, mas com um novo conhecimento.

    Gilgamesh aprendeu que, quando criaram o homem, os deuses estipularam que a morte é seu destino inevitável e que o homem precisa aprender a conviver com

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    isso.

    Os discípulos do progresso não partilham dessa atitude derrotista. Para os homens da ciência, a morte não é um destino inevitável, mas meramente um problema técnico. As pessoas morrem não porque os deuses o decretaram, mas em decorrência de uma série de falhas técnicas: um ataque do coração, um câncer, uma infecção. E cada problema técnico tem uma solução técnica. Se o coração palpita, pode ser estimulado por um marca-passo ou substituído por um coração novo. Se o câncer se espalha, pode ser destruído com medicamentos ou radiação. Se bactérias se proliferam, podem ser controladas com antibióticos. É verdade, hoje não somos capazes de resolver todos os problemas técnicos. Mas estamos trabalhando para isso. Nossas mentes mais brilhantes não estão desperdiçando tempo tentando dar significado à morte. Em vez disso, estão ocupadas investigando os sistemas fisiológico, hormonal e genético responsáveis pelas doenças e pela velhice. Estão desenvolvendo novos medicamentos, tratamentos revolucionários e órgãos artificiais que prolongarão nossa vida e, talvez, um dia vencerão a própria Morte.

    Até recentemente, você não teria escutado cientistas, ou qualquer outra pessoa, falando de maneira tão direta. “Derrotar a morte?! Que absurdo! Só estamos tentando curar o câncer, a tuberculose e a doença de Alzheimer”, insistiam. As pessoas evitavam a questão da morte porque o objetivo parecia demasiado ilusório. Por que criar expectativas pouco razoáveis? Agora, no entanto, estamos em um ponto em que podemos ser francos a esse respeito. O principal projeto da Revolução Científica é dar à humanidade a vida eterna.

    Mesmo que derrotar a morte pareça um objetivo distante, já alcançamos coisas que eram inconcebíveis há alguns séculos. Em 1199, o rei Ricardo Coração de Leão foi atingido por uma flecha em seu ombro esquerdo. Hoje diríamos que sofreu um ferimento sem importância. Mas, em 1199, na ausência de antibióticos e métodos de esterilização eficazes, essa pequena ferida se infectou e a gangrena se instalou. No século XII, a única maneira de impedir que a gangrena se instalasse era amputar o membro infectado, algo impossível quando a infecção era em um ombro. A gangrena se espalhou pelo corpo do rei e ninguém pôde ajudá-lo. Ele morreu agonizando duas semanas depois.

    Mesmo no século XIX, os melhores médicos ainda não sabiam como

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    evitar a infecção e impedir a putrefação de tecidos. Nos hospitais dos campos de batalha, os médicos rotineiramente amputavam mãos e pernas de soldados que eram vítimas até mesmo de ferimentos menores, temendo a gangrena. Essas amputações, bem como todos os outros procedimentos médicos (como a extração de um dente), eram feitas sem anestesia. A primeira anestesia – éter, clorofórmio e morfina – só passou a ser usada regularmente na medicina ocidental em meados do século XIX. Antes do advento do clorofórmio, era preciso que quatro soldados segurassem um companheiro ferido enquanto o médico amputava o membro atingido. Na manhã após a batalha de Waterloo (1815), viam-se montes de mãos e pernas amputados ao lado dos hospitais nos campos de batalha. Naqueles dias, carpinteiros e açougueiros que se alistavam no exército muitas vezes eram enviados para servir no batalhão médico, porque a cirurgia requeria pouco mais do que saber usar serras e facas.

    Nos dois séculos que se passaram desde Waterloo, as coisas mudaram completamente. Comprimidos, injeções e operações sofisticadas nos salvam de uma enxurrada de doenças e ferimentos que um dia significaram uma inevitável sentença de morte. Também nos protegem de inúmeras dores e males cotidianos que os indivíduos pré-modernos simplesmente aceitavam como parte da vida. A expectativa de vida média saltou de 25-40 anos para 67 no mundo inteiro e para cerca de 80 anos nos países desenvolvidos.8 A morte sofreu seus piores golpes na arena da mortalidade infantil. Até o século XX, entre um quarto e um terço das crianças das sociedades agrícolas jamais chegavam à vida adulta. A maioria delas sucumbia a doenças infantis como difteria, rubéola e varíola. Na Inglaterra do século XVII, 150 de cada mil recém-nascidos morriam no primeiro ano de vida, e um terço de todas as crianças morriam antes de completar 15 anos.9 Hoje, apenas cinco de cada mil bebês ingleses morrem no primeiro ano de vida, e apenas sete de cada mil morrem antes de completar 15 anos.10 Podemos entender melhor o impacto desses números deixando de lado as estatísticas e contando algumas histórias. Um bom exemplo é a família do rei Eduardo I da Inglaterra (1237-1307) e sua esposa, a rainha Leonor (1241-1290).

    Seus filhos desfrutavam das melhores condições e viviam no ambiente mais próspero possível da Europa medieval. Viviam em palácios, comiam o quanto quisessem, tinham inúmeras roupas quentes, lareiras bem abastecidas, a água

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    mais pura disponível, um exército de servos e os melhores médicos. As fontes mencionam 16 filhos que a rainha Leonor deu à luz entre 1255 e 1284:

    1. 1. uma filha sem nome, nascida em 1255, morreu durante o nascimento;
    2. 2. uma filha, Catarina, morreu com 1 ou 3 anos;
    3. 3. uma filha, Joana, morreu com 6 meses;
    4. 4. um filho, João, morreu com 5 anos;
    5. 5. um filho, Henrique, morreu com 6 anos;
    6. 6. uma filha, Leonor, morreu com 29 anos;
    7. 7. uma filha anônima morreu com 5 meses;
    8. 8. uma filha, Joana, morreu com 35 anos;
    9. 9. um filho, Afonso, morreu com 10 anos;
    10. 10. uma filha, Margarida, morreu com 58 anos;
    11. 11. uma filha, Berengária, morreu com 2 anos;
    12. 12. uma filha sem nome morreu logo após o nascimento;
    13. 13. uma filha, Maria, morreu com 53 anos;
    14. 14. um filho sem nome morreu logo após o nascimento;
    15. 15. uma filha, Isabel, morreu com 34 anos;
    16. 16. um filho, Eduardo.

    O mais jovem, Eduardo, foi o primeiro dos garotos a sobreviver aos anos perigosos da infância e, quando seu pai morreu, ele subiu ao trono inglês como rei Eduardo II. Em outras palavras, Leonor fez 16 tentativas até cumprir a missão mais fundamental de uma rainha inglesa: proporcionar um herdeiro ao marido. A mãe de Eduardo II deve ter sido uma mulher de paciência e fortaleza excepcionais. Já não se pode dizer o mesmo da mulher que Eduardo escolheu como esposa, Isabela da França. Ela mandou assassiná-lo quando ele tinha 43 anos.11 Até onde sabemos, Leonor e Eduardo I eram um casal saudável e não transmitiram nenhuma doença hereditária fatal a seus filhos. No entanto, 10 dos 16 – 62% – morreram durante a infância. Apenas 6 conseguiram viver além dos 11 anos, e apenas três – meros 18% – viveram mais de 40. Além desses nascimentos, Leonor provavelmente teve uma série de gestações que terminaram em aborto. Em média, Eduardo e Leonor perderam um filho a cada três anos, dez filhos um após outro. Nos dias de hoje, é quase impossível para um

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    pai conceber tal perda.

    Quanto tempo tardará o Projeto Gilgamesh? Cem anos? Quinhentos anos? Mil anos? Quando lembramos o pouco que sabíamos sobre o corpo humano em 1900 e quanto conhecimento adquirimos em um único século, há motivo para otimismo. Engenheiros genéticos recentemente prolongaram em seis vezes a expectativa de vida média dos vermes Caenorhabditis elegans.12 Por que não fazer o mesmo pelo Homo sapiens? Especialistas em nanotecnologia estão desenvolvendo um sistema imunológico biônico composto de milhões de nanorobôs, que habitariam nossos corpos, abririam vasos sanguíneos obstruídos, combateriam vírus e bactérias, eliminariam células cancerosas e até mesmo reverteriam processos de envelhecimento.13 Alguns pesquisadores sérios sugerem que, por volta de 2050, alguns humanos terão se tornados amortais (não imortais, porque ainda poderiam morrer em decorrência de algum acidente, mas amortais, o que significaria que, na ausência de um trauma fatal, suas vidas poderiam ser indefinidamente extendidas).

    Independentemente de o Projeto Gilgamesh vir a se concretizar ou não, de uma perspectiva histórica é fascinante ver que a maioria das religiões e ideologias do fim da era moderna já tiraram a morte e a vida após a morte da equação. Até o fim do século XVIII, a maioria das religiões concebia a morte e o que vem depois dela como fundamentais para o significado da vida.

    Começando no século XVIII, religiões e ideologias como o liberalismo, o socialismo e o feminismo perderam todo o interesse na vida após a morte. O que, exatamente, acontece com um comunista depois que morre? O que acontece com um capitalista? O que acontece com uma feminista? Não faz sentido procurar a resposta nos escritos de Marx, Adam Smith ou Simone de Beauvoir. A única ideologia moderna que ainda reserva um papel central à morte é o nacionalismo. Em seus momentos mais poéticos e desesperados, o nacionalismo promete que os que morrerem pela nação viverão para sempre na memória coletiva. Mas essa promessa é tão difusa que nem mesmo os mais nacionalistas sabem o que pensar dela.

    Os padrinhos da ciência

    Estamos vivendo em uma era técnica. Muitas pessoas estão convencidas de que a

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    ciência e a tecnologia encerram as respostas para todas as nossas perguntas. Nós apenas deveríamos deixar os cientistas e técnicos prosseguirem com seu trabalho, e eles criarão o céu aqui na terra.

    Mas a ciência não é algo que acontece em algum plano moral ou espiritual superior, acima do restante das atividades humanas. Como todas as outras partes da nossa cultura, é definida por interesses econômicos, políticos e religiosos.

    A ciência é uma atividade muito cara. Um biólogo que procura entender o sistema imunológico humano necessita de laboratórios, tubos de ensaio, substâncias químicas e microscópios eletrônicos, sem falar de assistentes de laboratório, eletricistas, encanadores e faxineiros. Um economista que pretende criar modelos de mercados de crédito precisa comprar computadores, configurar bancos de dados gigantes e desenvolver programas complexos de processamento de dados. Um arqueólogo que deseja entender o comportamento dos caçadores-coletores antigos precisa viajar a terras distantes, escavar ruinas antigas e datar artefatos e ossos fossilizados. Tudo isso custa dinheiro.

    Ao longo dos últimos 500 anos, a ciência moderna alcançou maravilhas graças, em grande parte, à disposição de governos, negócios, fundações e doadores privados para destinar bilhões de dólares à pesquisa científica. Esses bilhões fizeram muito mais do que representar o universo, mapear o planeta e catalogar o reino animal do que Galileu Galilei, Cristóvão Colombo e Charles Darwin. Se esses gênios em particular nunca tivessem nascido, provavelmente outros teriam tido as mesmas ideias que eles. Mas se o financiamento adequado não estivesse disponível, nenhum brilhantismo intelectual poderia compensar isso.

    Se Darwin nunca tivesse nascido, por exemplo, hoje atribuiríamos a teoria da evolução a Alfred Russel Wallace, que propôs a ideia de evolução via seleção natural independentemente de Darwin poucos anos depois. Mas se as potências europeias não tivessem financiado pesquisas geográficas, zoológicas e botânicas em todo o mundo, nem Darwin nem Wallace teriam tido acesso aos dados empíricos necessários para desenvolver a teoria da evolução. É provável que não tivessem sequer tentado.

    Por que bilhões começaram a fluir dos cofres do governo e dos negócios para os laboratórios e as universidades? Nos círculos acadêmicos, muitos são ingênuos o bastante para acreditar na ciência pura. Acreditam que, em uma atitude altruísta, os governos e os negócios lhes dão dinheiro para que eles se

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    dediquem aos projetos de pesquisa que desejarem. Mas isso está longe de descrever a realidade do financiamento científico.

    A maioria dos estudos científicos são financiados porque alguém acredita que eles podem ajudar a alcançar algum objetivo político, econômico ou religioso. Por exemplo, no século XVI, os reis e os banqueiros destinaram muitíssimos recursos para financiar expedições geográficas pelo mundo, mas nem um centavo para estudar a psicologia infantil. Isso porque os reis e os banqueiros supunham que a descoberta de novos conhecimentos geográficos lhes permitiria conquistar novas terras e construir impérios comerciais, ao passo que não conseguiam ver nenhuma vantagem em entender a psicologia infantil.

    Nos anos 1940, os governos dos Estados Unidos e da União Soviética destinaram recursos consideráveis ao estudo da física nuclear em vez de à arqueologia subaquática. Eles supuseram que estudar física nuclear lhes permitiria desenvolver novas armas nucleares, ao passo que a arqueologia subaquática dificilmente ajudaria a vencer guerras. Os próprios cientistas nem sempre estão cientes dos interesses políticos, econômicos e religiosos que controlam o fluxo do dinheiro; muitos deles na verdade agem por pura curiosidade intelectual. No entanto, muito raramente são os cientistas que determinam a agenda científica.

    Mesmo que quiséssemos financiar ciência pura, não afetada por interesses políticos, econômicos ou religiosos, provavelmente seria impossível. Afinal, nossos recursos são limitados. Peça a um congressista dos Estados Unidos para destinar 1 milhão de dólares adicional à Fundação Nacional da Ciência de seu país a fim de financiar pesquisas elementares, e ele, compreensivelmente, perguntará se o dinheiro não seria mais bem utilizado para financiar a capacitação de professores ou para conceder uma necessária isenção de impostos a uma fábrica em seu distrito que vem enfrentando dificuldades. Para destinar recursos limitados, precisamos responder perguntas do tipo “O que é mais importante?” e “O que é bom?”. E essas não são perguntas científicas. A ciência pode explicar o que existe no mundo, como as coisas funcionam e o que poderia haver no futuro. Por definição, não tem pretensões de saber o que deveria haver no futuro. Somente as religiões e as ideologias procuram responder a essas perguntas.

    Considere o seguinte dilema: dois biólogos do mesmo departamento, tendo

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    as mesmas habilidades profissionais, se candidataram a uma bolsa de 1 milhão de dólares para financiar seus projetos de pesquisa atuais. O professor Slughorn quer estudar uma doença que infecta os úberes de vacas, causando uma redução de 10% em sua produção de leite. A professora Sprout quer estudar se as vacas sofrem mentalmente quando são separadas dos bezerros. Presumindo que a quantidade de dinheiro é limitada e que é impossível financiar ambos os projetos de pesquisa, qual dos dois deve ser financiado?

    Não há uma resposta científica para essa pergunta. Há apenas respostas políticas, econômicas e religiosas. No mundo de hoje, é óbvio que Slughorn tem maior chance de obter o dinheiro. Não porque as doenças do úbere sejam cientificamente mais interessantes do que a mentalidade bovina, mas porque a indústria leiteira, que está em posição de se beneficiar da pesquisa, tem mais influência política e econômica do que os defensores dos direitos dos animais.

    Talvez em uma sociedade hindu estrita, onde as vacas são sagradas, ou em uma sociedade comprometida com os direitos dos animais, a professora Sprout tivesse mais chance. Mas, enquanto viver em uma sociedade que valorize mais o potencial comercial do leite e a saúde de seus cidadãos humanos do que os sentimentos das vacas, faria melhor em redigir sua proposta de pesquisa de modo a torná-la atrativa para tais pressupostos. Por exemplo, ela poderia escrever: “A depressão leva a uma diminuição na produção de leite. Se compreendermos o mundo mental das vacas leiteiras, poderemos desenvolver medicamentos psiquiátricos que melhorarão seu humor, aumentando em até 10% sua produção de leite. Estimo que haja um mercado global anual de 250 milhões de dólares para medicamentos psiquiátricos bovinos”.

    A ciência é incapaz de estabelecer suas próprias prioridades. Também é incapaz de determinar o que fazer com suas descobertas. Por exemplo, de uma perspectiva puramente científica, não está claro o que devemos fazer com nossa compreensão cada vez maior da genética. Devemos usar esse conhecimento para curar o câncer, para criar uma raça de super-homens geneticamente modificados ou para criar vacas leiteiras com úberes extragrandes? É óbvio que um governo liberal, um governo comunista, um governo nazista e uma corporação capitalista usariam a mesma descoberta científica com objetivos completamente diferentes, e não há nenhuma razão científica para preferir um uso em detrimento de outro.

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    Em suma, a pesquisa científica só pode florescer se aliada a alguma religião ou ideologia. A ideologia justifica os custos da pesquisa. Em troca, a ideologia influencia a agenda científica e determina o que fazer com as descobertas. Daí decorre que para compreender como a humanidade chegou a Alamogordo e à Lua – e não a uma série de destinos alternativos – não é suficiente fazer um levantamento das conquistas de físicos, biólogos e sociólogos.

    Precisamos levar em consideração as forças ideológicas, políticas e econômicas que definem a física, a biologia e a sociologia, empurrando-as em certas direções e negligenciando outras.

    Duas forças em particular merecem nossa atenção: o imperialismo e o capitalismo. O ciclo de retroalimentação entre ciência, império e capital provavelmente foi o principal motor da história nos últimos 500 anos. Os capítulos a seguir analisam seu funcionamento. Primeiro examinaremos como as turbinas gêmeas da ciência e do império foram unidas uma à outra e então estudaremos como ambas foram acopladas à máquina de dinheiro do capitalismo.

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    15. O casamento entre ciência e império

    O casamento entre ciência e império Qual a distância entre o Sol e a Terra? Essa é uma pergunta que intrigou muitos astrônomos no início da era moderna, em particular depois que Copérnico afirmou que o Sol, e não a Terra, é o centro do universo. Uma série de astrônomos e matemáticos tentaram calcular a distância, mas seus métodos deram resultados muitíssimo variados. Finalmente, em meados do século XVIII, alguém propôs um meio confiável de fazer a medição. A cada poucos anos, o planeta Vênus passa diretamente entre o Sol e a Terra. A duração do trânsito difere quando visto de pontos distantes da superfície da Terra, devido à diferença minúscula no ângulo em que o observador se encontra. Se várias observações do mesmo trânsito fossem feitas de diferentes continentes, a trigonometria simples seria tudo que necessitaríamos para calcular a distância exata entre a Terra e o Sol.

    Os astrônomos previram que os próximos trânsitos de Vênus ocorreriam em 1761 e 1769. Então, expedições foram enviadas da Europa aos quatro cantos do mundo a fim de observar o trânsito de tantos pontos distantes quanto possível.

    Em 1761, os cientistas observaram o trânsito da Sibéria, da América do Norte, de Madagascar e da África do Sul. Quando o trânsito de 1769 se aproximava, a comunidade científica europeia fez um esforço ainda maior e enviou cientistas para o norte do Canadá e a Califórnia (que, na época, era uma região de natureza selvagem). A Sociedade Real de Londres para o Progresso do Conhecimento Natural concluiu que isso não era suficiente. Para obter os resultados mais precisos, era necessário enviar um astrônomo ao sudoeste do oceano Pacífico.

    A Sociedade Real resolveu enviar um astrônomo eminente, Charles Green, para o Taiti e não poupou esforços nem dinheiro. Mas, tendo em vista que estava financiando uma expedição tão cara, não fazia muito sentido usá-la para apenas uma única observação astronômica. Por isso, Green foi acompanhado de uma equipe de outros oito cientistas de várias disciplinas, liderados pelos botânicos Joseph Banks e Daniel Solander. A equipe também incluía artistas incumbidos de produzir desenhos das novas terras, plantas, animais e pessoas que os cientistas certamente encontrariam. Equipada com os instrumentos científicos mais avançados que Banks e a Sociedade Real puderam comprar, a expedição foi

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    entregue ao comando do capitão James Cook, um marinheiro experiente, além de geógrafo e etnógrafo tarimbado.

    A expedição partiu da Inglaterra em 1768, observou o trânsito de Vênus do Taiti em 1769, fez o reconhecimento de várias ilhas do Pacífico, visitou a Austrália e a Nova Zelândia e regressou à Inglaterra em 1771. Trouxe de volta uma enorme quantidade de dados astronômicos, geográficos, meteorológicos, botânicos, zoológicos e antropológicos. Suas descobertas fizeram importantes contribuições para uma série de disciplinas, instigaram a imaginação dos europeus com histórias impressionantes do Pacífico Sul e inspiraram futuras gerações de naturalistas e astrônomos.

    Um dos campos que se beneficiaram da expedição de Cook foi a medicina.

    Na época, os navios que partiam para terras distantes sabiam que mais da metade dos membros de sua tripulação morreria durante a viagem. O adversário não eram nativos furiosos, navios inimigos ou saudades da terra natal, e sim uma enfermidade misteriosa chamada escorbuto. Os homens acometidos pela doença ficavam letárgicos e deprimidos, e suas gengivas e outros tecidos moles sangravam. À medida que a doença avançava, seus dentes caíam, surgiam feridas abertas, e eles ficavam febris, amarelados e perdiam o controle dos membros. Estima-se que, entre os séculos XVI e XVIII, o escorbuto tenha cobrado a vida de 2 milhões de marinheiros. Ninguém sabia o que o causava e, por mais que se experimentassem vários medicamentos, os marinheiros continuavam morrendo às dezenas. A situação mudou em 1747, quando um médico britânico, James Lind, realizou um experimento controlado em marinheiros que sofriam da doença. Ele os separou em vários grupos e deu a cada grupo um tratamento diferente. Um dos grupos de teste foi instruído a ingerir frutas cítricas, um remédio popular contra o escorbuto. Os pacientes nesse grupo se recuperaram rapidamente. Lind não sabia o que as frutas cítricas continham que faltava nos corpos dos marinheiros, mas hoje sabemos que é vitamina C. Na época, a dieta típica de um navio era notadamente pobre em alimentos que são ricos nesse nutriente essencial. Em viagens longas, os marinheiros geralmente subsistiam à base de biscoitos e carne seca e quase não comiam frutas e legumes.

    A Marinha Real não se convenceu com os experimentos de Lind, mas James Cook, sim. Ele resolveu provar que o médico estava certo. Carregou o

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    barco com uma grande quantidade de chucrute e ordenou que seus marinheiros comessem frutas e legumes frescos em abundância sempre que a expedição parasse em terra firme. Cook não perdeu um único marinheiro vítima de escorbuto. Nas décadas seguintes, as marinhas do mundo inteiro adotaram a dieta náutica de Cook, e a vida de inúmeros marinheiros e passageiros foi poupada.1 No entanto, a expedição de Cook teve outro resultado, muito menos benigno. Cook era não só um marinheiro e geógrafo experiente como também um oficial da marinha. A Sociedade Real financiou grande parte das despesas da expedição, mas o navio propriamente dito foi fornecido pela Marinha Real. A marinha também disponibilizou 85 navegantes e marinheiros bem armados e equipou o navio com artilharia, mosquetes, pólvora e outros armamentos. Grande parte das informações coletadas pela expedição – em particular, os dados astronômicos, geográficos, meteorológicos e antropológicos – tinha um claro valor político e militar. A descoberta de um tratamento eficaz para o escorbuto contribuiu enormemente para o controle britânico dos oceanos e sua capacidade de enviar exércitos para o outro lado do mundo. Cook reivindicou para a Grã-Bretanha muitas das ilhas e terras que ele “descobriu”, mais notadamente a Austrália. E sua expedição assentou as bases para a ocupação britânica no sudoeste do oceano Pacífico, para a conquista da Austrália, da Tasmânia e da Nova Zelândia, para o assentamento de milhões de europeus nas novas colônias e para a exterminação de suas culturas nativas e da maior parte de suas populações nativas.2 No século que se seguiu à expedição de Cook, as terras mais férteis da Austrália e da Nova Zelândia foram tomadas de seus antigos habitantes pelos colonizadores europeus. A população nativa foi reduzida em 90%, e os sobreviventes foram submetidos a um regime cruel de opressão racial. Para os aborígenes da Austrália e os maoris da Nova Zelândia, a expedição de Cook foi o começo de uma catástrofe da qual jamais se recuperaram.

    Um destino ainda pior acometeu os nativos da Tasmânia. Tendo sobrevivido por 10 mil anos em total isolamento, eles foram completamente exterminados, até o último homem, mulher e criança, um século após a chegada de Cook.

    Primeiro os colonizadores europeus os expulsaram das partes mais ricas da ilha e depois, cobiçando até mesmo as terras inóspitas que sobraram, os perseguiram e mataram sistematicamente. Os poucos sobreviventes foram acossados para um

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    campo de concentração evangélico, onde missionários bem-intencionados, mas não exatamente tolerantes, tentaram doutriná-los nos costumes do mundo moderno. Os tasmanianos foram instruídos na leitura e na escrita, no cristianismo e em várias “habilidades produtivas”, como costurar roupas e trabalhar na lavoura. Mas eles se recusavam a aprender. Foram se tornando cada vez mais melancólicos, deixavam de ter filhos, perdiam todo o interesse pela vida e acabavam por escolher a única forma de escapar do mundo moderno da ciência e do progresso: a morte.

    Infelizmente, a ciência e o progresso os perseguiram até mesmo após a morte. Em nome da ciência, antropólogos e curadores se apropriaram dos cadáveres dos últimos tasmanianos, os quais foram dissecados, pesados e medidos, e analisados em artigos especializados. Seus cérebros e esqueletos foram expostos em museus e em coleções antropológicas. Foi só em 1976 que o Museu da Tasmânia permitiu o enterro do esqueleto de Truganini, o último tasmaniano nativo, morto cem anos antes. O Colégio Real de Cirurgiões da Inglaterra manteve amostras de sua pele e de seu cabelo até 2002.

    O navio de Cook foi uma expedição científica protegida por uma força militar ou uma expedição militar acompanhada por alguns cientistas? Isso é como perguntar se o copo está meio cheio ou meio vazio. A resposta é: ambos. A Revolução Científica e o imperialismo moderno foram inseparáveis. Pessoas como o capitão James Cook e o botânico Joseph Banks dificilmente conseguiriam distinguir a ciência do império. E o desafortunado Truganini também não.

    Por que a Europa?

    O fato de que pessoas de uma grande ilha no Atlântico Norte conquistaram uma grande ilha no sul da Austrália é um dos acontecimentos mais estranhos da história. Não muito antes da expedição de Cook, as Ilhas Britânicas e a Europa Ocidental de modo geral não passavam de uma região afastada do mundo mediterrâneo. Pouca coisa de importante havia acontecido ali. Até mesmo o Império Romano – o único império pré-moderno importante – obteve a maior parte de sua riqueza de suas províncias na África do Norte, nos Bálcãs e no Oriente Médio. As províncias romanas na Europa Ocidental eram um pobre Velho Oeste, que contribuiu com pouca coisa além de minerais e escravos. O

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    norte da Europa era tão desolado e bárbaro que nem sequer valia a pena conquistá-lo.

    Foi só no fim do século XV que a Europa se tornou uma incubadora de importantes avanços militares, políticos, econômicos e culturais. Entre 1500 e 1750, a Europa Ocidental ganhou ímpeto e se tornou senhora do “Mundo Exterior”, ou seja, dos dois continentes americanos e dos oceanos. Mas mesmo então a Europa não era páreo para as grandes potências da Ásia. Os europeus conseguiram conquistar a América e obter a supremacia no mar principalmente porque as potências asiáticas mostraram pouco interesse por eles. O início da era moderna foi uma época de ouro para o Império Otomano no Mediterrâneo, o Império Safávida na Pérsia, o Império Mogol na Índia e as dinastias Ming e Qing na China. Esses impérios expandiram consideravelmente seus territórios e desfrutaram de um crescimento econômico e demográfico sem precedentes.

    Em 1775, a Ásia era responsável por 80% da economia mundial. A economia combinada da Índia e da China representava dois terços da produção global. Em comparação, a Europa era um anão econômico.3 O centro de poder global só passou para a Europa entre 1750 e 1850, quando os europeus humilharam as potências asiáticas em uma série de guerras e conquistaram grandes partes da Ásia. Em 1900, os europeus controlavam firmemente a economia mundial e a maior parte de seu território. Em 1950, a Europa Ocidental e os Estados Unidos, juntos, eram responsáveis por mais da metade da produção global, ao passo que a porção da China havia sido reduzida a 5%.4 Sob a égide europeia, surgiram uma nova ordem global e uma nova cultura global. Hoje todos os humanos são, muito mais do que em geral estão dispostos a admitir, europeus em suas vestimentas, ideias e gostos. Podem ser ferrenhos opositores dos europeus em sua retórica, mas quase todos no planeta veem a política, a medicina, a guerra e a economia da perspectiva dos europeus e escutam músicas compostas em estilos europeus com palavras em idiomas europeus. Até mesmo a próspera economia chinesa de hoje, que possivelmente logo reconquistará a primazia global, é edificada sobre um modelo europeu de produção e financiamento.

    Como as pessoas dessa península gelada da Eurásia conseguiram sair de seu canto remoto do globo e conquistar o mundo inteiro? Com frequência, grande parte do crédito vai para os cientistas da Europa. É inquestionável que de 1850

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    em diante a dominação europeia se apoiou, em grande medida, no complexo militar-industrial-científico e na magia tecnológica. Todos os impérios prósperos do fim da era moderna cultivaram a pesquisa científica na esperança de colher inovações tecnológicas, e muitos cientistas passaram a maior parte do tempo trabalhando em armamentos, medicamentos e máquinas para seus senhores imperiais. Um ditado comum entre os soldados europeus enfrentando inimigos africanos era “Venha o que vier, nós temos metralhadoras; eles não”. As tecnologias civis eram não menos importantes. Comida enlatada alimentava soldados, ferrovias e navios a vapor transportavam soldados e suas provisões, ao passo que um novo arsenal de medicamentos curava soldados, marinheiros e engenheiros de locomotivas. Esses avanços logísticos exerceram um papel muito mais importante na conquista europeia da África do que as metralhadoras.

    Mas não era assim antes de 1850. O complexo militar-industrial-científico ainda estava em sua infância; os frutos tecnológicos da Revolução Científica estavam verdes; e a brecha tecnológica entre as potências europeias, asiáticas e africanas era pequena. Em 1770, James Cook certamente tinha uma tecnologia muito melhor do que os aborígenes australianos, mas os chineses e os otomanos também. Sendo assim, por que a Austrália foi explorada e colonizada pelo capitão James Cook, e não pelo capitão Wan Zhengse ou pelo capitão Hussein Pasha? E, o que é mais importante, se em 1770 os europeus não tinham qualquer vantagem tecnológica significativa sobre muçulmanos, indianos e chineses, como eles conseguiram, no século seguinte, abrir tamanha brecha entre si mesmos e o resto do mundo?

    Por que o complexo militar-industrial-científico floresceu na Europa, e não na Índia? Quando a Grã-Bretanha saiu na frente, por que a França, a Alemanha e os Estados Unidos logo seguiram seus passos, enquanto a China ficou para trás?

    Quando a distância entre as nações industriais e não industriais se tornou um fator político e econômico óbvio, por que a Rússia, a Itália e a Áustria conseguiram superá-la, enquanto a Pérsia, o Egito e o Império Otomano não? Afinal, a tecnologia da primeira onda industrial era relativamente simples. Era assim tão difícil para os chineses ou os otomanos projetar motores a vapor, fabricar metralhadoras e construir ferrovias?

    A primeira ferrovia comercial do mundo foi inaugurada em 1830, na Grã-Bretanha. Em 1850, as nações ocidentais eram atravessadas por quase 40 mil

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    quilômetros de ferrovias – mas em toda a Ásia, África e América Latina havia apenas 4 mil quilômetros de trilhos. Em 1880, o Ocidente ostentava mais de 350 mil quilômetros de ferrovias, enquanto no resto do mundo havia apenas 35 mil quilômetros de linhas de trem (e a maioria delas foi construída pelos britânicos na Índia).5 A primeira ferrovia na China só foi inaugurada em 1876. Tinha 25 quilômetros de extensão e foi construída por europeus – o governo chinês a destruiu no ano seguinte. Em 1880, o Império Chinês não operava uma única ferrovia. A primeira ferrovia na Pérsia só foi construída em 1888 e conectava Teerã a um lugar sagrado muçulmano cerca de dez quilômetros ao sul da capital.

    Foi construída e operada por uma empresa belga. Em 1950, a malha ferroviária total da Pérsia ainda totalizava meros 2,5 mil quilômetros, em um país com sete vezes o tamanho da Grã-Bretanha.6 Os chineses e os persas não careciam de invenções tecnológicas como os motores a vapor (que podiam ser comprados ou copiados livremente). Eles careciam dos valores, dos mitos, do aparato jurídico e das estruturas sociopolíticas que levaram séculos para se formar e amadurecer no Ocidente e que não podiam ser copiadas e internalizadas rapidamente. A França e os Estados Unidos logo seguiram os passos da Grã-Bretanha porque os franceses e os norteamericanos já partilhavam das estruturas sociais e dos mitos britânicos mais importantes. Os chineses e os persas não conseguiram acompanhar tão depressa porque pensavam e organizavam suas sociedades de maneira diferente.

    Essa explicação lança nova luz sobre o período de 1500 a 1850. Durante essa época, a Europa não desfrutou de nenhuma vantagem tecnológica, política, militar ou econômica óbvia sobre as potências asiáticas, mas o continente desenvolveu um potencial único, cuja importância se tornou clara subitamente por volta de 1850. A aparente igualdade entre a Europa, a China e o mundo muçulmano em 1770 era uma miragem. Imagine dois construtores, cada um deles ocupado construindo torres muito altas. Um construtor usa madeira e tijolos de barro, ao passo que o outro usa aço e concreto. No início, parece que não há grande diferença entre os dois métodos, já que ambas as torres crescem a um ritmo similar e atingem uma altura semelhante. No entanto, assim que um limiar crítico é ultrapassado, a torre de barro e madeira não consegue aguentar a pressão e desaba, enquanto a torre de aço e concreto cresce andar por andar, até onde a vista alcança.

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    Que potencial a Europa desenvolveu no início da era moderna que lhe permitiu dominar o mundo no fim dessa era? Há duas respostas complementares para essa pergunta: a ciência moderna e o capitalismo. Os europeus estavam acostumados a pensar e se comportar de maneira científica e capitalista muito antes de desfrutarem alguma vantagem tecnológica. Quando a bonança tecnológica começou, eles puderam aproveitá-la muito melhor do que todos os demais. Então, dificilmente é uma coincidência que a ciência e o capitalismo formem o legado mais importante que o imperialismo europeu deixou para o mundo pós-europeu do século XXI. A Europa e os europeus já não dominam o mundo, mas a ciência e o capital estão cada vez mais fortes. As vitórias do capitalismo são examinadas no capítulo seguinte. Este capítulo é dedicado à história de amor entre o imperialismo europeu e a ciência moderna.

    A mentalidade da conquista

    A ciência moderna floresceu graças aos impérios europeus. Tem, certamente, uma grande dívida para com tradições científicas antigas, como as da Grécia clássica, da China, da Índia e do Islã, mas sua característica singular só começou a tomar forma no início da era moderna, de mãos dadas com a expansão imperial da Espanha, Portugal, Grã-Bretanha, França, Rússia e Holanda. Durante o início do período moderno, chineses, indianos, muçulmanos, polinésios e indígenas americanos continuaram a fazer importantes contribuições à Revolução Científica. As ideias de economistas muçulmanos foram estudadas por Adam Smith e Karl Marx, tratamentos usados pela primeira vez por indígenas americanos foram parar em textos médicos britânicos e dados extraídos de informantes polinésios revolucionaram a antropologia ocidental. Mas até meados do século XX as pessoas que reuniram essas várias descobertas científicas, criando disciplinas científicas, eram as elites governantes e intelectuais dos impérios globais europeus. O Extremo Oriente e o mundo islâmico produziram mentes tão inteligentes e curiosas quanto as da Europa. No entanto, entre 1500 e 1950 eles não produziram nada que chegasse perto da física newtoniana ou da biologia darwiniana.

    Isso não significa que os europeus têm um gene inigualável para a ciência, ou que dominarão para sempre o estudo da física e da biologia. Assim como o

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    islamismo começou como um monopólio árabe, mas posteriormente foi adotado por turcos e persas, a ciência moderna também começou como uma especialidade europeia, mas hoje está se tornando uma iniciativa multiétnica.

    O que forjou o vínculo histórico entre a ciência moderna e o imperialismo europeu? A tecnologia foi um fator importante nos séculos XIX e XX, mas no início da era moderna sua importância era limitada. O fator fundamental foi que o botânico à procura de plantas e o oficial da marinha à procura de colônias tinham uma mentalidade similar. Ambos, cientista e conquistador, começaram admitindo sua ignorância – ambos disseram: “Eu não sei o que existe lá”. Ambos se sentiram compelidos a sair e fazer novas descobertas. E ambos esperaram que o novo conhecimento assim adquirido os tornasse senhores do mundo.

    O imperialismo europeu foi totalmente diferente de todos os outros projetos imperiais na história. Antes disso, os que buscavam construir um império tendiam a presumir que já entendiam o mundo. A conquista só utilizava e disseminava sua visão do mundo. Os árabes, para citar um exemplo, não conquistaram o Egito, a Espanha ou a Índia a fim de descobrir algo que não soubessem. Os romanos, mongóis e astecas conquistaram vorazmente novas terras em busca de poder e riqueza – não de conhecimento. Já os imperialistas europeus partiam para terras distantes na esperança de obter novos conhecimentos junto com novos territórios.

    James Cook não foi o primeiro explorador a pensar dessa maneira. Os viajantes portugueses e espanhóis dos séculos XV e XVI já pensavam assim. O príncipe Henrique, o Navegador, e Vasco da Gama exploraram a costa da África e, ao fazê-lo, assumiram o controle de ilhas e portos. Cristóvão Colombo “descobriu” a América e imediatamente reivindicou para os reis da Espanha a soberania sobre as novas terras. Fernando de Magalhães conseguiu dar a volta ao mundo e, ao mesmo tempo, assentou as bases para a conquista espanhola das Filipinas.

    Com o passar do tempo, a conquista de conhecimento e a conquista de território se tornaram cada vez mais interligadas. Nos séculos XVIII e XIX, praticamente toda expedição militar importante que partia da Europa rumo a terras distantes levava a bordo cientistas incumbidos não de lutar, e sim de fazer descobertas científicas. Quando Napoleão invadiu o Egito em 1798, levou consigo 165 estudiosos. Entre outras coisas, eles fundaram uma disciplina totalmente nova, a egiptologia, e fizeram importantes contribuições para o estudo de religião,

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    linguística e botânica.

    Em 1831, a Marinha Real enviou o navio HMS Beagle para mapear a costa da América do Sul, das Ilhas Malvinas e das Ilhas Galápagos. A marinha precisava desse conhecimento para fortalecer o jugo imperial sobre a América do Sul. O capitão do navio, que era um cientista amador, decidiu incluir um geólogo na expedição para estudar formações geológicas que poderiam encontrar no caminho. Depois que vários geólogos profissionais recusaram seu convite, o capitão ofereceu o posto a um jovem de 22 anos formado em Cambridge, Charles Darwin. Darwin havia estudado para ser pastor anglicano, mas estava muito mais interessado em geologia e ciências naturais do que na Bíblia. Darwin agarrou a oportunidade, e o resto é história. Durante a viagem, o capitão passou o tempo desenhando mapas militares, enquanto Darwin coletou os dados empíricos e formulou as ideias que se tornariam a teoria da evolução.

    Em 20 de julho de 1969, Neil Armstrong e Buzz Aldrin aterrissaram na superfície da Lua. Nos meses que antecederam sua expedição, os astronautas da Apollo 11 treinaram em um deserto remoto similar ao da Lua, no oeste dos Estados Unidos.

    A área é o lar de várias comunidades indígenas, e existe uma história – ou lenda – descrevendo um encontro entre os astronautas e um dos habitantes locais.

    Um dia, enquanto estavam treinando, os astronautas se depararam com um velho índio. O homem lhes perguntou o que eles estavam fazendo lá. Eles responderam que eram parte de uma expedição de pesquisa que em breve viajaria para explorar a Lua. Quando o velho escutou isso, ficou em silêncio por alguns instantes e então perguntou aos astronautas se eles poderiam lhe fazer um favor.

    – O que você quer? – eles perguntaram.

    – Bem – disse o velho –, as pessoas da minha tribo acreditam que a Lua é habitada por espíritos sagrados. Eu estava pensando se vocês poderiam transmitir a eles uma mensagem importante do meu povo.

    – Qual é a mensagem? – perguntaram os astronautas.

    O homem proferiu algo em sua língua tribal e então pediu que os astronautas repetissem de novo e de novo, até memorizarem corretamente.

    – O que significa? – os astronautas perguntaram.

    – Ah, não posso lhes dizer. É um segredo que só a nossa tribo e os espíritos da Lua podem saber.

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    Quando voltaram à base, os astronautas procuraram e procuraram até que encontraram alguém que sabia falar a língua tribal e lhe pediram para traduzir a mensagem secreta. Quando repetiram o que haviam memorizado, o tradutor começou a gargalhar. Quando se acalmou, os astronautas perguntaram o que significava. O homem explicou que a frase que eles memorizaram com tanto cuidado queria dizer: “Não acredite em uma única palavra do que essas pessoas estão lhe dizendo. Eles vieram roubar suas terras”.

    Mapas vazios

    A mentalidade moderna de “exploração e conquista” é belamente ilustrada pelo desenvolvimento de mapas-múndi. Muitas culturas desenharam mapas-múndi bem antes da era moderna. É claro que nenhuma delas conhecia realmente o mundo inteiro. Nenhuma cultura africana ou asiática sabia da América, e nenhuma cultura americana sabia da África ou da Ásia. Mas áreas desconhecidas eram simplesmente deixadas de fora, ou preenchidas com maravilhas e monstros imaginários. Esses mapas não tinham espaços vazios.

    Davam a impressão de uma familiaridade com o mundo inteiro.

    Durante os séculos XV e XVI, os europeus começaram a desenhar mapasmúndi com vários espaços vazios – um indício do desenvolvimento de uma mentalidade científica, como também do ímpeto imperial europeu. Os mapas vazios foram um avanço psicológico e ideológico, uma clara admissão de que os europeus ignoravam grandes partes do mundo.

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    23. Um mapa-múndi europeu de 1459. A Europa se encontra no topo, à esquerda; o Mediterrâneo e a África, logo abaixo; e a Ásia está à direita. O mapa é cheio de detalhes, mesmo ao representar partes do mundo que eram totalmente desconhecidas dos europeus, como a porção sul da África.

    O ponto de virada crucial ocorreu em 1492, quando Cristóvão Colombo navegou da Espanha rumo ao oeste, procurando uma nova rota para chegar ao leste da Ásia. Colombo ainda acreditava nos mapas-múndi “completos”. Usando-os, Colombo calculou que o Japão devia estar situado cerca de 7 mil quilômetros a oeste da Espanha. Na verdade, mais de 20 mil quilômetros e todo um continente desconhecido separam o leste da Ásia da Espanha. Em 12 de outubro

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    de 1492, por volta das duas horas da manhã, a expedição de Colombo colidiu com o continente desconhecido. Juan Rodriguez Bermejo, observando do mastro de sua embarcação, Pinta, avistou uma ilha no que hoje chamamos de Bahamas e gritou: “Terra à vista! Terra à vista!”.

    Colombo acreditou que havia chegado a uma pequena ilha na costa leste da Ásia. Ele chamou as pessoas que encontrou de “índios” porque pensou que havia chegado às Índias – que hoje chamamos de Índias Orientais, ou arquipélago indonésio. Colombo alimentou esse erro pelo resto da vida. A ideia de que havia descoberto um continente completamente desconhecido era inconcebível para ele e para muitos da sua geração. Durante milhares de anos, não só os maiores pensadores e estudiosos como também as infalíveis Escrituras só tinham conhecimento da Europa, da África e da Ásia. Era possível que todos tivessem errado? A Bíblia pode ter ignorado metade do mundo? Seria como se, em 1969, a caminho da Lua, a Apolo 11 tivesse se chocado com um satélite até então desconhecido circundando a Terra, que todas as observações anteriores de algum modo foram incapazes de avistar. Em sua recusa em admitir ignorância, Colombo ainda era um homem medieval. Ele estava convencido de que conhecia o mundo inteiro, e nem mesmo sua descoberta grandiosa foi capaz de convencê-lo do contrário.

    O primeiro homem moderno foi Américo Vespúcio, um marinheiro italiano que participou de várias expedições à América de 1499 a 1504. Entre 1502 e 1504, dois textos descrevendo essas expedições foram publicados na Europa. Eles foram atribuídos a Vespúcio. Os textos afirmavam que as novas terras descobertas por Colombo não eram ilhas na costa leste da Ásia, e sim um continente inteiro desconhecido pelas Escrituras, pelos geógrafos clássicos e pelos europeus da época. Em 1507, convencido por esses argumentos, um respeitado cartógrafo chamado Martin Waldseemüller publicou um mapa-múndi atualizado, o primeiro a mostrar o lugar onde haviam chegado as frotas que partiram da Europa rumo a Oeste como um continente separado. Após desenhá-lo, Waldseemüller precisou batizá-lo. Acreditando erroneamente que Américo Vespúcio foi a pessoa que o descobriu, Waldseemüller batizou o continente em sua homenagem – América. O mapa de Waldseemüller ficou muito popular e foi copiado por muitos outros cartógrafos, difundindo o nome que ele havia dado à nova terra. Há justiça poética no fato de que um quarto do mundo e dois de seus

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    sete continentes receberam o nome de um italiano pouco conhecido cuja única razão para a fama é que ele teve a coragem de dizer “nós não sabemos”.

    A descoberta da América foi o acontecimento fundacional da Revolução Científica. Não apenas ensinou os europeus a preferirem observações presentes a tradições passadas, mas o desejo de conquistar a América também obrigou os europeus a buscarem novos conhecimentos o mais rápido possível. Se eles realmente quisessem controlar os vastos novos territórios, precisariam coletar uma enorme quantidade de dados sobre a geografia, o clima, a flora, a fauna, as línguas, as culturas e a história do novo continente. As Escrituras cristãs, os velhos livros de geografia e as antigas tradições orais eram de pouca ajuda.

    24. O mapa-múndi de Salviati, 1525. Enquanto o mapa-múndi de 1459 está cheio de continentes, ilhas e explicações detalhadas, o mapa de Salviati está praticamente vazio. O olho percorre a costa americana rumo ao sul, até que desaparece no vazio. Ao observar este mapa, qualquer pessoa minimamente curiosa é tentada a perguntar: “O que há além desse ponto?”. O mapa não dá nenhuma resposta. Convida o observador a içar velas e descobrir.

    Daí em diante, não só os geógrafos europeus como também os estudiosos europeus em quase todas as outras áreas de conhecimento começaram a desenhar mapas-múndi com espaços a serem preenchidos. Começaram a admitir que suas teorias não eram perfeitas e que havia coisas importantes que eles ainda não conheciam.

    Os europeus foram atraídos para os pontos em branco no mapa como se

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    esses fossem ímãs, e imediatamente começaram a preenchê-los. Durante os séculos XV e XVI, expedições europeias circum-navegaram a África, exploraram a América, atravessaram os oceanos Pacífico e Índico e criaram uma rede de bases e colônias no mundo inteiro. Elas estabeleceram os primeiros impérios verdadeiramente globais e teceram a primeira rede de comércio global. As expedições imperiais europeias transformaram a história do mundo:

    de uma série de histórias de povos e culturas isoladas, transformou-se na história de uma única sociedade humana integrada.

    Essas expedições europeias de exploração e conquista são tão familiares para nós que tendemos a não perceber o quanto foram extraordinárias. Nada parecido havia acontecido antes. Campanhas de conquista de longa distância não são uma atividade natural. Ao longo da história, a maioria das sociedades humanas estava tão ocupada com conflitos locais e brigas entre vizinhos que jamais cogitou explorar e conquistar terras distantes. A maioria dos grandes impérios só estendia seu controle sobre a vizinhança imediata – só chegava a terras distantes porque a vizinhança continuava se expandindo. Assim, os romanos conquistaram a Etrúria a fim de defender Roma (c. 350-300 a.C.).

    Então conquistaram o vale do Pó a fim de defender a Etrúria (c. 200 a.C.). Em seguida, conquistaram Provença para defender o vale do Pó (c. 120 a.C.), a Gália para defender Provença (c. 50 a.C) e a Britânia para defender a Gália (c.

    50). Eles levaram 400 anos para chegar de Roma a Londres. Em 350 a.C., nenhum romano teria concebido navegar diretamente à Britânia e conquistá-la.

    Ocasionalmente, um governante ou aventureiro ambicioso embarcava em uma campanha de conquista de longo alcance, mas tais campanhas costumavam percorrer caminhos imperiais e comerciais conhecidos. As campanhas de Alexandre, o Grande, por exemplo, não resultaram no estabelecimento de um novo império, e sim na usurpação de um império existente – o dos persas. Os precedentes mais próximos dos impérios europeus modernos foram os antigos impérios navais de Atenas e Cartago e o império naval medieval de Majapahit, que dominou grande parte da Indonésia no século XIV. Mas até mesmo esses impérios raramente se aventuraram em mares desconhecidos – suas explorações navais eram iniciativas locais em comparação com os empreendimentos globais dos europeus modernos.

    Muitos acadêmicos afirmam que as viagens do almirante Zheng He, da

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    dinastia Ming na China, prenunciaram e eclipsaram as viagens de descoberta dos europeus. Entre 1405 e 1433, Zheng liderou sete grandes armadas da China aos rincões mais distantes do oceano Índico. A maior dessas armadas consistia de quase 300 embarcações e transportou quase 30 mil pessoas.7 Eles visitaram a Indonésia, o Sri Lanka, a Índia, o Golfo Pérsico, o Mar Vermelho e a África Oriental. Navios chineses ancoraram em Jidá, o principal porto do Hejaz, e em Melinde, na costa queniana. A frota de Colombo de 1492 – que consistia de três embarcações pequenas com uma tripulação de 120 marinheiros – era como um trio de mosquitos se comparada com a viagem de dragões de Zheng He.8 Mas havia uma diferença crucial. Zheng He explorou os oceanos e auxiliou governantes pró-chineses, mas ele não tentou conquistar ou colonizar os países que visitou. Além disso, as expedições de Zheng He não estavam arraigadas na política e na cultura chinesa. Quando a facção governante em Pequim mudou durante os anos 1430, os novos soberanos encerraram abruptamente a operação.

    A grande frota foi desmantelada, perderam-se conhecimentos técnicos e geográficos cruciais e nenhum outro explorador de sua estatura voltou a partir de um porto chinês. Os governantes chineses nos séculos seguintes, como a maioria dos governantes chineses nos séculos anteriores, restringiram seus interesses e ambições aos arredores imediatos do Reino do Meio.

    As expedições de Zheng He provam que a Europa não desfrutava de uma vantagem tecnológica excepcional. O que tornou os europeus excepcionais foi sua ambição insaciável e inigualável por explorar e conquistar. Embora talvez tivessem a habilidade necessária, os romanos nunca tentaram conquistar a Índia ou a Escandinávia, os persas nunca tentaram conquistar Madagascar ou a Espanha, e os chineses nunca tentaram conquistar a Indonésia ou a África. A maioria dos governantes chineses deixou até mesmo o vizinho Japão por sua própria conta. Não havia nada de peculiar nisso. A peculiaridade é que os europeus no início da era moderna foram tomados por uma febre que os levou a navegar para terras distantes e totalmente desconhecidas, repletas de culturas estranhas, pisar nas suas areias e imediatamente declarar: “Reivindico todos estes territórios para o meu rei!”.

    Invasão do espaço sideral

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    Por volta de 1517, os colonizadores espanhóis nas ilhas do Caribe começaram a ouvir rumores vagos sobre um império poderoso em algum lugar no centro do território mexicano. Meros quatro anos depois, a capital asteca estava praticamente em ruínas, o Império Asteca era coisa do passado, e Hernán Cortés dominava um novo e vasto império espanhol no México.

    Os espanhóis não pararam para comemorar nem para tomar fôlego. Eles imediatamente deram início a operações de exploração e conquista em todas as direções. Os governantes anteriores da América Central – os astecas, os toltecas, os maias – mal sabiam que a América do Sul existia e jamais haviam feito qualquer tentativa de subjugá-la, ao longo de 2 mil anos. No entanto, em pouco mais de dez anos, Francisco Pizarro descobriu o Império Inca na América do Sul, e o subjugou em 1532.

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    Mapa 7. Os impérios Asteca e Inca na época da conquista espanhola.

    Se os astecas e os incas tivessem mostrado um pouco mais de interesse pelo mundo à sua volta – e se soubessem o que os espanhóis haviam feito com seus vizinhos –, poderiam ter resistido melhor à conquista espanhola. Nos anos que separam a primeira viagem de Colombo à América (1492) da chegada de Cortés no México (1519), os espanhóis conquistaram a maior parte das ilhas do Caribe, fundando um conjunto de novas colônias. Para os nativos subjugados, essas colônias eram o inferno na Terra. Eles eram governados com mão de ferro por colonizadores gananciosos e inescrupulosos que os escravizavam e os colocavam para trabalhar em minas e lavouras, matando qualquer um que oferecesse a menor resistência. A maior parte da população nativa morreu logo, por causa das árduas condições de trabalho ou da virulência das doenças que pegaram carona para a América nos navios dos conquistadores. Em 20 anos,

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    quase toda a população nativa do Caribe foi exterminada. Os colonizadores espanhóis começaram a importar escravos africanos para preencher o vácuo.

    Esse genocídio aconteceu bem diante do Império Asteca, mas, quando Cortés chegou à costa oriental do império, os astecas não sabiam nada a respeito.

    A chegada dos espanhóis foi o equivalente a uma invasão alienígena vinda do espaço sideral. Os astecas estavam convencidos de que conheciam o mundo inteiro e de que governavam a maior parte dele. Para eles, era inimaginável que fora de seu domínio pudesse existir alguma coisa como os espanhóis. Quando Cortés e seus homens aportaram nas praias ensolaradas da atual Vera Cruz, foi a primeira vez que os astecas encontraram pessoas completamente desconhecidas.

    Os astecas não souberam como reagir. Tiveram dificuldade em decidir o que eram aqueles estranhos. Ao contrário de todos os humanos conhecidos, os alienígenas tinham pele branca. Também tinham muitos pelos no rosto. Alguns tinham cabelo da cor do sol. Tinham um odor terrível. (A higiene dos nativos era muito melhor que a higiene dos espanhóis. Quando os espanhóis chegaram pela primeira vez no México, nativos portando queimadores de incenso foram incumbidos de acompanhá-los onde quer que eles fossem. Os espanhóis pensaram que fosse um sinal de honra divina. Sabemos, com base em fontes dos nativos, que eles consideravam o cheiro dos recém-chegados insuportável.) A cultura material dos forasteiros era ainda mais impressionante. Eles chegaram em embarcações gigantescas, de um tipo jamais imaginado, muito menos visto pelos astecas. Cavalgavam no dorso de animais enormes e assustadores, rápidos como o vento. Eram capazes de produzir relâmpago e trovão com espetos brilhantes de metal. Tinham espadas compridas e reluzentes e armaduras impenetráveis, contra as quais as espadas de madeira e as lanças de sílex dos nativos eram inúteis.

    Alguns astecas pensaram que decerto se tratava de deuses. Outros afirmavam que eram demônios, ou o fantasma dos mortos, ou feiticeiros poderosos. Em vez de concentrar todas as forças disponíveis e exterminar os espanhóis, os astecas deliberaram, perderam tempo e negociaram. Não viram motivo para se apressar. Afinal, Cortés tinha não mais de 550 espanhóis consigo.

    O que 550 homens poderiam fazer a um império de milhões?

    Cortés era igualmente ignorante acerca dos astecas, mas ele e seus homens tinham vantagens significativas sobre os adversários. Enquanto os astecas não

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    tinham experiência alguma em se preparar para a chegada desses forasteiros de aparência estranha e odor repugnante, os espanhóis sabiam que o planeta estava cheio de reinos humanos desconhecidos, e ninguém era mais perito que eles em invadir terras estrangeiras e lidar com situações sobre as quais eram totalmente ignorantes. Para o conquistador europeu moderno, assim como para o cientista europeu moderno, mergulhar no desconhecido era estimulante.

    Então, quando ancorou naquela praia ensolarada em julho de 1519, Cortés não hesitou em agir. Como um alienígena de ficção científica saindo de sua espaçonave, ele declarou aos locais boquiabertos: “Nós viemos em paz. Levem-nos ao seu líder”. Cortés explicou que era um emissário pacífico do grande rei da Espanha e pediu uma entrevista diplomática com o governante asteca, Montezuma II. (Isso era uma mentira deslavada. Cortés liderou uma expedição independente de aventureiros gananciosos. O rei da Espanha nunca tinha ouvido falar de Cortés nem dos astecas.) Cortés recebeu guias, alimentos e algum auxílio militar de inimigos locais dos astecas. Então, marchou rumo à capital asteca, a grande metrópole de Tenochtitlán.

    Os astecas permitiram que os forasteiros marchassem até a capital e então, respeitosamente, conduziram seu líder ao encontro do imperador Montezuma. No meio da entrevista, Cortés deu um sinal, e espanhóis com armaduras de aço assassinaram os guarda-costas de Montezuma (equipados apenas com porretes de madeira e lâminas de pedra). O convidado de honra fez de seu anfitrião um prisioneiro.

    Cortés estava agora em uma situação muito delicada. Ele havia capturado o imperador, mas estava cercado por dezenas de milhares de guerreiros inimigos furiosos, milhões de civis hostis e todo um continente sobre o qual ele não sabia praticamente nada. Tinha à sua disposição apenas algumas centenas de homens, e os reforços espanhóis mais próximos estavam em Cuba, a mais de 1,5 mil quilômetros de distância.

    Cortés manteve Montezuma cativo no palácio, fazendo parecer que o rei continuava livre e no comando e que o “embaixador espanhol” era não mais do que um convidado. O Império Asteca era um regime político extremamente centralizado, e essa situação sem precedentes o paralisou. Montezuma continuou a se comportar como se governasse o império, e a elite asteca continuou a obedecê-lo, o que significava que obedecia a Cortés. Tal situação se prolongou

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    por meses, durante os quais Cortés interrogou Montezuma e seus criados, capacitou tradutores em vários idiomas locais e enviou pequenas expedições de espanhóis em todas as direções para se familiarizar com o Império Asteca e as várias tribos, povos e cidades por ele governados.

    A elite asteca acabou por se voltar contra Cortés e Montezuma, elegeu um novo imperador e expulsou os espanhóis de Tenochtitlán. No entanto, a essa altura várias rachaduras haviam aparecido no edifício imperial. Cortés usou o conhecimento que havia adquirido para forçar ainda mais as rachaduras e destruir o império de dentro para fora. Convenceu muitos dos súditos do império a se unirem a ele contra a elite asteca. Os súditos calcularam mal. Eles odiavam os astecas, mas não sabiam nada sobre a Espanha nem sobre o genocídio no Caribe. Presumiram que, com a ajuda espanhola, poderiam abalar a influência asteca. A ideia de que os espanhóis assumiriam o poder jamais lhes ocorrera.

    Eles tinham certeza de que, se Cortés e suas poucas centenas de escudeiros causassem algum problema, poderiam ser subjugados facilmente. Os povos rebeldes forneceram a Cortés um exército de dezenas de milhares de tropas locais, e com essa ajuda Cortés cercou Tenochtitlán e conquistou a cidade.

    Nessa época, cada vez mais soldados e colonizadores espanhóis começaram a chegar ao México, alguns vindos de Cuba, outros da Espanha.

    Quando os povos locais perceberam o que estava acontecendo, era tarde demais.

    Um século após a chegada dos espanhóis em Vera Cruz, a população nativa das Américas havia encolhido 90% devido sobretudo a doenças desconhecidas que chegaram à América com os invasores. Os sobreviventes se encontravam sob o domínio de um regime racista e ganancioso que era muito pior que o dos astecas.

    Dez anos depois que Cortés aportou no México, Pizarro chegou à costa do Império Inca. Ele tinha muito menos soldados do que Cortés – sua expedição totalizava apenas 168 homens! Mas Pizarro se beneficiou de todo o conhecimento e de toda a experiência obtidos nas invasões anteriores. Os incas, por sua vez, não sabiam nada sobre o destino dos astecas. Pizarro plagiou Cortés. Ele se declarou um emissário pacífico do rei da Espanha, convidou o governante inca, Atahualpa, para uma entrevista diplomática e então o sequestrou. Pizarro seguiu em frente, conquistando o império paralisado com a ajuda dos aliados locais. Se os súditos do Império Inca conhecessem o destino dos habitantes do México, não teriam se unido aos invasores. Mas eles não sabiam.

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    Os povos nativos da América não foram os únicos a pagar um preço alto por sua visão tacanha. Os grandes impérios da Ásia – o otomano, o safávida, o mogol e o chinês – logo ficaram sabendo que os europeus haviam descoberto algo grande, mas mostraram pouco interesse por essas descobertas. Continuaram a acreditar que o mundo girava em torno da Ásia e não fizeram qualquer tentativa de competir com os europeus pelo controle da América ou das novas rotas marítimas no Atlântico e no Pacífico. Até mesmo reinos europeus pequenos como a Escócia e a Dinamarca enviaram algumas expedições de exploração e conquista para a América, mas nem uma de tais expedições jamais partiu do mundo islâmico, da Índia ou da China. A primeira potência não europeia que tentou enviar uma expedição militar à América foi o Japão. Isso aconteceu em junho de 1942, quando uma expedição japonesa conquistou Kiska e Attu, duas pequenas ilhas na costa do Alasca, capturando, no processo, dez soldados norteamericanos e um cachorro. Isso foi o mais perto que os japoneses chegaram do continente.

    É difícil argumentar que os otomanos ou os chineses estavam longe demais, ou que careciam dos meios tecnológicos, econômicos ou militares necessários. Os recursos que enviaram Zheng He da China à África Oriental nos anos 1420 deviam ser suficientes para chegar à América. Os chineses simplesmente não estavam interessados. O primeiro mapa-múndi chinês a mostrar a América só foi publicado em 1602 – e por um missionário europeu!

    Durante 300 anos, os europeus desfrutaram de supremacia indisputada na América e na Oceania, no Atlântico e no Pacífico. As únicas batalhas significativas nessas regiões foram entre potências europeias. A riqueza e os recursos acumulados pelos europeus nessas áreas acabaram por lhes permitir invadir também a Ásia, derrotar os impérios asiáticos e dividi-la entre si. Quando otomanos, persas, indianos e chineses despertaram e começaram a prestar atenção, era tarde demais.

    Foi só no século XX que culturas não europeias adotaram uma visão verdadeiramente global. Esse foi um dos fatores cruciais que levaram ao colapso da hegemonia europeia. Assim, na Guerra de Independência da Argélia (1954- 1962), as guerrilhas argelinas derrotaram um exército francês que gozava de uma esmagadora vantagem numérica, tecnológica e econômica. Os argelinos prevaleceram porque foram apoiados por uma rede mundial anti-imperialismo e

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    porque souberam mobilizar os meios de comunicação de todo o mundo a favor de sua causa, bem como a opinião pública na própria França. A derrota que o pequeno Vietnã do Norte infligiu ao colosso norte-americano se baseou em uma estratégia similar. Essas forças guerrilheiras mostraram que até mesmo as superpotências podiam ser derrotadas se uma batalha local fosse transformada em uma causa global. É interessante pensar no que teria acontecido se Montezuma tivesse sido capaz de manipular a opinião pública espanhola e obter auxílio de um dos rivais da Espanha – Portugal, a França ou o Império Otomano.

    Aranhas raras e sistemas de escrita esquecidos

    A ciência moderna e os impérios modernos foram motivados pela incessante sensação de que talvez algo importante os esperasse além do horizonte – algo que era melhor explorar e dominar. Mas a relação entre ciência e império era muito mais profunda. Não só a motivação como também as práticas dos que erguiam impérios se confundiam com as dos cientistas. Para os europeus modernos, construir um império era um projeto científico, e criar uma disciplina científica era um projeto imperial.

    Quando conquistaram a Índia, os muçulmanos não levaram consigo arqueólogos para estudar sistematicamente a história indiana, antropólogos para estudar as culturas indianas, geólogos para estudar os solos indianos ou zoólogos para estudar a fauna indiana. Quando conquistaram a Índia, os britânicos fizeram todas essas coisas. Em 10 de abril de 1802, foi lançado o Grande Levantamento da Índia. Durou 60 anos. Com a ajuda de dezenas de milhares de guias, estudiosos e trabalhadores nativos, os britânicos mapearam cuidadosamente toda a Índia, demarcando fronteiras, medindo distâncias e inclusive calculando, pela primeira vez, a altura exata do monte Everest ou dos outros picos dos Himalaias.

    Os britânicos exploraram os recursos militares das províncias indianas e a localização das minas de ouro, mas também se deram ao trabalho de coletar informações sobre aranhas indianas raras, catalogar borboletas coloridas, estudar as origens antigas de línguas indianas extintas e escavar ruínas esquecidas.

    Mohenjo-daro foi uma das principais cidades da civilização do vale do rio Indo, que floresceu no terceiro milênio a.C. e foi destruída por volta de 1900 a.C.

    Antes dos britânicos, nenhum governante da Índia – nem os máurias, nem os

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    guptas, nem os sultões de Délhi, nem os grandes mogóis – havia prestado atenção às ruínas. Mas uma pesquisa arqueológica britânica encontrou o sítio em 1922.

    Uma equipe britânica então o escavou e descobriu a primeira grande civilização da Índia, da qual nenhum indiano tinha conhecimento.

    Outro exemplo revelador da curiosidade científica britânica foi a decifração da escrita cuneiforme. Esse foi o principal sistema de escrita usado em todo o Oriente Médio por quase 3 mil anos, mas a última pessoa capaz de lê-lo provavelmente morreu no começo do primeiro milênio da era cristã. Desde então, os habitantes da região frequentemente encontravam inscrições cuneiformes em monumentos, estelas, ruínas antigas e cerâmicas quebradas, entretanto eles não faziam ideia de como ler os rabiscos estranhos e angulares, e, até onde sabemos, nunca tentaram. A escrita cuneiforme chamou a atenção dos europeus em 1618, quando o embaixador espanhol na Pérsia foi visitar as ruínas da antiga Persépolis, onde viu inscrições que ninguém soube lhe explicar. Notícias sobre a escrita desconhecida se espalharam entre os especialistas europeus e aguçaram sua curiosidade. Em 1657, estudiosos europeus publicaram a primeira transcrição de um texto cuneiforme de Persépolis. Seguiram-se cada vez mais transcrições, e por quase dois séculos os estudiosos no Ocidente tentaram decifrá-las. Nenhum deles conseguiu.

    Nos anos 1830, um oficial britânico chamado Henry Rawlinson foi enviado à Pérsia para ajudar o xá a treinar seu exército à maneira europeia. Em seu tempo livre, Rawlinson viajou pela Pérsia e certo dia foi conduzido por guias locais até uma falésia nas montanhas Zagros, onde lhe mostraram a enorme inscrição de Behistun. Com aproximadamente 15 metros de altura e 25 de largura, ela fora entalhada no alto de uma falésia por ordem do rei Dario I, em torno de 500 a.C. Estava gravada em escrita cuneiforme em três idiomas: persa antigo, elamita e babilônio. A inscrição era bastante conhecida pelos habitantes locais, mas ninguém era capaz de lê-la. Rawlinson se convenceu de que, se pudesse decifrar a escrita, ele e outros estudiosos poderiam ler várias outras inscrições e textos que, na época, estavam sendo descobertos em todo o Oriente Médio, assim abrindo uma porta para um mundo antigo e esquecido.

    O primeiro passo para decifrar o que estava escrito era produzir uma transcrição precisa que pudesse ser enviada para a Europa. Rawlinson desafiou a morte para fazê-lo, escalando a falésia íngreme a fim de copiar as estranhas

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    letras. Ele contratou vários habitantes locais para ajudá-lo, em especial um garoto curdo que escalou até as partes mais inacessíveis da falésia a fim de copiar a parte superior da inscrição. Em 1847, o projeto foi concluído, e uma cópia completa e precisa foi enviada à Europa.

    Rawlinson não se deu por satisfeito. Sendo um oficial do exército, ele tinha missões militares e políticas para cumprir, mas sempre que tinha um momento livre se debruçava sobre a escrita secreta. Experimentou um método após outro e finalmente conseguiu decifrar a parte da inscrição em persa antigo. Essa era a mais fácil, já que o persa antigo não era tão diferente do persa moderno, que Rawlinson conhecia muito bem. Uma compreensão do trecho em persa antigo lhe deu a chave que ele precisava para desvendar os segredos dos trechos elamita e babilônio. A grande porta se abriu, e de lá saiu uma enxurrada de vozes antigas, mas vivas – o tumulto de bazares sumérios, as proclamações de reis assírios, as discussões de burocratas babilônios. Sem os esforços de imperialistas europeus modernos como Rawlinson, não teríamos tomado conhecimento de boa parte do destino dos impérios antigos do Oriente Médio.

    Outro célebre estudioso imperialista foi William Jones. Jones chegou à Índia em setembro de 1783 para servir como juiz na Suprema Corte de Bengala. Ele também foi tão cativado pelas maravilhas da Índia que em menos de seis meses após chegar fundou a Sociedade Asiática. Essa organização acadêmica se dedicava a estudar as culturas, as histórias e as sociedades da Ásia, em particular da Índia. Menos de dois anos depois, Jones publicou suas observações sobre o sânscrito, que se tornaram pioneiras da ciência da linguística comparativa.

    Em seus textos, Jones apontou similaridades surpreendentes entre o sânscrito, uma língua indiana antiga que se tornou a língua sagrada do ritual hindu, e o grego e o latim, bem como similaridades entre todas essas línguas e o gótico, o celta, o persa antigo, o francês e o inglês. Assim, “mãe” em sânscrito é “matar”, em latim é “mater” e em celta antigo é “mathir”. Jones supôs que todas essas línguas deviam ter uma mesma origem, tendo se desenvolvido a partir de uma língua ancestral esquecida. Foi, portanto, o primeiro a identificar aquela que mais tarde veio a ser conhecida como família de línguas indo-europeias.

    O estudo de Jones foi um marco importante não só devido a suas hipóteses ousadas (e precisas), mas também devido à metodologia ordenada que ele desenvolveu para comparar as línguas. Tal metodologia foi posteriormente

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    adotada por outros acadêmicos, permitindo que estudassem sistematicamente o desenvolvimento de todas as línguas do mundo.

    Os linguistas receberam entusiástico apoio imperial. Os impérios europeus acreditavam que, para governar de maneira eficaz, precisavam conhecer as línguas e as culturas de seus súditos. Ao chegar à Índia, os oficiais britânicos passavam até três anos em uma faculdade de Calcutá, onde estudavam direito muçulmano e hindu ao lado de direito britânico; sânscrito, urdu e persa ao lado de grego e latim; e cultura tâmil, bengalesa e hindustâni ao lado de matemática, economia e geografia. O estudo de linguística prestou um auxílio inestimável na compreensão da estrutura e da gramática das línguas locais.

    Graças ao trabalho de pessoas como William Jones e Henry Rawlinson, os conquistadores europeus conheciam muito bem seus impérios. Com efeito, muito melhor do que todos os conquistadores anteriores, ou mesmo do que a própria população nativa. Seu conhecimento superior teve vantagens práticas visíveis.

    Sem tal conhecimento, é improvável que um número irrisório de britânicos tivesse conseguido governar, oprimir e explorar tantas centenas de milhões de indianos por dois séculos. Durante todo o século XIX e início do século XX, menos de 5 mil oficiais britânicos, algo entre 40 mil a 70 mil soldados britânicos e, talvez, outros 100 mil empresários, parasitas, esposas e filhos de britânicos foram o suficiente para conquistar e governar até 300 milhões de indianos.9 Mas essas vantagens práticas não foram a única razão pela qual os impérios financiaram o estudo de linguística, botânica, geografia e história. Não menos importante foi o fato de que a ciência deu aos impérios uma justificativa ideológica. Os europeus modernos passaram a acreditar que adquirir novo conhecimento era sempre bom. O fato de que os impérios produziam um fluxo constante de novo conhecimento os rotulava como iniciativas progressistas e positivas. Mesmo hoje, a história de ciências como geografia, arqueologia e botânica não pode se furtar a dar crédito aos impérios europeus, pelo menos indiretamente. A história da botânica tem pouco a dizer sobre o sofrimento dos aborígenes australianos, mas geralmente encontra algumas palavras amáveis para James Cook e Joseph Banks.

    Além do mais, o novo conhecimento acumulado pelos impérios tornou possível, pelo menos em teoria, beneficiar as populações conquistadas e lhes trazer os benefícios do “progresso” – proporcionando medicamentos e educação,

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    construindo ferrovias e canais, garantindo justiça e prosperidade. Os imperialistas afirmavam que seus impérios não eram vastos empreendimentos de exploração, e sim projetos altruístas que visavam ao interesse das raças não europeias – nas palavras de Rudyard Kipling, “o fardo do homem branco”:

    Tomai o fardo do Homem Branco, Enviai vossos melhores filhos.

    Ide, condenai seus filhos ao exílio Para servirem aos seus cativos; Para esperar, com arreios Com agitadores e selváticos Seus cativos, servos obstinados, Metade demônios, metade crianças.

    É claro que os fatos muitas vezes contradizem esse mito. Os britânicos conquistaram Bengala, a província mais rica da Índia, em 1764. Os novos governantes se interessavam por pouca coisa além do enriquecimento próprio.

    Eles adotaram uma política econômica desastrosa que, poucos anos depois, levou à erupção da Grande Fome de Bengala. Começou em 1769, atingiu níveis catastróficos em 1770 e durou até 1773. Cerca de 10 milhões de bengaleses, um terço da população da província, morreram na calamidade.10 Na verdade, nem a narrativa da opressão e da exploração, nem a do “fardo do homem branco” correspondem exatamente aos fatos. Os impérios europeus fizeram coisas tão variadas numa gama tão ampla que se pode encontrar inúmeros exemplos para corroborar o que quer que se queira dizer sobre eles. Você pensa que esses impérios eram monstruosidades do mal que espalhavam a morte, a opressão e a injustiça pelo mundo? Facilmente seria possível encher uma enciclopédia com seus crimes. Você quer afirmar que eles na verdade aprimoraram as condições de vida de seus súditos com novos remédios, melhores condições e maior segurança? Você poderia encher outra enciclopédia com suas realizações. Devido à sua íntima colaboração com a ciência, esses impérios exerceram tanto poder e mudaram o mundo a tal ponto que talvez não possam ser simplesmente rotulados como bons ou maus. Criaram o mundo tal como o conhecemos, incluindo as ideologias que usamos para julgá-los.

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    Mas a ciência também foi usada pelos imperialistas para fins mais sinistros.

    Biólogos, antropólogos e até mesmo linguistas forneceram provas científicas de que os europeus são superiores a todas as outras raças e, consequentemente, têm o direito (se não, talvez, o dever) de governá-las. Depois que William Jones afirmou que todas as línguas indo-europeias descendem de uma única língua antiga, muitos acadêmicos ficaram ávidos por descobrir quem haviam sido os falantes dessa língua. Eles observaram que os primeiros falantes de sânscrito, que invadiram a Índia a partir da Ásia Central há mais de 3 mil anos, se haviam autodenominado Arya. Os falantes da língua persa mais antiga se autodenominavam Airiia. Por isso, os estudiosos europeus concluíram que as pessoas que falaram a língua primordial que deu origem ao sânscrito e ao persa (e também ao grego, ao latim, ao gótico e ao celta) provavelmente se autodenominaram arianas. Poderia ser uma coincidência que aqueles que fundaram as magníficas civilizações indiana, persa, grega e romana fossem todos arianos?

    Em seguida, acadêmicos britânicos, franceses e alemães associaram a teoria linguística sobre os arianos diligentes com a teoria de seleção natural de Darwin e postularam que os arianos eram não só um grupo linguístico como também uma entidade biológica – uma raça. E não qualquer raça, mas uma raça superior de humanos altos, de cabelo claro e olhos azuis, trabalhadores e superracionais que surgiram das brumas do Norte para assentar as bases da cultura no mundo inteiro. Lamentavelmente, os arianos que invadiram a Índia e a Pérsia se casaram com membros da população nativa que eles encontraram nessas terras, perdendo sua tez clara e seu cabelo loiro e, com estes, a racionalidade e a diligência. As civilizações da Índia e da Pérsia consequentemente entraram em declínio. Na Europa, por outro lado, os arianos preservaram sua pureza racial. É por isso que os europeus conseguiram conquistar o mundo, e por isso estavam aptos para governá-lo – desde que tomassem precauções para não se misturar com as raças inferiores.

    Tais teorias racistas, proeminentes e respeitáveis por muitas décadas, se tornaram um anátema tanto entre cientistas quanto entre políticos. As pessoas continuam a conduzir uma luta heroica contra o racismo sem perceber que a frente de batalha mudou, e que o lugar do racismo na ideologia imperialista foi substituído pelo “culturismo”. A palavra “culturismo” não existe, mas já está em

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    tempo de a inventarmos. Entre as elites de hoje, as afirmações sobre os méritos contrastantes de diversos grupos humanos quase sempre são expressadas em termos de diferenças históricas entre culturas, e não de diferenças biológicas entre raças. Já não dizemos “está no sangue”; dizemos “está na cultura”.

    Assim, os partidos direitistas da Europa que se opõem à imigração muçulmana geralmente tomam cuidado para evitar a terminologia racial. Os responsáveis por escrever os discursos de Marine le Pen teriam sido dispensados imediatamente se propusessem que a líder da Frente Nacional fosse à televisão para declarar que “não queremos que esses semitas inferiores diluam nosso sangue ariano e degenerem nossa civilização ariana”. Em vez disso, a Frente Nacional francesa, o Partido para a Liberdade holandês, a Aliança para o Futuro da Áustria e similares tendem a argumentar que a cultura ocidental, tal como evoluiu na Europa, é caracterizada por valores democráticos, tolerância e igualdade de gênero, ao passo que a cultura muçulmana, que evoluiu no Oriente Médio, é caracterizada por política hierárquica, fanatismo e misoginia. Visto que as duas culturas são tão diferentes, e visto que muitos imigrantes muçulmanos não estão dispostos (e talvez nem sejam capazes) de adotar valores ocidentais, sua entrada não deve ser permitida, para que eles não fomentem conflitos internos e corroam a democracia e o liberalismo europeus.

    Tais argumentos culturistas são alimentados por estudos científicos nas áreas de humanidades e ciências sociais que salientam o assim chamado choque de civilizações e as diferenças fundamentais entre culturas diferentes. Nem todos os historiadores e antropólogos aceitam essas teorias ou apoiam seu uso político.

    Mas, ao passo que os biólogos, hoje, têm facilidade para repudiar o racismo, explicando simplesmente que as diferenças entre as populações humanas do presente são triviais, é mais difícil para historiadores e antropólogos repudiar o culturismo. Afinal, se as diferenças entre as culturas humanas são triviais, por que deveríamos pagar historiadores e antropólogos para estudá-las?

    Os cientistas forneceram ao projeto imperialista conhecimento prático, justificativas ideológicas e aparatos tecnológicos. Sem essa contribuição, é extremamente questionável se os europeus teriam conquistado o mundo. Os conquistadores devolveram o favor fornecendo aos cientistas informações e proteção, apoiando todo tipo de projeto estranho e fascinante e disseminando o modo de pensar científico aos quatro cantos da Terra. Sem o apoio imperial, é

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    duvidoso que a ciência moderna tivesse ido tão longe. Há pouquíssimas disciplinas científicas que não começaram a vida como servas do crescimento imperial e que não devem grande parte de suas descobertas, coleções, edificações e bolsas de estudos à ajuda generosa de oficiais do exército, capitães da marinha e governantes imperiais.

    Isso obviamente não é toda a história. A ciência foi apoiada por outras instituições, e não só por impérios. E os impérios europeus cresceram e floresceram graças também a outros fatores além da ciência. Por trás da ascensão meteórica tanto da ciência quanto do império, espreita uma força particularmente importante: o capitalismo. Se não fosse pelos homens de negócios procurando ganhar dinheiro, Colombo não teria chegado à América, James Cook não teria chegado à Austrália e Neil Armstrong jamais teria dado aquele pequeno passo na superfície da Lua.

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    16. O credo capitalista

    O credo capitalista O DINHEIRO TEM SIDO ESSENCIAL TANTO PARA A CONSTRUÇÃO DE IMPÉRIOS QUANTO para promover a ciência. Mas o dinheiro é o objetivo final desses empreendimentos, ou apenas uma necessidade perigosa?

    Não é fácil entender o verdadeiro papel da economia na história moderna.

    Volumes inteiros foram escritos sobre como o dinheiro fundou Estados e os arruinou, abriu novos horizontes e escravizou milhões, impulsionou a indústria e levou centenas de espécies à extinção. Mas, para entender a história econômica moderna, é preciso entender uma só palavra. Essa palavra é: crescimento. Para melhor ou para pior, na saúde e na doença, a economia moderna cresce como um adolescente inundado por hormônios. Devora tudo que encontra pela frente, mas cresce mais depressa do que podemos registrar.

    Durante a maior parte da história, a economia permaneceu mais ou menos do mesmo tamanho. Sim, a produção global aumentou, mas isso se deveu principalmente à expansão demográfica e ao povoamento de novas terras. A produção per capita continuou estática. Mas tudo isso mudou na era moderna.

    Em 1500, a produção global de bens e serviços era equivalente a cerca de 250 bilhões de dólares; hoje, gira em torno de 60 trilhões. O que é mais importante, em 1500 a produção per capita anual era, em média, 550 dólares, enquanto hoje todo homem, mulher e criança produz, em média, 8,8 mil dólares por ano.1 O que explica esse crescimento estupendo?

    A economia é um assunto notoriamente complicado. Para facilitar as coisas, imaginemos um exemplo simples.

    Samuel Ganância, um financista perspicaz, funda um banco em São Paulo.

    A. A. Arguto, um empreiteiro em ascensão em São Paulo, termina sua primeira obra, recebendo pagamento em dinheiro na casa de 1 milhão de dólares. Ele deposita essa soma no banco do sr. Ganância. O banco agora tem 1 milhão de dólares em capital.

    Enquanto isso, Dulce Massa, uma chef experiente, mas sem recursos, acredita ter encontrado uma oportunidade de negócio: não há nenhuma padaria realmente boa em seu bairro. Mas ela não tem dinheiro suficiente para comprar toda a infraestrutura necessária, com fornos industriais, pias, facas e utensílios.

    Ela vai ao banco, apresenta seu plano de negócio a Ganância e o convence de

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    que é um investimento vantajoso. Ele lhe concede um empréstimo de 1 milhão de dólares, creditando essa soma na conta dela no banco.

    Dulce Massa agora contrata Arguto, o empreiteiro, para construir e equipar a padaria. O preço dele é 1 milhão de dólares.

    Quando ela o paga, com um cheque de sua conta, Arguto o deposita na conta dele no banco de Ganância.

    Então, quanto dinheiro Arguto tem em sua conta bancária? Exato, 2 milhões de dólares.

    Quanto dinheiro, em espécie, há de fato no cofre do banco? Você acertou:

    1 milhão de dólares.

    Não termina aqui. Como empreiteiros costumam fazer, dois meses depois de iniciada a obra, Arguto informa a Dulce Massa que, devido a problemas e despesas imprevistos, o custo para construir a padaria na verdade será 2 milhões de dólares. A sra. Dulce Massa não fica satisfeita, mas não pode parar a obra na metade. Então, ela faz outra visita ao banco, convence o Sr. Ganância a lhe dar um empréstimo adicional, e ele deposita mais 1 milhão de dólares na conta dela.

    Ela transfere o dinheiro para a conta do empreiteiro.

    Quanto dinheiro Arguto tem em sua conta agora? Ele tem 3 milhões de dólares.

    Mas quanto dinheiro existe de verdade no banco? Continua havendo apenas 1 milhão de dólares. Na verdade, o mesmo milhão de dólares que esteve no banco esse tempo todo.

    A legislação atual que regulamenta os bancos nos Estados Unidos permite que o banco repita esse exercício sete vezes mais. O empreiteiro acabaria por ter 10 milhões de dólares em sua conta, embora o banco continuasse tendo não mais de 1 milhão de dólares em seus cofres. Os bancos são autorizados a emprestar dez dólares para cada dólar que realmente têm, o que significa que 90% de todo o dinheiro em nossas contas bancárias não é coberto por moedas e notas reais.2 Se todos os correntistas do Barclays decidirem sacar seu dinheiro de repente, o Barclays quebrará imediatamente (a não ser que o governo intervenha para salvá-lo). O mesmo é válido para o Lloyds, o Deutsche Bank, o Citibank e todos os outros bancos do mundo.

    Parece um esquema Ponzi gigante, não? Mas, se isso é uma fraude, então toda a economia moderna é uma fraude. A verdade é que não se trata de uma

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    fraude, e sim de um tributo às capacidades incríveis da imaginação humana. O que permite que os bancos – e toda a economia – sobrevivam e floresçam é nossa confiança no futuro. Essa confiança é o única garantia para a maior parte do dinheiro do mundo.

    No exemplo da padaria, a discrepância entre o extrato bancário do empreiteiro e a quantidade de dinheiro que realmente existe no banco é a padaria da sra. Dulce Massa. O sr. Ganância colocou o dinheiro do banco nesse ativo, confiando que um dia será lucrativo. A padaria ainda não assou nem um pão, mas Dulce Massa e Ganância preveem que, dali a um ano, estará vendendo milhares de pães, bolos e biscoitos por dia, com uma bela margem de lucro. A sra. Dulce Massa, então, será capaz de pagar o empréstimo, com juros. Se, nesse momento, o sr. Arguto decidir sacar suas economias, Ganancia será capaz de fornecer esse dinheiro. Toda a iniciativa é, portanto, baseada na confiança em um futuro imaginário – a confiança de que a empreendedora e o banqueiro terão a padaria dos seus sonhos, e a confiança do empreiteiro na futura solvência do banco.

    Nós já vimos que o dinheiro é algo impressionante, porque pode representar uma série de objetos diferentes e converter qualquer coisa em praticamente qualquer outra coisa. No entanto, antes da era moderna essa capacidade era limitada. Na maioria dos casos, o dinheiro só podia representar e converter coisas que já existiam no presente. Isso impunha uma grave limitação ao crescimento, já que tornava muito difícil financiar novos empreendimentos.

    Considere nossa padaria mais uma vez. Dulce Massa teria conseguido construí-la se o dinheiro só pudesse representar objetos tangíveis? Não. No presente, ela tem uma porção de sonhos, mas nenhum recurso tangível. A única forma de construir sua padaria seria encontrar um empreiteiro disposto a trabalhar hoje e receber o pagamento daqui a alguns anos, se e quando a padaria começasse a dar dinheiro. Infelizmente, tais empreiteiros são raros. Então nossa empreendedora está em um dilema. Sem uma padaria, ela não pode assar pães e bolos. Sem pães e bolos, ela não pode ganhar dinheiro. Sem dinheiro, ela não pode contratar um empreiteiro. Sem empreiteiro, ela não tem padaria.

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    O dilema do empreendedor A humanidade esteve presa nessa encruzilhada por milhares de anos. Em consequência, as economias permaneceram congeladas. A maneira de sair da armadilha só foi descoberta na era moderna, com o surgimento de um novo sistema baseado na confiança no futuro. Nele, as pessoas concordaram em representar bens imaginários – bens que não existem no presente – com um tipo especial de dinheiro chamado “crédito”. O crédito nos permite construir o presente à custa do futuro. Baseia-se no pressuposto de que nossos recursos futuros serão muito mais abundantes do que nossos recursos presentes. Se pudermos construir coisas no presente usando receitas futuras, abre-se diante de nós uma série de novas oportunidades maravilhosas.

    Se o crédito é algo tão maravilhoso, por que ninguém pensou nisso antes? É claro que pensaram. Acordos de crédito de um tipo ou de outro existiram em todas as culturas humanas conhecidas, remontando pelo menos à antiga Suméria.

    O problema nas eras anteriores não é que ninguém teve a ideia ou soube como

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    usá-la. É que as pessoas raramente queriam conceder muito crédito porque não confiavam que o futuro seria melhor do que o presente. Geralmente acreditavam que os tempos passados eram melhores do que sua própria época e que o futuro seria pior ou, quando muito, igual. Dito em termos econômicos, acreditavam que a quantidade total de riqueza era limitada, se é que não estava em declínio.

    Portanto, as pessoas consideravam uma má aposta presumir que elas pessoalmente, ou seu reino, ou o mundo inteiro estariam produzindo mais riqueza dali a dez anos. Os negócios pareciam um jogo de soma zero. É claro, os lucros de uma padaria em particular podiam aumentar, mas só à custa da padaria em frente. Veneza podia florescer, mas só empobrecendo Gênova. O rei da Inglaterra podia enriquecer, mas só roubando o rei da França. O bolo podia ser repartido de muitas formas diferentes, mas nunca ficava maior.

    O círculo mágico da economia moderna

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    É por isso que muitas culturas concluíram que ganhar montes de dinheiro era pecaminoso. Como disse Jesus, “É mais fácil passar um camelo pelo buraco de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus” (Mateus 19:24). Se o bolo é sempre do mesmo tamanho, e eu tenho um pedaço grande dele, devo ter pegado a fatia de alguém. Os ricos eram obrigados a fazer penitência por suas más ações, destinando parte de sua riqueza excedente à caridade.

    Se o bolo global permanecia do mesmo tamanho, não havia margem para crédito. O crédito é a diferença entre o bolo de hoje e o bolo de amanhã. Se o bolo continua igual, por que conceder crédito? Seria um risco inaceitável, a não ser que se acreditasse que o padeiro ou o rei pedindo dinheiro pudesse ser capaz de roubar uma fatia da concorrência. Por isso, era difícil obter um empréstimo no mundo pré-moderno, e quando um era concedido, geralmente era pequeno, de curto prazo e sujeito a juros altos. Desse modo, empreendedores iniciantes tinham dificuldade para abrir novas padarias, e grandes reis que quisessem construir palácios ou travar guerras não tinham outra alternativa senão levantar os fundos necessários por meio de tarifas e impostos altos. Isso não era um problema para os reis (conquanto seus súditos continuassem obedientes), mas uma copeira que tivesse uma grande ideia para uma padaria e quisesse subir na vida geralmente só podia sonhar com riqueza enquanto esfregava o piso da cozinha da realeza.

    Era uma situação desvantajosa para todos. Como o crédito era limitado, as pessoas tinham dificuldade para financiar novos negócios. Como havia poucos novos negócios, a economia não crescia. Como a economia não crescia, as pessoas presumiam que ela jamais cresceria, e os que tinham capital eram cautelosos com a concessão de crédito. A expectativa da estagnação se retroalimentava.

    Um bolo que cresce

    Então vieram a Revolução Científica e a ideia de progresso. A ideia de progresso se baseia na noção de que, se admitirmos nossa ignorância e investirmos recursos em pesquisa, as coisas podem melhorar. A ideia logo foi traduzida em termos econômicos. Quem acredita no progresso acredita que descobertas geográficas, invenções tecnológicas e avanços organizacionais podem aumentar a soma total

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    da produção, do comércio e da riqueza humana. Novas rotas de comércio no Atlântico puderam florescer sem arruinar as velhas rotas no oceano Índico.

    Novos produtos puderam ser produzidos sem reduzir a produção dos velhos. Por exemplo, alguém podia abrir uma nova padaria especializada em bolos de chocolate e croissants sem fazer com que as padarias especializadas em pães fossem à falência. Todo mundo simplesmente desenvolveria novos gostos e comeria mais. Eu posso ser rico sem que você fique pobre; posso ser obeso sem que você morra de fome. O bolo do mundo inteiro pode crescer.

    Nos últimos 500 anos, a ideia de progresso convenceu as pessoas a confiarem cada vez mais no futuro. Essa confiança gerou crédito; o crédito trouxe crescimento econômico real; e o crescimento fortaleceu a confiança no futuro e abriu caminho para ainda mais crédito. Não aconteceu da noite para o dia: a economia se comportou mais como uma montanha-russa do que como um balão. Mas, no longo prazo, com os obstáculos nivelados, a direção geral era inequívoca. Hoje, há tanto crédito no mundo que governos, corporações e indivíduos facilmente obtêm empréstimos grandes, de longo prazo e a juros baixos que excedem muitíssimo a receita atual.

    A crença no crescimento do bolo global acabou por se tornar

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    revolucionária. Em 1776, o economista escocês Adam Smith publicou A riqueza das nações, provavelmente o manifesto econômico mais importante de todos os tempos. No oitavo capítulo de seu primeiro volume, Smith apresentou o seguinte argumento original: quando um proprietário de terras, um tecelão ou um sapateiro tem mais lucro do que precisa para manter a própria família, ele usa o excedente para empregar mais assistentes, a fim de aumentar seu lucro. Quanto mais lucro tiver, mais assistentes pode empregar. Daí decorre que um aumento no lucro dos empreendedores privados é a base para o aumento na riqueza e prosperidade coletivas.

    Isso talvez não soe tão original, porque todos vivemos em um mundo capitalista no qual o argumento de Smith é tido como algo natural. Ouvimos variações sobre esse tema todos os dias nos noticiários. Mas a afirmação de Smith de que o desejo humano egoísta de aumentar o lucro privado é a base para a riqueza coletiva é uma das ideias mais revolucionárias na história humana – revolucionária não só de uma perspectiva econômica como também de uma perspectiva moral e política. O que Smith afirma é, na verdade, que a ganância é algo bom e que ao ficar mais rico eu beneficio a todos, e não só a mim mesmo.

    Egoísmo é altruísmo.

    Smith ensinou as pessoas a pensarem na economia como uma situação em que todos ganham, em que meus lucros são também seus lucros. Não só ambos podemos desfrutar de uma fatia maior de bolo ao mesmo tempo, como o aumento da sua fatia depende do aumento da minha fatia. Se sou pobre, você também será pobre, porque eu não posso comprar seus produtos ou serviços. Se sou rico, você também enriquecerá, já que agora pode me vender alguma coisa.

    Smith negou a contradição tradicional entre riqueza e moralidade e escancarou os Portões do Céu para os ricos. Ser rico significava ser moral. Na história de Smith, as pessoas ficam ricas não saqueando os vizinhos, e sim aumentando o tamanho do bolo. E quando o bolo cresce, todos se beneficiam. Os ricos são, portanto, as pessoas mais úteis e benévolas da sociedade, porque impulsionam o crescimento em benefício de todos.

    Tudo isso depende, entretanto, de os ricos usarem seus lucros para abrirem novas fábricas e contratarem novos empregados, em vez de desperdiçá-los em atividades não produtivas. Smith, portanto, repetiu como um mantra a máxima de que “quando os lucros aumentam, o proprietário de terras ou o tecelão

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    empregam mais assistentes”, e não “quando os lucros aumentam, Scrooge guarda seu dinheiro em um cofre e só o tira de lá para contar as moedas”. Uma parte crucial da economia capitalista moderna foi o surgimento de uma nova ética, segundo a qual os lucros tinham de ser reinvestidos na produção. Isto mais uma vez é investido na produção, o que gera mais lucro, et cetera ad infinitum. Os investimentos podem ser feitos de muitas maneiras: aumentando a fábrica, realizando pesquisas científicas, desenvolvendo novos produtos. Mas, de alguma forma, todos esses investimentos devem aumentar a produção e se traduzir em lucros maiores. No novo credo capitalista, o primeiro e mais sagrado mandamento é: “Os lucros da produção devem ser reinvestidos no aumento da produção”.

    É por isso que o capitalismo é chamado de “capitalismo”. O capitalismo distingue o “capital” da mera “riqueza”. O capital consiste de dinheiro, bens e recursos que são investidos na produção. A riqueza, por outro lado, é enterrada debaixo do solo ou desperdiçada em atividades improdutivas. Um faraó que destina recursos a uma pirâmide improdutiva não é um capitalista. Um pirata que rouba uma frota de tesouro espanhola e enterra um cofre cheio de moedas brilhantes na praia de alguma ilha caribenha não é um capitalista. Mas um operário diligente que reinveste parte de sua renda na bolsa de valores, sim.

    A ideia de que “os lucros da produção devem ser reinvestidos no aumento da produção” parece trivial. Mas foi uma ideia estranha à maioria dos povos ao

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    longo da história. Em épocas pré-modernas, as pessoas acreditavam que o nível da produção fosse mais ou menos constante. Então, por que reinvestir seus lucros se a produção não crescerá muito, não importa o que você faça? Desse modo, os nobres da Europa medieval adotaram uma ética de generosidade e consumo ostensivo. Eles gastavam suas receitas em torneios, banquetes, palácios e guerras, e em caridade e catedrais monumentais. Poucos tentavam reinvestir os lucros para aumentar a produção de suas terras, desenvolver espécies melhores de trigo ou procurar novos mercados.

    Na era moderna, a nobreza foi substituída por uma nova elite cujos membros acreditam verdadeiramente no credo capitalista. A nova elite capitalista é composta não de duques e marqueses, mas de presidentes de conselhos, corretores de ações e industrialistas. Esses magnatas são muito mais ricos que os membros da nobreza medieval, mas estão muito menos interessados em consumo extravagante e gastam uma parte muito menor de seus lucros em atividades não produtivas.

    Os nobres medievais usavam mantos coloridos de ouro e prata e dedicavam grande parte de seu tempo a banquetes, carnavais e torneios glamorosos. Em comparação, os altos executivos modernos usam uniformes sombrios chamados ternos que lhes conferem todo o penacho de um bando de corvos e têm pouco tempo para festividades. O capitalista típico corre de uma reunião de negócios para outra, tentando decidir onde investir seu capital e seguindo as altas e baixas dos títulos e ações que possui. É verdade, seu terno talvez seja um Versace, e ele talvez viaje em um jato particular, mas essas despesas não são nada se comparadas com o que ele investe no aumento da produção humana.

    Não só os magnatas usando Versace investem para aumentar a produtividade. Pessoas comuns e órgãos do governo pensam de maneira similar.

    Quantos jantares em bairros modestos mais cedo ou mais tarde se envolvem em um debate interminável sobre se é melhor investir as economias pessoais no mercado de ações, em títulos ou em propriedades? Os governos também se esforçam para investir a receita proveniente dos impostos em atividades produtivas que aumentarão a receita futura – por exemplo, construir um novo porto poderia facilitar a exportação de produtos, permitindo às fábricas gerar mais renda tributável, aumentando assim as receitas futuras do governo. Outro

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    governo talvez prefira investir em educação, sob a justificativa de que pessoas instruídas são essenciais para indústrias lucrativas de alta tecnologia, que pagam muitos impostos sem demandar grande infraestrutura portuária.

    O capitalismo começou como uma teoria sobre como a economia funciona. Era ao mesmo tempo descritivo e prescritivo – oferecia um relato de como o dinheiro funcionava e promovia a ideia de que reinvestir os lucros na produção leva a um rápido crescimento econômico. Mas, pouco a pouco, o capitalismo se tornou muito mais do que uma doutrina econômica. Hoje engloba uma ética – um conjunto de ensinamentos sobre como as pessoas devem se comportar, educar seus filhos e até mesmo pensar. Sua doutrina fundamental é que o crescimento econômico é o bem supremo, ou pelo menos uma via para o bem supremo, porque a justiça, a liberdade e até mesmo a felicidade dependem do crescimento econômico. Pergunte a um capitalista como trazer justiça e liberdade política para um lugar como o Zimbábue ou o Afeganistão, e você provavelmente ouvirá uma palestra sobre como a afluência econômica e uma classe média próspera são essenciais para instituições democráticas estáveis e sobre a consequente necessidade de inculcar nos aldeãos do Afeganistão os valores da livre-iniciativa, da prosperidade e da autossuficiência.

    Essa nova religião também teve uma influência decisiva no desenvolvimento da ciência moderna. As pesquisas científicas geralmente são financiadas pelo governo ou por negócios privados. Quando os governos e os negócios capitalistas consideram investir em determinado projeto científico, a primeira questão costuma ser: “Esse projeto nos ajudará a aumentar a produção e os lucros? Produzirá crescimento econômico?”. Um projeto que não for capaz de lidar com essas questões tem poucas chances de encontrar um patrocinador.

    Nenhuma história da ciência moderna pode deixar o capitalismo de lado.

    Da mesma forma, a história do capitalismo não pode ser compreendida se não levar em conta a ciência. A crença capitalista no crescimento econômico perpétuo desafia quase tudo que conhecemos sobre o universo. Uma sociedade de lobos seria extremamente tola em acreditar que a oferta de ovelhas continuaria crescendo por tempo indefinido. A economia humana, entretanto, conseguiu continuar crescendo exponencialmente durante toda a era moderna, graças apenas ao fato de que os cientistas produzem uma nova descoberta ou aparato a cada poucos anos – como o continente americano, o motor de

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    combustão interna ou ovelhas geneticamente modificadas. Bancos e governos imprimem dinheiro, mas, em última análise, são os cientistas que pagam a conta.

    Nos últimos anos, bancos e governos imprimiram dinheiro freneticamente.

    Todos estão morrendo de medo de que a atual crise econômica possa cessar o crescimento econômico. Então estão criando trilhões de dólares, euros e ienes do nada, injetando crédito barato no sistema, e esperando que os cientistas, técnicos e engenheiros consigam pensar em algo realmente grandioso, antes que a bolha exploda. Tudo depende das pessoas que trabalham nos laboratórios. Novas descobertas em áreas como a biotecnologia e a nanotecnologia poderiam criar indústrias inteiramente novas, cujos lucros poderiam salvaguardar os trilhões de dinheiro de faz de conta que os bancos e os governos criaram desde 2008. Se os laboratórios de pesquisa não cumprirem tais expectativas antes que a bolha exploda, nos dirigiremos rumo a tempos muito difíceis.

    Colombo à procura de um investidor

    O capitalismo exerceu um papel decisivo não só na ascensão da ciência moderna como também no surgimento do imperialismo europeu. E foi o imperialismo europeu que criou o sistema de crédito capitalista. É claro, o crédito não foi inventado na Europa moderna. Existiu em quase todas as sociedades agrícolas, e no início da era moderna o surgimento do capitalismo europeu esteve intimamente relacionado com avanços econômicos na Ásia. Vale lembrar, também, que até o fim do século XVIII a Ásia era a potência econômica do mundo, o que significa que os europeus tinham muito menos capital à disposição do que chineses, muçulmanos ou indianos.

    No entanto, nos sistemas sociopolíticos da China, da Índia e do mundo muçulmano, o crédito desempenhou apenas um papel secundário. Comerciantes e banqueiros nos mercados de Istambul, Isfahan, Délhi e Pequim podem ter pensado em termos capitalistas, mas os reis e generais nos palácios e fortalezas tenderam a desprezar os comerciantes e o pensamento mercantil. A maioria dos impérios não europeus do início da era moderna foram fundados por grandes conquistadores como Nurhachi e Nader Xá, ou por elites burocráticas e militares como nos impérios otomano e Qing. Financiando guerras por meio de impostos e pilhagem (sem fazer claras distinções entre os dois), eles deviam pouco aos

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    sistemas de crédito e se importavam ainda menos com os interesses de banqueiros e investidores.

    Na Europa, por outro lado, reis e generais pouco a pouco adotaram o modo de pensar mercantil, até que os comerciantes e os banqueiros se tornaram a elite governante. A conquista europeia do mundo foi cada vez mais financiada por meio de créditos em vez de impostos e cada vez mais dirigida por capitalistas cuja maior ambição era receber o máximo retorno sobre seus investimentos. Os impérios construídos por banqueiros e comerciantes usando sobrecasacas e cartolas derrotaram os impérios construídos por reis e nobres usando roupas de ouro e armaduras brilhantes. Os impérios mercantis eram simplesmente muito mais perspicazes ao financiar suas conquistas. Ninguém quer pagar impostos, mas todos estão dispostos a investir.

    Em 1484, Cristóvão Colombo abordou o rei de Portugal com a proposta de financiar uma frota que navegaria rumo ao Oeste a fim de encontrar uma nova rota de comércio para o leste da Ásia. Tais explorações eram um negócio muito custoso e arriscado. Era preciso muito dinheiro para construir embarcações, comprar suprimentos e pagar marinheiros e soldados – e não havia garantia alguma de que o investimento daria retorno. O rei de Portugal recusou.

    Como o empreendedor de uma startup nos dias de hoje, Colombo não desistiu. Ele apresentou sua ideia a outros investidores em potencial na Itália, na França, na Inglaterra e novamente em Portugal. Em todas as ocasiões, foi rejeitado. Então tentou a sorte com Fernando e Isabel, governantes da Espanha recém-unificada. Contratou alguns lobistas experientes e, com sua ajuda, conseguiu convencer a rainha Isabel a investir. Como todo estudante sabe, Isabel tirou a sorte grande. As descobertas de Colombo permitiram aos espanhóis conquistar a América, onde instalaram minas de ouro e de prata, bem como plantações de açúcar e tabaco que enriqueceram reis, banqueiros e comerciantes espanhóis em um nível jamais sonhado.

    Cem anos depois, príncipes e banqueiros estavam dispostos a conceder mais crédito aos sucessores de Colombo, e eles tinham muito mais capital à disposição, graças aos tesouros colhidos na América. E, o que é igualmente importante, príncipes e banqueiros tinham muito mais confiança no potencial da exploração e estavam mais dispostos a participar com seu dinheiro. Esse era o círculo mágico do capitalismo imperial: o crédito financiava novas descobertas;

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    as descobertas levavam às colônias; as colônias geravam lucros; os lucros criavam confiança; e a confiança se traduzia em mais crédito. Nurhachi e Nader Xá ficavam sem combustível depois de alguns milhares de quilômetros. Os empreendedores capitalistas só aumentavam seu ímpeto financeiro a cada conquista.

    Mas essas expedições continuaram sendo ocasionais, de modo que os mercados de crédito permaneceram um tanto quanto cautelosos. Muitas expedições regressavam à Europa de mãos vazias, não tendo descoberto nada de valor. Os ingleses, por exemplo, desperdiçaram muito capital em tentativas infrutíferas de descobrir uma passagem para a Ásia a noroeste através do Ártico.

    Muitas outras expedições não regressaram. Navios se chocavam com icebergs, afundavam em tempestades tropicais ou eram vítimas de piratas. A fim de aumentar o número de investidores em potencial e reduzir o risco em que eles incorriam, os europeus se voltaram para empresas constituídas como sociedades por cotas de responsabilidade limitada. Em vez de um único investidor apostando todo o seu dinheiro em um só navio frágil, a empresa coletava dinheiro de um grande número de investidores, cada um deles arriscando apenas uma pequena porção de seu capital. Os riscos eram minimizados, mas os lucros não tinham limites. Mesmo um pequeno investimento no navio certo poderia transformar o investidor em um milionário.

    Década após década, a Europa Ocidental testemunhou o desenvolvimento de um sofisticado sistema financeiro capaz de levantar grandes somas de crédito em um piscar de olhos e colocá-las à disposição de governos e empreendedores privados. Esse sistema podia financiar explorações e conquistas de maneira muito mais eficiente do que qualquer reino ou império. O recém-descoberto poder do crédito pode ser observado na batalha feroz entre a Espanha e a Holanda. No século XVI, a Espanha era o Estado mais poderoso da Europa, dominando um vasto império global. Governava grande parte da Europa, grandes porções da América do Norte e do Sul, as ilhas Filipinas e uma série de bases na costa da África e da Ásia. Todos os anos, frotas carregadas de tesouros americanos e asiáticos regressavam aos portos de Sevilha e de Cádiz. A Holanda era um pequeno pântano ventoso, desprovido de recursos naturais, um pequeno rincão dos domínios do rei da Espanha.

    Em 1568, os holandeses, que eram em sua maioria protestantes, se

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    revoltaram contra seu senhor espanhol católico. No início, os rebeldes pareciam desempenhar o papel de Dom Quixote, atacando corajosamente moinhos de vento invisíveis. Mas, em 80 anos, os holandeses não só conquistaram a independência em relação à Espanha como também conseguiram substituir os espanhóis e seus aliados portugueses como senhores das rotas marítimas, construir um império holandês global e se tornar o Estado mais rico da Europa.

    O segredo do sucesso holandês foi o crédito. Os burgueses holandeses, que tinham pouca predileção por combate em terra, contrataram exércitos mercenários para enfrentar a Espanha por eles. Enquanto isso, eles se lançaram ao mar em frotas cada vez maiores. Exércitos mercenários e frotas brandindo canhões custam uma fortuna, mas os holandeses foram capazes de financiar suas expedições militares mais facilmente do que o poderoso Império Espanhol porque obtiveram a confiança do próspero sistema financeiro europeu numa época em que o rei espanhol estava corroendo de modo negligente a confiança nele depositada. Os financiadores concederam aos holandeses crédito suficiente para formar exércitos e frotas, e esses exércitos e frotas deram aos holandeses o controle sobre as rotas de comércio mundial, o que, por sua vez, gerou lucros vultosos. Os lucros lhes permitiram pagar os empréstimos, o que fortaleceu a confiança dos financistas. Em pouco tempo, Amsterdã se tornou não só um dos portos mais importantes da Europa como também a Meca financeira do continente.

    Como exatamente os holandeses ganharam a confiança do sistema financeiro?

    Em primeiro lugar, eles faziam questão de quitar os empréstimos na data combinada, tornando a concessão de crédito menos arriscada para os credores.

    Em segundo lugar, o sistema jurídico de seu país era independente e protegia os direitos individuais – principalmente direitos sobre a propriedade privada. O capital foge de Estados ditatoriais que não conseguem defender os indivíduos e sua propriedade. Em vez disso, aflui em países que defendem o Estado de direito e a propriedade privada.

    Imagine que você é filho de uma sólida família de financistas alemães. Seu pai vê uma oportunidade de expandir o negócio abrindo filiais em importantes cidades europeias. Ele o envia a Amsterdã e seu irmão mais novo a Madri, dando a cada um de vocês 10 mil moedas de ouro para investir. Seu irmão empresta seu capital inicial, com juros, para o rei da Espanha, que precisa dele para formar

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    um exército a fim de enfrentar o rei da França. Você decide emprestar o seu para um comerciante holandês, que quer investir em um matagal na extremidade sul de uma ilha desolada chamada Manhattan, convencido de que os valores das propriedades irão disparar quando o rio Hudson se transformar em uma importante artéria comercial. Ambos os empréstimos devem ser quitados em um ano.

    O ano passa. O comerciante holandês vende a terra que comprou com uma boa margem de lucro e lhe devolve o dinheiro com os juros que prometeu.

    Seu pai fica satisfeito. Mas seu irmãozinho em Madri está ficando nervoso. A guerra com a França terminou bem para o rei da Espanha, mas agora ele se meteu em um conflito com os turcos. Ele precisa de cada centavo para financiar a nova guerra e acha que isso é muito mais importante do que quitar velhas dívidas. Seu irmão envia cartas ao palácio e pede que amigos com relações na corte intercedam, mas é em vão. Seu irmão não só não ganhou os juros prometidos como também perdeu o capital principal. Seu pai não está satisfeito.

    Agora, para piorar as coisas, o rei envia um oficial do tesouro até seu irmão para lhe dizer, sem meias palavras, que espera obter imediatamente outro empréstimo do mesmo tamanho. Seu irmão não tem dinheiro para emprestar.

    Ele escreve para o pai, tentando persuadi-lo de que dessa vez o rei honrará o compromisso. O patriarca tem uma queda por seu filho mais novo e, com o coração pesado, concorda. Outras 10 mil moedas de ouro desaparecem no tesouro espanhol e jamais serão vistas novamente. Enquanto isso, em Amsterdã, a situação é promissora. Você faz cada vez mais empréstimos a comerciantes holandeses, que os quitam na data combinada, mas sua sorte não dura indefinidamente. Um de seus clientes intui que tamancos de madeira serão a próxima febre em Paris e lhe pede um empréstimo para abrir uma loja de calçados na capital francesa. Você lhe empresta o dinheiro, mas, infelizmente, os tamancos não fazem sucesso com as damas francesas, e o comerciante, irritado, se recusa a pagar o empréstimo.

    Seu pai fica furioso e diz a vocês dois que é hora de acionar os advogados.

    Em Madri, seu irmão entra com um processo contra o monarca espanhol, enquanto você, em Amsterdã, entra com um processo contra o ex-mago dos sapatos de madeira. Na Espanha, os tribunais são subservientes ao rei – os juízes estão à sua disposição e temem ser punidos se não fizerem sua vontade. Na

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    Holanda, os tribunais são um braço separado do governo, não dependendo dos príncipes e burgueses do país. O tribunal de Madri rejeita o processo do seu irmão, enquanto o de Amsterdã decide em seu favor e penhora os ativos do comerciante de tamancos para forçá-lo a pagar o empréstimo. Seu pai aprendeu a lição. Melhor fazer negócio com comerciantes do que com reis, e melhor na Holanda do que em Madri.

    E os esforços do seu irmão não terminaram. O rei da Espanha precisa desesperadamente de mais dinheiro para pagar seu exército. Ele tem certeza de que seu pai tem dinheiro para gastar. Então, forja acusações de traição contra seu irmão. Se ele não fornecer 20 mil moedas de ouro imediatamente, será jogado em um calabouço e apodrecerá lá até morrer.

    Seu pai está farto. Ele paga o resgate pelo filho amado, mas jura nunca mais fazer negócios na Espanha novamente. Fecha a filial em Madri e manda seu irmão para Amsterdã. Duas filiais na Holanda parecem uma excelente ideia.

    Ele fica sabendo que até mesmo os capitalistas espanhóis estão desviando suas fortunas para fora do país. Eles também percebem que, se quiserem preservar seu dinheiro e usá-lo para obter mais riqueza, é melhor investi-lo onde o Estado de direito prevalece e a propriedade privada é respeitada – na Holanda, por exemplo.

    Dessa forma, o rei da Espanha minou a confiança dos investidores, enquanto os comerciantes holandeses a ganharam. E foram os comerciantes – e não o Estado – que construíram o império holandês. O rei da Espanha continuou tentando financiar e manter suas conquistas cobrando mais impostos de uma população insatisfeita. Os comerciantes holandeses financiaram a conquista obtendo empréstimos e, cada vez mais, vendendo participações nas empresas que davam a seus acionistas o direito de receber uma parte dos lucros.

    Investidores prudentes que jamais teriam dado seu dinheiro para o rei da Espanha, e que teriam pensado duas vezes antes de conceder crédito ao governo holandês, estiveram dispostos a investir fortunas nas empresas de capital aberto holandesas, que foram o sustentáculo do novo império.

    Se você achasse que uma empresa que já vendeu todas as suas ações teria muito lucro, poderia comprar ações de outras pessoas, provavelmente a um preço mais alto do que elas pagaram originalmente. Se você comprasse ações e mais tarde descobrisse que a empresa estava no vermelho, poderia tentar vender

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    suas ações por um preço inferior. O comércio de ações levou ao surgimento, na maioria das principais cidades europeias, de bolsas de valores, lugares onde as ações das empresas eram comercializadas.

    A mais famosa empresa de capital aberto da Holanda, a Vereenigde Oostindische Compagnie (VOC), foi fundada em 1602, exatamente quando os holandeses estavam se livrando do governo europeu e ainda era possível ouvir os estrondos da artilharia espanhola não muito longe dos baluartes de Amsterdã. A VOC usou o dinheiro que obteve com a compra de ações para construir navios, enviá-los à Ásia e trazer de volta produtos chineses, indianos e indonésios.

    Também financiou ações militares empreendidas por navios mercantes contra concorrentes e piratas. O dinheiro da VOC acabou por financiar a conquista da Indonésia.

    A Indonésia é o maior arquipélago do mundo. No início do século XVII, seus milhares e milhares de ilhas foram governados por centenas de reinos, principados, sultanatos e tribos. Quando os comerciantes da VOC chegaram à Indonésia pela primeira vez em 1603, seu objetivo era estritamente comercial.

    No entanto, para garantir seus interesses comerciais e maximizar os lucros dos acionistas, os comerciantes da VOC começaram a lutar contra potentados locais que cobravam tarifas infladas, bem como contra concorrentes europeus. A VOC armou seus navios mercantes com canhões; recrutou mercenários europeus, japoneses, indianos e indonésios; e construiu fortes e conduziu batalhas e cercos em grande escala. Essa iniciativa pode soar um pouco estranha para nós, mas no início da Era Moderna era comum empresas privadas contratarem não só soldados como também generais e almirantes, canhões e navios, e até mesmo exércitos inteiros. A comunidade internacional encarava isso como algo natural e não estranhou nem um pouco quando uma empresa privada fundou um império.

    Uma ilha atrás da outra caiu diante de mercenários da VOC e uma grande parte da Indonésia se tornou uma colônia da empresa. A VOC governou a Indonésia por quase 200 anos. Foi só em 1800 que o Estado holandês assumiu o controle da Indonésia, tornando-a uma colônia nacional holandesa pelos próximos 150 anos. Hoje, algumas pessoas alertam que as corporações do século XXI estão acumulando muito poder. A história do início da era moderna nos mostra a que ponto isso pode chegar se permitirmos que os negócios persigam seus próprios interesses sem controle algum.

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    Enquanto a VOC operava no oceano Índico, a Companhia das Índias Ocidentais, outra empresa holandesa, se ocupou do Atlântico. A fim de controlar o comércio no importante rio Hudson, a Companhia das Índias Ocidentais fundou uma colônia chamada Nova Amsterdã em uma ilha na foz do rio. A colônia foi ameaçada por índios e repetidas vezes atacada pelos britânicos, que finalmente a tomaram, em 1664. Os britânicos mudaram seu nome para Nova York. Os restos do muro construído pela Companhia das Índias Ocidentais para defender sua colônia dos índios e dos britânicos deram lugar à rua mais famosa do mundo: Wall Street.

    Quando o século XVII dava seus últimos suspiros, a complacência e guerras continentais custosas levaram os holandeses a perder não só Nova York como também seu posto de locomotiva imperial e financeira da Europa, o qual foi febrilmente disputado pela França e pela Grã-Bretanha. No início, a França parecia estar em posição muito melhor. Era maior que a Grã-Bretanha, mais rica, mais populosa e contava com um exército mais numeroso e experiente.

    Mas a Grã-Bretanha conseguiu conquistar a confiança do sistema financeiro, ao passo que a França se mostrou não confiável. O comportamento da coroa francesa foi particularmente digno de nota durante a chamada Bolha do Mississippi, a maior crise financeira da Europa no século XVIII. Essa história também começa com uma empresa de capital aberto que fundou um império.

    Em 1717, a Companhia do Mississippi, fundada na França, tratou de colonizar o vale do baixo Mississippi, fundando a cidade de Nova Orleans no processo. Para financiar seus planos ambiciosos, a empresa, que tinha boas relações na corte do rei Luís XV, vendeu ações na bolsa de valores de Paris. John Law, o diretor da empresa, era também presidente do Banco Central da França.

    Além disso, o rei o havia nomeado controlador-geral de finanças, um cargo mais ou menos equivalente ao de um ministro de Finanças em nossos dias. Em 1717, o vale do baixo Mississippi oferecia poucas atrações além de pântanos e crocodilos, mas a Companhia do Mississippi espalhou histórias de riquezas fabulosas e oportunidades infinitas. Aristocratas, homens de negócios e membros apáticos da burguesia urbana da França foram atraídos por essas fantasias, e os preços das ações da Companhia do Mississippi dispararam. No início, as ações eram oferecidas a 500 livres. Em 1 de agosto de 1719, eram vendidas a 2,75 mil livres.

    Em 30 de agosto, valiam 4,1 mil livres e, em 4 de setembro, chegaram a 5 mil

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    livres. Em 2 de dezembro, o preço de uma ação da Mississippi ultrapassou os 10 mil livres. A euforia tomou conta das ruas de Paris. As pessoas venderam todos os seus bens e contraíram grandes empréstimos para comprar ações da Companhia do Mississippi. Todos pensavam ter descoberto o caminho fácil para a riqueza.

    Poucos dias depois, o pânico começou. Alguns especuladores perceberam que os preços das ações eram totalmente irrealistas e insustentáveis. Concluíram que era melhor vender enquanto os preços estavam no pico. À medida que a oferta de ações disponíveis aumentou, os preços caíram. Quando outros investidores viram o preço caindo, também quiseram vender depressa. Com isso, os preços despencaram ainda mais, desencadeando uma avalanche. Para estabilizar os preços, o Banco Central da França – presidido por seu diretor, John Law – comprou ações da Companhia do Mississippi, mas não poderia fazer isso para sempre. O banco acabou ficando sem dinheiro. Quando isso aconteceu, o controlador-geral de finanças, o mesmo John Law, autorizou a impressão de mais dinheiro a fim de comprar mais ações. Isso colocou todo o sistema financeiro da França dentro da bolha. E nem mesmo essa mágica financeira foi capaz de salvar o dia. O preço das ações da Companhia do Mississippi caiu de 10 mil livres para 1 mil livres outra vez, e então despencou completamente, e as ações perderam cada centavo de seu valor. A essa altura, o Banco Central e o Tesouro Real tinham uma quantidade absurda de ações sem valor e não tinham dinheiro algum. Os grandes especuladores saíram praticamente ilesos – eles venderam a tempo. Os pequenos investidores perderam tudo, e muitos cometeram suicídio.

    A Bolha do Mississippi foi uma das crises financeiras mais espetaculares da história. O sistema financeiro da coroa francesa jamais se recuperou totalmente desse golpe. A maneira como a Companhia do Mississippi usou seu poder político para manipular os preços das ações e alimentar a febre de compra levou o público a perder a fé no sistema bancário da França e na sabedoria financeira do rei francês. Luís XV teve cada vez mais dificuldade de obter crédito. Esse veio a ser um dos principais motivos pelos quais o império ultramarino francês caiu nas mãos dos britânicos. Enquanto os britânicos conseguiam obter empréstimos facilmente e a juros baixos, a França enfrentava dificuldade para conseguir empréstimos e tinha de pagar juros altos por eles. Até que, nos anos 1780, Luís XVI, que havia subido ao trono após a morte do avô, percebeu que metade de

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    seu orçamento anual estava comprometida com o pagamento de juros sobre os empréstimos e que seu destino era a bancarrota. Com relutância, em 1789, Luís XVI convocou os Estados-Gerais – o parlamento francês que não se reunia há um século e meio – a fim de encontrar uma solução para a crise. Assim começou a Revolução Francesa.

    Enquanto o império ultramarino francês estava desmoronando, o Império Britânico se expandia rapidamente. Como o Império Holandês que o precedeu, o Império Britânico foi fundado e administrado principalmente por empresas privadas de capital aberto, cujas ações eram negociadas na bolsa de valores de Londres. As primeiras colônias inglesas na América do Norte foram fundadas no início do século XVII por sociedades anônimas como a Companhia de Londres, a Companhia de Plymouth, a Companhia de Dorchester e a Companhia de Massachusetts.

    O subcontinente indiano também foi conquistado não pelo Estado britânico, e sim pelo exército mercenário da Companhia das Índias Orientais. Essa empresa privada britânica superou até mesmo a holandesa VOC. De sua sede na Leadenhall Street, em Londres, governou um poderoso império indiano por cerca de um século, mantendo uma força militar gigantesca de até 350 mil soldados, que superava consideravelmente as forças armadas da monarquia britânica. Foi só em 1858 que a Coroa britânica nacionalizou a Índia e o exército privado da empresa. Napoleão zombou dos britânicos, chamando-os de uma nação de lojistas. Mas esses lojistas derrotaram o próprio Napoleão, e o império deles foi o maior que o mundo já viu.

    Em nome do capital

    A nacionalização da Indonésia pela Coroa holandesa (1800) e a da Índia pela Coroa britânica (1858) não colocaram fim à aliança entre capitalismo e império.

    Ao contrário, a conexão só se tornou mais forte durante o século XIX. As empresas de capital aberto já não precisavam fundar e governar colônias privadas – seus administradores e grandes acionistas agora controlavam os bastidores do poder em Londres, Amsterdã e Paris, e eles podiam contar com o Estado para cuidar de seus interesses. Como Marx e outros críticos sociais ironizaram, os governos ocidentais estavam se tornando um sindicato capitalista.

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    O exemplo mais notório de como os governos se curvaram diante do dinheiro foi a Primeira Guerra do Ópio, travada entre a Grã-Bretanha e a China (1840-1842). Na primeira metade do século XIX, a Companhia das Índias Orientais e vários homens de negócio britânicos fizeram fortuna exportando drogas, principalmente ópio, para a China. Milhões de chineses ficaram viciados, o que debilitou o país do ponto de vista tanto econômico quanto social. No fim dos anos 1830, o governo chinês proibiu o tráfico de drogas, mas os comerciantes britânicos simplesmente ignoraram a lei. As autoridades chinesas começaram a confiscar e destruir os carregamentos de droga. Os cartéis de droga tinham relações em Westminster e na Downing Street – na verdade, muitos membros do parlamento e ministros tinham ações nas empresas de droga –, de modo que eles pressionaram o governo para agir.

    Em 1840, a Grã-Bretanha declarou guerra à China em nome do “livre comércio”. Foi uma vitória fácil. A China, excessivamente confiante, não foi páreo para as novas superarmas dos britânicos – navios a vapor, artilharia pesada, foguetes e fuzis de disparo rápido. Segundo o tratado de paz que se seguiu, a China concordou em não restringir as atividades dos comerciantes de drogas britânicos e em compensá-los pelos danos causados pela polícia chinesa.

    Além disso, a Grã-Bretanha exigiu e obteve o controle de Hong Kong, que eles passaram a usar como uma base segura para o tráfico de drogas (Hong Kong continuou nas mãos dos britânicos até 1997). No fim do século XIX, cerca de 40 milhões de chineses, um décimo da população do país, eram viciados em ópio.3 O Egito também aprendeu a respeitar o braço comprido do capitalismo britânico. Durante o século XIX, investidores franceses e britânicos emprestaram grandes somas aos governantes do Egito, primeiro a fim de financiar o projeto do Canal de Suez e depois para financiar iniciativas muito menos bem-sucedidas. A dívida egípcia inflou, e os credores europeus se intrometeram cada vez mais em assuntos egípcios. Em 1881, os nacionalistas egípcios estavam fartos e se rebelaram, declarando uma anulação unilateral de toda a dívida externa. A rainha Vitória não ficou satisfeita. Um ano depois, ela enviou seu exército e sua marinha para o Nilo, e o Egito continuou sendo um protetorado britânico até o fim da Segunda Guerra Mundial.

    Essas estão longe de terem sido as únicas guerras travadas para proteger interesses de investidores. Na verdade, a própria guerra poderia se tornar uma

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    commodity, assim como o ópio. Em 1821, os gregos se rebelaram contra o Império Otomano. A rebelião despertou grande simpatia nos círculos liberais e românticos da Grã-Bretanha – Lorde Byron, o poeta, inclusive foi à Grécia para lutar ao lado dos insurgentes. Mas os financistas de Londres também viram nisso uma oportunidade. Propuseram aos líderes rebeldes a emissão de Títulos da Rebelião Grega, comercializáveis na bolsa de valores de Londres. Os gregos prometeriam pagar os títulos, acrescidos de juros, se e quando conquistassem a independência. Investidores privados compraram títulos para lucrar, ou por simpatizar com a causa grega, ou por ambos os motivos. O valor dos Títulos da Rebelião Grega subia e caía na bolsa de valores conforme os sucessos e fracassos militares nos campos de batalha da Hellas. Aos poucos, os turcos levaram a melhor. Com uma derrota iminente dos rebeldes, os acionistas se viram diante da perspectiva de perder seus tesouros. O interesse dos acionistas era o interesse da nação, de modo que os britânicos organizaram uma frota internacional e, em 1827, afundaram a principal flotilha otomana na batalha de Navarino. Depois de séculos de dominação, a Grécia finalmente estava livre.

    Mas a liberdade veio com uma dívida gigantesca que o novo país não tinha como pagar. A economia grega foi hipotecada a credores britânicos durante décadas.

    O abraço de urso entre o capital e a política teve implicações de longo alcance para o mercado de crédito. A quantidade de crédito em uma economia é determinada não só por fatores puramente econômicos, como a descoberta de novos campos de petróleo ou a invenção de uma nova máquina, como também por acontecimentos políticos, como mudanças de regime ou políticas externas mais ambiciosas. Depois da batalha de Navarino, os capitalistas britânicos estavam mais dispostos a investir seu dinheiro em negócios ultramarinos arriscados. Eles viram que, se um devedor estrangeiro se recusasse a pagar os empréstimos, o exército de Sua Majestade traria o dinheiro deles de volta.

    É por isso que, hoje, a classificação de risco de um país é muito mais importante para seu bem-estar econômico do que seus recursos naturais. As classificações de risco indicam a probabilidade de um país pagar suas dívidas.

    Além de dados puramente econômicos, levam em consideração fatores políticos, sociais e até mesmo culturais. Um país rico em petróleo, mas amaldiçoado com um governo despótico, guerra endêmica e um sistema jurídico corrupto geralmente receberá uma classificação de risco alta. Em consequência, é

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    provável que continue relativamente pobre, já que não será capaz de levantar o capital necessário para aproveitar ao máximo sua riqueza de petróleo. Um país desprovido de recursos naturais, mas que desfruta de paz, de um sistema jurídico justo e de um governo livre provavelmente receberá uma classificação de risco baixa. Como tal, pode conseguir levantar capital suficiente para financiar um bom sistema educativo e fomentar uma indústria de tecnologia próspera.

    O culto ao livre mercado

    O capital e a política se influenciam mutuamente a tal ponto que a relação entre os dois é acaloradamente debatida por economistas, políticos e pelo público.

    Capitalistas convictos costumam alegar que o capital deveria ter a liberdade de influenciar a política, mas a política não deveria ter a liberdade de influenciar o capital. Alegam que quando os governos interferem nos mercados, interesses políticos ocasionam com que façam investimentos pouco sensatos, que por sua vez resultam num crescimento mais lento. Por exemplo, um governo pode impor uma carga tributária pesada sobre os industrialistas e usar o dinheiro para pagar seguros-desemprego generosos, uma medida popular entre os eleitores. Na visão de muitos empresários, seria muito melhor se o governo deixasse o dinheiro com eles. Eles o usariam, segundo afirmam, para abrir novas fábricas e contratar os desempregados.

    Nessa visão, a política econômica mais sábia é manter a política fora da economia, reduzir ao mínimo a carga tributária e a regulação do governo e deixar que as forças do mercado tomem seu curso. Os investidores privados, desimpedidos de considerações políticas, investirão seu dinheiro onde puderem obter mais lucro; portanto, a forma de garantir máximo crescimento econômico – que beneficiará a todos, industrialistas e operários – é o governo fazer o mínimo possível. Essa doutrina de livre mercado é hoje a mais comum e mais influente variante do credo capitalista. Os defensores mais entusiastas do livre mercado criticam aventuras militares no exterior com tanto fervor quanto criticam os programas nacionais de bem-estar social. Eles oferecem aos governos o mesmo conselho que os mestres zen oferecem aos iniciantes: simplesmente não faça nada.

    Mas em sua forma extrema, a crença no livre mercado é tão ingênua

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    quanto a crença no Papai Noel. Simplesmente não existe um mercado completamente isento de interesses políticos. O recurso econômico mais importante é a confiança no futuro, e esse recurso é constantemente ameaçado por ladrões e charlatães. Os mercados, sozinhos, não oferecem proteção alguma contra fraude, roubo e violência. É função dos sistemas políticos assegurar a confiança legislando sanções contra trapaças e instaurando e financiando forças policiais, tribunais e prisões que fazem com que a lei seja cumprida. Quando os reis falham em sua função e não regulam o mercado devidamente, a consequência é perda de confiança, redução de crédito e depressão econômica.

    Essa foi a lição ensinada pela Bolha do Mississippi em 1719, e os que se esqueceram dela foram relembrados pela bolha imobiliária de 2007 nos Estados Unidos, e com a crise creditícia e a recessão que se seguiram.

    O inferno capitalista

    Há uma razão ainda mais fundamental pela qual é perigoso dar rédea solta aos mercados. Adam Smith ensinou que o sapateiro usaria seu excedente para empregar mais assistentes. Isso implica que a ganância egoísta é benéfica para todos, já que os lucros são usados para expandir a produção e contratar mais empregados.

    Mas o que acontece se o sapateiro ganancioso aumenta os lucros pagando menos aos empregados e aumentando a jornada de trabalho deles? A resposta padrão é que o livre mercado protegeria os empregados. Se nosso sapateiro paga pouco e exige muito, os melhores empregados naturalmente o abandonariam e iriam trabalhar para a concorrência. Ao sapateiro tirano restariam os piores trabalhadores, ou nenhum. Ele teria de se remediar ou sair do negócio. Sua própria ganância o impeliria a tratar bem seus empregados.

    Isso, na teoria, parece à prova de balas, mas na prática as balas passam com demasiada facilidade. Em um mercado completamente livre, não supervisionado por reis e padres, capitalistas avarentos podem criar monopólios ou entrar em conluio contra sua mão de obra. Se houver uma única corporação controlando todas as fábricas de sapatos em um país, ou se todos os proprietários de fábricas conspirarem para reduzir os salários simultaneamente, os trabalhadores já não serão capazes de se proteger mudando de emprego.

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    O que é ainda pior, chefes gananciosos podem restringir a liberdade de ir e vir dos trabalhadores por meio da servidão por dívida ou da escravidão. No fim da Idade Média, a escravidão era quase desconhecida na Europa cristã. Durante o início da era moderna, a ascensão do capitalismo europeu andou de mãos dadas com a ascensão do comércio de escravos no Atlântico. Forças mercantis irrestritas, e não reis tirânicos ou ideólogos racistas, foram responsáveis por essa calamidade.

    Quando os europeus conquistaram a América, eles abriram minas de ouro e de prata e fundaram plantações de açúcar, tabaco e algodão. Essas minas e plantações se tornaram o sustentáculo da produção e da exportação americanas.

    As plantações de açúcar foram de especial importância. Na Idade Média, o açúcar era um luxo raro na Europa. Era importado do Oriente Médio a preços proibitivos e usado com parcimônia como um ingrediente secreto em iguarias e medicamentos à base de óleo de cobra. Depois que grandes plantações de açúcar foram estabelecidas na América, quantidades cada vez maiores de açúcar começaram a chegar à Europa. O preço do açúcar caiu, e a Europa desenvolveu um paladar insaciável por doce. Os empreendedores satisfizeram essa necessidade produzindo enormes quantidades de bolos, biscoitos, chocolates, doces e bebidas adocicadas feitas com cacau, café e chá. A ingestão anual de açúcar de um inglês cresceu de quase zero no início do século XVII para aproximadamente oito quilos, em média, no início do século XIX.

    No entanto, cultivar cana e extrair seu açúcar era uma atividade que demandava trabalho intensivo. Poucas pessoas queriam trabalhar longas jornadas em campos de açúcar infestados de malária sob um sol tropical. Trabalhadores contratados teriam resultado em um produto caro demais para o consumo em massa. Cientes das forças do mercado, e ávidos por lucro e crescimento econômico, os europeus donos das plantações se voltaram para os escravos.

    Do século XVI ao século XIX, por volta de 10 milhões de escravos africanos foram importados para a América. Cerca de 70% deles trabalharam nas plantações de açúcar. As condições de trabalho eram abomináveis. A maioria dos escravos viviam uma existência curta e miserável, e outros milhões morriam durante guerras travadas para capturar escravos ou durante a longa viagem do interior da África à costa da América. Tudo isso para que os europeus pudessem saborear seus doces e chás adocicados – e para que os barões do açúcar

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    pudessem desfrutar de lucros enormes.

    O comércio de escravos não era controlado por nenhum Estado ou governo. Foi uma iniciativa puramente econômica, organizada e financiada pelo livre mercado de acordo com as leis da oferta e da demanda. As empresas privadas de comércio de escravos vendiam ações nas bolsas de valores de Amsterdã, Londres e Paris. Europeus de classe média à procura de um bom investimento compravam essas ações. Contando com esse dinheiro, as empresas compravam navios, contratavam marinheiros e soldados, compravam escravos na África e os transportavam para a América, onde vendiam escravos aos donos das plantações, usando a receita para comprar produtos como açúcar, cacau, tabaco, algodão e rum. Eles regressavam à Europa, vendiam o açúcar e o algodão por um bom preço e então navegavam para a África para começar outra rodada. Os acionistas ficavam muito satisfeitos com esse arranjo. Ao longo do século XVIII, o rendimento sobre os investimentos no comércio de escravos foi de cerca de 6% ao ano – eram extremamente lucrativos, como qualquer consultor de hoje admitiria sem demora.

    Essa é a pedra no sapato do capitalismo de livre mercado. Não há como garantir que os lucros sejam ganhos de forma justa, ou distribuídos de maneira justa. Ao contrário, a ânsia por aumentar os lucros e a produção cega as pessoas para qualquer coisa que possa estar no caminho. Quando o crescimento se torna um bem supremo, irrestrito por qualquer outra consideração ética, pode facilmente levar à catástrofe. Algumas religiões, como o cristianismo e o nazismo, mataram milhões por ódio fervoroso. O capitalismo matou milhões por pura indiferença unida à ganância. O comércio de escravos no Atlântico não derivou do ódio racista para com os africanos. Os indivíduos que compraram as ações, os corretores que as venderam e os administradores das empresas de comércio de escravos raramente pensavam nos africanos. O mesmo pode ser dito dos proprietários das plantações de açúcar: muitos deles viviam longe das plantações e a única informação que exigiam eram livros contábeis com registros precisos de lucros e perdas.

    É importante lembrar que o comércio de escravos no Atlântico não foi uma aberração em um registro imaculado. A Grande Fome de Bengala, discutida no capítulo anterior, foi causada por uma dinâmica similar: a Companhia das Índias Orientais britânica se importava mais com seus lucros do que com a vida

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    de 10 milhões de bengaleses. As campanhas militares da VOC na Indonésia eram financiadas por burgueses holandeses honestos que amavam seus filhos, faziam doações de caridade e apreciavam boa música e boa arte, mas não tinham consideração alguma pelo sofrimento dos habitantes de Java, Sumatra e Malaca. Inúmeros outros crimes e contravenções acompanharam o crescimento da economia moderna em outras partes do planeta.

    O século XIX não trouxe nenhuma melhoria na ética do capitalismo. A Revolução Industrial que varreu a Europa enriqueceu os banqueiros e os donos do capital, mas condenou milhões de trabalhadores a uma vida de pobreza abjeta.

    Nas colônias europeias as coisas eram ainda piores. Em 1876, o rei Leopoldo II, da Bélgica, fundou uma organização humanitária não governamental com o objetivo declarado de explorar a África Central e combater o comércio de escravos ao longo do rio Congo. Também foi encarregada de melhorar as condições para os habitantes da região, construindo rodovias, escolas e hospitais.

    Em 1885, as potências europeias concordaram em conceder a essa organização o controle de 2,3 milhões de quilômetros quadrados na bacia do Congo. Esse território, 75 vezes o tamanho da Bélgica, ficou conhecido a partir de então como o Estado Livre do Congo. Ninguém pediu a opinião dos 20-30 milhões de habitantes do território.

    Em pouco tempo a organização humanitária se tornou um negócio cujo objetivo real era o crescimento e o lucro. As escolas e os hospitais foram esquecidos, e em vez disso a bacia do Congo se encheu de minas e plantações, controladas principalmente por oficiais belgas que exploraram a população local de maneira brutal. A indústria da borracha foi particularmente notória. A borracha estava rapidamente se tornando uma mercadoria industrial, e a sua exportação era a principal fonte de receita do Congo. Os aldeães africanos que coletavam a borracha eram obrigados a fornecer cotas cada vez maiores.

    Aqueles que não conseguiam fornecer sua cota eram punidos brutalmente por sua “preguiça”. Seus braços eram cortados e, em certas ocasiões, aldeias inteiras eram massacradas. De acordo com as estimativas mais precisas, entre 1885 e 1908 a busca por crescimento e lucros custou a vida de 6 milhões de indivíduos (pelo menos 20% da população do Congo). Algumas estimativas chegam a 10 milhões de mortes.4 Depois de 1908, e especialmente depois de 1945, a ganância capitalista foi

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    um pouco freada, sobretudo por temor ao comunismo. Mas as desigualdades continuam extremas. O bolo econômico de 2015 é muito maior que o de 1500, mas é distribuído de maneira tão desigual que muitos camponeses africanos e trabalhadores indonésios voltam para casa depois de um dia duro de trabalho com menos comida do que seus ancestrais há 500 anos. De modo muito similar à Revolução Agrícola, o crescimento da economia moderna talvez também se revele uma fraude colossal. A espécie humana e a economia global podem muito bem continuar crescendo, mas muito mais indivíduos passam fome e privação.

    O capitalismo tem duas respostas para essa crítica. Primeiro, o capitalismo criou um mundo que ninguém além de um capitalista é capaz de governar. A única tentativa séria de governar o mundo de uma forma diferente – o comunismo – foi tão pior em praticamente todos os aspectos concebíveis que ninguém tem estômago para tentar de novo. Em 8500 a.C., alguém podia derramar lágrimas amargas por causa da Revolução Agrícola, mas era tarde demais para desistir da agricultura. Da mesma forma, podemos não gostar do capitalismo, mas não podemos viver sem ele.

    A segunda resposta é que só precisamos de um pouco mais de paciência – o paraíso, prometem os capitalistas, está logo ali na esquina. É verdade, cometeram-se erros, como o comércio de escravos no Atlântico e a exploração da classe trabalhadora europeia. Mas aprendemos a lição, e, se esperarmos só mais um pouquinho e deixarmos o bolo crescer um pouco mais, todos receberão uma fatia maior. A divisão de espólios nunca será igual, mas haverá o suficiente para satisfazer cada homem, mulher e criança – até mesmo no Congo.

    De fato, há alguns sinais positivos. Pelo menos quando usamos critérios puramente materiais – como expectativa de vida, mortalidade infantil e ingestão de calorias –, o padrão de vida médio dos humanos em 2015 é significativamente maior do que era em 1913, apesar do crescimento exponencial no número de humanos.

    Mas o bolo econômico pode crescer indefinidamente? Todo bolo requer matérias-primas e energia. Os profetas do apocalipse alertam que, mais cedo ou mais tarde, o Homo sapiens irá exaurir as matérias-primas e a energia do planeta Terra. E o que acontecerá depois?

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    17. As engrenagens da indústria

    As engrenagens da indústria A ECONOMIA MODERNA CRESCE GRAÇAS À NOSSA CONFIANÇA NO FUTURO E À disposição dos capitalistas para reinvestir seus lucros na produção. Mas isso não é suficiente.

    O crescimento econômico também requer energia e matérias-primas, e essas são finitas. Quando e se acabarem, todo o sistema irá desmoronar.

    No entanto, as evidências fornecidas pelo passado são que eles só são finitos em teoria. Contrariando as expectativas, embora o uso de energia e matérias-primas por parte da humanidade tenha crescido nos últimos séculos, a quantidade disponível para nossa exploração de fato aumentou. Sempre que a escassez de um ou de outro ameaçou desacelerar o crescimento econômico, choveram investimentos em pesquisa científica e em pesquisa tecnológica. Essas invariavelmente produziram não só maneiras mais eficazes de explorar os recursos existentes como também tipos completamente novos de energia e materiais.

    Considere a indústria de veículos. Nos últimos 300 anos, a humanidade fabricou bilhões de veículos – de carroças e carrinhos de mão a trens, carros, jatos supersônicos e naves espaciais. Seria de se esperar que tal esforço imenso exaurisse as fontes de energia e as matérias-primas disponíveis para a produção de veículos e que hoje estivéssemos raspando o fundo do barril. Mas aconteceu o oposto. Enquanto, em 1700, a indústria de veículos global dependia quase exclusivamente de madeira e de ferro, hoje tem à sua disposição uma abundância de materiais recém-descobertos, como plástico, borracha, alumínio e titânio, nenhum dos quais nossos ancestrais sequer conheciam. Enquanto, em 1700, as carroças eram construídas principalmente por meio da força física de carpinteiros e ferreiros, hoje as máquinas nas fábricas da Toyota e da Boeing são alimentadas por motores de combustão de petróleo e usinas de energia nuclear.

    Uma revolução similar ocorreu em quase todos os outros setores da indústria.

    Podemos chamar isso de Revolução Industrial.

    Durante milênios antes da Revolução Industrial, os humanos já sabiam como usar uma grande variedade de fontes de energia. Eles queimavam madeira a fim de derreter ferro, aquecer casas e assar bolos. Navios a vela usavam a energia eólica para se mover, e moinhos d’água capturavam o curso de rios para moer

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    grãos. Mas todas essas opções tinham problemas e limites claros. Não havia árvores disponíveis em toda parte, o vento nem sempre soprava quando era necessário, e a força da água só era útil para quem morava perto de um rio.

    Um problema ainda maior é que as pessoas não sabiam como converter um tipo de energia em outro. Elas podiam usar o movimento do vento e da água para mover navios e moinhos de pedra, mas não para aquecer água ou derreter ferro. Inversamente, elas não podiam usar a energia produzida pela queima de madeira para fazer um moinho de pedra se mover. Os humanos só tinham uma máquina capaz de realizar tais truques de conversão de energia: o corpo. No processo natural do metabolismo, o corpo dos humanos e de outros animais queima combustíveis orgânicos conhecidos como alimentos e converte a energia liberada em movimento muscular. Homens, mulheres e animais podiam consumir grãos e carne, queimar seus carboidratos e gorduras e usar a energia para puxar uma carroça ou um arado.

    Uma vez que os corpos humano e animal eram o único dispositivo de conversão de energia disponível, a energia muscular era essencial para quase todas as atividades humanas. Músculos humanos construíam carroças e casas, músculos de bois aravam campos e músculos de cavalos transportavam alimentos. A energia que alimentava essas máquinas musculares orgânicas vinham de uma única fonte: as plantas. Essas, por sua vez, obtinham energia do Sol. No processo de fotossíntese, capturavam energia solar e armazenavam-na em compostos orgânicos. Quase tudo que as pessoas fizeram ao longo da história foi abastecido pela energia solar capturada pelas plantas e convertida em energia muscular.

    Consequentemente, a história humana foi dominada por dois ciclos principais: os ciclos de crescimento das plantas e os ciclos alternados de energia solar (dia e noite, verão e inverno). Quando a luz do Sol era escassa e quando os campos de trigo continuavam verdes, os humanos tinham pouca energia. Os celeiros ficavam vazios, os cobradores de impostos ficavam ociosos, os soldados tinham dificuldade para se locomover e lutar, e os reis tendiam a manter a paz.

    Quando o Sol brilhava e o trigo amadurecia, os camponeses colhiam as sementes e enchiam os celeiros. Os cobradores de impostos corriam para garantir sua parte. Os soldados retesavam os músculos e afiavam as espadas. Os reis convocavam conselhos e planejavam as campanhas seguintes. Todos eram

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    abastecidos pela energia solar – capturada e armazenada na forma de trigo, arroz e batata.

    O segredo na cozinha

    Durante esses longos milênios, dia sim, dia não as pessoas ficavam cara a cara com a invenção mais importante na história da produção de energia – e não conseguiam perceber isso. Essa invenção as encarava cada vez que uma dona de casa ou um servo colocava no fogão uma chaleira para ferver água para o chá ou uma panela cheia de batatas. No minuto em que a água fervia, a tampa da chaleira ou da panela saltava. O calor estava sendo convertido em movimento.

    Mas tampas de panelas saltando eram uma perturbação, sobretudo se alguém esquecia a panela no fogo e a água transbordava.

    Um avanço parcial na conversão do calor em movimento ocorreu após a invenção da pólvora na China do século IX. No início, a ideia de usar pólvora para propelir projéteis era tão antinatural que durante séculos a substância foi usada primordialmente para produzir fogos de artifício. Mas – talvez depois que algum especialista em fogos de artifício moeu pólvora em um morteiro e esta atirou longe o pilão – as armas acabaram por surgir. Cerca de 600 anos se passaram desde a invenção da pólvora até o desenvolvimento de uma artilharia eficaz.

    Mesmo então, a ideia de converter calor em movimento continuou sendo tão antinatural que outros três séculos se passaram antes de as pessoas inventarem a próxima máquina que usava calor para mover as coisas. A nova tecnologia nasceu nas minas de carvão da Grã-Bretanha. À medida que a população britânica crescia, florestas eram derrubadas para abastecer a economia crescente e abrir caminho para casas e campos. A Grã-Bretanha enfrentava uma escassez cada vez maior de lenha. Muitas jazidas de carvão estavam situadas em áreas alagadas, e a inundação impedia os mineiros de acessarem os estratos mais baixos das minas. Era um problema à procura de uma solução. Por volta de 1700, um estranho ruído começou a reverberar em torno dos poços de mineração britânicos. Esse ruído – prenúncio da Revolução Industrial – era sutil no início, mas ficou cada vez mais forte a cada década que se passava, até que envolveu o mundo inteiro em uma cacofonia ensurdecedora.

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    Vinha de um motor a vapor.

    Há muitos tipos de motores a vapor, mas todos eles têm um mesmo princípio. Queima-se algum tipo de combustível, como carvão, e usa-se o calor resultante para ferver água, produzindo vapor. À medida que o vapor se expande, empurra um pistão. O pistão se move, e qualquer coisa que esteja conectada ao pistão se move com ele. O calor foi convertido em movimento! Nas minas de carvão britânicas do século XVIII, o pistão era conectado a uma bomba que extraía água do fundo dos poços de mineração. Os primeiros motores eram incrivelmente ineficazes. Era preciso queimar uma enorme quantidade de carvão para bombear um volume minúsculo de água. Mas, nas minas, o carvão era abundante e estava ao alcance da mão, e por isso ninguém se importava.

    Nas décadas que se seguiram, os empreendedores britânicos melhoraram a eficácia do motor a vapor, o tiraram dos poços de mineração e o conectaram a teares e descaroçadoras de algodão. Isso revolucionou a produção têxtil, tornando possível produzir quantidades cada vez maiores de tecidos baratos. Em um piscar de olhos, a Grã-Bretanha se tornou a oficina do mundo. Mas, o que é ainda mais significativo, tirar o motor a vapor das minas rompeu uma importante barreira psicológica. Se era possível queimar carvão para movimentar teares, por que não usar o mesmo método para movimentar outras coisas, como veículos?

    Em 1825, um engenheiro britânico conectou um motor a vapor a um trem com vagões de minério cheios de carvão. O motor arrastou os vagões por uma linha de ferro por cerca de 20 quilômetros, da mina até o porto mais próximo.

    Essa foi a primeira locomotiva a vapor da história. Claramente, se o vapor podia ser usado para transportar carvão, por que não outros produtos? E por que não até mesmo pessoas? Em 15 de setembro de 1830, a primeira ferrovia comercial foi inaugurada, conectando Liverpool a Manchester. Os trens se moviam com o mesmo motor a vapor antes usado para bombear água e mover teares. Meros 20 anos depois, a Grã-Bretanha tinha dezenas de milhares de quilômetros de ferrovia.1 Daí em diante, as pessoas ficaram obcecadas com a ideia de que máquinas e motores pudessem ser usados para converter um tipo de energia em outro.

    Qualquer tipo de energia, em qualquer lugar do mundo, poderia ser usado para qualquer necessidade que tivéssemos, contanto que inventássemos a máquina certa. Por exemplo, quando os físicos perceberam que uma quantidade imensa

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    de energia está armazenada no interior dos átomos, eles imediatamente começaram a pensar em como essa energia poderia ser liberada e usada para gerar eletricidade, abastecer submarinos e aniquilar cidades. Seiscentos anos se passaram do momento em que os alquimistas chineses descobriram a pólvora até o momento em que um canhão turco pulverizou os muros de Constantinopla.

    Apenas 40 anos se passaram do momento em que Einstein determinou que qualquer tipo de massa pode ser convertido em energia – é isso o que E = mc2 significa – até o momento em que as bombas atômicas destruíram Hiroshima e Nagasaki e usinas de energia nuclear floresceram em todo o mundo.

    Outra descoberta crucial foi o motor de combustão interna, que levou pouco mais de uma geração para revolucionar o transporte humano e transformar o petróleo em poder político líquido. O petróleo era conhecido há milhares de anos e usado para impermeabilizar telhados e lubrificar eixos. Mas até um século atrás ninguém pensava que fosse útil para muito mais do que isso.

    A ideia de derramar sangue em nome do petróleo teria parecido ridícula. Era possível travar uma guerra por terra, ouro, pimenta ou escravos, não por petróleo.

    A trajetória da eletricidade foi ainda mais impressionante. Há dois séculos, a eletricidade não exercia papel algum na economia e, quando muito, era usada para experimentos científicos misteriosos e truques de mágica baratos. Uma série de invenções a transformaram em nosso gênio da lâmpada universal. Nós estalamos os dedos e ela imprime livros e costura roupas, mantém nossos legumes frescos e nosso sorvete congelado, cozinha nossos jantares e executa nossos criminosos, registra nossos pensamentos e nossos sorrisos, ilumina nossas noites e nos entretém com incontáveis programas de televisão. Poucos de nós entendemos como a eletricidade faz todas essas coisas, mas um número ainda menor pode imaginar a vida sem ela.

    Um oceano de energia

    Em seu cerne, a Revolução Industrial foi uma revolução na conversão de energia. Foi demonstrado inúmeras vezes que não há limite para a quantidade de energia à nossa disposição. Ou, mais precisamente, que o único limite é determinado por nossa ignorância. A cada poucas décadas descobrimos uma

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    nova fonte de energia, de modo que a soma total de energia à nossa disposição só continua crescendo.

    Por que tantas pessoas têm medo de que nossa energia esteja acabando?

    Por que elas alertam sobre um desastre se exaurirmos todos os combustíveis fósseis disponíveis? Claro está que não falta energia no mundo. A única coisa que nos falta é o conhecimento necessário para usá-la e convertê-la para nossas necessidades. A quantidade de energia armazenada em todo o combustível fóssil na Terra é insignificante se comparada com a quantidade que o Sol fornece a cada dia, livre de encargos. Somente uma minúscula proporção da energia solar chega à Terra, e no entanto equivale a 3.766.800 exajoules de energia por ano (um joule é uma unidade de energia no sistema métrico, mais ou menos a quantidade que gastamos para erguer uma maçã pequena a um metro; um exajoule é 1 quintilhão de joules – isso é um montão de maçãs).2 Todas as plantas do mundo capturam apenas por volta de 3 mil desses exajoules solares através da fotossíntese.3 Todas as atividades e indústrias humanas reunidas consomem cerca de 500 exajoules anualmente, o equivalente à quantidade de energia que a Terra recebe do Sol em apenas 90 minutos.4 E isso é só a energia solar. Além dela, somos cercados por outras fontes imensas de energia, como a energia nuclear e a energia gravitacional, esta última mais evidente na potência das ondas oceânicas causadas pela influência da Lua sobre a Terra.

    Antes da Revolução Industrial, o mercado de energia humano dependia quase exclusivamente das plantas. As pessoas viviam diante de um reservatório de energia verde carregando 3 mil exajoules por ano e tentavam extrair o máximo possível dessa energia. Mas havia um claro limite à quantidade que podia ser extraída. Durante a Revolução Industrial, passamos a perceber que na verdade estamos vivendo ao lado de um oceano enorme de energia, que contém bilhões e mais bilhões de exajoules de energia em potencial. Tudo que precisamos fazer é inventar geradores melhores.

    Aprender a utilizar e converter energia de maneira eficaz resolveu o outro problema que desacelera o crescimento econômico: a escassez de matériasprimas. Quando os humanos entenderam como utilizar grandes quantidades de energia barata, puderam começar a explorar depósitos de matéria-prima até então inacessíveis (por exemplo, minerando ferro nos desertos siberianos), ou transportar matérias-primas de lugares cada vez mais distantes (por exemplo,

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    abastecendo as fábricas têxteis da Grã-Bretanha com lã australiana). Ao mesmo tempo, os avanços científicos permitiram que a humanidade inventasse matériasprimas completamente novas, como plástico, e descobrisse materiais naturais até então desconhecidos, como silicone e alumínio.

    Os químicos só descobriram o alumínio nos anos 1820, mas separar o metal de seu minério era extremamente difícil e custoso. Durante décadas, o alumínio era muito mais caro do que o ouro. Nos anos 1860, o imperador Napoleão III da França encomendou talheres de alumínio para seus convidados mais ilustres. Os visitantes menos importantes tinham de se virar com facas e garfos de ouro.5 Mas, no fim do século XIX, os químicos descobriram uma maneira de extrair enormes quantidades de alumínio barato, e hoje a produção global fica em torno de 30 milhões de toneladas por ano. Napoleão III ficaria surpreso de saber que os descendentes de seus súditos usam papel-alumínio descartável para embrulhar seus sanduíches e jogam as sobras no lixo.

    Há 2 mil anos, quando as pessoas na bacia do Mediterrâneo sofriam de pele seca, passavam azeite nas mãos. Hoje, abrem um tubo de creme. A seguir há uma lista de ingredientes de um creme para mãos simples que comprei por 3 dólares em uma loja qualquer:

    Água deionizada, ácido esteárico, glicerina, triglicérides do ácido cáprico/caprílico, propilenoglicol, miristato de isopropila, extrato de raiz de Panax ginseng, fragrância, álcool cetílico, trietanolamina, dimeticona, extrato de folha de Arctostaphylos uva-ursi, fosfato de ascorbil magnésio, imidazolidinil ureia, metilparabeno, cânfora, propilparabeno, hidroxiisohexil 3-ciclohexeno carboxialdeído, hidroxicitronelal, linalol, butilfenil metilpropional, citronelol, limoneno, geraniol.

    Quase todos esses ingredientes foram inventados ou descobertos nos últimos dois séculos.

    Durante a Primeira Guerra Mundial, a Alemanha foi submetida a um bloqueio e sofreu escassez severa de matérias-primas, em particular o salitre, um ingrediente essencial para a fabricação de pólvora e outros explosivos. Os depósitos mais importantes de salitre ficavam no Chile e na Índia; não havia nenhum na Alemanha. É verdade, o salitre podia ser substituído pela amônia,

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    mas esta também era cara de se produzir. Felizmente para os alemães, um de seus concidadãos, um químico judeu chamado Fritz Haber, havia descoberto em 1908 um processo para produzir amônia literalmente do ar. Quando a guerra eclodiu, os alemães usaram a descoberta de Haber para começar a produção industrial de explosivos usando o ar como matéria-prima. Alguns acadêmicos acreditam que, se não fosse pela descoberta de Haber, a Alemanha teria sido forçada a se render muito antes de novembro de 1918.6 A descoberta rendeu a Haber (que, durante a guerra, também foi pioneiro no uso de gás venenoso em batalha) um prêmio Nobel em 1918. De química, e não da paz.

    A vida na esteira

    A Revolução Industrial produziu uma combinação sem precedentes de energia abundante e barata com matérias-primas abundantes e baratas. O resultado foi uma explosão na produtividade humana. A explosão se fez sentir, em primeiro lugar, na agricultura. Geralmente, quando pensamos na Revolução Industrial, pensamos em uma paisagem urbana de chaminés fumacentas, ou no sofrimento dos mineradores de carvão explorados transpirando debaixo da terra. Mas a Revolução Industrial foi, acima de tudo, a Segunda Revolução Agrícola.

    Durante os últimos 200 anos, os métodos de produção industrial se tornaram o sustentáculo da agricultura. Máquinas como tratores começaram a assumir tarefas que antes eram executadas por energia muscular, ou simplesmente não executadas. Os campos e os animais se tornaram muitíssimo mais produtivos graças a fertilizantes artificiais, inseticidas industriais e todo um arsenal de hormônios e medicamentos. Refrigeradores, navios e aviões tornaram possível armazenar a produção durante meses e transportá-la de maneira rápida e barata ao outro lado do mundo. Os europeus começaram a se alimentar de carne fresca argentina e sushi japonês.

    Até mesmo plantas e animais foram mecanizados. Mais ou menos na mesma época em que o Homo sapiens foi elevado a um status divino pelas religiões humanistas, os animais de criação deixaram de ser vistos como criaturas vivas capazes de sentir dor e sofrimento e passaram a ser tratados como máquinas. Hoje, esses animais muitas vezes são produzidos em massa em instalações similares a fábricas, seus corpos moldados de acordo com as

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    necessidades industriais. Eles passam a vida inteira como engrenagens em linhas de produção gigantes, e a duração e a qualidade de sua existência são determinadas pelos lucros e perdas das corporações. Mesmo quando a indústria toma cuidado para mantê-los vivos, razoavelmente saudáveis e bem alimentados, não tem nenhum interesse intrínseco nas necessidades psicológicas e sociais dos animais (exceto quando estas têm um impacto direto sobre a produção).

    Galinhas poedeiras, por exemplo, têm um mundo complexo de impulsos e necessidades comportamentais. Elas sentem desejos intensos de explorar seu ambiente, bicar e procurar alimento, determinar hierarquias sociais, construir ninhos e cuidar da aparência. Mas a indústria de ovos muitas vezes tranca as galinhas dentro de gaiolas minúsculas, e não é incomum espremerem quatro galinhas em uma única gaiola, cada uma delas com um espaço de chão de cerca de 25 por 22 centímetros. As galinhas recebem comida suficiente, mas são incapazes de reivindicar um território, construir um ninho ou se envolver em outras atividades naturais. Na verdade, a gaiola é tão pequena que em geral elas não conseguem nem mesmo abrir as asas ou ficar totalmente eretas.

    Os porcos estão entre os mais inteligentes e curiosos dos mamíferos, possivelmente só ficam atrás dos grandes primatas. Mas as fazendas industrializadas de criação de porcos adotam a prática rotineira de confinar porcas lactantes dentro de caixotes de madeira tão pequenos que elas literalmente são incapazes de se virar (muito menos caminhar ou procurar comida). As porcas são mantidas nesses caixotes dia e noite durante quatro semanas depois de parir. Sua prole é retirada para ser engordada, e as porcas são inseminadas com a próxima leva de leitões.

    Muitas vacas leiteiras passam quase a vida toda dentro de um pequeno cercado, pisando, sentando e dormindo sobre a própria urina e excremento. Elas recebem sua porção de alimento, hormônio e medicação de um conjunto de máquinas e são ordenhadas a cada poucas horas por outro conjunto de máquinas.

    A vaca é tratada como pouco mais do que uma boca que consome matériasprimas e um úbere que produz uma mercadoria. Tratar criaturas vivas que têm mundos emocionais complexos como se elas fossem máquinas tende a lhes causar não só desconforto físico como também grande estresse social e frustração psicológica.7

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    25. Pintos em uma esteira em uma chocadeira comercial. Os pintos machos e fêmeas imperfeitos são retirados da esteira e asfixiados em câmaras de gás, jogados em trituradores automáticos ou simplesmente no lixo, onde morrem esmagados. Centenas de milhões de pintos morrem todos os anos em tais chocadeiras.

    Assim como o comércio de escravos no Atlântico não resultou do ódio para com os africanos, a indústria animal moderna não é motivada por animosidade.

    Novamente, é alimentada pela indiferença. A maioria das pessoas que produzem e consomem ovos, leite e carne raramente param para pensar no destino dos frangos, vacas ou porcos cuja carne e produtos estão comendo. Aqueles que pensam muitas vezes argumentam que tais animais realmente pouco se diferem de máquinas, desprovidos de sensações e emoções, incapazes de sofrer.

    Ironicamente, as mesmas disciplinas científicas que criam nossas máquinas de leite e de ovos têm demonstrado, para além de qualquer dúvida, que os mamíferos e as aves têm uma composição sensorial e emocional complexa. Eles não só sentem dor física como também podem padecer de sofrimento

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    emocional.

    Segundo a psicologia evolutiva, as necessidades emocionais e sociais dos animais domésticos evoluíram na natureza, onde foram essenciais para a sobrevivência e a reprodução. Por exemplo, uma vaca selvagem precisava saber se relacionar com outras vacas e bois, ou não seria capaz de sobreviver e se reproduzir. Para aprender as habilidades necessárias, a evolução implantou nos bezerros – e nos filhotes de todos os outros mamíferos sociais – um intenso desejo de brincar (é brincando que os mamíferos adquirem novas habilidades sociais). E implantou neles um desejo ainda mais intenso de estar junto da mãe, cujo leite e cuidados eram essenciais para sua sobrevivência.

    O que acontece se, hoje, um fazendeiro separa uma bezerra da mãe, a coloca em uma jaula, lhe dá comida, água e inoculações contra doenças, e então, quando ela tiver idade suficiente, a insemina com esperma de boi? De uma perspectiva objetiva, essa bezerra já não precisa do vínculo com a mãe, nem de companheiros de brincadeira, para sobreviver e se reproduzir. Mas, de uma perspectiva subjetiva, a bezerra ainda sente um intenso desejo de estar junto da mãe e de brincar com outros bezerros. Se esses desejos não forem atendidos, a bezerra sofre muitíssimo. Essa é a lição elementar da psicologia evolutiva: uma necessidade formada na natureza continua a ser sentida subjetivamente, mesmo que já não seja necessária para a sobrevivência e a reprodução nas fazendas industriais. O que há de trágico na agricultura industrial é que ela se ocupa muito das necessidades objetivas dos animais, mas negligencia suas necessidades subjetivas.

    A verdade dessa teoria é conhecida pelo menos desde os anos 1950, quando o psicólogo norte-americano Harry Harlow estudou o desenvolvimento de macacos. Harlow separou macacos recém-nascidos de suas mães várias horas após o nascimento. Os macaquinhos foram isolados dentro de gaiolas e criados por mães artificiais. Em cada gaiola, Harlow colocou duas mães artificiais. Uma era feita de fios de metal e equipada com uma mamadeira na qual o macaquinho podia mamar. A outra era feita de madeira coberta com tecido, o que a fazia lembrar uma mãe macaca de carne e osso, mas não fornecia ao macaquinho nenhum sustento material. Presumia-se que os macaquinhos se agarrariam à mãe de metal e não à mãe de madeira.

    Para surpresa de Harlow, os macaquinhos mostraram uma preferência

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    notável pela mãe de madeira, passando a maior parte do tempo com ela. Quando as duas mães eram colocadas bem próximas uma da outra, os macaquinhos se agarravam à mãe de madeira mesmo enquanto se esticavam para sugar leite da mãe de metal. Harlow suspeitou que talvez os macaquinhos fizessem isso porque sentiam frio. Então colocou uma lâmpada elétrica dentro da mãe de metal, que agora radiava calor. A maioria dos macaquinhos, exceto os muito jovens, continuou a preferir a mãe de madeira.

    As pesquisas seguintes mostraram que os macacos órfãos de Harlow, ao crescer, ficaram emocionalmente abalados, embora tivessem recebido todo o nutriente de que necessitavam. Eles nunca se adequaram à sociedade de macacos, tinham dificuldade para se comunicar com outros macacos e sofriam de níveis elevados de ansiedade e agressão. A conclusão era inevitável: os macacos devem ter necessidades e desejos psicológicos que vão além de suas necessidades materiais e, se esses não são satisfeitos, sofrem muitíssimo. Os macaquinhos de Harlow preferiam ficar junto da mãe coberta de tecido porque buscavam não apenas leite, mas também um vínculo emocional. Nas décadas seguintes, vários estudos mostraram que essa conclusão se aplica não só aos macacos, mas também a outros mamíferos, bem como às aves. Hoje, milhões de animais de fazenda são submetidos às mesmas condições dos macados de Harlow, quando os fazendeiros rotineiramente separam bezerros, cabritos e outros filhotes de suas mães para serem criados em isolamento.8

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    26. Um dos macacos órfãos de Harlow se agarra à mãe de madeira mesmo enquanto suga leite da mãe de metal.

    Ao todo, dezenas de bilhões de animais de criação vivem hoje como parte de uma linha de montagem mecanizada, e cerca de 50 bilhões deles são abatidos anualmente. Esses métodos industriais de criação de animais levaram a um nítido aumento na produção agrícola e nas reservas de alimento dos humanos. Junto com a mecanização do cultivo de plantas, a pecuária industrial é a base de toda a

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    ordem socioeconômica moderna. Antes da industrialização da agricultura, a maior parte dos alimentos produzidos em campos e fazendas era “desperdiçada”

    alimentando camponeses e animais de criação. Só um pequeno percentual estava disponível para alimentar artesãos, professores, padres e burocratas.

    Consequentemente, em quase todas as sociedades os camponeses compreendiam mais de 90% da população. Após a industrialização da agricultura, um número cada vez menor de agricultores é necessário para alimentar um número crescente de operários e funcionários administrativos. Hoje, nos Estados Unidos, apenas 2% da população vive da agricultura9, mas esses 2% produzem o suficiente não só para alimentar toda a população do país como também para exportar excedentes para o resto do mundo. Sem a industrialização da agricultura, a Revolução Industrial urbana jamais poderia ter acontecido – não teria havido mãos e cérebros suficientes para trabalhar em fábricas e escritórios.

    À medida que essas fábricas e escritórios absorveram os bilhões de mãos e cérebros que eram dispensados do trabalho no campo, começaram a despejar uma avalanche de produtos sem precedentes. Hoje os humanos produzem muito mais aço, fabricam muito mais roupas e constroem muito mais estruturas do que em qualquer momento anterior. Além disso, produzem uma gama impressionante de produtos antes inimagináveis, como lâmpadas, telefones celulares, câmeras e lavadoras de louça. Pela primeira vez na história humana, a oferta começou a superar a demanda. E surgia um problema completamente novo: quem vai comprar todas essas coisas?

    A era das compras

    A economia capitalista moderna deve aumentar a produção constantemente se quiser sobreviver, como um tubarão que deve nadar para não morrer por asfixia.

    Mas só produzir não é o bastante. Também é preciso que alguém compre os produtos, ou os industrialistas e os investidores irão à falência. Para evitar essa catástrofe e garantir que as pessoas sempre comprem o que quer que a indústria produza, surgiu um novo tipo de ética: o consumismo.

    A maioria das pessoas ao longo da história viveu em condições de escassez.

    A frugalidade era, portanto, sua palavra de ordem. A ética austera dos puritanos e a dos espartanos são apenas dois exemplos famosos. Uma pessoa boa evitava

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    luxos, nunca desperdiçava comida e remendava calças rasgadas em vez de comprar novas. Somente reis e nobres se permitiam renunciar publicamente a tais valores e ostentar suas riquezas.

    O consumismo vê o consumo de cada vez mais produtos e serviços como algo positivo. Encoraja as pessoas a cuidarem de si mesmas, a se mimarem e até a se matarem pouco a pouco por meio do consumo exagerado. A frugalidade é uma doença a ser curada. Não é preciso olhar muito longe para ver a ética do consumo em ação – basta ler a parte de trás de uma caixa de cereal. Esta é uma citação de uma caixa de um dos meus cereais matinais favoritos, produzido por uma empresa israelense, a Telma:

    Às vezes você precisa de cuidados. Às vezes você precisa de um pouco mais de energia. Há momentos para controlar o peso e momentos em que você simplesmente precisa fazer alguma coisa… imediatamente! A Telma oferece uma variedade de cereais saborosos especialmente para você – prazer sem remorso.

    A mesma embalagem traz uma propaganda de outra marca de cereal chamada Health Treats:

    Health Treats oferece uma porção de grãos, frutas, nozes e castanhas para uma experiência que combina sabor, prazer e saúde. Para uma refeição saborosa no meio do dia, perfeita para um estilo de vida saudável. Um verdadeiro deleite com o sabor maravilhoso de “quero mais” [grifo no original].

    Durante a maior parte da história, as pessoas teriam sido repelidas, e não atraídas, por esse texto. Eles o teriam considerado egoísta, indecente e moralmente corrupto. O consumismo trabalhou duro, com a ajuda da psicologia popular (“Just do it!”), para convencer as pessoas de que a indulgência é algo bom, ao passo que a frugalidade significa auto-opressão.

    O consumismo prosperou. Somos todos bons consumistas. Compramos uma série de produtos de que não precisamos realmente e que até ontem não sabíamos que existiam. Os fabricantes criam deliberadamente produtos de vida curta e inventam modelos novos e desnecessários de produtos perfeitamente

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    satisfatórios que devemos comprar para “não ficar de fora”. Ir às compras se tornou um passatempo favorito, e os bens de consumo se tornaram mediadores essenciais nas relações entre membros da família, casais e amigos. Feriados religiosos como o Natal se tornaram festivais de compras. Nos Estados Unidos, até mesmo o Memorial Day – originalmente um dia solene para lembrar os soldados mortos em combate – é hoje uma ocasião para vendas especiais. A maioria das pessoas comemora esse dia indo às compras, talvez para provar que os defensores da liberdade não morreram em vão.

    O florescimento da ética consumista é mais visível no mercado de alimentos. As sociedades agrícolas tradicionais viviam à sombra terrível da fome. No mundo afluente de hoje, um dos principais problemas de saúde é a obesidade, que acomete os pobres (que se empanturram de hambúrgueres e pizzas) de maneira ainda mais severa do que os ricos (que comem saladas orgânicas e vitaminas de frutas). Todos os anos, a população dos Estados Unidos gasta mais dinheiro em dietas do que a quantidade necessária para alimentar todas as pessoas famintas no resto do mundo. A obesidade é uma vitória dupla para o consumismo. Em vez de comer pouco, o que levará à contração econômica, as pessoas comem demais e então compram produtos para dieta – contribuindo duplamente para o crescimento econômico.

    Como podemos alinhar a ética consumista com a ética capitalista do empresário, de acordo com a qual os lucros não devem ser desperdiçados, e sim reinvestidos na produção? É simples. Como em épocas anteriores, existe hoje uma divisão de trabalho entre a elite e as massas. Na Europa medieval, os aristocratas gastavam o dinheiro despreocupadamente em luxos extravagantes, ao passo que os camponeses levavam uma vida frugal, cuidando de cada centavo. Hoje, a situação se inverteu. Os ricos gerenciam seus ativos e investimentos com muito cuidado, enquanto os menos abastados se endividam comprando carros e televisores de que na verdade não necessitam.

    A ética capitalista e a consumista são dois lados da mesma moeda, uma combinação de dois mandamentos. O mandamento supremo dos ricos é “invista!”. O mandamento supremo do resto de nós é “compre!”.

    A ética capitalista-consumista é revolucionária em outro aspecto. A maioria dos sistemas éticos anteriores apresentava às pessoas um acordo muito difícil.

    Elas recebiam a promessa do paraíso, mas só se cultivassem a compaixão e a

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    tolerância, superassem o desejo e a fúria e controlassem seus interesses egoístas.

    Isso era difícil demais para a maioria. A história da ética é um conto triste de ideais maravilhosos que ninguém consegue colocar em prática. A maioria dos cristãos não imitou Cristo, a maioria dos budistas não conseguiu seguir os passos de Buda, e a maioria dos confucianos teria causado um ataque de nervos a Confúcio.

    Já a maioria das pessoas hoje consegue viver de acordo com o ideal capitalista-consumista. A nova ética promete o paraíso sob a condição de que os ricos continuem gananciosos e dediquem seu tempo a ganhar mais dinheiro e as massas deem rédea solta a seus desejos e paixões – e comprem cada vez mais.

    Essa é a primeira religião na história cujos seguidores realmente fazem o que se espera que façam. Mas como temos certeza de que, em troca, teremos o paraíso? Nós vimos na televisão.

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    18. Uma revolução permanente

    Uma revolução permanente A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL ABRIU NOVOS CAMINHOS PARA CONVERTER ENERGIA e produzir bens; com isso, em grande medida, libertou a humanidade de sua dependência do ecossistema à sua volta. Os humanos derrubaram florestas, drenaram pântanos, represaram rios, inundaram planícies, construíram dezenas de milhares de quilômetros de ferrovias e edificaram metrópoles repletas de arranha-céus. Enquanto o mundo era moldado para atender às necessidades do Homo sapiens, habitats foram destruídos e espécies foram extintas. Nosso planeta, um dia verde e azul, está se tornando um shopping center de plástico e concreto.

    Hoje, os continentes da Terra abrigam quase 7 bilhões de sapiens. Se pegássemos todas essas pessoas e as colocássemos em uma balança gigante, sua massa combinada seria cerca de 300 milhões de toneladas. Se, então, pegássemos todos os animais de criação domesticados – vacas, porcos, ovelhas e frangos – e os colocássemos em uma balança ainda maior, sua massa seria cerca de 700 milhões de toneladas. Já a massa combinada de todos os grandes animais selvagens que sobreviveram – de porcos-espinhos e pinguins a elefantes e baleias – é menos de 100 milhões de toneladas. Nossos livros infantis, nossa iconografia e nossas telas de TV estão cheios de girafas, lobos e chimpanzés, mas o mundo real tem pouquíssimos deles. Há em torno de 80 mil girafas no mundo, em comparação com 1,5 bilhão de cabeças de gado; somente 200 mil lobos, comparados com 400 milhões de cachorros domesticados; apenas 250 mil chimpanzés – em contraste com bilhões de humanos. A humanidade realmente dominou o mundo.1 Degradação ecológica não é o mesmo que escassez de recursos. Como vimos no capítulo anterior, os recursos disponíveis para a humanidade estão crescendo constantemente e é bem provável que continuem a crescer. É por isso que as profecias apocalípticas de escassez de recursos provavelmente são equivocadas. Já o temor à degradação ecológica tem sua razão de ser. O futuro talvez testemunhe os sapiens tomando o controle de uma cornucópia de novos materiais e fontes de energia, enquanto simultaneamente destrói o que resta do habitat natural e leva a maior parte das outras espécies à extinção.

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    De fato, a desordem ecológica pode ameaçar a sobrevivência do próprio Homo sapiens. O aquecimento global, o aumento do nível dos oceanos e a poluição disseminada podem tornar a Terra menos habitável para nossa própria espécie, e o futuro, consequentemente, pode testemunhar uma disputa cada vez maior entre a capacidade humana e desastres naturais induzidos pelo homem. À medida que os humanos usam sua capacidade para conter as forças da natureza e submeter o ecossistema a suas necessidades e seus caprichos, podem causar cada vez mais efeitos colaterais imprevistos e perigosos. É provável que estes só possam ser controlados por meio de manipulações ainda mais drásticas do ecossistema, o que resultaria em caos ainda maior.

    Muitos chamam esse processo de “destruição da natureza”. Mas, na verdade, não é destruição, é transformação. A natureza não pode ser destruída.

    Há 65 milhões de anos, um asteroide exterminou os dinossauros, mas ao fazer isso abriu caminho para os mamíferos. Hoje, a humanidade está levando muitas espécies à extinção e pode inclusive aniquilar a si mesma. Mas outros organismos estão se saindo muito bem. Ratos e baratas, por exemplo, estão em seu apogeu.

    Essas criaturas obstinadas provavelmente sairiam de baixo dos escombros fumacentos de um armagedom nuclear prontas para espalhar seu DNA. Talvez daqui a 65 milhões de anos, ratos inteligentes olhem para trás e sintam-se gratos pela dizimação causada pela humanidade, assim como hoje podemos agradecer àquele asteroide que destruiu os dinossauros.

    Ainda assim, os rumores sobre nossa própria extinção são prematuros.

    Desde a Revolução Industrial, a população humana mundial tem florescido como nunca. Em 1700, o mundo abrigava cerca de 700 milhões de humanos. Em 1800, éramos 950 milhões. Em 1900, havíamos quase dobrado para 1,6 bilhão. E, em 2000, esse número quadruplicou para 6 bilhões. Hoje, falta pouco para chegarmos aos 7 bilhões de sapiens.

    Tempos modernos

    Embora todos esses sapiens tenham se tornado cada vez mais impermeáveis aos caprichos da natureza, estão cada vez mais sujeitos aos ditames dos governos e das indústrias modernas. A Revolução Industrial abriu caminho para uma longa linha de experimentos em engenharia social e uma série ainda mais longa de

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    transformações imprevistas na vida cotidiana e na mentalidade humana. Um exemplo entre muitos é a substituição dos ritmos da agricultura tradicional pelo cronograma preciso e uniforme da indústria.

    A agricultura tradicional dependia de ciclos de tempo natural e crescimento orgânico. A maioria das sociedades não era capaz de medir o tempo com precisão, e tampouco estava muito interessada em fazê-lo. O mundo seguia seu curso sem relógios nem horários, sujeito apenas aos movimentos do Sol e aos ciclos de crescimento das plantas. Não havia um dia de trabalho uniforme, e todas as rotinas mudavam drasticamente de uma estação para outra. As pessoas sabiam onde o Sol estava e esperavam ansiosas por presságios da estação chuvosa e da época de colheita, mas não sabiam que horas eram e dificilmente se importavam em saber em que ano estavam. Se um viajante perdido no tempo aparecesse em uma aldeia medieval e perguntasse a um transeunte “Em que ano estamos?”, o aldeão ficaria tão perplexo diante da pergunta quanto diante da roupa ridícula do estranho.

    Ao contrário dos camponeses e sapateiros medievais, a indústria moderna se importa pouco com o Sol ou com a estação do ano. Santifica a precisão e a uniformidade. Por exemplo, em uma oficina medieval cada sapateiro fazia um sapato inteiro, da sola ao cadarço. Se um sapateiro se atrasasse para o trabalho, isso não atrasava os demais. No entanto, na linha de montagem de uma fábrica de sapatos moderna, cada operário maneja uma máquina que produz apenas uma pequena parte de um sapato, que então é passada à máquina seguinte. Se o funcionário que opera a máquina número 5 perdeu a hora, atrasa todas as outras máquinas. A fim de evitar tais calamidades, todos devem aderir a uma grade horária precisa. Cada trabalhador chega no trabalho exatamente à mesma hora.

    Todos almoçam juntos, quer tenham fome, quer não. Todos vão para casa quando uma sirene anuncia que seu turno chegou ao fim – e não quando terminaram seu projeto.

    A Revolução Industrial transformou a grade horária e a linha de montagem em um modelo para quase todas as atividades humanas. Logo depois que as fábricas impuseram seus cronogramas ao comportamento humano, as escolas também adotaram grades horárias precisas, seguidas dos hospitais, dos gabinetes de governo e das mercearias. Mesmo em lugares desprovidos de máquinas e linhas de montagem, a grade horária imperou. Se o turno na fábrica termina às

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    cinco da tarde, é melhor o bar das redondezas abrir suas portas às 17h02.

    Um elo crucial na disseminação do sistema de grades horárias foi o transporte público. Se os operários precisassem iniciar seu turno às oito da manhã, o trem ou ônibus tinha de chegar ao portão da fábrica até as 7h55. Um atraso de poucos minutos desaceleraria a produção e, talvez, inclusive levasse à demissão dos que chegaram atrasados. Em 1784, começou a operar na Grã-Bretanha um serviço de carruagem com um cronograma divulgado. Sua grade horária especificava apenas o horário de partida, não de chegada. Na época, cada cidade e vila britânica tinha seu próprio horário local, que podia diferir do horário de Londres em até meia hora. Quando era meio-dia em Londres, era, talvez, 12h20 em Liverpool e 11h50 em Canterbury. Como não havia telefones, nem rádio ou televisão, nem trens rápidos – quem poderia saber, e quem se importava?2 O primeiro serviço de trem comercial começou operando entre Liverpool e Manchester em 1830. Dez anos depois, foi divulgada a primeira grade horária de trens. Os trens eram muito mais rápidos que as velhas carruagens e, por isso, as diferenças nos horários locais se tornaram um grande incômodo. Em 1847, as companhias ferroviárias britânicas se reuniram e concordaram que, dali em diante, todas as grades horárias de trens seriam ajustadas com o horário do Observatório de Greenwich, e não com o horário local de Liverpool, Manchester ou Glasgow. Cada vez mais instituições seguiram os passos das companhias ferroviárias. Finalmente, em 1880, o governo britânico deu o passo sem precedentes de legislar que todas as grades horárias na Grã-Bretanha deveriam seguir Greenwich. Pela primeira vez na história, um país adotou um horário nacional e obrigou sua população a viver de acordo com um relógio artificial, em vez de seguir os relógios locais ou os ciclos do amanhecer ao entardecer.

    Esse começo modesto gerou uma rede global de grades horárias, sincronizadas até nas frações de segundo. Quando os meios de comunicação – primeiro o rádio, depois a televisão – fizeram seu début, entraram em um mundo de grades horárias e se tornaram seus principais agentes e divulgadores. Entre as primeiras coisas que as estações de rádio transmitiram estavam os sinais horários, apitos que permitiam que povoados distantes e navios em alto-mar ajustassem seus relógios. Mais tarde, as estações de rádio adotaram o costume de transmitir o noticiário de hora em hora. Hoje em dia, o primeiro item de todo

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    programa de notícias – mais importante até mesmo que o início de uma guerra – é a hora. Durante a Segunda Guerra Mundial, o BBC News foi transmitido para a Europa ocupada por nazistas. Cada noticiário começava com uma transmissão ao vivo do Big Ben tocando a hora – o som mágico da liberdade. Físicos alemães engenhosos encontraram uma forma de determinar as condições do tempo em Londres com base em diferenças minúsculas no tom dos dim-dons transmitidos.

    Essa informação foi de inestimável ajuda para a Luftwaffe. Quando o serviço secreto britânico descobriu isso, substituiu a transmissão ao vivo por gravações do famoso relógio.

    Para gerenciar a rede de grades horárias, relógios portáteis baratos, porém precisos, se tornaram onipresentes. Em cidades assírias, sassânidas ou incas possivelmente tenham existido no máximo alguns relógios de sol. Nas cidades medievais europeias, em geral havia um único relógio – uma máquina gigante no topo de uma torre alta na praça da cidade. Esses relógios de torres eram notoriamente imprecisos, mas, como não havia outros relógios na cidade para contradizê-los, não fazia muita diferença. Hoje, uma única família abastada costuma ter mais relógios em casa do que um país medieval inteiro. Você pode dizer a hora consultando seu relógio de pulso, passando os olhos por seu Android, espreitando o despertador ao lado da sua cama, observando o relógio de parede na cozinha, fitando o micro-ondas, dando uma espiada no aparelho de TV ou de DVD ou vendo de relance a barra de tarefas no seu computador. Você precisa fazer um esforço consciente para não saber que horas são.

    Uma pessoa típica consulta esses relógios dezenas de vezes por dia, porque quase tudo que fazemos tem de ser feito em um momento específico. Um despertador nos acorda às sete da manhã, aquecemos nosso pãozinho congelado por exatos 50 segundos no micro-ondas, escovamos os dentes por três minutos até a escova de dentes elétrica apitar, pegamos o trem das 7h40 para o trabalho, corremos na esteira mecânica da academia até o alarme anunciar que se passou meia hora, sentamos em frente à TV às sete da noite para assistir a nosso programa favorito, somos interrompidos em momentos predefinidos por comerciais que custam mil dólares por segundo e acabamos por descarregar todo o nosso mal-estar em um terapeuta que restringe nosso falatório à hora de terapia, que agora, por convenção, dura 50 minutos.

    A Revolução Industrial provocou dezenas de reviravoltas importantes na

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    sociedade humana. Adaptar-se ao tempo industrial é apenas uma delas. Outros exemplos notáveis incluem a urbanização, o desaparecimento da classe camponesa, a ascensão do proletariado industrial, o empoderamento do indivíduo comum, a democratização, a cultura jovem e a desintegração do patriarcado.

    Mas todas essas reviravoltas são obscurecidas pela revolução social mais grandiosa que já atingiu a humanidade: o colapso da família e da comunidade local e sua substituição pelo Estado e pelo mercado. Até onde sabemos, desde os tempos mais antigos, há mais de 1 milhão de anos, os humanos viviam em pequenas comunidades íntimas, em que quase todos os membros eram parentes.

    A Revolução Cognitiva e a Revolução Agrícola não mudaram isso. Elas reuniram famílias e comunidades para criar tribos, cidades, reinos e impérios, mas as famílias e as comunidades continuaram sendo os tijolos essenciais de todas as sociedades humanas. A Revolução Industrial, por sua vez, conseguiu, em pouco mais de dois séculos, transformar esses tijolos em átomos. A maior parte das funções tradicionais das famílias e comunidades foram entregues aos Estados e aos mercados.

    O colapso da família e da comunidade

    Antes da Revolução Industrial, a vida cotidiana da maioria dos humanos seguia seu curso no interior destas três estruturas antigas: a família nuclear, a família estendida e a comunidade íntima local.[1] A maioria das pessoas trabalhava em negócios familiares – a fazenda ou a oficina da família, por exemplo – ou então trabalhava nos negócios familiares de vizinhos. A família também era o sistema de bem-estar social, o sistema de saúde, o sistema educacional, a indústria de construção, o sindicato, o fundo de pensão, a empresa de seguros, o rádio, a televisão, o jornal, o banco e até mesmo a polícia.

    Quando uma pessoa ficava doente, a família cuidava dela. Quando uma pessoa envelhecia, a família a sustentava, e seus filhos eram seu fundo de pensão. Quando uma pessoa morria, a família cuidava dos órfãos. Se uma pessoa queria construir uma cabana, a família dava uma mão. Se uma pessoa queria abrir um negócio, a família levantava o dinheiro necessário. Se uma pessoa queria se casar, a família escolhia, ou pelo menos analisava, o candidato a esposo. Se surgia um conflito com um vizinho, a família interferia. Mas se a

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    doença de uma pessoa era grave demais para a família lidar, ou um novo negócio demandava um investimento grande demais, ou a briga com o vizinho se agravava ao ponto da violência, a comunidade local vinha em seu socorro.

    A comunidade oferecia ajuda com base em tradições locais e em uma economia de favores, que com frequência diferia muitíssimo das leis da oferta e da demanda do livre mercado. Em uma comunidade medieval à moda antiga, quando meu vizinho precisava, eu ajudava a construir sua cabana e a cuidar de sua ovelha, sem esperar nenhum pagamento em troca. Quando eu precisava, meu vizinho devolvia o favor. Ao mesmo tempo, o potentado local podia mobilizar todos os aldeães para construir seu castelo sem nos pagar um centavo sequer. Em troca, nós contávamos com ele para nos defender contra bandoleiros e bárbaros. A vida na aldeia envolvia muitas transações, mas poucos pagamentos.

    Havia alguns mercados, é claro, mas seu papel era limitado. Era possível comprar especiarias raras, tecidos e ferramentas e contratar os serviços de advogados e médicos. No entanto, menos de 10% dos produtos e serviços usados normalmente eram comprados no mercado. A maioria das necessidades humanas eram atendidas pela família e pela comunidade.

    Havia também reinos e impérios que realizavam tarefas importantes, como travar guerras, construir estradas e edificar palácios. Para essas finalidades, os reis coletavam impostos e ocasionalmente alistavam soldados e trabalhadores. Mas, com poucas exceções, eles tendiam a ficar de fora dos assuntos cotidianos de famílias e comunidades. Mesmo se quisessem intervir, a maioria dos reis só poderia fazê-lo com dificuldade. As economias agrícolas tradicionais tinham poucos excedentes com que alimentar multidões de oficiais do governo, policiais, trabalhadores sociais, professores e médicos. Em consequência, a maioria dos governantes não desenvolvia grandes sistemas de bem-estar social, de saúde ou educacionais. Deixavam tais assuntos nas mãos de famílias e comunidades. Mesmo nas raras ocasiões em que os governantes tentavam intervir de maneira mais efetiva na vida cotidiana dos camponeses (como aconteceu, por exemplo, no império Qing, na China), eles o faziam convertendo chefes de família e membros mais velhos da comunidade em agentes do governo.

    Muitas vezes, as dificuldades de transporte e comunicação tornavam tão complicado intervir nos assuntos de comunidades remotas que muitos reinos

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    preferiam ceder até mesmo as prerrogativas reais mais básicas – como arrecadação de impostos e violência – às comunidades. O Império Otomano, por exemplo, permitia vinganças familiares para que se fizesse justiça, em vez de financiar uma polícia imperial numerosa. Se meu primo matasse alguém, o irmão da vítima podia me matar em vingança. O sultão em Istambul ou mesmo o paxá provincial não intervinham em tais conflitos, contanto que a violência permanecesse dentro de limites aceitáveis.

    No império Ming chinês (1368-1644), a população estava organizada no sistema de baojia. Dez famílias se agrupavam para formar um jia, e dez jias constituíam um bao. Quando um membro de um bao cometia um crime, outros membros do mesmo bao podiam ser punidos por isso, em particular os anciãos.

    Também se cobravam impostos do bao, e era responsabilidade dos anciãos do bao, e não dos funcionários do Estado, avaliar a situação de cada família e determinar a quantidade de imposto que deveria pagar. Da perspectiva do império, esse sistema tinha uma vantagem enorme. Em vez de manter milhares de oficiais da receita e cobradores de impostos, que teriam de monitorar as receitas e despesas de cada família, essas tarefas eram deixadas aos mais velhos de cada comunidade. Eles sabiam quanto cada aldeão ganhava e normalmente conseguiam obrigá-los a pagar impostos sem envolver o exército imperial.

    Na verdade, muitos reinos e impérios eram pouco mais do que grandes redes de proteção. O rei era o capo di tutti capi que cobrava uma taxa de proteção e, em troca, garantia que os agrupamentos criminosos e os peixes miúdos das redondezas não causassem nenhum dano àqueles sob sua proteção.

    Mas não fazia mais do que isso.

    A vida no seio da família e da comunidade estava longe de ser ideal.

    Famílias e comunidades podiam oprimir seus membros de maneira não menos brutal do que os Estados e mercados de hoje, e sua dinâmica interna era muitas vezes repleta de tensão e violência – mas as pessoas tinham pouca escolha. Uma pessoa que perdesse a família e a comunidade por volta de 1750 estava morta.

    Não tinha emprego, nem educação, nem apoio em época de doença ou sofrimento. Ninguém lhe emprestaria dinheiro ou a defenderia se ela se visse em maus lençóis. Não havia policiais, assistentes sociais nem educação compulsória.

    Para sobreviver, tal pessoa teria de encontrar rapidamente uma família ou comunidade alternativa. Meninos e meninas que fugiam de casa podiam, na

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    melhor das hipóteses, se tornar servos em uma nova família. Em último caso, havia o exército ou o bordel.

    Tudo isso mudou radicalmente nos últimos dois séculos. A Revolução Industrial deu ao mercado novos poderes gigantescos, proveu o Estado de novos meios de comunicação e transporte e colocou à disposição do governo um exército de escriturários, professores, policiais e assistentes sociais. De início o mercado e o Estado descobriram que seu caminho estava bloqueado por famílias e comunidades tradicionais que tinham pouca afeição por intervenção externa. Os pais e os mais velhos da comunidade relutavam em deixar a geração mais jovem ser doutrinada por sistemas educacionais nacionalistas, alistada em exércitos ou transformada em um proletariado urbano sem raízes.

    Com o tempo, os Estados e os mercados passaram a usar seu poder crescente para enfraquecer os vínculos tradicionais da família e da comunidade.

    O Estado enviou policiais para impedir vinganças familiares e as substituiu por decisões judiciais. O mercado enviou seus vendedores para eliminar tradições locais de longa data e substituí-las por modas comerciais em constante transformação. Mas isso não foi suficiente. Para acabar realmente com o poder da família e da comunidade, eles precisavam da ajuda de uma quinta-coluna.

    O Estado e o mercado abordaram as pessoas com uma oferta que não podia ser recusada. “Tornem-se indivíduos”, eles disseram. “Casem-se com quem quiserem, sem pedir permissão aos seus pais. Aceitem o emprego que quiserem, mesmo que os mais velhos da comunidade não aprovem. Vivam como desejarem, mesmo que não possam chegar a tempo para o jantar com a família toda semana. Vocês já não dependem da família ou da comunidade. Nós, o Estado e o mercado, tomaremos conta de vocês. Nós lhes daremos alimento, abrigo, educação, saúde, bem-estar e emprego. Nós lhes daremos pensões, seguros e proteção.”

    A literatura romântica muitas vezes apresenta o indivíduo como alguém lutando contra o Estado e o mercado. Nada poderia estar mais distante da realidade. O Estado e o mercado são a mãe e o pai do indivíduo, e o indivíduo só pode sobreviver graças a eles. O mercado nos fornece trabalho, seguro-saúde e uma aposentadoria. Se quisermos estudar uma profissão, as escolas do governo estão lá para nos ensinar. Se quisermos abrir um negócio, o banco nos empresta dinheiro. Se quisermos construir uma casa, uma empreiteira a constrói e o banco

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    nos concede um financiamento, em alguns casos subsidiado ou garantido pelo Estado. Se a violência irromper, a polícia nos protege. Se ficarmos doentes por alguns dias, nosso seguro-saúde toma conta de nós. Se ficarmos debilitados durante meses, serviços sociais nacionais intervêm. Se precisarmos de assistência 24 horas, podemos contratar uma enfermeira – geralmente uma estranha vinda do outro lado do mundo que cuida de nós com o tipo de devoção que já não esperamos de nossos próprios filhos. Se tivermos os meios para tal, podemos passar a melhor idade em uma casa de repouso. As autoridades fiscais nos tratam como indivíduos e não esperam que paguemos os impostos do vizinho. Os tribunais também nos veem como indivíduos e nunca nos punem pelos crimes dos nossos primos.

    Família e comunidade versus Estado e mercado Não só homens adultos como também mulheres e crianças são reconhecidos como indivíduos. Durante a maior parte da história, as mulheres foram vistas como propriedade da família ou da comunidade. Os Estados modernos, por outro lado, veem as mulheres como indivíduos, que desfrutam de direitos econômicos e legais independentemente de sua família e comunidade.

    Elas podem ter sua própria conta bancária, decidir com quem se casar e até mesmo escolher se divorciar ou viver sozinhas.

    Mas a libertação do indivíduo vem com um custo. Hoje, muitos de nós lamentamos a perda de famílias e comunidades fortes e nos sentimos alienados e

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    ameaçados pelo poder que o Estado e o mercado impessoais exercem sobre nossa vida. Estados e mercados compostos de indivíduos alienados podem intervir muito mais facilmente na vida de seus membros do que Estados e mercados compostos de famílias e comunidades fortes. Quando os vizinhos em um condomínio não conseguem nem sequer concordar sobre quanto pagar a seu zelador, como podemos esperar que resistam ao Estado?

    O acordo entre Estados, mercados e indivíduos é perturbador. O Estado e o mercado discordam quanto a seus direitos e obrigações mútuos, e os indivíduos reclamam que ambos demandam muito e proveem pouco. Em muitos casos, os indivíduos são explorados pelos mercados, e os Estados empregam seus exércitos, forças policiais e burocracias para perseguir indivíduos em vez de defendê-los. Mas é inacreditável que esse acordo funcione – ainda que de maneira imperfeita –, pois infringe inúmeras gerações de pactos sociais humanos. Milhões de anos de evolução nos projetaram para viver e pensar como membros de uma comunidade; em apenas dois séculos, nos tornamos indivíduos alienados. Nada atesta melhor o poder incrível da cultura.

    A família nuclear não desapareceu totalmente da paisagem moderna. Quando os Estados e os mercados destituíram a família da maioria de seus papéis políticos e econômicos, deixaram algumas funções emocionais importantes. Ainda se espera que a família moderna atenda necessidades íntimas, que o Estado e o mercado (até agora) são incapazes de atender. Mas mesmo aqui a família está sujeita a cada vez mais intervenções. O mercado molda em um nível cada vez maior a maneira como as pessoas conduzem sua vida romântica e sexual.

    Enquanto, tradicionalmente, a família era o principal casamenteiro, hoje é o mercado que determina nossas preferências românticas e sexuais e então nos ajuda a encontrá-las – por uma bela quantia. Antes, a noiva e o noivo se encontravam na sala de estar da família, e o dinheiro passava das mãos de um pai às de outro. Hoje, o galanteio é feito em bares e cafés, e o dinheiro passa das mãos dos amantes às das garçonetes. Ainda mais dinheiro é transferido para as contas bancárias de designers de moda, gerentes de academias de ginástica, nutricionistas, esteticistas e cirurgiões plásticos, que nos ajudam a chegar ao café o mais parecido possível com o ideal de beleza do mercado.

    O Estado também fica de olho nas relações familiares, sobretudo entre pais e filhos. Os pais são obrigados a mandar seus filhos para que sejam educados

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    pelo Estado. Pais que são especialmente abusivos ou violentos com seus filhos podem ser contidos pelo Estado. Se necessário, o Estado pode até mesmo prender os pais ou transferir os filhos para famílias substitutas. Até não muito tempo atrás, a ideia de que o Estado deveria impedir os pais de bater em seus filhos ou humilhá-los teria sido rejeitada imediatamente, sendo considerada ridícula e impraticável. Na maioria das sociedades, a autoridade dos pais era sagrada. O respeito e a obediência aos pais estavam entre os valores mais sagrados, e os pais podiam fazer quase tudo que quisessem, inclusive matar bebês recém-nascidos, vender os filhos como escravos e casar as filhas com homens que tinham mais que o dobro da sua idade. Hoje, a autoridade dos pais está em queda. Aos jovens é cada vez menos exigida a obediência aos mais velhos, ao passo que os pais são culpabilizados por qualquer coisa de errado que aconteça na vida de uma criança. A mamãe e o papai têm praticamente tanta probabilidade de serem absolvidos no tribunal freudiano quanto os réus em uma farsa judicial stalinista.

    Comunidades imaginadas

    Assim como a família nuclear, a comunidade não poderia desaparecer completamente do mundo sem algum substituto emocional. Hoje, os mercados e os Estados atendem a maior parte das necessidades materiais que um dia eram atendidas pelas comunidades, mas também precisam proporcionar vínculos tribais.

    Os mercados e os Estados fazem isso promovendo “comunidades imaginadas” que contêm milhões de estranhos e que são adaptadas para as necessidades nacionais e comerciais. Uma comunidade imaginada é uma comunidade de pessoas que não se conhecem de fato, mas imaginam que sim.

    Tais comunidades não são uma invenção nova. Reinos, impérios e igrejas funcionaram por milênios como comunidades imaginadas. Na China antiga, dezenas de milhões de pessoas se viam como membros de uma única família, tendo o imperador como pai. Na Idade Média, milhões de muçulmanos devotos imaginavam que eram todos irmãos e irmãs na grande comunidade do Islã. Mas, ao longo da história, tais comunidades imaginadas exerceram um papel secundário com relação às comunidades íntimas de várias dezenas de pessoas que se conheciam muito bem. As comunidades íntimas preenchiam as

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    necessidades emocionais de seus membros e eram essenciais para a sobrevivência e o bem-estar de todos. Nos últimos dois séculos, as comunidades íntimas definharam, e as comunidades imaginadas preencheram o vácuo emocional.

    Os dois exemplos mais importantes para a ascensão de tais comunidades imaginadas são a nação e tribo de consumidores. A nação é a comunidade imaginada do Estado. A tribo de consumidores é a comunidade imaginada do mercado. Ambas são comunidades imaginadas porque é impossível que todos os consumidores em um mercado ou que todos os membros de uma nação realmente conheçam uns aos outros da maneira como os aldeães se conheciam no passado. Nenhum alemão pode conhecer intimamente os outros 80 milhões de membros da nação alemã, nem os outros 500 milhões de consumidores que habitam o Mercado Comum Europeu (que primeiro se transformou na Comunidade Europeia e finalmente se tornou a União Europeia).

    O consumismo e o nacionalismo fazem um esforço extra para nos levar a imaginar que milhões de estranhos pertencem à mesma comunidade que nós, que todos temos um passado em comum, interesses em comum e um futuro em comum. Não se trata de uma mentira. Trata-se de imaginação. Assim como o dinheiro, as empresas de responsabilidade limitada e os direitos humanos, nações e tribos de consumidores são realidades intersubjetivas. Só existem em nossa imaginação coletiva, mas seu poder é imenso. Contanto que milhões de alemães acreditem na existência de uma nação alemã, fiquem entusiasmados ao ver símbolos nacionais alemães, contem mitos nacionais alemães e estejam dispostos a sacrificar dinheiro, tempo e força bruta em nome da nação alemã, a Alemanha continuará sendo uma das potências mais fortes do mundo.

    A nação faz tudo que está a seu alcance para ocultar seu caráter imaginado. A maioria das nações afirma ser uma entidade natural e eterna, criada em alguma época primordial por uma combinação do solo da pátria mãe com o sangue do povo. Mas tais afirmações são quase sempre exageradas.

    Existiam nações no passado distante, mas sua importância era muito menor do que hoje, porque a importância do Estado era muito menor. Um residente da Nuremberg medieval pode ter sentido certa lealdade para com a nação alemã, mas sentia muito mais lealdade para com sua família e comunidade local, que cuidavam da maior parte de suas necessidades. Além disso, qualquer que tenha

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    sido a importância das nações antigas, poucas delas sobreviveram. A maioria das nações existentes só surgiu após a Revolução Industrial.

    O Oriente Médio fornece muitos exemplos. As nações síria, libanesa, jordaniana e iraquiana são produto de fronteiras aleatórias desenhadas na areia por diplomatas franceses e britânicos que ignoraram a história, a geografia e a economia da região. Esses diplomatas determinaram, em 1918, que as pessoas do Curdistão, de Bagdá e de Basra seriam, dali em diante, “iraquianas”. Foram primordialmente os franceses que decidiram quem seria sírio e quem seria libanês. Saddam Hussein e Hafez al-Assad tentaram o possível para promover e reforçar sua consciência nacional fabricada por britânicos e franceses, mas seus discursos bombásticos sobre a natureza supostamente eterna das nações iraquiana e síria eram palavras vazias.

    Nem é preciso dizer que as nações não podem ser criadas do nada. Os que trabalharam duro para construir o Iraque ou a Síria usaram matérias-primas culturais, históricas e geográficas reais – algumas das quais têm séculos ou mesmo milênios de existência. Saddam Hussein cooptou a herança do califado abássida e do Império Babilônico e inclusive batizou uma de suas unidades blindadas de Divisão Hamurabi. Mas isso não faz da nação iraquiana uma entidade antiga. Se eu asso um bolo com farinha, óleo e açúcar, todos ingredientes guardados na minha despensa há dois meses, isso não significa que o bolo propriamente dito tenha dois meses.

    Nas últimas décadas, as comunidades nacionais têm sido cada vez mais eclipsadas por tribos de consumidores que não se conhecem intimamente, mas partilham dos mesmos interesses e hábitos de consumo e, portanto, se sentem parte da mesma tribo de consumidores – e se definem como tais. Isso soa muito estranho, mas estamos cercados de exemplos. Os fãs da Madonna, por exemplo, constituem uma tribo de consumidores. Eles se definem em grande medida por aquilo que compram: ingressos para shows da Madonna, CDs da Madonna, pôsteres e camisetas da Madonna e inclusive toques de celular de músicas da Madonna. Fãs do Fluminense, vegetarianos e ambientalistas são outros exemplos.

    Eles também são definidos acima de tudo por aquilo que consomem. É a base de sua identidade. Um vegetariano alemão pode muito bem preferir uma vegetariana francesa a uma carnívora alemã como esposa.

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    Perpetum Mobila

    As revoluções dos últimos dois séculos foram tão rápidas e radicais que transformaram a característica mais fundamental da ordem social.

    Tradicionalmente, a ordem social era firme e rígida. “Ordem” implicava estabilidade e continuidade. Revoluções sociais rápidas eram excepcionais, e a maioria das transformações sociais resultava da acumulação de uma série de pequenos passos. Os humanos tendiam a presumir que a estrutura social era inflexível e eterna. As famílias e as comunidades podiam lutar para mudar seu lugar dentro da ordem, mas a ideia de que se pudesse mudar a estrutura fundamental da ordem era estranha. As pessoas tendiam a se reconciliar com o status quo, declarando que “é assim que sempre foi, e é assim que sempre será”.

    Nos últimos dois séculos, o ritmo das mudanças se tornou tão rápido que a ordem social adquiriu um caráter dinâmico e maleável. Agora existe em um estado de fluxo permanente. Quando falamos de revoluções modernas, tendemos a pensar em 1789 (a Revolução Francesa), 1848 (as revoluções liberais) ou 1917 (a Revolução Russa). Mas o fato é que, atualmente, todo ano é revolucionário.

    Hoje, até mesmo uma pessoa de 30 anos pode dizer honestamente a adolescentes incrédulos: “Quando eu era jovem, o mundo era completamente diferente”. A internet, por exemplo, só se disseminou no início dos anos 1990, há pouco mais de vinte anos. Hoje não podemos imaginar o mundo sem ela.

    Daí que qualquer tentativa de definir as características da sociedade atual é como tentar definir a cor de um camaleão. A única característica da qual podemos ter certeza é a mudança incessante. As pessoas se acostumaram a isso, e a maioria de nós pensa na ordem social como algo flexível, que podemos projetar e melhorar à vontade. A principal promessa dos governantes pré-modernos era salvaguardar a ordem tradicional ou mesmo retornar a alguma era de ouro perdida. Nos últimos dois séculos, a moeda da política são promessas de destruir o velho mundo e construir um mundo melhor em seu lugar. Nem mesmo o mais conservador dos partidos políticos promete meramente manter as coisas como estão. Todos prometem reforma social, reforma educacional, reforma econômica – e muitas vezes cumprem tais promessas.

    Assim como os geólogos esperam que os movimentos tectônicos resultem em terremotos e erupções vulcânicas, também podemos esperar que movimentos sociais drásticos resultem em explosões de violência sanguinárias. A história

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    Paz em nossa era

    política dos séculos XIX e XX é muitas vezes contada como uma série de guerras mortíferas, holocaustos e revoluções. Como uma criança usando botas novas e saltando de poça em poça, esse modo de ver as coisas enxerga a história como saltando de um banho de sangue ao seguinte, da Primeira Guerra Mundial à Segunda e então à Guerra Fria, do genocídio armênio ao genocídio judeu e então ao genocídio ruandês, de Robespierre a Lenin e então a Hitler.

    Há verdade nisso, mas essa tão conhecida lista de calamidades é um pouco enganosa. Prestamos demasiada atenção às poças e nos esquecemos da terra seca que as separa. As últimas décadas da era moderna testemunharam níveis sem precedentes não só de violência e horror como também de paz e tranquilidade. Charles Dickens escreveu, sobre a Revolução Francesa, que “foi o melhor dos tempos, [e] foi o pior dos tempos”. Isso possivelmente é válido a respeito não só da Revolução Francesa, mas de toda a era prenunciada por ela.

    É especialmente verdadeiro se considerarmos as sete décadas que se passaram desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Durante esse período, a humanidade, pela primeira vez, se viu diante da possibilidade da autoaniquilação completa e vivenciou um grande número de guerras e genocídios. Mas essas décadas também foram a era mais pacífica da história humana – e por uma boa margem. Isso é surpreendente, porque essas mesmas décadas presenciaram mais mudança econômica, social e política do que qualquer era anterior. As placas tectônicas da história estão se movendo em ritmo frenético, mas os vulcões estão quase sempre silenciosos. A nova ordem maleável parece ser capaz de conter e até mesmo iniciar mudanças estruturais radicais sem ruir em conflitos violentos.3 Paz em nossa era A maioria das pessoas não percebe o quão pacífica é a era em que vivemos.

    Nenhum de nós estava vivo há mil anos, e por isso nos esquecemos facilmente de que o mundo costumava ser muito mais violento. E, à medida que as guerras se tornaram mais raras, elas passaram a atrair mais atenção. Muito mais pessoas pensam nas guerras se alastrando hoje no Afeganistão e no Iraque do que na paz em que vivem a maioria dos canadenses e indianos.

    O que é ainda mais importante, podemos nos relacionar mais facilmente

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    com o sofrimento de indivíduos do que de populações inteiras. No entanto, para entender processos macro-históricos, precisamos examinar estatísticas de grandes grupos, e não histórias individuais. No ano 2000, guerras causaram a morte de 310 mil indivíduos, e crimes violentos mataram outros 520 mil. Cada uma das vítimas é um mundo destruído, uma família arruinada, amigos e parentes com cicatrizes para a vida toda. Mas, de uma perspectiva macro, essas 830 mil vítimas representam apenas 1,5% dos 56 milhões de pessoas que morreram em 2000. Naquele ano, 1,26 milhão de pessoas morreram em acidentes de carro (2,25% do total de mortes) e 815 mil pessoas cometeram suicídio (1,45%).4 Os números para 2002 são ainda mais surpreendentes. Dos 57 milhões de mortos, apenas 172 mil pessoas morreram em guerra e 569 mil morreram de crimes violentos (um total de 741 mil vítimas de violência humana). Por outro lado, 873 mil pessoas cometeram suicídio.5 Acontece que no ano que se seguiu aos ataques do Onze de Setembro, apesar do muito que se falou em terrorismo e guerra, um cidadão médio tinha mais probabilidade de se matar do que de ser morto por um terrorista, um soldado ou um traficante de drogas.

    Na maior parte do mundo, as pessoas vão dormir sem medo de que no meio da noite uma tribo vizinha cerque sua aldeia e mate a todos. Súditos britânicos abastados viajam diariamente de Nottingham a Londres pela floresta de Sherwood sem temer que uma gangue de bandoleiros alegres vestidos de verde lhes preparem uma emboscada e roubem seu dinheiro para dar aos pobres (ou, o que seria mais provável, matem-nos e peguem o dinheiro para si). Os estudantes não toleram ser fustigados por seus professores, as crianças não precisam temer ser vendidas como escravas quando seus pais não conseguem pagar as contas, e as mulheres sabem que a lei proíbe o marido de espancá-las e forçá-las a ficar em casa. Cada vez mais, no mundo inteiro, essas expectativas se cumprem.

    A diminuição da violência se deve, em grande parte, à ascensão do Estado.

    Em toda a história, a maior parte da violência resultava de rixas locais entre famílias e comunidades. (Mesmo hoje, como indicam os números expostos aqui, o crime local é uma ameaça muito mais letal do que as guerras internacionais.) Conforme vimos, os primeiros agricultores, que não conheciam nenhuma organização política maior do que a comunidade local, sofriam violência

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    Retirada imperial

    extrema. À medida que reinos e impérios ficaram mais fortes, eles controlaram as comunidades e o nível de violência diminuiu. Nos reinos descentralizados da Europa medieval, cerca de 20 a 40 pessoas eram assassinadas todos os anos para cada 100 mil habitantes. Nas últimas décadas, quando os Estados e os mercados se tornaram todo-poderosos e as comunidades desapareceram, os índices de violência caíram ainda mais. Hoje, a média global é de apenas 9 assassinatos por ano para cada 100 mil pessoas, e a maioria desses assassinatos acontece em Estados débeis como a Somália e a Colômbia. Nos Estados centralizados da Europa, a média é um assassinato por ano para cada 100 mil pessoas.6 Certamente, há casos em que os Estados usam seu poder para matar seus próprios cidadãos, e tais casos assombram nossas memórias e medos. Durante o século XX, dezenas de milhões, se não centenas de milhões, de pessoas foram mortas por forças de segurança de seus próprios Estados. Ainda assim, de uma macroperspectiva, cortes de justiça e forças policiais do Estado provavelmente aumentaram o nível de segurança em todo o mundo. Mesmo em ditaduras opressivas, o cidadão médio moderno tem muito menos probabilidade de morrer pela mão de outra pessoa do que nas sociedades pré-modernas. Em 1964, uma ditadura militar foi instalada no Brasil. Governou o país até 1985. Durante esses 20 anos, várias centenas de brasileiros foram assassinados pelo regime. Outros milhares foram presos e torturados. Ainda assim, mesmo nos piores anos, o brasileiro médio no Rio de Janeiro tinha muito menos probabilidade de morrer por mãos humanas do que o ianomâmi médio. Os ianomâmis são uma sociedade agrícola de pequenas aldeias dispersas nas profundezas da floresta amazônica, sem exército, polícia ou prisões. Estudos antropológicos indicaram que de um quarto a metade dos ianomâmis acaba morrendo em conflitos violentos por propriedades, mulheres ou prestígio.7 Retirada imperial É, talvez, controverso se a violência no interior dos Estados aumentou ou diminuiu desde 1945. O que ninguém pode negar é que a violência internacional atingiu o menor índice de todos os tempos. Possivelmente o exemplo mais óbvio é o colapso dos impérios europeus. Ao longo da história, os impérios esmagaram rebeliões com mão de ferro, e, quando seu dia chegara, um império em

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    decadência usava de todo o seu poder para se salvar, normalmente afundando em um banho de sangue. Sua derrocada final levava, no mais das vezes, à anarquia e a guerras de sucessão. Desde 1945, a maioria dos impérios optou por uma retirada precoce e pacífica. Seu processo de colapso se tornou relativamente rápido, calmo e ordenado.

    Em 1945, a Grã-Bretanha governava um quarto do globo. Trinta anos depois, governava apenas algumas pequenas ilhas. Nesse período, se retirou da maioria de suas colônias de maneira pacífica e ordenada. Embora em alguns lugares, como a Malásia e o Quênia, os britânicos tenham tentado permanecer pela força das armas, na maioria dos lugares eles aceitaram o fim do império com um suspiro, e não com um ataque de fúria. Concentraram seus esforços não em manter o poder, mas em transferi-lo da maneira mais tranquila possível. Pelo menos parte dos elogios geralmente feitos a Mahatma Gandhi por seu credo não violento se deve, na verdade, ao Império Britânico. Apesar de muitos anos de luta cruel e quase sempre violenta, quando o Raj chegou ao fim os indianos não precisaram enfrentar os britânicos nas ruas de Délhi e de Calcutá. O lugar do império foi tomado por uma porção de Estados independentes, a maioria dos quais desde então desfrutou de fronteiras estáveis e, durante a maior parte do tempo, viveu em paz com seus vizinhos. É verdade, dezenas de milhares de pessoas pereceram nas mãos do Império Britânico ameaçado, e em vários focos de tensão sua retirada levou à eclosão de conflitos étnicos que cobraram centenas de milhares de vidas (em particular, na Índia). Mas, quando comparada à média histórica no longo prazo, a retirada britânica foi um exemplo de paz e ordem. O Império Francês foi mais teimoso. Seu colapso envolveu ações de retaguarda sangrentas no Vietnã e na Argélia que custaram centenas de milhares de vidas.

    Mas os franceses também se retiraram do restante de seus domínios de forma rápida e pacífica, deixando para trás Estados ordenados, em vez de um caótico salve-se quem puder.

    O colapso soviético em 1989 foi ainda mais pacífico, apesar da eclosão de conflitos étnicos nos Bálcãs, no Cáucaso e na Ásia Central. Em nenhum momento anterior um império tão poderoso desapareceu de forma tão rápida e pacífica. O Império Soviético de 1989 não havia sofrido nenhuma derrota militar exceto no Afeganistão, nenhuma invasão externa, nenhuma rebelião, nem mesmo campanhas de desobediência civil em grande escala ao estilo das promovidas por

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    Martin Luther King. Os sovietes ainda tinham milhões de soldados, dezenas de milhares de tanques e aviões, e armas nucleares suficientes para exterminar toda a humanidade várias vezes. O Exército Vermelho e os outros exércitos do Pacto de Varsóvia permaneceram leais. Se o último governante soviético, Mikhail Gorbachev, tivesse dado a ordem, o Exército Vermelho teria aberto fogo sobre as massas subjugadas.

    Mas a elite soviética e os regimes comunistas na maior parte da Europa Oriental (a Romênia e a Sérvia foram exceções) escolheram não usar nem mesmo uma fração minúscula desse poder militar. Quando seus membros perceberam que o comunismo estava falido, renunciaram ao uso da força, admitiram seu fracasso, fizeram as malas e foram para casa. Gorbachev e seus colegas desistiram, sem lutar, não só das conquistas soviéticas da Segunda Guerra Mundial como também das conquistas czaristas, muito mais antigas, no Báltico, na Ucrânia, no Cáucaso e na Ásia Central. É assustador pensar no que poderia ter acontecido se Gorbachev tivesse se comportado como a liderança sérvia – ou como os franceses na Argélia.

    Pax Atomica

    Os Estados independentes que vieram depois desses impérios tinham um nítido desinteresse por guerras. Com pouquíssimas exceções, desde 1945 eles já não invadem outros Estados para conquistá-los e anexá-los. Tais conquistas foram o feijão com arroz da história política desde tempos imemoriais. Foi assim que a maioria dos grandes impérios se estabeleceu e que a maioria dos governantes e suas populações esperavam que as coisas continuassem. Mas campanhas de conquista como as dos romanos, mongóis e otomanos não podem ocorrer em nenhum lugar do mundo. Desde 1945, nenhum país independente reconhecido pela ONU foi conquistado e varrido do mapa. Guerras internacionais limitadas ainda ocorrem de tempos em tempos, e milhões ainda morrem em guerras, mas guerras não são a norma.

    Muitas pessoas acreditam que o desaparecimento de guerras internacionais é um fenômeno exclusivo das democracias ricas da Europa Ocidental. Na verdade, a paz chegou à Europa depois que prevaleceu em outras partes do mundo. Assim, as últimas guerras internacionais sérias entre países sul-

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    americanos foram a guerra de 1941 entre o Peru e o Equador e a Guerra do Chaco (entre a Bolívia e o Paraguai), de 1932 a 1935. E antes disso não houve uma guerra séria entre países sul-americanos desde 1879-1884, com o Chile de um lado e a Bolívia e o Peru do outro.

    Raramente pensamos no mundo árabe como particularmente pacífico.

    Mas, desde que os árabes conquistaram a independência, só uma vez um deles planejou uma invasão de outro em grande escala (a invasão iraquiana do Kuwait em 1990). Houve algumas disputas por fronteiras (por exemplo, entre a Síria e a Jordânia em 1970), muitas intervenções armadas nos assuntos do outro (por exemplo, da Síria no Líbano), uma série de guerras civis (Argélia, Iêmen, Líbia) e um sem-número de golpes e revoltas. Mas não houve nenhuma guerra internacional em grande escala entre os Estados árabes exceto a Guerra do Golfo. Mesmo se ampliarmos o escopo para incluir todo o mundo muçulmano, só encontraremos mais um exemplo, a guerra entre o Irã e o Iraque. Não houve nenhuma guerra entre a Turquia e o Irã, entre o Paquistão e o Afeganistão ou entre a Indonésia e a Malásia.

    Na África, a situação é menos otimista. Mas, mesmo nesse continente, a maioria dos conflitos são guerras civis e golpes. Desde que os Estados africanos conquistaram a independência nos anos 1960 e 1970, pouquíssimos países invadiram outros na esperança de conquistá-los.

    Houve períodos de calma relativa antes, como, por exemplo, na Europa entre 1871 e 1914, mas sempre terminaram mal. Mas desta vez é diferente, pois paz de verdade não é mera ausência de guerra; paz de verdade é quando uma guerra é implausível. Nunca houve paz de verdade no mundo. Entre 1871 e 1914, uma guerra europeia era uma eventualidade plausível, e a expectativa de guerra dominava o pensamento de exércitos, políticos e cidadãos comuns. Esse presságio é válido para todos os outros períodos pacíficos na história. Uma lei férrea da política internacional decretava: “Para cada dois regimes políticos próximos, há um cenário plausível que os fará entrar em guerra um contra o outro no intervalo de um ano”. Essa lei da selva esteve em vigor na Europa do fim do século XIX, na Europa medieval, na China antiga e na Grécia clássica. Se Esparta e Atenas estavam em paz em 450 a.C., havia um cenário plausível de que estariam em guerra antes de 449 a.C.

    Hoje, a humanidade subverteu a lei da selva. Finalmente, há paz de

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    verdade, e não só ausência de guerra. Para a maioria dos Estados, não há nenhum cenário plausível levando a um conflito em grande escala no intervalo de um ano. O que poderia levar a uma guerra em grande escala entre a Alemanha e a França no ano que vem? Ou entre a China e o Japão? Ou entre o Brasil e a Argentina? Alguns conflitos menores por fronteiras poderiam ocorrer, mas somente um cenário verdadeiramente apocalíptico poderia resultar em uma guerra em grande escala à moda antiga entre os países citados em 2015, com divisões armadas argentinas avançando até o Rio de Janeiro e bombardeios de saturação brasileiros pulverizando as redondezas de Buenos Aires. Guerras desse tipo talvez ainda possam eclodir no ano que vem entre vários pares de Estados, por exemplo, entre Israel e a Síria, a Etiópia e Eritreia, ou os Estados Unidos e o Irã, mas essas são apenas exceções que provam a regra.

    É claro que essa situação pode mudar no futuro e, visto em retrospectiva, o mundo de hoje pode parecer incrivelmente ingênuo. Mas, de uma perspectiva histórica, nossa própria ingenuidade é fascinante. Nunca antes a paz foi tão predominante a ponto de as pessoas não conseguirem sequer imaginar a guerra.

    Os estudiosos procuraram explicar esses felizes avanços em mais livros e artigos do que uma pessoa estará disposta a ler, e eles identificaram vários fatores que contribuíram para isso. Em primeiro lugar, e o mais importante, o preço da guerra aumentou drasticamente. O Prêmio Nobel da Paz definitivo deveria ter sido dado a Robert Oppenheimer e seus colegas que criaram a bomba atômica. As armas nucleares transformaram as guerras entre superpotências em suicídio coletivo e tornaram impossível procurar a dominação mundial pela força das armas.

    Em segundo lugar, embora o preço da guerra tenha disparado, seus lucros diminuíram. Durante a maior parte da história, os regimes políticos puderam enriquecer por meio de pilhagens ou da anexação de territórios inimigos. A maior parte das riquezas consistia de coisas materiais, como campos, gado, escravos e ouro, de modo que era fácil roubá-la ou ocupá-la. Hoje, a riqueza consiste principalmente de capital humano e know-how organizacional. Em consequência, é difícil pilhá-la ou conquistá-la por força militar.

    Considere a Califórnia. Inicialmente, sua riqueza consistia de minas de ouro, mas hoje consiste de silício e celuloide – o vale do Silício e as colinas de celuloide de Hollywood. O que aconteceria se os chineses planejassem uma

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    invasão armada à Califórnia, enviassem 1 milhão de soldados às praias de São Francisco e atacassem o interior? Eles ganhariam pouco. Não há minas de silício no vale do Silício. A riqueza reside na mente dos engenheiros do Google e nos roteiristas, diretores e magos dos efeitos especiais de Hollywood, que estariam no primeiro avião para Bangalore ou Mumbai muito antes de os tanques chineses avançarem pela Sunset Boulevard. Não é coincidência que as poucas guerras internacionais em grande escala que ainda acontecem no mundo, como a invasão iraquiana no Kuwait, ocorrem em lugares em que a riqueza é a antiquada riqueza material. Os xeiques do Kuwait puderam fugir para o exterior, mas os campos de petróleo continuavam lá, e foram ocupados.

    Enquanto a guerra se tornou menos lucrativa, a paz se tornou mais lucrativa do que nunca. Nas economias agrícolas tradicionais, o comércio em longas distâncias e o investimento internacional eram secundários. Em consequência, a paz trazia poucos lucros, a não ser os de evitar os custos de uma guerra. Se, em 1400, a Inglaterra e a França estavam em paz, os franceses não tinham de pagar impostos de guerra onerosos e sofrer invasões inglesas destrutivas, mas, fora isso, a paz não beneficiava seus bolsos. Nas economias capitalistas modernas, o comércio e os investimentos internacionais se tornaram de suma importância. A paz, portanto, traz dividendos inigualáveis. Contanto que a China e os Estados Unidos estejam em paz, os chineses podem prosperar vendendo produtos aos Estados Unidos, negociando em Wall Street e recebendo investimentos norteamericanos.

    Por último, mas não menos importante, ocorreu uma mudança tectônica na política cultural global. Muitas elites na história – líderes hunos, nobres vikings e sacerdotes astecas, por exemplo – viam a guerra como algo positivo. Outras a viam como nociva, mas inevitável, sendo melhor, portanto, usá-la em vantagem própria. Quanto à nossa, é a primeira vez na história em que o mundo é dominado por uma elite que ama a paz – políticos, empresários, intelectuais e artistas que genuinamente veem a guerra como maléfica e evitável. (Houve pacifistas no passado, como os primeiros cristãos, mas, nas raras ocasiões em que conquistaram poder, eles tenderam a esquecer a ideia de “oferecer a outra face”.) Há um ciclo de retroalimentação positivo entre todos esses quatro fatores.

    A ameaça de um holocausto nuclear promove o pacifismo; quando o pacifismo

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    se espalha, a guerra recua e o comércio floresce; e o comércio aumenta os lucros da paz e os custos da guerra. Com o tempo, esse ciclo cria mais um obstáculo à guerra, que pode acabar se mostrando o mais importante de todos. A rede cada vez mais rígida de conexões internacionais corrói a independência da maioria dos países, diminuindo a chance de que um deles possa, sozinho, começar uma guerra. A maioria dos países já não se envolve em guerras de grande escala pela simples razão de que já não são independentes. Embora os cidadãos em Israel, na Itália, no México ou na Tailândia possam alimentar ilusões de independência, o fato é que seus governos não podem conduzir políticas econômicas ou externas independentes, e certamente são incapazes de iniciar e conduzir uma guerra em grande escala por conta própria. Conforme explicado no capítulo 11, estamos testemunhando a formação de um império global. Como os impérios anteriores, este também impõe a paz no interior de suas fronteiras. E, considerando que suas fronteiras abrangem o mundo inteiro, o Império Mundial, com efeito, impõe a paz mundial.

    Então, a era moderna é uma era obtusa de carnificina, guerra e opressão, tipificada pelas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, pela nuvem de fumaça nuclear sobre Hiroshima e pelas manias sangrentas de Hitler e de Stalin? Ou é uma era de paz, simbolizada pelas trincheiras nunca cavadas na América do Sul, as nuvens de cogumelo que nunca apareceram sobre Moscou e Nova York e as visões serenas de Mahatma Gandhi e Martin Luther King?

    A resposta é uma questão de tempo. É curioso perceber com que frequência nossa visão do passado é distorcida pelos acontecimentos dos últimos anos. Se este capítulo tivesse sido escrito em 1945 ou 1962, provavelmente teria sido muito mais melancólico. Como foi escrito em nossos dias, adota uma abordagem relativamente alegre da história moderna.

    Para satisfazer otimistas e pessimistas, podemos concluir dizendo que estamos no limiar do céu e do inferno, movendo-nos nervosamente dos portões de um para a antessala do outro. A história ainda não se decidiu sobre nosso destino, e uma série de coincidências ainda pode nos colocar em uma ou outra direção.

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    [1] Uma “comunidade íntima” é um grupo de pessoas que se conhecem bem e dependem umas das outras para a sobrevivência.

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    19. E eles viveram felizes para sempre

    E eles viveram felizes para sempre OS ÚLTIMOS 500 ANOS TESTEMUNHARAM UMA SÉRIE DE REVOLUÇÕES DE TIRAR O fôlego.

    A Terra foi unida em uma única esfera histórica e ecológica. A economia cresceu exponencialmente, e hoje a humanidade desfruta do tipo de riqueza que só existia nos contos de fadas. A ciência e a Revolução Industrial deram à humanidade poderes sobre-humanos e energia praticamente sem limites. A ordem social foi totalmente transformada, bem como a política, a vida cotidiana e a psicologia humana.

    Mas somos mais felizes? A riqueza que a humanidade acumulou nos últimos cinco séculos se traduz em contentamento? A descoberta de fontes de energia inesgotáveis abre diante de nós depósitos inesgotáveis de felicidade?

    Voltando ainda mais no tempo, os cerca de 70 milênios desde a Revolução Cognitiva tornaram o mundo um lugar melhor para se viver? O falecido Neil Armstrong, cuja pegada continua intacta na Lua sem vento, foi mais feliz que os caçadores-coletores anônimos que há 30 mil anos deixaram suas marcas de mão em uma parede na caverna de Chauvet? Se não, qual o sentido de desenvolver agricultura, cidades, escrita, moeda, impérios, ciência e indústria?

    Os historiadores raramente fazem essas perguntas. Eles não perguntam se os cidadãos de Uruk e da Babilônia foram mais felizes que seus ancestrais caçadores-coletores, se a ascensão do islamismo tornou os egípcios mais satisfeitos com a vida, ou de que modo o colapso dos impérios europeus na África influenciou a felicidade de muitos milhões de pessoas. Mas essas são as perguntas mais importantes que podemos fazer à história. A maioria dos programas ideológicos e políticos atuais se baseia em ideias um tanto frágeis no que concerne à fonte real de felicidade humana. Os nacionalistas acreditam que a autodeterminação política é essencial para a nossa felicidade. Os comunistas postulam que todos seriam felizes sob a ditadura do proletariado. Os capitalistas sustentam que só o livre mercado pode garantir a maior felicidade possível para o maior número, criando crescimento econômico e abundância material e ensinando as pessoas a serem autossuficientes e empreendedoras.

    O que aconteceria se pesquisas sérias mostrassem que essas hipóteses estão erradas? Se o crescimento econômico e a autossuficiência não tornam as pessoas

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    mais felizes, qual o benefício do capitalismo? E se for revelado que os súditos de grandes impérios são, em geral, mais felizes que os cidadãos de Estados independentes e que, por exemplo, os ganenses eram mais felizes sob o domínio colonizador britânico do que sob seus próprios ditadores? O que isso diria sobre o processo de descolonização e sobre o valor da soberania nacional?

    Essas são todas possibilidades hipotéticas, porque até agora os historiadores têm evitado fazer essas perguntas, que dirá respondê-las. Eles pesquisaram a história de praticamente tudo – política, sociedade, economia, gênero, doenças, sexualidade, alimentação, vestuário –, mas raras vezes pararam para se perguntar como essas coisas influenciam a felicidade humana.

    Embora poucos tenham estudado a história da felicidade no longo prazo, quase todos os estudiosos e leigos têm alguma ideia vaga preconcebida a esse respeito. Em uma visão comum, as capacidades humanas aumentaram ao longo da história. Considerando que os humanos geralmente usam suas capacidades para aliviar sofrimentos e satisfazer aspirações, decorre que devemos ser mais felizes que nossos ancestrais medievais e que eles devem ter sido mais felizes que os caçadores-coletores da Idade da Pedra.

    Mas esse relato progressista não convence. Conforme vimos, novas aptidões, comportamentos e habilidades não necessariamente contribuem para uma vida melhor. Quando os humanos aprenderam a lavrar a terra na Revolução Agrícola, sua capacidade coletiva de moldar seu ambiente aumentou, mas o destino de muitos indivíduos humanos se tornou mais cruel. Os camponeses tinham de trabalhar mais do que os caçadores-coletores para obter alimentos menos variados e nutritivos e estavam muito mais expostos a doenças e à exploração. De maneira similar, a disseminação dos impérios europeus aumentou enormemente o poder coletivo da humanidade, fazendo circular ideias, tecnologias e sementes e abrindo novas rotas de comércio. Mas isso esteve longe de ser uma boa notícia para os milhões de africanos, índios americanos e aborígenes australianos. Considerando a comprovada propensão humana para fazer mau uso do poder, parece ingênuo acreditar que quanto mais influência as pessoas tiverem, mais felizes serão.

    Alguns dos que contrariam essa visão adotam uma postura diametralmente oposta. Eles concordam que existe uma relação inversa entre potencialidades humanas e felicidade. O poder corrompe, dizem, e, à medida que ganhou cada

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    vez mais poder, a humanidade criou um mundo frio e mecanicista mal-adaptado a nossas necessidades reais. A evolução moldou nossa mente e nosso corpo para a vida de caçadores-coletores. A transição primeiro para a agricultura e depois para a indústria nos condenou a levar uma vida antinatural que não permite expressar plenamente nossas inclinações e nossos instintos inerentes e, portanto, não é capaz de satisfazer nossas aspirações mais profundas. Nada na vida confortável da classe média urbana pode se aproximar do entusiasmo e da alegria experimentados por um bando de caçadores-coletores após a caçada bem-sucedida de um mamute. Cada nova invenção só aumenta a distância entre nós e o jardim do Éden.

    Em particular, os românticos enfatizam que nosso mundo sensorial é muito mais pobre se comparado com o de nossos ancestrais. Os antigos caçadorescoletores viviam o momento presente, e tinham plena consciência de cada som, sabor e odor. Sua sobrevivência dependia disso. Nós, ao contrário, estamos terrivelmente sem foco. Podemos ir ao supermercado e escolher comer mil pratos diferentes. Mas, qualquer que seja o prato escolhido, provavelmente o comeremos às pressas diante da TV, sem prestar atenção ao sabor. Podemos viajar para mil lugares incríveis. Mas, para onde quer que formos, provavelmente estaremos brincando com nosso smartphone em vez de realmente ver o lugar. Temos mais opções do que nunca, mas quão boas são essas opções, se perdemos a capacidade de prestar atenção realmente?

    Mas essa insistência romântica em ver uma sombra escura por trás de cada invenção é tão dogmática quanto a crença na inevitabilidade do progresso.

    Possivelmente perdemos o contato com o caçador-coletor dentro de nós, mas isso não é de todo ruim. Por exemplo, nos últimos dois séculos a medicina moderna reduziu a mortalidade infantil de 33% para menos de 5%. Alguém pode duvidar que isso fez uma enorme contribuição para a felicidade não só dessas crianças que do contrário teriam morrido como também de seus familiares e amigos?

    Uma posição mais ponderada toma o caminho do meio. Até a Revolução Científica, não havia uma correlação clara entre potencialidades e felicidade. Os camponeses medievais podem, com efeito, ter sido mais infelizes que seus ancestrais caçadores-coletores. Mas nos últimos séculos os humanos aprenderam a usar suas potencialidades de modo mais sábio. Os triunfos da medicina

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    moderna são apenas um exemplo. Outras conquistas sem precedentes incluem a drástica redução no índice de violência, o quase desaparecimento de guerras internacionais e a quase eliminação da fome em grande escala.

    Mas isso também é simplificar demais. Primeiro, porque baseia sua avaliação otimista em uma amostra muito pequena de anos. A maioria dos humanos só começou a colher os frutos da medicina moderna em 1850, e a drástica redução na mortalidade infantil é um fenômeno do século XX. A fome em massa continuou a acometer grande parte da humanidade até meados do século XX. Durante o Grande Salto para a Frente, de 1958 a 1961 na China comunista, algo entre 10 e 50 milhões de seres humanos morreram de fome. As guerras internacionais só se tornaram raras após 1945, em grande parte graças à nova ameaça de aniquilação nuclear. Portanto, embora as últimas décadas tenham sido uma era de ouro sem precedentes para a humanidade, é cedo demais para saber se isso representa uma mudança fundamental nas correntes da história ou uma onda efêmera de boa sorte. Ao julgar a modernidade, é demasiado tentador adotar o ponto de vista de um cidadão de classe média do Ocidente do século XXI. Não devemos nos esquecer do ponto de vista do minerador galês, do chinês viciado em ópio ou do aborígene tasmaniano do século XIX. Truganini não é menos importante do que Homer Simpson.

    Em segundo lugar, até mesmo a breve era de ouro do último meio século pode ter espalhado as sementes de catástrofe futura. Nas últimas décadas, temos perturbado o equilíbrio ecológico do nosso planeta de muitas maneiras, provavelmente com consequências terríveis. Há muitos indícios de que estamos destruindo as bases da prosperidade humana em uma orgia de consumo desenfreado.

    Por fim, só podemos ficar orgulhosos das conquistas sem precedentes dos sapiens modernos se ignorarmos completamente o destino de todos os outros animais. Grande parte da alardeada riqueza material que nos protege de fome e doenças foi acumulada à custa de macacos de laboratório, vacas leiteiras e frangos criados em linha de produção. Nos últimos dois séculos, dezenas de bilhões deles foram submetidos a um regime de exploração industrial cuja crueldade não tem precedentes nos anais do planeta Terra. Se admitirmos apenas um décimo do que os ativistas pelos direitos dos animais estão reivindicando, a agricultura moderna poderia muito bem ser o maior crime da história. Ao avaliar

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    a felicidade global, é um equívoco considerar apenas a felicidade das classes superiores, dos europeus, ou dos homens. Talvez também seja um equívoco considerar apenas a felicidade dos humanos.

    Computando a felicidade

    Até agora, discutimos a felicidade como se esta fosse, em grande medida, produto de fatores materiais, como saúde, dieta e riqueza. Se as pessoas são mais ricas e mais saudáveis, também devem ser mais felizes. Mas isso é mesmo assim tão óbvio? Filósofos, padres e poetas refletiram sobre a natureza da felicidade durante milênios, e muitos concluíram que fatores sociais, éticos e espirituais têm tanta influência sobre nossa felicidade quanto as condições materiais. E se as pessoas nas sociedades afluentes modernas sofrem muitíssimo de alienação e carência de sentido, apesar de sua prosperidade? E se nossos ancestrais menos abastados encontravam grande contentamento na comunidade, na religião e em um vínculo com a natureza?

    Nas últimas décadas, psicólogos e biólogos aceitaram o desafio de estudar cientificamente o que de fato deixa as pessoas felizes. É o dinheiro, a família, a genética ou, talvez, a moral? O primeiro passo é definir o que será medido. A definição geralmente aceita de felicidade é “bem-estar subjetivo”. A felicidade, de acordo com essa visão, é algo que sinto dentro de mim, uma sensação de prazer imediato ou de contentamento no longo prazo com o modo como minha vida avança. Se é algo sentido do lado de dentro, como pode ser medido de fora?

    Supostamente, podemos fazer isso pedindo que as pessoas nos digam como se sentem. Desse modo, os psicólogos e biólogos que desejam avaliar o quanto as pessoas se sentem felizes lhes dão questionários para responder e computam os resultados.

    Um típico questionário sobre bem-estar subjetivo pede aos entrevistados para avaliarem em uma escala de zero a dez o quanto concordam com afirmações do tipo “Sinto-me satisfeito com minha forma de ser”, “Sinto que a vida é muito satisfatória”, “Sou otimista com relação ao futuro” e “A vida é boa”.

    O pesquisador, então, soma todas as respostas e calcula o nível geral de bemestar subjetivo do entrevistado.

    Tais questionários são usados para correlacionar a felicidade com vários

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    fatores objetivos. Um estudo pode comparar mil pessoas que ganham 100 mil dólares por ano com mil pessoas que ganham 50 mil dólares por ano. Se o estudo descobrir que o primeiro grupo tem um nível médio de bem-estar subjetivo de 8,7, ao passo que o segundo grupo tem um nível médio de apenas 7,3, o pesquisador pode concluir, de maneira razoável, que há uma correlação positiva entre riqueza e bem-estar subjetivo. Dito de forma simples, dinheiro traz felicidade. O mesmo método pode ser usado para examinar se pessoas vivendo em democracias são mais felizes que pessoas vivendo em ditaduras e se os casados são mais felizes que os solteiros, divorciados ou viúvos.

    Isso fornece uma base para os historiadores, que podem examinar a riqueza, a liberdade política e os índices de divórcio no passado. Se as pessoas são mais felizes em democracias e as pessoas casadas são mais felizes que as divorciadas, um historiador tem uma base para argumentar que o processo de democratização das últimas décadas contribuiu para a felicidade da humanidade, ao passo que os índices crescentes de divórcio indicam uma tendência oposta.

    Essa maneira de pensar não é isenta de falhas, mas, antes de apontar algumas delas, vale considerar suas descobertas.

    Uma conclusão interessante é que, de fato, o dinheiro traz felicidade. Mas só até certo ponto, e além desse ponto tem pouca significância. Para as pessoas presas na base da pirâmide econômica, mais dinheiro significa mais felicidade.

    Se você é uma mãe solteira brasileira que ganha 12 mil reais por ano limpando casas e de repente ganha 500 mil reais na loteria, provavelmente sentirá um aumento significativo e duradouro em seu bem-estar subjetivo. Conseguirá alimentar e vestir seus filhos sem se afundar ainda mais em dívidas. No entanto, se você é um alto executivo que ganha 250 mil reais por ano e de repente ganha 1 milhão de reais na loteria, ou se a diretoria de sua empresa de repente decide dobrar seu salário, é provável que seu aumento no bem-estar subjetivo dure apenas algumas semanas. De acordo com descobertas empíricas, é quase certo que não fará uma grande diferença no modo como você se sente no longo prazo.

    Você comprará um carro mais pomposo, se mudará para uma casa suntuosa, se acostumará a comer coisas mais sofisticadas e a tomar os melhores vinhos, mas logo tudo isso parecerá rotineiro e nada excepcional.

    Outra descoberta interessante é que a doença diminui a felicidade no curto prazo, mas só é fonte de sofrimento no longo prazo se as condições de vida de

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    uma pessoa se deteriorarem de forma constante ou se a doença envolver dor contínua e debilitante. As pessoas que são diagnosticadas com doenças crônicas como diabetes geralmente ficam deprimidas por um tempo, mas, se a doença não piorar, elas se ajustam à nova condição e classificam sua felicidade nos mesmos patamares que as pessoas saudáveis. Imagine que Lúcia e Lucas são gêmeos de classe média, que concordam em participar de um estudo sobre bemestar. Ao voltar do laboratório de psicologia, o carro de Lúcia é atingido por um ônibus, deixando-a com uma série de ossos fraturados e uma perna permanentemente danificada. Enquanto a equipe de resgate a está tirando do meio das ferragens, o telefone toca e Lucas grita que acabou de ganhar 10 milhões de reais na loteria. Dois anos depois, ela estará mancando e ele estará muito mais rico, mas, quando o psicólogo aparece para um estudo de acompanhamento, ambos tendem a dar as mesmas respostas que deram na manhã daquele dia fatídico.

    Família e comunidade parecem ter mais impacto na nossa felicidade do que dinheiro e saúde. Pessoas com famílias coesas que vivem em comunidades unidas que lhes dão apoio são significativamente mais felizes do que pessoas cujas famílias são disfuncionais e que nunca encontraram (ou nunca buscaram) uma comunidade da qual fazer parte. O casamento é particularmente importante. Repetidos estudos descobriram que há uma relação muito direta entre bons casamentos e nível elevado de bem-estar subjetivo e entre maus casamentos e sofrimento. Isso é verdade independentemente de condições econômicas ou mesmo físicas. Um inválido sem recursos cercado por uma esposa amorosa, uma família dedicada e uma comunidade afetuosa pode se sentir melhor do que um bilionário alienado, contanto que a pobreza do inválido não seja extrema e que sua doença não seja degenerativa nem dolorosa.

    Isso levanta a possibilidade de que a melhoria gigantesca nas condições materiais dos últimos dois séculos tenha sido compensada pelo colapso da família e da comunidade. As pessoas no mundo desenvolvido contam com o Estado e o mercado para quase tudo de que necessitam: alimento, abrigo, educação, saúde, segurança. Desse modo, tornou-se possível sobreviver sem ter uma família estendida ou amigos reais. Um indivíduo que mora em uma cobertura urbana é cercado por milhares de pessoas onde quer que vá, mas possivelmente jamais visitou o apartamento vizinho e sabe muito pouco sobre seus colegas de trabalho.

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    Até mesmo seus amigos talvez sejam apenas companheiros de bar. Hoje, muitas amizades envolvem pouco mais do que conversar e se divertir juntos.

    Encontramos um amigo em um bar, telefonamos para ele ou lhe enviamos um e-mail para aliviar nossa raiva sobre o que aconteceu hoje no escritório ou compartilhar nossas opiniões sobre o último escândalo político. Mas até que ponto podemos conhecer bem uma pessoa somente com base em conversas?

    Diferentemente de tais companheiros de bar, os amigos na Idade da Pedra dependiam uns dos outros para sua própria sobrevivência. Os humanos viviam em comunidades solidárias, e os amigos eram pessoas com quem se caçava mamutes. Juntos, sobreviviam a longas jornadas e a invernos rigorosos.

    Cuidavam um do outro quando um deles ficava doente, e compartilhavam a última porção de comida em épocas de necessidade. Tais amigos conheciam uns aos outros mais intimamente do que muitos casais de nossos dias. Quantos maridos podem dizer que sabem qual será o comportamento da esposa se eles forem atacados por um mamute enfurecido? Substituir tais redes tribais precárias pela segurança das economias e dos Estados paternalistas modernos obviamente tem vantagens enormes, mas é provável que a qualidade e a profundidade das relações íntimas tenha sido afetada.

    Mas a descoberta mais importante de todas é que a felicidade não depende de condições objetivas de riqueza, saúde ou mesmo comunidade. Em vez disso, depende da correlação entre condições objetivas e expectativas subjetivas. Se você quer uma carroça e consegue uma carroça, fica contente. Se você quer uma Ferrari zero e só consegue um Fiat usado, sente que algo lhe foi negado. É por isso que ganhar na loteria tem, com o tempo, o mesmo impacto sobre a felicidade das pessoas que um acidente de carro debilitante. Quando as coisas melhoram, as expectativas inflam, e consequentemente até mesmo melhorias drásticas nas condições objetivas podem nos deixar insatisfeitos. Quando as coisas se deterioram, as expectativas diminuem, e consequentemente até mesmo com uma doença grave a pessoa pode ser tão feliz quanto era antes.

    Você poderia dizer que não precisamos de um bando de psicólogos e seus questionários para descobrir isso. Profetas, poetas e filósofos perceberam, há milhares de anos, que estar satisfeito com o que você já tem é muito mais importante do que obter mais daquilo que deseja. Ainda assim, é bom quando pesquisas atuais – sustentadas por uma porção de números e gráficos – chegam à

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    mesma conclusão a que os antigos chegaram.

    A importância das expectativas humanas tem implicações de longo alcance para entendermos a história da felicidade. Se a felicidade dependesse apenas de condições objetivas como riqueza, saúde e relações sociais, teria sido relativamente fácil investigar sua história. A descoberta de que ela depende de expectativas subjetivas torna a tarefa dos historiadores muito mais difícil. Hoje, temos um arsenal de tranquilizantes e analgésicos à disposição, mas nossas expectativas de alívio e prazer, e nossa intolerância à inconveniência e ao desconforto aumentaram a tal ponto que podemos muito bem sofrer muito mais com a dor do que nossos ancestrais sofreram.

    É difícil aceitar essa linha de pensamento. O problema é uma falácia de raciocínio incrustada em nossa psique. Quando tentamos adivinhar ou imaginar quão felizes outras pessoas são hoje, ou quão felizes foram no passado, inevitavelmente nos imaginamos em sua pele. Mas isso não funciona, porque associa nossas expectativas com as condições materiais de outros. Nas sociedades afluentes modernas, é costume tomar um banho e trocar de roupa todos os dias. Os camponeses medievais ficavam sem se lavar por meses a fio e quase nunca trocavam de roupa. A mera ideia de viver dessa maneira, imundos e fedorentos, nos repugna. Mas os camponeses medievais não pareciam se importar. Eles estavam acostumados à sensação e ao odor de uma camisa há muito não lavada. Não é que quisessem uma troca de roupas, mas não pudessem obtê-la – eles tinham o que queriam. Então, pelo menos no que se refere a roupas, estavam contentes.

    Pensando bem, isso não é tão surpreendente. Afinal, nossos primos chimpanzés raramente se lavam e nunca trocam de roupa. E tampouco nós ficamos incomodados pelo fato de que nossos cachorros e gatos de estimação não tomam banho nem trocam de pele todos os dias. Nós os acariciamos, abraçamos e beijamos da mesma forma. É comum, nas sociedades abastadas, que as crianças pequenas não gostem de tomar banho, e leva-se anos de educação e disciplina para que elas adotem esse costume supostamente atraente.

    É tudo uma questão de expectativas.

    Se a felicidade é determinada por expectativas, então os dois pilares da nossa sociedade – os meios de comunicação de massa e a indústria da publicidade – podem, sem querer, estar esgotando as reservas de contentamento

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    do planeta. Se você fosse um rapaz de 18 anos vivendo em uma pequena aldeia há 5 mil anos, provavelmente se consideraria atraente, pois só haveria uns 50 homens em sua aldeia, e a maioria deles seria composta de velhos com cicatrizes e rugas, ou ainda de meninos. Mas, se você é um adolescente nos dias de hoje, tem muito mais probabilidade de se sentir inadequado. Mesmo que os outros rapazes na escola sejam feios, você não se compara com eles, e sim com os astros de cinema, atletas e supermodelos que vê diariamente na televisão, no Facebook e nos outdoors gigantes.

    Então, talvez o descontentamento do Terceiro Mundo seja fomentado não só pela pobreza, doença, corrupção e opressão política como também pela mera exposição aos padrões do Primeiro Mundo. O egípcio médio tinha muito menos probabilidade de morrer de fome, praga ou violência sob o regime de Hosni Mubarak do que sob Ramsés II ou Cleópatra. Nunca as condições materiais da maior parte dos egípcios foram tão boas. Seria de se esperar que eles estivessem dançando nas ruas em 2011, agradecendo a Alá por sua boa sorte. Em vez disso, eles se ergueram furiosamente para derrubar Mubarak. Não estavam se comparando com seus ancestrais sob os faraós, e sim com seus contemporâneos no rico Ocidente.

    Se esse é o caso, até mesmo a mortalidade talvez leve ao descontentamento. Suponha que a ciência encontre cura para todas as doenças, terapias eficazes contra o envelhecimento e tratamentos regenerativos que mantêm as pessoas jovens por tempo indefinido. Com toda a probabilidade, o resultado imediato será uma epidemia sem precedentes de raiva e ansiedade.

    Aqueles que não puderem pagar pelos novos tratamentos milagrosos – a grande maioria das pessoas – serão tomados por raiva. Ao longo da história, os pobres e oprimidos encontraram conforto na ideia de que pelo menos a morte é imparcial – os ricos e poderosos também morrem. Os pobres não ficarão confortáveis com a ideia de que têm de morrer, ao passo que os ricos continuarão jovens e bonitos para sempre.

    Mas a ínfima minoria capaz de pagar pelos novos tratamentos também não ficará eufórica. Terá motivos de sobra para se sentir apreensiva. Embora as novas terapias possam prolongar a vida e a juventude, não podem ressuscitar cadáveres. Que assustador pensar que eu e meus entes queridos podemos viver para sempre, mas só se não formos atingidos por um caminhão ou explodidos em

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    pedacinhos por um terrorista! É provável que as pessoas potencialmente amortais sejam avessas a correr os menores riscos, e a agonia de perder um esposo, filho ou amigo próximo será insuportável.

    Felicidade química

    Os cientistas sociais distribuem questionários de bem-estar subjetivo e correlacionam os resultados com fatores socioeconômicos como riqueza e liberdade política. Os biólogos usam os mesmos questionários, mas correlacionam as respostas fornecidas pelas pessoas com fatores bioquímicos e genéticos. Suas descobertas são chocantes.

    Os biólogos sustentam que nosso mundo mental e emocional é governado por mecanismos bioquímicos definidos por milhões de anos de evolução. Como todos os outros estados mentais, nosso bem-estar subjetivo não é determinado por parâmetros externos como salário, relações sociais ou direitos políticos. Em vez disso, é determinado por um complexo sistema de nervos, neurônios, sinapses e várias substâncias bioquímicas como serotonina, dopamina e oxitocina.

    Ninguém fica feliz por ganhar na loteria, comprar uma casa, obter uma promoção ou encontrar o amor verdadeiro. As pessoas ficam felizes por um único motivo: sensações agradáveis em seu corpo. Uma pessoa que acabou de ganhar na loteria ou de encontrar um novo amor e pula de alegria na verdade não está reagindo ao dinheiro ou ao fato de ser amado. Está reagindo a vários hormônios que inundam sua corrente sanguínea e à tempestade de sinais elétricos pipocando em diferentes partes do seu cérebro.

    Contrariando todas as esperanças de se criar o céu na terra, nosso sistema bioquímico interno parece estar programado para manter os níveis de felicidade relativamente constantes. Não existe seleção natural para a felicidade como tal – a linhagem genética de um ermitão feliz entrará em extinção quando os genes de pais ansiosos forem transmitidos para a geração seguinte. A felicidade e a infelicidade exercem um papel na evolução somente na medida em que encorajam ou desencorajam a sobrevivência e a reprodução. Talvez não cause surpresa, então, que a evolução tenha nos moldado para sermos nem felizes demais, nem infelizes demais. Ela nos permite sentir um ímpeto momentâneo de sensações agradáveis, mas estas nunca duram para sempre. Mais cedo ou mais

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    tarde, diminuem e dão lugar a sensações desagradáveis.

    Por exemplo, a evolução proporcionava sensações agradáveis como recompensa para os machos que disseminavam seus genes tendo relações sexuais com fêmeas férteis. Se o sexo não fosse acompanhado de tal prazer, poucos machos se importariam com isso. Ao mesmo tempo, a evolução tratou de fazer com que essas sensações de prazer desaparecessem rapidamente. Se os orgasmos durassem para sempre, os machos muito felizes morreriam de fome por falta de interesse por comida e não se dariam ao trabalho de procurar outras fêmeas férteis.

    Alguns estudiosos comparam a bioquímica humana a um sistema de arcondicionado que mantém a temperatura constante, venha uma onda de calor ou uma tempestade de neve. Os eventos climáticos podem mudar a temperatura momentaneamente, mas o sistema de ar-condicionado sempre faz com que a temperatura retorne ao mesmo ponto predefinido.

    Alguns sistemas de ar-condicionado estão configurados para 25 graus Celsius. Outros estão configurados para 20 graus. Os sistemas de condicionamento da felicidade humana também diferem de pessoa para pessoa.

    Em uma escala de 1 a 10, algumas pessoas nascem com um sistema bioquímico alegre que permite que seu humor oscile entre os níveis 6 e 10, estabilizando-se, com o tempo, no nível 8. Tal pessoa é muito feliz mesmo que viva em uma cidade grande alienante, perca todo o dinheiro em uma queda da bolsa de valores e seja diagnosticada com diabetes. Outras pessoas são amaldiçoadas com uma bioquímica melancólica que oscila entre 3 e 7 e se estabiliza em 5. Tal pessoa infeliz permanece deprimida mesmo que desfrute do apoio de uma comunidade coesa, ganhe milhões na loteria e seja tão saudável quanto um atleta olímpico.

    Na verdade, mesmo que nosso amigo deprimido ganhe 50 milhões de dólares de manhã, descubra a cura para a Aids e o câncer antes do meio-dia, sele a paz entre israelenses e palestinos à tarde e, à noite, reencontre seus filhos que desapareceram há anos – ainda seria incapaz de experimentar qualquer coisa além do nível 7 de felicidade. Seu cérebro simplesmente não é projetado para a euforia, aconteça o que acontecer.

    Pense por um instante em sua família e seus amigos. Você conhece algumas pessoas que estão sempre relativamente alegres, não importa o que aconteça com elas. E há aquelas que estão sempre insatisfeitas, não importa que

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    dádivas o mundo deite a seus pés. Tendemos a acreditar que, se pudéssemos ao menos mudar de trabalho, nos casar, terminar de escrever aquele romance, comprar um carro novo ou quitar a hipoteca, estaríamos nas nuvens. Mas, quando conseguimos o que desejamos, não parecemos mais felizes. Comprar carros e escrever romances não muda nossa bioquímica. Pode estimulá-la por um breve instante, mas logo voltamos ao ponto inicial.

    Como isso pode ser compatível com as descobertas sociológicas e psicológicas mencionadas anteriormente, de que, por exemplo, as pessoas casadas são, em média, mais felizes do que as solteiras? Primeiro, essas descobertas são correlações – a direção causal pode ser o oposto do que alguns pesquisadores presumiram. É verdade que as pessoas casadas são mais felizes que as solteiras e as divorciadas, mas isso não necessariamente significa que o casamento produz felicidade. Pode ser que a felicidade gere casamento. Ou, mais corretamente, que a serotonina, a dopamina e a oxitocina viabilizem e mantenham um casamento. As pessoas que nasceram com uma bioquímica alegre geralmente são felizes e contentes. Tais pessoas são companhias mais atraentes e, em consequência, têm uma chance maior de se casarem. Também têm menos probabilidade de se divorciarem, porque é muito mais fácil conviver com alguém feliz e contente do que com alguém deprimido e insatisfeito. Em consequência, é verdade que as pessoas casadas são, em média, mais felizes que as solteiras, mas uma mulher solteira com tendência à depressão em função de sua bioquímica não necessariamente ficaria mais feliz se tivesse um marido.

    Além disso, a maioria dos biólogos não são fanáticos. Eles sustentam que a felicidade é determinada principalmente pela bioquímica, mas concordam que fatores psicológicos e sociológicos também têm seu lugar. Nosso sistema mental de ar-condicionado tem certa liberdade de movimento dentro de limites predeterminados. É quase impossível exceder os limites de emoção superiores e inferiores, mas casamento e divórcio podem ter influência sobre a área entre os dois. Uma pessoa nascida com uma média de nível 5 de felicidade jamais dançaria loucamente nas ruas. Mas um bom casamento poderia possibilitar que ela desfrutasse do nível 7 de tempos em tempos e que evitasse o desânimo do nível 3.

    Se aceitarmos a abordagem biológica da felicidade, a história se revela de menor importância, já que a maioria dos acontecimentos históricos não tem

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    impacto algum sobre nossa bioquímica. A história pode mudar os estímulos externos que causam a liberação de serotonina, mas não muda os níveis de serotonina resultantes e, portanto, não pode tornar as pessoas mais felizes.

    Compare um camponês na França medieval com um banqueiro na Paris de hoje. O camponês vivia em uma cabana de barro sem aquecimento com vista para um curral de porcos, ao passo que o banqueiro mora em uma bela cobertura com todos os últimos aparatos tecnológicos e uma vista para a Champs-Élysées. Intuitivamente, esperaríamos que o banqueiro fosse muito mais feliz do que o camponês. No entanto, cabanas de barro, coberturas e a Champs-Élysées não determinam, de fato, nosso humor. A serotonina, sim. Quando o camponês medieval terminava de construir sua cabana de barro, seus neurônios cerebrais secretavam serotonina, levando-a ao nível X. Quando, em 2015, o banqueiro quita o pagamento de sua cobertura maravilhosa, neurônios cerebrais secretam uma quantidade similar de serotonina, levando-a a um nível X similar.

    Não faz diferença para o cérebro o fato de que a cobertura é muito mais confortável que a cabana de barro. Só o que importa é que, no presente, o nível de serotonina é X. Em consequência, o banqueiro não seria nem um pouco mais feliz do que seu tataravô, o pobre camponês medieval.

    Isso é válido não só para nossa vida privada como também para grandes acontecimentos coletivos. Considere, por exemplo, a Revolução Francesa. Os revolucionários estiveram bastante ocupados: executaram o rei, deram terras aos camponeses, declararam os direitos do homem, aboliram os privilégios dos nobres e travaram guerra contra a Europa inteira. Mas nada disso mudou a bioquímica francesa. Em consequência, apesar de todas as reviravoltas políticas, sociais, ideológicas e econômicas provocadas pela revolução, seu impacto sobre a felicidade dos franceses foi pequeno. Aqueles que ganharam uma bioquímica alegre na loteria genética foram tão felizes antes da revolução quanto depois.

    Aqueles que com uma bioquímica melancólica reclamaram de Robespierre e de Napoleão com a mesma amargura com que haviam reclamando de Luís XVI e Maria Antonieta.

    Se é assim, quão benéfica foi a Revolução Francesa? Se as pessoas não se tornaram mais felizes, qual o sentido de todo aquele caos, medo, sangue e guerra? Biólogos jamais teriam atacado a Bastilha. As pessoas pensam que essa revolução política ou aquela reforma social as tornarão mais felizes, mas sua

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    bioquímica as trapaceia repetidas vezes.

    Há um único acontecimento histórico que tem importância real. Hoje, quando enfim percebemos que a chave para a felicidade está nas mãos do nosso sistema bioquímico, podemos parar de desperdiçar o tempo com reformas políticas e sociais, golpes e ideologias e focar, em vez disso, na única coisa que nos torna realmente felizes: manipular nossa bioquímica. Se investirmos milhões na compreensão da bioquímica do nosso cérebro e no desenvolvimento de tratamentos adequados, podemos tornar as pessoas muito mais felizes do que antes, sem necessidade de revolução alguma. O Prozac, por exemplo, não muda regimes políticos, mas ao elevar os níveis de serotonina tira as pessoas da depressão.

    Nada captura melhor o argumento biológico do que o famoso slogan da New Age: “A felicidade começa dentro de você”. Dinheiro, status social, cirurgia plástica, casas bonitas, posições de poder – nada disso lhe trará felicidade. A felicidade duradoura só vem da serotonina, da dopamina e da oxitocina.1 No romance distópico de Aldous Huxley, Admirável mundo novo, publicado em 1932, no auge da Grande Depressão, a felicidade era o valor supremo, e os medicamentos psiquiátricos substituíam a polícia e as eleições como a base da política. A cada dia, cada pessoa toma uma dose de “soma”, um medicamento sintético que torna as pessoas felizes sem prejudicar sua produtividade e eficiência. O Governo Mundial, que controla o mundo inteiro, nunca é ameaçado por guerras, revoluções, greves ou manifestações, porque todas as pessoas estão extremamente satisfeitas com sua situação atual, qualquer que seja. A visão de futuro de Huxley é muito mais perturbadora do que a de George Orwell em 1984. O mundo de Huxley parece monstruoso para a maioria dos leitores, mas é difícil explicar por quê. Todo mundo está feliz o tempo todo – o que poderia haver de errado nisso?

    O sentido da vida

    O desconcertante mundo de Huxley é baseado no pressuposto biológico de que a felicidade é igual ao prazer. Ser feliz é nada mais, nada menos que experimentar sensações corporais agradáveis. Uma vez que nossa bioquímica limita o volume e a duração dessas sensações, a única maneira de fazer as pessoas sentirem um

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    nível elevado de felicidade por um longo período é manipular seu sistema bioquímico.

    Mas essa definição de felicidade é contestada por alguns estudiosos. Em um famoso estudo, Daniel Kahneman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia, pediu a algumas pessoas que relatassem um dia típico de trabalho, descrevendo cada momento e avaliando o quanto as agradou ou desagradou. Ele descobriu o que parece ser um paradoxo no modo como a maioria das pessoas veem sua vida. Considere o trabalho inerente à criação de um filho. Kahneman descobriu que ao contar momentos alegres e momentos penosos, criar um filho se revela uma atividade um tanto desagradável. Consiste, em grande parte, de trocar fraldas, lavar pratos e lidar com choradeiras, o que ninguém gosta de fazer. Mas a maioria dos pais declara que seus filhos são sua principal fonte de felicidade.

    Isso significa que as pessoas não sabem o que é bom para elas?

    Essa é uma possibilidade. Outra é que as descobertas demonstram que a felicidade não é o saldo positivo entre momentos agradáveis e momentos desagradáveis; antes, consiste em enxergar a própria vida em sua totalidade como algo significativo e valioso. Há um importante componente ético e cognitivo na felicidade. Nossos valores fazem toda a diferença quanto nos vermos como “escravos infelizes de um bebê ditador” ou como “nutrindo amorosamente uma nova vida”.2 Como colocou Nietzsche, se você tem um motivo para viver, é capaz de tolerar praticamente qualquer coisa. Uma vida cheia de sentido pode ser extremamente gratificante mesmo em meio a adversidades, ao passo que uma vida sem sentido é um suplício terrível independentemente de ser repleta de conforto.

    Embora as pessoas em todas as culturas e épocas tenham sentido os mesmos tipos de prazer e de dor, o sentido que elas atribuíam à sua experiência provavelmente variou muitíssimo. Se é assim, a história da felicidade pode ter sido muito mais turbulenta do que os biólogos imaginam. É uma conclusão que não necessariamente favorece a modernidade. Se avaliarmos a vida minuto a minuto, as pessoas que viveram na Idade Média certamente tiveram uma vida difícil. No entanto, se elas acreditavam na promessa de felicidade eterna após a morte, podem muito bem ter considerado sua vida muito mais valiosa e plena de sentido do que as pessoas seculares de hoje, que, no longo prazo, não conseguem esperar nada além do completo esquecimento. Diante da pergunta “Você está

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    satisfeito com sua vida como um todo?”, as pessoas na Idade Média possivelmente teriam uma pontuação bastante alta em um questionário de bemestar subjetivo.

    Então, nossos ancestrais medievais eram felizes porque encontravam sentido na vida em ilusões coletivas sobre a vida após a morte? Sim. Contanto que ninguém destruísse suas fantasias, por que não? Até onde sabemos, de um ponto de vista puramente científico, a vida humana não tem sentido algum. Os humanos são o resultado de processos evolutivos cegos que atuam sem propósito ou objetivo. Nossas ações não são parte de um plano cósmico divino, e, se o planeta Terra explodisse amanhã, o universo provavelmente seguiria em frente como de costume. Até onde podemos afirmar no presente momento, a subjetividade humana não faria falta. Portanto, qualquer significado que as pessoas atribuem à própria vida é apenas uma ilusão. Os sentidos sobrenaturais que os medievais encontravam em sua vida eram não mais ilusórios do que os sentidos humanistas, nacionalistas e capitalistas que as pessoas de hoje encontram. O cientista que afirma que sua vida tem sentido porque ele contribui para um aumento no conhecimento humano, o soldado que declara que sua vida tem sentido porque ele luta para defender sua terra natal e o empreendedor que encontra sentido em construir uma nova empresa são não menos iludidos do que seus semelhantes medievais que encontravam sentido lendo as Escrituras, participando de uma Cruzada ou construindo uma nova catedral.

    Então, talvez a felicidade seja sincronizar nossas ilusões pessoais de sentido com as ilusões coletivas predominantes. Contanto que minha narrativa pessoal esteja alinhada com as narrativas das pessoas à minha volta, posso me convencer de que minha vida tem sentido e encontrar felicidade nessa convicção.

    Essa é uma conclusão um tanto deprimente. A felicidade realmente depende de autoilusão?

    Conhece-te a ti mesmo

    Se a felicidade se baseia em ter sensações agradáveis, para sermos mais felizes precisamos reformular nosso sistema bioquímico. Se a felicidade se baseia em sentir que a vida tem sentido, para sermos mais felizes precisamos nos iludir de maneira mais eficaz. Existe uma terceira alternativa?

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    Ambas as visões anteriores partem do pressuposto de que a felicidade é uma espécie de sensação subjetiva (de prazer ou de sentido) e, para avaliar a felicidade das pessoas, tudo que precisamos fazer é lhes perguntar como elas se sentem. Para muitos de nós, isso parece lógico porque a religião dominante da nossa era é o liberalismo. O liberalismo santifica as sensações subjetivas dos indivíduos. Vê essas sensações como fonte suprema de autoridade. O que é bom e o que é mau, o que é bonito e o que é feio, o que tem de ser e o que não tem de ser, tudo isso é determinado por aquilo que cada um de nós sente.

    A política liberal se baseia na ideia de que os eleitores sabem o que é melhor e não há necessidade de um Grande Irmão para nos dizer o que é bom para nós. A economia liberal se baseia na ideia de que o cliente sempre tem razão. A arte liberal declara que a beleza está nos olhos de quem vê. Os estudantes em escolas e universidades liberais são ensinados a pensarem por si mesmos. “Just do it!”, nos encorajam os comerciais. Filmes de ação, dramas de teatro, telenovelas, romances e canções de sucesso pegajosas nos doutrinam constantemente: “seja verdadeiro consigo mesmo”, “ouça a si mesmo”, “siga seu coração”. Jean-Jacques Rousseau afirmou sua visão de maneira mais clássica: “Tudo o que sinto ser bom, é bom; tudo o que sinto ser mau, é mau”.

    As pessoas que foram criadas desde a infância à base de uma dieta de tais slogans tendem a acreditar que a felicidade é uma sensação subjetiva e que cada indivíduo sabe melhor do que ninguém se é feliz ou infeliz. Mas essa visão é peculiar ao liberalismo. A maioria das religiões e ideologias ao longo da história afirmou que há parâmetros objetivos para o bem, para a beleza e para como as coisas deveriam ser. Elas desconfiavam das sensações e das preferências das pessoas comuns. Na entrada do templo de Apolo em Delfos, os peregrinos eram recebidos pela inscrição: “Conhece-te a ti mesmo!”. A implicação era que o indivíduo médio ignora seu verdadeiro eu e, portanto, tende a ignorar a verdadeira felicidade. Freud provavelmente concordaria.[1] E também os teólogos cristãos. São Paulo e Santo Agostinho sabiam perfeitamente bem que, se as pessoas fossem indagadas a respeito, a maioria delas preferiria fazer sexo do que rezar para Deus. Isso prova que fazer sexo é o segredo para a felicidade? Não de acordo com São Paulo e Santo Agostinho. Só prova que a humanidade é pecadora por natureza e que as pessoas são facilmente seduzidas por Satã. De uma perspectiva cristã, a grande maioria das

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    pessoas está mais ou menos na mesma situação que viciados em heroína.

    Imaginemos um psicólogo que embarca em um estudo de felicidade entre usuários de drogas. Ele os interroga e cada um deles declara que só é feliz quando injeta. O psicólogo publicaria um artigo declarando que a heroína é o segredo para a felicidade?

    A ideia de que os sentimentos podem nos enganar não se restringe ao cristianismo. Pelo menos quando se trata do valor de sentimentos, até mesmo Darwin e Dawkins podem encontrar pontos em comum com São Paulo e Santo Agostinho. De acordo com a teoria do gene egoísta, a seleção natural faz com que as pessoas, assim como outros organismos, escolham o que é bom para a reprodução de seus genes, mesmo que isso seja ruim para elas como indivíduos.

    A maioria dos machos passa a vida trabalhando, se preocupando, competindo e lutando, em vez de desfrutar de felicidade pacífica, porque seu DNA os manipula para atender seus próprios objetivos egoístas. Como Satã, o DNA usa prazeres fugazes para tentar os indivíduos e subjugá-los.

    Por conseguinte, a maioria das religiões e filosofias adotou uma abordagem muito diferente da do liberalismo para tentar compreender a felicidade.3 A posição budista é particularmente interessante. O budismo deu mais importância à questão da felicidade do que possivelmente qualquer outro credo humano. Durante 2,5 mil anos, os budistas estudaram de maneira sistemática a essência e as causas da felicidade, e é por isso que, na comunidade científica, há um interesse cada vez maior pela filosofia e pelas práticas de meditação budistas. O budismo concebe a felicidade da mesma forma que a biologia, isto é, entende que a felicidade resulta de processos que ocorrem em nosso corpo, e não de acontecimentos no mundo externo. No entanto, partindo da mesma noção elementar, o budismo chega a conclusões muito diferentes.

    De acordo com o budismo, a maioria das pessoas identifica sensações agradáveis como felicidade e sensações desagradáveis como sofrimento. Em consequência, as pessoas atribuem enorme importância ao que sentem, ávidas por vivenciar cada vez mais sensações agradáveis e por evitar sensações desagradáveis. Independentemente do que fizermos ao longo de nossa vida, seja coçar a perna, remexer-se na cadeira, ou travar guerras mundiais, estamos apenas tentando obter sensações agradáveis.

    O problema, de acordo com o budismo, é que os nossos sentimentos e

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    sensações são apenas vibrações transitórias, que mudam a cada instante, como as ondas do oceano. Se há cinco minutos eu me sentia alegre e cheio de propósito, agora esses sentimentos se foram, e posso muito bem me sentir triste e deprimido. Então, se quero ter sensações agradáveis, devo persegui-las constantemente, enquanto trato de afastar as sensações desagradáveis. Mesmo que eu consiga fazer isso, logo tenho de começar tudo de novo, sem jamais obter recompensas duradouras por meus esforços.

    O que há de tão importante em obter tais prêmios efêmeros? Por que se esforçar tanto para conquistar algo que desaparece quase no mesmo instante em que surge? De acordo com o budismo, a raiz do sofrimento não é a sensação de dor nem de tristeza e nem mesmo de falta de sentido. Em vez disso, a raiz do sofrimento é essa incessante e inútil busca de sensações efêmeras, que nos leva a estar em um constante estado de tensão, inquietude e insatisfação.

    Devido a essa busca, a mente nunca está satisfeita. Mesmo quando sentimos prazer, ela não está contente, porque teme que essa sensação logo desapareça e deseja ardentemente que permaneça e se intensifique.

    As pessoas só se libertam do sofrimento não quando experimentam essa ou aquela sensação de prazer, e sim quando entendem a natureza transitória de todos os seus sentimentos e param de persegui-los. Esse é o objetivo das práticas de meditação budistas. Na meditação, espera-se que você observe sua mente e seu corpo com atenção, que testemunhe o incessante ir e vir de todos os seus sentimentos e perceba como é inútil persegui-los. Quando a busca cessa, a mente fica tranquila, clara e satisfeita. Sentimentos de todo tipo continuam indo e vindo – alegria, raiva, tédio, desejo –, mas quando você para de ansiar por sentimentos específicos, pode simplesmente aceitá-los tal como são. Você vive o momento presente em vez de fantasiar sobre o que poderia ter sido.

    A serenidade resultante é tão profunda que aqueles que passam a vida inteira em uma busca desenfreada por sensações agradáveis mal conseguem imaginá-la. É como um homem parado durante décadas à beira do mar, abraçando certas ondas “boas” e tentando impedir que elas quebrem e simultaneamente repelindo as ondas “más” para evitar que se aproximem. Dia sim, dia não, o homem está na praia, indo à loucura com esse exercício inútil. Ele acaba por se sentar na areia e apenas permite que cada onda venha e se vá a seu bel-prazer. Que paz!

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    Essa ideia é tão alheia à cultura liberal moderna que, quando os movimentos ocidentais da New Age descobriram ensinamentos budistas, eles os traduziram em termos liberais e, assim, os distorceram. Com frequência, os cultos da New Age afirmam: “A felicidade não depende de condições externas.

    Só depende do que sentimos dentro de nós. As pessoas devem parar de almejar conquistas externas como riqueza e status e, em vez disso, se conectar com suas sensações internas”. Ou, de maneira mais sucinta, “a felicidade começa dentro de você”. Isso é exatamente o que os biólogos afirmam, mas praticamente o oposto do que Buda disse.

    Buda concordava com a biologia moderna e com os movimentos da New Age ao afirmar que a felicidade independe de condições externas. Mas sua compreensão mais importante e mais profunda foi que a verdadeira felicidade também independe de nossas sensações interiores. Com efeito, quanto mais importância damos a nossas sensações, mais ansiamos por elas, e mais sofremos.

    A recomendação de Buda era parar a busca não só de conquistas externas, como também, acima de tudo, a busca de sensações internas.

    Para resumir, os questionários de bem-estar subjetivo identificam nosso bemestar com nossas sensações subjetivas, e a busca de felicidade com a busca de certos estados emocionais. Por outro lado, para muitas filosofias e religiões tradicionais, como o budismo, o segredo da felicidade é conhecer a verdade sobre você mesmo – entender quem, ou o que, você é realmente. A maioria das pessoas se identifica, de maneira errônea, com suas sensações, pensamentos, gostos e desgostos. Quando sentem raiva, pensam: “Eu estou com raiva. Esta é minha raiva”. Em consequência, passam a vida evitando certos tipos de sensação e almejando outros. Elas nunca percebem que não são suas sensações e que a busca incessante por determinadas sensações só as aprisiona ao sofrimento.

    Se é assim, toda a nossa compreensão da história da felicidade pode estar equivocada. Talvez não seja tão importante saber se as expectativas das pessoas são satisfeitas e se elas têm sensações agradáveis. A principal questão é se as pessoas conhecem seu verdadeiro eu. Que evidências nós temos de que as pessoas de hoje se conhecem melhor essa verdade do que os antigos caçadorescoletores ou os camponeses medievais?

    Os acadêmicos começaram a estudar a história da felicidade há apenas alguns anos, e ainda estamos formulando as hipóteses iniciais e procurando os

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    métodos de pesquisa adequados. É cedo demais para adotar conclusões rígidas e encerrar um debate que mal começou. O que é importante é conhecer tantas abordagens quanto possível e fazer as perguntas certas.

    A maioria dos livros de história se concentra nas ideias dos grandes pensadores, na ousadia dos guerreiros, na caridade dos santos e na criatividade dos artistas. Eles têm muito a dizer sobre a construção e a destruição de estruturas sociais, sobre a ascensão e queda de impérios, sobre a descoberta e disseminação de tecnologias. Mas não dizem nada sobre como tudo isso influenciou a felicidade e o sofrimento dos indivíduos. Essa é a maior lacuna em nossa compreensão da história. É melhor começarmos a preenchê-la.

    [1] Paradoxalmente, enquanto os estudos psicológicos do bem-estar subjetivo se apoiam na capacidade das pessoas de diagnosticarem corretamente sua felicidade, a principal razão de ser da psicoterapia é que as pessoas não se conhecem realmente e às vezes precisam de ajuda profissional para se livrarem de comportamentos autodestrutivos.

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    20. O fim do Homo sapiens

    O fim do Homo sapiens ESTE LIVRO COMEÇOU APRESENTANDO A HISTÓRIA COMO A PRÓXIMA ETAPA NO continuum da física à química e então à biologia. Os sapiens estão sujeitos às mesmas forças físicas, reações químicas e processos de seleção natural que governam todos os seres vivos. A seleção natural pode ter proporcionado ao Homo sapiens um campo muito mais amplo do que proporcionou a qualquer outro organismo, mas esse campo ainda assim teve suas fronteiras. A implicação é a de que, não importam seus esforços e conquistas, os sapiens são incapazes de se libertar de seus limites determinados biologicamente.

    Mas no início do século XXI, isso já não é verdade: o Homo sapiens está transcendendo esses limites. Está começando a violar as leis da seleção natural, substituindo-as pelas leis do design inteligente.

    Durante quase 4 bilhões de anos, cada organismo do planeta evoluiu submetido à seleção natural. Nenhum deles foi projetado por um criador inteligente. A girafa, por exemplo, tem seu pescoço longo graças à competição entre girafas arcaicas, e não aos caprichos de um ser superinteligente. As protogirafas com pescoço mais comprido tinham acesso a mais alimento e, em consequência, geraram mais descendentes do que aquelas com pescoço mais curto. Ninguém, certamente não as girafas, disse: “Com um pescoço comprido, as girafas poderiam comer as folhas das copas das árvores. Vamos encompridá-lo”. A beleza da teoria de Darwin é que ela não precisa pressupor a existência de um criador inteligente para explicar como as girafas acabaram tendo pescoço comprido.

    Durante bilhões de anos, o design inteligente não foi sequer uma opção, porque não havia inteligência capaz de criar coisas. Os micro-organismos, que até pouco tempo atrás eram os únicos seres vivos no planeta, são capazes de feitos incríveis. Um micro-organismo pertencente a uma espécie pode incorporar códigos genéticos de uma espécie completamente diferente em suas células e, desse modo, adquirir novas capacidades, como resistência a antibióticos. Porém, até onde sabemos, os micro-organismos não têm consciência, nem objetivos na vida, nem capacidade de planejamento.

    Em algum momento, organismos como girafas, golfinhos, chimpanzés e

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    neandertais desenvolveram consciência e capacidade de planejamento. Mas, mesmo se um neandertal fantasiasse sobre galinhas tão gordas e lentas que ele poderia simplesmente agarrá-las sempre que estivesse com fome, ele não tinha como transformar essa fantasia em realidade. Tinha de caçar as aves que foram selecionadas naturalmente.

    A primeira fenda no velho regime apareceu há cerca de 10 mil anos, durante a Revolução Agrícola. Os sapiens que sonharam com galinhas gordas e lentas descobriram que, se acasalassem as galinhas mais gordas com os galos mais lentos, parte de seus descendentes seria gorda e lenta. Se acasalassem esses descendentes uns com os outros, poderiam produzir uma linhagem de aves gordas e lentas. Era uma raça de galinhas desconhecida na natureza, produzida pelo design inteligente não de um deus, mas de um humano.

    Ainda assim, em comparação com uma deidade todo-poderosa, o Homo sapiens tinha algumas limitações. Os sapiens podiam usar o cruzamento seletivo para desviar e acelerar processos de seleção natural que normalmente afetavam as galinhas, mas não podiam introduzir características completamente novas que estavam ausentes no código genético das galinhas selvagens. De certo modo, a relação entre o Homo sapiens e as galinhas era similar a muitas outras relações simbióticas que surgiram com tanta frequência por conta própria na natureza. Os sapiens exerceram pressões seletivas específicas sobre as galinhas que fizeram com que as galinhas gordas e lentas proliferassem, assim como as abelhas polinizadoras selecionam flores, fazendo com que as mais coloridas proliferem.

    Hoje, o regime de seleção natural de 4 bilhões de anos está enfrentando um desafio completamente diferente. Em laboratórios no mundo inteiro, cientistas estão criando seres vivos. Eles violam as leis da seleção natural impunemente, sem se deixar frear nem mesmo pelas características originais de um organismo. Eduardo Kac, um bioartista brasileiro, decidiu, em 2000, criar uma nova obra de arte: uma coelha verde fluorescente. Kac contatou um laboratório francês e ofereceu um pagamento para que eles fabricassem uma coelha radiante de acordo com suas especificações. Os cientistas franceses pegaram um embrião de coelha branca comum, implantaram em seu DNA um gene tirado de uma água-viva verde fluorescente e voilà! Uma coelha verde fluorescente para le monsieur. Kac batizou a coelha de Alba.

    É impossível explicar a existência de Alba pelas leis da seleção natural. Ela

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    é produto de design inteligente. É também uma precursora do que está por vir. Se o potencial que Alba significa for plenamente realizado – e se a humanidade não aniquilar a si mesma até lá –, a Revolução Científica pode se mostrar muito maior do que uma mera revolução histórica. Pode se revelar a mais importante revolução biológica desde o surgimento da vida na Terra. Depois de 4 bilhões de anos de seleção natural, Alba se encontra no amanhecer de uma nova era cósmica, em que a vida será governada por design inteligente. Se isso acontecer, toda a história humana até esse ponto pode, em retrospectiva, ser reinterpretada como um processo de experimentação e aprendizado que revolucionou o jogo da vida. Tal processo deve ser entendido de uma perspectiva cósmica de bilhões de anos, e não de uma perspectiva humana de milênios.

    Biólogos do mundo inteiro estão em embate com os defensores do design inteligente, que se opõem ao ensino da evolução darwinista em escolas e afirmam que a complexidade biológica prova que deve haver um criador que concebeu todos os detalhes biológicos de antemão. Os biólogos estão certos quanto ao passado, mas os defensores do design inteligente podem, ironicamente, estar certos quanto ao futuro.

    No momento em que escrevo este livro, a substituição da seleção natural pelo design inteligente poderia acontecer de três maneiras: por meio de engenharia biológica, engenharia cyborg (cyborgs são seres que combinam partes orgânicas e inorgânicas) ou engenharia de vida inorgânica.

    Ratos e homens

    Engenharia biológica é a intervenção humana deliberada no nível biológico (por exemplo, implantando um gene) com o objetivo de modificar a forma, as potencialidades, as necessidades ou os desejos de um organismo, a fim de realizar algumas ideias culturais preconcebidas, tais como as predileções artísticas de Eduardo Kac.

    Não há nada de novo sobre a engenharia biológica per se. As pessoas a vêm usando há milênios a fim de remodelar outros organismos e a si mesmas.

    Um exemplo simples é a castração. Os humanos castram touros possivelmente há 10 mil anos, a fim de criar bois. Os bois são menos agressivos e, portanto, mais fáceis de treinar para puxar arados. Os humanos também castravam seus

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    próprios jovens para criar cantores sopranos com vozes encantadoras e eunucos que podiam ser incumbidos de supervisionar o harém do sultão.

    Mas os avanços recentes em nossa compreensão de como os organismos funcionam, até os níveis celulares e nucleares, criaram possibilidades antes inimagináveis. Por exemplo, hoje podemos não só castrar um homem como também mudar seu sexo por meio de tratamentos hormonais e cirúrgicos. Mas isso não é tudo. Considere a surpresa, a repulsa e a consternação geral quando, em 1996, a fotografia a seguir apareceu nos jornais e na televisão:

    27. Um rato em cujo dorso os cientistas fizeram crescer uma “orelha” feita de células de cartilagem de gado. É um eco sombrio da estátua do homem-leão da caverna de Stadel. Há 30 mil anos, os humanos já fantasiavam sobre combinar espécies diferentes. Hoje, são capazes de produzir tais quimeras.

    Não, isso não foi feito no Photoshop. É uma fotografia intocada de um rato real em cujo dorso os cientistas implantaram células de cartilagem de gado. Os cientistas foram capazes de controlar o crescimento do novo tecido, moldando-o, nesse caso, na forma de algo que parece uma orelha humana. O processo talvez

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    logo permita que os cientistas fabriquem orelhas artificiais, que podem então ser implantadas em humanos.1 Maravilhas ainda mais incríveis podem ser realizadas pela engenharia genética, que justamente por isso levanta uma série de questões éticas, políticas e ideológicas. E não são só os monoteístas devotos que objetam que o homem não deveria usurpar o papel de Deus. Muitos ateístas convictos ficam não menos chocados com a ideia de que cientistas estejam tomando o lugar da natureza. Os ativistas dos direitos dos animais condenam o sofrimento causado aos animais de laboratório em experimentos de engenharia genética e aos animais de criação que são produzidos em absoluta desconsideração para com suas necessidades e desejos. Os ativistas dos direitos humanos temem que a engenharia genética possa ser usada para criar super-homens que subjugarão o resto de nós. Profetas Jeremias oferecem visões apocalípticas de bioditaduras que clonarão soldados destemidos e trabalhadores obedientes. A sensação predominante é a de que oportunidades demais estão surgindo depressa demais e de que nossa capacidade de modificar genes está superando nossa capacidade de fazer uso inteligente e sagaz desse conhecimento.

    O resultado é que no momento estamos usando apenas uma pequena parte do potencial da engenharia genética. A maioria dos organismos sendo manipulados hoje são aqueles com os lobbies políticos mais fracos – plantas, fungos, bactérias e insetos. Por exemplo, linhagens de E. coli, uma bactéria que vive simbioticamente no intestino humano (e que vira manchete quando sai do intestino e causa infecções fatais), foram manipuladas geneticamente para produzir biocombustível.2 A E. coli e várias espécies de fungos também foram manipuladas para produzir insulina, diminuindo, assim, o custo do tratamento para diabetes.3 Um gene extraído de um peixe do Ártico foi inserido em batatas, tornando as plantas mais resistentes a geadas.4 Alguns mamíferos também foram submetidos à manipulação genética.

    Todos os anos, a indústria leiteira perde bilhões de dólares devido à mastite, uma doença que atinge os úberes de vacas leiteiras. Os cientistas estão fazendo experiências com vacas geneticamente modificadas cujo leite contém lisostafina, uma substância bioquímica que ataca as bactérias responsáveis pela doença.5 A indústria suína, que registrou uma queda nas vendas porque os consumidores desconfiam das gorduras pouco saudáveis presentes no presunto e

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    O retorno dos neandertais

    no bacon, deposita esperanças em uma linhagem de porcos, ainda experimental, que recebeu implantes de material genético de um verme. Os novos genes fizeram com que os porcos transformassem ácidos graxos ômega 6, que fazem mal à saúde, em seus parentes saudáveis, os ômega 3.6 A próxima geração de engenharia genética com muita facilidade produzirá porcos com gordura saudável. Os geneticistas conseguiram não só prolongar em seis vezes a expectativa de vida média dos vermes como também produzir camundongos inteligentes que apresentam habilidades muito aprimoradas de memória e aprendizado.7 Ratos-do-mato são roedores pequenos e robustos que lembram camundongos, e a maioria das variedades de ratos-do-mato é promíscua. Mas há uma espécie em que ratos-do-mato machos e fêmeas formam relações monogâmicas duradouras. Os geneticistas afirmam ter isolado os genes responsáveis pela monogamia dos ratos-do-mato. Se a inclusão de um gene puder transformar um rato-do-mato Don Juan em um marido amoroso e leal, estaremos muito longe de conseguir modificar geneticamente não só as capacidades individuais dos roedores (e dos humanos) como também suas estruturas sociais?8 O retorno dos neandertais Mas os geneticistas não querem apenas transformar linhagens vivas. Eles almejam reviver criaturas extintas. E não só dinossauros, como em O parque dos dinossauros. Uma equipe de cientistas russos, japoneses e coreanos recentemente mapeou o genoma de antigos mamutes, encontrados congelados na Sibéria.

    Agora, eles planejam pegar um óvulo fertilizado de uma elefanta de nossos dias, substituir seu DNA pelo DNA reconstruído do mamute e implantar o óvulo no útero de uma elefanta. A expectativa é que, depois de aproximadamente 22 meses, nasça o primeiro mamute após 5 mil anos.9 Mas por que parar nos mamutes? O professor George Church, da Universidade Harvard, recentemente propôs que, com a conclusão do Projeto Genoma Neandertal, podemos agora implantar o DNA reconstruído de um neandertal no óvulo de uma sapiens, produzindo, assim, a primeira criança neandertal depois de 30 mil anos. Church afirmou que poderia fazer isso por meros 30 milhões de dólares. Várias mulheres já se voluntariaram para servir

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    como mães de aluguel.10 Para que precisamos de neandertais? Alguns afirmam que, se pudéssemos estudar neandertais vivos, conseguiríamos responder a algumas das perguntas mais insistentes sobre as origens e a singularidade do Homo sapiens. Ao comparar o cérebro de um neandertal com o de um Homo sapiens e mapear onde suas estruturas diferem, talvez possamos identificar que mudança biológica produziu a consciência tal como a experimentamos. Há também uma razão ética – alguns argumentam que, se o Homo sapiens foi responsável pela extinção dos neandertais, tem um dever moral de ressuscitá-los. E ter alguns neandertais por perto pode ser útil. Uma porção de industrialistas ficaria feliz em pagar um neandertal para fazer o trabalho braçal de dois sapiens.

    Mas por que parar nos neandertais? Por que não voltar à prancheta de desenho de Deus e projetar um sapiens melhor? As capacidades, necessidades e desejos do Homo sapiens têm uma base genética, e o genoma dos sapiens não é mais complexo que o de ratos-do-mato e camundongos. (O genoma de um camundongo contém cerca de 2,5 bilhões de bases nucleicas; o genoma dos sapiens, cerca de 2,9 bilhões de bases – o que significa que é apenas 14% maior.)11 No médio prazo – talvez daqui a algumas décadas –, a engenharia genética e outras formas de engenharia biológica talvez nos permitam fazer alterações de longo alcance não só em nossa fisiologia, nosso sistema imunológico e nossa expectativa de vida como também em nossas capacidades intelectuais e emocionais. Se a engenharia genética pode criar camundongos geniais, por que não humanos geniais? Se pode criar ratos-do-mato monogâmicos, por que não humanos programados para que serem fiéis aos seus parceiros?

    A Revolução Cognitiva que transformou o Homo sapiens de um primata insignificante no senhor do mundo não demandou qualquer mudança notável na psicologia ou mesmo no tamanho e na forma exterior do cérebro dos sapiens. Ao que parece, envolveu não mais do que algumas pequenas mudanças na estrutura cerebral interna. Talvez outra pequena mudança fosse suficiente para iniciar uma Segunda Revolução Cognitiva, criar um tipo completamente novo de consciência e transformar o Homo sapiens em algo totalmente diferente.

    É verdade, ainda não temos o discernimento necessário para alcançar isso, mas parece não haver uma barreira técnica nos impedindo de produzir super-

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    humanos. Os principais obstáculos são as objeções éticas e políticas que desaceleraram as pesquisas com humanos. E não importa o quão convincentes possam ser os argumentos éticos, é difícil compreender de que modo conseguirão deter o próximo passo por muito mais tempo, sobretudo se o que está em jogo é a possibilidade de prolongar a vida humana indefinidamente, dominar doenças incuráveis e aprimorar nossas capacidades cognitivas e emocionais.

    O que aconteceria, por exemplo, se desenvolvêssemos uma cura para o mal de Alzheimer que, como benefício adicional, pudesse melhorar acentuadamente a memória de pessoas saudáveis? Alguém seria capaz de interromper tão importante pesquisa? E, quando a cura surgisse, alguma autoridade seria capaz de limitar seu uso aos pacientes de Alzheimer e evitar que pessoas saudáveis a usassem para adquirir uma memória superdesenvolvida?

    Não está claro se a bioengenharia realmente seria capaz de ressuscitar os neandertais, mas isso, com toda a probabilidade, revelaria muito sobre o Homo sapiens. Experimentar com nossos genes não necessariamente nos matará. Mas talvez venhamos a brincar com o Homo sapiens ao ponto de já não sermos mais Homo sapiens.

    Vida biônica

    Há uma outra nova tecnologia que poderia mudar as leis da vida: a engenharia cyborg. Os cyborgs são seres que combinam partes orgânicas e inorgânicas, como um humano com mãos biônicas. De certo modo, praticamente todos nós somos biônicos hoje em dia, já que nossos sentidos e funções naturais são complementados por dispositivos como óculos, marca-passos, órteses e até mesmo computadores e telefones celulares (que aliviam nosso cérebro de parte do ônus do processamento e armazenamento de dados). Estamos muito próximos de nos tornamos verdadeiros cyborgs, de ter características inorgânicas que são inseparáveis de nosso corpo, características que modificam nossas capacidades, desejos, personalidades e identidades.

    A Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa (DARPA, na sigla em inglês), uma agência de pesquisa militar dos Estados Unidos, está desenvolvendo cyborgs de insetos. A ideia é implantar chips eletrônicos, detectores e processadores no corpo de uma mosca ou de uma barata, o que

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    permitirá que um humano ou um operador automático controle remotamente os movimentos do inseto e capture e transmita informações. Uma dessas moscas poderia pousar na parede no quartel-general do inimigo, escutar as conversas mais secretas e, se não for pega antes por uma aranha, nos informar exatamente o que o inimigo está planejando.12 Em 2006, o Centro de Guerra Submarina da Marinha (NUWC, na sigla em inglês) dos Estados Unidos informou sua intenção de desenvolver tubarões cyborgs, declarando: “A NUWC está desenvolvendo um dispositivo cujo objetivo é controlar o comportamento de uma série de animais via implantes neurais”. Os desenvolvedores esperam identificar campos eletromagnéticos subaquáticos criados por submarinos e minas, aproveitando as capacidades de detecção magnética dos tubarões, que são superiores às de qualquer detector fabricado pelo homem.13 Os sapiens também estão sendo transformados em cyborgs. A mais nova geração de aparelhos auditivos é às vezes chamada de “orelha biônica”. O dispositivo consiste de um implante que capta o som por meio de um microfone localizado na parte externa da orelha. O implante filtra o som, identifica vozes humanas e as traduz em sinais elétricos que são enviados diretamente ao nervo auditivo central e de lá para o cérebro.14 A Retina Implant, uma empresa alemã financiada pelo governo, está desenvolvendo uma prótese de retina que pode permitir que pessoas cegas adquiram uma visão parcial. Envolve a implantação de um microchip dentro do olho do paciente. As fotocélulas absorvem a luz que incide sobre o olho e a transformam em energia elétrica, que estimula as células nervosas intactas na retina. Os impulsos nervosos dessas células estimulam o cérebro, onde são traduzidos em visão. No momento, a tecnologia permite que os pacientes se orientem no espaço, identifiquem letras e inclusive reconheçam rostos.15 Jesse Sullivan, um eletricista norte-americano, perdeu os dois braços até o ombro em um acidente em 2001. Hoje ele usa dois braços biônicos, cortesia do Instituto de Reabilitação de Chicago. A característica especial dos novos braços de Jesse é que eles são operados unicamente pelo pensamento. Sinais neurais chegando do cérebro de Jesse são traduzidos por microcomputadores em comandos elétricos, e os braços se movem. Quando Jesse quer levantar o braço, ele faz o que qualquer pessoa normal inconscientemente faz – e o braço se ergue.

    Esses braços podem realizar uma gama muito mais limitada de movimentos do

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    que os braços orgânicos, mas permitem a Jesse realizar tarefas simples cotidianas. Um braço biônico similar foi desenvolvido recentemente para Claudia Mitchell, uma fuzileira norte-americana que perdeu o braço em um acidente de motocicleta. Os cientistas acreditam que logo teremos braços biônicos que não só se movimentarão quando desejado como também serão capazes de transmitir sinais de volta ao cérebro, permitindo, com isso, que os amputados recuperem até mesmo a sensação do tato!16 28. Jesse Sullivan e Claudia Mitchell dando as mãos. O incrível em seus braços biônicos é que eles são operados pelo pensamento.

    No presente, esses braços biônicos são uma substituição modesta de nossos originais orgânicos, mas eles têm potencial sem limites para se desenvolverem.

    Os braços biônicos, por exemplo, podem ser muito mais fortes do que seus equivalentes orgânicos, fazendo até mesmo um campeão de boxe se sentir fraco.

    Além disso, têm a vantagem de que podem ser substituídos a cada poucos anos, ou separados do corpo e operados à distância.

    Cientistas na Universidade Duke, na Carolina do Norte, demonstraram isso recentemente com macacos reso em cujo cérebro foram implantados eletrodos.

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    Os eletrodos recebem sinais do cérebro e os transmitem a dispositivos externos.

    Os macacos haviam sido treinados para controlar, unicamente por meio do pensamento, braços e pernas biônicos separados do corpo. Uma macaca, chamada Aurora, aprendeu a controlar por meio do pensamento um braço biônico separado de seu corpo enquanto, simultaneamente, movia seus dois braços orgânicos. Como uma deusa hindu, Aurora agora tem três braços, e seus braços podem estar situados em aposentos – ou mesmo cidades – diferentes. Ela pode se sentar em seu laboratório na Carolina do Norte, coçar as costas com uma mão, coçar a cabeça com a outra e, simultaneamente, roubar uma banana em Nova York (embora a capacidade de comer uma fruta roubada à distância continue sendo um sonho). Outra macaca reso, Idoya, ficou mundialmente famosa em 2008 quando controlou por meio do pensamento um par de pernas biônicas em Kyoto, no Japão, de sua cadeira na Carolina do Norte. As pernas tinham 20 vezes o peso de Idoya.17 A síndrome do encarceramento é uma condição em que a pessoa perde toda ou quase toda a capacidade de mover qualquer parte do corpo, embora suas capacidades cognitivas permaneçam intactas. Até o momento, os pacientes que sofrem dessa síndrome só são capazes de se comunicar com o mundo externo por meio de pequenos movimentos oculares. No entanto, alguns pacientes tiveram eletrodos receptores de sinais implantados em seu cérebro. Esforços vêm sendo realizados para traduzir tais sinais não só em movimentos como também em palavras. Se o experimento funcionar, os pacientes com síndrome do encarceramento enfim poderão se comunicar diretamente com o mundo externo, e talvez algum dia sejamos capazes de usar a tecnologia para ler a mente de outras pessoas.18 Mas, de todos os projetos sendo desenvolvidos atualmente, o mais revolucionário é a tentativa de conceber uma interface direta e de mão dupla entre o cérebro humano e o computador. Isso permitirá que computadores leiam os sinais elétricos de um cérebro humano, transmitindo simultaneamente sinais que o cérebro possa ler. E se tais interfaces forem usadas para associar diretamente um cérebro com a internet, ou associar diretamente vários cérebros uns com os outros, criando assim uma espécie de rede intercerebral? O que pode acontecer à memória humana, à consciência humana e à identidade humana se o cérebro tiver acesso direto a um banco de memória coletiva? Em tal situação,

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    um cyborg poderia, por exemplo, acessar as memórias de outro. Não ouvir falar delas, não as ler em uma autobiografia, não as imaginar – mas se lembrar delas diretamente, como se fossem suas. O que acontece com conceitos como ego e identidade de gênero quando as mentes se tornam coletivas? Como alguém poderia conhecer a si mesmo ou seguir seu sonho se o sonho não está em sua mente, e sim em algum reservatório de aspirações coletivas? Tal cyborg já não seria humano, ou mesmo orgânico. Seria algo completamente diferente. Seria tão fundamentalmente outro tipo de ser que não podemos sequer compreender as implicações políticas, psicológicas ou filosóficas.

    Outra vida

    A terceira forma de mudar as leis da vida é produzir seres completamente inorgânicos. Os exemplos mais óbvios são programas de computador e vírus de computador que podem sofrer evolução independente.

    O campo da programação genética é hoje um dos mais interessantes no mundo da ciência da computação. Tenta emular os métodos da evolução genética. Muitos programadores sonham em criar um programa capaz de aprender e evoluir de maneira totalmente independente de seu criador. Nesse caso, o programador seria um primum mobile, um primeiro motor, mas sua criação estaria livre para evoluir em direções que nem seu criador nem qualquer outro humano jamais poderiam ter imaginado.

    Um protótipo de tal programa já existe – chama-se vírus de computador.

    Conforme se espalha pela internet, o vírus se replica milhões e milhões de vezes, o tempo todo sendo perseguido por programas de antivírus predatórios e competindo com outros vírus por um lugar no ciberespaço. Um dia, quando o vírus se replica, um erro ocorre – uma mutação computadorizada. Talvez a mutação ocorra porque o engenheiro humano programou o vírus para, ocasionalmente, cometer erros aleatórios de replicação. Talvez a mutação se deva a um erro aleatório. Se, por acidente, o vírus modificado for melhor para escapar de programas de antivírus sem perder sua capacidade de invadir outros computadores, vai se espalhar pelo ciberespaço. Nesse caso, os mutantes irão sobreviver e se reproduzir. Com o passar do tempo, o ciberespaço estará cheio de novos vírus que ninguém produziu e que passam por uma evolução inorgânica.

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    A singularidade

    Essas são criaturas vivas? Depende do que entendemos por “criaturas vivas”. Mas elas certamente foram criadas a partir de um novo processo evolutivo, completamente independente das leis e limitações da evolução orgânica.

    Imagine outra possibilidade: suponha que você pudesse fazer um backup do seu cérebro para um HD portátil e então rodá-lo em seu notebook. Seu notebook seria capaz de pensar e sentir como um sapiens? Se sim, ele seria você ou outra pessoa? E se os programas de computador pudessem criar uma mente totalmente nova, mas digital, composta de códigos de computador, completa, com um senso de eu, consciência e memória? Se você rodasse o programa em seu computador, este seria uma pessoa? Se você o deletasse, poderia ser acusado de assassinato?

    Talvez logo tenhamos a resposta para essas perguntas. O Projeto Cérebro Humano, fundado em 2005, espera recriar um cérebro humano completo dentro de um computador, com circuitos eletrônicos no computador emulando redes neurais no cérebro. O diretor do projeto afirmou que, com o financiamento adequado, em uma ou duas décadas podemos ter um cérebro humano artificial dentro de um computador capaz de falar e se comportar de maneira muito similar a um humano. Se bem-sucedido, isso significaria que depois de 4 bilhões de anos circulando pelo pequeno mundo dos componentes orgânicos, a vida de repente irromperá na vastidão do reino inorgânico, pronta para assumir formas com que jamais ousamos sonhar. Nem todos os estudiosos concordam que a mente funciona de maneira análoga aos computadores digitais de hoje – e, se não funciona, os computadores atuais não seriam capazes de simulá-la. Porém, seria tolo descartar categoricamente a possibilidade sem tentar. Em 2013, o projeto recebeu uma concessão de 1 bilhão de euros da União Europeia.19 A singularidade Atualmente, apenas uma fração minúscula dessas novas oportunidades se concretizou. Mas o mundo de 2015 já é um mundo em que a cultura está se libertando das algemas da biologia. Nossa capacidade de manipular não só o mundo à nossa volta, mas acima de tudo o mundo dentro de nossos corpos e mentes está se desenvolvendo a toda velocidade. Cada vez mais esferas de atividade estão sendo abaladas. Os advogados precisam repensar questões de

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    privacidade e identidade; os governos precisam repensar questões de saúde e igualdade; as associações esportivas e as instituições educativas precisam redefinir fair play e conquistas; os fundos de pensão e os mercados de trabalho devem se reajustar a um mundo em que os sexagenários talvez sejam os novos balzaquianos. Todos eles devem lidar com os enigmas da bioengenharia, dos cyborgs e da vida inorgânica.

    Para mapear o primeiro genoma humano, foram necessários 15 anos e 3 bilhões de dólares. Hoje, podemos mapear o DNA de uma pessoa em poucas semanas e ao custo de algumas centenas de dólares.20 A era da medicina personalizada – que associa tratamentos com DNA – começou. O médico da família logo poderá dizer, com certeza muito maior, que você tem um alto risco de vir a ter câncer de fígado, mas que não precisa se preocupar muito com ataques do coração. Ele pode determinar que um medicamento popular que ajuda 92% das pessoas é inútil para você e que em vez disso você deve tomar outro comprimido, fatal para muitas pessoas, mas exato para você. O caminho para a medicina quase perfeita está diante de nós.

    No entanto, com avanços no conhecimento médico virão novos impasses éticos. Os especialistas em assuntos éticos e jurídicos já estão se debatendo com a questão espinhosa da privacidade no que concerne ao DNA. As empresas de seguro-saúde terão o direito de solicitar um mapeamento do nosso DNA e aumentar os preços se descobrirem uma tendência genética a comportamentos imprudentes? Seríamos solicitados a enviar nosso DNA, em vez de nosso CV, a empregadores em potencial? Um empregador poderia dar preferência a um candidato porque seu DNA parece melhor? Ou, em tais casos, poderíamos processá-los por “discriminação genética”? Uma empresa que desenvolve uma nova criatura ou um novo órgão poderia patentear sua sequência de DNA? É claro que uma pessoa pode ser dona de uma determinada galinha, mas poderá ser dona de uma espécie inteira?

    Tais dilemas são obscurecidos pelas implicações éticas, sociais e políticas do Projeto Gilgamesh e de nossas novas habilidades em potencial para criar super-humanos. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, programas médicos de governos do mundo inteiro, programas nacionais de seguro-saúde e constituições nacionais em todo o mundo reconhecem que uma sociedade humana deve dar a todos os seus membros tratamento médico adequado e

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    mantê-los em bom estado de saúde. Estava tudo bem com isso enquanto a medicina esteve preocupada principalmente em prevenir doenças e curar os doentes. O que pode acontecer quando a medicina passar a se preocupar em melhorar as habilidades humanas? Todos os humanos teriam direito a tais habilidades melhoradas ou haveria uma nova elite super-humana?

    Nosso mundo moderno se orgulha de reconhecer, pela primeira vez na história, a igualdade elementar entre todos os humanos, porém pode estar prestes a criar a sociedade mais desigual de todas. Ao longo da história, as classes superiores sempre afirmaram ser mais inteligentes, mais fortes e, em geral, melhores do que as classes inferiores. Normalmente, elas estavam se iludindo.

    Um bebê nascido em uma família camponesa pobre tendia a ser tão inteligente quanto o príncipe-herdeiro. Com a ajuda de novas capacidades médicas, as pretensões das classes superiores podem logo se tornar uma realidade objetiva.

    Isso não é ficção científica. A maioria das tramas de ficção científica descreve um mundo em que sapiens – idênticos a nós – desfrutam de tecnologia superior, como espaçonaves que viajam à velocidade da luz e armas a laser. Os dilemas centrais dessas tramas são tirados do nosso próprio mundo e meramente recriam nossas tensões emocionais e sociais em um cenário futurista. Mas o verdadeiro potencial das tecnologias futuras é transformar o próprio Homo sapiens, incluindo nossas emoções e desejos, e não apenas nossos veículos e armas. O que é uma espaçonave se comparada com um cyborg eternamente jovem que não procria e não tem sexualidade, que pode partilhar pensamentos diretamente com outros seres, cuja capacidade de memória e concentração é mil vezes maior que a nossa, e que nunca fica triste nem com raiva, mas tem emoções e desejos que nem sequer podemos imaginar?

    A ficção científica raramente descreve tal futuro, porque uma descrição precisa é, por definição, incompreensível. Produzir um filme sobre a vida de um super-cyborg é como produzir Hamlet para uma audiência de neandertais. Com efeito, os futuros senhores do mundo provavelmente serão mais diferentes de nós do que somos dos neandertais. Enquanto nós e os neandertais somos humanos, nossos herdeiros serão como deuses.

    Os físicos definem o Big Bang como uma singularidade. É um ponto em que todas as leis conhecidas da natureza não existiam. O tempo também não existia. Portanto, não faz sentido dizer que alguma coisa existiu “antes” do Big

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    Bang. Talvez estejamos nos aproximando de uma nova singularidade, em que todos os conceitos que dão significado ao nosso mundo – eu, você, homens, mulheres, amor e ódio – se tornarão irrelevantes. Qualquer coisa acontecendo além desse ponto não tem sentido para nós.

    A profecia de Frankenstein

    Em 1818, Mary Shelley publicou Frankenstein, a história de um cientista que tenta criar um ser superior e, em vez disso, cria um monstro. Nos últimos dois séculos, essa história foi contada repetidas vezes em inúmeras variações, tornando-se o tema central de nossa nova mitologia científica. À primeira vista, a história de Frankenstein parece nos advertir de que, se tentarmos brincar de Deus e criar vida, seremos punidos severamente. Mas a história tem um significado mais profundo.

    O mito do Frankenstein confronta o Homo sapiens com o fato de que os últimos dias estão se aproximando depressa. A não ser que alguma catástrofe nuclear ou ecológica intervenha, diz a história, o ritmo do desenvolvimento tecnológico logo levará à substituição do Homo sapiens por seres completamente diferentes que têm não só uma psique diferente como também mundos cognitivos e emocionais muito diferentes. Isso é algo que a maioria dos sapiens considera extremamente desconcertante. Gostamos de acreditar que, no futuro, pessoas exatamente como nós viajarão de planeta em planeta em espaçonaves velozes. Não gostamos de considerar a possibilidade de que, no futuro, seres com emoções e identidades como as nossas já não existam e que nosso lugar seja tomado por formas de vida estranhas cujas capacidades ofuscam as nossas.

    De algum modo, encontramos conforto na fantasia de que o dr.

    Frankenstein pode criar apenas monstros terríveis, a quem deveríamos destruir a fim de salvar o mundo. Gostamos de contar a história dessa maneira porque implica que somos os melhores de todos os seres, que nunca houve e nunca haverá algo melhor do que nós. Qualquer tentativa de nos melhorar inevitavelmente fracassará, porque, mesmo que nosso corpo possa ser aprimorado, não se pode tocar o espírito humano.

    Teríamos dificuldade de engolir o fato de que os cientistas poderiam criar não só corpos como também espíritos e de que os drs. Frankenstein do futuro

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    poderiam, portanto, criar algo verdadeiramente superior a nós, algo que olhará para nós de modo tão condescendente quanto olhamos para os neandertais.

    Não podemos saber ao certo se os Frankensteins de hoje realizarão essa profecia.

    O futuro é desconhecido, e seria surpreendente se todas as previsões das últimas páginas se concretizassem. A história nos ensina que o que parece estar depois da esquina pode jamais se materializar devido a barreiras imprevistas e que outros cenários não imaginados acontecerão de fato. Quando irrompeu a era nuclear nos anos 1940, fizeram-se muitas previsões sobre o futuro mundo nuclear do ano 2000. Quando o Sputnik e a Apollo 11 atiçaram a imaginação do mundo, todos começaram a prever que no fim do século as pessoas estariam vivendo em colônias espaciais em Marte e Plutão. Poucas delas se tornaram realidade. Por outro lado, ninguém previu a internet.

    Portanto, não saia por aí comprando seguros de responsabilidade civil para indenizá-lo contra processos iniciados por seres digitais. As fantasias – ou pesadelos – acima mencionados são apenas estímulos à sua imaginação. O que devemos levar a sério é a ideia de que a próxima etapa da história incluirá não só transformações tecnológicas e organizacionais como também transformações sociais na consciência e na identidade humana. E essas podem ser transformações tão fundamentais que colocarão em dúvida o próprio termo “humano”. Quanto tempo temos? Ninguém sabe ao certo. Como já dissemos, alguns dizem que em 2050 alguns humanos já serão amortais. Previsões menos radicais falam do próximo século, ou do próximo milênio. Mas, da perspectiva de 70 mil anos de história do sapiens, o que são alguns milênios?

    Se a história do sapiens está mesmo chegando ao fim, nós, membros de uma de suas últimas gerações, devemos dedicar algum tempo a responder a uma última pergunta: o que queremos nos tornar? Essa pergunta, às vezes conhecida como a pergunta do Aperfeiçoamento Humano, obscurece o debate que atualmente preocupa políticos, filósofos, acadêmicos e pessoas comuns. Afinal, o debate atual entre as religiões, ideologias, nações e classes de hoje muito provavelmente desaparecerá junto com o Homo sapiens. Se nossos sucessores funcionarem realmente em um nível diferente de consciência (ou, talvez, tiverem algo além da consciência que sequer somos capazes de conceber), parece improvável que o cristianismo ou o islamismo os interesse, que sua organização social seja comunista ou socialista ou que seus gêneros possam ser

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    masculino ou feminino.

    E, ainda assim, os grandes debates da história são importantes porque pelo menos a primeira geração desses deuses seria determinada pelas ideias culturais de seus criadores humanos. Eles seriam criados à imagem do capitalismo, do islamismo ou do feminismo? A resposta a essa pergunta poderia empurrá-los em direções completamente diferentes.

    A maioria das pessoas prefere não falar sobre isso. Mesmo o campo da bioética prefere abordar outra pergunta: “O que é proibido fazer?”. É aceitável fazer experimentos genéticos com seres humanos vivos? Com fetos abortados?

    Com células-tronco? É ético clonar ovelhas? E chimpanzés? E quanto a humanos?

    Todas essas são perguntas importantes, mas é ingênuo imaginar que podemos simplesmente frear os projetos científicos que estão transformando o Homo sapiens em um tipo diferente de ser, pois esses projetos estão inextricavelmente unidos à busca pela imortalidade – o Projeto Gilgamesh. Pergunte aos cientistas por que eles estudam o genoma, ou tentam conectar um cérebro a um computador, ou tentam criar uma mente dentro de um computador. Nove em cada dez lhe darão a mesma resposta: estamos fazendo isso para curar doenças e salvar vidas humanas. Embora as implicações de criar uma mente dentro de um computador sejam muito mais dramáticas do que curar doenças psiquiátricas, essa é a justificativa padrão fornecida, porque ninguém pode argumentar contra ela. É por isso que o Projeto Gilgamesh é o mais importante da ciência. Serve para justificar tudo que a ciência faz. O dr. Frankenstein pega carona nos ombros de Gilgamesh. Uma vez que é impossível deter Gilgamesh, também é impossível deter o dr. Frankenstein.

    A única coisa que podemos tentar fazer é influenciar a direção que eles estão tomando. Mas, considerando que possivelmente logo seremos capazes de manipular inclusive nossos desejos, a verdadeira pergunta a ser enfrentada não é “O que queremos nos tornar?”, e sim “O que queremos querer?”. Aqueles que não se sentem assombrados por essa pergunta provavelmente não refletiram o suficiente a respeito.

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    Epílogo: O animal que se tornou um deus

    EPÍLOGO O animal que se tornou um deus HÁ 70 MIL ANOS, O Homo sapiens AINDA ERA UM ANIMAL INSIGNIFICANTE cuidando da sua própria vida em algum canto da África. Nos milênios seguintes, ele se transformou no senhor de todo o planeta e no terror do ecossistema. Hoje, está prestes a se tornar um deus, pronto para adquirir não só a juventude eterna como também as capacidades divinas de criação e destruição.

    Infelizmente, até agora o regime dos sapiens sobre a Terra produziu poucas coisas das quais podemos nos orgulhar. Nós dominamos o meio à nossa volta, aumentamos a produção de alimentos, construímos cidades, fundamos impérios e criamos grandes redes de comércio. Mas diminuímos a quantidade de sofrimento no mundo? Repetidas vezes, os aumentos gigantescos na capacidade humana não necessariamente melhoraram o bem-estar dos sapiens como indivíduos e geralmente causaram enorme sofrimento a outros animais.

    Nas últimas décadas, pelo menos fizemos algum progresso real no que concerne à condição humana, com a redução da fome, das pragas e das guerras.

    Mas a situação de outros animais está se deteriorando mais rapidamente do que nunca, e a melhoria no destino da humanidade ainda é muito frágil e recente para que possamos ter certeza dela.

    Além disso, apesar das coisas impressionantes de que os humanos são capazes de fazer, nós continuamos sem saber ao certo quais são nossos objetivos e, ao que parece, estamos insatisfeitos como sempre. Avançamos de canoas e galés a navios a vapor e naves espaciais – mas ninguém sabe para onde estamos indo. Somos mais poderosos do que nunca, mas temos pouca ideia do que fazer com todo esse poder. O que é ainda pior, os humanos parecem mais irresponsáveis do que nunca. Deuses por mérito próprio, contando apenas com as leis da física para nos fazer companhia, não prestamos contas a ninguém. Em consequência, estamos destruindo os outros animais e o ecossistema à nossa volta, visando a não muito mais do que nosso próprio conforto e divertimento, mas jamais encontrando satisfação.

    Existe algo mais perigoso do que deuses insatisfeitos e irresponsáveis que não sabem o que querem?

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    Notas

    1. Um animal insignificante

    1 Ann Gibbons, “Food for Thought: Did the First Cooked Meals Help Fuel the Dramatic Evolutionary Expansion of the Human Brain?”, Science 316:5831 (2007), 1558-1560.

    2. A árvore do conhecimento

    1 Robin Dunbar, Grooming, Gossip, and the Evolution of Language (Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1998).

    2 Frans de Waal, Chimpanzee Politics: Power and Sex among Apes (Baltimore:

    Johns Hopkins University Press, 2000); Frans de Waal, Our Inner Ape: A Leading Primatologist Explains Why We Are Who We Are (Nova York: Riverhead Books, 2005); Michael L. Wilson e Richard W. Wrangham, “Intergroup Relations in Chimpanzees”, Annual Review of Anthropology 32 (2003), 363-392; M.

    McFarland Symington, “Fission-Fusion Social Organization in Ateles and Pan”, International Journal of Primatology, 11:1 (1990), 49; Colin A. Chapman e Lauren J. Chapman, “Determinants of Groups Size in Primates: The Importance of Travel Costs”, in On the Move: How and Why Animals Travel in Groups, org. Sue Boinsky e Paul A. Garber (Chicago: University of Chicago Press, 2000), 26.

    3 Dunbar, Grooming, Gossip, and the Evolution of Language, 69-79; Leslie C.

    Aiello e R. I. M. Dunbar, “Neocortex Size, Group Size, and the Evolution of Language”, Current Anthropology 34:2 (1993), 189. Para críticas a essa abordagem, ver: Christopher McCarthy et al., “Comparing Two Methods for Estimating Network Size”, Human Organization 60:1 (2001), 32; R. A. Hill e R. I.

    M. Dunbar, “Social Network Size in Humans”, Human Nature 14:1 (2003), 65.

    4 Yvette Taborin, “Shells of the French Aurignacian and Perigordian”, in Before Lascaux: The Complete Record of the Early Upper Paleolithic, org. Heidi Knecht, Anne Pike-Tay e Randall White (Boca Raton: CRC Press, 1993), 211-228.

    5 G.R. Summerhayes, “Application of PIXE-PIGME to Archaeological Analysis of Changing Patterns of Obsidian Use in West New Britain, Papua New Guinea”, in Archaeological Obsidian Studies: Method and Theory, org. Steven M. Shackley (Nova York: Plenum Press, 1998), 129-158.

    Página 428

    3. Um dia na vida de Adão e Eva

    1 Christopher Ryan e Cacilda Jethá, Sex at Dawn: The Prehistoric Origins of Modern Sexuality (Nova York: Harper, 2010); S. Beckerman e P. Valentine (orgs.), Cultures of Multiple Fathers. The Theory and Practice of Partible Paternity in Lowland South America (Gainesville: University Press of Florida, 2002).

    2 Noel G. Butlin, Economics and the Dreamtime: A Hypothetical History (Cambridge: Cambridge University Press, 1993), 98-101; Richard Broome, Aboriginal Australians (Sydney: Allen & Unwin, 2002), 15; William Howell Edwards, An Introduction to Aboriginal Societies (Wentworth Falls, N.S.W.: Social Science Press, 1988), 52.

    3 Fekri A. Hassan, Demographic Archaeology (Nova York: Academic Press, 1981), 196-199; Lewis Robert Binford, Constructing Frames of Reference: An Analytical Method for Archaeological Theory Building Using Hunter Gatherer and Environmental Data Sets (Berkeley: University of California Press, 2001), 143.

    4 Brian Hare, The Genius of Dogs: How Dogs Are Smarter Than You Think (Dutton: Penguin Group, 2013).

    5 Christopher B. Ruff, Erik Trinkaus e Trenton W. Holliday, “Body Mass and Encephalization in Pleistocene Homo”, Nature 387 (1997), 173-176; M.

    Henneberg e M. Steyn, “Trends in Cranial Capacity and Cranial Index in Subsaharan Africa During the Holocene”, American Journal of Human Biology 5:4 (1993): 473-479; Drew H. Bailey e David C. Geary, “Hominid Brain Evolution: Testing Climatic, Ecological, and Social Competition Models”, Human Nature 20 (2009): 67-79; Daniel J. Wescott e Richard L. Jantz, “Assessing Craniofacial Secular Change in American Blacks and Whites Using Geometric Morphometry”, in Modern Morphometrics in Physical Anthropology:

    Developments in Primatology: Progress and Prospects, org. Dennis E. Slice (Nova York: Plenum Publishers, 2005), 231-245.

    6 Nicholas G. Blurton Jones et al., “Antiquity of Postreproductive Life: Are There Modern Impact on Hunter-Gatherer Postreproductive Life Spans?”, American Journal of Human Biology 14 (2002), 184-205.

    7 Kim Hill e A. Magdalena Hurtado, Aché Life History: The Ecology and Demography of a Foraging People (Nova York: Aldine de Gruyter, 1996), 164, 236.

    8 Hill e Hurtado, Aché Life History, 78.

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    9 Vincenzo Formicola e Alexandra P. Buzhilova, “Double Child Burial from Sunghir (Russia): Pathology and Inferences for Upper Paleolithic Funerary Practices”, American Journal of Physical Anthropology 124:3 (2004), 189-198; Giacomo Giacobini, “Richness and Diversity of Burial Rituals in the Upper Paleolithic”, Diogenes 54:2 (2007), 19-39.

    10 I. J. N. Thorpe, “Anthropology, Archaeology, and the Origin of Warfare”, World Archaeology 35:1 (2003), 145-165; Raymond C. Kelly, Warless Societies and the Origin of War (Ann Arbor: University of Michigan Press, 2000); Azar Gat, War in Human Civilization (Oxford: Oxford University Press, 2006); Lawrence H. Keeley, War before Civilization: The Myth of the Peaceful Savage (Oxford: Oxford University Press, 1996); Slavomil Vencl, “Stone Age Warfare”, in Ancient Warfare: Archaeological Perspectives, org. John Carman e Anthony Harding (Stroud: Sutton Publishing, 1999), 57-73.

    4. A inundação

    1 James F. O’Connel e Jim Allen, “Pre-LGM Sahul (Pleistocene Australia – New Guinea) and the Archeology of Early Modern Humans”, in Rethinking the Human Revolution: New Behavioural and Biological Perspectives on the Origin and Dispersal of Modern Humans, org. Paul Mellars, Ofer Bar-Yosef, Katie Boyle (Cambridge: McDonald Institute for Archaeological Research, 2007), 395- 410; James F. O’Connel e Jim Allen, “When Did Humans First Arrived in Grater Australia and Why Is It Important to Know?”, Evolutionary Anthropology, 6:4 (1998), 132-146; James F. O’Connel e Jim Allen, “Dating the Colonization of Sahul (Pleistocene Australia – New Guinea): A Review of Recent Research”, Journal of Radiological Science 31:6 (2004), 835-853; Jon M. Erlandson, “Anatomically Modern Humans, Maritime Voyaging, and the Pleistocene Colonization of the Americas”, in The first Americans: the Pleistocene Colonization of the New World, org. Nina G. Jablonski (São Francisco: University of California Press, 2002), 59-60, 63-64; Jon M. Erlandson e Torben C. Rick, “Archeology Meets Marine Ecology: The Antiquity of Maritime Cultures and Human Impacts on Marine Fisheries and Ecosystems”, Annual Review of Marine Science 2 (2010), 231-251; Atholl Anderson, “Slow Boats from China: Issues in the Prehistory of Indo-China Seafaring”, Modern Quaternary Research in Southeast Asia, 16 (2000), 13-50; Robert G. Bednarik, “Maritime Navigation in the Lower and Middle Paleolithic”, Earth and Planetary Sciences 328 (1999), 559-

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    560; Robert G. Bednarik, “Seafaring in the Pleistocene”, Cambridge Archaeological Journal 13:1 (2003), 41-66.

    2 Timothy F. Flannery, The Future Eaters: An Ecological History of the Australasian Lands and Peoples (Port Melbourne, Vic.: Reed Books Australia, 1994); Anthony D. Barnosky et al., “Assessing the Causes of Late Pleistocene Extinctions on the Continents”, Science 306:5693 (2004): 70-75; Bary W. Brook e David M. J. S. Bowman, “The Uncertain Blitzkrieg of Pleistocene Megafauna”, Journal of Biogeography 31:4 (2004), 517-523; Gifford H. Miller et al., “Ecosystem Collapse in Pleistocene Australia and a Human Role in Megafaunal Extinction”, Science 309:5732 (2005), 287-290; Richard G. Roberts et al., “New Ages for the Last Australian Megafauna: Continent Wide Extinction about 46,000 Years Ago”, Science 292:5523 (2001), 1888-1892.

    3 Stephen Wroe e Judith Field, “A Review of Evidence for a Human Role in the Extinction of Australian Megafauna and an Alternative Explanation”, Quaternary Science Reviews 25:21-22 (2006), 2692-2703; Barry W. Brooks et al., “Would the Australian Megafauna Have Become Extinct If Humans Had Never Colonised the Continent? Comments on ‘A Review of the Evidence for a Human Role in the Extinction of Australian Megafauna and an Alternative Explanation’ by S. Wroe and J. Field”, Quaternary Science Reviews 26:3-4 (2007), 560-564; Chris S. M.

    Turney et al., “Late-Surviving Megafauna in Tasmania, Australia, Implicate Human Involvement in their Extinction”, Proceedings of the National Academy of Sciences 105:34 (2008), 12150-12153.

    4 John Alroy, “A Multispecies Overkill Simulation of the End-Pleistocene Megafaunal Mass Extinction”, Science, 292:5523 (2001), 1893-1896; O’Connel e Allen, “Pre-LGM Sahul”, 400-401.

    5 L.H. Keeley, “Proto-Agricultural Practices Among Hunter-Gatherers: A Cross-Cultural Survey”, in Last Hunters, First Farmers: New Perspectives on the Prehistoric Transition to Agriculture, org. T. Douglas Price e Anne Birgitte Gebauer (Santa Fe, N.M.: School of American Research Press, 1995), 243-272; R. Jones, “Firestick Farming”, Australian Natural History 16 (1969), 224-228.

    6 David J. Meltzer, First Peoples in a New World: Colonizing Ice Age America (Berkeley: University of California Press, 2009).

    7 Paul L. Koch e Anthony D. Barnosky, “Late Quaternary Extinctions: State of the Debate”, The Annual Review of Ecology, Evolution, and Systematics 37 (2006), 215-250; Anthony D. Barnosky et al., “Assessing the Causes of Late

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    Pleistocene Extinctions on the Continents”, 70-75.

    5. A maior fraude da história

    1 O mapa se baseia principalmente em: Peter Bellwood, First Farmers: The Origins of Agricultural Societies (Malden: Blackwell Pub., 2005).

    2 Jared Diamond, Armas, germes e aço: os destinos das sociedades humanas (Rio de Janeiro: Record, 2001).

    3 Azar Gat, War in Human Civilization (Oxford: Oxford University Press, 2006), 130-131; Robert S. Walker e Drew H. Bailey, “Body Counts in Lowland South American Violence”, Evolution and Human Behavior 34 (2013), 29-34.

    4 Katherine A. Spielmann, “A Review: Dietary Restriction on Hunter-Gatherer Women and the Implications for Fertility and Infant Mortality”, Human Ecology 17:3 (1989), 321-345. Ver também: Bruce Winterhalder e Eric Alder Smith, “Analyzing Adaptive Strategies: Human Behavioral Ecology at Twenty Five”, Evolutionary Anthropology 9:2 (2000), 51-72.

    5 Alain Bideau, Bertrand Desjardins e Hector Perez-Brignoli (orgs.), Infant and Child Mortality in the Past (Oxford: Clarendon Press, 1997); Edward Anthony Wrigley et al., English Population History from Family Reconstitution, 1580-1837 (Cambridge: Cambridge University Press, 1997), 295-296, 303.

    6 Manfred Heun et al., “Site of Einkorn Wheat Domestication Identified by DNA Fingerprints”, Science 278:5341 (1997), 1312-1314.

    7 Charles Patterson, Eternal Treblinka: Our Treatment of Animals and the Holocaust (Nova York: Lantern Books, 2002), 9-10; Peter J. Ucko e G.W.

    Dimbleby (orgs.), The Domestication and Exploitation of Plants and Animals (Londres: Duckworth, 1969), 259.

    8 Avi Pinkas (org.), Farmyard Animals in Israel – Research, Humanism and Activity (Rishon Le-Ziyyon: The Association for Farmyard Animals, 2009 [hebraico]), 169-199; “Milk Production – the Cow” [hebraico], The Dairy Council, acesso em: 22 mar. 2012, http://www.milk.org.il/cgi-webaxy/sal/sal.pl?

    lang=he&ID=645657_milk&act=show&dbid=katavot&dataid=cow.htm 9 Edward Evan Evans-Pritchard, The Nuer: A Description of the Modes of Livelihood and Political Institutions of a Nilotic People (Oxford: Oxford University Press, 1969); E.C. Amoroso e P.A. Jewell, “The Exploitation of the Milk-Ejection

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    Reflex by Primitive People”, in Man and Cattle: Proceedings of the Symposium on Domestication at the Royal Anthropological Institute, 24-26 May 1960, org.

    A.E. Mourant e F.E. Zeuner (Londres: The Royal Anthropological Institute, 1963), 129-134.

    10 Johannes Nicolaisen, Ecology and Culture of the Pastoral Tuareg (Copenhagen:

    National Museum, 1963), 63.

    6. Construindo pirâmides

    1 Angus Maddison, The World Economy, vol. 2 (Paris: Centro de Desenvolvimento da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, 2006), 636; “Historical Estimates of World Population”, U.S. Census Bureau, acesso em: 10 dez. 2010, http://www.census.gov/ipc/www/worldhis.html.

    2 Robert B. Mark, The Origins of the Modern World: A Global and Ecological Narrative (Lanham, MD: Rowman & Littlefield Publishers, 2002), 24.

    3 Raymond Westbrook, “Old Babylonian Period”, in A History of Ancient Near Eastern Law, vol. 1, org. Raymond Westbrook (Leiden: Brill, 2003), 361-430; Martha T. Roth, Law Collections from Mesopotamia and Asia Minor, 2. ed.

    (Atlanta: Scholars Press, 1997), 71-142; M. E. J. Richardson, Hammurabi’s Laws:

    Text, Translation and Glossary (Londres: T & T Clark International, 2000).

    4 Roth, Law Collections from Mesopotamia, 76.

    5 Roth, Law Collections from Mesopotamia, 121.

    6 Roth, Law Collections from Mesopotamia, 122-123.

    7 Roth, Law Collections, 133-134.

    8 Constance Brittaine Bouchard, Strong of Body, Brave and Noble: Chivalry and Society in Medieval France (Nova York: Cornell University Press, 1998), 99; Mary Martin McLaughlin, “Survivors and Surrogates: Children and Parents from the Ninth to Thirteenth Centuries”, in Medieval Families: Perspectives on Marriage, Household and Children, org. Carol Neel (Toronto: University of Toronto Press, 2004), 81; Lise E. Hull, Britain’s Medieval Castles (Westport:

    Praeger, 2006), 144.

    7. Sobrecarga de memória

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    1 Andrew Robinson, The Story of Writing (Nova York: Thames and Hudson, 1995), 63; Hans J. Nissen, Peter Damerow e Robert K. Englung, Archaic Bookkeeping: Writing and Techniques of Economic Administration in the Ancient Near East (Chicago, Londres: The University of Chicago Press, 1993), 36.

    2 Marcia e Robert Ascher, Mathematics of the Incas – Code of the Quipu (Nova York: Dover Publications, 1981).

    3 Gary Urton. Signs of the Inka Khipu (Austin: University of Texas Press, 2003); Galen Brokaw. A History of the Khipu (Cambridge: Cambridge University Press, 2010).

    4 Stephen D. Houston (org.), The First Writing: Script Invention as History and Process (Cambridge: Cambridge University Press, 2004), 222.

    8. Não existe justiça na história

    1 Sheldon Pollock, “Axialism and Empire”, in Axial Civilizations and World History, org. Johann P. Arnason, S. N. Eisenstadt e Björn Wittrock (Leiden: Brill, 2005), 397-451.

    2 Harold M. Tanner, China: A History (Indianapolis: Hackett, Pub. Co., 2009), 34.

    3 Ramesh Chandra, Identity and Genesis of Caste System in India (Délhi: Kalpaz Publications, 2005); Michael Bamshad et al., “Genetic Evidence on the Origins of Indian Caste Population”, Genome Research 11 (2001): 904-1004; Susan Bayly, Caste, Society and Politics in India from the Eighteenth Century to the Modern Age (Cambridge: Cambridge University Press, 1999).

    4 Houston, First Writing, 196.

    5 Secretário-geral da ONU, Report of the Secretary-General on the In-depth Study on All Forms of Violence Against Women, apresentado à Assembleia Geral da ONU, Doc. A/16/122/Add.1 (6 jul. 2006), 89.

    6 Sue Blundell, Women in Ancient Greece (Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1995), 113-129, 132-133.

    10. O cheiro do dinheiro

    1 Francisco López de Gómara, Historia de la Conquista de Mexico, vol. 1, org. D.

    Página 434

    Joaquin Ramirez Cabañes (Cidade do México: Editorial Pedro Robredo, 1943), 106.

    2 Andrew M. Watson, “Back to Gold – and Silver”, Economic History Review 20:1 (1967), 11-12; Jasim Alubudi, Repertorio Bibliográfico del Islam (Madri: Vision Libros, 2003), 194.

    3 Watson, “Back to Gold – and Silver”, 17-18.

    4 David Graeber, Debt: The First 5,000 Years (Brooklyn, N.Y.: Melville House, 2011).

    5 Glyn Davies, A History of Money: from Ancient Times to the Present Day (Cardiff: University of Wales Press, 1994), 15.

    6 Szymon Laks, Music of Another World, trad. Chester A. Kisiel (Evanston, Ill.:

    Northwestern University Press, 1989), 88-89. O “mercado” de Auschwitz era restrito a certas classes de prisioneiros, e as condições mudaram drasticamente com o passar do tempo.

    7 Ver também Niall Ferguson, The Ascent of Money (Nova York: The Penguin Press, 2008), 4.

    8 Para informações sobre o dinheiro de cevada, eu me baseei em uma tese de pós-doutorado não publicada: Refael Benvenisti, Economic Institutions of Ancient Assyrian Trade in the Twentieth to Eighteenth Centuries BC (Universidade Hebraica de Jerusalém, tese de pós-doutorado não publicada, 2011). Ver também Norman Yoffee, “The Economy of Ancient Western Asia”, in Civilizations of the Ancient Near East, vol. 1, org. J. M. Sasson (Nova York: C. Scribner’s Sons, 1995), 1387-1399; R. K. Englund, “Proto-Cuneiform Account-Books and Journals”, in Creating Economic Order: Record-keeping, Standardization, and the Development of Accounting in the Ancient Near East, org. Michael Hudson e Cornelia Wunsch (Bethesda, MD: CDL Press, 2004), 21-46; Marvin A. Powell, “A Contribution to the History of Money in Mesopotamia prior to the Invention of Coinage”, in Festschrift Lubor Matouš, org. B. Hruška e G. Komoróczy (Budapeste: Eötvös Loránd Tudományegyetem, 1978), 211-243; Marvin A.

    Powell, “Money in Mesopotamia”, Journal of the Economic and Social History of the Orient, 39:3 (1996), 224-242; John F. Robertson, “The Social and Economic Organization of Ancient Mesopotamian Temples”, in Civilizations of the Ancient Near East, vol. 1, org. Sasson, 443-500; M. Silver, “Modern Ancients”, in Commerce and Monetary Systems in the Ancient World: Means of Transmission and Cultural Interaction, org. R. Rollinger e U. Christoph (Stuttgart: Steiner, 2004),

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    65-87; Daniel C. Snell, “Methods of Exchange and Coinage in Ancient Western Asia”, in Civilizations of the Ancient Near East, vol. 1, org. Sasson, 1487-1497.

    11. Visões imperiais

    1 Nahum Megged, The Aztecs (Tel Aviv: Dvir, 1999 [hebraico]), 103.

    2 Tacitus, Agricola, capítulo 30 (Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1958), p. 220-221.

    13 A. Fienup-Riordan, The Nelson Island Eskimo: Social Structure and Ritual Distribution (Anchorage: Alaska Pacific University Press, 1983), p. 10.

    14 Yuri Pines, “Nation States, Globalization and a United Empire – the Chinese Experience (third to fifth centuries BC)”, Historia 15 (1995), 54 [hebraico].

    15 Alexander Yakobson, “Us and Them: Empire, Memory and Identity in Claudius’ Speech on Bringing Gauls into the Roman Senate”, in On Memory: An Interdisciplinary Approach, org. Doron Mendels (Oxford: Peter Land, 2007), 23- 24.

    12. A lei da religião

    1 W.H.C. Frend, Martyrdom and Persecution in the Early Church (Cambridge:

    James Clarke & Co., 2008), 536-537.

    2 Robert Jean Knecht, The Rise and Fall of Renaissance France, 1483-1610 (Londres: Fontana Press, 1996), 424.

    3 Marie Harm e Hermann Wiehle, Lebenskunde fuer Mittelschulen – Fuenfter Teil. Klasse 5 fuer Jungen (Halle: Hermann Schroedel Verlag, 1942), 152-157.

    13. O segredo do sucesso

    1 Susan Blackmore, The Meme Machine (Oxford: Oxford University Press, 1999).

    14. A descoberta da ignorância

    Página 436

    1 David Christian, Maps of Time: An Introduction to Big History (Berkeley:

    University of California Press, 2004), 344-345; Angus Maddison, The World Economy, vol. 2 (Paris: Centro de Desenvolvimento da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, 2001), 636; “Historical Estimates of World Population”, U.S. Census Bureau, acesso em: 10 dez. 2010, http://www.census.gov/ipc/www/worldhis.html.

    2 Maddison, The World Economy, vol. 1, 261.

    3 “Gross Domestic Product 2009”, Banco Mundial, Dados e Estatísticas, acesso em: 10 dez. 2010, http://siteresources.worldbank.org/DATASTATISTICS/Resources/GDP.pdf.

    4 Christian, Maps of Time, 141.

    5 O maior navio de carga contemporâneo carrega cerca de 100 mil toneladas.

    Em 1470, as frotas do mundo inteiro reunidas podiam carregar não mais de 320 mil toneladas. Em 1570, a tonelagem global era de até 730 mil toneladas (Maddison, The World Economy, vol. 1, 97).

    6 O maior banco do mundo – The Royal Bank of Scotland – declarou, em 2007, depósitos no valor de 1,3 trilhão de dólares. Isso é cinco vezes a produção global anual em 1500. Ver “Annual Report and Accounts 2008”, The Royal Bank of Scotland, 35, acesso em: 10 dez. 2010, http://files.shareholder.com/downloads/RBS/626570033x0x278481/eb7a003a- 5c9b-41ef-bad3-81fb98a6c823/RBS_GRA_2008_09_03_09.pdf.

    7 Ferguson, Ascent of Money, 185-198.

    8 Maddison, The World Economy, vol. 1, 31; Wrigley, English Population History, 295; Christian, Maps of Time, 450, 452; “World Health Statistic Report 2009”, 35- 45, Organização Mundial da Saúde, acesso em: 10 dez. 2010, http://www.who.int/whosis/whostat/EN_WHS09_Full.pdf.

    9 Wrigley, English Population History, 296.

    10 “England, Interim Life Tables, 1980-82 to 2007-09”, Office for National Statistics, acesso em: 22 mar. 2012, http://www.ons.gov.uk/ons/publications/rereference-tables.html?edition=tcm%3A77-61850.

    11 Michael Prestwich, Edward I (Berkley: University of California Press, 1988), 125-126.

    12 Jennie B. Dorman et al., “The age-1 and daf-2 Genes Function in a Common

    Página 437

    Pathway to Control the Lifespan of Caenorhabditis elegans”, Genetics 141:4 (1995), 1399-1406; Koen Houthoofd et al., “Life Extension via Dietary Restriction is Independent of the Ins/IGF-1 Signaling Pathway in Caenorhabditis elegans”, Experimental Gerontology 38:9 (2003), 947-954.

    13 Shawn M. Douglas, Ido Bachelet e George M. Church, “A Logic-Gated Nanorobot for Targeted Transport of Molecular Payloads”, Science 335: 6070 (2012): 831-4; Dan Peer et al., “Nanocarries as an Emerging Platform for Cancer Therapy”, Nature Nanotechnology 2 (2007): 751-60; Dan Peer et al., “Systemic Leukocyte-Directed siRNA Delivery Revealing Cyclin DI as an Anti-Inflammatory Target”, Science 319: 5863 (2008): 627-30.

    15. O casamento entre ciência e império

    1 Stephen R. Bown, Scurvy: How a Surgeon, a Mariner, and a Gentleman Solved the Greatest Medical Mystery of the Age of Sail (Nova York: Thomas Dunne Books, St. Matin’s Press, 2004); Kenneth John Carpenter, The History of Scurvy and Vitamin C (Cambridge: Cambridge University Press, 1986).

    2 James Cook, The Explorations of Captain James Cook in the Pacific, as Told by Selections of his Own Journals 1768-1779, org. Archibald Grenfell Price (Nova York: Dover Publications, 1971), 16-17; Gananath Obeyesekere, The Apotheosis of Captain Cook: European Mythmaking in the Pacific (Princeton: Princeton University Press, 1992), 5; J.C. Beaglehole (org.), The Journals of Captain James Cook on His Voyages of Discovery, vol. 1 (Cambridge: Cambridge University Press, 1968), 588.

    3 Mark, Origins of the Modern World, 81.

    4 Christian, Maps of Time, 436.

    5 John Darwin, After Tamerlane: The Global History of Empire since 1405 (Londres: Allen Lane, 2007), 239.

    6 Soli Shahvar, “Railroads i. The First Railroad Built and Operated in Persia”, in Online Edition of Encyclopaedia Iranica, última atualização em 7 abr. 2008, http://www.iranicaonline.org/articles/railroads-i; Charles Issawi, “The Iranian Economy 1925-1975: Fifty Years of Economic Development”, in Iran under the Pahlavis, org. George Lenczowski (Stanford: Hoover Institution Press, 1978), 156.

    7 Mark, The Origins of the Modern World, 46.

    Página 438

    8 Kirkpatrik Sale, Christopher Columbus and the Conquest of Paradise (Londres:

    Tauris Parke Paperbacks, 2006), 7-13.

    9 Edward M. Spiers, The Army and Society: 1815-1914 (Londres: Longman, 1980), 121; Robin Moore, “Imperial India, 1858-1914”, in The Oxford History of the British Empire: The Nineteenth Century, vol. 3, org. Andrew Porter (Nova York: Oxford University Press, 1999), 442.

    10 Vinita Damodaran, “Famine in Bengal: A Comparison of the 1770 Famine in Bengal and the 1897 Famine in Chotanagpur”, The Medieval History Journal 10:1-2 (2007), 151.

    16. O credo capitalista

    1 Maddison, World Economy, vol. 1, 261, 264; “Gross National Income Per Capita 2009, Atlas Method and PPP”, Banco Mundial, acesso em: 10 dez. 2010, http://siteresources.worldbank.org/DATASTATISTICS/Resources/GNIPC.pdf.

    2 A matemática do meu exemplo da padaria não é tão precisa quanto poderia ser.

    Uma vez que os bancos são autorizados a emprestar 10 dólares para cada dólar que mantêm em sua posse, de cada milhão de dólares depositados no banco, este pode emprestar a empreendedores apenas 909 mil dólares, mantendo 91 mil dólares em seus cofres. Mas, para facilitar a vida para os leitores, preferi trabalhar com números redondos. Além disso, os bancos nem sempre seguem as regras.

    3 Carl Trocki, Opium, Empire and the Global Political Economy (Nova York:

    Routledge, 1999), 91.

    4 Georges Nzongola-Ntalaja, The Congo from Leopold to Kabila: A People’s History (Londres: Zed Books, 2002), 22.

    17. As engrenagens da indústria

    1 Mark, Origins of the Modern World, 109.

    2 Nathan S. Lewis e Daniel G. Nocera, “Powering the Planet: Chemical Challenges in Solar Energy Utilization”, Proceedings of the National Academy of Sciences 103:43 (2006), 15731.

    Página 439

    3 Kazuhisa Miyamoto (org.), “Renewable Biological Systems for Alternative Sustainable Energy Production”, FAO Agricultural Services Bulletin 128 (Osaka:

    Osaka University, 1997), capítulo 2.1.1, acesso em: 10 dez. 2010, http://www.fao.org/docrep/W7241E/w7241e06.htm#2.1.1percent20solarpercent20energy; James Barber, “Biological Solar Energy”, Philosophical Transactions of the Royal Society A 365:1853 (2007), 1007.

    4 “International Energy Outlook 2010”, U.S. Energy Information Administration, 9, acesso em: 10 dez. 2010, http://www.eia.doe.gov/oiaf/ieo/pdf/0484(2010).pdf.

    5 S. Venetsky, “‘Silver’ from Clay”, Metallurgist 13:7 (1969), 451; Aftalion, Fred, A History of the International Chemical Industry (Filadélfia: University of Pennsylvania Press, 1991), 64; A. J. Downs, Chemistry of Aluminum, Gallium, Indium and Thallium (Glasgow: Blackie Academic & Professional, 1993), 15.

    6 Jan Willem Erisman et al., “How a Century of Ammonia Synthesis Changed the World” in Nature Geoscience 1 (2008), 637.

    7 G. J. Benson e B. E. Rollin (orgs.), The Well-Being of Farm Animals: Challenges and Solutions (Ames, IA: Blackwell, 2004); M.C. Appleby, J. A. Mench e B. O.

    Hughes, Poultry Behaviour and Welfare (Wallingford: CABI Publishing, 2004); J.

    Webster, Animal Welfare: Limping Towards Eden (Oxford: Blackwell Publishing, 2005); C. Druce e P. Lymbery, Outlawed in Europe: How America Is Falling Behind Europe in Farm Animal Welfare (Nova York: Archimedean Press, 2002).

    8 Harry Harlow e Robert Zimmermann, “Affectional Responses in the Infant Monkey”, Science 130:3373 (1959), 421-432; Harry Harlow, ‘The Nature of Love’, American Psychologist 13 (1958), 673-685; Laurens D. Young et al., “Early stress and later response to separation in rhesus monkeys”, American Journal of Psychiatry 130:4 (1973), 400-405; K. D. Broad, J. P. Curley e E. B.

    Keverne, “Mother-infant bonding and the evolution of mammalian social relationships”, Philosophical Transactions of the Royal Society B 361:1476 (2006), 2199-2214; Florent Pittet et al., “Effects of maternal experience on fearfulness and maternal behaviour in a precocial bird”, Animal Behavior (mar. 2013), In Press – disponível on-line em:

    http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0003347213000547).

    9 “National Institute of Food and Agriculture”, Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, acesso em: 10 dez. 2010, http://www.csrees.usda.gov/qlinks/extension.html.

    Página 440

    18. Uma revolução permanente

    1 Vaclav Smil, The Earth’s Biosphere: Evolution, Dynamics, and Change (Cambridge, Mass.: MIT Press, 2002); Sarah Catherine Walpole et al., ‘The Weight of Nations: An Estimation of Adult Human Biomass’, BMC Public Health 12:439 (2012), http://www.biomedcentral.com/1471-2458/12/439.

    2 William T. Jackman, The Development of Transportation in Modern England (Londres: Frank Cass & co., 1966), 324-327; H. J. Dyos e D.H. Aldcroft, British Transport – An economic survey from the seventeenth century to the twentieth (Leicester: Leicester University Press, 1969), 124-131; Wolfgang Schivelbusch, The Railway Journey: The Industrialization of Time and Space in the 19th Century (Berkeley: Univeristy of California Press, 1986).

    3 Para uma discussão detalhada sobre a paz sem precedentes das últimas décadas, ver, em particular, Steven Pinker, The Better Angels of Our Nature: Why Violence Has Declined (Nova York: Viking, 2011); Joshua S. Goldstein, Winning the War on War: The Decline of Armed Conflict Worldwide (Nova York, N.Y.:

    Dutton, 2011); Gat, War in Human Civilization.

    4 “World Report on Violence and Health: Summary, Geneva 2002”, Organização Mundial da Saúde, acesso em: 10 dez. 2010, http://www.who.int/whr/2001/en/whr01_annex_en.pdf. Para taxas de mortalidade em épocas anteriores, ver Lawrence H. Keeley, War before Civilization: The Myth of the Peaceful Savage (Nova York: Oxford University Press, 1996).

    5 “World Health Report, 2004”, Organização Mundial da Saúde, 124, acesso em:

    10 dez. 2010, http://www.who.int/whr/2004/en/report04_en.pdf.

    6 Manuel Eisner, “Modernization, Self-Control and Lethal Violence”, British Journal of Criminology 41:4 (2001), 618-638; Manuel Eisner, “Long-Term Historical Trends in Violent Crime”, Crime and Justice: A Review of Research 30 (2003), 83-142; ‘World Report on Violence and Health: Summary, Geneva 2002’, Organização Mundial da Saúde, acesso em: 10 dez. 2010, http://www.who.int/whr/2001/en/whr01_annex_en.pdf; “World Health Report, 2004”, Organização Mundial da Saúde, 124, acesso em: 10 dez. 2010, http://www.who.int/whr/2004/en/report04_en.pdf.

    7 Napoleon Chagnon, Yanomamo: The Fierce People (Nova York: Holt, Rinehart and Winston, 1968); Keeley, War before Civilization.

    Página 441

    19. E eles viveram felizes para sempre

    1 Para a psicologia e a bioquímica da felicidade, as fontes a seguir são bons pontos de partida: Jonathan Haidt, The Happiness Hypothesis: Finding Modern Truth in Ancient Wisdom (Nova York: Basic Books, 2006); R. Wright, The Moral Animal: Evolutionary Psychology and Everyday Life (Nova York: Vintage Books, 1994); M. Csikszentmihalyi, ‘If We Are So Rich, Why Aren’t We Happy?’, American Psychologist 54:10 (1999): 821-827; F. A. Huppert, N. Baylis e B.

    Keverne (orgs.), The Science of Well-Being (Oxford: Oxford University Press, 2005); Michael Argyle, The Psychology of Happiness, 2.ed. (Nova York:

    Routledge, 2001); Ed Diener (org.), Assessing Well-Being: The Collected Works of Ed Diener (Nova York: Springer, 2009); Michael Eid e Randy J. Larsen (orgs.), The Science of Subjective Well-Being (Nova York: Guilford Press, 2008); Richard A. Easterlin (org.), Happiness in Economics (Cheltenham: Edward Elgar Pub., 2002); Richard Layard, Happiness: Lessons from a New Science (Nova York:

    Penguin, 2005).

    2 Daniel Kahneman, Thinking, Fast and Slow (Nova York: Farrar, Straus e Giroux, 2011); Inglehart et al., “Development, Freedom, and Rising Happiness”, 278-281.

    3 D. M. McMahon, The Pursuit of Happiness: A History from the Greeks to the Present (Londres: Allen Lane, 2006).

    20. O fim do Homo sapiens

    1 Keith T. Paige et al., “De Novo Cartilage Generation Using Calcium Alginate-Chondrocyte Constructs”, Plastic and Reconstructive Surgery 97:1 (1996), 168- 178.

    2 David Biello, “Bacteria Transformed into Biofuels Refineries”, Scientific American, 27 jan. 2010, acesso em: 10 dez. 2010, http://www.scientificamerican.com/article.cfm?id=bacteria-transformed-intobiofuel-refineries.

    3 Gary Walsh, “Therapeutic Insulins and Their Large-Scale Manufacture”, Applied Microbiology and Biotechnology 67:2 (2005), 151-159.

    4 James G. Wallis et al., “Expression of a Synthetic Antifreeze Protein in Potato Reduces Electrolyte Release at Freezing Temperatures”, Plant Molecular Biology 35:3 (1997), 323-330.

    Página 442

    5 Robert J. Wall et al., “Genetically Enhanced Cows Resist Intramammary Staphylococcus Aureus Infection”, Nature Biotechnology 23:4 (2005), 445-451.

    6 Liangxue Lai et al., “Generation of Cloned Transgenic Pigs Rich in Omega-3 Fatty Acids”, Nature Biotechnology 24:4 (2006), 435-436.

    7 Ya-Ping Tang et al., “Genetic Enhancement of Learning and Memory in Mice”, Nature 401 (1999), 63-69.

    8 Zoe R. Donaldson e Larry J. Young, “Oxytocin, Vasopressin, and the Neurogenetics of Sociality”, Science 322:5903 (2008), 900-904; Zoe R.

    Donaldson, “Production of Germline Transgenic Prairie Voles (Microtus Ochrogaster) Using Lentiviral Vectors”, Biology of Reproduction 81:6 (2009), 1189-1195.

    9 Terri Pous, “Siberian Discovery Could Bring Scientists Closer to Cloning Woolly Mammoth”, Time, 17 set. 2012, acesso em: 19 fev. 2013; Pasqualino Loi et al., “Biological time machines: a realistic approach for cloning an extinct mammal”, Endangered Species Research 14 (2011), 227-233; Leon Huynen, Craig D. Millar e David M. Lambert, “Resurrecting ancient animal genomes: The extinct moa and more”, Bioessays 34 (2012), 661-669.

    10 Nicholas Wade, “Scientists in Germany Draft Neanderthal Genome”, New York Times, 12 fev. 2009, acesso em: 10 dez. 2010, http://www.nytimes.com/2009/02/13/science/13neanderthal.html?

    _r=2&ref=science; Zack Zorich, “Should We Clone Neanderthals?”, Archaeology 63:2 (2009), acesso em: 10 dez. 2010, http://www.archaeology.org/1003/etc/neanderthals.html.

    11 Robert H. Waterston et al., “Initial Sequencing and Comparative Analysis of the Mouse Genome”, Nature 420:6915 (2002), 520.

    12 13 Bill Christensen, “Military Plans Cyborg Sharks”, Live Science, March 7, 2006, acesso em: 10 dez. 2010, http://www.livescience.com/technology/060307_shark_implant.html.

    14 “Cochlear Implants”, National Institute on Deafness and Other Communication Disorders, acesso em: 22 mar. 2012, http://www.nidcd.nih.gov/health/hearing/pages/coch.aspx.

    15 Retina Implant, http://www.retinaimplant.de/en/doctors/technology/default.aspx.

    16 David Brown, “For 1st Woman With Bionic Arm, a New Life Is Within

    Página 443

    Reach”, The Washington Post, 14 set. 2006, acesso em: 10 dez. 2010, http://www.washingtonpost.com/wpdyn/content/article/2006/09/13/AR2006091302271.html?nav=E8.

    17 Miguel Nicolelis, Beyond Boundaries: The New Neuroscience of Connecting Brains and Machines – and How It Will Change Our Lives (Nova York: Times Books, 2011).

    18 Chris Berdik, “Turning Thought into Words”, BU Today, 15 out. 2008, acesso em: 22 mar. 2012, http://www.bu.edu/today/2008/turning-thoughts-into-words/.

    19 Jonathan Fildes, “Artificial Brain ‘10 years away’”, BBC News, 22 jul. 2009, acesso em: 19 set. 2012, http://news.bbc.co.uk/2/hi/8164060.stm.

    20 Radoje Drmanac et al., “Human Genome Sequencing Using Unchained Base Reads on Self-Assembling DNA Nanoarrays”, Science 327:5961 (2010), 78-81; website da “Complete Genomics”: http://www.completegenomics.com/; Rob Waters, “Complete Genomics Gets Gene Sequencing under 5000$ (Update 1)”, Bloomberg, 5 nov. 2009, acesso em: 10 dez. 2010; http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=newsarchive&sid=aWutnyE4SoWw; Fergus Walsh, “Era of Personalized Medicine Awaits”, BBC News, última atualização em 8 abr. 2009, acesso em: 22 mar. 2012, http://news.bbc.co.uk/2/hi/health/7954968.stm; Leena Rao, “PayPal Co-Founder And Founders Fund Partner Joins DNA Sequencing Firm Halcyon Molecular”, TechCrunch, 24 set. 2009, acesso em: 10 dez. 2010, http://techcrunch.com/2009/09/24/paypal-co-founder-and-founders-fund-partnerjoins-dna-sequencing-firm-halcyon-molecular/.

    Página 444

    Agradecimentos

    Pelo aconselhamento e pela ajuda, agradeço a Sarai Aharoni, Dorit Aharonov, Amos Avisar, Tzafrir Barzilai, Noah Beninga, Tirza Eisenberg, Amir Fink, Benjamin Z. Kedar, Yossi Maurey, Eyal Miller, Shmuel Rosner, Rami Rotholz, Ofer Steinitz, Michael Shenkar, Guy Zaslavsky e a todos os professores e alunos do programa de História Mundial da Universidade Hebraica de Jerusalém por todo o assessoramento recebido.

    Meu agradecimento especial a Jared Diamond, que me ensinou a ver o grande cenário; a Diego Holstein, que me inspirou a escrever uma história; e a Deborah Harris, que me ajudou a difundi-la.

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    Créditos das imagens

    1 Pinturas rupestres na caverna de Chauvet, na França. ©Jean Clottes.

    2 Reconstruções modernas do Homo rudolfensis, Homo erectus e Homo neanderthalensis. ©Visual/Corbis.

    3 Reconstrução de uma criança neandertal. ©Anthropologisches Institut und Museum, Universität Zürich.

    4 Estatueta em marfim de um “homem-leão” (ou “mulher-leoa”) da caverna de Stadel, na Alemanha. Foto de Thomas Stephan, ©Ulmer Museum.

    5 O leão da Peugeot. Foto: Itzik Yahav.

    6 Um túmulo de 12 mil anos encontrado no norte de Israel contendo o esqueleto de uma mulher de 50 anos ao lado do um filhote de cachorro. Foto: Museu do Homem Pré-histórico, Kibutz Ma’ayan Baruch.

    7 Uma pintura da caverna de Lascaux, c. 15 mil-20 mil anos atrás.

    ©Visual/Corbis.

    8 Impressões de mãos da “Cova das Mãos”, Argentina, c. 7000 a.C.

    ©Visual/Corbis.

    9 Pintura rupestre de uma caverna egípcia retratando cenas típicas da vida de antigos agricultores. ©Visual/Corbis.

    10 Os remanescentes de uma estrutura monumental de Göbekli Tepe. Fotografias do Deutsches Archäologisches Institut©.

    11 Um par de bois arando um campo, em uma pintura de 1200 a.C. em um túmulo egípcio. ©Visual/Corbis.

    12 Um bezerro moderno. Foto: Anonymous for Animal Rights©.

    13 Tábua de argila com um texto administrativo da cidade de Uruk, c. 3400-3000 a.C. ©The Schøyen Collection, Oslo e Londres, MS 1717.

    http://www.schoyencollection.com/ 14 Um quipo andino datando do século XII. ©The Schøyen Collection, Oslo e Londres, MS 718. http://www.schoyencollection.com/ 15 Um retrato oficial do rei Luís XIV, da França. ©Réunion des musées nationaux / Gérard Blot.

    Página 446

    16 Um retrato oficial de Barack Obama. ©Visual/Corbis.

    17 Peregrinos circundando a Caaba, em Meca. ©Visual/Corbis.

    18 A estação de trem Chhatrapati Shivaji, em Mumbai. Fotografia de fish-bone, http://en.wikipedia.org/wiki/File:Victoria_Terminus,_Mumbai.jpg 19 O Taj Mahal. Foto: Guy Gelbgisser Asia Tours.

    20 Um cartaz de propaganda nazista. Biblioteca do Congresso, Bildarchiv Preussischer Kulturbesitz, Museu Memorial do Holocausto, Estados Unidos.

    Cortesia de Roland Klemig©.

    21 Uma charge nazista. Fotografia de Boaz Neumann. De Kladderadatsch 49 (1933), p. 7.

    22 Alamogordo, 16 de julho de 1945, 5:29:53 da manhã. ©Visual/Corbis.

    23 Um mapa-múndi europeu de 1459. ©British Library Board, Shelfmark Add.

    11267.

    24 O mapa-múndi de Salviati, 1525. ©Firenze, Biblioteca Medicea Laurenziana, Ms. Laur. Med. Palat. 249 (mappa Salviati).

    25 Pintos em uma esteira em uma chocadeira comercial. Foto: Anonymous for Animal Rights©.

    26 O experimento de Harlow. ©Photo Researchers / Visualphotos.com.

    27 Um camundongo em cujo dorso os cientistas fizeram crescer uma “orelha”

    feita de células de cartilagem de gado. Fotografia de Charles Vacanti©.

    28 Jesse Sullivan e Claudia Mitchell dando as mãos. ©Imagebank/Gettyimages Israel.

    Página 447

    Texto de acordo com a nova ortografia.

    Título original: Sapiens – A Brief History of Humankind Capa: L&PM Editores. Ilustração: Shutterstock Tradução: Janaína Marcoantonio Preparação: Simone Diefenbach Revisão: Lia Cremonese Cip-Brasil. Catalogação na publicação Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ H231s Harari, Yuval Noah, 1976- Sapiens – uma breve história da humanidade / Yuval Noah Harari; tradução Janaína Marcoantonio. – 1. ed. – Porto Alegre, RS: L&PM, 2015.

    Tradução de: Sapiens – A Brief History of Humankind ISBN 978.85.254.3240-7 1. Evolução humana. 2. Evolução (Biologia). I. Título.

    15-19095 CDD: 576.8 CDU: 575.8 yuvalnharari@gmail.com Copyright © 2012 Yuval Noah Harari Todos os direitos desta edição reservados a L&PM Editores Rua Comendador Coruja, 314, loja 9 – Floresta – 90220-180 Porto Alegre – RS – Brasil / Fone: 51.3225.5777

    Página 448

    Pedidos & Depto. comercial: vendas@lpm.com.br Fale conosco: info@lpm.com.br www.lpm.com.br

    Página 449

    Table of Contents Cronologia Parte 1: A Revolução Cognitiva

    1. Um animal insignificante

    Esqueleto no armário O custo de pensar Uma raça de cozinheiros Os cuidadores de nossos irmãos 2. A árvore do conhecimento A lenda da Peugeot Superando o genoma O que aconteceu na Revolução Cognitiva?

    História e biologia

    3. Um dia na vida de Adão e Eva

    A sociedade afluente original Espíritos falantes Paz ou guerra?

    A cortina de silêncio

    4. A inundação

    Declarados culpados O fim da preguiça A arca de Noé Parte 2: A Revolução Agrícola 5. A maior fraude da história A armadilha do luxo Intervenção divina Vítimas da revolução 6. Construindo pirâmides A chegada do futuro Uma ordem imaginada Os que realmente acreditam Os muros da prisão 7. Sobrecarga de memória Assinado, Kushim As maravilhas da burocracia A linguagem dos números 8. Não existe justiça na história O círculo vicioso Pureza na América Ele e ela

    Página 450

    Sexo e gênero O que há de tão bom nos homens?

    O poder dos músculos A escória da sociedade Genes patriarcais Parte 3: A unificação da humanidade 9. A seta da história O satélite de espionagem A visão global 10. O cheiro do dinheiro Quanto custa?

    Conchas e cigarros Como o dinheiro funciona?

    O evangelho do ouro O preço do dinheiro

    11. Visões imperiais

    O que é um império?

    Impérios do mal?

    É para o seu próprio bem Quando eles se tornam nós O ciclo imperial Mocinhos e bandidos na história O novo império global 12. A lei da religião Silenciando os inocentes Os benefícios da idolatria Deus é um só A batalha entre o bem e o mal A lei da natureza O culto do homem Religiões humanistas 13. O segredo do sucesso 1. A falácia da visão retrospectiva 2. Clio cega Parte 4: A Revolução Científica 14. A descoberta da ignorância Ignoramus O dogma científico Conhecimento é poder O ideal de progresso O projeto Gilgamesh

    Página 451

    Os padrinhos da ciência

    15. O casamento entre ciência e império

    Por que a Europa?

    A mentalidade da conquista Mapas vazios Invasão do espaço sideral Aranhas raras e sistemas de escrita esquecidos 16. O credo capitalista Um bolo que cresce Colombo à procura de um investidor Em nome do capital O culto ao livre mercado O inferno capitalista 17. As engrenagens da indústria O segredo na cozinha Um oceano de energia A vida na esteira A era das compras 18. Uma revolução permanente Tempos modernos O colapso da família e da comunidade Comunidades imaginadas Perpetum Mobila Paz em nossa era Retirada imperial Pax Atomica 19. E eles viveram felizes para sempre Computando a felicidade Felicidade química O sentido da vida Conhece-te a ti mesmo 20. O fim do Homo sapiens Ratos e homens O retorno dos neandertais Vida biônica Outra vida A singularidade A profecia de Frankenstein Epílogo: O animal que se tornou um deus Notas 1. Um animal insignificante

    Página 452

    2. A árvore do conhecimento

    3. Um dia na vida de Adão e Eva

    4. A inundação

    5. A maior fraude da história

    6. Construindo pirâmides

    7. Sobrecarga de memória

    8. Não existe justiça na história

    10. O cheiro do dinheiro

    11. Visões imperiais

    12. A lei da religião

    13. O segredo do sucesso

    14. A descoberta da ignorância

    15. O casamento entre ciência e império

    16. O credo capitalista

    17. As engrenagens da indústria

    18. Uma revolução permanente

    19. E eles viveram felizes para sempre

    20. O fim do Homo sapiens

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  • Uma família ingleza Scenas da vida do Porto

    Uma família ingleza Scenas da vida do Porto

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    UMA FAMILIA INGLEZA

    UMA FAMILIA INGLEZA

    SCENAS DA VIDA DO PORTO

    POR

    JULIO DINIZ

    Terceira Edição

    Porto

    Em casa de A. R. da Cruz Coutinho, Editor

    18–Rua dos Caldeireiros–20

    1875

    TYPOGRAPHIA DO JORNAL DO PORTO
    Rua Ferreira Borges, 31

    UMA FAMILIA INGLEZA

    I

    ESPECIE DE PROLOGO, EM QUE SE FAZ UMA APRESENTAÇÃO AO LEITOR

    Entre os subditos da rainha Victoria, residentes no Porto, ao principiar
    a segunda metade do seculo dezenove, nenhum havia mais bemquisto e mais
    obsequiado, e poucos se apontavam como mais fleugmaticos e genuinamente
    inglezes, do que Mr. Richard Whitestone.

    Por tal nome era em toda a cidade conhecido um abastado negociante de
    fino tacto commercial e genio emprehendedor, cujo credito nas primeiras
    praças da Europa e da America, e com especialidade nos vastos emporios
    da Gran-Bretanha, se firmava em bases de uma solidez superabundantemente
    provada.

    Nos livros de registro do _Bank of England_, bem como nos de alguns
    _Joint-Stock banks_ e dos banqueiros particulares da _City_ ou de
    _West-End_, podia-se procurar com exito documentos justificativos d'este
    credito florescente.

    Não era Mr. Richard homem para seguir sómente caminhos batidos, nem para
    empallidecer ao abalançar-se em veredas não arroteadas, onde se achava a
    sós com os seus esforços e tenacidade.

    Por vezes arriscára capitaes a inaugurar companhias, a plantar novos
    ramos de commercio, a auxiliar industrias nascentes, aventurando assim
    proveitosos exemplos, para serem seguidos depois, já com melhores
    garantias de lucro, por seus collegas, caracteres em geral cautelosos e
    positivos e sempre desconfiados a respeito de innovações.

    Apesar d'isso, as crises, essas derruidoras tempestades tão frequentes
    na vida do commercio, tinham passado por cima da casa Whitestone,
    respeitando-a. Através das nuvens negras, que tantas vezes assombram o
    mundo monetario, vira-se sempre brilhar a firma do honrado Mr. Richard,
    com o esplendor tradicional; emquanto que não sorriram fados tão
    propicios ás de muitos meticulosos e precatados, não obstante egoistas
    abstenções.

    Era o caso de mais uma vez repetir o _Audaces fortuna_… de já estafada
    memoria.

    Esta immunidade, em parte devida á lucida intelligencia, com a qual Mr.
    Richard sabia superintender nos variados negocios do seu tracto, em
    parte a não sei que benigno espirito, ou acaso feliz, a que muitas vezes
    parece andar subordinada a fortuna, valera-lhe uma illimitada confiança
    entre todos, com quem o negocio o ligava, confiança da qual, nem em
    circumstancias frivolas, se mostrou nunca indigno depositario.

    O quotidiano apparecimento do negociante estrangeiro na Praça–nome que
    entre nós se dá ainda á rua dos Inglezes, principal centro de
    transacções do alto commercio portuense–festejavam-o benevolentes
    sorrisos, rasgadas e pressurosas reverencias, phrases de insinuante
    amabilidade e affectuosos _shake-hands_, segundo o mais ou menos
    adiantado grau de familiaridade, que cada qual mantinha com elle.

    Ninguem se dispensava de qualquer d'estas demonstrações de estima, ou as
    impozesse o prestigio dos avultados capitaes e da social liberalidade do
    commerciante britannico, ou–como de preferencia opinarão os que melhor
    conceito formam dos homens–um longo passado sem mancha, uma rectidão e
    cavalheirismo, aquilatados todos os dias.

    Mr. Whitestone não se deixava porém desvanecer com estas homenagens dos
    seus confrades, aliás merecidas.

    Decididamente não era a vaidade o seu defeito dominante. Aspirando essa
    especie de incenso moral, que tão bem formadas cabeças atordôa, não
    sentia, no intimo, turbar-se a limpidez, verdadeiramente crystallina, da
    razão, n'elle pouco sujeita a esvaîmentos.

    Os gêlos d'aquelle coração, formado e desenvolvido a cincoenta e um
    graus de latitude septentrional, não se fundiam com tão pouco.

    Lôas, hymnos encomiasticos, capazes, ainda que em prosa, de atemorisar
    as modestias menos esquivas, protestos hyperbolicos de veneração a todo
    o transe, tudo isso escutava friamente e sem nem sequer experimentar
    certa agradavel e voluptuosa titillação da alma–se me admittem a
    phrase–que em quasi todos os filhos de Eva,–primeira e mal estreiada
    victima da lisonja–produzem sempre os panegyricos do merecimento
    proprio, entoados por bôcas alheias.

    A mesma indifferença, a mesma, se não absoluta impassibilidade,
    estabilidade de razão pelo menos, com que, uns após outros, esvasiava
    copos de cerveja e calices do Porto e Madeira, de _rhum_, de _cognac_,
    de _kummel_, de _gingerbeer_, e até de absintho, libações, que a
    qualquer pessoa menos inglezmente organisada ameaçariam, em pouco tempo,
    com as mais pavorosas consequencias de um completo alcoolismo; essa
    mesma indifferença e impassibilidade oppunha ao effeito, não menos
    inebriante, das lisonjas de que lhe enchiam os ouvidos.

    A eloquencia cortezã dos seus muitos enthusiastas mais do que uma vez a
    recebia assobiando distrahidamente, mas sem a menor affectação, o
    nacional _God save the queen_, ao qual marcava compasso com a cabeça ou
    com a bengala.

    Não se dava ao trabalho de retribuir um cumprimento com outro
    cumprimento. Aquelles que teem por costume semeiar lisonjas, para depois
    as colherem, em proveito proprio, encontravam em Mr. Richard Whitestone
    terreno ingrato para tal genero de cultura; não vingavam lá.

    A chamar-se delicadeza a certos requebros de linguagem, a certas
    subtilezas de galanteios, a certos meneios, ares e olhares
    convencionaes, muito á moda nas salas e que variam com as épocas,
    hesitar-se-hia em conceder a Mr. Richard o nome de delicado.

    A delicadeza que elle praticava não era de facto essa. Fazia-a consistir
    toda, a sua, nos sentimentos e nas acções inspiradas pelos eternos e
    invariaveis dictames da consciencia e da razão, superiores portanto ás
    fluctuações caprichosas da moda. Era uma delicadeza natural.

    Verdadeiro inglez da velha Inglaterra, sincero, franco, ás vezes rude,
    mas nunca mesquinho e vil, podia tomar-se por uma vigorosa
    personificação do typico John Bull.

    Alheio e pouco propenso á metaphysica, não o namoravam as transcendentes
    questões de philosophia, que preoccupam doentiamente as intelligencias
    da época; todo votado á contemplação da face positiva da vida, se não se
    arroubava, como os exaltados optimistas, a considerar nos destinos
    futuros da humanidade, evitava tambem o estorcer-se nas garras do
    demonio da hypocondria, como se estorcem tantos, a quem prolongadas
    meditações sobre os males que perseguem o homem acabam por envenenar o
    pensamento.

    Possuia em compensação Mr. Richard, e em alto grau, para luctar contra
    as occorrentes resistencias da vida effectiva, aquella qualidade de
    espirito, que, segundo Sterne, se diz _obstinação_ nas más applicações e
    _perseverança_ nas boas.

    Outra apreciavel disposição de animo caracterisava ainda o nosso
    commerciante:–era a de não ser sujeito a longas mortificações, ou pelo
    menos–e com mais rigor talvez–a de não as manifestar nos gestos ou por
    quaesquer signaes exteriores.

    Dir-se-hia, a julgal-o pelas apparencias, que espessa camada de
    estoicismo lhe encrustára o coração, libertando-o da influencia dos
    estimulos, que mais dolorosamente costumam commover essa viscera de tão
    numerosas sympathias.

    N'este mundo, ao qual os Heraclitos dos seculos christãos grangearam o
    titulo lutuoso e elegiaco de _Valle de lagrimas_, não sabia successo
    possivel, catastrophe realisavel, com força de alterar por muito tempo a
    costumada expressão physionomica de Mr. Richard, de lhe desbotar sequer
    o colorido vigoroso, ou,–como julgo se lhe chama em linguagem
    technica,–o colorido quente, do qual lhe vinha ao gesto certo ar de
    satisfação, despertador das mais justificadas invejas.

    Nos typos inglezes, que as ondas do oceano arrojam todos os dias ás
    nossas praias, é este phenomeno mais vulgar do que porventura se pensa.

    Cada uma d'essas figuras britannicas vale por um protesto mudo, mas
    eloquente, contra os velhos preconceitos de poetas e de escriptores
    meridionaes.

    Teimam de facto estes em que são indispensaveis os vividos raios do
    nosso desanuviado sol, ou a face desassombrada da lua no firmamento
    peninsular, onde não tem, como a de Londres–_a romper a custo um
    plumbeo céo_–para verterem alegrias na alma e mandarem aos semblantes o
    reflexo d'ellas; imaginam fatalmente perseguidos de _spleen_,
    irremediavelmente lugubres e soturnos, como se a cada momento saíssem
    das galerias subterraneas de uma mina de _pit-coul_, os nossos alliados
    inglezes.

    Como se enganam ou como pretendem enganar-nos!

    É esta uma illusão ou má fé, contra a qual ha muito reclama debalde a
    indelevel e accentuada expressão de beatitude, que transluz no rosto
    illuminado dos homens de além da Mancha, os quaes parece caminharem
    entre nós, envolvidos em densa atmosphera de perenne contentamento,
    satisfeitos do mundo, satisfeitos dos homens e, muito especialmente,
    satisfeitos de si.

    Nem é para admirar que o romancista inglez James ousasse abrir o
    primeiro capitulo de um romance seu com a seguinte exclamação:

    «_Merry England! Oh, merry England!_» Alegre Inglaterra! oh! alegre
    Inglaterra!

    E por que se não ha de chamar alegre á Inglaterra? Como se generalisou a
    infundada crença de que o inglez é por força melancolico?

    É uma d'estas abusões, para lhe não dar nome peior, contra as quaes
    ninguem se precavê com sufficiente criterio philosophico.

    Repare o leitor imparcial para qualquer dos membros da colonia ingleza,
    á qual Mr. Richard Whitestone pertencia, e verá que nem só nos tempos em
    que a civilisação e a industria não tinham ainda arroteado as densas
    florestas britannicas, seria cabido o jovial estribilho da canção que o
    supracitado romancista pôz na bôca do legendario Robin Hood, seu
    heroe:–«_Ho, merry England, merry England, ho_»; póde ainda cantar,
    através dos nevoeiros e do fumo das fabricas, o inglez moderno, fiel
    depositario d'aquelle folgado caracter nacional.

    Eu tenho ha muito como ponto de fé, que ainda que o _spleen_ seja doença
    indigena da Gran-Bretanha, não domina tão fatalmente sob o céo Londrino,
    como muitos parece imaginarem.

    Dryden affirma que as comedias inglezas possuem sobre as de todo o mundo
    incontestavel superioridade.

    E querem saber a que attribuem alguns esta superioridade da comedia
    ingleza? Ao clima, a esse mesmo clima, que, em contrario, tantos accusam
    de fomentador de hypocondrias e suicidios.

    O clima inconstante da Inglaterra, explicam aquelles, é proprio para
    favorecer o desenvolvimento d'esses caracteres excepcionaes e
    extravagantes, precioso e inesgotavel pábulo do espirito comico da
    Gran-Bretanha.–A jovialidade dá-se muito bem n'aquelle poderoso
    imperio.

    Tom Jones e o proprio Falstaff são typos mais inglezes talvez do que uns
    sombrios caracteres, que Byron pôz á moda.

    Ora Mr. Richard, o corajoso leitor do _Times_, o inimigo declarado da
    França, apesar de certa seriedade de convenção, era metal inglez, livre
    de toda a liga.

    Nos maiores empertigamentos, a que o respeito pela pragmatica ingleza o
    constrangia, lá lhe estava o gesto a denunciar, que era artificial tudo
    aquillo.

    Emquanto ao physico…, emquanto ao physico era Mr. Whitestone
    caracterisadamente inglez.

    Não supprirão estas palavras mais circumstanciada descripção?

    Não ha entre nós quem, ao ver por ahi, nos maiores e mais mesclados
    ajuntamentos, certa ordem de typos masculinos, hesite em attribuir-lhes
    por patria a velha Albyon, a filha dos nevoeiros, a rainha dos mares, a
    terra dos _meetings_, dos _puddings_ e de muitas cousas mais?

    Pois bem, todos esses caracteres, todos esses signaes distinctivos dos
    mais perfeitos exemplares da classe, achavam-se reunidos na pessoa de
    Mr. Richard Whitestone, como certidão de naturalidade, limpa da menor
    viciação.

    Era aquella conhecida tez, quasi côr de tijolo; aquelles olhos azues, á
    flor do rosto, a resplandecerem como saphiras; aquelles cabellos e
    suissas ruivas, que, sem grande violencia de imagem, poder-se-hia talvez
    comparar ás lavaredas do fogo, que lhe inflammava constantemente as
    faces injectadas; os dentes regulares, como enfiaduras de perolas, e
    alvos, como os caramélos das montanhas; a postura erecta; os movimentos
    promptos, e no rosto o tal continuado ar de satisfação.

    Do vestuario podia dizer-se quasi o mesmo.–Não falseava o typo. Era
    ainda inglez de lei.

    Um pequeno fraque de panno azul, fabricado nas melhores officinas de
    Yorkshire ou do West of England; as calças, curtas e estreitas, dentro
    das quaes as descarnadas tibias podiam fazer o effeito do embolo em
    corpo de pneumatica; as botas esguias e compridas, onde a elegancia era
    sacrificada á solidez; gravata e collete alvissimos, como os de um lord
    do parlamento, e, de inverno, vestidura completa de _gutta-percha_ que,
    n'estas épocas utilitarias e prosaicas, veio substituir as impenetraveis
    armaduras da idade média–taes eram as peças principaes do guarda-roupa
    do honrado negociante. Coroava finalmente tudo isto o chapéo, aquelle
    chapéo de fórma invariavel, castello roqueiro inaccessivel ás ondas
    destruidoras da moda; baluarte inabalavel no meio dos ventos encontrados
    dos humanos caprichos; o chapéo, cujo molde classico dá a um grupo de
    inglezes um aspecto, que é só d'elles; o chapéo, expressão symbolica da
    indole industrial e fabril da famosa ilha, pois desperta lembranças das
    chaminés, que ouriçam o panorama das suas mais manufactureiras cidades.

    Respirando, havia mais de vinte annos, a atmosphera perfumada do nosso
    clima meridional, e bebendo, em todo este tempo, da propria fonte o
    predilecto das mesas britannicas, o genuino _Portwine_–esse nectar,
    cujo aroma, ainda mais que os da nossa atmosphera, é grato ás
    pituitarias inglezas, Mr. Richard Whitestone não conseguira, ou melhor,
    estas influencias, com todos os outros feiticeiros attractivos da nossa
    terra, ainda não haviam conseguido de Mr. Richard Whitestone dois
    importantes resultados:–a adopção dos habitos de vida peninsular,
    contra os quaes antes reagia sempre com a inteira inflexibilidade de
    suas fibras britannicas, e o respeito á grammatica portugueza, que, em
    todas as quatro partes, maltratava com uma irreverencia, com um
    desplante de bradar aos céos e de desafiar os rigores da férula mais
    indulgente.

    Não desmentia Mr. Richard a asserção do auctor das _Lendas e
    Narrativas_, quando affirma que sempre que um inglez, em casos
    desesperados, recorre a algum idioma estranho, nunca o faz, sem o
    torcer, estafar, e mutilar com toda a barbaridade de um verdadeiro
    Kimbri.

    De facto, as cinzas de Lobato e de Madureira deviam agitar-se na
    sepultura sempre que Mr. Whitestone fallava, porque as regras mais
    triviaes de regencia e de concordancia eram por elle atropelladas com
    uma frieza de animo, com uma fleugma, com uma impassibilidade, somente
    comparaveis ás de um membro do _Jockey-Club_, ao passar com o cavallo
    por cima do corpo de algum transeunte inoffensivo ou competidor
    derrubado na arena.

    Não era mais feliz a prosodia, a alatinada prosodia d'este recanto
    peninsular.

    As combinações grammaticaes de Mr. Richard, ao fallar a nossa lingua,
    saíam marcadas com um verdadeiro cunho britannico. Venus, a propria
    Venus, perderia aquellas illusões, que nos refere o cantor dos
    _Lusiadas_, se porventura ouvisse o portuguez que elle pronunciava.

    Transparecia de alguma sorte nas orações do seu discurso o credito
    liberal de um verdadeiro cidadão de Londres. O espirito conciliador e
    ordeiro, o constitucionalismo arreigado n'aquelle animo inglez, e
    adhesão aos principios interventores adoptados no seu paiz, parecia
    haverem-se estendido, extravagantemente, ao campo da syntaxe portugueza,
    levando Mr. Richard, n'um excesso de tendencia harmonisadora, a tentar
    n'ella concordancias de substantivos e adjectivos contra a absoluta e
    insuperavel repugnancia de generos e de numeros; e a modificar a
    constituição grammatical de um paiz alliado, como a Inglaterra gosta de
    modificar a sua constituição politica.

    O effeito reunido d'aquella prosodia e syntaxe era ás vezes de uma
    resultante comica que não actuava impunemente sobre os ouvidos, aliás
    não muito pechosos, dos collegas commerciaes, em cujos labios sorrisos
    de malicia mal disfarçada vinham por instantes afugentar a sisudez de
    profissão.

    Mr. Whitestone percebia-os e bem lhes suspeitava o sentido, mas era
    completamente indifferente ao que percebia e suspeitava.

    Se o contradissessem na pronuncia de uma palavra ingleza, embora das
    mais controvertidas, se descobrisse um sorriso nos circumstantes, na
    occasião em que elle estivesse fallando a patria lingua, então sim,
    então era possivel que chegasse a exaltar-se a ponto de quasi ameaçar o
    imprudente com uma irreprehensivel applicação da nobre sciencia dos
    _boxers_, quasi divina arte do sôco, que, desde Jack Brougton, tem sido
    cultivada em Londres «com fanatismo e ensinada com talento»–textuaes
    palavras de um escriptor _ex-professo_.

    Mas os sorrisos, que lhe valiam as atrocidades praticadas por elle nas
    grammaticas estrangeiras, esses, soffria-os com impassivel indifferença
    e não sei até se com certos vislumbres de orgulho e regosijo.

    II

    MAIS DUAS APRESENTAÇÕES, E ACABA O PROLOGO

    O honrado chefe da casa Whitestone tinha dois filhos: uma gentil _lady_,
    mimosa planta do Norte transplantada, aos dois annos, para o nosso
    clima, e um rapaz, mais novo do que ella, e nascido já em Portugal.

    Eram Jenny e Carlos.

    Jenny era uma d'estas jovens inglezas, cuja suavidade e correcção de
    contornos, alvura e delicadeza de tez e puro dourado dos cabellos, lhes
    dão uma apparencia tão subtil e vaporosa, e, quasi direi, tão celestial,
    que se espera a cada passo vel-as desprenderem-se da terra e
    dissiparem-se, como instantanea visão luminosa, diante dos olhos, que
    por momentos offuscaram.

    Delicadas, como o arminho, que chega quasi a subtrahir-se á sensação do
    tacto, de delicado que é, estas poeticas organisações septentrionaes
    possuem tanto de vago, tanto de immaterial, que, junto d'ellas,
    apodera-se de nós, entes profanos e grosseiros, certo invencivel
    constrangimento, como se receiassemos com um sôpro desvanecel-as,
    crestal-as com o olhar, maltratal-as com o gesto.

    Os desejos não vôam até alli; rodeia-as uma atmosphera de virginal
    castidade, no seio da qual esses filhos alados da imaginação abatem-se
    asphyxiados.

    Bellezas, como ella, foram por certo as que inspiraram as imagens de
    virgens dos cantos de Ossian ao espirito de quem quer que foi seu
    auctor, d'aquellas virgens, que o bardo comparava á neve da planicie e
    cujos cabellos imitavam o vapor do Cromla, dourado pelos raios do
    occidente.

    Se no azul meigo dos olhos de Jenny se não concentrava o fogo das
    paixões de um coração ardido, nem se descobria a scintillação
    denunciadora de phantasias exaltadas, havia n'elle não sei que
    mysteriosa e suave luz, como se de reflexo levado para alli do mais
    intimo da alma; os labios, delgados e levemente comprimidos, não se
    agitavam sob o imperio de tumultuosos sentimentos, mas fixavam-se em
    continuo sorriso, expressivo de affabilidade e de brandura, promettedor
    de placidas, mas duradouras felicidades; o seio, sempre modestamente
    afogado no vestido liso e singelo, embora não tivesse o arfar
    voluptuoso, que arrebata as imaginações, animava-se da ligeira
    ondulação, denunciadora do sereno sentir da mulher, a quem Deus confia
    os destinos da familia; d'esses sympathicos vultos de mãe, de irmã e de
    esposa, por todos encontrados ou sonhados ao menos uma vez na vida,
    astros inaccessiveis ás violentas tempestades, que tantas vezes ameaçam
    o horizonte domestico, anjos pacificadores entre os seus, que com todos
    repartem carinhos e afagos, que com lagrimas e sorrisos a todos consolam
    e recompensam; se, vendo Jenny, podia ainda lembrar o amor, era o amor
    da mulher sempre casta que, ao estender a fronte candida aos beijos
    affectuosos do esposo, baixa ainda os olhos, córando com todo o pejo de
    uma primeira entrevista, e fita-os no berço do filho adormecido sob a
    vigilancia dos seus cuidados.

    A estatura esbelta da joven ingleza, o andar, sem os requebros languidos
    das nossas elegantes, a fronte pura e de gracioso modelo, coroada por um
    diadema de formosos e desadornados cabellos louros, o olhar entre
    affavel e melancolico, a voz meigamente sonora e cadenciada, tudo emfim,
    de modo inexplicavel como variadas phrases da mysteriosa linguagem da
    belleza, denunciava os encantos, as doçuras d'aquelle caracter feminino,
    tão alheio a fraquezas mundanas, que mais se dissera angelico.

    Sentia-se, vendo-a, que para ella nunca o amor seria um passatempo, um
    capricho apenas, gosado entre risos, terminado sem lagrimas. Talvez
    nunca tão violenta paixão a chegasse a dominar até; porém, se nascesse,
    seria como essas plantas, que mal se desentranham em galas de folhagem e
    de flores, mas que se prendem por tenazes e penetrantes raizes ao solo
    d'onde brotaram.

    Em Jenny, a paixão de amante, a ter de lhe inquietar o coração,
    difficilmente se revelaria, a não ser adivinhada; mas depois, se o
    fosse, ou havia de consagrar-se na de esposa, de sublimar-se na de mãe,
    ou lentamente a consumiria; ser-lhe-hia fatal, se por não comprehendida,
    não chegasse a realisar essa santificada evolução.

    Almas assim estão talhadas ou para a felicidade celeste ou para a maxima
    tortura; que eu não sei de outra maior, do que a d'aquelles que
    concentram em si o soffrimento e suffocam todas as manifestações de dor,
    quando ás vezes a revelação lhes poderá dar lenitivo.

    Mas o céo de Jenny era ainda limpido, e amena a corrente da vida.

    Um rapido e imperceptivel movimento de labios, um desvanecido contrahir
    de fronte e–a não ser illusão isto,–um como escurecer do puro azul
    d'aquelles olhos amoraveis, eram os unicos vestigios das raras luctas
    travadas entre a sua razão poderosa, bem que de mulher, e os impulsos de
    diversos affectos, lucta sempre decidida pela victoria da primeira.

    Mas eram raras essas nuvens, tão raras como diaphanas, tão diaphanas
    como passageiras.

    Estava-lhe quasi sempre no seio aquella mesma placidez que se lhe lia no
    semblante.

    E nem porisso se julgue frio e insensivel o caracter d'ella; animavam-o
    tambem os raios vivificadores dos sentimentos, que nos prendem á terra;
    mas, com o influxo da vida, não transmittiam esses raios a lavareda que
    destroe.

    Será menos energico e abençoado o calor do sol, porque não inflamma os
    bosques e as cidades, como o incendio que a mão do homem ateia? Mas um
    cobre de verdura os prados e de flores os ramos, e alumia o hemispherio
    inteiro; o outro calcina as plantas que abraça, e a pouca distancia
    estende a sua claridade fatal; qual será mais poderoso e effectivo?

    Em Jenny os affectos do coração pareciam-se com as chammas dos
    lampadarios sagrados, que, em honra de Deus, illuminam o interior dos
    templos. O vel-as luzir eleva o pensamento a meditar cousas do céo.

    Ha entes assim, que tudo santificam; paixões, que n'uns acalentam
    vicios, são n'elles efficazes impulsos para sublimes virtudes.

    O calix, que, em mãos profanas, preside aos banquetes e ás orgias,
    consagrado no altar, transforma-se em symbolo mysterioso da mais augusta
    religião.

    Deus desce tambem a muitas almas, para tornar em holocausto digno de si
    as paixões originarias d'ellas.

    Carlos era, sob muitos respeitos, differente da irmã.

    Inglez pelo sangue, meridional pelo clima, onde vira, a primeira vez, a
    luz do dia, onde passára a infancia, onde sentira as primeiras commoções
    da adolescencia, o despertar da vida do coração, tinha um caracter que
    se ressentia d'esta, de alguma sorte, dupla nacionalidade.

    Da peninsula recebera o enthusiasmo, a viveza de imaginação, a
    impetuosidade de sentimentos, que raras vezes reprimia; vinham-lhe da
    Gran-Bretanha a força de vontade, a pertinacia, o estoicismo, com que,
    em certas occasiões, surprendia a quantos julgavam conhecel-o;
    vinham-lhe até, da mesma fonte, algumas excentricidades de manifesta
    herança paterna–efficaz inoculação de britannismo, que não lhe
    consentiria mentir á origem, se alguma vez o tentasse.

    Ainda que algum tanto estouvado, não deixava porisso Carlos de possuir
    um generoso e compassivo coração, alma sensivel a todos os infortunios,
    olhos a que a piedade não permittia serem estranhas as lagrimas.

    Se, por acções mal refreadas, por palavras irreflectidas, as fazia
    tambem verter, era elle o primeiro a accusar-se, a compadecer-se, a
    procurar enxugal-as por toda a qualidade de sacrificios.

    Capaz de heroica abnegação em bem dos outros, se frequentemente se
    esquecia de beneficios recebidos, como se poderia censural-o, quando,
    habituado a realisal-os maiores, não exigia tambem dos favorecidos a
    gratidão em recompensa, parecendo até desconhecer os direitos que tinha
    a ella?

    Corajoso até á imprudencia, liberal até á prodigalidade, sincero até á
    rudeza desattenciosa, os seus maiores defeitos não passavam de nobres
    qualidades, levadas ao excesso.

    O que elle não sabia, ou não podia, era conserval-as no ordeiro meio
    termo, tão respeitado pela sociedade.

    O sangue dos vinte annos fazia doudejar aquella cabeça; os instinctos
    generosos faziam o tormento d'aquelle coração, porque se uma, em
    momentos de exaltação, conseguia romper com as generosas repugnancias do
    outro, a reacção era infallivel, e este, mais tarde, obrigava-a a
    arrepender-se, descobrindo, e exagerando até as nem sempre remediaveis
    consequencias dos seus desvarios e caprichos.

    Carlos era d'estes homens, que encerram e alimentam no proprio seio o
    seu principal inimigo.

    Entre Carlos Whitestone e o pae existia um cordial e puro affecto, ainda
    que disfarçado, em ambos elles, sob apparencias de frieza e de reserva
    da mais genuina indole britannica. Raras vezes se procuravam os dois, e
    sempre que, nas occasiões ordinarias, se viam juntos, poucas palavras
    trocavam. Quando mais solta se desenvolvia a loquacidade de Mr. Richard
    na presença do filho, era ao saborear os ultimos calices, depois do
    jantar de familia; mas, ainda então, a conversa quasi se reduzia a uma
    especie de extenso e variado monologo, recitado por aquelle e
    interrompido por este apenas com algumas phrases de assentimento, em que
    predominavam os _Yess_, ao mesmo tempo que os labios se armavam de um
    sorriso de complacencia–nem sempre segura fiança de attenção.

    Carlos respeitava o pae, amava-o até com extremos capazes de lhe
    inspirarem os maiores sacrificios, e comtudo evitava-o, como se, junto
    d'elle, se não achasse á vontade.

    E não achava, de facto.

    Possuia Carlos um d'estes genios, que não supportam constrangimentos; ou
    hão de romper com elles ou evital-os.

    Calava-se, onde não podia abandonar-se aos caprichos de uma conversa
    futil; entristecia, onde lhe fossem estranhadas as expansões de uma
    alegria infundada, de um d'esses irresistiveis jubilos de creança, que,
    como tal, em puerilidades se revela. Dessem-lhe a liberdade de poder ser
    estouvado, vel-o-iam talvez sisudo; mas, forçado a isto, tornava-se
    sombrio e de mau humor.

    Ora a austeridade de costumes de Mr. Richard Whitestone, a rigidez dos
    seus principios de decoro e de respeito ás praxes da etiqueta ingleza,
    exerciam sobre Carlos uma influencia, contra a qual não tinha coragem de
    revoltar-se; e porisso fugia-lhe.

    No pae via quasi sempre um juiz severo e inflexivel, prompto a julgal-o
    e a condemnal-o talvez; e Carlos, que habitualmente trazia na
    consciencia algum peccado de juventude a remordel-a, e que não confiava
    no seu poder de dissimular, furtava-se, quanto podia, ás investigações
    do jury paternal, sempre antevistas por elle e bem longe ás vezes do
    intento de Mr. Richard Whitestone.

    Este, de seu lado, não amava menos extremosamente o filho; para as
    verduras da mocidade era indulgente, como, em tempos passados, desejara
    e precisara que fossem tambem comsigo; Deus sabe que esforços lhe
    custavam até estes sisudos ares de convenção, tão oppostos ao fundo de
    desafogada jovialidade do seu caracter, e que não conseguiam dissipar o
    sorriso, que tinha como que stereotypado nos labios.

    Julgava elle, porém, do dever de pae e natural mentor, que era de
    Carlos, conservar sempre certo ar de hombridade e de quasi rudeza para
    com o estouvado, que, não raro, lhe estava dando motivos para mais
    severas penas.

    Á sua precisão britannica repugnavam longos discursos de moral e
    prolixas catecheses. Laconico, n'estas cousas, por systema e por
    espirito nacional, nunca usava de parabolas para chamar ao aprisco a
    ovelha tresmalhada.

    Um unico «Ho!» mas pronunciado com aquella expressão, que só a larynge
    britannica lhe sabe dar, um _ho_ aspirado, guttural, eloquente, inglez
    emfim, combinado a um abanar de cabeça rapido e desapprovador, e a dois
    ou tres particulares estalidos de lingua, eram os signaes de impaciencia
    e de desagrado que Mr. Richard manifestava, e dos quaes mais se temia
    Carlos, do que se temeria de qualquer menos concisa formula, sob que
    podesse revelar-se a censura paternal.

    Dia, em que aquelle fatal «_oh!_» lhe tivesse soado aos ouvidos, já não
    se confiava despreoccupado a inteiro prazer; passava-lhe uma nuvem no
    firmamento azul da juventude, limpido como o de poucas.

    Promettia então emendar-se; solemnemente a si proprio o promettia, mas
    cêdo a promessa era esquecida até que nova e similhante occasião a
    renovava.

    Outro era o sentir de Carlos para com a irmã.

    Jenny era o seu anjo bom, e o anjo bom da familia toda, a meiga, a
    benigna fada, cujo olhar serenava as tempestades, e desanuviava o sol.

    Com sorrisos decidia, para o bem, os combates de paixões. Debil e
    delicada era aquella mão, mas quantas vezes Carlos a encontrára
    interposta entre si e o precipicio, para lhe servir de amparo! Delgado e
    vacillante imaginar-se-hía aquelle braço, mas firme o sentia ella sempre
    ao ter de sustentar o irmão na quéda imminente, ou de eleval-o até si.
    Branda e suave lhe saía dos labios a voz, mas só ella se fazia escutar
    dos ouvidos, quando o tumulo das paixões os ensurdecia.

    Não havia segredo entre os dois. De pequeno se costumára Carlos a vir
    contar a Jenny quasi todas as acções da sua vida, boas ou más que ellas
    fossem.

    Referia-lhe, um por um, e com sincera ingenuidade, os pensamentos
    dominantes do dia, e mais do que uma vez conseguira vencer-se, quasi ao
    ceder á tentação de actos menos generosos, só para não ter de os
    confessar depois a este affectuoso juiz, e merecer-lhe uma amigavel
    reprehensão entre sorrisos ou o mal reprimido movimento de desgosto
    d'aquelles bonitos labios, o que devéras o magoava.

    Nem menos o affligiriam os remorsos, se procurasse subtrahir-se á pena,
    não denunciando o delicto. A consciencia costumava censurar-lhe tambem
    estas faltas, nas raras vezes que as commettia.

    Jenny, igualmente attendida pelo irmão e pelo pae, servia-se d'esta
    duplicada influencia para harmonisar toda a familia, nos momentos de
    receiada discordia.

    Com uma palavra extinguia qualquer irritação, que as extravagancias de
    Carlos podessem ter produzido no animo de Mr. Richard; com outra
    dissipava no irmão as menores tendencias á insurreição, tão naturaes á
    idade e temperamento d'elle contra alguma medida repressiva, posta, de
    quando em quando, em pratica pelo pae, como em ultimo recurso.

    Frequentes vezes o pequeno erario de Jenny abrira-se a solver dividas,
    imprudentemente contrahidas por Carlos, e a remediar todas as más
    consequencias das suas leviandades. Estava sempre prompta a advogar-lhe
    os pleitos, a minorar-lhe as culpas.

    Mas tambem o que ella não conseguisse de Carlos, ninguem mais na terra o
    conseguiria.

    Deixar adivinhar desejos, era formular pedidos; uma supplica,
    timidamente expressa, valia por uma ordem imperiosa. E comtudo Jenny
    nunca procurava tornar apparente este predominio; antes se esforçava por
    o dissimular.

    Conhecendo, mais por muito reflectir do que por experiencia, que não a
    tinha, os mil mysterios e caprichos do coração humano, toda a sua
    admiravel diplomacia feminina estava em saber fazer-se obedecida,
    brincando; em aceitar e agradecer, como concessões espontaneas, o que
    lhe dizia a consciencia ser o resultado de suas insinuações e pedidos.

    Desenvolvia-se de ordinario uma perfeita tactica, e engenhosamente
    tecida da parte de Jenny, em quasi todas estas conferencias intimas
    entre os dois irmãos.

    Virtuosa e sympathica hypocrisia, com que Jenny, para dominar, se
    humilhava!

    Quando os anjos nos imitam na dissimulação, ainda então não perdem a sua
    candura. São sempre anjos. Roçam com as azas pelo lôdo do mundo, mas
    levantam-se immaculados.

    Quem ensinára a Jenny, cuja vida se deslisára quasi toda no tracto
    intimo de sua pouca numerosa familia, esta sciencia do coração, que
    dizem só adquirir-se no muito lidar com os homens e com o mundo? Já o
    indicamos:–a sua indole pensativa, os seus habitos de reflexão. Mais se
    aprende na leitura meditada de um só livro, do que no folhear
    levianamente milhares de volumes. Assim tambem no estudo dos caracteres.
    Observadores ha, que, após annos e annos gastos a viver com os homens,
    morrem em ingenua ignorancia a respeito d'elles; outros que, na solidão
    do gabinete, perscrutam no proprio coração os segredos dos mais,
    decifram-os, porque, descobertas ahi as leis principaes e communs a toda
    a natureza humana, facil é adivinhar depois as secundarias, d'onde
    procedem as differenças. Surprende devéras quando se vê saír d'esses
    cantos obscuros um homem a todos desconhecido, e que a todos parece
    conhecer. Como e onde aprendeu este homem tudo isto? Pela observação
    desapaixonada em si, ou, quando muito, nos seus mais proximos; depois a
    intelligencia, vigorada por este ensino, abalançou-se, guiada por
    vestigios na apparencia insignificantes, a inducções fertilissimas.

    Carlos não sabia resistir muito tempo á irmã. Sem suspeitar que cedia,
    recuava passo a passo. Aproximava-se do fim, onde a habil contendora o
    queria levar, e, ao attingil-o, ficava surprendido de haver realisado,
    com tão pouco custo, suppostos sacrificios, cuja ideia só, momentos
    antes, o tinha feito desanimar de emprehendel-os.

    Por não differentes processos, cada dia se vergava, por assim dizer, ás
    mãos de uma creança o caracter geralmente considerado inflexivel de Mr.
    Richard Whitestone.

    E com tal habilidade aprendera Jenny a occultar estas pequenas, mas
    importantes victorias, que a todo o instante obtinha sobre os seus, que
    mal vinha á ideia do bom _gentleman_, quando, muito convencido do que
    dizia, se jactava de ser firme nas suas resoluções, e pouco propenso a
    revogar projectos formados, que, n'aquelle mesmo momento talvez, lhe
    estavam dando seus actos solemne desmentido.

    Taes eram os principaes membros da familia Whitestone, com quem
    travaremos mais intimo conhecimento nos varios capitulos d'esta
    singelissima historia, em cujo decurso, desde já o declaramos, para não
    alimentar illusorias esperanças, a acção prosegue desimpedida de
    complicadas peripecias.

    III

    NA AGUIA D'OURO

    Era uma das ultimas noites do carnaval de 1855.

    Havia menos estrellas no céo, do que mascaras nas ruas. Fevereiro, esse
    mez inconstante como uma mulher nervosa, estava nos seus momentos de mau
    humor; mas, embora; o folgazão entrudo ria-se de taes severidades e
    dançava ao som do vento e da chuva, e sob o docel de nuvens negras que
    se levantavam do sul. Graças á cheia do Douro, a cidade baixa podia bem
    prestar-se n'aquella época a uma parodia do carnaval veneziano.

    Á porta dos theatros apinhava-se a multidão; os altos brados dos
    vendedores de senhas e os agudos falsetes dos mascarados atordoavam os
    ouvidos. Dos cabides dos guarda-roupas, provisoriamente armados nas
    lojas circumvizinhas aos principaes salões de baile, pendiam vestuarios
    correspondentes a todas as épocas e a todas as nações, e alguns, aos
    quaes não era possivel assignar época, nação, classe ou condição social
    conhecida.

    Numerosos grupos de espectadores paravam diante das exposições de
    mascaras á venda e tornavam o transito n'aquellas ruas quasi
    impraticavel. Era uma fascinação analoga á que produz um conto de
    Hoffmann em imaginações excitaveis, e exercida n'elles por tantas
    mascaras enfileiradas, cuja diversidade comica de expressão e de gesto
    lembrava um enxame de cabeças mephistophelicas, surgindo á luz para se
    rirem das loucuras da humanidade.

    Estes absortos contempladores a cada passo vinham a si,
    desagradavelmente acordados pelas pragas energicas dos conductores de
    carruagens, prestes a atropellal-os, ou pela interjeição pouco
    harmoniosa dos cadeirinhas obrigados por causa d'elles a irregularidades
    no andamento da sua grave e benefica tarefa. Só então, e ainda a custo,
    se dispersavam, para, alguns passos mais adiante, se agglomerarem de
    novo.

    Se é licito comparar as grandes ás pequenas cousas, veremos n'estes a
    imagem de todos os inoffensivos scismadores d'este mundo, a quem sempre
    cruelmente vem despertar o embate dos afadigados em emprezas positivas.

    A animação era geral na cidade.

    Todos corriam com ancia… a enfastiarem-se, fingindo que se divertiam.

    Alguma cousa havia tambem na Aguia d'Ouro, a anciã das nossas casas de
    pasto, a velha confidente de quasi todos os segredos politicos,
    particulares e artisticos d'esta terra; alguma cousa havia n'essa
    modesta casa amarella do largo da Batalha, que desviava para lá os
    olhares de quem passava.

    Desde as tres horas da tarde que o tinir dos crystaes e das porcellanas,
    o estalar das garrafas desarrolhadas, o estrepito das gargalhadas, das
    vozerias tumultuosas, e dos _hurrahs_ ensurdecedores rompiam, como uma
    torrente, do acanhado portal d'aquelle bem conhecido edificio; e por
    muito tempo essa torrente, á maneira do que succede com a das aguas dos
    rios caudalosos ao desembocarem no mar, conservava-se distincta ainda,
    através do grande rumor, que enchia as ruas.

    Os criados subiam e desciam azafamados as escadas, cruzavam-se ou
    abalroavam-se nos corredores, hesitavam perplexos entre ordens
    contradictorias, vinham apressar os collegas na cozinha ou entretinham
    com promessas os impacientes convivas da sala.

    No entretanto o modesto e solitario freguez, a quem uma velleidade
    estomacal convidára a ir ceiar a humilde costelleta, principal trophéo
    culinario da casa, era pouco attendido e, farto de esperar, retirava-se
    sorrateiro e cabisbaixo.

    Sob apparencias de modestia, a Aguia d'Ouro parecia d'esta vez aureolada
    de não sei que magestade, condigna do seu emblema.

    A luz escassa de um lampeão da rua, batendo sobre a ave de Jupiter, que
    corôa a taboleta do estabelecimento, parecia dar-lhe reflexos, mais
    brilhantes do que os do costume.

    Que era noite solemne para a casa, aquella casa que tem já dado que
    entender a ministerios e a emprezarios lyricos, não podia haver duvida.

    Cá em baixo, os serventes do café fallavam a meia voz e mostravam no
    olhar certo ar de preoccupação, certa importancia no gesto, como se
    effectivamente se estivesse passando cousa de momento no andar de cima.

    O café contrastava porém com a animação que se percebia nas salas da
    hospedaria.

    Estavam desertos os logares d'aquella abafada quadra, em cujas paredes
    ainda então existiam, e ameaçavam perpetuar-se, reproducções, em lona,
    dos combates que restabeleceram a independencia da Grecia; a luz
    amortecida dos candieiros não dissipava as sombras dos recantos.

    O marcador do bilhar cabeceava com somno.

    Os bailes de mascaras tinham derivado d'alli até os homens politicos.
    N'aquella noite as discussões sobre a guerra da Crimeia, então na ordem
    do dia, travavam-se ao som das walsas e das mazurkas, nos theatros.

    Não é pois n'este logar, agora melancolico e quasi lugubre, que eu
    pretendo demorar o leitor.

    Subamos, e, por entre os criados que encontrarmos nas escadas e
    corredores, penetremos na sala d'onde provém o ruido de festa que já
    noticiamos.

    O leitor por certo conhece o recintho. As suas particularidades
    architectonicas não requerem tambem as fadigas da descripção.

    É um jantar de rapazes a festa, a que viemos assistir.

    Chegamos, porém, tarde.

    O fumo dos charutos ennevoa a sala e empana o fulgor das luzes; o jantar
    vae no fim, a desordem portanto no ponto culminante.

    Ha já calices partidos, vinhos preciosos extravasados, convivas em todas
    as posições, algumas indescriptiveis.

    A vozeria é atordoadora. A confusão póde dar uma ideia de Babel.

    Tratam-se simultaneamente todos os assumptos; as transições fazem-se com
    uma rapidez, que surprende e embaraça os proprios interlocutores;
    attenção, que se desvie um segundo, é attenção perdida; não encontra
    depois já o dialogo onde o deixou; ás vezes a conversa generalisa-se;
    momentos depois, distribue-se em especialidades por diversos grupos;
    mais tarde, generalisa-se de novo; em certas occasiões, todas as bôcas
    fallam, cada um se escuta a si; n'outras algum orador consegue por
    instantes fazer-se escutar de todos, até que um áparte, um incidente, um
    gesto, restabelece a independencia primitiva. Dão-se tambem verdadeiros
    encruzamentos de conversas; o dos pés da mesa responde ao dito que ouve
    ao da cabeceira, emquanto que os intermedios se entreteem de outros
    objectos; é um baralhar de palavras, em que a custo se tira a limpo a
    expressão do pensamento.

    Alli falla-se em litteratura e ouve-se, de quando em quando, pronunciar
    o nome de algum romancista ou poeta de vulto ou da moda; perto,
    discute-se politica e julgam-se n'um momento, e com a mais desenganada
    critica, as primeiras capacidades financeiras, diplomaticas e militares
    da época; conversam mais longe de aventuras de amor dois rapazes
    fronteiros e, atravessando-se diagonalmente com tão agradavel prática, o
    dialogo de outros dois exerce-se sobre modas de casacos; um grupo
    exalta-se, tratando assumptos de theatro lyrico e premeditando pateadas
    e ovações; juntos d'este, dois enthusiastas de hippicultura fazem a
    historia pittoresca de compras, vendas e manhas de cavallos. A propria
    philosophia allemã fornece alimento á animação dos discursos; e tudo
    isto interrompido de gargalhadas, de cantigas, de juras e exclamações em
    todas as linguas.

    Seria igualmente difficil determinar o elemento commum dos individuos
    reunidos alli.

    Ha-os das mais diversas condições; desde o joven padre, que põe a
    tractos a sciencia e a paciencia dos cabelleireiros para disfarçar,
    quanto for possivel, os vestigios da tonsura, até o official do
    exercito, todo possuido das branduras civilisadoras do seculo e para
    quem a mesma caça é occupação barbara e afflictiva da sensibilidade;
    ha-os das mais diversas idades, desde o collegial de hontem, ainda
    imberbe e embriagado com as primeiras commoções da vida de adolescente,
    até o velho, que, ingenuamente persuadido de que o tempo se esqueceu de
    lhe ir contando os annos, deixa passar a geração, contemporanea sua, e
    insiste em viver, entre rapazes, vida de rapaz; ha-os em diversas
    circumstancias monetarias, desde o capitalista, que vê correr descuidado
    a fonte dos seus rendimentos, com tranquillisadora confiança no
    inesgotavel manancial que a alimenta até á classe dos _encostados_,
    verdadeiros martyres da moda, cuja vacuidade de bolsa lhes constrange a
    imaginação a fabricar systemas quotidianos para os manter, embora á
    custa de humiliações n'aquella atmosphera, fóra da qual já não sabem
    respirar; ha-os de todos os graus de intelligencia, desde o escriptor
    applaudido e que, sem favor ou com elle, conquistou reputação nas
    lettras, até o analphabeto, cujas sandices são saudadas com gargalhadas
    que ninguem procura reprimir na presença d'elle proprio.

    Finalmente, esta reunião de elementos, debaixo de todos os pontos de
    vista tão heterogeneos, é uma porção da sociedade, que pretenciosamente
    se decora com o titulo de elegante e para pertencer á qual é difficil
    fazer resenha dos requisitos necessarios; pois que nem a propria
    elegancia–na verdadeira accepção do termo–é dote generico dos seus
    membros.

    O motivo do jantar… O jantar não tinha motivo e era esta outra
    circumstancia que o caracterisava. Um jantar póde muito bem ser motivo
    de si mesmo: sendo possivel d'elle dizer-se de alguma sorte, em
    linguagem philosophica, que tem em si a «razão sufficiente da sua
    existencia».

    Na companhia encontraremos alguem já conhecido nosso.

    E como, até agora, só tenho apresentado ao leitor tres pessoas, não será
    prova de grande perspicacia, da sua parte, adivinhar qual d'essas tres
    será.

    Effectivamente é Carlos Whitestone um dos convivas e não dos mais
    sisudos.

    Ficava proximo da cabeceira da mesa. Carlos era quem mais vezes
    conseguira encaminhar a um fito unico todas as attenções e modificar a
    assembleia a ponto de se lhe poder referir o _conticuere omnes_ da
    _Eneida_;–verdade é que não tão completamente o fizera como o heroe
    troyano, pois nem tinha destruição de Ilion a descrever, nem a paciencia
    dos tyrios a escutal-o.

    Carlos Whitestone passava por estar muito em dia com os boatos comicos e
    escandalosos, de que sempre e em toda a parte é tão sôfrego o paladar
    social.

    Por isso o escutavam todos com prazer.

    Sinto que não chegassemos a tempo de ouvir o principio da narração, que
    elle levava em meio.

    –O nosso homem–dizia Carlos, accendendo um charuto no de um
    jornalista; seu vizinho–apesar do aviso que recebera, resolveu na
    melhor das boas fés…

    –Então é a boa fé dos maridos–commentou a meia voz um padre, que,
    atrazado nas operações gastronomicas, investia com denodo contra um
    tymbale de pombos, ainda miraculosamente intacto, e acrescentou:–Não
    sei de outra, que a exceda.

    –Regula por essa a dos amantes ingenuos–acudiu Carlos ao commentario.

    –Mas é de menos consequencias–respondeu o outro.

    –Silencio, padre Manoel!–bradaram algumas vozes–Vamos lá, Carlos; e
    depois?

    –Depois–proseguiu Carlos–enfeitou-se, perfumou-se, aparamentou-se,
    frisou-se…

    –E tingiu-se; que não esqueça–acrescentou do fim da mesa uma voz.

    –E tingiu-se; sim–disse Carlos–e feitos todos estes aprestos,
    caminhou para a entrevista.

    –E como se realisava essa entrevista?–perguntou um militar.

    –De uma maneira muito singular;–proseguiu Carlos–o conselheiro, todas
    as noites, depois de pousar na relva o chapéo, a bengala e as luvas,
    trepava como um eschilo, pela faia que fica junto da varanda e…

    –Ora! Impossivel!–exclamaram alguns, rindo.

    –Palavra!

    –Isso é contra todas as leis da mechanica, aquelle bojo…–principiou
    a dizer um estudante da Universidade.

    –Pelo contrario;–atalhou outro–é exactamente o bojo que o faz subir.
    Lembra-te do principio de Archimedes. Os aereostatos…

    A quéda do conselheiro seria uma bella experiencia para um curso de
    physica…

    –Divertida…–annotou uma voz.

    –Como exemplificando as leis da quéda dos graves… um tão _grave_
    personagem–concluiu o primeiro.

    Estes sujeitos guindavam o _calembourg_ ao supremo grau da escala do
    espirito.

    –Então? deixem fallar Carlos; e depois?–disseram alguns curiosos.

    Carlos continuou:

    –N'aquella noite, porém, estava reservada ao conselheiro a mais triste
    surpreza; ao entrar na espessura da folhagem, deu de cara com o outro.

    –Com o Victor?

    –Exactamente, com o Victor. Imaginem agora vocês o soberbo dialogo, que
    se seguiu ao encontro.

    –Devia ser preciosissimo! Que harmonioso certame de rouxinoes!

    –O conselheiro principiou talvez por dizer-lhe:

    _Tytire, tu patulæ recubans sub tegmine fagi
    Formosam resonare doces Amaryllida silvas_

    –Protesto contra o _recubans_. A posição de Victor era menos commoda.

    –_Mutatis mutandis_, já se sabe.

    –Ó padre Manoel, dize-nos como a tua latinidade exprimiria a posição em
    que estava o Victor.

    –Não interrogues o padre. Não vês que elle está, como os antigos
    agoureiros, consultando as entranhas das aves? respeitemos a solemnidade
    do acto.

    –Mas as consequencias, Carlos, quaes foram as consequencias?

    –As consequencias foram as que vocês já sabem, o conselheiro…

    N'este ponto, a narração de Carlos foi interrompida por o criado da
    hospedaria, que se aproximou d'elle para lhe entregar a carta.

    –Com a sua permissão, meus senhores,–disse Carlos, preparando-se para
    abril-a.

    –Bravo!–exclamou o jornalista–temos carta de algum Ecco impaciente.

    –_E un foglio a me lasció_–cantarolou um _dilettante_, voltando as
    costas da cadeira para a mesa.

    –É a proposta de capitulação de alguma Troya sitiada–disse o militar.

    –Cheira-me a fumo de gambiarra e ribalda; temos intriga de camarim.

    –Antevejo então uma descarga de bilhetes de beneficio, a que poucos
    escaparemos.

    Carlos sorria, ao abrir a carta.

    –Ó Carlos, olha que são perigosos para as digestões os sobresaltos de
    coração–notou o estudante de medicina.

    –Socega; é um excitante a que já estou habituado–respondeu Carlos.

    De repente tornou-se serio.

    –Má nova!–disseram alguns.

    –O caso complica-se.

    –As exigencias da beneficiada sobem até o acrostico, querem ver?

    –Não é isso; aposto que mais outro conselheiro trepa uma segunda faia,
    e d'esta vez vinga o collega, na pessoa de Carlos.

    Carlos não os escutava já. Ergueu-se, aproximou-se do aparador, e
    escreveu no verso do bilhete, que recebeu, algumas palavras á pressa.

    Emquanto fazia isto, os companheiros do festim, fingindo dictar-lhe a
    resposta, diziam:

    –Meu anjo, se no céo…

    –Vôo nas azas do amor…

    –Qual outro Leandro, eu, naufrago…

    –Minha Heloïsa; se o infortunio de Abeillard…

    –Julieta, quando o rouxinol…

    Carlos voltou para a mesa, depois de fechar a carta e de entregal-a ao
    criado.

    Esforçava-se por manter nos labios o sorriso; mas o esforço era visivel,
    circumstancia que, como sempre, lhe annullava o effeito.

    –Que é isso?–disse o militar, que lhe ficava defronte–respiraste a
    peste n'essa carta?

    –O nosso Manrique terá de correr a salvar a sua Leonora das garras de
    um conde de Luna?–disse o _dilettante_.

    –Ulysses voltou aos lares domesticos; o que vale por um mandado de
    despejo aos…

    –Um capellista, menos attencioso, insiste pelo prompto pagamento de uma
    avultada conta de enfeites.

    –Um dominó leva a sua ingratidão até…

    –Já vão numerosas as hypotheses–disse Carlos, enchendo um calix de
    vinho e procurando conservar ás suas palavras o tom jovial do principio
    da noite; depois acrescentou:–Este bilhete era para me recordar…

    –Ai! recordações!…

    _Te souviens tu, de même,
    De nos transports brulants_…

    –Para me recordar que era hoje o dia dos meus annos–concluiu Carlos.

    –Devéras!

    –É o que eu te digo.

    _Quan tu m'as dit: «je t'aime!»
    J'avais alors vingt ans_.

    –E estavas calado com isso.

    –Se o ignorava! Quando o soubesse a tempo, não me teriam aqui.

    –Então? Receber-nos-hias em tua casa?

    –Tambem não. Costumo consagrar estes dias exclusivamente á vida de
    familia.

    –Oh! oh! sentimentalismo!

    –Britannico! Pés no _fender_, _punch_ na mesa, _Times_ na mão. E de
    quando em quando um monossyllabo rosnado, ou uma interjeição, que produz
    na garganta o effeito do acido prussico. Delicioso!

    –Deve ser um céo aberto!

    –Mas céo inglez, um pouco turvo de nevoeiros.

    –E de carvão de pedra.

    –Não esquecendo uma paraphrase de algum texto biblico.

    –E umas variações vocaes sobre motivos do _God save_.

    Carlos sorriu, respondendo:

    –Creiam-me, de vez em quando, tem seus prazeres tambem um dia passado
    assim.

    Eu quero acreditar que, dos circumstantes, muitos, se não todos, sentiam
    a verdade do que acabára de dizer Carlos, e tambem possuiam faculdades
    para apreciar estes intimos gosos de familia; mas envergonhavam-se de
    fazer tão claro, e em plena ceia de carnaval, tal confissão. Que querem?
    não está em moda trazer o coração á vista. É costume tratar, como
    ridiculas, todas as manifestações de sentimento; consideram-se como
    pequenas fraquezas que com milhares de outras, só se devem confiar na
    discrição das quatro paredes do nosso quarto.

    Carlos porém não sabia dissimular; com verdadeira convicção e franca
    ingenuidade, dissera aquellas palavras, que lhe valeram allusões
    epigrammaticas ao que elles chamavam «respeitabilissima tendencia para
    pae de familias».

    O bilhete, que motivára esta scena e que parecia haver impressionado
    devéras Carlos, era da irmã e dizia apenas:

    «Charles.

    É hoje o dia 19 de fevereiro. Fazes vinte annos. Julguei que seria
    desnecessario pedir-te para nos dares o prazer de te vermos comnosco. O
    pae esperava-te. Adeus.

    _Jenny_.»

    A este pequeno bilhete, Carlos respondeu apenas:

    «Jenny.

    Confiaste de mais na minha memoria; acredita que me esqueci. Não me
    succederia o mesmo de certo, se, em vez do meu, fosse o dia do
    anniversario de qualquer de vós. Fazes-me a justiça d'essa supposição,
    não é verdade? Agora não posso valer-lhe. Obriguei-me a seguir até o fim
    companheiros tão doudos como eu; e, quando os deixasse, não sei se ainda
    iria em estado de poder, sem profanação, sentar-me ao teu lado, á santa
    e patriarchal mesa de familia. Bem vês que nem vale a pena festejar o
    dia, em que veio ao mundo mais uma cabeça leve. Ámanhã te pedirei
    perdão… Como me lembrei tambem de fazer annos na segunda-feira de
    entrudo?!

    Teu mau irmão

    _Charles_.»

    A final, após algumas explicações mais, um dos convivas levantou-se e
    empunhando o calix:

    –Meus senhores, proponho que saudemos o anniversario de Carlos–bradou,
    em tom de brinde.

    –Apoiado–responderam todos, imitando-o.

    –Carlos–continuou o primeiro–bebo aos teus vinte annos! Contes pelos
    trezentos e sessenta e cinco dias, que se vão seguir ao de hoje, as
    paixões que fizeres nascer; e possas tu…

    –Não se admittem longos _speeches_; olá! Bebamos!–disse uma voz.

    –É sempre mais expressivo o gole que entra, do que a phrase que
    sáe–acrescentou outra.

    –Até porque, devendo sempre dar-se a primazia ao mais sabio, é o vinho
    que a merece; pois é elle, n'este momento, o que mais _sabe_.

    –Ora faze-nos o favor de nos poupar, ao menos agora, á difficil
    digestão dos teus _calembourgs_.

    –Então? Bebamos!–insistiu o côro.

    E o brinde foi geral.

    Carlos correspondeu constrangido áquella saudação. Parecia-lhe estar
    vendo Jenny a olhal-o com uma expressão de amigavel desgosto; Jenny, a
    unica a fazer companhia ao velho negociante, que não pouco devia ter
    sentido a ausencia do filho. Durante toda a noite já não era para o
    pobre rapaz dissipar completamente aquella impressão penosa.

    Apoderára-se de Carlos Whitestone um pensamento fixo, um quasi remorso
    de se ver alli; e este effeito, se não lhe distrahia completamente a
    attenção dos assumptos, que na sala se tratavam, enfraquecia-lhe a
    intensidade d'ella a ponto de nem já tomar parte nas discussões, nem o
    occuparem, por muito tempo, as ideias aventadas por os outros.

    Á placa da camara escura, não preparada na officina photographica, é
    comparavel o pensamento, em occasiões assim. Lá se gravam ainda as
    imagens das cousas exteriores, mas, não as fixando a attenção,
    dissipam-se rapidamente, removidos os objectos que as motivaram.

    D'ahi o tom distrahido e indifferente das raras observações feitas por
    Carlos no resto da noite, e a impaciencia de algumas respostas, que foi
    forçado a dar.

    Entre muita cousa, que se disse na sala, eis o que elle ouviu, sem
    escutar; a qualquer d'estes assumptos não costumava Carlos, nas
    ordinarias disposições de espirito, recusar attenções, nem esquivar a
    concorrencia propria.

    O jornalista, que ficava ao lado d'elle, interpellou-o pela preoccupação
    em que o viu.

    Ora uma observação qualquer da parte d'este jornalista tendia fatalmente
    a degenerar em longa revista litteraria, que era difficil interromper.

    –Que tem você, homem? O tal bilhete produziu um effeito quasi
    apopletico. Coragem! É negocio de coração? Alguma loura e nevada _miss_?
    hein? Oh! as inglezas! A desassombrada candura do seu suavissimo _to
    flirting_!–d'aquelle _flartar_, como, com tanta razão, traduz Garrett,
    á falta de melhor vocabulo.

    E elle ahi principiava:

    –Você já leu Garrett, Carlos? Que me diz d'aquellas _Viagens_, hein?
    Oh! é inquestionavelmente o melhor dos seus livros. Prefiro-as ás de
    Xavier de Maistre. Que eu não participo da admiração geral por Xavier de
    Maistre; é preciso que saiba.

    Pausa, durante a qual saboreou um gole de Xerez. Depois de alguma
    asserção mais arrojada, a pausa era de rigor.

    Carlos, já se sabe, não redarguiu. N'este intervallo, pôde ouvir o
    conviva proximo, que dizia:

    –Eu agora o que desejava era ter, pelo menos, trezentos contos de réis;
    ia d'aqui a Paris; depois…

    O jornalista proseguiu:

    –Xavier de Maistre inspirou-se de Sterne; é evidente; ficou porém a
    grande distancia d'elle. A _Viagem sentimental_, sim. Oh! A _Sentimental
    journey_. É um livro delicadamente temperado de uma certa especiaria
    philosophica, unica que se combina com vantagem á litteratura amena. O
    _humour_ morreu com Sterne.–Pausa.–A demasiada philosophia gela a
    inspiração litteraria. Ahi tem Pope. É frio, é árido, é
    marmoreo.–Pausa.–Os poetas francezes não teem tanta tendencia para se
    deixarem _philosophicar_, permitta-me o neologismo. Victor Hugo, ás
    vezes… Qual prefere você, ó Carlos, Lamartine ou Victor Hugo? Victor
    Hugo é mais byroniano. E é notavel que fosse Lamartine quem cubiçasse o
    _Childe Harold_. Força de contrastes! Aquelle _Childe Harold_! aquelle
    _Childe Harold_! Que me diz você áquelle _Childe Harold_? É o unico
    poema verdadeiramente romantico, que se tem escripto até
    hoje.–Pausa.–Perdôo-lhe o _Poor, paltry slaves_! com que nos mimoseia.
    E note que eu não sou admirador cego do Byron.

    Nova e maior pausa, durante a qual o orador accendeu um charuto.

    Carlos continuava calado.

    Percebeu então que n'um grupo vizinho se dizia:

    –Quem tem uma bonita parelha é o visconde de Custoias.

    –Melhor é a do Manoel Galveias.

    E mais adiante:

    –Perdão, menino; mas para mim a synthese não é uma mera condensação dos
    factos analyticos; a synthese precede a analyse, e dá a esta a força que
    vae buscar ao mundo interior, isto é, verte n'ella o immutavel, os
    principios evidentes; Kant…

    O jornalista continuava:

    –Eu não me regulo pela critica convencional. É o meu systema. Não me
    resolvo a entoar _amen_ á opinião dos povos.–Pausa.–Por exemplo, tenho
    a sinceridade e a coragem de confessar que não me fascina Dante.

    Grande pausa.

    –Padre Manoel–dizia n'esta occasião, do fundo da mesa, um dos
    convivas, apontando para o calix, que levava aos labios–_Ecce Deus qui
    lætificat juventutem meam_.

    O padre sorriu, mas não disse nada. Comia.

    –Porque a final de contas–proseguiu o discursador–você ha de
    concordar commigo; Dante é um rapsodista quasi como Homero. Que é a
    _Divina Comedia_, senão o compendio das crenças religiosas d'aquelle
    tempo?

    Pausa.

    –O que ha a respeito da revolução carlista em Pamplona?–ouviu Carlos
    perguntar.

    –Nada mais se sabe por emquanto, apenas que estão implicados alguns
    sargentos, cabos e paizanos–respondia outra voz.

    E continuava a dissertação litteraria:

    –O grande merecimento de Dante é o da fórma. Lá essa qualidade tem
    elle. Logo os primeiros versos:

    _Nel mezzo del cammin di nostra vite_…

    Acho porém dotes superiores em Boccacio.–Então que quer? É um espirito
    encarnado em corpo de menor vulto, mas… você já leu o _Decamaron_?
    Deve ler. É um livro excepcional. Ha n'elle alguma cousa que vae além do
    seculo, em que foi escripto. E esse é o signal supremo do genio. As
    imitações de La Fontaine são pallidas. Desengane-se. La Fontaine, a
    final, era contemporaneo de Luiz XIV. N'aquella côrte não podia existir
    a verdadeira inspiração. Abomino a litteratura d'esse tempo. Detesto
    Luiz XIV e o seu seculo.–Pausa.–Molière salva-se, mas porque? Porque o
    genero comico tem uma índole especial. Não é a inspiração que o regula;
    é a analyse, é a reflexão philosophica.

    –Eu aposto–berrava um politico–que se os alliados se metterem a dar o
    assalto a Sebastopol, não fica um só vivo.

    –Veremos–questionava outro.–Deixa Omer-Pachá occupar a estrada de
    Sebastopol a Simphirepol e depois fallaremos. Olha que elle já
    desembarcou na Eupatoria com quarenta mil homens.

    O jornalista continuou:

    –Ha um unico homem que admiro, em qualidades comicas, mais do que
    Molière, é Rabelais. Oh! o Rabelais é o meu livro! Ha tres livros que
    nunca tiro da minha banca de estudo, nem da minha mala de viagem.

    –É a _Biblia_, os _Lusiadas_ e o _Paulo e Virginia_. Já sei. É o
    costume–disse emfim Carlos, levantando-se, já impaciente e procurando
    subtrahir-se á torrente de perguntas, respostas, apreciações criticas,
    cotejos e citações, que saíam, em tom categorico, da palavrosa bôca do
    vizinho.

    –Não ha tal–respondeu este, porém, tomando-lhe o braço e levantando-se
    igualmente.–Esses são a formula dos tres grandes sentimentos da alma–o
    da religião, da patria e do amor;–bem o sei; mas confesso-lhe, o que,
    por temperamento, mais me seduz é a pintura social e a analyse das
    paixões, e só tres homens as fizeram bem: Lesage, Richardson e Rabelais.
    A creação de Pantagruel e Gargantua é famosa!

    –Quem dizes tu que tem uma garganta famosa?–exclamou, voltando-se, um
    _dilettante_, por traz de cuja cadeira os dois passavam n'aquelle
    momento..–Fallas de Ponti? Oh! que mulher! Que vocalisação! Que
    sentimento!

    –Ahi tornas tu com a Ponti–disse um velho rapaz, pronunciado
    adversario da prima-donna e um da numerosa seita, que passa metade do
    anno a suspirar pelo theatro lyrico e outra a dizer systematicamente mal
    das companhias escripturadas.–És capaz de sustentar que vae bem na
    _Norma_. Se ouvissem a Rossi-Cassi…

    –A Rossi-Cassi! Oh! por quem és, desalmado! Não sacudas reputações
    cobertas pelo pó do tempo! Pff! Que poeira! Vive da actualidade.

    –Fallar na Rossi com esse enthusiasmo de conhecedor equivale a um
    assento de baptismo feito pelo menos em 1800.

    –Nego–bradou embespinhado o velho rapaz.

    –_Parce sepultis_–disse o padre.

    –_Lascia la donna in pace_–trauteou outro _dilettante_.

    Carlos e o jornalista tinham passado adiante. O jornalista ia já a
    fallar em librettos de operas, em Felice Romani, em Manzoni, no _Ei fu_!
    do _Cinque maggio_… etc., etc., etc…

    Carlos foi retido agora pela mão de um rapaz, junto do qual tinham
    chegado.

    –Aqui está quem nos póde informar–dizia o que o segurava.–Ó Carlos,
    dize-nos uma cousa: conheces a Laura Viegas?

    –Não–respondeu Carlos, distrahido.

    –Conheces por força. A filha do Viegas, d'aquelle brazileiro, que
    comprou a quinta do Pedroso.

    –E então?

    –Mas conheces? Bem. Que dote achas tu que terá aquella rapariga?

    Carlos encolheu os hombros, significando a sua ignorancia e preparava-se
    já para seguir para diante, quando outro, a quem igualmente preoccupava
    esta sciencia dos dotes, o segurou por sua vez.

    –Não tem que ver; o Viegas não lhe póde dar mais de nove contos.

    –Triplique, e não lhe faz favor nenhum–disse, do alto da mesa, o
    padre, conseguindo passar esta nota por meio de uma briga travada entre
    os mais disparatados assumptos.

    –Ora ahi tens!–disseram os disputantes, aceitando o auxilio, como de
    valia provada.

    O padre limpava tranquillamente os beiços e enchia um calix de malvasia.

    –Então diz o padre Manoel que o Viegas…

    –O Viegas tem pelo menos…–dizia de lá o padre, elevando o calix
    entre os olhos e a luz, e revendo-se na limpidez do licor; e antes de
    completar a phrase, levou-o á bôca e despejou-o de um trago.

    Depois continuou:

    –Tem pelo menos … pelo menos…

    Aqui, enxugou os labios e emfim concluiu:

    –Sessenta e sete contos de réis.

    –Ora!

    Carlos passára para o outro lado da mesa, seguido ainda do jornalista,
    que lhe ía dizendo:

    –É a questão do dia–O dinheiro–A litteratura resente-se…

    E d'aqui passou a fallar de Alexandre Dumas, filho, de Emile Augier, de
    Ponsard … etc., etc…

    –Deixa-te d'isso;–dizia no ponto da sala a que os dois chegavam, um
    rapaz imberbe e ainda em estudos de preparatorios–a Emilia Victorina é
    outra qualidade de mulher. Ainda hontem, em casa do barão de Tavares, me
    encontrei com ella. Trajava de Maria Stuart. Era uma perfeita rainha,
    uma mulher distincta, esplendida.

    –Foi, foi; já não é. Descobriam-se-lhe os primeiros estragos, quando em
    ti appareciam os primeiros dentes.

    –A idade…–dizia outro.

    –Ora a idade! a idade! A mulher tem sempre a idade que parece ter.

    –Concordo; mas, depois dos quarenta e tantos annos, a mulher parece ter
    a idade que tem.

    –Barbaro! Ó Carlos, que dizes tu?

    –Digo que sim–respondeu Carlos, que nem attendera á discussão.

    –Está esta creança do Duarte a affirmar que prefere a Emilia Victorina
    á Marianna Prazeres.

    –E prefiro, repito.

    –Não sejas impio. Quem não acha admiravel aquella bonita cabeça da
    Marianna?

    –E a mão? Aquella mão comprida e delgada, onde as veias se desenham em
    azul; a verdadeira mão artistica, aristocratica.

    –No assumpto «mãos», peço licença para citar a primeira…–das
    provincias do Norte pelo menos, a da Clementina Rialva–lembrou um
    individuo, a quem a conversa arrancou a uma quasi modorra.

    –Apoiado!–entoaram muitas vozes.

    –A proposito da Clementina Rialva–exclamou uma chronica viva de boatos
    do dia–sabem que o Chico da Lousã, sempre a tira por justiça?

    –Devéras?!

    –Asseverou-m'o hontem o Brito, que, como sabem, é todo d'elle.

    –Terrivel catastrophe!

    –Deixa lá. O Chico o mais que quer é empregar-se. Ora o Rialva, pae,
    tem influencia e, feitas as pazes do estylo…

    –Sim, as pazes sentimentaes dos quintos actos dos dramas.

    –Que influencia tem o Rialva?–perguntou, encolhendo os hombros, um
    mallogrado aspirante á eleição popular.

    –Não. Está feito! O cunhado é empregado na secretaria do reino…

    –E o ministerio deve-lhe serviços.

    –Estás enganado. Foi moda fallar-se ahi muito nos serviços eleitoraes
    do Rialva; pois eu digo-vos que elle nem quatro votos arranjou ao
    Roboredo.

    –Como não arranjou? Ó menino! Pois quem levou lá o Roboredo?

    –Quem levou lá o Roboredo, foi…

    –Eu te digo, Pires; elle teve em tempo alguma influencia no ministerio,
    mas depois de um certo emprego na alfandega que pediu para o sobrinho, e
    que não obteve, abandonou a regeneração…

    –Que sobrinho? O que nós em Coimbra chamavamos o gigante Polyphemo? Oh
    que alarve!

    –Sempre foi um homem, que teve a habilidade de concluir o curso, e que
    nunca se pôde conformar com a existencia dos antipodas. Dizia elle que
    até lhe fazia mal pensar na posição incommoda, em que haviam de viver
    esses pobres diabos, se existissem…

    –E um dia em que elle…

    Unisona e estrepitosa gargalhada, partindo de um grupo, que estava já em
    pé no outro extremo da sala, interrompeu a historia.

    Todas as attenções e todos os olhares convergiram para alli.

    Eram quatro os rapazes que riam e riam até lhes caírem as lagrimas dos
    olhos. Junto d'estes, o quinto mostrava, em certo ar constrangido,
    poucas disposições para expansão igual.

    –É impagavel este homem!–dizia um dos que riam.

    –Que foi? que foi?–perguntavam os que não faziam parte do grupo, rindo
    já com anticipação tambem.

    O dos ares constrangidos respondeu:

    –Não façam caso; são doudos.

    –Que foi? digam–insistiam todos na sala.

    –É aqui o Claudio Pires, que fez uma das suas descobertas.

    –Eu disse…–tentou este interromper.

    –Silencio!–bradaram muitos a um tempo.

    –O Claudio!–continuou um dos que mais ria–ouvindo aqui o Lourenço
    fallar com elogio em um systema de comportas que viu no estrangeiro,
    observou-nos que havia de se dar bem por lá, porisso que nada se lhe
    accommoda melhor com o estomago, depois de jantar, do que as comportas.

    –Comportas de marmellos, ou assim uma cousa, é o que eu disse.

    A justificação foi suffocada por um côro geral de gargalhadas.

    –O barbaro era capaz de roer os diques dos Paizes Baixos e sacrificar a
    Hollanda a uma geral inundação.

    –Que terrivel capricho estomacal!

    –Vejam do que está dependente a sorte dos imperios! Esta escapou a
    Volney!

    E os ditos succediam-se, e cruzavam-se os epigrammas, e a confusão subia
    de ponto com isto.

    Até que emfim uma voz dominou o tumulto.

    –Reparem que são onze horas e que é tempo de fazermos a nossa entrada
    solemne nos bailes de mascaras.

    Era o velho rapaz que fallava, e erguendo-se da mesa, exclamou, enchendo
    o calix:

    –Ás nossas conquistas d'esta noite!

    –Apoiado!–disseram todos, imitando-o.–Ás nossas conquistas.

    E seguiu-se tal arrastar de cadeiras, que parecia uma tempestade.

    Passados alguns minutos, desembocavam do portal da Aguia os joviaes
    companheiros, depois de um jantar, que durara oito horas.

    Os passos de muitos resentiam-se do emprego d'esta terça parte do dia.

    Um dos convivas, que estivera até alli quasi sempre silencioso, tomou
    então o braço de Carlos e, apoiado n'elle, caminhou, com movimentos mal
    seguros, por o largo da Batalha, dizendo em tom confidencial e quasi
    commovido, estas palavras, que ia entremeiando com prolongadas
    aspirações no tubo do volumoso cachimbo.

    –Carlos, tu és meu amigo; talvez o único amigo que eu tenho… Por isso
    vou confiar de ti a ultima das impressões que eu revelei em verso… Eu
    gósto de fallar d'isto só com quem me entenda. Os poetas precisam de um
    coração para ecco. Almas de sensitiva…

    Apesar da intimidade, em que ia feita a confidencia, muitos dos que a
    ouviram acercaram-se d'elle, porque tinha certa nomeada o engenho
    poetico e improvisador do que fallava assim.

    Alguns porém já tinham travado conhecimento com varias mascaras
    desgarradas, que encontravam caminho do theatro. Dois seguiam cantando a
    plenos pulmões o duetto da Lucia:

    _O' sole più rapido a sorger t'apresta_

    O poeta confidencial principiou a recitar com certo enthusiasmo quasi
    selvagem, o seguinte hymno ao tabaco, o qual, devemos confessar, não era
    muito para produzir ecco nos corações:

    No centro dos circulos
    De nuvens de fumo,
    Um deus me presumo,
    Um deus sobre o altar!
    Nem d'outros thuribulos
    Me apraz tanto o incenso,
    Como o d'este immenso
    Cachimbo exemplar!

    Em divans esplendidos,
    Cruzadas as pernas,
    Fuma, horas eternas,
    O ardente Sultão.
    Subindo-lhe ao cerebro
    O magico aroma,
    Esquece Mafoma,
    Houris e Alcorão.

    Longe, oh! longe o opio,
    Que os sonhos deleita
    Da misera seita
    Dos Theriakis!
    Horror ao narcotico
    Que vem das papoulas!
    E ao que arde em caçoulas,
    No altar do Caciz!

    Que a raça gentilica
    Das zonas ardentes
    Consuma as sementes
    Do arabio café.
    Despejem-se as chavenas
    Da atroz beberagem
    Da côr do selvagem
    Da adusta Guiné.

    E a tal folha exotica,
    Delicias da China,
    Por nossa má sina
    Trazida de lá,
    Servida em familia,
    N'um morno hydro-ínfuso?…
    Anathema ao uso
    Das folhas do chá!

    Nem tu, ó alcoolico
    Humor dos lagares,
    Terás meus cantares,
    Meus hymnos terás.
    Embora das amphoras
    Vasado nas taças,
    Aos outros tu faças
    A lingua loquaz.

    Cerveja britannica,
    De furor espuma!
    De cousa nenhuma
    Me podes servir.
    Quando ouço do lupulo
    Gabarem proezas,
    Ás bôcas inglezas,
    Desato-me a rir.

    Nem venha da camphora
    Prégar maravilhas
    O das cigarrilhas
    Famoso inventor.
    Raspail é scismatico
    E eu sou orthodoxo,
    O seu paradoxo
    Não me ha de elle impôr.

    Meu canto é da America,
    Paiz do tabaco,
    Perante o qual Baccho
    Seu sceptro partiu.
    A Europa, Asia, e Africa
    E a terra hoje toda
    Este heroe da moda
    De fumo cobriu.

    Até na Laponia,
    Da gente pequena,
    Se fuma; e no Sena,
    No Tibre e no Pó,
    No Volga e no Vistula,
    No Tejo e no Douro;
    Que immenso thesouro
    Se deve a Nicot!

    Meus áridos labios
    Mais fumo inda aspirem
    Que os parvos suspirem
    Por beijos, aos mil.

    Não quero outros osculos,
    Não quero outra amante.
    Qual mais doudejante
    Que o fumo subtil?

    Tornadas Vesuvios,
    As bôcas fumegam.
    De nuvens que cegam
    Vomitam montões.
    Fumar! Oh delicias!
    Prazer de Nababo!
    E leve o diabo
    Do mundo as paixões!

    –Bravo!–disseram quantos o escutavam, devéras enthusiasmados com a
    musa do recitador.

    O proprio Carlos sorriu, menos preoccupado já. Principiava a
    dissipar-se-lhe a nuvem.

    –Quem compra uma senha?!

    –S. João! quem quer?

    –Doze vintens, meus amos, doze vintens.

    Com estes analogos pregões caiu um bando de negociantes de senhas sobre
    os recem-chegados da Aguia, que trataram de obter bilhetes da melhor
    maneira possivel. Cêdo entravam no salão do theatro, onde já centenares
    de pessoas morriam de calor, de asphyxia e de tédio; e eram trilhadas,
    apertadas, esmagadas quasi, aos encontrões dos mascaras, arrebatados
    n'um galope vertiginoso.

    O leitor, que todos os annos costuma saturar-se de fastio alli tambem,
    com boa vontade me dispensará de o constranger a repetir mais outra vez
    a operação, recordando essas horas de insipidez, a que se sujeita, sob
    pretexto de gosar o carnaval no Porto, e para fazer o que todos
    fazem;–uma das mais poderosas razões dos nossos actos na vida.

    Pedindo venia por tanto tempo o haver demorado, em diversão fóra dos
    seus habitos, provavelmente mais pacificos–o que fiz só por a
    necessidade que tinha de mostrar em acção o caracter do nosso heroe e
    exemplificar o seu systema de vida e sua companhia habitual–concordo em
    que nos retiremos e vamos a scenas menos agitadas do que estas, que nem
    consolam, nem divertem.

    IV

    UM ANJO FAMILIAR

    Vae adiantada a manhã do dia seguinte áquelle, em que se passaram as
    scenas descriptas já. São mais de onze horas, Carlos dorme ainda.

    Recolhera-se á hora critica, em que principiam a desmaiar as estrellas
    no firmamento, a agitarem-se nos ninhos as aves e a soarem na rua os
    sócos de alguns operarios mais matutinos. Que admira pois que durma, a
    sonhar talvez a continuacão, favoravel aos seus desejos, de qualquer
    aventura incompleta do baile da vespera?

    A situação da casa de Mr. Richard Whitestone facilitava esta infracção
    dos direitos do dia, que se fez para vigilias e trabalho, e não para
    sonhos e repouso.

    O leitor, que é do Porto, quasi me dispensa de dizer-lhe que era o
    bairro de Cedofeita aquelle, onde a familia Whitestone vivia.

    Esta nossa cidade–seja dito para aquellas pessoas, que porventura a
    conhecem menos–divide-se naturalmente em tres regiões, distinctas por
    physionomias particulares.

    A região oriental, a central e a occidental.

    O bairro central é o portuense propriamente dito; o oriental, o
    brazileiro; o occidental, o inglez.

    No primeiro predominam a loja, o balcão, o escriptorio, a casa de muitas
    janellas e de extensas varandas, as crueldades architectonicas, a que se
    sujeitam velhos casarões com o intento de os modernisar; o saguão, a
    viella independente das posturas municipaes e á absoluta disposição dos
    moradores das vizinhanças; a rua estreita, muito vigiada de policias; as
    ruas, em cujas esquinas estacionam gallegos armados de pau e corda e os
    cadeirinhas com o capote classico; as ruas ameaçadas de procissões, e as
    mais propensas a lama; aquellas onde mais se compra e vende; onde mais
    se trabalha de dia, onde mais se dorme de noite. Ha ainda n'este bairro
    muitos ares do velho burgo do Bispo, não obstante as apparencias
    modernas que revestiu.

    O bairro oriental é principalmente brazileiro, por mais procurado pelos
    capitalistas, que recolhem da America. Predominam n'este umas enormes
    moles graniticas, a que chamam palacetes; o portal largo, as paredes de
    azulejo–azul, verde ou amarello, lizo ou de relêvo; o telhado de beiral
    azul; as varandas azues e douradas; os jardins, cuja planta se descreve
    com termos geometricos e se mede a compasso e escala, adornados de
    estatuetas de louça, representando as quatro estações; portões de ferro,
    com o nome do proprietario e a era da edificação em lettras tambem
    douradas; abunda a casa com janellas gothicas e portas rectangulares, e
    a de janellas rectangulares e portas gothicas, alguma com ameias, e o
    mirante chinez. As ruas são mais sujeitas á poeira. Pelas janellas quasi
    sempre algum capitalista ocioso.

    O bairro occidental é o inglez, por ser especialmente ahi o _habitat_
    d'estes nossos hospedes. Predomina a casa pintada de verde-escuro, de
    rôxo-terra, de côr de café, de cinzento, de preto… até de
    preto!–Architectura despretenciosa, mas elegante; janellas
    rectangulares; o peitoril mais usado do que a sacada.–Já uma
    manifestação de um viver mais recolhido, mais intimo, porque o peitoril
    tem muito menos de indiscreto do que a varanda. Algumas casas ao fundo
    dos jardins; jardins assombrados de acacias, tilias e magnolias e
    cortados de avenidas tortuosas; as portas da rua sempre fechadas.
    Chaminés fumegando quasi constantemente. Persianas e transparentes de
    fazerem desesperar curiosidades. Ninguem pelas janellas. Nas ruas
    encontra-se com frequencia uma ingleza de cachos e um bando de creanças
    de cabellos louros e de babeiros brancos.

    Taes são nos seus principaes caracteres as tres regiões do Porto; sendo
    desnecessario acrescentar que n'esta, como em qualquer outra
    classificação, nada ha de absoluto. Desenhando o typo especifico, nem
    estabelecemos demarcações bem definidas, nem recusamos admittir algumas,
    e até numerosas excepções, hoje mais numerosas ainda do que então, em
    1855.

    É claro pois que era n'este ultimo bairro que residia o illustre Mr.
    Richard, e sua familia.

    O nome da rua sou obrigado porém a occultal-o, para evitar indiscrições
    mal sofridas em terras, onde todos se conhecem.

    A casa, essa posso descrevel-a, ainda que o farei com o devido
    artificio, para a não trahir para com algum leitor mais desoccupado.

    Era uma das taes casas escuras, com vidraças de caixilhos brancos,
    retirada ao fundo de um jardim, nas grades do qual se entrelaçavam tão
    intimamente as folhas sempre verdes das Australias e os ramos floridos
    de japoneiras gigantes, que resguardavam de vistas curiosas as avenidas
    irregularmente traçadas por entre relva digna de uma paizagem ingleza.

    A casa tinha um andar apenas, além do mirante. Uma especie de pavilhão,
    ou corpo lateral, seguia um dos lados do jardim, e vinha abrir tres
    amplas janellas para a rua, que era das menos frequentadas da cidade.

    Era n'este pavilhão o quarto de Carlos.

    Toda aquella residencia respirava certo ar de commodidade, certo
    _confortable_, esse sympathico adjectivo do vocabulario inglez.

    Andavam-lhe por longe as vozes discordantes da industria e do commercio,
    tão funestas ás encantadas visões dos somnos matinaes.

    Tudo parecia fomentar aquelle dormir reparador de Carlos, que ia
    absorvendo a manhã inteira, pelo menos segundo a maneira de contar o
    tempo dos poucos, que ainda hoje começam a dar as boas tardes logo
    depois do meio dia.

    Jenny nunca podia adormecer emquanto não ouvisse entrar o irmão,
    circumstancia que, não obstante, lhe occultava para o não constranger
    nos seus prazeres, ou de que apenas o fazia conhecedor, quando n'esse
    constrangimento prevía utilidade.

    Tendo por isso notado a hora avançada a que, d'aquella vez, Carlos
    voltára a casa, deixava-o agora dormir para que restaurasse as forças
    perdidas pela vigilia da vespera e porventura necessarias para vigilias
    novas.

    Como uma joven mãe, solicita pelo somno do seu primeiro filho, desde
    manhã cêdo a viam os criados apparecer nas proximidades dos aposentos do
    irmão, a prevenir e afastar o menor ruido, que podesse despertal-o.

    No extenso corredor, que medeiava entre o quarto de Carlos e o resto da
    casa, passeiava, desde o alvorecer, e com passos levissimos, essa doce
    figura de mulher, como se fora o anjo da guarda d'aquelle estouvado, que
    nem suspeitava sob que azas protectoras adormecera.

    Ás vezes parava junto da porta de Carlos, e applicando ahi o ouvido
    attento, parecia espiar o menor rumor que de dentro saísse, a
    denunciar-lhe o acordar.

    Depois afastava-se e dirigia-se lentamente para a sala opposta, onde ía
    inspeccionar e dirigir os preparativos do _lunch_ de Mr. Richard, cujas
    horas se aproximavam já.

    N'uma d'estas occasiões, em que voltava de dentro do quarto do irmão,
    encontrou-se com um criado, rapaz ainda, o qual, encostado á ombreira da
    porta do jardim, parecia tão dominado por pensamentos penosos, que nem
    lhe deixaram perceber a aproximação de Jenny.

    A joven ingleza olhou-o com bondade, e parando junto d'elle
    perguntou-lhe:

    –Como está sua mãe, José?

    O rapaz voltou a si e tomando logo uma attitude de respeito, respondeu:

    –Hoje ainda não sei, minha senhora; hontem porém deixei-a bem mal.

    –Hoje não sabe?!–exclamou Jenny, desviando o olhar para o relogio do
    corredor, que marcava onze horas e meia–Não sabe, e é perto de meio
    dia!

    –Então, minha senhora? Como o snr. Carlinhos se levanta mais tarde…

    –Vá vel-a, José, vá. N'aquelle estado, coitada!… Sabe lá a falta que
    lhe estará fazendo?

    –Mas, se…

    –Vá; Carlos não lhe importa. Eu lhe direi. Ande, vá.

    –Então muito agradecido, minha senhora,–disse o rapaz, sensibilisado
    com a bondade da sua joven ama.

    Jenny continuou passeiando.

    Ao passar junto das escadas do mirante, parou, affirmando-se em alguma
    cousa, que via n'ellas. Subiu dois ou tres degraus e curvou-se para
    observar melhor; era uma penna de ave, que o vento transportára do pateo
    para alli. Jenny não pôde reprimir um pequeno movimento de desagrado.

    O escrupuloso amor do asseio, radicado no caracter e nos habitos
    inglezes, não lhe permittia ver com indifferença aquillo.

    –Varreram-se hoje estas escadas, Pedro?–perguntou ella a um criado,
    com longo avental branco, que n'aquelle momento passava no corredor.

    –Varreram, sim, minha senhora–respondeu este.

    –Repare–acrescentou Jenny.–A fallar verdade são bem pouco cuidadosos.
    Veja esse corrimão cheio de pó.

    –É que se tornou a sujar. O vento…

    –Seria; mas não tira que se limpe outra vez.

    –De certo; eu vou já.

    –E olhe–continuou Jenny, indicando as vidraças, que davam para o
    jardim–passe tambem com um panno humedecido por esses vidros tão baços
    e dê lustro aos metaes dos fechos.

    –Sim, minha senhora; e digo tambem ao hortelão que ensaibre o jardim;
    depois da chuva que tem caído bem precisa d'isso–lembrou o criado, como
    todos os d'esta classe, mais zeloso em superintender nas tarefas dos
    outros do que em cumprir as suas.

    Jenny fez um gesto de assentimento e passou para diante. Entrou na sala
    de jantar.

    Lançou o olhar para a mesa, onde, sobre toalha de alvissima bretanha,
    brilhavam os mais puros crystaes e mais preciosa louça ingleza.

    Esteve algum tempo a examinar com attenção as particularidades do
    serviço, accusando por vezes no gesto algum defeito que percebia.

    –Pedro–chamou ella por fim, apoiando a mão no espaldar da cadeira,
    destinada a Mr. Richard.

    O criado, que andava no corredor, acudiu ao chamamento.

    –Então onde pôz a mostarda?

    –Ai! é verdade.

    O criado correu ao aparador a buscar esse indispensavel artigo da
    cozinha britannica.

    –Veja como dobrou esse guardanapo.

    O criado apressou-se a corrigir a imperfeição notada.

    –Aquelle pão não é o que o pae quer para os _lunchs_. Bem sabe.

    –Tem razão, minha senhora.

    O pão foi substituido com celeridade, verdadeiramente ingleza.

    –Desvie mais para o centro aquellas flores. Tão perto do fiambre não;
    chegue o prato mais para cá. Assim. Veja esse trinchador como ficou.
    Ficou peior agora. Assim. Ponha o _Times_ ahi ao lado. Está bom. Póde
    ir.

    Ficando só, por suas proprias mãos deu ainda um geito particular a tudo,
    attendendo a pequenas circumstancias muito do agrado de Mr. Richard e de
    que só ella tinha conhecimento; necessidades pueris, mas necessidades a
    final, e de que ninguem é isento. Correu as cortinas das janellas, para
    dar á sala aquellas meias sombras discretas, tanto do gosto inglez, e
    voltou de novo ao corredor.

    Alguns passos dados, veio a ella uma criada, ainda nova, com os olhos
    baixos e maneiras enleiadas.

    –Que tem, Luiza?–perguntou-lhe Jenny.

    –Venho dizer adeus a _miss_ Jenny, porque me vou hoje embora.

    –Como vae embora! Quem a mandou?

    –Ninguem, mas…

    –Não está bem?

    –Se estou, mas…

    –Então?

    –A _miss_ Jenny sabe que a minha irmã estava a servir ahi para fóra da
    cidade. O trabalho era muito, coitada, e ella era tão fraca! Lidou
    quanto pôde, até que emfim caíu doente. Vae para casa de minha mãe. Mas
    como ha de tratal-a a pobre de Christo? ella, quasi entrevada e cega?
    Meus irmãos andam todo o santo dia por fóra, e para pagar á
    enfermeira?… Quem pensa n'isso? Assim vou eu… e, quando ella se
    achar melhor, se a _miss_ Jenny me quizer outra vez…

    –A Luiza não póde de modo nenhum deixar-nos agora.

    –Mas…

    –Escute; se quizer tratar de sua irmã, traga-a para ahi.

    –Ó minha senhora…

    –Prepare-lhe aquelle outro quarto do mirante.

    –Seja por amor de Deus…

    –Olhe, Luiza–apressou-se a interrompel-a Jenny–vá ver se me aprompta
    aquelles punhos que eu lhe disse, vá.

    –Vou já fazel-o, minha querida senhora–disse a rapariga, a quem
    palpitava o coração alvoroçado de contentamento.

    N'isto ouviram-se gritos agudos, desentoados, pungentes, que fizeram
    parar Jenny e assombraram-lhe a fronte serena de uma nuvem de tristeza.
    Vinham do andar superior aquelles gritos.

    O criado, vendo-a parada a escutal-os, disse meio compungido, meio a
    sorrir:

    –É a snr.ª Catharina; tem estado desde hontem tão impaciente!

    –Pobre Kate!–murmurou Jenny, suspirando–e subiu com ligeireza as
    escadas, que conduziam ao mirante.

    Catharina ou Kate, segundo a familiar abreviatura ingleza, era uma
    criada octogenaria, que tinha sido ama de Mr. Richard e jazia agora,
    paraplegica e demente, n'um dos quartos da casa, vigiada com carinho
    pela familia Whitestone e com impaciencia, a custo reprimida, por os
    criados e criadas. Em certos dias os accessos da velha eram furiosos e
    as suas imprecações, em lingua mestiça de portuguez e de inglez, e os
    seus gritos horripilantes punham em alvoroço toda a casa. Em momentos
    assim era difficil apazigual-a; tão violentas gesticulações fazia, que
    poucos eram os braços para impedir-lhe que se maltratasse.

    –Cães!–bradava ella agora, n'aquelle estranho _imbroglio_ linguistico,
    impossivel de reproduzir aqui e que fazia rir as criadas que a
    seguravam–Cães! Teem-me aqui presa! Querem matar-me á fome! á fome! Mas
    deixem estar que em vindo Dick… Elle ha de vir, ha de vir! Larguem-me!
    Dick! Dick!–Era o nome familiar que ella dava ainda a Mr.
    Richard.–Dick! pois assim queres matar-me? assim queres ver-me morrer?
    Não tens pena de mim? Dick! Fui eu que te trouxe ao peito, eu… Olha
    que sou a pobre Kate Simpleton. Dick! Dick! Livra-me d'estes demonios,
    que me querem afogar. Que mal te faço eu, para me deixares morrer?
    Larguem-me!

    E por um esforço inesperado d'aquelles braços emaciados e fracos, soltou
    os punhos das mãos, que os seguravam, e levando-os ás faces, feria-se no
    rosto encarquilhado e contrahido.

    N'isto entrou Jenny no quarto.

    A velha apoderára-se de uma faca, que por descuido lhe tinham deixado ao
    alcance da mão.

    Jenny fez signal ás criadas para que se afastassem do leito e
    aproximou-se d'elle.

    –Cuidado, _miss_ Jenny!–disse a despenseira, gorda, ruiva e sardenta
    matrona ingleza, que suava ainda com o esforço que sustentára.

    –Cautela, menina!–repetiu a outra criada, musculosa portugueza dos
    arredores da Maia–Olhe que ella é perigosa n'estas occasiões.

    Jenny não as attendeu.

    Chegou-se ao leito da velha demente e passou-lhe nos pulsos as mãos,
    delicadas e debeis.

    A velha estremeceu e fitou n'ella o olhar espantado e ameaçador.

    –Bons dias, Kate–disse-lhe affavelmente Jenny, sem que no rosto,
    risonho e sereno, se desenhasse a menor sombra de receio.

    Kate ficou a olhal-a por algum tempo d'aquella maneira.

    –Então que ruindade é esta hoje, Kate? Nem me conheces?

    A velha principiou a socegar; conservava-se porém ainda muda, e não
    desviava de Jenny os olhos espantados.

    –Não me conheces, ama?–continuou esta, em tom mais affectuoso–Kate,
    então? Já nem queres conhecer a Jenny?

    O rosto da octogenaria illuminou-se com um sorriso estranho, selvagem
    quasi; a cabeça principiou a agitar-se-lhe em movimento affirmativo,
    que, pouco a pouco, augmentou de velocidade, até á rapidez de certos
    desordenados gestos proprios d'aquelles estados de espirito; a mão
    soltou a faca que ainda segurava.

    –Eu logo vi que me conhecias–dizia Jenny, afastando-lhe
    compassivamente os cabellos da fronte enrugada.–E has de estar quieta,
    não has de?

    –Sim, sim–dizia a velha, a rir como creança, e lançava os braços em
    volta do collo de Jenny, aproximava-a do seio e beijava-a, murmurando
    com voz chorosa as mais ternas expressões de affecto da lingua ingleza.

    –Sim, sim, _poor thing_; sim–repetia muitas vezes, cingindo-a a cada
    momento mais a si.

    –Ai, _miss_ Jenny, _miss_ Jenny!–dizia a despenseira aterrada.

    Jenny fez-lhe signal com o dedo, a impôr-lhe silencio, ou a mandal-a
    saír.

    A demente, tomando a cabeça de Jenny, principiou a balançar-se como a
    adormecer creanças, e cantava ao mesmo tempo uma melancolica toada, com
    a qual, havia cincoenta annos, adormecera já o pequeno Dick, actualmente
    Mr. Richard Whitestone.

    Eis o sentido da canção que, em dialecto escossez, ella cantava:

    Dorme, filho, que eu vigio,
    E emquanto dormes, sorri;
    Que a tua porção de lagrimas
    Eu as chorarei por ti.

    Jenny não lhe offerecia resistencia. A velha chorava, cantando; a voz
    ia-se-lhe a enfraquecer gradualmente; por fim tomou-a um d'aquelles
    profundos somnos, que parece, n'esses estados, participarem já do
    caracter do somno final, que não vem longe.

    Adormeceu entoando em voz já mal percebida:

    A tua porção de lagrimas…
    Eu as chorarei… por ti…

    Jenny desprendeu-se-lhe então dos braços, conchegou-lhe a roupa, fechou
    a janella, e, recommendando silencio aos criados, desceu.

    No fim dos degraus encontrou sentado o jardineiro da casa, com o rosto
    entre as mãos e soluçando.

    –Que é isso, Manoel?

    O velho ergueu-se com sobresalto.

    –Ai, menina Jenny, é que… veja.

    E apontou para o degrau da porta do jardim, onde jazia partido um vaso
    de porcelana com uma preciosa begonia.

    –Como foi isto?–perguntou Jenny.

    –O pae mandou-me trazer do quarto d'elle para a estufa este vaso e
    tanto cuidado me recommendou! e vae eu… veja a minha desgraça, logo ao
    descer a escada escorrego… Valha-me Deus, valha!

    –Socegue. Meu pae não lhe ha de ralhar muito…

    –Pois sim; mas se elle tanto me recommendou! E era um vaso de tanta
    estimação! Ai, como me principia hoje o dia, Senhor.

    Jenny viu, commovida, a afflicção do velho, que nem tinha coragem para
    apresentar-se diante de Mr. Richard.

    A bondosa rapariga baixou-se, e tomando os dois fragmentos do vaso, onde
    se continha ainda a terra com a begonia, uniu-os cuidadosamente, e
    descendo ao quintal, caminhou, segurando-os, em direcção da estufa.

    –Onde vae, menina?–dizia o jardineiro admirado.

    Jenny não lhe respondeu.

    O velho seguiu-a.

    Ao aproximar-se da estufa, onde Mr. Richard labutava em cuidados de
    jardinagem, Jenny disse-lhe, levantando a voz:

    –Não quiz confiar a ninguem este vaso, porque… Ai!

    Era o vaso, que lhe caía das mãos, e vinha fazer-se pedaços no chão, á
    entrada da estufa.

    –Oh!–disse Mr. Richard, correndo em soccorro da begonia.

    –Vêem, vêem!–dizia Jenny, fingindo-se consternada–como Deus me
    castiga a presumpção!

    –É verdade–disse Mr. Richard agachado–um vaso tão bonito! Creança!
    Olhem para esta pobre begonia! Como ficou!

    –Está vingado, Manoel–continuou Jenny.–Eu a desconfiar de si, e
    vae…

    O velho hortelão não podia fallar; emquanto Mr. Richard examinava os
    estragos da begonia, elle cobria de beijos a mão de Jenny, que não pôde
    retiral-a a tempo.

    Era meio dia.

    –Vamos,–disse Jenny a Mr. Whitestone–perdôe-me a culpa e venha ao seu
    _lunch_.

    Mr. Richard olhou affectuosamente para a filha, a quem afagou nas faces
    e, separando-se com um suspiro da begonia, seguiu para casa, murmurando,
    a sorrir:

    –Estouvada! buliçosa!

    No degrau da escada não escapou á vista aguda de genuino inglez a terra,
    que ficára alli, como vestigio do delicto de Manoel. Jenny, que o
    percebeu, apressou-se a dar uma causa ao facto.

    –Fui eu que estive a mudar aquellas raizes, que vieram de Inglaterra…

    –Já! Não sei se seria bom. Vamos ver como ficaram.

    –Agora não, que são horas do seu _lunch_.

    Mr. Richard não insistiu e dentro de alguns segundos procedia já aos
    preparativos d'esta refeição matinal.

    V

    UMA MANHÃ DE MR. RICHARD

    Mr. Richard era de uma rigorosa pontualidade nos seus actos de vida
    domestica. Logo pela manhã, depois de uma leitura de _Biblia_ e de uma
    revista á preciosa collecção de aves e de insectos de Inglaterra, que
    possuia, consultando a proposito os livros de Yarrell, Shuckard, Rennie,
    e de outros especialistas da localidade, passava a gosar no jardim das
    bellezas matutinas e a exercer a sua paixão florista, cavando, mondando,
    semeiando os seus bem guarnecidos canteiros. Esta occupação matinal de
    Mr. Richard, forçoso é confessal-o, não era demasiadamente favoravel ao
    horto, para com o qual elle tinha aliás as melhores intenções d'este
    mundo.

    Apesar de no seu gabinete se encontrarem constantemente abertos livros
    de botanica e de horticultura desde a _Flora Londinensis_ de Curtis e as
    obras completas de Lindley, até ás publicações periodicas das varias
    sociedades horticolas de Londres, Mr. Richard Whitestone costumava fazer
    sciencia por sua conta e risco. Despresando os preceitos dos escriptores
    theoricos, juntamente com a experiencia provada do velho Manoel,
    ensaiava ás vezes processos, não referidos nos manuaes de jardinagem,
    com grave detrimento das mimosas e raras plantas, cuja acquisição, por
    todo o preço, obtinha nos melhores mercados da Europa e principalmente
    no _Covent-Garden market_ e no _Pantheon de Oxford Street_.

    A natureza tinha sempre muito que fazer ao remediar os resultados da
    arte do velho commerciante.

    Felizmente para o aspecto geral do jardim, Mr. Richard Whitestone era
    exclusivo nas affeições floristas. A uma unica planta dedicava, em cada
    época do anno, os seus cuidados horticultores. Por aquelle tempo, eram
    as begonias as suas predilectas. Ia um destroço n'ellas, occasionado por
    tanto amor e cuidados, que consternava o velho Manoel, devéras
    affeiçoado ás plantas.

    Mr. Whitestone ensaiára nas pobres uma especie de rega, á qual grande
    numero succumbiu. Era um liquido artificial de uma composição indigesta,
    e em que elle procurára reunir todos os elementos, que julgára mais
    proprios para lhes desenvolver a vegetação.

    –Isso queima-lhe as folhinhas!–aventurára-se a dizer Manoel, vendo Mr.
    Richard a temperar aquella caldeirada.

    –Cala a bôca, tolo. Verás como ficarão viçosas.

    Á vista do resultado, Mr. Richard teve porém de abandonar o processo,
    mas sem se dar por vencido.

    –É que estes vasos são pouco porosos… Hei de mandar vir de Londres
    uns.

    Era uma maneira muito de Mr. Richard, esta de sair das situações
    apertadas. Appellava sempre para Londres, como fiel inglez que era.

    N'estes entretenimentos levava pois o tempo até á hora do _lunch_.

    Voltava então a casa. Era uma verdadeira hecatombe de ostras qualquer
    refeição d'estas. O mercado do Porto a custo póde satisfazer as
    exigencias dos numerosos malacozoofagos da colonia ingleza, entre os
    quaes Mr. Whitestone occupava logar eminente. O _roast-beef_ á ingleza,
    ou o fiambre, a mostarda, as batatas, a bolacha, a cerveja, o queijo de
    consistencia pastosa forneciam tambem estes _lunchs_, accommodados á
    robustez d'aquelle estomago saxonio, descendente dos que ainda no quinto
    seculo da era christã eram antropophagos–segundo affirma o auctor da
    _Viagem de Jersey a Gran-ville_.

    Carlos fazia de ordinario companhia ao pae n'este repasto matinal. Mr.
    Richard gostava de ver o filho junto de si, em tão solemnes momentos,
    comquanto não trocasse com elle meia duzia de palavras; passados os
    cumprimentos iniciaes, era costume seu abrir o _Times_ e acompanhar o
    acto manducatorio da leitura d'este interminavel jornal, interrompendo-a
    apenas por alguma certa phrase a recommendar ou criticar um ou outro
    prato.

    Porisso a ausencia de Carlos n'esta manhã cavou-lhe uma ruga de
    descontentamento na fronte, que os ares do jardim haviam expandido, e
    suspendeu-lhe a aria festiva, mas por elle um tanto estragada, que entre
    dentes vinha trauteando ao entrar na sala.

    Esta musica era a de uma das melodias de Russell, popularissimo
    compositor e vocalista inglez, a cujas salas, por aquelle tempo, corria
    em Londres a multidão ávida e enthusiasta, com o fim de o ouvir cantar
    as proprias composições, que elle mesmo acompanhava ao piano. Nas salas,
    nos theatros, nas ruas e nos campos, tanto na Inglaterra, como na
    America do Norte, lê-se em noticias d'essa época, repetiam-se as
    composições d'este musico notavel, cujo caracter nacional se
    aperfeiçoara na convivencia da escola italiana, sem perder com isso,
    diz-se, o cunho da originalidade.

    De entre a collecção de melodias, ou cantos populares, publicadas
    n'aquelle anno em Londres, e procuradas com alvoroço pelos amadores
    nacionaes espalhados por todo o mundo, havia uma que Mr. Richard sobre
    todas amava. Era essa a que vinha trauteando ao entrar na sala.

    Tanto na indole d'este musico, como na da lettra, que assigna o nome do
    dr. Mackay, encontrava-se de facto muito do caracteristico genio inglez,
    para justificar de sobra esta preferencia.

    É um canto de animação aos numerosos bandos de emigrados, que de todos
    os pontos da Gran-Bretanha partem a cruzar os mares, á procura da
    riqueza, e, sem lagrimas, se despedem do berço natal, que todavia amam
    com fervor. Se é licito admittir que, n'estas luctas travadas no seio da
    sociedade actual para conquistar a riqueza, póde ainda incidir um raio
    d'aquelle esplendor épico, de que se illuminam os trabalhos analogos do
    mythologico Jason, de certo os inglezes são os heroes d'essas epopeias
    modernas. Aquelle desprendimento com que se separam do que amam quasi
    com fanatismo–a patria e a familia–, aquella coragem estoica, que os
    alenta nos revézes, e a firmeza de animo, que nas victorias lhes evita
    os somnos perigosos, dão a esses argonautas do commercio um prestigio
    respeitavel, que certas ridiculas exterioridades não podem suffocar.

    Como complemento ao estudo do caracter de Mr. Richard Whitestone daremos
    aqui a traducção dos versos do dr. Mackay, por ser o conceito d'elles
    afinado pelo sentir do honrado negociante.

    Era esta mesma canção a que os soldados inglezes entoavam na Crimeia,
    durante a campanha d'aquelle tempo; e ao partirem da patria, emquanto os
    instrumentos marciaes soltavam aos ventos as notas d'este canto popular,
    milhares de espectadores cantavam unisonos:

    _Cheer, boys!, cheer…_

    que são as primeiras palavras do hymno, que traduziremos assim:

    «Eia! rapazes, eia! Longe de nós a ociosa tristeza. Almas varonis, a
    coragem nos alentará no caminho! A esperança impelle-nos para diante, e
    mostra-nos um esplendido ámanhã; esqueçamos portanto a escuridade de
    hoje.

    Adeus, pois, ó Inglaterra! Ficam-te ainda muitos filhos, que como nós te
    amem.

    Nós enxugaremos as lagrimas, que ao principio derramamos. Porque havemos
    de chorar, ao soltarmos as velas em busca da fortuna? Adeus, pois,
    adeus, Inglaterra! adeus para sempre.

    Eia! rapazes, eia! pelo paiz! pelo paiz natal!–Eia, rapazes! a vontade
    forte imprime vigor ao braço. Eia! a riqueza recompensa o trabalho
    honrado; eia! eia, rapazes! pela nova terra, pela terra feliz!

    Eia! uma favoravel briza sopra para nos impellir livremente sobre o
    dorso do oceano; o mundo seguir-nos-ha pela esteira que deixarmos; no
    Occidente brilha a estrella do imperio. Aqui temos fadigas e pouco a
    recompensal-as; além a abundancia sorrirá ás nossas penas; e nossas
    serão as planicies e as florestas, e o grão dourado amadurecerá para nós
    em campos sem limites.»

    Foi pois a musica correspondente a esta canção que Mr. Richard
    interrompeu quando, ao entrar na sala, viu que com um unico talher
    estava preparada a mesa.

    –Carlos está ainda na cama?–disse, voltando-se para Jenny e n'um tom,
    em que se revelavam ligeiros indicios de mau humor.

    Cumpre-me avisar aqui os leitores de que, para dupla commodidade, minha
    e sua, farei fallar portuguez a Mr. Richard e até segundo as regras de
    uma grammatica, cuja auctoridade elle nunca reconheceu.

    Jenny sentiu a necessidade de advogar a causa do irmão junto de Mr.
    Richard, que, já bastante indisposto com a ausencia de Carlos no dia do
    seu anniversario, encarava agora com maus olhos taes excessos de
    indolencia filial.

    Profundo admirador das bellezas d'este mundo sublunar, Mr. Richard
    olhava o somno como um invejoso, que nos furta algumas horas de prazer
    n'esta vida, e ao qual, obrigado a fazer ligeiras concessões, tratava
    sempre como inimigo.

    Á interrogação paterna, Jenny respondeu:

    –Ainda.

    –Ho!–acudiu Mr. Richard, com a sua monosyllabica e guttural
    interjeição de desgosto, acompanhando-a dos accessorios do costume.

    Jenny acrescentou:

    –Charles teve de se recolher hontem mais tarde…

    –Escolheu bem o dia.

    –Não se lembrava…

    –Exquisito!

    –Creia que se não esqueceria assim, se se tratasse do dia 3 de julho,
    do anniversario do pae.

    Mr. Richard sentou-se e pôz-se a ler o _Times_.

    Jenny sentou-se defronte d'elle, mas arredada da mesa.

    –E, como se deitou tarde–proseguiu ella, passado tempo–e eu receei
    que a falta de descanso lhe podesse fazer mal, ordenei que o não
    chamassem.

    –Então veio muito tarde?

    –Julgo que … ás duas horas…–balbuciou Jenny.

    O criado, que começára a servir Mr. Richard, pensou fazer um obsequio
    corrigindo:

    –Perdão, miss Jenny, passava já das quatro.

    –Ho!–repetiu Mr. Richard.

    Jenny olhou para o criado de maneira, que lhe deu a conhecer a
    inconveniencia da correcção.

    –Foi uma promessa, que Charles fez a uns amigos…–disse ella–e só
    soube o dia que era, quando já não ia a tempo de recusar.

    Mr. Richard não precisava de ouvir mais nada, para suspender as suas
    censuras. Tinha já perdido o habito de discordar da filha. Porisso só
    respondeu, lendo o _Times_:

    –Sim, sim. Está bom. O mal d'essas extravagancias é d'elle e porisso…

    N'isto entrou, aos saltos, na sala um d'esses pequenos cães felpudos,
    pretos e pardos, verdadeiros Atilas dos ratos e rivaes dos velhos
    exterminadores d'esta raça perseguida.

    –_O' Butterfly, good morning! How do you do, sir?_–exclamou Mr.
    Richard, saudando o seu cão predilecto, que lhe estendeu a pata como
    para um _shake-hand_. Havia n'isto um requerimento a uma fatia de
    fiambre, o que o inglez não indeferiu.

    O pequeno quadrupede sentou-se então com familiaridade na cadeira
    devoluta ao lado do seu dono, fazendo a devida justiça ás sobras do
    _lunch_, que lhe cabiam em partilha.

    Jenny erguia-se a cada momento para servir o pae, attendendo a
    particularidades, futeis de mais para merecerem a observação do criado
    ou de outrem, que não fosse uma filha.

    N'uma d'estas occasiões, Mr. Richard, como se não tivesse perdido ainda
    o fio da conversa anterior, disse a meia voz:

    –É que ha oito dias, que nem apparece no escriptorio e … é feio isso.

    Jenny não respondeu.

    Era claro que durante todo o tempo, em que tinham guardado silencio, o
    mesmo pensamento occupára o espirito de ambos.

    Receio que os redactores do _Times_ não tivessem d'esta vez conseguido
    captivar a attenção do seu leitor.

    Levantou-se por fim o inglez.

    Lavando as mãos e estendendo a vista pelos floridos taboleiros do
    jardim, murmurava ainda:

    –Parece mal. É mau costume.

    E saíu da sala para o gabinete.

    Jenny acompanhou-o.

    –E demais nem tanto custa–dizia elle ainda, pelo caminho.

    Enfiando o sobrecasaco e aceitando das mãos de Jenny o chapéo e a
    bengala, continuou no mesmo tom:

    –Dá logar a que se diga … a que se repare…

    Calçando as luvas de pellica côr de canna, por uma exquisitice
    patriotica mandadas vir de Inglaterra directamente, resmoneou ainda:

    –Não sei que custe muito estar alguns minutos no escriptorio.

    E, passado um momento:

    –É feio, é feio.

    Parecia emfim disposto a saír, mas Jenny, costumada a observal-o,
    descobria-lhe certa hesitação, como se se travasse n'elle uma lucta
    entre duas resoluções encontradas.

    –Até logo, Jenny–dizia Mr. Richard, mas sem acabar de partir.

    –Não sei o que me esquece!–murmurou depois com manifesta perplexidade.

    Jenny correu os olhos pelo quarto.

    –O lenço?–perguntou, offerecendo-lhe um que vira sobre o toucador.

    –Ah! o lenço, sim … o lenço…

    Era evidente que não estava satisfeito ainda.

    –Agora … não me falta nada; adeus.

    Jenny julgou que d'esta vez sempre saíria.

    –Ah! sim–continuava elle, parando novamente.

    Jenny fitou-o com olhar interrogativo.

    –Não sei o que… Ah!… Então… então Carlos… não se levanta esta
    manhã?

    –Se quer que o chame?

    –Não, não… É que…

    E depois, interrompendo-se:

    –Não é nada.

    –Deseja que lhe dê algumas ordens?

    –Não… mas… Emfim, o que é tem tempo.

    –Mas diga; Charles não deve tardar a erguer-se…

    –É que…

    E Mr. Richard, com certo modo embaraçado, aproximou-se da secretária,
    abriu-a e tirou de lá um magnifico relogio e corrente, de construcção
    ingleza, objecto que expressamente havia encommendado de Londres para
    presentear o filho no dia dos annos d'elle.

    A ausencia de Carlos na vespera impedira-lhe realisar o affectuoso
    intento.

    Agora como que sentia vergonha de ter a sua affeição resistido inteira
    ao delicto filial, e de não lhe restar já no coração força bastante para
    reprimir as expansões d'ella.

    –Ahi está–dizia Mr. Richard a Jenny, procurando com um tom sacudido
    tirar ás palavras a menor sombra de affecto.–Se quizeres, pódes dar
    isso a teu irmão. Para elle é que eu o destinava, se hontem…

    Jenny tomou o relogio das mãos do pae, a quem agradeceu com um sorriso
    de ternura.

    Mr. Richard proseguiu:

    –Que eu não sei se Carlos o quererá; ainda que é objecto de preço…

    –O maior preço é ser uma lembrança sua, senhor.

    Mr. Richard resmoneou um monosyllabo inglez e ensaiou um gesto de
    inveterado scepticismo, que não lhe saíu muito expressivo.

    Jenny acrescentou:

    –E de mais preço ainda, se das suas proprias mãos o recebesse.

    –Queres talvez que vá acordar Carlos, para que me faça o favor de me
    aceitar as minhas prendas?–perguntou o pae com certo azedume.

    –Mas se… logo ao jantar…

    –Talvez não nos dê a honra de nos fazer companhia.

    –Oh! se Carlos soubesse…

    –Nada, nada. Entrega-lh'o tu, se quizeres.

    E, dizendo isto, saíu da sala, atravessou o jardim e dentro em pouco
    tempo transpunha o portão da rua.

    O criado, que o encontrou no corredor, ouviu-o murmurar ainda:

    –Parece muito mal.

    Mas, chegando á rua, já ia apparentemente satisfeito. Caminhava com a
    rapidez, peculiar ao povo para o qual o tempo é dinheiro, dirigia ao
    favorito _Butterfly_ phrases de cordial affecto e trauteava por entre
    dentes o popular–_Cheer, boys, cheer!,…_

  • Só

    Só

    Aproximadamente 21.019 palavras.

    Produced by Ricardo Diogo and Tiago Tejo. Edited by Rita
    Farinha (Biblioteca Nacional Digital–http://bnd.bn.pt).
    (This file was produced from images generously made
    available by National Library of Portugal (Biblioteca
    Nacional de Portugal).)

    Je déclare que M. Francisco de França Amado, libraire-éditeur, 141,
    rua da Calçada, Coimbra: est mon unique représentant et dépositaire
    de o «Só», pour le Portugal.

    L.V.

    SÓ

    ANTONIO NOBRE

    SÓ

    PARIS

    LÉON VANIER, ÉDITEUR

    19, QUAI SAINT-MICHEL, 19

    1892

    Tous Droits Réservés

    MEMORIA Á MINHA MÃE AO MEU PAE

    Aquelle que partiu no brigue _Boa Nova_,
    E na barca _Oliveira_, annos depois, voltou;
    Aquelle santo (que velhinho e jà corcova)
    Uma vez, uma vez, linda menina amou:
    Tempos depois, por uma certa lua-nova,
    Nasci eu… O velhinho ainda cà ficou,
    Mas ella disse:–«Vou, alli adiante, à _Cova_,
    Antonio, e volto jà…» E ainda não voltou!
    Antonio é vosso. Tomae là a vossa obra!
    «Só» é o poeta-nato, _o lua_, o santo, a cobra!
    Trouxe-o d'um ventre: não fiz mais do que escrever…
    Lede-o e vereis surgir do poente as idas magoas,
    Como quem ve o sol sumir-se, pelas agoas,
    E sobe aos alcantis para o tornar a ver!

    *Antonio*

    Que noite de inverno! Que frio, que frio!
    Gelou meu carvão:
    Mas boto-o á lareira, tal qual pelo estio,
    Faz sol de verão!

    Nasci, n'um Reino d'Oiro e flores
    Á beira-mar.

    Ó velha Carlota, tivesse-te ao lado,
    Contavas-me historias:
    Assim… desenterro, do val do passado,
    As minhas Memorias.

    Sou neto de Navegadores,
    Heroes, Lobos d'agoa, Senhores
    Da India, d'Aquém e d'Além-mar!

    Moreno coveiro, tocando viola,
    A rir e a cantar!
    Empresta, bom homem, a tua sachola,
    Eu quero cavar:

    E o vento mia! e o vento mia!
    Que irà no mar!

    Erguei-vos, defuntas! da tumba que alveja
    Qual Lua, a distancia!
    Vizões enterradas no adro da Igreja,
    Branquinha, da Infancia…

    Que noite! ó minha Irmã Maria,
    Accende um cyrio à Virgem Pia,
    Pelos que andam no alto mar…

    Lá vem a Carlota que embala uma aurora
    Nos braços, e diz:
    «Meu lindo menino, que Nossa Senhora
    O faça feliz!»

    Ao mundo vim, em terça-feira,
    Um sino ouvia-se dobrar!

    E Antonio crescendo, sãosinho e perfeito,
    Feliz que vivia!
    (E a Dor, que morava com elle no peito,
    Com elle crescia…)

    Vim a subir pela ladeira
    E, n'uma certa terça-feira,
    Estive jà p'ra me matar…

    Mas foi a uma festa, vestido de anjinho,
    Que fado cruel!
    E a Antonio calhou-lhe levar, coitadinho!
    A _Esponja do Fel_…

    Ides gelar, agoas dos montes!
    Ides gelar!

    A Tia Delphina, velhinha tão pura,
    Dormia a meu lado
    E sempre rezava por minha ventura…
    E sou desgraçado!

    Agoas do rio! agoas das fontes!
    Cantigas d'agoa pelos monles,
    Que sois como amas a cantar…

    E eu ia ás novenas, em tardes de Maio,
    Pedir ao Senhor:
    E, ouvindo esses cantos, tremia em desmaio,
    Mudava de cor!

    Passam na rua os estudantes
    A vadrulhar…

    E a Mãe-Madrinha, do tempo da guerra
    A mail-os francezes,
    Quando ia ao confesso, á ermida da serra,
    Levava-me, ás vezes.

    Assim como elles era eu d'antes!
    Meus camaradas! estudantes!
    Deixae o Poeta trabalhar…

    Santinho como ia, santinho voltava:
    Peccados? Nem um!
    E a instancias do padre dizia (e chorava):
    «Não tenho nenhum…»

    Ó Job, coberto de gangrenas,
    Meu avatar!

    As noites, rezava (e rezo ainda agora)
    Ao pé da lareira.
    (A chuva gemente caia lá fóra,
    Fervia a chaleira…)

    Conservo as mesmas tuas penas,
    Mais tuas chagas e gangrenas,
    Que não me farto de coçar!

    –Que Deus se amercie das almas do Inferno!
    –Amen! Oxalá…
    E o moço rosnava, tranzido de inverno:
    –Que bom lá está!

    E a neve cae, como farinha,
    Là d'esse moinho a moer, no Ar:

    O sino da Igreja tocava, á tardinha:
    Que tristes seus dobres!
    Era a hora em que eu ia provar, á cozinha,
    O caldo dos pobres…

    Ó bom Moleiro, cautellinha!
    Não desperdices a farinha
    Que tanto custa a germinar…

    Ó velhas criadas! na roca fiando,
    Nos lentos serões…
    Corujas piando, _Farrusca_ ladrando
    Com medo aos ladrões!

    Andaes, à neve, sem sapatos,
    Vos que nâo tendes que calçar!

    O Zé do Telhado morara, alli perto:
    A triste viuva
    A nossa caza ia pedir, era certo,
    Em noites de chuva…

    Corpos au léu, vesti meus fatos!
    Pés nus! levae esses sapatos…
    Basta-me um par.

    Ó feira das uvas! em tardes de calma…
    (O tempo voou!)
    Pediam-me os pobres «esmola pela alma
    Que Deus lhe levou!»

    Quando eu morrer, hirto da magoa.
    Deitem-me ao mar!

    E havias-os com gotta, e havia-os herpeticos,
    Mostrando a gangrena!
    E mais, e ceguinhos, mas era dos ethicos
    Que eu tinha mais pena…

    Irei indo de fragua, em fragua,
    Até que, emfim, desfeito em agoa,
    Hei-de fazer parte do mar!

    Chegou uma carta tarjada: a estampilha
    Bastou-me enxergar…
    Coitados d'aquelles que perdem a filha,
    Tão longe do lar!

    No Panthéon, tragico, o sino
    Dà meia-noite, devagar:

    Ó tardes de outomno, com fontes carpindo
    Entre herva sedenta…
    Os cravos a abrirem, a lua aspergindo
    Luar, agoa-benta…

    É o Victor, outra vez menino,
    A compor um alexandrino,
    Pelos seus dedos a contar!

    Ao dar meia-noite no _cuco_ da sala,
    Batiam: «Truz! truz!»
    E o Avô que dormia, quietinho na valla,
    Entrava, Jezus!

    Que olhos tristes tem meu vizinho!
    Ve-me comer e poe-se a ougar:

    Nas sachas de Junho, ninguem se batia
    Com nosso cazeiro:
    Que espanto, pudéra! se da freguezia
    Elle era o coveiro…

    Sobe ao meu quarto, bom velhinho!
    Que eu dou-te um copo d'este vinho
    E metade do meu jantar.

    Morria o mais velho dos nossos criados,
    Que pena! que dó!
    Pedi-lhe, tremendo, fizesse recados
    Á alminha da Avó…

    Bairro-Latino! dorme um pouco!
    Faze, meu Deus, por socegar…

    Ó banzas dos rios, gemendo descantes
    E fados do mundo!
    Ó agoas fallantes! ó rios andantes,
    Com eiras no fundo!…

    Calla-te, Georges! estàs jà rouco!
    Deixa-me era paz! Calla-te, louco,
    Ó boulevard!

    Trepava ás figueiras cheiinhas de figos
    Como astros no céu:
    E em baixo, aparando-os, erguiam mendigos
    O roto chapéu…

    Boas almas, vinde ao meu seio!
    Espiritos errantes no Ar!

    Ó lua encantada no fundo do poço,
    Moirinha da magoa!
    O balde descia, chymeras de moço!
    Trazia só agoa…

    Sou médio: evoco-os, noite em meio,
    Vos não acreditaes, eu sei-o…
    Deixal-o não acreditar.

    Meus versos primeiros estão no Adro, ainda,
    Escriptos na cal:
    Cantavam Aquella que é a roza mais linda
    Que tem Portugal!

    Se eu vos podesse dar a vista,
    Ceguinhos que ides a tactear…

    A lua é ceifeira que, ás noites, ensaia
    Bailados na terra…
    Luar é caleiro que, pallido, caia
    Ermidas da serra…

    Quanto essa sorte me contrista!
    Mas ah! mais vale não ter vista,
    Que um mundo d'estes ter d'olhar.

    O conde de Furnas sabia o Horacio,
    Tin-tin, por tin-tin!
    E dava-me, á noite, passeiando em palacio,
    Licção de latim.

    A Morte, agora, é a minha ama…
    Que bem que sabe acalentar!

    E entrei para a escola, meu Deus! quem me dera
    N'essa hora da vida!
    Uzava uma bluza, que linda que era!
    E trança comprida…

    Á noite, quando estou na cama:
    «Nana, nana! Que a tua ama
    Vem jà, não tarda! foi cavar…»

    Os outros rapazes furtavam os ninhos
    Com ovos a abrir;
    Mas eu mercava-lhes os bons passarinhos,
    Deixava-os fugir…

    Camões! ó lua do mar-bravo!
    Vem-me ajudar…

    Os prezos, ás grades da triste cadeia,
    Olhavam-me em face!
    E eu ia á pouzada do guarda da aldeia
    Pedir que os soltasse…

    Tenho o nome do teu escravo;
    Em nome d'elle e do mar-bravo,
    Vem-me ajudar!

    E quando um malvado moia a chibata
    Um filho, ou assim,
    Corria a seus braços, gritando: «Não bata!
    Bata antes em mim…»

    E o vento geme! e o vento geme!
    Que irà no mar!

    E quando dobrava na terra algum sino
    Por velho, ou donzella,
    A meu Pae rogavam «deixasse o menino
    Pegar a uma vela…»

    Lobos d'agoa, que ides ao leme,
    Tende cuidado! a lancha treme…
    Orçar! orçar!

    Enterros de anjinhos! Oh dores que trazem
    Aos tristes cazaes!
    Ha doces, ha vinho, senhores que fazem
    Saudes aos paes…

    Meu velho cão, meu grande amigo,
    Porque me estàs assim a olhar?

    A Prima doidinha por montes andava,
    Á lua, em vigilia!
    Olhae-me, doutores! ha doidos, ha lava,
    Na minha Familia…

    Quando ou choro, choras commigo
    Meu velho cão! és meu amigo…
    Tu nunca me has-de abandonar.

    E os annos correram, e os annos cresceram,
    Com elles cresci:
    Os sonhos que tinha, meus sonhos… morreram,
    Só eu não morri…

    Frades do Monte de Crestello!
    Abri-me as portas! quero entrar…

    Fui vendo que as almas não eram no mundo
    Singellas e francas:
    A minha que o era ficou, n'um segundo,
    Cheiinha de brancas!

    Cortae-me as barbas e o cabello,
    Vesti-me esse habito singello…
    Deixae-me entrar!

    Fiquei pobrezinho, fiquei sem chymeras,
    Tal qual Pedro-Sem,
    Que teve fragatas, que teve galeras,
    Que teve e não tem…

    Moço Luziada! criança!
    Porque estàs trisle, a meditar?

    Vieram as rugas, caiu-me o cabello
    Qual musgo da rocha…
    Fiquei para sempre sequinho, amarello,
    Que nem uma tocha!

    Ves teu paiz sem esperança,
    Que todo allue, à semelhança
    Dos castellos que ergueste no Ar?

    E a velha Carlota, revendo-me agora
    Tão pallido, diz:
    «Meu pobre menino! que Nossa Senhora
    Fez tão infeliz…»

    Pariz, 1891.

    *Menino e Moço*

    Tombou da haste a flor da minha infancia alada,
    Murchou na jarra de oiro o pudico jasmim:
    Voou aos altos céus S.^{ta} Aguia, linda fada,
    Que d'antes estendia as azas sobre mim.

    Julguei que fosse eterna a luz d'essa alvorada,
    E que era sempre dia, e nunca tinha fim
    Essa vizão de luar que vivia encantada,
    N'um castello de prata embutido a marfim!

    Mas, hoje, as aguias de oiro, aguias da minha infancia,
    Que me enchiam de lua o coração, outrora,
    Partiram e no céu evolam-se, a distancia!

    Debalde clamo e choro, erguendo aos céus meus ais:
    Voltam na aza do vento os ais que a alma chora;
    Ellas, porém, Senhor! ellas não voltam mais…

    Leça, 1885.

    *Os Cavalleiros*

    –Onde vaes tu, cavalleiro,
    Pela noite sem luar?
    Diz o vento viajeiro,
    Ao lado d'elle a ventar…
    Não responde o cavalleiro,
    Que vae absorto a scismar.
    –Onde vaes tu, torna o vento,
    N'esse doido galopar?
    Vaes bater a algum convento?
    Eu ensino-te a rezar.
    E a lua surge, um momento,
    A lua, convento do Ar.
    –Vaes levar uma mensagem?
    Dá-m'a que eu vou-t'a entregar:
    Irás em meia viagem
    E eu já de volta hei-de estar.
    E o cavalleiro, á passagem,
    Faz as arvores vergar.
    –Vaes escalar um mosteiro?
    Eu ajudo-t'o a escalar:
    Não ha no mundo pedreiro
    Que a mim se possa egualar!
    Não responde o cavalleiro
    E o vento torna a fallar:
    –Dize, dize! vaes p'ra guerra?
    Monta em mim, vou-te levar:
    Não ha cavallo na Terra
    Que tenha tão bom andar…
    E os trovões rolam na serra
    Como vagas a arrolar!
    –E as guerras has-de ganhal-as,
    Que por ti hei-de velar:
    Ponho-me á frente das balas
    Para a força lhes tirar!
    E as arvores formam alas
    Para os guerreiros passar.
    –Vaes guiar as caravellas
    Por sobre as agoas do mar?
    Guiarei as tuas velas
    Á feição hei-de assoprar.
    E os astros vêm ás janellas
    E a lua vem espreitar…
    –Onde vaes na galopada,
    Á tua infancia, ao teu lar?
    Conheço a tua pousada:
    Já lá tenho ido ficar.
    E vae longe a trovoada,
    Vae de todo a alliviar.
    –Vaes ver tua velha tia,
    Na roca de oiro a fiar?
    Loiro linho que ella fia,
    Ajudei-lh'o eu a seccar!
    E o luar é a Virgem Maria…
    Que lindo vae o luar!
    –Vaes ver a tua mãesinha?
    Coitada! vi-a expirar:
    Tinha a alma tão levezinha,
    Que voou sem eu lhe tocar!…
    E o cavalleiro caminha,
    Caminha sem se importar!
    –Vaes ver tua irmã? Ao peito
    Traz um menino a criar:
    Ai com que bom, lindo geito
    Ella o sabe acalentar!
    E o vento embala no peito
    Uma nuvem, p'ra imitar!
    –Onde vaes tu? Aonde, aonde?
    Phantasma! vaes-te cazar?
    Eu sei da filha d'um conde
    Que por ti vive a penar…
    E o phantasma não responde,
    Sempre, sempre, sempre a andar!
    –Vaes á cata da Ventura
    Que anda os homens a tentar?
    (Ai d'aquelle que a procura
    Que eu nunca a pude encontrar…)
    N'isto, pára a criatura,
    Faz seu cavallo estacar:
    –Vento, sim! Espera, espera!
    Que estrada devo tomar?
    (É um menino, é uma chymera
    E todo lhe ri o olhar…)
    E o vento, com voz austera,
    Dor, querendo disfarçar:
    –Toma todas as estradas
    Todas, áquem e além-mar:
    Serão inuteis jornadas,
    Nunca lá has-de chegar…
    Palavras foram facadas
    Que é vel-o, todo a sangrar…
    E seus cabellos trigueiros
    Começam de branquiar,
    E olham-se os dois cavalleiros…
    Quedam-se ambos a scismar.
    Brilha o Oriente entre os pinheiros,
    Ouvem-se os gallos cantar…
    –Adeus, adeus! Nasce a aurora,
    Adeus! vamos trabalhar!
    Adeus, adeus! vou-me embora:
    Chamaram-me as velas, no mar…
    E o vento vae por hi fóra,
    No seu cavallo, a ventar…

    Pariz, 1891.

    *Purinha*

    O Espirito, a Nuvem, a Sombra, a Chymera,
    Que (aonde ainda não sei) neste mundo me espera
    Aquella que, um dia, mais leve que a bruma,
    Toda cheia de véus, como uma Espuma,
    O Sr. Padre me dará p'ra mim
    E a seus pés me dirá, toda corada: _Sim_!
    Ha-de ser alta como a _Torre de David_,
    Magrinha como um choupo onde se enlaça a vide
    E seu cabello em cachos, cachos d'uvas,
    E negro como a capa das viuvas…
    (Á maneira o trará das virgens de Belem
    Que a Nossa Senhora ficava tão bem!)
    E será uma espada a sua mão,
    E branca como a neve do Marão,
    E seus dedos serão como punhaes,
    Fuzos de prata onde fiarei meus ais!
    E os seus seios serão como dois ninhos,
    E seus sonhos serão os passarinhos,
    E será sua bocca uma romã,
    Seus olhos duas Estrellinhas da Manhã!
    Seu corpo ligeiro, tão leve, tão leve,
    Como um sonho, como a neve,
    Que hei-de suppor estar a ver, ao vel-a,
    Cabrinhas montezas da Serra da Estrella…
    E ha-de ser natural como as hervas dos montes
    E as rolas das serras e as agoas das fontes…
    E ha-de ser boa, excepcional, quazi divina.
    Mais pura, mais simples, que moça e menina.
    Deus, pela voz dos rouxinoes ha-de gabal-a
    E os rios ao passar hão-de cantal-a.
    Seu virgem coração ha-de ser tão branquinho,
    Que não ha neste, mundo a que egualal-o: o linho
    Que, em roca de crystal, fiava a minha Avó
    Parecerá de crepe, e a neve… far-me-á dó,
    Mais a farinha do moleiro e a violeta,
    E a lua para mim será como uma preta!

    Mas em que sitio, aonde? aonde? é que me espera
    Esta Torre, esta Lua, esta Chymera?
    Fui ter com minha fada e disse-lhe: «Madrinha!
    Onde haverá na Terra assim uma Rainha?»
    E a minha fada, com sua vara de encantar,
    Um reino me apontou, lá baixo, ao pé do mar…

    Meninas, lindas meninas!
    Qual de vós é o meu ideal?
    Meninas, lindas meninas
    Do Reino de Portugal!

    E no dia do meu recebimento!
    Manhã cedo, com luar ainda no firmamento,
    Quando ainda no céu não bole uma aza,
    A minha Noiva sairá de caza
    Mail-a sua mãe, mail-os seus irmãos.
    E ha-de sorrir, e hão-de tremer-lhe as mãos…
    E a sua ama ha-de seguil-a até á porta,
    E ficará, coitada! como morta!
    E ha-de ser triste vel-a, ao longe, ainda… olhando,
    Com o avental seus olhos enxugando…
    E hão-de cercal-a sete madrinhas,
    Que hão-de ser sete virgens pobrezinhas,
    Todas contentes por estreiar vestido novo!
    E, ao vel-as, suas mães sorrirão d'entre o povo…
    E o povo da freguezia
    Esperará mais eu, no adro de _Santa Iria_.
    E hão-de mirar-me com seu ar curiozo,
    E hão-de cercar-me, n'um silencio respeitozo.
    E eu hei-de lhes fallar das colheitas, da chuva,
    E dir-me-ão que «já vae pintando a uva…»
    E animados então (o povo é uma criança!)
    Porque o Sr. Morgado deu-lhes confiança,
    «Que Deus o ajude» dirá um, e o regedor:
    «Que seja mui feliz, Sr. Doutor…»
    E eu hei-de agradecer, sorrir, gostar.
    Mas o Anjo, no entanto, não deve tardar…
    E d'entre o grupo exclamará um velho, então:
    «Já nasce o dia!» eu olharei… mas não:
    É a minha Noiva que parece dia,
    Branquinha como a cal de _Santa Iria_!
    E ao vel-a tão branca, de branco vestida,
    Ao longe, ao longe, hei-de cuidar ver uma Ermida!
    E dirá o pastor, com espanto tamanho,
    Que é uma Ovelha que fugiu do seu rebanho!
    E o João Maluco dirá que é o Luar de Janeiro!
    E o pescador explicará ao bom moleiro
    Que é tal qualzinha a sua Lancha pelo mar!
    E o moleiro dirá que é o seu Moinho a andar!
    Que assim já foram as velhinhas scismarão,
    E as netas, coitadas! que, um dia, o serão…
    Mas o Anjo assomará, á porta da capella,
    E eu branco e tremulo hei-de ir ter com ella.
    E a estrella deitar-me-á a benção dos seus olhos
    E uma aldeã deitar-lhe-á violetas, aos molhos!
    E a Bem-Amada entrar na igreja ha-de…
    E ha-de cazar-nos o Sr. Abbade.
    E, em seguida, será a nossa boda,
    E festas haverá, na aldeia toda.
    E as mais raparigas do sitio, solteiras,
    Hao-de bailar bailados sobre as eiras,
    Com _trinta moedas_ de oiro sobre o peito!
    E cantigas dirão a seu respeito.
    E a Noiva em gloria, prepassando nas janellas,
    Sorrirá com simplicidade para ellas.
    E a noite, pouco e pouco, descerá…
    E tudo acabará.
    E depois e depois, o Anjo ha-de se ir deitar,
    E a sua mãe ha-de aabraçar… E hão-de chorar!
    E a sua alcova deitará sobre o quintal,
    Onde uma fonte correrá, entre o ervilhal:
    E, ao ouvil-a cantar, deitadinha na cama,
    O Anjo adormecerá, cuidando que é a sua ama…

    Mas qual a villa, qual a aldeia, qual a serra
    Que este Palacio de Ventura encerra?
    Fui ter com minha fada e disse-lhe: «Madrinha!
    Accaso nunca te mentiu tua varinha?»
    E a minha fada com sua vara de condão
    Nos ares escreveu com tres estrellas: «Não!»

    Meninas, lindas meninas!
    Qual de vós é o meu ideal?
    Meninas! lindas meninas
    Do Reino de Portugal!

    O nosso lar!
    Minha Madrinha! ajuda-me a sonhar!
    Que a nossa caza se erga d'entre uma eminencia,
    Que seja tal qual uma rezidencia,
    Alegre, branca, rustica, por fóra.
    Que digam: «É o Sr. Abbade que alli mora…»
    Mas no interior ella ha-de ser sombria,
    Como eu com esta melancholia…
    E salas escuras, chorando saudades…
    E velhos os moveis, de antigas idades…
    (E, assim, me illuda e, assim, cuide viver
    N'outro seculo em que eu deveria nascer.)
    E nas paredes telas de parentes…
    E janellas abertas sobre os poentes…
    (E a Chymera lerá o seu livro de rezas…)
    E cravos vermelhos por cima das mezas…
    E o relogio dará as horas devagar,
    Como as palpitações de quem se vae finar…
    E, dia inteiro, n'esta solidão,
    Deixar-me-ei esquecer, ao canto do fogão.
    E a scismar e a scismar em que? em quem?
    Na Dor, na Vida, em Deus, no Infinito, no _Além_?
    E eu o Luziada sombrio, o Afflicto, o Médio,
    Rogarei aos Espiritos remedio
    E um bom Espirito virá tratar do doente
    E ha-de tremer de susto a outra gente.
    E a noite descerá, pouco e pouco, no entanto,
    E a noite embrulhará o Afflicto no seu manto!
    Mas a Purinha, então, vindo da rua,
    Toda de branco surgirá, como uma Lua!
    E, então, acordarei d'essa desesperança
    E pela mão me levará, como uma criança.
    E eu pallido! e eu tremendo! e o Anjo pelo caminho,
    «Não te afflijas…» dirá, baixinho…
    E, assim, será piedoza para os mais:
    E ha-de entrar na mizeria dos cazaes,
    Nos montes mais altos, nos sitios mais ermos,
    E será a Saude dos Enfermos!
    E quando pela estrada encontrar um velhinho
    Todo suado, carregadinho,
    (Louvado seja Nosso Senhor!)
    Ha-de tirar seu lenço e ir enxugar-lhe o suor!
    E ás aves, em prisão, abrirá as gaiolas.
    E, aos sabbados, o dia das esmolas,
    A Santa descerá ao patamar da escada,
    Envolta, sem saber, n'uma capa estrellada,
    Esmolas, distribuindo a este e áquelle: e aos ceguinhos
    E mais aos alleijadinhos,
    Mais aos que botam sangue pela bocca,
    Mais aos que vêm cantar, numa rabeca rouca,
    Amores, naufragios e _A Nau Cathrineta_,
    Mais aos Afflictos deste vil Planeta,
    Mais ás viuvas dos degredados…
    E tudo seja pelos meus peccados!
    E ha-de cozer (serão os remendos de flores)
    As velas rôtas dos pescadores
    E a luz do seu olhar benzerá essas velas
    E nunca mais hão-de rasgar-lh'as as procellas!
    E accenderá os cyrios ao Senhor,
    (Que sejam como ella no talhe e na cor!)
    Quando houver temporal… e eu virei p'ra saccada
    Ver os relampagos, ouvir a trovoada!…
    E n'isto só rezumir-se-á a sua vida:
    Vestir os nus, aos pobres dar guarida,
    Fallar á alma que na angustia se consome,
    Dar de comer a quem tem fome,
    Dar de beber a quem tem sede…
    E, lá, do céu, Jezus dirá aos homens: «Vede…»
    E eu hei-de em minhas obras imital-a
    E amal-a como á Virgem e adoral-a.
    E a Virgem ha-de encher com a mesma paixão
    As marés-vazas d'este doido coração
    E as suas ondas ha-de, olympica, aplacar,
    Que para mim, linda Joanninha d'Arc,
    Que para mim será a lua-nova!
    E ha-de ir commigo para a mesma cova,
    Pois que no dia em que eu morrer
    Veneno tomará, n'uma colher…

    Mas em que patria, em que nação é que se esconde
    Esta Bandeira, esta India, este Castello, aonde? aonde?
    Fui ter com minha fada, e disse-lhe: «Madrinha!
    Mas pode haver, assim, na Terra uma Purinha?»
    E a minha fada com sua vara de marfim
    Tocou meu peito… e _alguem_ sorriu lá dentro: _Sim_…

    Meninas, lindas meninas!
    Qual de vós é o meu ideal?
    Meninas, lindas meninas
    Do Reino de Portugal!

    Pariz, 1891.

    *Elegia*

    Vae em seis mezes que deixei a minha terra
    E tu ficaste lá, mettida n'uma serra,
    Boa velhinha! que eras mais uma criança…
    Mas, tão longe de ti, n'este Payz de França,
    Onde mal viste, então, que eu viesse parar,
    Vejo-te, quanta vez! por esta sala a andar…
    Bates. Entreabres de mansinho a minha porta.
    Virás tratar de mim, ainda depois de morta?
    Vens de tão longe! E fazes, só, essa jornada!
    Ajuda-te o bordão que te empresta uma fada.
    Altas horas, emquanto o bom coveiro dorme,
    Escapas-teãda cova e vens, Bondade enorme!
    Atravez do Marão que a lua-cheia banha,
    Atravessas, sorrindo, a mysteriosa Hespanha,
    Perguntas ao pastor que anda guardando o gado,
    (E as fontes cantam e o céu é todo estrellado…)
    Para que banda fica a França, e elle, a apontar,
    Diz: «Vá seguindo sempre a minha estrella, no Ar!»
    E ha-de ficar scismando, ao ver-te assim, velhinha,
    Que és tu a Virgem disfarçada em probrezinha…
    Mas tu, sorrindo sempre, olhando sempre os céus,
    Deixando atraz de ti, os negros Pyrineus,
    Sob os quaes rola a humanidade, nos Expressos,
    Em certo dia ao fim de tantos (conto-os, meço-os!)
    Vindo de villa em villa, e mais de serra em serra,
    Chegas!
    E cae e cae no soalho alguma terra:
    Tua cova que vem pegada aos teus vestidos!

    Ó lua do ceguinho! Amparo dos vencidos!
    Alpendre do perdão! ó Piedade! ó Clemencia!
    Singular fado o nosso, estranha coincidencia:
    Deixamos nossa Patria ao mesmo tempo: tu,
    Adentro d'um caixão, que era tambem bahu,
    Onde levavas as desgraças d'esta vida;
    Eu, n'um paquete sobre a vaga enraivecida
    (Sob a qual, entretanto, havia a paz das loizas)
    E n'elle o esquife do meu lar, as minhas coizas,
    E mais tu sabes, Santa! um sacco de mizerias!
    Mas a existencia, é um dia, esta vida são férias
    E, mal acabem, te verei de novo… em breve!
    E tu de novo me verás…
    Ah! como deve
    Ser frio esse teu lar de debaixo da terra
    Que teu cadaver de oiro ainda intacto encerra:
    Ainda intacto e sempre: disse-me o coveiro
    Que a tua cova era a unica sem cheiro…
    E assim te deixo, Santa! Santa! ao abandono,
    Só, aos cuidados das corujas e do Outomno!
    Com este frio, horror! Senhora da Piedade!
    Sem uma mão amiga e cheia de bondade
    Que te agazalhe e faça a dobra do lençol,
    Que abra a janella para tu veres o sol,
    Que, logo de manhã, venha trazer-te o leite
    E, á noite, a lamparina-esmalte com azeite!
    Sem uma voz que vá ao pé da tua loiza,
    Ancioza, perguntar se queres alguma coiza,
    Cobrir-te, dar-te as boas-noites… Sem ninguem!
    Ai de ti! ai de ti! minha segunda Mãe!

    Dobra era meu coração o sino da saudade…

    Aqui, no meio d'esta fria soledade,
    Evoco a Coimbra triste, em seu aspecto moiro:
    Entro, chapéu na mão, em tua Caza d'Oiro,
    Em frente a um cannavial, cheio de rouxinoes,
    Que era nervozo de mysterio, ao por-dos-soes…
    Vejo o teu lar e a ti, tão pura, tão singella,
    E vejo-te a sorrir, e vejo-te, á janella,
    Quando eu seguia para as aulas, manhã cedo,
    Ancioza, olhando d'entre as folhas do arvoredo,
    Olhando sempre até eu me sumir, a olhar,
    Que ás vezes não me fosse um carro atropelar.
    Vejo o meu quarto de dormir, todo caiado,
    D'onde ouvia arrulhar as pombas, no telhado;
    Oiço o relogio a dar as horas vagamente,
    Devagar, devagar, como os ais d'um doente…
    Vejo-te, á noite, pelas noites de Janeiro,
    Na sala a trabalhar, á luz do candieiro,
    Mais vejo o Emilio, indo a tactear, quasi sem vista,
    Mas que lembrava com seus olhos de ametysta,
    Meio cerrados, como ao sol uma janella,
    Que lindos olhos! uma pomba de _Ramella_!
    E andava á solta pela caza, não fugia,
    Que aos libres ares o cazulo preferia…
    Mais vejo Aquella, cujo olhar são pyrilampos,
    Que tem o nome da mais linda flor dos campos,
    Que tem o nome que tiveste… Vejo-a, ainda,
    Como se hontem fosse, a Margareth, tão linda:
    Vejo-a passar, sorrindo, e faz-me assim lembrar
    No seu vestido rubro, uma papoila a andar…
    Mais te vejo ainda ungir d'affagos minhas penas,
    Mais te vejo voltar, á tarde, das novenas…
    Mais oiço os sinos a dobrar, em _Santa Clara_,
    E tu encommendando a alminha que voara…
    Mais vejo os meus contemporaneos, pela _Estrada_,
    As capas destraçando, ao verem-te á saccada;
    Mais vejo o Ruy, na sua farda de artilheiro,
    E tu mirando-o (o que são mães!) o dia inteiro!
    Mais vejo o sol, aurea cabeça do Senhor,
    Mais vejo os cravos, notas de clarim em flor!
    Mais vejo no quintal as papoilas vermelhas,
    Mais vejo o lar das andorinhas, sob as telhas,
    Mais oiço o tanque a soluçar soluços d'agoa,
    Mais oiço as rãs, coaxando á noite a sua magoa,
    Mais vejo o figueiral todo cheio de figos,
    Mais vejo a tua mão a dal-os aos mendigos…
    Mais oiço os guizos, ao passar da mala-posta,
    Mais vejo a sala de jantar, a meza-posta,
    E tu, Senhora! prezidindo, á cabeceira.
    E (o que a distancia faz!) vejo-te na cadeira,
    Com uma touca preta a cobrir-te os cabellos,
    Que eram de neve, aos caracoes, estou a vel-os!
    (Hei-de ir cortar-t'os, alta noite, ao cemiterio…)
    Mais vejo o Vasco sempre triste, sempre serio,
    D'um lado e eu de outro…

    Que abençoado refeitorio!

    Mas tudo passa n'este mundo tranzitorio!
    E tudo passa e tudo fica! A Vida é assim
    E sel-o-á sempre pelos seculos sem fim!
    Ainda vejo a tua caza, e oiço os teus gritos
    (Mas nas janellas e na porta vejo escriptos!)
    O Vasco é ainda sempre triste, sempre serio
    (Mas sua caza, agora, é ao pé d'um cemiterio…)
    Meu quarto de dormir vejo-o no mesmo estado
    (Mas não sei que é, não me parece tão caiado.)
    A janella ainda tem o mesmo parapeito
    (Mas já não sou «o estudantinho de Direito».)
    Na sala de jantar ainda se estende a meza
    (Mas já não tem a meza-posta, a sobremeza.)
    Vejo o relogio na parede como outrora
    (Mas o ponteiro marca ainda a mesma hora…)
    O candieiro ainda tem o petroleo e a torcida
    (Mas apagou-se a luz a quando a tua vida.)
    A diligencia passa, á tardinha, a tinir,
    (Mas já não tem os olhos teus para a seguir…)
    Passam ainda pela _Estrada_ os estudantes
    (Mas não destraçam suas capas, como d'antes…)
    Vêm da novena ainda as moças e as donzellas
    (Mas procuro-te, em vão, já não te vejo entre ellas…)
    As andorinhas ainda têm o mesmo fito
    (Mas já fizeram trez jornadas ao Egypto…)
    Ainda dobra por defuntos e defuntas
    (Mas não te vejo a ti a rezar de mãos juntas.)
    Ainda lá está o figueiral com figos,
    (Mas não a tua mão a dal-os aos mendigos…)
    O Ruy ainda traz a farda de soldado
    (Mas, agora, já poe mais divizas, ao lado.)
    As rãs coaxam ainda á noite, á beira d'agoa
    (Mas, já não têm quem peça a Deus por essa magoa.)
    O Emilio tem ainda esse olhar que maravilha,
    (Mas, com seus olhos d'hoje, é uma pombinha da _Ilha_)
    Ainda lá estão os cravos, no jardim,
    (Mas já não são as mesmas notas de clarim…)
    Ainda oiço o tanque a soluçar a sua magoa
    (Mas já não acho tão branquinha a sua agoa…)
    A Margareth ainda é a papoila de outrora
    (Mas a papoila… já está uma senhora!)
    Ainda lá estão as papoilas em flor
    (Mas a velhinha já não vae de regador…)
    Meu coração é ainda o Valle de Gangrenas
    (Mas já não tenho quem lhe plante as açucenas…)
    Vive ainda o Sol, vivo eu ainda… (Mas tu morreste!)
    Tudo ficou, tudo passou…

    Que mundo este!

    Pariz, 1891.

    *Os Sinos*

    1

    Os sinos tocam a noivado,
    No Ar lavado!
    Os sinos tocam, no Ar lavado,
    A noivado!

    Que linda criança que assoma na rua!
    Que linda, a andar!
    Em extasi, o povo commenta que é a Lua,
    Que vem a andar…

    Tambem, algum dia, o povo na rua,
    Quando eu cazar,
    Ao ver minha noiva, dirá que é a Lua
    Que vae cazar…

    2

    E o sino toca a baptizado
    Que lindo fado?
    E o sino toca um lindo fado,
    A baptizado!

    E banham o anjinho na agoa de neve,
    Para o lavar,
    E banham o anjinho na agoa de neve,
    Para o sujar.

    Ó boa madrinha, que o enxugas de leve,
    Tem dó d'esses gritos! Comprehende esses ais:
    Antes o enxugue a _Velha_! antes Deus t'o leve!
    Não soffre mais…

    3

    Os sinos dobram por anjinho,
    Coitadinho!
    Os sinos dobram, coitadinho…
    Pelo anjinho!

    Que aceiada que vae p'ra cova!
    Olhae! olhae!
    Sapatinhos de sola nova,
    Olhae! olhae!

    Ó lindos sapatos de solinha nova,
    Bailae! bailae!
    Nas eiras que rodam debaixo da cova…
    Bailae! bailae!

    4

    O sino toca p'ra novena,
    _Gratiae plena_,
    E o sino toca, _gratiae plena_,
    P'ra novena.

    Ide, meninas, á ladainha,
    Ide rezar!
    Pensae nas almas como a minha…
    Ide rezar!

    Se, um dia, me deres alguma filhinha,
    Ó Mãe dos Afflictos! ella ha-de ir, tambem:
    Ha-de ir ás novenas, assim, á tardinha,
    Com sua mãe…

    5

    E o sino chama ao Senhor-fóra,
    A esta hora!
    Os sinos clamam, a esta hora,
    Ao Senhor-fóra!

    Accendei, vizinhos, as velas,
    Allumiae!
    Velas de cera nas janellas!
    Allumiae!

    E luas e estrellas tambem poem velas,
    A allumiar!
    E a _alminha_, a esta hora, já está entre ellas,
    A allumiar…

    6

    E os sinos dobram a defuntos,
    Todos juntos!
    E os sinos dobram, todos juntos,
    A defuntos!

    Que triste ver amortalhados!
    Senhor! Senhor!
    Que triste ver olhos fechados!
    Senhor! Senhor!

    Que pena me fazem os amortalhados,
    Vestidos de preto, deitados de costas…
    E de olhos fechados! e de olhos fechados!
    E de mãos postas!

    E os sinos dobram a defuntos,
    Dlin! dlang! dling! dlong!
    E os sinos dobram, todos juntos,
    Dlong! dlin! dling! dlong

    Pariz, 1891.

    *Terças-Feiras*

    Ao Alberto

    1

    Ó condezinho de Tolstoï (Alberto)
    Santo de minha extrema devoção,
    Alma tamanha, que adorei de perto,
    Lá na _Thebaida_ do Sr. João.

    Meu Calix do Senhor! Meu Pallio aberto!
    Luar branco na minha escuridão!
    Ó minha Joanna d'Arc! Amigo certo
    Na hora incerta! Aguia! Meu Irmão!

    A ti as _Terças-feiras_, n'este Inferno,
    D'aquelle que nasceu, em terça-feira
    E em terça-feira morrerá, talvez…

    Quando eu for morto já, noites de inverno,
    Aos teus filhinhos, conta-as á lareira
    Para eu ouvir de _lá_:

    «Era uma vez…

    Pariz, 1891.

    2

    Legenda do Santo

    «Era uma vez um velho, mui velhinho,
    Vinde, meus filhos! vinde ouvir contar!
    Seguia, ao por-do-sol, por um caminho,
    Dois saccos de Amargura a carregar.

    O pobre velho, todo derreadinho,
    Já não podia mais, queria arreiar;
    Mas passa um cavalleiro: «Olá, santinho!
    Eu deito-lhe uma mão para o ajudar…»

    E o fidalgo desceu do seu cavallo:
    Tomou-lhe os saccos que iam a matal-o
    E aos hombros carregou com o maior!

    E, hoje, o velhinho anda a construir, coitado!
    Que linda ermida, n'esse chão sagrado,
    Onde lhe appareceu _Nosso Senhor_!»

    Pariz, 1891.

    3

    Prologo

    Em hora de afflicçãô, molhei a penna
    Na chaga aberta d'esse corpo amado,
    Mas n'uma chaga a suppurar gangrena,
    Cheia de puz, de sangue já coalhado!

    E depois, com a mão firme e serena,
    Compuz este missal d'um torturado:
    Talvez choreis, talvez vos faça pena…
    Chorae! que immenso tenho eu já chorado.

    Abri-o! Orae com devoção sincera!
    E, à leitura final d'uma oração,
    Vereis cair no solo uma chymera…

    Moços do meu paiz! vereis então
    O que é esta Vida, o que é que vos espera…
    Toda uma Sexta-feira de Paixão!

    Coimbra, 1889.

    4

    Natal d'um Poeta

    Em certo reino, á esquina do planeta,
    Onde nasceram meus Avós, meus Paes,
    Ha quatro lustres, viu a luz um poeta
    Que melhor fôra não a ver jamais.

    Mal despontava para a vida inquieta,
    Logo ao nascer, mataram-lhe os ideaes,
    A falsa-fé, n'uma traição abjecta,
    Como os bandidos nas estradas reaes!

    E, embora eu seja descendente, um ramo
    D'essa arvore de Heroes que, entre perigos
    E guerras, se esforçaram pelo ideal:

    Nada me importas, Paiz! seja meu amo
    O Carlos ou o Zé da Th'reza… Amigos,
    Que desgraça nascer em Portugal!

    Coimbra, 1889.

    5

    Ai de Mim!

    Venho, torna-me velho esta lembrança!
    D'um enterro d'anjinho, nobre e puro:
    Infancia, era este o nome da criança
    Que, hoje, dorme entre os bichos, lá no escuro…

    Trez anjos, a Chymera, o Amor, a Esperança
    Acompanharam-n'o ao jazigo obscuro,
    E recebeu, segundo a velha usança,
    A chave do caixão o meu Futuro.

    Hoje, ambulante e abandonada Ermida,
    Leva-me o fado, á bruta, aos empurrões,
    Vá para a frente! Marcha! Á Vida! Á Vida!

    Que hei-de fazer, Senhor! o qu'é que espera
    Um bacharel formado em illuzões
    Pela Universidade da Chymera?

    Boa Nova, 1887.

    6

    Conde

    Na praia lá da Boa Nova, um dia,
    Edifiquei (foi esse um grande mal)
    Torreão de gloria, o que é a phantasia,
    Todo de lapis-lazzuli e coral!

    N'aquellas redondezas, não havia
    Quem se gabasse d'um dominio egual:
    Oh o Torreão de gloria! parecia
    O territorio d'um Senhor-feudal!

    Um dia, não sei quando, nem sei d'onde;
    Um vento secco de tortura e spleen
    Deitou por terra, ao pó que tudo esconde,

    O meu condado, o meu condado, sim!
    Porque eu já foi um poderoso Conde,
    N'aquella idade em que se é conde assim…

    Porto, 1887.

    7

    Ó Virgens!

    Ó virgens que passaes, ao sol-poente,
    Pelas estradas ermas, a cantar!
    Eu quero ouvir uma canção ardente
    Que me transporte ao meu perdido lar…

    Cantae-me, n'essa voz omnipotente,
    O sol que tomba, aureolando o mar,
    A fartura da seara reluzente,
    O vinho, a graça, a formozura, o luar!

    Cantae! cantae as limpidas cantigas!
    Das ruinas do meu lar desatterrae
    Todas aquellas illuzões antigas

    Que eu vi morrer n'um sonho, como um ai…
    Ó suaves e frescas raparigas;
    Adormecei-me n'essa voz… Cantae!

    Porto, 1886.

    8

    Á Luz de Lua!

    Iamos sós pela floresta amiga,
    Onde em perfumes o luar se evola,
    Olhando os céus, modesta rapariga!
    Como as crianças ao sair da escola.

    Em teus olhos dormentes de fadiga,
    Meio cerrados como o olhar da rola,
    Eu ia lendo essa ballada antiga
    D'uns noivos mortos ao cingir da estola…

    A Lua-a-Branca, que é tua avozinha,
    Cobria com os seus os teus cabellos
    E dava-te um aspeto de velhinha!

    Que linda eras, o luar que o diga!
    E eu compondo estes versos, tu a lel-os,
    E ambos scismando na floresta amiga…

    Porto, 1884.

    9

    Desobriga

    Os meus peccados, Anjo! os meus peccados!
    Contar-t'os? Para que, se não têm fim…
    Sou santo ao pé dos outros desgraçados,
    Mas tu és mais que santa ao pé de mim!

    A ti accendo cyrios perfumados,
    Faço novenas, queimo-te alecrim,
    Quando soffro, me vejo com cuidados…
    Nas tuas rezas, lembra-te de mim!

    Que eu seja puro d'alma e pensamento!
    E que, em dia do grande julgamento,
    Minhas culpas não sejam de maior:

    Pois tenho, que o céu tudo aponta e marca,
    Um processo a correr n'essa comarca,
    Cujo delegado é Nosso Senhor…

    Hamburgo, 1891.

    10

    Que Aborrecido!

    Meus dias de rapaz, de adolescente,
    Abrem a bocca a bocejar sombrios:
    Deslizam vagarozos, como os rios,
    Succedem-se uns aos outros, egualmente.

    Nunca desperto de manhã, contente.
    Pallido sempre com os labios frios,
    Oro, desfiando os meus rozarios pios…
    Fôra melhor dormir, eternamente!

    Mas não ter eu aspirações vivazes,
    E não ter, como têm os mais rapazes,
    Olhos boiando em sol, labio vermelho!

    Quero viver, eu sinto-o, mas não posso:
    E não sei, sendo assim, emquanto moço,
    O que serei, então, depois de velho…

    Bellos-Ares, 1889.

    11

    Poveiro

    Poveirinhos! meus velhos pescadores!
    Na Agoa quizera com vocês morar:
    Trazer o lindo gorro de trez cores,
    Mestre da lancha _Deixem-nos passar_!

    Far-me-ia outro, que os vossos interiores
    De ha tantos tempos, devem já estar
    Calafetados pelo breu das dores,
    Como esses pongos em que andaes no mar!

    Ó meu Pae, não ser eu dos poveirinhos!
    Não seres tu, para eu o ser, poveiro,
    Mail-Irmão do «Senhor de Mattozinhos»!

    No alto mar, ás trovoadas, entre gritos,
    Promettermos, _si o barco fôri intieiro_,
    _Nossa bela á Sinhora dos Afflictos_!

    Leça, 1889.

    12

    O Sr. Abbade

    Quando vem Junho e deixo esta cidade,
    Batina, _Caes_, tuberculozos céus,
    Vou para o Seixo, para a minha herdade:
    Adeus, cavaco e luar! choupos, adeus!

    Tomo o regimen do Sr. Abbade,
    E faço as pazes, elle o quer, com Deus.
    No seu direito olhar vejo a bondade,
    E ás capellinhas vou ver os judeus.

    Que homem sem par! Ignora o que são dores!
    Para elle uma ramada é o pallio verde,
    Os cachos d'uvas são as suas flores!

    Ao seu passal chama elle o mundo todo…
    Sr. Abbade! olhe que nada perde:
    Viva na paz, ahi, longe do lodo.

    Coimbra, 1850.

    13

    Maes, Vinde Ouvir!

    Longe de ti, na cella do meu quarto,
    Meu copo cheio de agoirentas fezes,
    Sinto que rezas do Outro-mundo, harto,
    Pelo teu filho. Minha Mãe, não rezes!

    Para fallar, assim, ve tu! já farto,
    Para me ouvires blasphemar, ás vezes,
    Soffres por mim as dores crueis do parto
    E trazes-me no ventre nove mezes!

    Nunca me houvesses dado á luz, Senhora!
    Nunca eu mamasse o leite aureolado
    Que me fez homem, magica bebida!

    Fôra melhor não ter nascido, fôra,
    Do que andar, como eu ando, degredado
    Por esta Costa d'Africa da Vida…

    Coimbra, 1889.

    14

    Sê Altivo!

    Altos pinheiros septuagenarios
    E ainda empertigados sobre a serra!
    Sois os Enviados-extraordinarios,
    Embaixadores d'El-Rey Pan, na Terra.

    A noite, sob aquelles lampadarios,
    Conferenciaes com elle… Ha paz? Ha guerra?
    E tomam notas vossos secretarios,
    Que o _Livro Verde_ secular encerra.

    Hirtos e altos, Tayllerands dos montes!
    Tendes a linha, não vergaes as frontes
    Na exigencia da côrte, ou beija-mão!

    Voltaes aos homens com desdem a face…
    Ai oxalá! que Pan me despachasse
    Addido á vossa extranha legação!

    Coimbra, 1888.

    15

    Sê de Pedra!

    Não reparaste nunca? Pela aldeia,
    Nos fios telegraphicos da estrada,
    Cantam as aves, desde que o sol nada,
    E, á noite, se faz sol a lua cheia…

    No entanto, pelo arame que as tenteia,
    Quanta tortura vae, n'uma ancia alada!
    O Ministro que joga uma cartada,
    Alma que, ás vezes, d'além-mar anceia:

    –Revolução!–Inutil.–Cem feridos,
    Setenta mortos.–Beijo-te!–Perdidos!
    –Emfim, feliz!–?–!–Desesperado.–Vem!

    E as lindas aves, bem se importam ellas!
    Continuam cantando, tagarellas:
    Assim, Antonio! deves ser tambem.

    Colonia, 1891.

    16

    Vae para um Convento!

    Falhei na Vida. Zut! Ideaes caidos!
    Torres por terra! As arvores sem ramos!
    Ó meus amigos! todos nós falhamos…
    Nada nos resta. Somos uns perdidos.

    Choremos, abracemo-nos, unidos!
    Que fazer? Porque não nos suicidamos?
    Jezus! Jezus! Resignação… Formamos
    No mundo, o Claustro-pleno dos Vencidos.

    Troquemos o burel por esta capa!
    Ao longe, os sinos mysticos da Trappa
    Clamam por nós, convidam-nos a entrar…

    Vamos semear o pão, podar as uvas,
    Pegae na enxada, descalçae as luvas,
    Tendes bom corpo, Irmãos! Vamos cavar…

    Coimbra, 1889.

    17

    A França!

    Vou sobre o Oceano (o luar de lindo enleva!)
    Por este mar de Gloria, em plena paz.
    Terras da Patria somem-se na treva,
    Agoas de Portugal ficam, atraz…

    Onde vou eu? Meu fado onde me leva?
    Antonio, onde vaes tu, doido rapaz?
    Não sei. Mas o vapor, quando se eleva,
    Lembra o meu coração, na ancia em que jaz…

    Ó Luzitania que te vaes á vela!
    Adeus! que eu parto (rezarei por ella…)
    Na minha _Nau Catharineta_, adeus!

    Paquete, meu paquete, anda ligeiro!
    Sobe depressa á gavea, marinheiro,
    E grita, França! pelo amor de Deus!…

    Oceano Atlantico, 1890.

    18

    Tempestade!

    O meu beliche é tal qual o bercinho,
    Onde dormi horas que não vêm mais.
    Dos seus embalos já estou cheiinho:
    Minha velha ama são os vendavaes!

    Uivam os ventos! Fumo, bebo vinho.
    O vapor treme! Abraço a _Biblia_, aos ais…
    Covarde! Que dirá teu Avôzinho,
    Que foi moreante? Que dirão teus Paes?

    Coragem! Considera o que has soffrido,
    O que soffres e o que ainda soffrerás,
    E ve, depois, se accaso é permittido

    Tal medo á Morte, tanto apego ao mundo:
    Ah! fôra bem melhor, vás onde vás,
    Antonio, que o paquete fosse ao fundo!

    Golpho de Biscaya, 1891.

    19

    Continua a Tempestade

    Aqui, sobre estas aguas cor de azeite,
    Scismo em meu lar, na paz que lá havia:
    Carlota, á noite, ia ver se eu dormia
    E vinha, de manhã, trazer-me o leite…

    Aqui, não tenho um unico deleite!
    Talvez… baixando, em breve, á Agoa fria,
    Sem um beijo, sem uma _Ave-Maria_,
    Sem uma flor, sem o menor enfeite…

    Ah! podesse eu voltar á minha infancia!
    Lar adorado, em fumos, a distancia,
    Ao pé de minha Irmã, vendo-a bordar…

    Minha velha aia! conta-me essa historia
    Que principiava, tenho-a na memoria,
    «Era uma vez…»
    Ah deixem-me chorar!

    Canal da Mancha, 1891.

    20

    Vaidade, Tudo Vaidade!

    Vaidade, meu amor, tudo vaidade!
    Ouve: quando eu, um dia, for alguem,
    Tuas amigas ter-te-ão amizade,
    (Se isso é amizade) mais do que, hoje, têm.

    Vaidade é o luxo, a gloria, a caridade,
    Tudo vaidade! E, se pensares bem,
    Verás, perdoa-me esta crueldade,
    Que é uma vaidade o amor de tua mãe…

    Vaidade! Um dia, foi-se-me a Fortuna
    E eu vi-me só no mar com minha escuna,
    E ninguem me valeu na tempestade!

    Hoje, já voltam com seu ar composto,
    Mas eu, ve lá! eu volto-lhes o rosto…
    E isto em mim não será uma vaidade?

    Mar do Norte, 1891.

    21

    Paz!

    E a Vida foi, e é assim, e não melhora.
    Esforço inutil, crê! Tudo é illuzão…
    Quantos não scismam n'isso mesmo a esta hora
    Com uma taça, ou um punhal na mão!

    Mas a Arte, o Lar, um filho, Antonio? Embora!
    Chymeras, sonhos, bolas de sabão.
    E a tortura do _além_ e quem lá mora!
    Isso é, talvez, minha unica afflicção…

    Toda a dor pode suspportar-se, toda!
    Mesmo a da noiva morta em plena boda,
    Que por mortalha leva… essa que traz…

    Mas uma não: é a dor do pensamento!
    Ai quem me dera entrar n'esse convento
    Que ha além da Morte e que se chama _A Paz_!

    Pariz, 1891.

    22

    Epilogo

    Meu coração, não batas, pára!
    Meu coração, vae-te deitar!
    A nossa dor, bem sei, é amara,
    A nossa dor, bem sei, é amara…
    Meu coração, vamos sonhar…
    Ao mundo vim, mas enganado.
    Sinto-me farto de viver:
    Vi o que elle era, estou massado,
    Vi o que elle era, estou massado…
    Não batas mais! vamos morrer…
    Bati á porta da Ventura
    Ninguem m'à abriu, bati em vão:
    Vamos a ver se a sepultura,
    Vamos a ver se a sepultura
    Nos faz o mesmo, coração!
    Adeus, Planeta! adeus, ó Lama!
    Que a ambos nós vaes digerir…
    Meu coração, a _Velha_ chama,
    Meu coração, a _Velha_ chama…
    Basta, por Deus! vamos dormir…

    Coimbra, 1888.

    *Carta a Manoel*

    Manoel, tens razão. Venho tarde. Desculpa.
    Mas não foi Anto, não fui eu quem teve a culpa,
    Foi Coimbra. Foi esta paysagem triste, triste,
    A cuja influencia a minha alma não reziste,
    Queres noticias? Queres que os meus nervos fallem?
    Vá! dize aos choupos do Mondego que se callem…
    E pede ao vento que não uive e gema tanto:
    Que, emfim, se soffre abafe as torturas em pranto,
    Mas que me deixe em paz! Ah tu não imaginas
    Quanto isto me faz mal! Peor que as sabbatinas
    Dos _ursos_ na aula, peor que beatas correrias
    De velhas magras, galopando _Ave-Marias_,
    Peor que um diamante a riscar na vidraça!
    Peor eu sei lá, Manoel, peor que uma desgraça!
    Hysterisa-me o vento, absorve-me a alma toda,
    Tal a menina pelas vesperas da boda,
    Atarefada mail-a ama, a arrumar…
    O vento afoga o meu espirito n'um mar
    Verde, azul, branco, negro, cujos vagalhões
    São todos feitos de luar, recordações.
    Á noite, quando estou, aqui, na minha toca,
    O grande evocador do vento evoca, evoca
    Nosso verão magnifico, este anno passado,
    (E a um canto bate, alli, cardiaco, apressado,
    O _tic-tac_ do relogio do fogão)…
    Bons tempos, Manoel, esses que já lá vão!
    Isto, tu sabes? faz vontade de chorar.
    E, pela noite em claro, eu fico-me a scismar,
    Triste, ao clarão da lamparina que desmaia,
    Na existencia que tive este verão na praia,
    Quando, mal na amplidão, vinha arraiando a aurora,
    Ia por esse mar de Jezus-Christo fóra,
    No barco á vela do moreno Gabriel!
    Vejo passar de negro, envoltas n'um burel,
    Quantos sonhos, meu Deus! quantas recordações!
    Phantasmas do passado! encantadas vizões!
    Que, embora estejam lá, no seu paiz distante,
    Oiço-as fallar na minha alcova de estudante.

    Minhas vizões! entrae, entrae, não tenhaes medo!

    Ó _Rio Doce_! tunnel d'agoa e de arvoredo!
    Por onde Anto vogava em o wagon d'um bote…
    E, ao sol do meio dia, os banhos em pelote,
    Quando iamos nadar, á _Ponte de Tavares_!
    Tudo se foi! Espuma em flocos pelos ares!
    Tudo se foi…

    Hoje, mais nada tenho que esta
    Vida claustral, bacharelatica, funesta,
    N'uma cidade assim, cheirando, essa indecente!
    Por toda a parte, desde a Alta á Baixa, a lente!
    Bem me dizias tu, como que adivinhando
    O que isto para mim seria, Amigo, quando
    O anno passado, vim contra tua vontade
    Matricular-me, ahi, n'essa Universidade:
    «Anto não vás…» dizias tu. Eu, fraco, vim.
    Mas certamente, é natural, não chego ao fim.
    Ah quanto fôra bem melhor a formatura,
    Na Escola-Livre da Natureza, Mãe pura!
    Que optimas prelecções as prelecções modernas,
    Cheias de observação e verdades eternas,
    Que faz diariamente o Proff. Oceano!
    Já tinha dado todo o _Coraçao Humano_,
    Manoel! faltava um anno só para acabar
    Meu curso de Psychologia com o Mar.
    Porque troquei pela Coimbra inutil, vã,
    Essa Escola sem par, cujo reitor é Pan?
    Talvez… preguiça, eu sei… A _cabra_ é a cotovia:
    As aulas, lá, começam mal aponta o dia!

    Que tedio o meu, Manoel! Antes de vir, gostava.
    Era a distancia, o _além_, que me impressionava:
    Tinha a poezia do sol-por, d'uma esperança.
    Mas, mal cheguei (que espanto! eu era uma criança…)
    Tudo rolou no solo! A _Tasca das Camellas_
    Para mim, era um sonho, o céu cheio de estrellas:
    Nossa Senhora a dar de ceiar aos estudantes
    Por _6 e 5_! Mas ah! foi-se a Virgem d'antes,
    Tia Camella… só ficou a camelice.

    Comtudo, em meio d'esta futil coimbrice,
    Que lindas coisas a lendaria Coimbra encerra!
    Que paysagera lunar que é a mais doce da Terra!
    Que extraordinarias e medievas raparigas!
    E o rio e as fontes? e as fogueiras? e as cantigas?
    As cantigas! Que encanto! Uma diz-te respeito,
    Manoel; é um sonho, é um beijo, é um amor-perfeito
    Onde o luar gelou: «Manoel! tão lindas moças!
    Manoel! tão lindas são…»

    Que pena que não ouças!

    Quero mostrar-te Coimbra. Has-de gostar. Partamos.
    Dá-me o teu braço e vem d'ahi commigo, vamos!

    Olha… São os _Geraes_, no intervallo das aulas.
    Bateu o quarto. Ve! Vem sahindo das jaulas
    Os estudantes, sob o olhar pardo dos lentes:
    Ao vel-os, quem dirá que são os descendentes
    Dos navegantes do seculo XVI?
    Curvam a espinha, como os aulicos aos reis!
    E magros! tristes! de cabeça derreiada!
    Ah! Como hão-de, amanhã, pegarem uma espada!
    –E os doutores?–Ahi, os tens graves, á porta.
    Porque te ris? Olhal-os tanto… Que te importa?
    Ha duas excepções: o mais, são todos um,
    Quaresma d'alma, sexta-feira de jejum…
    Não quero entanto, meu Manoel, que vás embora
    Sem ver aquelle amor que esta alma adora, adora:
    Olha, acolá. Gigante, altivo como um cedro,
    Olhando para mim com ternura: é o meu Pedro
    Penedo!
    Ó Pedro da minh'alma! meu amigo!
    Que feliz sou, bom velho, em estudar comtigo!
    Mal diria eu em pequenito, quando a ama
    Para eu me callar, vinha fazer-me susto á cama
    Por ti chamava: Pedro! e eu socegava logo,
    Que eras tu o _Papão_! A ama, de olhos em fogo,
    Imitava-te o andar, que não era bem de homem…
    Eu tinha birras?–Ahi vem o lobishomem!
    Dizia ella.–Bate á porta! Truz! truz! truz!
    E tu entravas, Pedro, eu via! Horror! Jezus!

    Meu velho Pedro! meu phantasma de criança!
    Quero-te bem, tanto que tenho na lembrança,
    Quando morreres, Pedro! (o Pedro nunca morre)
    Hei-de pegar em ti, encher de alcool a Torre
    Com todo o meu esmero e, zás! metter-te dentro!
    Pedro! assim ficas enfrascado, ao alto e ao centro,
    E eternamente, para espanto de vindoiros:
    No rotulo porei: _Alli-Bed, Rei dos Moiros_.

    Mas… toca a recolher. Dou uma falta: embora!
    Saiamos…
    Manoel, vamos por ahi fóra
    Lavar a alma, furtar beijos, colher flores,
    Por esses lindos, deliciozos arredores,
    Que vistos uma vez, ah! não se esquecem mais:
    Torres, Condeixa, Santo Antonio de Olivaes,
    Lorvão, Sernache, Nazareth, Tentugal, Cellas!
    Sitios sem par! Onde ha paysagens como aquellas?
    Santos Logares, onde jaz meu coração!
    Cada um é para mim uma recordação…

    _Condeixa_?

    Vamos ao arraial que, alli, ha.
    –Sol, poeira, tanta gente!–É o mesmo, vamos lá!

    Olha! Estudantes, dando o braço ás raparigas,
    Caras de leite, olhos de luar, tranças d'estrigas;
    Arrancam-lhes do seio arfando as violetas,
    Aos hombros d'ellas poem suas capas pretas:
    Que deliciosos estudantes que ellas ficam!
    Velhos aldeões que tudo vêm, mas não implicam,
    Porque, em summa, que mal pode fazer um beijo,
    Vem até nós, sorrindo, aproveitando o ensejo,
    Com o chapéu na mão, simples e bons e honrados:
    Vêm consultar-nos, porque «somos advogados
    E sabemos das leis…» O que devem fazer
    Ahi, n'uma questão, n'uma questão qualquer
    D'agoas com um vizinho: é tal a cheia d'ellas
    Que estraga as plantações!–Que hão-de fazer? Bebel-as!
    E vão-se, assim, jurando aviar nossos conselhos…
    Ai de vós! Ai das vossas agoas, pobres velhos!

    _Tentugal_?

    Que manhã! E não quereres vir…
    Pega nas luvas, no chapéu. Vamos partir.
    É logo alli: quinze kilometros, é perto.
    Espera-nos o Toy, extasia-se o Alberto,
    Pela janella d'esse mundo amplo e rasgado!
    Que lindo dia! ó sol, obrigado, obrigado!
    Paysagem outomnal, alegra-te tambem!
    Hoje, não quero ver ninguem triste, ninguem!
    Outomno, vá! melancholia, faze tregoas!
    Peço paz, rendo-me! Haja paz, n'estas trez legoas!
    Choupos, então? Que é isso? erguei a fronte, vamos!
    Ó verdilhões, ide cantar-lhes sobre os ramos!
    Aves por folhas! Animae-os! animae-os!
    Applica-lhes, ó sol! uma ducha de raios!
    Almas tristes e sós (não é mais triste a minha!)
    Aqui estaes, meu Deus! desde a aurora á tardinha.
    O vento leva-vos a folha, a pelle; o vento
    Leva-vos o orvalho, a agoa, o prezigo, o sustento!
    E dobra-vos ao chão, faz-vos tossir, coitados!
    Estaes aqui, estaes promptos, amortalhados…
    Fazeis lembrar-me, assim, postos n'estes logares,
    Uma colonia de phtysicos, a ares!…
    Não vos verei, talvez, quando voltar; comtudo
    Ver-vos-ei, _la_, um dia, onde se encontra tudo:
    A alma dos choupos, como a do homem, sobe aos céus…
    Ó choupos, até lá… Adeus! adeus! adeus!

    Foi-se a paysagem triste: agora, são collinas;
    Ve-se curraes, eiras, crianças pequeninas,
    Bois a pastar ao longe, aves dizendo missa
    Á natureza e o sol a semear Justiça!
    Vão pela estrada aleijadinhos de moletas;
    Atiro-lhes vintens: vêm pegar-lhes as netas.
    Mas o trem voa á desfilada…–Olá! arreda!
    (Ia-o apanhando: foi por um fio de seda…)
    E assim n'este galope, a charrette rodando,
    Já de Tentugal se vae quazi approximando:
    S. João do Campo já nos fica muito atraz…
    Assim, _Malhado_! puxa! Bravo, meu rapaz!
    Que estamos quasi lá! mexe-me essas ancas!
    Emfim!

    Tentugal toda a rir de cazas brancas!

    A linda aldeia! Venho cá todos os mezes
    E contrariado vou de todas essas vezes.
    Venho ao convento vizitar a linda freira,
    Nunca lhe fallo: talvez, hoje, a vez primeira…
    Vou lá comprar um pastellinho, que eu bem sei
    Que elle trará dentro um bilhete, isto sonhei:
    Assim o pastellinho, ó ventura sonhada!
    Tem de recheio o coração da minha amada.
    Abro o enveloppe ideal. Vamos a ver…–Traz?–Não!

    Regresso a Coimbra só com o meu coração.

    Coimbra, 1888-1889-1890.

    *Para As Raparigas de Coimbra*

    1

    Ó choupo magro e velhinho,
    Corcundinha, todo aos nós:
    És tal qual meu avôzinho,
    Falta-te apenas a voz.

    2

    Minha capa vos acoite
    Que é p'ra vos agazalhar:
    Se por fóra é cor da noite,
    Por dentro é cor do luar…

    3

    Ó sinos de _Santa Clara_,
    Por quem dobraes, quem morreu?
    Ah, foi-se a mais linda cara
    Que houve debaixo do céu!

    4

    A sereia é muito arisca,
    Pescador, que estás ao sol:
    Não cae, tolinho, a essa isca…
    Só pondo uma flor no anzol!

    5

    A lua é a hostia branquinha,
    Onde está Nosso Senhor:
    É d'uma certa farinha
    Que não apanha bolor!

    6

    Vou a encher a bilha e trago-a
    Vazia como a levei!
    Mondego, qu'é da tua agoa?
    Qu'é dos prantos que eu chorei?

    7

    A _cabra_ da velha Torre,
    Meu amor, chama por mim:
    Quando um estudante morre,
    Os sinos chamam, assim.

    8

    –E só porque o mundo zomba
    Que poes luto? Importa lá!
    Antes te vistas de pomba…
    –Pombas pretas tambem ha!

    9

    Therezinhas! Ursulinas!
    Tardes de novena, adeus!
    Os corações ás batinas
    Que diriam? sabe-o Deus…

    10

    Teu coração é uma igreja:
    N'uma eça dorme, alli,
    Manoel, bemdito seja,
    Que morreu d'amor por ti.

    11

    Manoel no _Pio_ repoiza:
    Todos os dias, lá vou
    Ver se quer alguma coiza,
    Perguntar como passou.

    12

    Agora, são tudo amores
    A roda de mim, no _Caes_,
    E, mal se apanham doutores,
    Partem e não voltam mais…

    13

    Aos olhos da minha fronte
    Vinde os cantaros encher:
    Não ha, assim, segunda fonte
    Com duas bicas a correr!

    14

    Nossa Senhora faz meia
    Com linha feita de luz:
    O novello é a lua-cheia,
    As meias são p'ra Jezus.

    15

    Meu violão é um cortiço,
    Tem por abelhas os sons
    Que fabricam, valha-me isso,
    Fadinhos de mel, tão bons…

    16

    Ó fogueiras, ó cantigas,
    Saudades! recordações!
    Bailae, bailae, raparigas!
    Batei, batei, corações!

    Coimbra, 1890.

    *Luzitania no Bairro-Latino*

    Só!
    Ai do Luziada, coitado,
    Que não tem mãe, nem tem avó,
    Que não ama, nem é amado…
    Nuzinho Outomno, no mez d'Abril!
    Que triste foi o seu fado!
    Antes fosse p'ra soldado,
    Antes fosse p'ro Brazil…

    Menino e moço, tive uma Torre de leite,
    Torre sem par!
    Oliveiras que davam azeite,
    Searas que davam linho de fiar,
    Moinhos de velas, como latinas,
    Que S. Silvestre fazia andar…
    Formozas cabras, muito pequeninas,
    Loiras vaquinhas de maternas ancas
    Que me davam o leite de manhã,
    Lindo rebanho de ovelhinhas brancas;
    Meus bibes eram da sua lã…

    Antonio era o pastor d'esse rebanho:
    Com ellas ia para os montes, a pastar.
    E tinha pouco mais ou menos seu tamanho,
    E o pasto d'ellas era o meu jantar…
    E a serra a toalha, o covilhete e a sala.
    Passava a noite, passava o dia
    Com essas boas irmãzinhas
    A quem só mingoava a falla
    Para serem perfeitas criaturinhas…
    E quando na Igreja das _Alvas Saudades_
    Que era da minha Torre a freguezia,
    Batiam as _Trindades_,
    Com os seus olhos christianissimos olhavam-me,
    Eu persignava-me, rezava _Ave-Maria_…
    E as doces ovelhinhas imitavam-me.

    Menino e moço, tive uma Torre de leite,
    Torre sem par!
    Oliveiras que davam azeite…
    Um dia, os castellos cairam do Ar!

    As oliveiras seccaram,
    Morreram as vaccas, perdi as ovelhas,
    Sairam-me os ladrões, só me deixaram
    As velas do moinho… mas rôtas e velhas!

    Que triste fado!
    Antes fosse aleijadinho,
    Antes doido, antes cego…

    Ai do Luziada, coitado!

    Veio da terra, mail-o seu moinho:
    Lá, faziam-no andar as agoas do Mondego,
    Hoje, fazem-no andar agoas do Sena…
    É negra a sua farinha!
    Orae por elle! tende pena!
    Pobre Moleiro da Saudade…
    Ó minha
    Terra encantada, cheia de sol,
    Ó campanarios, ó luas cheias,
    Lavadeira que lavas o lençol,
    Ermidas, sinos das aldeias,
    Ó ceifeira que cegas cantando,
    Ó moleiro das estradas,
    Carros de bois, chiando…
    Flores dos campos, beiços de fadas,
    Poentes de Julho, poentes mineraes,
    Ó choupos, ó luar, ó regas de verão!

    Que é feito de vocês? Onde estaes, onde estaes?

    Ó padeirinhas a amassar o pão,
    Velhinhas na roca a fiar,
    Cabello todo em caracoes!
    Pescadores a pescar
    Com a linha cheia de anzoes!
    Zumbidos das vespas, ferrões das abelhas,
    Ó bandeiras! ó sol! foguetes! ó toirada!
    Ó boi negro entre as capas vermelhas!
    Ó pregões d'agoa fresca e limonada!
    Ó romaria do _Senhor do Viandante_!
    Procissões com muzica e anjinhos!
    Srs. Abbades d'Amarante,
    Com trez ninhadas de sobrinhos!

    Onde estaes? onde estaes?

    Ó minha capa de estudante, ás ventanias!
    Cidade triste agazalhada entre choupaes!
    Ó dobres dos poentes, ás _Ave-Marias_!
    Ó _Cabo do Mundo_! _Moreira da Maia_!
    Estrada de S. Thiago! Sete-Estrello!
    Cazas dos pobres que o luar, á noite, caia…
    Fortalezas de Lipp! ó fosso do _Castello_,
    Amortalhado em perrexil e trepadeiras,
    Onde se enroscam como espozos as lagartas!
    Sr. Governador a podar as rozeiras!
    Ó Bruxa do Padre, que botas as cartas!
    Joaquim da Thereza! Francisco da Hora!

    Que é feito de vós?
    Fallaveis aos barcos que andavam, _la fora_,
    Pelo porta-voz…
    Arrabalde, maritimo da França,
    Conta-me a historia da _Princeza Magalona_,
    E do _Senhor de Calais_,
    Mais o naufragio do vapor _Perseverança_,
    Cujos cadaveres ainda vejo á tona…
    Ó pharolim da _Barra_, lindo, de bandeiras,
    Para os vapores a fazer signaes!
    Verdes, vermelhas, azues, brancas, extrangeiras,
    Diccionario magnifico de cores!
    Alvas espumas, espumando a fragua,
    Ou rebentando, á noite, como flores!
    Ondas do mar! Serras da Estrella d'agoa,
    Cheias de brigues como pinhaes…
    Morenos mareantes, trigueiros pastores!

    Onde estaes, onde estaes?

    Convento d'agoas do mar, ó verde convento,
    Cuja Abbadessa secular é a Lua
    E cujo Padre-capellão é o Vento…
    Agoa salgada d'esses verdes poços,
    Que nenhum balde, por maior, escua!
    Ó mar jazigo de paquetes, de ossos,
    Que o Sul, ás vezes, arrola á praia:
    Olhos em pedra, que ainda chispam brilhos!

    Corpo de virgem, que ainda veste a saia…
    Braços de mães, ainda a apertar braços de filhos!
    Noiva cadaver ainda com véu…
    Ossadas ainda com os mesmos fatos!
    Cabeça roxa ainda de chapéu!
    Pés de defunto que ainda traz sapatos!
    Boquinha linda que já não canta…
    Boccas abertas que ainda soltam ais!
    Noivos em nupcias, ainda, aos beijos, abraçados!
    Corpo intacto, a boiar (talvez alguma santa…)
    Ó defuntos do mar! ó roxos arrolados!

    Onde estaes, onde estaes?

    Ó _Boa Nova_, ermida á beira-mar,
    Unica flor, n'essa viv'alma de areaes!
    Na cal, meu nome ainda lá deve estar,
    Á chuva, ao vento, aos vagalhões, aos raios!
    Ó altar da _Senhora_, coberto de luzes!
    Ó poentes da _Barra_, que fazem desmaios…
    Ó _Sant'Anna_, ao luar, cheia de cruzes!
    Ó logar de _Roldao_! villa de _Perafita_!
    Aldeia de _Gonsalves_! Mesticoza!
    Engenheiros, medindo a estrada com a fita…
    Agoa fresquinha d'_Amoroza_!
    Rebolos pela areia! Ó praia da _Memoria_!
    Onde o Sr. D. Pedro, _Rei-soldado_,
    Atracou, diz a Historia,
    No dia… não estou lembrado;

    Ó capellinha do _Senhor d'Areia_,
    Onde o Senhor appareceu a uma velhinha…
    Algas! farrapos do vestido da sereia!
    Lanchas da Povoa que ides á sardinha,
    Poveiros, que ides para as _vinte braças_,
    Sol-por, entre pinhaes…
    Capellas onde o sol faz mortes, nas vidraças!

    Onde estaes?

    2

    Georges! anda ver meu paiz de marinheiros,
    Traze o teu livro, toma as tuas notas:

    Oh as lanchas dos poveiros
    A sairem a barra, entre ondas e gaivotas!
    Que extranho é!
    Fincam o remo n'agoa, até que o remo torça,
    Á espera da maré,
    Que não tarda hi, avista-se lá fóra!
    E quando a onda vem, fincando-o a toda a força,
    Clamam todos á uma. «_Agôra_! _agôra_! _agôra_!»
    E, a pouco e pouco, as lanchas vão saindo
    (Ás vezes, sabe Deus, para não mais entrar…)
    Que vista admiravel! Que lindo! que lindo!
    Içam a vela, quando já têm mar,
    Dá-lhes o vento e todas, á porfia,
    Lá vão soberbas, sob um céu sem manchas,
    Rozario de velas, que o vento desfia,
    A rezar, a rezar a _Ladainha das Lanchas_:

    _S^{nra} Nagonia_!

    Olha, acolá!
    Que linda vae com seu erro de ortographia…
    Quem me dera ir lá!

    _Senhora Da guarda_!

    (Ao leme vàe o Mestre Zé da Leonor)
    Parece uma gaivota: aponta-lhe a espingarda
    O caçador!

    _Senhora d'ajuda_!
    _Ora pro nobis_!
    _Calluda_!
    _Sêmos probes_!
    _S^{enr} dos ramos_!
    _Istrella do mar_!
    _Ca bamos_!

    Parecem Nossa Senhora, a andar.

    _S^{ra} da luz_!

    Parece o pharol…

    _Maim de Jesus_!

    É tal qual ella, se lhe dá o sol!

    _S^r dos Passos_!
    _Sinhora da Ora_!

    Aguias a voar, pelo mar dentro dos espàços!
    Parecem ermidas caiadas por fóra…

    _S^{nr} dos Navegantes_!
    _Senhor de Matuzinhos_!

    Os mestres ainda são os mesmos d'antes:
    Lá vae o Bernardo da Silva do Mar,
    A mail-os quatro filhinhos,
    Vascos da Gama, que andam a ensaiar…

    _Senhora aos aflitos_!
    _Martyr Sao Sebastiao_!
    _Ouvi os nossos gritos_!
    _Deus nos leve pla mao_!
    _Bamos em paz_!

    Ó lanchas, Deus vos leve pela mão!
    Ide em paz!

    Ainda lá vejo o Zé da Clara, os Remelgados,
    O Jéques, o Pardal, na _Nam te perdes_,
    E das vagas, aos rythmos cadenciados,
    As lanchas vão traçando, á flor das agoas verdes:
    «As armas e os barões assignalados…»

    Lá sae a derradeira!
    Ainda agarra as que vão na dianteira…
    Como ella corre! com que força o vento a impelle:

    _Bamos com Deus_!

    Lanchas, ide com Deus! ide e voltae com elle
    Por esse mar de Christo…

    Adeus! adeus! adeus!

    3

    Georges! anda ver meu pàiz de romarias
    E procissões!

    Olha essas moças, olha estas Marias!
    Caramba! dá-lhes beliscões!
    Os corpos d'ellas, ve! são ourivezarias,
    Gula e luxuria dos Maneis!
    Têm nas orelhas grossas arrecadas,
    Nas mãos (com luvas) _trinta moedas_, em anneis,
    Ao pescoço serpentes de cordões,
    E sobre os seios entre cruzes, como espadas,
    Além dos seus, mais trinta _coraçoes_!
    Vá! Georges, faze-te Manel! viola ao peito,
    Toca a bailar!
    Dá-lhes beijos, aperta-as contra o peito,
    Que hão de gostar!

    Tira o chapéu, silencio!

    Passa a procissão.

    Estralejam foguetes e morteiros.
    Lá vem o Pallio e pegam ao cordão
    Honestos e morenos cavalheiros.
    Altos, tão altos e enfeitados, os andores,
    Parecem _Torres de David_, na amplidão!
    Que linda e aceiada vem a Senhora das Dores!
    Olha o mordomo, á frente, o Sr. Conde.
    Contempla! Que tristes os Nossos Senhores,
    Olhos leaes fitos no vago… não sei onde!

    Os anjinhos!
    Vêm a suar:
    Infantes de trez annos, coitadinhos!
    Mãos inviziveis levam-nos de rastros,
    Que elles mal sabem andar…

    Esta que passa é a _Noite_ cheia de astros!
    (Assim estava, em _certo dia_, na Judeia)
    Aquelle é o _Sol_! (Que bom o sol de olhos pintados!)
    E aquella outra é a _Lua-Cheia_!
    Seus doces olhos fazem luar…
    Essa, acolá, leva na mão os _Dados_,
    Mas perde tudo se vae jogar.
    E esta que passa, toda de arminhos,
    (Ve! d'entre o povo em extazi, olha-a a Mãe)…
    Leva, sorrindo a _Coroa dos Espinhos_,
    Flor de criança que os não tem.
    E que bonita vae a _Esponja de Fel_!
    Mal ella sabe, a innocentinha…
    Nas suas mãos a _Esponja_ deita mel:
    Abelhas d'oiro tomam-lhe a dianteira!
    Lá vem a _Lança_! A bainha
    Traz ainda o sangue da _Sexta-feira_…
    Jezus!
    Que maravilha de criança!
    O Leão morrera ainda outra vez, na cruz,
    Entre ladrões, a suar, lá no Calvario,
    Se fosse este anjo espicaçal-o com a lança…

    Passa o ultimo, o _Sudario_!
    O corpo de Jezus, Nosso Senhor…

    Parece o sol-por!
    E a procissão passa. Maré-cheia de povo!
    É o Oceano Atlantico!
    O bom povinho de fato novo,
    Nas violas de arame soluça, romantico,

    Fadinhos chorozos da su'alma beata.

    Trazem imagens da Funcção nos seus chapéus.

    Poeira opaca. Abafa-se. E, no céu ferro-e-oiro,
    O sol em gloria brilha olympico, e de prata,
    Como a velha cabeça aureolada de Deus!

    Trombetas clamam. Vae correr-se o toiro.
    Passam as chocas, boas mães! passam capinhas.

    Pregões. _Laranjas_! _Ricas cavaquinhas_!
    _Pão de ló de Margaride_!
    _Agoinha fresca da Moirama_!
    _Vinho verde a escorrer da vide_!

    Á porta d'um cazal, um tysico na cama,
    Olha tudo isto com seus olhos de Outro-mundo.
    E uma netinha com um ramo de loireiro
    Enxota as moscas, do moribundo…

    Dança de roda mail-as moças o coveiro.

    Clama um ceguinho:
    «Não ha maior desgraça n'esta vida,
    Que ser ceguinho!»
    Outro, moreno, mostra uma perna partida!
    Mas fede tanto, coitadinho…
    Este, sem braços, diz «que os deixou na pedreira…»
    E esse, acolá, todo o corpinho n'uma chaga,
    Labareda de cancros em fogueira,
    Que o sol atiça e que a gangrena apaga,
    Ó Georges, ve! que excepcional cravina…

    Que lindos cravos para por na botoeira!

    Tysicos! Doidos! Nus! Velhos a ler a sina!
    Etnas de carne! Jobs! Flores! Lazaros! Christos!
    Martyres! Cães! Dhalias de puz! Olhos fechados!
    Rheumaticos! Anões! Deliriuns-tremens! Kistos!
    Monstros, phenomenos, afflictos, aleijados,
    Talvez lá dentro com perfeitos corações:
    Todos, á uma, mugem roucas ladainhas,
    Tragicos, uivam «uma esmola p’las alminhas
    Das suas obrigações!»
    Pelo nariz corre-lhes puz, gangrena, ranho!
    E, coitadinhos! fedem tanto: é de arrazar…

    Qu'é dos pintores do meu paiz extranho?
    Onde estão elles que não vêm pintar!

    Pariz, 1890-1891.

    *Os Figos Pretos*

    –Verdes figueiras soluçantes nos caminhos!
    Vós sois odiadas desde os seculos avós:
    Em vossos galhos nunca as aves fazem ninhos,
    Os noivos fogem de se amar ao pé de vós!

    –Ó verdes figueiras! ó verdes figueiras
    Deixae-o fallar!
    Á vossa sombrinha, nas tardes fagueiras,
    Que bom que é amar!

    –O mundo odeia-vos. Ninguem nos quer, vos ama:
    Os paes transmittem pelo sangue esse odio aos moços.
    No sitio onde medraes, ha quazi sempre lama
    E debruçaes-vos sobre abysmos, sobre poços.

    –Quando eu for defunta para os esqueletos,
    Ponde uma ao meu lado:
    Tristinha, chorando, darà figos pretos…
    De luto pezado!

    –Os aldeões para evitar vosso perfume
    Sua respiração suspendem, ao passar…
    Com vossa lenha não se accende, á noite, o lume,
    Os carpinteiros não vos querem aplainar.

    –Oh cheiro de figos, melhor que o do incenso
    Que incensa o Senhor!
    Podesse eu, quem dera! deital-o no lenço
    Para o meu amor…

    –As outras arvores não são vossas amigas…
    Mãos espalmadas, estendidas, supplicantes,
    Com essas folhas, sois como velhas mendigas
    N'uma estrada, pedindo esmola aos caminhantes!

    –Mendigas de estrada! mendigas de estrada!
    E cheias de figos!
    Os ricos là passam e não vos dao nada,
    Vos daes aos mendigos…

    –Ai de ti! ai de ti! ó figueiral gemente!
    O goivo é mais feliz, todo amarello, lá.
    Ninguem te quer: tua madeira é unicamente
    Utilizada para as forcas, onde as ha…

    –Que màs creaturas! que injustas sois todas
    Que injustas que sois!
    Serà de figueira meu leito da bodas…
    E os berços, depois

    –Tragicas, nuas, esqueleticas, sem pelle,
    Por traz de vós, a lua é bem uma caveira!…
    Ó figos pretos, sois as lagrymas d'aquelle
    Que, em certo dia, se enforcou n'uma figueira!

    –Tambem era negro, de negro cegava
    O pranto, o rosario,
    Que, em certa tardinha, desfiava, desfiava,
    Alguem, no Calvario…

    –E, assim, ao ver no outomno uma figueira nua,
    Se os figos caem de maduros, pelo chão:
    Cuido que é a ossada do Traidor, á luz da lua,
    A chorar, a chorar sua alta traição!

    –Ó minhas figueiras! ó minhas figueiras
    Deixae-o fallar!
    Oh! vinde de hi ver-nos, a arder nas fogueiras
    Cantar e bailar…

    Coimbra, 1889.

    *Febre Vermelha*

    Rozas de vinho! Abri o calice avinhado!
    Para que em vosso seio o labio meu se atole:
    Beber até cair, bebedo, para o lado!
    Quero beber, beber até o ultimo gole!

    Rozas de sangue! Abri o vosso peito, abri-o!
    Montanhas alagae! deixae-as trasbordar!
    As ondas como o oceano, ou antes como um rio
    Levando na corrente Ophelias de luar…

    Camelias! Entreabri os labios de Eleonora!
    Desabrochae, á lua, a ancia dos vossos calis!
    Dá-me o teu genio, dá! ó tulipa de aurora!
    E dá-me o teu veneno, ó rubra digitalis…

    Papoilas! Descerrae essas boccas vermelhas!
    Apagae-me esta sede estonteadora e cruel:
    Ó favos rubros! os meus labios são abelhas,
    E eu ando a construir meu cortiço de mel…

    Rainunculos! Corae minhas faces-de-terra!
    Que seja sangue o leite e rubins as opalas!
    Tal se vêm pelo campo, em seguida a uma guerra,
    Tintos da mesma cor os corações e as balas!…

    Chagas de Christo! Abri as petalas chagadas!
    N'uma raiva de cor, n'uma erupção de luz!
    Escancarae a bocca, ás vermelhas rizadas,
    Cancros de Lazaro! Feridas de Jezus…

    Flores em braza! Orgaos da cor! Tirava
    Operas d'oiro, podesse eu, das vossas teclas.
    Volcões de Maio! ungi minha pelle de lava!
    Dae-me energia, audacia, ó pequeninos Heclas!

    Dae-me do vosso sangue, ó flores! entornae-o
    Nas veias do meu corpo estragado e sem cor:
    Que vida negra! Foi escripto, á luz do raio,
    O triste fado que me deu Nosso Senhor…

    Scismo já farto de velar minha alma doente,
    Não dura um mez siquer, minhas amigas, vede!
    Mas, mal vos vejo, então, pulo alegre e contente
    A uivar, como os leões quando os ataca a sede!

    Corto o estrellado céu, voo atravez do espaço,
    Cruzo o infinito e vou rolar aos pés de Deus,
    Como se accaso fosse, em catapultas de aço,
    Por um Titan de bronze atirado a esses céus!

    Amo o vermelho. Amo-te, ó hostia do sol-posto!
    Fascina-me o escarlate. Os meus tedios estanca:
    E apezar d'isso, ó cruel hysteria do Gosto,
    Certa flor da minh'alma é branca, branca, branca…

    Leça, 1886.

    *Poentes de França*

    –Ó sol! ó sol! ó sol! poente de vinho velho!
    Enche meu copo de S. Graal (deu-m'o a ballada…)
    Ó sol de Normandia! Occidente vermelho,
    Tal o circo andaluz depois d'uma toirada!

    –Vos sois extrangeiros, vos sois extrangeiros,
    Ó poentes de França! não vos amo, não!

    –Ó sol, cautella! já a noite se avizinha
    O Padre-Oceano vae, em breve, commungar:
    Ó hostia vesperal de vermelha farinha,
    Que o bom Moleiro móe, no seu moinho do Ar!

    Ó sol, às _Trindades_, atraz dos pinheiros,
    Á hora em que passam branquinhos moleiros,
    Levando farinha p'ra cozer o pão!

    –Ó forca do sol-por! ó Inferno de Dante!
    Açougue d'astros! ó sabbat de feiticeiras!
    Ó sol ensanguentado! ó cabeça fallante,
    Que o funambulo Poente anda a mostrar nas feiras!

    –Que paz pelo mundo, n'essa hora ditoza!
    Ó poentes de França! não vos amo, não!

    –_Arco da Velha_, a rir rizos de sete cores!
    Ó lua na ascenção! ó sol! ó sol! ó sol!
    Cabeça de Iskariote, entre aguias e condores!
    Ó cabeça de Christo, impressa no lençol!

    Que paz pelo mundo, n'essa hora saudoza
    Quando fecha a lojinha a Sra. Roza,
    Quando vem das sachas o Sr. Joao…

    –Ó sol! ó sol! Titan d'este bloco da Terra!
    Ó sol em sangue que ainda pula e arde e scintilla:
    Ó bala de canhão, tu vens d'alguma guerra:
    Varaste os corações d'um exercito em fila!

    –Ó hora em que as agoas rebentam das minas…
    Ó poentes de França! não vos amo, não!

    –Ó poente verde-mar! ó por-de-sol de azeite!
    Ó longes de trovoada! ó céu dos ventos sues!
    Vacca do Ar, a mugir crepusculos de leite
    E roxos e cardeaes e amarellos e azues!

    –Ó hora em que passam moças e meninas
    Que, em tardes de Maio, vão às _Ursulinas_,
    Com rozas nos seios e um livro na mão…

    –Ó sol! ó sol! Tragico, afflicto, doido, venho
    A tua saude erguer a minha taça ardente!
    Meus grandes olhos são dois bebedos, e tenho
    Dlirium-tremens já, Sir Falstaff do Poente!

    –Eu amo os poentes, mas sem agonias,
    Ó poentes de França! não vos amo, não!

    –Adeus, ó sol! chegou a Noite na fragata,
    A tua porta os marinheiros vão bater:
    Lá vejo os astros por seus calices de prata,
    Na _Taverna do Occaso_, a beber, a beber…

    Ó céus phtysicos, cuspindo em bacias!
    Ó céus como escarros, às _Ave-Marias_!
    Ó poentes de França! não vos amo, não!

    Pariz, 1891.

    *Pobre Tysica*!

    Quando ella passa á minha porta,
    Magra, livida, quazi morta,
    E vae até á beira-mar,
    Labios brancos, olhos pizados:
    Meu coração dobra a finados,
    Meu coração poe-se a chorar…

    Perpassa leve como a folha,
    E suspirando, ás vezes, olha
    Para as gaivotas, para o Ar:
    E, assim, as suas pupillas negras
    Parecem duas toutinegras,
    Tentando as azas para voar!

    Veste um habito cor de leite,
    Saiinha liza, sem enfeite,
    Boina maruja, toda luar:
    Por isso, mal na praia alveja,
    As mais suspiram com inveja:
    «Noiva feliz, que vaes cazar…»

    Triste, acompanha-a um _Terra-Nova_
    Que, dentro em pouco, á fria cova
    A irá de vez acompanhar…
    O chão desnuda com cautella,
    Que _Boy_ conhece o estado d'ella:
    Quando ella tosse, poe-se a uivar!

    E, assim, sósinha com a aia,
    Ao sol, se assenta sobre a praia,
    Entre os bébés, que é o seu logar…
    E o Oceano, tremulo avôzinho,
    Cofiando as barbas cor de linho,
    Vem ter com ella a conversar…

    Fallam de sonhos, de anjos, e elle
    Falla d'amor, falla d'aquelle
    Que tanto e tanto a faz penar…
    E o coração parte-se todo,
    Quando a sorrir, com tão bom modo,
    O Mar lhe diz: «Ha-de sarar…»

    Sarar? Mizerrima esperança!
    Padres! ungi essa criança,
    Podeis sua alma encommendar:
    Corpinho d'anjo, casto e inerme,
    Vae ser amada pelo Verme:
    O bichos vão-na desfructar…

    Sarar? Da cor dos alvos linhos,
    Parecem fuzos seus dedinhos,
    Seu corpo é roca de fiar…
    E, ao ouvir-lhe a tosse secca e fina,
    Eu julgo ouvir n'uma officina
    Taboas do seu caixão pregar!

    Sarar? Magrita como o junco,
    O seu nariz (que é grego e adunco)
    Começa aos poucos de afilar,
    Seus olhos lançam igneas chammas…
    Ó pobre mãe, que tanto a amas,
    Cautella! O outomno está a chegar…

    Leça, 1889.

    *A Poezia do Outomno*

    Noitinha. O sol, qual brigue em chammas, morre
    Nos longes d'agoa… Ó tardes de novena!
    Tardes de sonho em que a poezia escorre
    E os bardos, a sonhar, molham a penna!

    Ao longe, os rios de agoas prateadas
    Por entre os verdes cannaviaes, esguios,
    São como estradas liquidas, e as estradas
    Ao luar, parecem verdadeiros rios!

    Os choupos nus, tremendo, arripiadinhos,
    O chale pedem a quem vae passando…
    E nos seus leitos nupciaes, os ninhos,
    As lavandiscas noivam piando, piando!

    O orvalho cae do céu, como um unguento.
    Abrem as boccas, aparando-o, os goivos…
    E a larangeira, aos repellões do vento,
    Deixa cair por terra a flor dos noivos.

    E o orvalho cae… E, á falta d'agoa, rega
    O val sem fruto, a terra arida e nua!
    E o Padre-Oceano, lá de longe, prega
    O seu Sermão de Lagrymas, á Lua!

    Tardes de outomno! ó tardes de novena!
    Outubro! Mez de Maio, na lareira!
    Tardes…
    Lá vem a Lua, _gratiae plena_,
    Do convento dos céus, a eterna freira!

    Porto, 1886.

    S.^{ta} Iria

    N'um rio virginal d'agoas claras e mansas,
    Pequenino baixel, a santa vae boiando…
    Pouco e pouco, dilue-se o oiro das suas tranças
    E, diluido, ve-se as agoas aloirando.

    Circumda-a um resplendor, a luzir esperanças,
    Unge-lhe a fronte o luar, avelludado e brando,
    E, com a graça etherea e meiga das crianças,
    Formosa Iria vae boiando, vae boiando…

    Á lua, cantam as aldeãs de _Riba-Joia_,
    E, ao verem-na passar, phantastica barquinha,
    Exclamam todas: «Olha um marmore que aboia!»

    Ella entra, emfim, no Oceano… E escuta-se, ao luar,
    A mãe do pescador, rezando a ladainha
    Pelos que andam, Senhor! sobre as agoas do mar…

    Leça, 1885.

    *Enterro de Ophelia*

    Morreu, Vae a dormir, vae a sonhar… Deixal-a!
    (Fallae baixinho: agora mesmo se ficou…)
    Como padres orando, os choupos formam ala,
    Nas margens do ribeiro onde ella se afogou…

    Toda de branco vae, n'esse habito de opala,
    Para um convento: não o que o Hamlet lhe indicou,
    Mas para um outro, horror! que tem por nome _Valla_,
    D'onde jamais saiu quem, lá, uma vez entrou!…

    O lindo Por-do-Sol, que era doido por ella,
    Que a perseguia sempre, em palacio e na rua,
    Vede-o, coitado! mal pode suster a vela…

    Como damas de honor, nymphas seguem-lhe os rastros,
    E, assomando no céu, sua Madrinha, a Lua,
    Por ella vae desfiando as suas contas, Astros!

    Leça, 1888.

    *Ballada do Caixão*

    O meu vizinho é carpinteiro,
    Algibebe de Dona Morte:
    Ponteia e coze, o dia inteiro,
    Fatos de pau de toda a sorte:
    Mogno, debruados de velludo
    Flandres gentil, pinho do Norte…
    Ora eu que trago um sobretudo
    Que já me vae a aborrecer,
    Fui-me lá, hontem: (era Entrudo,
    Havia immenso que fazer!…)
    –Olá, bom homem! quero um fato,
    Tem que me sirva?–Vamos ver…
    Olhou, mexeu na caza toda…
    –Eis aqui um e bem barato.

    –Está na moda?–Está na moda.
    (Gostei e nem quiz apreçal-o:
    Muito justinho, pouca roda…)
    –Quando posso mandar buscal-o?
    –Ao por-do-sol. Vou dal-o a ferro:
    (Poz-se o bom homem a aplainal-o…)

    Ó meus amigos! salvo-erro,
    Juro-o pela alma, pelo céu!
    Nenhum de vós, ao meu enterro,
    Irá mais dandy, olhae! do que eu!

    Pariz, 1891.

    *Á Toa*

    O Primeiro Homem

    Que lindo mundo! E eu só! Que tortura tamanha!
    Ninguem! Meu pae é o céu. Minha mãe é a montanha.

    A Montanha

    Os meus cabellos são os pinheiraes sombrios
    E veias do meu corpo os azulados rios.

    Os Rios

    Nós somos o suor que o Estio asperge e sua,
    Nós somos, em Janeiro, a agoa-benta da Lua!

    A Lua

    Eu sou a bala, no Ar detida, d'essa guerra
    Que teve contra Deus, em seu principio, a Terra…

    A Terra

    E eu uma das maçãs, entre outras a primeira,
    Que certo Virgem viu cair d'uma macieira!

    A Macieira

    Tantas ainda por cair! Vinde colhel-as!
    Abanae a macieira e cairão estrellas!

    A Estrellas

    No mar, á noite, reflectimo-nos, a olhar,
    E formamos, assim, as _Estrellas-do-mar_…

    O Mar

    Sou padre. São d'agoa meus Santos-Evangelhos:
    Accendei meu altar, relampagos vermelhos!

    Os Relampagos

    Nós somos (o contrario, embora, seja escripto)
    Os fogos-tátuos d'esta cova do Infinito…

    O Infinito

    Sou o mar sem borrasca, onde emfim se descança.
    Aqui, vem desagoar o rio da Esperança…

    A Esperança

    Morri, irmãos! mas lá ficaram minhas vestes,
    No vosso mundo: dei-as dadas aos cyprestes.

    Os Cyprestes

    Para apontar os céus, como dedos funereos,
    Plantaram-nos no pó dos mudos cemiterios…

    Os Cemiterios

    Porão, beliches, tudo cheio!… Os céus absortos!
    Não cabe em Josaphat esta leva de mortos!

    Os Mortos

    Seculos tombam uns sobre outros, como blocos,
    E nós dormindo sempre, eternos dorminhocos!

    Porto, 1885.

    *A Vida*

    Ó grandes olhos outomnaes! mysticas luzes!
    Mais tristes do que o amor, solemnes como as cruzes!
    Ó olhos pretos! olhos pretos! olhos cor
    Da capa d'Hamlet, das gangrenas do Senhor!
    Ó olhos negros como noites, como poços!
    Ó fontes de luar, n'um corpo todo ossos!
    Ó puros como o céu! ó tristes como levas
    De degredados!

    Ó Quarta-feira de Trevas!

    Vossa luz é maior, que a de trez luas-cheias:
    Sois vós que allumiaes os prezos, nas cadeias,
    Ó velas do perdão! candeias da desgraça!
    Ó grandes olhos outomnaes, cheios de Graça!
    Olhos accezos como altares de novena!
    Olhos de genio, aonde o Bardo molha a penna!
    Ó carvões que accendeis o lume das velhinhas,
    Lume dos que no mar andam botando as linhas…
    Ó pharolim da barra a guiar os navegantes!
    Ó pyrilampos a allumiar os caminhantes,
    Mais os que vão na diligencia pela serra!
    Ó Extrema-Uncção final dos que se vão da Terra!
    Ó janellas de treva, abertas no teu rosto!
    Thuribulos de luar! Luas-cheias d'Agosto!
    Luas d'Estio! Luas negras de velludo!
    Ó luas negras, cujo luar é tudo, tudo
    Quanto ha de branco: véus de noivas, cal
    Da ermida, velas do hiate, sol de Portugal,
    Linho de fiar, leite de nossas mães, mãos juntas
    Que têm erguidas entre cyrios, as defuntas!
    Consoladores dos Afílictos! Ó olhos, Portas
    Do Céu! Ó olhos sem bulir como agoas-mortas!
    Olhos ophelicos! Dois soes, que dão sombrinha…
    Que são em preto os _Olhos Verdes_ de Joanninha…
    Olhos tranquillos e serenos como pias!
    Olhos Christãos a orar, a orar _Ave Marias
    Cheias de Luz_! Olhos sem par e sem irmãos,
    Aos quaes estendo, toda a hora, as frias mâos!
    Estrellas do pastor! Olhos silenciozos,
    E milagrozos, e misericordiozos,
    Com os teus olhos nunca ha noites sem luar,
    Mesmo no inverno, com chuva e a relampejar!
    Olhos negros! vós sois duas noites fechadas,
    Ó olhos negros! como o céu das trovoadas…

    Mas dize, meu amor! ó Dona de olhos taes!
    De que te serve ter uns astros sem eguaes?
    Olha em redor, poiza os teus olhos! O que ves?
    O mar a uivar! A espuma verde das marés!
    Escarros! A traição, o odio, a agonia, a inveja!
    Toda uma cathedral de lutas, uma igreja
    A arder entre clarões de coleras! O orgulho
    Insupportavel tal o meu, e o sol de Julho!
    Jezus! Jezus! quantos doentinhos sem botica!
    Quantos lares sem lume e quanta gente rica!
    Quantos reis em palacio e quanta alma sem ferias!
    Quantas torturas! Quantas Londres de mizerias!
    Quanta injustiça! quanta dor! quantas desgraças!
    Quantos suores sem proveito! quantas taças
    A trasbordar veneno em espumantes boccas!
    Quantos martyrios, ai! quantas cabeças loucas,
    N'este macomio do Planeta! E as orfandades!
    E os vapores no mar, doidos, ás tempestades!
    E os defuntos, meu Deus! que o vento traz á praia!
    E aquella que não sae por ter uzada a saia!
    E os que sossobram entre a vaidade e o dever!
    E os que têm, amanhã, uma lettra a vencer!
    Olha essa procissão que passa: um torturado
    De Infinito! Um rapaz que ama sem ser amado,
    E para ser feliz fez todos os esforços…
    Olha as insomnias d'uma noite de remorsos,
    Como dez annos de prizão maior-cellular!
    Olha esse tysico a tossir, á beira-mar…
    Olha o bébé que teve Torre de coral
    De lindas illuzões, mas que uma aguia, afinal,
    Devorou, pois, ao vel-a ao longe, avermelhada,
    Cuidou, ingenua! que era carne ensanguentada!
    Quantos são, hoje? Horror! A lembrança das datas…
    Olha essas rugas que têm certos diplomatas!
    Olha esse olhar que têm os homens da politica!
    Olha um artista a ler, soluçando, uma critica…
    Olha esse que não tem talento e o julga ter
    E aquelle outro que o tem… mas não sabe escrever!
    Olha, acolá, a Estupidez! Olha a Vaidade!
    Olha os Afflictos! A Mentira na Verdade!
    Olha um filho a espancar o pae que tem cem annos!
    Olha um moço a chorar seus crueis desenganos!
    Olha o nome de Deus, cuspido n'um jornal!
    Olha aquelle que habita uma Torre de sal,
    Muros e andaimes feitos, não de ondas coalhadas,
    Mas de outras que chorou, de lagrymas salgadas!
    Olha um velhinho a carregar com a farinha
    E o filho no arraial, jogando a vermelhinha!
    Olha a sair a barra a galera _Gentil_
    E a Anna a chorar p'lo João que parte p'ro Brazil!
    Olha, acolá, no caes uma outra como chora:
    É o marido, um ladrão, que vae «p'la barra fóra!»
    Olha esta noiva amortalhada, n'um caixão…

    Jezus! Jezus! Jezus! o que hi vae de afflicção!

    Ó meu amor! é para ver tantos abrolhos,
    Ó flor sem elles! que tu tens tão lindos olhos!
    Ah! foi para isto que te deu leite a tua ama,
    Foi para ver, coitada! essa bola de lama
    Que pelo espaço vae, leve como a andorinha,
    A Terra!

    Ó meu amor! antes fosses ceguinha…

    Pariz, 1891.

    *O Somno de João*

    O João dorme… (Ó Maria,
    Dize áquella cotovia
    Que falle mais devagar:
    Não vá o João, acordar…)

    Tem só um palmo de altura
    E nem meio de largura:
    Para o amigo orangotango
    O João seria… um morango!
    Podia engulil-o um leão
    Quando nasce! As pombas são
    Um poucochinho maiores…
    Mas os astros são menores!

    O João dorme… Que regalo!
    Deixal-o dormir, deixal-o!
    Callae-vos, agoas do moinho!
    Ó mar! falla mais baixinho…
    E tu, Mãe! e tu, Maria!
    Pede áquella cotovia
    Que falle mais devagar:
    Não vá o João, acordar…

    O João dorme… Innocente!
    Dorme, dorme eternamente,
    Teu calmo somno profundo!
    Não acordes para o mundo,
    Póde affogar-te a maré:
    Tu mal sabes o que isto é…

    Ó Mae! canta-lhe a canção,
    Os versos do teu irmão:
    «Na Vida que a Dor povoa,
    Ha só uma coisa boa,
    Que é dormir, dormir, dormir…
    Tudo vae sem se sentir.»

    Deixa-o dormir, até ser
    Um velhinho… até morrer!

    E tu vel-o-ás crescendo
    A teu lado (estou-o vendo
    João! Que rapaz tão lindo!)
    Mas sempre, sempre dormindo…

    Depois, um dia virá
    Que (dormindo) passará
    Do berço, onde agora dorme,
    Para outro, grande, enorme:
    E as pombas que eram maiores
    Que João… ficarão menores!

    Mas para isso, ó Maria!
    Dize áquella cotovia
    Que falle mais devagar:
    Não vá o João, acordar…

    E os annos irão passando.

    Depois, já velhinho, quando
    (Serás velhinha tambem)
    Perder a cor que, hoje, tem,
    Perder as cores vermelhas
    E for cheiinho de engelhas:
    Morrerá sem o sentir,
    Isto é deixa de dormir…
    Acorda e regressa ao seio
    De Deus, que é d'onde elle veio…

    Mas para isso, ó Maria!
    Pede áquella cotovia
    Que falle mais davagar:

    Não vá o João, acordar…

    Pariz, 1891.

    *Ao Canto do Lume*

    Novembro. Só! Meu Deus, que insupportavel mundo!
    Ninguem, viv'alma… O que farão os mais?
    Senhor! a Vida não é um rapido segundo:
    Que longas horas estas horas! Que profundo
    Spleen o d'estas noites immortaes!

    Faz tanto frio. (Só de a ver me gela, a cama…)
    Que frio! Olá, Joseph! bota mais carvão!
    E quando todo se extinguir na aurea chamma,
    Eu botarei (para que serve? já não ama…)
    As cinzas brancas, meu vermelho coração!

    Lá fóra o vento como um gato bufa e mia…
    Ó pescadores, vae tão bravo o mar!
    Cautella… Orçae! Largae a escota! _Ave Maria!
    Cheia de Graça_… Horror! Mortos! E a agoa tão fria!…
    Que triste ver defuntos a boiar!

    Spleen! Que hei-de eu fazer? Dormir, não tenho somno,
    Leva-me a carne a Dor, desgasta-me o perfil.
    Nada ha peior que este somnambulo abandono!
    Ó meus Castellos-em-Hespanha! Ó meu outomno
    D'alma! Ó meu cair-das-folhas, em Abril!

    A Vida! Horror! Ó vós que estaes no ultimo alento!
    Que felizes, sois prestes a partir!
    Ó Morte, quero entrar no teu Recolhimento!…
    Oiço bater. Quem é? Ninguem: um rato… o vento…
    Coitado! é o Georges, tysico, a tossir…

    Mez de Novembro! Mez dos tysicos! Suando
    Quantos, a esta hora, não se estorcem a morrer!
    Ve-se os padres as mãos, contentes, esfregando…
    Mez em que a cera dá mais e a botica, e quando
    Os carpinteiros têm mais obra p'ra fazer…

    Oiço um apito. O trem que se vae… Engatar-te
    Quem me dera o wagon dos sonhos meus!
    Lá passa, ao longe. Adeus! Quizera accompanhar-te…
    –Boa viagem! Feliz de quem vae, de quem parte!
    Coitado de quem fica… Adeus! adeus!

    Viajar? Illuzão. Todo o planeta é zero.
    Por toda a parte é vil o homem e bom o céu.
    –Americas! Japão! Indias! Calvario!… Quero
    Mas é ir, á Ilha, orar sobre a cova do Anthero
    E a Agueda beber agoa do Botareu…

    Vi a Ilha loira, o Mar! Pizei terras de Hespanha,
    Paizes raros, Neves, Areiaes;
    Cantando, ao luar, errei nas ruas da Allemanha,
    Armei na França minha tenda de campanha…
    E tedio, tedio, tedio e nada mais!

    Que hei-de eu fazer? Callae essas canções immundas,
    Cervejarias do Quartier! Rezae, rezae!
    Paysagem, onde estás? Ó luar, agoas profundas!
    Ó choupos, á tardinha, altivos, mas corcundas,
    Tal como aspirações irrealizaveis, ai!

    Não me tortura mais a Dor. Sou feliz. Creio
    Em Deus, n'uma outra vida, além do Ar.
    Meus livros dei-os, meu Philosopho queimei-o:
    Agora, trago uma medalha sobre o seio
    Com a qual fallo, ás noites, ao deitar.

    Espiritos! em vão, debalde por vós clamo:
    Porque me abandonaes? Ó almas, vinde a mim!
    As vezes, vindes consolar-me e não vos chamo,
    E, hoje, não… Porque? Traço o parallelogrammo,
    Extingo o lume, apago a luz: nem mesmo assim!

    Ó almas do Outro-mundo! a minha alma anceia
    Pelo luar da lua de Canaan:
    Quero passar o _além_ que para além se alteia,
    A nação de que a Terra é uma pequena aldeia
    E um logarejo a Estrella da Manhã!

    (E a chuva cae…) Meu Deus! Que insupportavel mundo!
    Viv'alma! (O vento geme…) O que farão os mais?
    Senhor! A Vida não é um rapido segundo:
    Que longas horas estas horas! Que profundo
    Spleen mortal o d'estas noites immortaes!

    Pariz, 1890-1891.

    *A Sombra*

    Não tarda a sombra, ahi. Vae alto o Sete-Estrello
    São horas d'ella vir. Minha alma, attende!
    Que já a lua, a sentinella, rende
    Na esplanada do céu, ás portas do Castello…

    Oiço um rumor: talvez… Eil-a, é ella: ao longe, avisto
    Seu vulto em flor: postas as mãos no seio,
    Com o cabello separado ao meio,
    Todo caido para traz, como o de Christo!

    Sorri. Que linda vem, Jezus! Que bem vestida!
    Quantas lembranças d'este peito arranco!
    Foi assim, que primeiro a vi, de branco,
    Foi n'esse traje que ella sempre andou, em vida!

    Que luz projecta! Que explendor! Parece dia!
    Os gallos cantam, annunciando a aurora!…
    Ide deitar-vos que ainda não é a hora,
    Dorme o teu somno, socegada, ó cotovia!

    Mas vós, ó pedras, affastae-vos, que ella passa!
    Silencio, rouxinoes, eu quero ouvil-a…
    Terá ainda a mesma voz tranquilla?
    Ah! ainda é o mesmo o seu andar, cheio de Graça…

    Mas ao passar por mim, como d'algum perigo,
    Foge. (Talvez, já seja tarde…) Ó Clara!
    Nuvem! Phantasma! Ouve-me! Pára!…
    E oiço a voz d'ella n'um murmurio:
    «Anda commigo…»

    Coimbra, 1888.

    *O Meu Cachimbo*

    Ó meu cachimbo! Amo-te immenso!
    Tu, meu thuribudo sagrado!
    Com que, bom Abbade, incenso
    A Abbadia do meu passado.

    Fumo? E occorre-me á lembrança
    Todo esse tempo que lá vae,
    Quando fumava, ainda criança,
    Ás escondidas do meu Pae.

    Vejo passar a minha vida,
    Como n'um grande cosmorama:
    Homem feito, pallida Ermida,
    Infante, pela mão da ama…

    Por alta noite, ás horas mortas,
    Quando não se ouve pio, ou voz,
    Fecho os meus livros, fecho as portas
    Para fallar comtigo a sós.

    E a noite perde-se em cavaco,
    Na Torre d'Anto, aonde eu moro!
    Alli, mettido no buraco,
    Fumo e, a fumar, ás vezes… choro.

    Chorando (penso e não o digo)
    Os olhos fitos neste chão,
    Que tu és leal, és meu amigo…
    Os meus amigos onde estão?

    Não sei. Tral-os-á o «nevoeiro»…
    Os trez, os intimos, _Aquelles_,
    Estão na Morte, no extrangeiro…
    Dos mais não sei, perdi-me d'elles.

    Morreram-me uns. Por elles peço
    A Deus, quando está de maré:
    E, ás noites, quando eu adormeço,
    Phantasmas, vêm, pé ante pé…

    Tristes, nostalgicos da cova,
    Entram. Sorrio-lhes e fallo…
    Deixam-se estar na minha alcova,
    Até se ouvir cantar o gallo…

    Outros, por esses cinco oceanos,
    Por esse mundo erram, talvez…
    Não me escreveis, ha tantos annos!
    Que será feito de vocês?

    Hoje, delicias do abandono!
    Vivo na paz, vivo no limbo:
    Os meus amigos são o Outomno,
    O Mar e tu, ó meu Cachimbo!

    Ah! quando for do meu enterro,
    Quando eu partir gelado, emfim,
    No meu caixão de mogno e ferro,
    Quero que vás ao pé de mim.

    Santa mulher que me tratares,
    Quando em teus braços desfalleça,
    Caso meus olhos não cerrares,
    Embora! Que isto não te esqueça:

    Colloca, sob a travesseira,
    O meu cachimbo singular
    E enche-o, sollicita enfermeira,
    Com _Gold-Fly_, para eu fumar…

    Como passar a noite, amigo!
    No _Hotel da Cova_ sem conforto?
    Assim, levando-te commigo,
    Esquecer-me-ei de que estou morto…

    Coimbra, 1889.

    *Ca (ro) Da (ta) Ver (mibus)*

    Memoria
    A J. d'Oliveira Macedo,
    Eduardo Coimbra, Antonio Fogaça.

    Ás horas do crepusculo, ao _Bemdito_,
    Quando a formoza Lua, a leiteirinha,
    Vae dar o leite ás cazas do Infinito…

    Ás horas das _Trindades_, á noitinha,
    Quando ha milagres e sublimes couzas
    E caza o rouxinol com a andorinha…

    Quando a alma das virgens religiozas,
    Triste se envolve n'um burel de magoa
    E os anjos noivam mail-as suas Rozas…

    Quando o luar azula a espuma, a fragua,
    E o céu sem fim, a abbobada estrellada,
    Como que tem os olhos razos de agoa…

    N'essa hora indeciza, augustiada,
    Em que o universo está, meio ás escuras,
    Que não se sabe se é antes a alvorada:

    Eu pude ver, erguendo-se ás alturas,
    Essa radioza lagryma de pranto
    Que despedem, morrendo, as criaturas.

    E ao vir da noite, livido de espanto,
    Vi uma estrella a mais no azul do céu:
    É que um poeta, um justo, um bom, um santo,

    Ás horas do crepusculo… morreu!
    O simples coração de Julieta
    Dentro da alma clara de Romeu!

    Uma criação de Deus, mas incompleta:
    Aguia, encerrando um coração de pomba,
    Cedro que dava folhas de violeta!

    Ah, quando vejo alguma flor que tomba
    Meu coração estorce-se de dor,
    De Deus minha alma inconsolavel zomba!

    Um lyrio branco, o seu primeiro amor,
    Aos ventos, aos relampagos, ficou
    N'este Valle de Lagrymas, Senhor!

    Quem lhe dera a mortalha que levou
    Toda coberta do cabello loiro
    Da mystica menina que elle amou!

    Vede-a, acolá, chorando o seu thesoiro,
    Na janella que deita para o mar,
    Soltas ao vento as suas tranças de oiro!

    Ó Via-Lactea, ó Sete-Estrello, ó Luar,
    Ó Lua, noiva da esverdeada fera,
    Deixae do céu a vossa luz tombar!

    Ó aves, que trazeis a primavera,
    Para cobrir o solitario ninho,
    Ide buscar á sua campa a hera!

    Ó pombas de luar, pombas de linho,
    Que ides tão alto, divagando errantes,
    Quazi mortas, perdidas no caminho:

    Do vento sobre as azas triumphantes
    Prendei a aza e, assim, acompanhae
    O scismador que vos cantava d'antes!

    Elle precorre victoriozo, olhae!
    Entre espumas de brancas andorinhas
    O Novo-Mundo, e que ligeiro vae!

    Dizem-lhe adeus da terra as criancinhas,
    Co'as tranças a acenar, mandam-lhe abraços
    E beijos com as pallidas mãozinhas…

    Mas elle vae boiando nos espaços,
    Sendo o seu corpo uma subtil galera
    Com leves remos de marfim, seus braços…

    Onde vae elle? a que ditoza esphera
    Velhinha Morte a sua alma guia?…
    Que vida immensa, lá no céu, o espera!

    Para ganhar o pão de cada dia
    Cuidará da lavoira, mais das flores,
    Lavrando as terras da Virgem Maria!

    Longe dos vis, dos maus, dos peccadores,
    N'uma herdade do céu, entre charruas,
    A cavar entre simples lavradores,

    Semeando estrellas e plantando luas…
    E ainda o choram, que feliz desgosto!
    O vento passa a uivar por essas ruas…

    E um oleo algente, excepcional composto,
    Tomba do Ar: é a Extrema-Uncção da Morte
    Que lhe alvorece as mãos e lhe unge o rosto.

    E choraes! Quem vos dera a sua sorte!
    Porque é que vós carpis, agoas da fonte?
    Não chores mais estrella azul do Norte!

    Dobram-se ao vento os cannaviaes do monte,
    E, como a juba d'um leao hirsuto,
    O cedro curva, em tempestade, a fronte;

    Os pallidos jasmins vestem de luto…
    Comtudo o Morto fixa, inconsciente,
    O vivo olhar sem lagrymas, enxuto.

    Formozo, branco, meigo, sorridente,
    Com esses olhos que parecem soes,
    Vaes repoizar na cova, eternamente.

    O teu genio legaste-o aos rouxinoes.
    E allumia-te a bocca de criança,
    O sorrizo dos virgens, dos heroes!

    E o corpo teu na cova, essa esperança
    Eterna como os seculos e as flores,
    Entre verduras, afinal, descança…

    Ah, nem tigres, nem aguias, nem condores,
    Abrem as campas, lugubres cavernas:
    O coveiro é o melhor dos constructores!
    Covas que elle abra são cazas eternas.

    Leça, 1885.

    *Quando Chegar a Hora*

    Quando eu, feliz! morrer, oiça, Sr. Abbade,
    Oiça isto que lhe peço:
    Mande-me abrir, alli, uma cova á vontade,
    Olhe: eu mesmo lh'a meço…

    O coveiro é podão, fal-as sempre tão baixas…
    O cão pode lá ir:
    Diga ao moço, que tem a pratica das sachas,
    Que m'a venha elle abrir.

    E o sineiro que, em vez de dobrar a finados,
    Que toque a Alléluia!
    Não me diga orações, que eu não tenho peccados:
    A minha alma é dia!

    Será meu confessor o vento, e a luz do raio
    A minha Extrema-Uncção!
    E as carvalhas (chorae o poeta, encommendae-o!)
    De padres farão.

    Mas as aguias, um dia, em bando como astros,
    Virão devagarinho,
    E hão-de exhumar-me o corpo e leval-o-ão de rastros,
    Em tiras, para o ninho!

    E ha-de ser um deboche, um pagode, o demonio,
    N'aquelle dia, ai!
    Aguias! sugae o sangue a vosso filho Antonio,
    Sugae! sugae! sugae!

    Raro têm de comer. A pobreza consome
    As aguias, coitadinhas!
    Ao menos, n'esse dia, eu matarei a fome
    A essas desgraçadinhas…

    De que serve, Sr. Abbade! o nosso pacto:
    Não me lembrei, não vi
    Que tinha feito com as aguias um contrato,
    No dia em que nasci.

    Seixo, 1886.

    *Certa Velhinha*

    1

    Além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
    Que triste velhinha que vae a passar!
    Não leva candeia; hoje, o céu não tem luzes…
    Cautella, velhinha, não vás tropeçar!

    Os ventos entoam cantigas funestas,
    Relampagos tingem de vermelho o Azul!
    Aonde irá ella, n'uma noite d'estas,
    Com vento da _Barra_ puxado do sul?

    Aonde irá ella, pastores! boieiras!
    Aonde irá ella, n'uma noite assim?
    Se for un phantasma, fazei-lhe fogueiras,
    Se for uma bruxa, queimae-lhe alecrim!

    Contava-me aquella que a tumba já cerra,
    Que Nossa Senhora, quando a chama alguem,
    Escolhe estas noites p'ra descer á Terra,
    Porque em noites d'estas não anda ninguem…

    Além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
    Que linda velhinha que vem a passar!
    E que olhos aquelles que parecem luzes!
    Quaes velas accezas que a vêm a guiar…

    Que pobre capinha que leva de rastros,
    Tão velha, tão rôta! Que triste viuvez!
    Mas se lhe dá vento, meu Deus! tantos astros!
    É o céu estrellado vestido do envez…

    Seu alvo cabello, molhado das chuvas,
    Parece uma vinha de luar em flor…
    Oh cabello em cachos, como cachos de uvas!
    So no céu ha uvas com aquella cor…

    A luz dos seus olhos é uma luz tamanha
    Que ao redor espalha divino clarão!
    Parece que chove luar na montanha…
    Que noite de inverno que parece verão!

    Além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
    Velhinha tão alta que vem a chegar!
    Parece uma Torre côada de luzes!
    Ou antes a _Torre de Marfim_, a andar!

    Não! Não é uma Torre côada de luzes,
    Nem antes a _Torre de Marfim_, a andar,
    Que pela tapada das _Quatorze Cruzes_,
    N'uma noite destas, eu vejo passar…

    Tambem não é, ouve, minha velha ama!
    Como tu contavas, a Virgem de Luz:
    Digo-te ao ouvido como ella se chama,
    Mas guarda segredo, que é…
    –Jezus! Jezus!

    2

    Além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
    Já não é a velhinha que vae a passar:
    Um grande cortejo cheiinho de luzes,
    Anninhas da Eira que vae a enterrar.

    Falla d'um pastor:

    «Anninhas da Eira! Anninhas da Eira!
    Cantae, raparigas, cantae e chorae!
    Morreu, coitadinha! sorrindo, trigueira,
    Como um passarinho, sem soltar um ai.

    Quando era pequeno, levava-me á escola,
    E quando, mais tarde, cresci e medrei,
    Oh danças nas eiras, ao som da viola!
    Nas danças de roda, que beijos lhe dei!

    Os annos vieram, os annos passaram,
    Meu fado arrastou-me, da aldeia sai:
    Nunca mais meus olhos seus olhos tocaram,
    Perdi-a de todo, nunca mais a vi…

    E além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
    N'uma noite d'estas com vento a ventar,
    Ó meu Deus! é ella que vae entre luzes!
    Ó meu Deus! é a Anninhas que vae a enterrar!

    Olá! bons senhores, vestidos de preto,
    Deixae a defunta, que a levarei eu!
    O suor alagava-vos, eu levo o carreto…
    O caixão de Anninhas é tambem o meu!

    Tenho os relampagos, deixae-me sem velas
    A rezar por ella, sob o temporal!
    Cai-me no peito, cravae-m'as, procellas!
    Cruzes da tapada, em forma de punhal!»

    Mas os bons senhores, de preto vestidos,
    Cigarros accezos, e velas na mão,
    Lá passam ao vento, com sete sentidos,
    Com medo que, ás vezes, não seja um ladrão…

    «Mãos das ventanias! mãos das ventanias!
    Tirae-lhes a Anninhas e levae-a a Deus!
    Com suas mãosinhas, agora tão frias,
    Irá na viagem a dizer-me adeus…

    Ó vento que passas! corcel de rajada!
    Assenta-nos ambos no mesmo selim:
    Quero ir mais ella na longa jornada…
    Quero ir com Anninhas pelo céu sem fim!

    Ó Leste, que trazes as rolas, ás costas,
    Quaes rolas, leva-nos aos pés do Senhor!
    Quero ir como ella, assim de mãos postas…
    Quero ir com Anninhas para onde ella for!

    Ó Norte dos Marços! ó Sul das procellas,
    Levae-nos quaes brigues, como azas, levae!
    Levae-nos como aguias, levae-nos quaes velas…
    Quero ir com Anninhas para onde ella vae!»

    3

    Além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
    Que triste velhinha que vae a passar!
    E que olhos aquelles que parecem luzes…
    Aonde irá ella? Quem irá buscar?

    Pariz, 1891.

    *Males de Anto*

    A Ares n'uma aldeia

    Quando cheguei, aqui, Santo Deus! como eu vinha!
    Nem mesmo sei dizer que doença era a minha,
    Porque eram todas, eu sei lá! desde o odio ao tedio.
    Molestias d'alma para as quaes não ha remedio.
    Nada compunha! Nada, nada. Que tormento!
    Dir-se-ia accaso que perdera o meu talento:
    No entanto, ás vezes, os meus nervos gastos, velhos,
    Convulsionavam-nos relampagos vermelhos,
    Que eram, bem o sentia, instantes de Camões!
    Sei de cór e salteado as minhas afflicções:
    Quiz partir, professar n'um convento de Italia,
    Ir pelo Mundo, com os pés n'uma sandalia…
    Comia terra, embebedava-me com luz!
    Extasis, spasmos da Thereza de Jezus!
    Contei n'aquelle dia um cento de desgraças.
    Andava, á noite, só, bebia a noite ás taças.
    O meu cavaco era o dos mortos, o das loizas.
    Odiava os homens ainda mais, odiava as Coizas.
    Nojo de tudo, horror! Trazia sempre luvas
    (Na aldeia, sim!) para pegar n'um cacho d'uvas,
    Ou n'uma flor. Por cauza d'essas mãos… Perdoae-me,
    Aldeões! eu sei que vós sois puros. Desculpae-me.

    Mas, atravez da minha dor, da tempestade,
    Sentia renascer minha antiga bondade
    N'esta alma que a perdera. Achava-me melhor.
    Aos pobrezinhos enxugava-lhes o suor.
    A minha bolsa pequenina, de estudante,
    Era p'ros pobres (E é e sel-o-á d'oravante.)
    E ao vir das tardes, ao passar por um atalho,
    Eu ia olhando o chão, embora com trabalho,
    Pois os meus olhos não podiam de fadigas,
    P'ra não pizar os carreirinhos das formigas
    Que andam, coitadas! noite e dia, a carregar…
    E com vergonha, p'ra ninguem me ver chorar,
    Livido, magro, como um espeto, uma tocha,
    Costumava esconder-me em uma certa rocha,
    Que, por signal, tinha o feitio d'um gabão,
    E punha-me a chorar, a chorar como um leão!
    Tinha os berros do mar, pregando em seu convento
    E a gesticulação dos pinheiraes ao vento!

    Ó Dor! ó Dor! ó Dor! Job não tens dores mais,
    Que as tem maiores este filho de seus Paes!
    Ó Christo! calla os ais na tua ignea garganta,
    Ó Christo! que outra dor mais alta se alevanta!

    Meu pobre coração toda a noite gemia
    Como n'um hospital…

    Entrae na enfermaria!

    Vede! Kistos da Dor! Furo-os com uma lança:
    Que nojo, olhae! são as gangrenas da Esperança!
    Lanceto mais: que lindas cores! um Oceano!
    Ó mornos vagalhões do coração humano,
    Amarellos, azues, negros, cor de sol-posto!
    Ó preamar de puz! maré-viva d'Agosto!…
    Oceano! ó vagalhões! qual é a vossa lua?
    A que horas é a baixamar, quem vos escua?
    Lanceto mais ainda: as Illuzões sombrias!
    Cancros do Tedio a suppurar melancholias!
    Gangrenas verdes, outomnaes, cor de folhagem!
    O puz do Odio a escorrer n'esta alma sem lavagem!
    Tristezas cor de chumbo! Spleen! Perdidos somnos!
    Prantos, soluços, ais (o Mar pelos outomnos!…)
    A febre do Oiro! O Amor calcado aos pés! Genio! Ancia!
    Medievalite! O Sonho! As saudades da Infancia!

    Quantos males, Senhor! Que hospital! Quantas doenças!
    Philosophias vãs! Perda das minhas crenças!
    Nevrastenia! O Susto! Incoherencias! Desmaios!
    Sede de immensa luz como a dos pára-raios!
    Enthusiasmos! Lezão-cardiaca da Raiva!
    Magoas sem fim, prantos sem fim! Chuva, saraiva
    De insultos! Afflicções, desesperos! Gotta
    De coleras! Horror…

    Deixei fugir a escota,
    Perdi-me no alto mar, quando ia na galera
    Á India da Illuzão, ao Brazil da Chymera!…
    Ó Bancuos do remorso! Ó rainhas Machebetts
    Da ambição! ó Reis Lears da loucura! ó Hamlets
    Da minha vingança! ó Ophelias do perdão…
    (Socega! Faze por dormir, meu coração!
    Vae alta a noite…) E o sangue arde-me n'estas veias!
    Febre a cem graus! Delirio: o céu de luas-cheias
    Desde o oriente ao sol-por, de norte a sul coberto:
    O mundo jovial de guarda-sol aberto!
    Mar de esmeralda fluida, praias de oiro em pó!
    Ó esquadras das quaes era almirante eu só!
    Ó clarins a soar entre balas, na guerra!
    E vencer pela patria! E ser Conde da Terra
    E do Mar! El-Rey! Ser Senhor-feudal do Mundo!
    Encher a trasbordar a Vida, mar sem fundo,
    Com palacios, amor, glorias, luxo, batalhas,
    E reis e generaes envoltos nas mortalhas!…
    P'ra contar tanta coiza a encher tantos abysmos,
    Homens! criae outro systema de algarismos!

    Meu Deus! Que pezadello! Ah, tanta febre assusta…
    Struggle-for-life! Ó velho Darwin tanto custa!
    Antes não ter nascido. Ó Morte vem buscar-me…
    Um lenço branco _Adeus_! nos longes, a acenar-me:
    Adeus, meu lar! adeus, minha taça de leite!
    E foi o dia 13… E os corcundas e o azeite
    Que eu entornei, pretas que eu vi, uivos de cães!..
    Choras? Porque, por quem, Anto? Pelos _Alguens_…
    Lagrymas: suor da alma! Cançado? Vaes morrer,
    Vaes dormir… Ainda não! mais febre, suores frios
    Tremuras, convulsões, nevroses, arrepios!
    Unhas de leão, raspando cal n'uma parede!
    Corpos divinos, nus, ao léu! Luxurias, sede
    De amor mystico! Amar freiras de habito branco
    Morrer com ellas despenhado n'um barranco,
    Sob relampagos!…

    Jezus! Jezus! Jezus!

    Ah quanto foi bem peior que a tua a minha cruz!
    Quanto soffri, meu Deus! Ah! quanto eu soffro ainda!
    E isto n'um mez de paz, n'esta epoca tão linda,
    Solsticio de verão, quando nos sabe a vida,
    Quando apparece o cravo, a minha flor querida,
    Quando os soes-postos são uma delicia, quando
    Os aldeões andam a podar, cantarolando,
    E, alli, ao pé dos milheiraes, as lindas netas
    Ceifam curvadas, como na haste as violetas!

    Medico? Para que… A doença era d'alma.
    Saia, apenas, á tardinha, pela calma,
    Sorvendo aos haustos a rezina dos pinheiros.
    Tomava quazi sempre a estrada dos _Malheiros_.
    A nossa caza é ao virar mesmo da estrada,
    Onde perpassam os aldeões na caminhada
    E a mala-posta a rir, cheia de campainhas!
    Ora havia, lá (e ha ainda) umas _Alminhas_
    Com um painel antigo sob um oratorio,
    Que são as almas a penar no Purgatorio.
    E têm esta legenda: «Ó vos que ides passando
    Não esqueçais a nós n'este lume penando!»
    Deitava-lhes 10 reis, mas ficava a scismar
    Que mais penava eu… se ellas quizessem trocar…

    E mais adiante (ainda me lembro: n'um atalho,
    Ao pé da fonte) havia um monte de cascalho
    Com uma cruz de pau, braços ao sul e ao norte,
    Para mostrar que, alli, se fizera uma morte:
    Ora (é um costume) quando alguem vae de longada,
    Ao ver aquella cruz, que parece uma espada,
    Deita uma pedra: cada pedra é uma oração…
    Oh raras orações, que nunca findam, não!
    Perpetuamente, lá ficam os _Padre-Nossos_,
    Rezas de pedra, a orar, a orar por esses ossos!…
    Eu como os mais deitava uma pedra, tambem,
    Dizendo para mim: «se me matasse alguem…»
    Mas eu seguia o meu passeio, estrada fóra,
    E ninguem me matava…

    Ah! vinham a essa hora
    As moças da lavoira a cantar, a cantar,
    (Faziam-me, Senhor! vontade de chorar…)
    Mas quando, perto já, eu me ia approximando,
    Paravam de cantar e ficavam-me olhando…
    E que eu não fosse ouvir murmuravam, baixinho,
    Com dó, a olhar: «Como elle vae acabadinho!»

    Mais adiante, encontrava a mulher do moleiro,
    Que ia o cantaro encher á _Fonte do Salgueiro_,
    Lindos cabellos empoeirados de farinha:
    Era uma flor, mas parecia uma velhinha…
    –Vae melhorzinho?–Assim… vou indo, vou melhor…
    –Pois seja pelas cinco chagas do Senhor…

    E um pouco mais além, no logar do _Cazal_,
    N'uma caza de colmo, assentado ao portal,
    Estava um cego, e a fiar ao lado estava a mãe,
    E mal sentia, ao longe as passadas de alguem,
    Clamava em sua voz vibrante de céguinho:
    «Meu nobre senhor! olhe este desgraçadinho!»
    Ai de mim! ai de mim! como não ve quem passa,
    É que chama a attenção para a sua desgraça!

    E, para bem coroar o meu tragico fado,
    Dizia-me, ao passar, o Dr. Delegado:
    «Vá para caza, fuja aos orvalhos da noute.»
    E, grave, para si:
    «A Sciencia abandonou-te!»

    Horror! horror! horror! Que mizeravel sorte!
    Em tudo via a _Velha_, em tudo via a Morte:
    Um berço que dormia era um caixão p'ra cova!
    Vi-a a Foice no céu, quando era lua-nova…
    Se ia á tapada ver ceifar as raparigas,
    Vi-a entre ellas a cortar tambem espigas!
    E ao ver as terras estrumadas, como lume,
    Quedava-me a scismar no meu destino… estrume!
    A pomba que passava era a minha alma a voar…
    E era a minha agonia um pinheiro a ullular!
    E, ao ver meadas de linho a corarem, ao sol,
    Pensava… se estaria, alli, o meu lençol…
    E o que eu scismava ao ver passar os carpinteiros,
    Cantando alegres e fumando, prazenteiros,
    A tiracollo a cerra, o martello e o formão…
    Vinham, quem sabe! de acabar o meu caixão!
    Deitava-me no chão de ventre para o Ar,
    Scismava: se morrer, é assim que hei-de ficar…

    Como me tinha em pé, não sei. Siquer um musculo!

    A hora christã, entre as nevrozes do crepusculo,
    Entre os susurros da tardinha, ao sol-poente,
    Quando cantam na sombra as fontes, vagamente,
    Quando na estrada vão as mulinhas, a trote,
    Que o alvo moleiro faz marchar sem o chicote
    Ó Natureza! tão amigos são os dois!…
    E se ouvem expirar os chocalhos dos bois,
    Ao longe, ao longe, entre as carvalhas do caminho…
    Quando na ermida dão _Trindades_, de mansinho,
    E os cravos dão á luz o fruto do seu ventre…
    Quando se ve os céus mysticos, doidos, entre
    Soluços e ais a desmaiar, como n'um flato:
    Alli, na encosta aonde bebem n'um regato
    Os animaes, tambem bebia. Ora, uma vez
    (Sim, faz agora pelo S. Martinho um mez)
    Quando para beber me debrucei na pia,
    No fundo d'agoa, vi uma photographia…
    Jezus! Um velho! O seu cabello, assim ao lado,
    O mesmo era que o meu, todo encaracolado!
    O rosto eburneo! o olhar era tal qual o meu!
    E o labio… Horror! Fugi! esse velhinho era eu!

    Fugi!

    E, desde então, não mais sai de caza.
    Ha muito, que não vejo uma flor, uma aza,
    Ha muito já, que não sorvi o mel d'um beijo.
    Do meu cortiço voou a abelha do desejo.
    As duas filhas do cazeiro, ao vir da escola,
    D'antes vinham-me ver, eu dava-lhes esmola.
    Cantavam, riam e saltavam, um demonio!
    E tão lindas, Jezus! tão amigas do Antonio…
    E, agora, mal me vêm, tremem todas, coitadas!
    Eu chamo-as da janella e fogem, assustadas!
    E, ao vel-as, na fugida eu quasi que desmaio…
    Jezus, tao lindas! são duas tardes de Maio!

    Um doente faz medo. Por isso fogem d'elle.
    Estou, aqui, estou ido. Só tenho pelle.
    Nada me salva, nada! É impossivel salvar-me.
    E o que eu tenho a fazer é, apenas, rezignar-me
    E já me resignei… Mas Carlota, esse amor,
    Quiz por força chamar o bom Sr. Doutor.
    E eu consenti, emfim. E lá mandou o creado
    Buscar o cirurgião. Elle é o mais afamado
    N'estas trez legoas, o Dr. da _Preza Velha_.
    Eil-o que chega…
    –Olá!… Ve-me a lingua vermelha,
    Toma-me o pulso…–Está bem, isso não é nada,
    Beba-lhe bem, vá aos domingos á toirada,
    E, sobretudo, veja lá… nada de versos…
    Mas o doutor mais eu, nós somos tão diversos!
    Certo, elle é sábio, mas não tem pratica alguma
    D'estas molestias e o que eu tenho é, apenas, uma
    Tysica d'Alma. Emfim…

    Ó Carlota! ó Carlota!
    Boa velhinha, como ella é meiga e devota!
    Já estaria bom, se me valessem rezas.
    E, no Oratorio, tem duas velas accezas
    Noite e dia, a clamar á Senhora das Dores!
    E queima-lhe alecrim, põe-lhe jarras com flores
    E sei, até, que prometteu uma novena,
    Se eu escapar… Como tudo isso me faz pena!
    E trata-me tão bem, tão bem! como se eu fosse
    Seu filho. Dá-me, olhae, pratinhos de arroz doce
    Com as iniciaes do meu nome em canella,
    E traz-me o caldo, como exijo, na tigella
    Por onde come o seu. E dá-me o vinho fino,
    Onde me molha o pão de ló «p'ro seu menino»
    Que é assim que eu gosto, pelo Calix do Senhor,
    Que pertenceu, outrora, ao meu Tio Reitor.
    Carlota é um beijo. Faz-me todas as vontades.
    Quando me sinto pior, ao bater das _Trindades_,
    E me appetece comer terra, algumas vezes
    (Assim, são nossas mães, perto dos nove mezes)
    Sae a buscar uma mão cheia. Vem molhada:
    Foi ella que chorou… mas diz que «é da orvalhada…»
    E quando, emfim, sombrio, agoniado, farto,
    Me vou deitar, a santa acompanha-me ao quarto:
    Ajuda-me a despir e mette-me na cama.
    E com um mimo que só sabe ter uma ama
    Cobre-me bem, «durma, não scisme,» dá-me um beijo,
    E sae. Finge que sae, cuida ella que eu não vejo,
    Mas fica á porta, á escuta, a ouvir-me fallar só,
    E não se vae deitar…

    Onde ha, assim, uma avó?

    A todo o instante, se ouve á porta: «Tlim, tlim, tlim!»
    Trez legoas em redor manda saber de mim.
    (Aqui, lhes deixo minha eterna gratidão.)
    Toca o sino e lá vae a Carlota ao portão,
    Muito baixinha, atarefada; espreita á grade,
    –Quem é?… E, então, olhae!

    «É o Sr. Abbade
    Que manda esta perdiz, mortinha de manhã»;
    Mais o Sr. D. Sebastião de Villa-Meã
    «Que manda um gigo», mais as senhoras do _Rôfo_
    Que mandam ovos molles, pecegos, pão fofo,
    Uvas de Cheiro, peras D. Joaquina,
    Barrisinhos d'Ovar, copos de gelatina;
    Mais o Sr. Barão das Areias do Mar
    «Que manda este salmão do Tamega, a saltar»;
    Mais o Sr. Doutor de _Linhares_ «que manda
    Os cravos mais lindos que tinha na varanda»;
    Mais «o da _Igreja_ que offerece a codorniz
    Que matou, hoje, na _Tapada de D. Luiz_»;
    Mais o Sr. Miguel das _Alminhas de Pulpa_
    «Que manda este peru e que pede desculpa»;
    E, até, o Astronomo, coitado! e o Zé dos Lodos
    Mandam coisas: sei lá… o que podem. E todos
    Mandam tambem saber «como vae o menino…»
    E, então, Carlota, bom Deus! é tal qual o sino
    Na noite a badalar as suas badaladas!
    Poe-se a contar, carpindo, a minha doença ás criadas.
    Tudo o que eu digo, quanto faço, quanto quero:

    –Olhe, S.^{ra} Julia, ás vezes, desespero…
    Mas, eu quero-lhe tanto! ajudei-o, a criar…
    Em pequenino era tão bom de aturar…
    E depois era tão alegre, tão esperto!
    E então que lindo! era mesmo um cravo aberto!
    Mas, hoje, é aquillo: tem os olhinhos sumidos,
    Tão faltinho de cor, os cabellos compridos,
    E tosse tanta vez! já arqueia das costas…
    Só falta vel-o deitadinho, de mãos postas!
    E elle é tão bom, tem tão bons modos…
    –Coitadinho!
    –Olhe, S.^{ra} Julia, nunca viu o linho
    Que a gente deita ao sol, quando é para seccar,
    E que se poe assim a esticar, a esticar?
    Assim é o meu menino…
    –Ó S.^{ra} Carlota,
    E se eu fallasse á Anna Coruja, essa que bota
    As cartas? Foi talvez malzinho que lhe deu…
    –Nunca foi assim: foi depois que se metteu
    A fumar, a beber e lá com as po'sias.
    Aquillo para mim foram as companhias.
    Vinha p'ra caza, á meia-noite, noite morta,
    E eu fazia serão para lhe abrir a porta.
    E nunca ia á licção, ficava sempre mal
    Nos seus exames, escrevia no jornal;
    E o Pae, que é um santo, como ha poucos, que não via
    Nem ve mais nada, então nunca o reprehendia
    Com medo de o affligir… mas depois, quando estava
    Mettido á noite, só, no seu quarto… scismava.
    –O povo diz por hi que foi paixão que trouxe
    Lá dos estudos, de Coimbra…
    –Antes fosse
    Porque o remedio estava, alli, na Igreja… Adei…
    –Mas se a menina não quizesse… eu sei, eu sei…
    –S.^{ra} Julia! Não havia de querer!
    Não que elle é mesmo alguem hi para se perder,
    Para deitar á rua: um senhor tão prendado!
    Depois, está aqui, está quazi formado…

    Ai valha-me, Jesus! eu perco a ideia, faço
    A minha perdição… Ás vezes, ergue o braço
    E vae por hi fóra, por todas essas salas,
    A prégar, a prégar, e tem mesmo umas fallas
    Que não enxergo bem, mas que fazem tremer:
    Hontem, á noite, quando se ia a recolher,
    (Quando faz lindo luar, quer deitar-se sem vela)
    Entrou na alcova, eu tinha ainda aberta a janella,
    E diz-me, assim, tão mau: «p'ra que veio entornar
    Agoa no quarto?» e vae-se a ver… era o luar!
    E quando foi para chamar o cirurgião?
    Jezus, quanto custou! Que não, que não, que não!
    Não tinha fé nenhuma «em um doutor humano»
    Que só a tinha no Sr. Dr. Oceano…

    Mas uma coiza que lhe faz ainda peior,
    Que o faz saltar e lhe enche a testa de suor,
    É um grande livro que elle traz sempre comsigo,
    E nunca o larga: diz que é o seu melhor amigo,
    E le, le, chama-me: «Carlota, anda ouvir!»
    Mas… nada oiço. Diz que é o Sr. Shakespeare.

    E, ás vezes, bota versos, diz coizas tão más!
    Nada lhe digo, mas aquillo não se faz.
    Ainda, esta manhã: eu estava a por flores
    E as velas accendia á Senhora das Dores,
    (Que tem dó d'elle, coitadinha! chora tanto…)
    Vae o menino a olhar, a olhar, sae-me d'um canto
    E uiva-lhe, assim:
    «Antes as tuas sete espadas!»

    E o que á S.^{ra} Julia diz, diz ás mais criadas.

    Coimbra, 1890.

    Pariz, 1891.

    *Ah Deixem-me Dormir!*

    O Poeta

    Olá, bom velho! é aqui o _Hotel da Cova_,
    Tens algum quarto ainda para alugar?
    Simples que seja, basta-me uma alcova…
    (Como eu estou molhado! é de chorar…)

    O povo

    O luar averte as orvalhadas sobre a rua!
    Jezus! que lindo…

    Vamos! depressa! Vem, faze-me a cama,
    Que eu tenho somno, quero-me deitar!
    Ó velha Morte, minha outra ama!
    Para eu dormir, vem dar-me de mamar…

    A S.^{ra} Julia

    São as Janeiras da Lua!

    O Coveiro

    Os quartos, meu senhor, estão tomados
    Mas se quizer na valla (que é de graça…)
    Dormem, alli, somente os desgraçados:
    Têm bom dormir… bom sitio… ninguem passa…

    O Zé dos Lodos

    A lua é a nossa vacca, ó Maria!
    Mugindo…

    Ainda lá, hontem, hospedei um moço
    E não se queixa… E ha-de poupal-o a traça,
    Porque esses hospedes só trazem osso,
    E a carne em si, valha a verdade, é escassa.

    O Dr. Delegado

    A noite parece dia!

    O Poeta

    Escassa, sim! mas tenho ossada ainda,
    Emquanto que a alma, ai de mim! nada tem…
    Guia-me ao quarto… (a lua vae tão linda!)
    Dize-me: quantos annos me dás? Cem?

    O Sr. Abbade

    E esta? Em vez de trazer a opa que é de logar
    Trouxe a d'anjinho!

    A Mulher do Moleiro

    É o luar, Sr. Abbade, é o luar…

    Oh cem! E os que eu não mostro e o peito guarda…
    Os teus mortinhos, sim! dormem tão bem:
    «Dormi, dormi! que vossa mãe não tarda,
    Foi lavar á _Fontinha de Belem_…»

    O Astronomo

    Isto lunar assim! Isto é o verao
    De S. Martinho!

    O Coveiro

    Aqui. Fica melhor do que em 1^a:
    Colxão assim não acha em parte alguma!
    Os outros são de chumbo, de madeira,
    Mas este, veja bem, é sumauma…

    O Cego do Cazal

    Faz solzinho, que horas são?

    _Cantando_:

    «Colxão de raizes e de folhas, lizo,
    Lençoes de terra brandos como espuma,
    Dal-os-ei ao rol, no Dia de Juizo…»
    Prompto. Quer mais alguma coiza? Fuma?

    Carlota

    Ó luar, anda mais devagarinho!
    Deixa dormir o meu menino…
    Coitadinho!

    O Poeta

    Mais nada. Boas-noites. Fecha a porta.
    (Que linda noite! Os cravos vão a abrir…
    Faz tanto frio)! Apaga a luz! (Que importa?
    A roupa chega para me cobrir…)

    A Mãe do Poeta

    Aqui, espero-te, ha que tempo enorme!
    Tens o logar quentinho…

    Toma lá para ti, guarda. E ouve: na hora
    Final, quando a Trombeta além se ouvir,
    Tu não me venhas acordar, embora
    Chamem… Ah! deixa-me dormir, dormir!

    Deus

    Dorme, dorme.

    Pariz, 1891.

    FIM

    TABOA

    Antonio
    Menino e Moço
    Os Cavalleiros
    Purinha
    Elegia
    Os Sinos
    Terças-Feiras
    Carta A Manoel
    Para As Raparigas De Coimbra
    Luzitania No Bairro-Latino
    Os Figos Pretos
    Febre Vermelha
    Poentes De França
    Pobre Tysica!
    A Poezia Do Outonno
    Sta. Iria
    Enterro De Ophelia
    Ballada Do Caixão
    Á Toa
    A Vida
    O Somno De Joao
    Ao Canto Do Lume
    A Sombra
    O Meu Cachimbo
    Ca (ro) Da (ta) Ver (mibus)
    Quando Chegar A Hora
    Certa Velhinha
    Males De Anto
    Ah Deixem-me Dormir!

    Imprimerie Henri Jouve, 15, rue Racine, Paris.

    Achevé d'imprimer le deux avril mil huit cent quatre-vingt-douze

    Pour

    LÉON VANIER

    éditeur

    Par

    HENRI JOUVE

    15, Rue Racine, 15

    A Paris

  • Os Simples

    Os Simples

    Aproximadamente 8.264 palavras.

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    Portugal).)

    GUERRA JUNQUEIRO

    *Os Simples*

    PORTO

    TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL

    MDCCCXCII

    OS SIMPLES

    IMPRIMIRAM-SE D'ESTE LIVRO:

    1 exemplar em papel pergaminho
    16 exemplares em papel Wathman

    Todos estes exemplares são assignados e numerados pelo auctor.

    GUERRA JUNQUEIRO

    *Os Simples*

    PORTO

    TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL

    MDCCCXCII

    A F.

    _Querida:

    É este por emquanto o meu melhor livro.
    Pertence-te.

    teu J._

    *PRELUDIO*

    I

    A CAMINHO

    (_Abril, ao raiar d'alva. Por uma encosta de sementeiras, pastos,
    olivedos e amendoaes em flor vae um loiro peregrino adolescente, d'olhos
    ingenuos e extasiados no alvor da estrella da manhã_.)

    Um Lavrador

    (_de noventa anos, em mangas de camísa a lavrar uma terra_)

    Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de esp'rança,
    Ides de caminho para algum logar?

    O Peregrino

    Vou dar volta ao mundo…

    O Lavrador

    Sem arnez ou lança?!
    Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de esp'rança,
    Penas e miserias é o que ireis achar!…

    Uma Velhinha

    (_mais adiante_)

    Ó Senhor tão novo, d'olhos inocentes,
    Ides com cuidados para um tal andar!…

    O Peregrino

    Vou a prender monstros, combater serpentes…

    A Velhinha

    Ó Senhor tão novo, d'olhos inocentes,
    Os dragões ferozes vam-no espostejar!…

    Uma Joven Camponeza

    (_mais adiante_)

    Ó Senhor tão novo, d'olhos encantados,
    Ides pela fresca para algum pomar?

    O Peregrino

    Vou-me a ler Destinos, descobrir os Fados…

    A Camponeza

    Ó Senhor tão novo, d'olhos encantados,
    Feiticeiros negros vam-no enfeitiçar!…

    Uma Pastorinha

    (_mais adiante_)

    Ó Senhor tão novo, d'olhos tão brilhantes,
    Vossos olhos disem que ides p'ra casar…

    O Peregrino

    Vou fazer tesoiros, fabricar diamantes…

    A Pastorinha

    Ó Senhor tão novo, d'olhos tão brilhantes,
    Ha ladrões nos bosques, vam-no assassinar!…

    Um Mendigo

    (_mais adiante_)

    Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de chama,
    Vossos olhos ardem como a luz solar!…

    O Peregrino

    Vou descobrir mundos, quero gloria e fama!…

    O Mendigo

    Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de chama,
    Sobe o pó mais alto que os trovões do mar!…

    A Estrella D'Alva

    Ó creança, d'olhos côr da flor dos linhos,
    Por infernos deixas tua paz, teu lar!…

    O Peregrino

    (_desaparecendo ao longe_)

    Florirei as pedras pelos maus caminhos!
    Levo a luz dos astros e as canções dos ninhos
    A sorrir nos beijos e a tremer no olhar!…

    II

    DE VOLTA

    (_Crepusculo, Novembro. Pela encosta fria e desnudada vae andando,
    esfarrapado e exangue, um pobresinho triste, arrimado ao bordão_.)

    Um Lavrador

    (_de cem anos, ainda robusto, à porta do casebre_)

    Mendigo d'olhos sem esp'rança,
    Vaes-te perder na escuridão…
    Entra em meu lar; dorme, descança…

    O Pobresinho

    (_andando sempre_)

    Quem dera a paz divina e mansa,
    Velho, que tens no coração!…

    Uma Velhinha

    (_a resar à porta do moinho_)

    Mendigo d'olhos sem ventura,
    Dentro da azenha ha um enxergão;
    Terás lençoes, terás fartura…

    O Pobresinho

    (_andando sempre_)

    Eu só quizera essa candura,
    Irmã da Graça e da Ilusão!…

    Uma Camponeza

    (_que vem da vindima_)

    Mendigo d'olhos d'engeitado,
    Na nossa casa ha vinho e pão;
    E ha leite fresco; e ha mel doirado…

    O Pobresinho

    (_andando sempre_)

    Tua alegria sem cuidado,
    Eis o que eu busco… em vão! em vão!…

    Uma Pastorinha

    Mendigo d'olhos de coveiro,
    Trago a merenda no surrão;
    O queijo é bom, mas é grosseiro…

    O Pobresinho

    (_andando sempre_)

    Dá-me o teu riso feiticeiro,
    Lirio do monte inda em botão!

    Um Pedinte

    Mendigo d'olhos na agonia,
    Dou-te o meu manto e o meu bordão;
    Nada mais levo… a noite é fria…

    O Pobrezinho

    (_andando sempre_)

    Apenas ai! desejaria
    Tua cristã resignação!…

    A Estrella Vesper

    Ó sonhador louco d'outrora,
    Teus sonhos lindos onde estão?!
    Ebrio da luz, rico d'aurora,
    Vi-te partir… e vejo agora
    Um morto erguido d'um caixão!

    Teus olhos fulvos namorei-os
    De dia e noite, da amplidão:
    Vi-os sorrir entre gorgeios,
    Vi-os cantar e vi-os cheios
    De pranto e febre e indignação!
    Regressa emfim, é teu destino,
    Á paz obscura, á submissão…
    E outra vez meigo e pequenino
    Deixa dormir, como um menino,
    Teu velho e exhausto coração!…

    O Pobresinho

    (_chorando_)

    Só tu, estrella, me conheces
    Em minha dor, minha aflição!…
    Só tu não dormes, não esqueces…
    Só tu ouviste as minhas preces…
    Bemdito, estrella, o teu clarão!

    Setembro–91.

    I

    *A MOLEIRINHA*

    A MOLEIRINHA

    Pela estrada plana, toc, toc, toc,
    Guia o jumentinho uma velhinha errante.
    Como vão ligeiros, ambos a reboque,
    Antes que anoiteça, toc, toc, toc,
    A velhinha atraz, o jumentito adiante!…

    Toc, toc, a velha vae para o moinho,
    Tem oitenta anos, bem bonito rol!…
    E comtudo alegre como um passarinho,
    Toc, toc, e fresca como o branco linho,
    De manhã nas relvas a córar ao sol.

    Vae sem cabeçada, em liberdade franca,
    O gerico russo d'uma linda côr;
    Nunca foi ferrado, nunca usou retranca,
    Tange-o, toc, toc, a moleirinha branca
    Com o galho verde d'uma giesta em flor.

    Vendo esta velhita, encarquilhada e benta,
    Toc, toc, toc, que recordação!
    Minha avó ceguinha se me representa…
    Tinha eu seis anos, tinha ella oitenta,
    Quem me fez o berço fez-lhe o seu caixão!…

    Toc, toc, toc, lindo burriquito,
    Para as minhas filhas quem m'o dera a mim!
    Nada mais gracioso, nada mais bonito!
    Quando a Virgem pura foi para o Egipto,
    Com certeza ia n'um burrico assim.

    Toc, toc, é tarde, moleirinha santa!
    Nascem as estrellas, vivas, em cardume…
    Toc, toc, toc, e quando o galo canta,
    Logo a moleirinha, toc, se levanta,
    P'ra vestir os netos, p'ra acender o lume…

    Toc, toc, toc, como se espaneja,
    Lindo o jumentinho pela estrada chan!
    Tão ingenuo e humilde, dá-me, salvo seja,
    Dá-me até vontade de o levar á egreja,
    Baptisar-lhe a alma p'ra a fazer cristan!

    Toc, toc, toc, e a moleirinha antiga,
    Toda, toda branca, vae n'uma frescata…
    Foi enfarinhada, sorridente amiga,
    Pela mó da azenha com farinha triga,
    Pelos anjos loiros com luar de prata!…

    Toc, toc, como o burriquito avança!
    Que prazer d'outrora para os olhos meus!
    Minha avó contou-me quando fui creança,
    Que era assim tal qual a jumentinha mansa
    Que adorou nas palhas o menino Deos…

    Toc, toc, é noite… ouvem-se ao longe os sinos,
    Moleirinha branca, branca de luar!…
    Toc, toc, e os astros abrem diamantinos,
    Como estremunhados cherubins divinos,
    Os olhitos meigos para a ver passar…

    Toc, toc, e vendo sideral tesoiro,
    Entre os milhões d'astros o luar sem veo,
    O burrico pensa: Quanto milho loiro!
    Quem será que moe estas farinhas d'oiro
    Com a mó de jaspe que anda alem no ceo!…

    Novembro de 1888.

    II

    *CADAVER*

    I

    PRESTITO FUNEBRE

    Que alegrias virgens, campezinas, fremem
    N'este imaculado, limpido arrebol!
    Como os galos cantam!… como as noras gemem!…
    Nos olmeiros brancos, cujas folhas tremem,
    Refulgente e novo passarinha o sol!…

    Pela estrada, que entre cerejaes ondea,
    Uma pequerrucha,–tro-la-ró-la-rá!–
    Vae cantando e guiando o carro para a aldeia…
    São os bois enormes, e a carrada cheia
    Com um castanheiro apodrecido já.

    Oh, que donairosa, linda boieirinha!
    Grandes olhos garços, sorrisinho arisco…
    D'aguilhada em punho lepida caminha,
    Com a graça aerea d'ave ribeirinha,
    Verdilhão, arveola, toutinegra ou pisco.

    Loira, mas do loiro fulvo das abelhas;
    Fresca como os cravos pelo amanhecer;
    Brincos de cerejas presos nas orelhas,
    Na boquita rosea tres canções vermelhas,
    Na aguilhada, ao alto, uma estrelinha a arder!

    Descalcinha e pobre, mas sem ar mendigo,
    Nada mais esvelto, mais encantador!
    Veste-a d'oiro a gloria do bom sol amigo…
    O chapeu é palha que inda ha um mez deu trigo,
    A saíta é linho inda ha bem pouco em flor!…

    E os dois bois enormes, colossaes, fleugmaticos,
    Na aleluia imensa, triunfal, da aurora,
    Vão como bondosos monstros enigmaticos,
    Almas por ventura d'ermitões extaticos
    Ruminando biblias pelos campos fora!…

    Ao arado e ao carro presos noite e dia,
    Como dois grilhetas, quer de inverno ou v'rão!
    E, submissos, uma pequerrucha os guia!
    E nos sulcos que abrem canta a cotovia,
    As boninas riem-se e amadura o pão!…

    Levam as serenas frontes magestosas
    Enramalhetadas como dois altares:
    Madresilvas, loiros, pampanos, mimosas,
    Abelhões ardentes desflorando rosas,
    Borboletas claras em noivado, aos pares…

    E eis no carro morto o castanheiro, emquanto
    Melros assobiam nos trigaes alem…
    Heras amortalham-no em seu verde manto…
    Deu-lhe a terra o leite, dá-lhe a aurora o pranto…
    Que feliz cadaver, que até cheira bem!…

    Musgos, lichens, fetos,–chimica incessante!–
    Fazem montões d'almas d'essa podridão…
    Já n'esse esqueleto seco de gigante,
    Sob a luz vermelha, n'um festim radiante,
    Mil milhões de vidas polulando estão!…

    Sempre á fortaleza casa-se a doçura:
    Como o leão da Biblia morto n'um vergel,
    Do seu tronco ainda na caverna escura
    Um enxame d'oiro rutilo murmura,
    Construindo um favo candido de mel!…

    Oh, os bois enormes, mansos como arminhos,
    Meditando estranhas, incubas visões!…
    Pousam-lhes nas hastes, vede, os passarinhos,
    E por sobre os longos, torridos caminhos
    Dos seus olhos caem bençãos e perdões…

    Chorarão o velho castanheiro ingente,
    Sob o qual dormiram sestas estivaes?
    Almas do arvoredo, o seu olhar plangente
    Saberá acaso misteriosamente
    Traduzir as lingoas em que vós fallaes?!…

    Castanheiro morto! que é da vida estranha
    Que no ovario exiguo d'uma flor nasceu,
    E criou raizes, e se fez tamanha,
    Que tresentos anos sobre uma montanha
    Seus tresentos braços de colosso ergueu?!…

    Onde a alma, origem d'essas formas bellas?
    Em tão varias formas que sonhou dizer?
    Qual a ideia, ó alma, convertida n'ellas?
    E desfeito o encanto, que nos não revelas,
    Que aparencias novas tomará teu ser?…

    Noite escura!… enigmas!… Ai, do que eu preciso,
    Boieirinha linda, linda d'encantar,
    É d'essa inocencia, d'esse paraiso,
    Da alegria d'oiro que ha no teu sorriso,
    Da candura d'alva que ha no teu olhar!…

    Grandes bois que adoro, p'ra fortuna minha,
    Quem me dera a vossa mansidão christã!
    Arrotear os campos, fecundar a vinha,
    E nos olhos garços d'uma boieirinha,
    Ter duas estrellas virgens da manhã!…

    E tambem quizera, mortos castanheiros,
    Como vós erguer-me para o sol a flux,
    Dar tresentos anos sombra aos pegureiros,
    E n'um lar de choça, em festivaes braseiros,
    A aquecer velhinhos, desfazer-me em luz!…

    1889.

    II

    IN PULVIS…

    Oh, que noite negra, que invernia brava!
    Nem uma estrellinha pelo ceo reluz!
    Chora o vento ao longe com a voz tão cava,
    Como quando dizem que de dor chorava
    Toda a santa noite em que expirou Jesus!…

    Vem sanguinolentos gritos muribundos
    Das soturnidades torvas do horisonte!…
    Já nos ermos andam lobos vagabundos…
    Já os rios cheios, com bramidos fundos,
    N'um diluvio d'agoa vão de mar a monte!…

    Em casal de serras arde o castanheiro,
    Lampada de pobres a fazer serão;
    De redor do grande, festival braseiro,
    A velhinha, o velho, o lavrador trigueiro,
    A mulher, os filhos, o bichano e o cão.

    Queima-se o gigante, rude centenario,
    Que jamais os astros hão-de ver florir…
    E do seu cadaver o esplendor mortuario
    Faz d'essa choupana quasi que um sacrario
    Com uma alma d'oiro dentro d'ella a rir!…

    Tem o velho ao colo o seu netinho doente;
    –Morte negra, foge do telhado, ó, ó…–
    E no lar as brasas simultaneamente
    Dizem para o anjo:–tudo é oiro ardente…
    Dizem para o velho:–tudo é cinza e pó!…

    Quantas vezes, quantas! por manhãs radiantes
    Em pequeno, alegre como um colibri,
    Não trepara aos braços todos verdejantes
    D'esse castanheiro, que n'alguns instantes
    Ha-de ver em cinzas já desfeito ali!…

    Quantas vezes, quantas! lhe bailara em torno!
    Quantas noites, quantas! elle ali dormia
    Pelo mez das ceifas, quando o luar é morno,
    E das restolhadas, quentes como um forno,
    Se evolavam cheiros d'arreçã bravia!…

    Como não sentir um entranhado afecto,
    Como não amal-o com veneração,
    Se lhe dera a trave que sustenta o tecto,
    Se lhe dera o berço onde repoisa o neto,
    Se lhe dera a tulha onde arrecada o pão!

    Fez com elle o jugo e fez com elle o arado;
    Fez com elle as portas contra os vendavaes;
    E com elle é feito o velho leito amado,
    Onde se deitara para o seu noivado,
    E onde já morreram seus avós, seus paes!

    E o bom velho embala o seu netinho doente…
    –Morte negra, foge… dorme, dorme… ó, ó…–
    E, fitando as chamas simultaneamente,
    Ri-se a creancinha, vendo o oiro ardente,
    Lagrimeja o velho, vendo cinza e pó!…

    A velhinha resa, resa afervorada…
    Tão velhinha e branca, branca de jasmins,
    Que a idealiso e creio d'esplendor banhada,
    Entre palmas verdes até Deos levada
    N'um andor de rosas pelos serafins…

    Resa pelos mortos… resa á virgem pura…
    Desde a sua infancia tão ditosa e bella,
    Já d'essa choupana (como a noite é escura!)
    Quantos tem partido para a sepultura,
    Quantos tem ficado dentro d'alma d'ella!…

    Dentro d'alma d'ella, triste campo santo,
    Muitas almas vivem mortas a sonhar!…
    Vivem mortas, mudas, n'um dorido encanto…
    Nos seus olhos vitreos cristalisa o pranto,
    Nos seus labios roxos fosforece o luar…

    E essas almas fluidas que ella traz comsigo,
    –Talisman da crença, magico poder!–
    Frias como a neve vem do seu jasigo,
    Vem sentar-se todas no logar antigo,
    A chorar á roda do braseiro a arder!…

    Ai dos pobres mortos que não tem fogueiras,
    Nem velhinhas santas que lhe deem luz!
    Sob leivas, onde ninguem põe roseiras,
    Umas sobre as outras juntam-se as caveiras,
    Dando sangue aos vermes, podridões á Cruz…

    D'esses desgraçados, mortos no abandono,
    Onde estão as almas? P'ra que Deos as fez?
    Quando o vento uivando lhes perturba o somno
    Pela treva errantes, como cães sem dono,
    Andarão perdidas a ulular talvez!…

    Pois até por essas que ninguem conforta
    A velhinha chama… e todas ellas vem…
    –Vinde pobresinhas, (como o vento as corta!)
    Vinde aqui sentar-vos, que eu vos abro a porta,
    A aquecer-vos, filhas, ao meu lar tambem!–

    E a dos olhos garços pastorinha bella
    Fia no seu fuso linho por corar;
    É trigueiro o linho, trigueirinha é ella…
    Rodopia o fuso… quando for donzella,
    Já terá camisas para se ir casar!…

    E esse fuso alegre onde se enrosca o linho
    Já foi ramo verde n'esse tronco em brasas:
    Deu já cachos brancos como o branco arminho,
    Já sobre elle a ave construiu seu ninho,
    Já sobre elle amando palpitaram azas!…

    Fuso como giras em dedinhos breves
    Prasenteiramente, com tão louco ardor!
    Que estarás fiando?… que enxovaes?… que neves?
    Se serão camisas, ou mortalhas leves,
    Cama para bodas, ou lençoes de dor!…

    No vetusto escano o lavrador sombrio
    Pensa na courela… Santo Deos, Jesus!
    Se a tormenta engrossa, se lha leva o rio,
    Como é que hade o gado pelo ardor do estio
    Sustentar-se a piornos de fraguedos nus!…

    Choram ventanias!… panica tristeza!…
    Sentem-se na loja bois a ruminar…
    Queixas insondaveis vem da naturesa!…
    Quanto monstro mudo, quanta lingoa presa,
    Contemplando a Noite sem poder fallar!…

    Ronronando ao lume, dorme o cão e o gato.
    Almas misteriosas, em que sonharão?…
    Como que n'um dubio lusco-fusco abstracto,
    De ter sido tigre lembra-se inda o gato?…
    De ter sido hiena lembra-se inda o cão?…

    Eis as brasas mortas… Eil-o já converso
    O castanheiro em cinza, em fumo vão, em luz…
    Luz e fumo e cinza tudo irá disperso
    Reviver na vida eterna do universo,
    Circulo de enigmas, que ninguem traduz…

    Sempre, sempre, sempre, cinza, fumo e chama
    Viverão, morrendo a toda a hora… sempre!…
    Nuvem que troveja, calix que enbalsama,
    Planta, pedra, insecto, humanidade, lama,
    Serão tudo, tudo!… inconcebivel!… Sempre!

    Mas a alma, as almas quem as ha criado?
    Qual a origem d'onde a sua essencia emana?…
    Ah, em vão levanto o triste olhar magoado
    Para os olhos d'ouro que do azul sagrado
    Lançam as estrellas á miseria humana!…

    Oh em vão!… que os astros, onde em sonho habito,
    São tambem fogueiras sobrenaturaes,
    Que na pavorosa noite do Infinito
    Crepitando espalham seu clarão bemdito,
    Suas alvoradas roseas, virginaes,

    Para em torno d'ellas se aquecerem mundos
    A tremer com frio, a soluçar com dor,
    Miseraveis monstros cegos, vagabundos,
    Atravez d'eternos turbilhões profundos,
    N'um virtiginoso, angustioso horror!…

    E ardam astros d'oiro, ou ardam castanheiros,
    No Infinito imenso ou n'um tugurio assim,
    Fica a mesma cinza d'esses dois braseiros,
    Atomos errantes, sonhos vãos, argueiros
    Na inconsciencia calma da amplidão sem fim!…

    E o mundo e os mundos a girar na altura
    Como vós, ó velhos, morrerão tambem…
    Blocos de materia fria, sem verdura,
    Errarão na vaga imensidade escura,
    Cemiterio d'astros que nem cruzes tem!…

    Dormirão? oh, nunca!… vão eternamente
    Circular na eterna vida universal:
    Nebulosa fluida, lavareda ardente,
    Lodo, o mesmo lodo, como antigamente,
    Com os mesmos dramas entre o Bem e o Mal!…

    Formas da materia, que eu em vão desnudo,
    Que invisiveis forças, e almas encobris?
    Quem o sabe? A Morte, que conhece tudo…
    Mas o enigma impresso no seu labio mudo
    Só na treva aos mortos é que a morte o diz!…

    Só a Morte o sabe… mais a Fé que abrasa,
    Que penetra as coisas com o seu olhar!
    Não ha fé na alma, não ha luz na casa…
    A rasão é um verme, mas a crença é aza…
    Verme! aos infinitos poderás chegar!…

    Ó velhinha santa, minha boa amiga,
    Resa o teu rosario, move os labios teus!…
    A oração é ingenua? Vem de crença antiga?
    Não importa! resa, minha boa amiga,
    Que orações são lingoas de falar com Deos!…

    Ha pedintes cegos de inspiradas frontes,
    Com estrellas n'alma, com visões mentaes,
    Que atravessam rios, que vão dar com fontes,
    Que andam por agrestes, solitarios montes,
    Sem errar a estrada, sem cahir jamais!…

    Pelos bosques ermos, onde venta e neva,
    Com os seus farrapos mais o seu bordão,
    Marcham por milagre na continua treva…
    Oh, dizei, dizei-me quem os guia e leva?
    Que prodigio oculto? que invisivel mão?

    Pois, velhinha branca, tua crença pura,
    Tua resa antiga, que me faz chorar,
    É egual aos cegos, que na noite escura
    Não precisam d'astros para ver a altura,
    Não precisam d'olhos para ter olhar!

    No Infinito mudo tua ingenua crença,
    Tremula ceguinha de risonho alvor,
    Eil-a andando, andando, como que suspensa,
    Pelos descampados d'uma noite imensa,
    Vastidões d'assombros, amplidões d'horror!…

    E onde a aguia, o genio de pupila ovante,
    Tem vertigens, auras, desfalece e cae,
    A ceguinha debil, vagabunda, errante,
    D'olhos ás escuras. Infinito adiante,
    N'um enlevo aereo perpassando vae!…

    Branca e pequenina, ligeirinha e leve,
    Corta por abismos, plagas sem faroes,
    Stepes infindaveis que ninguem descreve,
    Lugubres desertos de mudez e neve,
    Bategas de brasas, turbilhões de soes!…

    Vae andando, andando, té que emfim cercada
    D'uma aleluia mystica de luz,
    Com o bordãosinho que a amparou na estrada
    Bate ás portas d'oiro da feliz morada,
    Presbiterio d'Almas, onde está Jesus!…

    Vem um anjo abril-as; a ceguinha mansa
    Põe-se de joelhos, em adoração…
    Diz-lhe o anjo:–Toma, guarda esta lembrança:
    Uma palma d'astros, a luzir Esp'rança,
    Que á velhinha humilde levarás na mão!

    E, ave pressurosa recolhendo ao ninho,
    Já com alimento para os filhos seus,
    Eil-a que regressa por egual caminho,
    E vem dar-te, ó santa, côr de jaspe e arminho,
    Tão amada ofrenda que te envia Deos!…

    Resa esse rosario, santa lagrimosa!
    Sobre os teus joelhos deixa-me deitar!
    Triste da minh'alma!… vê, que desditosa!…
    Unge-m'a de bençãos, mão religiosa!…
    Cobre-m'a de graças, cristalino olhar!…

    Resa-lhe baixinho, minha boa amiga!
    Resa-lhe rosarios de orações ideaes!
    Morta de miseria, morta de fadiga,
    Deixa que ella durma na pureza antiga…
    Que ella durma… sonhe… e não acorde mais!…

    89.

    III

    *EIRAS AO LUAR*

    EIRAS AO LUAR

    Alvor da lua nas eiras,
    Nem linhos de fiandeiras,
    Nem veos de noivas ou freiras,
    Nem rendas d'ondas do mar!…
    Sobre espigas d'ouro bailam as ceifeiras,
    Na aleluia argentea do clarão do luar!…

    Bailae sob as lagrimosas
    Estrellinhas misteriosas,
    Scintilações, nebulosas,
    Fremitos vagos d'empyreos!…
    Deos golpeia a aurora p'ra dar sangue ás rosas,
    Deos ordenha a lua p'ra dar leite aos lirios!…

    Ai, medas de prata e oiro,
    De lua branca e pão loiro,
    Malhadas no malhadoiro,
    A enfeitiçar e a fulgir!…
    Oh, bailae á volta d'esse bom tesoiro,
    Que é a codea negra que ceaes a rir!…

    Quem nas ladeiras e prados,
    Com as lanças dos arados,
    Abriu sulcos e valados
    Na terra gelida e nua?
    Oh, bailae á volta desses bois deitados,
    Que estão d'olhos tristes adorando a lua!…

    Que bandos de passarinhos,
    Vem lá de campos maninhos,
    De fraguedos, de caminhos,
    Jantar aqui, merendar!…
    Oh, bailae em volta de milhões de ninhos!
    Oh, bailae cantando para os acordar!…

    Entre as palhas do centeio,
    Quantas esmolas no meio,
    Que deixam lirios no seio
    E as mãos escorrendo luz!…
    Oh, bailae em volta do celeiro cheio!
    Oh, bailae á volta dos mendigos nus!…

    Quanta hostia consagrada,
    –Pão da ultima jornada!–
    Dorme na meda encantada
    Ao luar tão leve e tão lindo!…
    Oh, bailae em volta d'essa mó doirada,
    Que bailaes á volta de Jesus dormindo!…

    Alvor da lua nas eiras,
    Nem linhos de fiandeiras,
    Nem veos de noivas ou freiras,
    Nem rendas d'ondas do mar!…
    Oh, bailae ceifeiras, lindas feiticeiras,
    Na aleluia argentea do clarão do luar!…

    Setembro–91.

    IV

    *AS ERMIDAS*

    AS ERMIDAS

    Alvas ermidinhas sob azues maguados,
    Vejo-vos de longe n'uma adoração,
    Como ninhos brancos de Ideal pousados
    Lá n'esses fragosos montes escalvados,
    Onde não ha agoa, nem germina o pão.

    Serranias ermas, solidões contritas…
    Azinheiras como velhos Briarcus….
    Pedras calcinadas… gados parasitas…
    Tristes montes ermos! ermos cenobitas,
    Que em burel d'estevas amortalha Deos!…

    Pelas torvas, fundas noites de invernada,
    Quando os lobos uivam, quando a neve cae,
    Que infinitos sustos n'uma tal morada,
    Para debil virgem tão desamparada
    Com um inocente nos seus braços… ai!

    Como é que não treme pelo seu menino?
    Como é que não chora seu piedoso olhar?
    Como é que o seu labio, fresco e matutino,
    Se abre n'um sorriso, precursor divino
    Da estrellinha d'alva quando vae raiar?!

    Não receia feras quem de rosto ledo
    Sofre sete espadas sobre o coração!…
    E ao filhinho a noite não lhe causa medo,
    Deu-lhe Deos o mundo para seu brinquedo,
    Como um fructo d'oiro tem-no ali na mão!…

    Lá nos altos montes sem trigaes, nem vinhas,
    Sem o bafo impuro que dos homens vem,
    É que a mãe de Christo com as andorinhas,
    E as estrellas d'oiro mesmo ali visinhas,
    N'um casebre terreo se acomoda bem.

    Bispos não precisa; servem-na pastores,
    Capelães d'ovelhas, mais o seu zagal…
    Lampada ás Trindades, chão varrido, flores,
    Nada falta á Virgem, mãe dos pecadores,
    N'uma egrejasinha que é como um pombal.

    E nas brutas, rudes solidões tão calmas
    Ai, muito se engana quem a julga só!
    Entre o luar dos hinos e o verdor das palmas,
    Para lá caminham romarias d'almas…
    Todos nós lá fomos com a nossa avó!…

    Oh, as invisiveis procissões piedosas,
    Romarias fluidas, sobrenaturaes!
    Por onde ellas marcham, brancas, vaporosas,
    Fica nos espaços um alvor de rosas
    E uma angelisante tremulina d'ais!…

    Almas de velhinhas, do palor silente
    D'uma estrella, quando desmaiando está…
    Vão buscar alivios p'ro netinho doente,
    Vão pedir noticias d'algum filho ausente,
    Vão rogar a Gloria para os mortos já…

    Almas de meninos, loiras como abelhas,
    A sorrir ao colo d'almas a cantar…
    Almas em noivados, roseas e vermelhas…
    E almas de pastores ofertando ovelhas,
    Chocalhinhos d'astros, velos de luar…

    Almas d'assassinos dos montados ermos,
    Com o seu remorso como um javali…
    Almas de mendigos, d'aleijões, d'enfermos…
    Almas vagabundas, de perdidos termos,
    Que atravessam agoas p'ra chegar ali!…

    Almas das corolas matinaes, dos ninhos,
    Das aradas verdes, da campina em flor…
    Almas de borregos, touros, passarinhos…
    E almas, sim! das urzes e hervas dos caminhos,
    Porque até nas fragas dorme o Sonho e a Dor!…

    E essas almas todas ella apasigua
    Com o dos seus olhos balsamo eficaz:
    Verte sobre as penas sugestões de lua,
    Mantos dá d'estrellas á miseria nua,
    Lagrimas aos crimes e ao remorso paz…

    Esconjura demos, bruxas, feiticeiras,
    E dos sonhos loucos o torpor febril…
    Dá verdura aos gados, chuva ás sementeiras,
    Faz bailar as moças ao luar nas eiras,
    Faz fugir os lobos vendo o seu candil.

    Mas tambem ha almas, pobresinhas d'ellas!
    Que á romagem d'oiro não acodem já!
    Almas moribundas… Noites de procellas…
    Olha nos casebres tremeluzem velas!…
    É signal que a Morte anda a rondar por lá!…

    Mas a sempre linda Virgem da Amargura
    Baixa do altarzinho toda afadigada,
    E atravez de serras, pela noite escura,
    De menino ao colo,–santa creatura!–
    Lá vae ella andando, não tem medo a nada!…

    Lá vae ella andando… no caminho estreito
    Deixa um rasto d'oiro pela escuridão…
    Deixa um rasto d'oiro de divino efeito,
    Porque as sete espadas, a fulgir no peito,
    Põem-lhe um setestrello sobre o coração…

    E de povo em povo, que é de serra em serra,
    Almas na agonia visitando vae;
    Quando chega, a Morte já as não aterra,
    Ella lhes dá azas p'ra voar da terra,
    Seu menino beijos p'ra levar ao Pae…

    Virgem das Angustias, Virgem da Bonança,
    Quantas noites, quantas! tremula de dor,
    Não vae ser parteira da ovelhinha mansa
    A parir, balando como uma creança,
    Entre fragaredos de meter horror!

    A deshoras mortas eil-a vigilante,
    Prompta a dar socorros ao menor queixume:
    Acender estrellas para o navegante,
    Ir levar ás mães o cordeirinho errante,
    Defender das cobras a ninhada implume…

    Pois como não ha-de consolar as dores
    Dos humildes, simples, engeitados, nus,
    Se inda se recorda de só ver pastores,
    Com cordeiros brancos, cantilenas, flores,
    Na sagrada noite em que pariu Jesus!…

    Sim! adora a rude gente da lavoira,
    Sementeiras, gados, matagaes, lebreus,
    Porque não se esquece da vaquinha loira,
    Que se poz de joelhos ante a mangedoira,
    Quando nas palhinhas dormitava Deos…

    E por isso arreda pestes, ventanias,
    Fomes e procellas, bruxas e trovão,
    Lá para malditas, negras penedias,
    Onde silvam cobras doudas e bravias,
    E onde não existe nem christão, nem pão!…

    E por isso ex-votos, que relembram dores,
    Cobrem de ternura todo o seu altar:
    Bustos de meninos, mãos de cavadores,
    Tranças de donzellas, soluçando amores…
    Corações e peitos, de fazer chorar!…

    Alvas capelinhas, sempre milagrosas,
    Sois n'essas alturas para os olhos meus,
    Como ninhos virgens d'orações piedosas,
    Miradoiros brancos de luar e rosas,
    D'onde as almas simples entreveem Deos!…

    90-91.

    V

    *CANÇÃO PERDIDA*

    CANÇÃO PERDIDA

    Halitos de lilaz, de violeta e d'opala,
    Roxas macerações de dor e d'agonia,
    O campo, anoitecendo e adormecendo, exhala…

    Triste, canta uma voz na sincope do dia:

    Alguem de mim se não lembra
    Nas terras d'alem do mar…
    Ó Morte, dava-te a vida,
    Se tu lha fosses levar!…

    Ó Morte, dava-te a vida,
    Se tu lha fosses levar!…

    Com o beijo do sol na face cadaverica,
    Beijo que a morte esvae em palidez algente,
    Eis a lua a boiar sonambula e chimerica…

    Doce, canta uma voz melancolicamente:

    O meu amor escondi-o
    N'uma cova ao pé do mar…
    Morre o amor, vive a saudade…
    Morre o sol, olha o luar!…

    Morre o amor, vive a saudade…
    Morre o sol, olha o luar!…

    Latescente a neblina opalica flutua,
    Diluindo, evaporando os montes de granito
    Em colossos de sonho, extasiados de lua…

    Flebil, chora uma voz no letargo infinito:

    Quem dá ais ó rouxinol,
    Lá para as bandas do mar?…
    É o meu amor que na cova
    Leva as noites a chorar!…

    É o meu amor que na cova
    Leva as noites a chorar!…

    A lua enorme, a lua argentea, a lua calma,
    Imponderalisou a natureza inteira,
    Descondensou-a em fluido e embebeceu-a em alma…

    Triste expira uma voz na canção derradeira:

    Ó meu amor, dorme, dorme
    Na areia fina do mar,
    Que em antes da estrella d'alva
    Comtigo me irei deitar!…

    Que em antes da estrella d'alva
    Comtigo me irei deitar!…

    Maio–91.

    VI

    *O PASTOR*

    O PASTOR

    Sinos a defuntos! ai, quem morreria!
    Olha, foi o pobre do Ti Zé-Senhor!…
    Velho tão velhinho nenhum outro havia…
    P'ra cumprir cem anos lhe faltava um dia,
    Ha noventa e quatro que era já pastor.

    Zagalzinho alegre, desde tenra infancia
    Já de surrãosito cheio a tiracol,
    A escalar montanhas com ardor, com ancia,
    Por pastagens bravas d'auroral fragancia,
    Branqueadinho a neve e doiradinho a sol!…

    A deserta, imensa, rustica paisagem,
    Cordilheiras, campos, astros d'oiro, luar,
    Tudo se invertera, por continua imagem,
    Em heroica, em livre candidez selvagem
    Na extasiada flor do seu ingenuo olhar.

    Ordenhado o leite, cantarinho cheio,
    Ala para a aldeia, por manhãs sonoras,
    Mordiscando a codea do seu pão centeio,
    Arrancando á frauta um pastoril gorgeio,
    Rapinando ás sebes chupa-meis e amoras.

    Fez-se moço e grande pelas serras brutas,
    Onde as aguias pairam, onde o roble medra,
    E onde os fragaredos barbaros, com grutas,
    Se encastelam crespos, infernaes, em lutas,
    Tal como tormentas de trovões de pedra!

    Cada serrania alcantilada e brava,
    Sob o azul d'Agosto, côr de fogo e pó,
    Recozida a febre e atordoada em lava,
    Lagrimeja apenas d'uma rocha cava
    Pranto, que o bebera uma ovelhinha só!

    E por essas fulvas, ingremes ladeiras
    Pastoreava o gado, quasi morto já:
    Só rochedos tristes, nus como caveiras,
    E zambulhos, zimbros, tojos, cornalheiras,
    Acres como pragas d'uma boca má!

    E depois as torvas, negras invernadas,
    Noites formidandas, lobos a ulular,
    Desmoronamentos, temporaes, nevadas,
    Carcavões abertos pelas enxurradas,
    Troncos de sobreiros de raiz ao ar!…

    Oh, as noites tristes, alapado e quedo,
    N'um covil de feras, ou algar deserto!…
    E dormia ao lume sem temor, sem medo,
    Pois Nossa Senhora, Virgem do Degredo,
    Na ermidinha branca lhe ficava perto…

    Mas no mez de Março pincaros maninhos,
    Montes cenobitas, d'ossos e burel,
    Vestem-se de trevos e de rosmaninhos,
    Com sorrisos d'oiro que alvoroçam ninhos,
    E distilam favos de inocencia e mel!…

    Era então alegre como o sol nascente,
    Mais feliz nos campos do que Deos no altar!
    Anhos e cabritos, leite rescendente,
    Pastos tão mimosos, que quizera a gente
    Transformar-se em ave para os não calcar!

    Tanto Abril florido, tanta calma adusta,
    Tantas inverneiras, sem pesar ou dor,
    Tinham-lhe gravado na expressão robusta
    Como que uma sombra de grandeza augusta,
    Junta a uma inocencia matinal de flor.

    Que importavam gelos, ventanias, feras?
    Peito nu, aberto; construção de touro!
    Quasi me admirava que nas primaveras
    D'esse peito rude não brotassem heras,
    Margaridas, lirios com abelhas d'ouro!

    Ao relento a cama no orvalhado pasto,
    Cerca dos carneiros e dos bons lebreus;
    Que divino leito primitivo e casto,
    Todo embalsamado de serpol, mentrasto,
    Sob a paz imensa do perdão de Deos!…

    E esse gigantesco latagão corado
    Era, como os santos ermitões, frugal:
    Duas azeitonas, queijo do seu gado,
    E de rala escura meio pão migado
    N'um caldeiro d'agoa com azeite e sal.

    Não jantava morte, assassinato, dores,
    Hecatombes tristes que jantamos nós;
    E por isso ria como riem flores,
    Atrahindo em bandos aves de mil cores,
    Feiticeiro simples, com o olhar e a voz!…

    Sua rude frauta de pastor ouvindo
    Na misteriosa luz crepuscular,
    Iam-se as estrellas uma a uma abrindo,
    E desabrochava pelo azul infindo
    Soluçante a lua como um nenufar!…

    Que trinados vivos, d'argentino encanto
    Ai, missa do galo, lhe inspiravas tu,
    N'essa frauta, quando de cajado e manto
    Ia deitar loas ao menino santo
    No altar-mór da egreja sorridente e nu!

    Fôra lá creança, magica ventura!
    Centenario quasi a derradeira vez…
    E gorgeava a frauta com egual candura,
    Pois a alma virgem, luminosa e pura,
    Conservara-a sempre como Deos a fez.

    N'ella penetrava, n'ella se embebia
    Tudo que é inocencia, riso, amor, clarão:
    Fremito de pomba, voz de cotovia,
    Canticos dos montes ao nascer do dia,
    Lagrimas dos astros pela escuridão!…

    Longe dos Pecados de raivosas presas,
    Belzebuths famintos d'olhos de metal,
    Longe das horriveis tentações acezas
    No torpor dos leitos, na embriaguez das mezas,
    Pululantes larvas, vibriões do Mal,

    O pastor ditoso envelheceu ridente
    Por despenhadeiros, alcantis, calvarios,
    E na fronte augusta de ermitão, de crente,
    Lhe geavam anos luminosamente,
    Como as pombas brancas sobre os campanarios!

    Das ovelhas meigas,–intimas heranças!–
    Recolhera toda a abnegação christã:
    Oh, sejaes bemditas, ovelhinhas mansas,
    Que com vosso leite sustentaes creanças,
    E vestis os pobres com a vossa lã!

    Aos noventa anos, festival, risonho,
    Alamo gigante d'agoa viva ao pé;
    Sim! inda na boca risos de medronho,
    E nos olhos lentos, a tremer em sonho,
    Dois miosotis virgens de candura e fé!

    Com seu manto branco de burel grosseiro,
    Cans de puro arminho, baculo na mão,
    Alembrava um santo feito pegureiro,
    Que eu desejaria sobre o altar cruzeiro
    D'uma ogiva d'astros, em adoração!

    Centenario quasi, recordava aspectos
    De lendario tronco n'um feliz vergel,
    Moribundo em meio de seus verdes netos,
    Com a Providencia a agasalhal-o em fetos,
    Com abelhas d'ouro inda a nutril-o a mel,

    E que surdo á voz dos ledos passarinhos,
    E que cego ao ether de esplendor ideal,
    Com o ai extremo lança dois raminhos,
    A chamar ainda por canções de ninhos
    E a dizer aos astros um adeos final!

    Tal o pastor santo, já de vez cahido,
    Já corcovadinho, flebil, quasi morto,
    Arrimado ao velho baculo torcido,
    Nada ouvindo, nada, com o duro ouvido,
    Vagamente olhando com o olhar absorto,

    Ia pelos montes na tristeza infinda
    D'um coração ermo, com a morte aceite,
    A pedir aos anjos para ouvir ainda
    Badalar ovelhas n'uma noite linda,
    Quando a lua os campos alagasse em leite!…

    Seu bisavô fora guardador de gado,
    Guardador de gado seu avô, seu pae;
    Creou filho e netos como foi creado,
    E morreu ditoso porque o seu cajado
    Seu rebanho ainda pastoreando vae!

    Candido, na paz das solidões dormentes,
    Ignorando o mundo rancoroso e vil
    Aos cem anos inda, com a fé dos crentes,
    Punha olhos claros, simples, inocentes,
    Na estrellinha d'alva das manhãs d'Abril!

    Levará no esquife para os ceos a palma
    Da grandeza mansa, da virtude austera.
    Realisou no mundo a perfeição da Alma:
    Porque foi bondoso como a lua é calma,
    Porque foi um santo sem saber que o era!…

    Vós, ó semideuses do entremez da Gloria,
    Cesares, tiranos, capitães, heroes,
    Epicas figuras de imortal memoria,
    Que de serro em serro iluminaes a historia
    Como crepitantes, tragicos faroes,

    Na região do Imenso, no Infinito puro,
    Onde me deslumbra, como um sol, Jesus,
    Não sois mais que larvas a tremer no escuro,
    Que ninguem conhece, que eu em vão procuro
    Com meus olhos calmos n'esse mar de luz!

    E o pastor d'ovelhas, que comeu centeio,
    Que viveu nos montes, que dormiu nas grutas,
    Tão asselvajado, cabeludo e feio,
    Que dissereis quasi que esse monstro veio
    Da matriz da terra, como as pedras brutas,

    Já liberto agora da Ilusão do mundo
    Fez-se em anjo branco, inda outra vez pastor:
    Milhões d'astros seguem seu olhar jocundo,
    São rebanhos d'almas pelo azul profundo
    As ovelhas novas do Ti Zé-Senhor!…

    90-91.

    VII

    *O CAVADOR*

    O CAVADOR

    Dezembro, noite, canta o galo…
    Rouco na treva canta o galo…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Aldeão não durmas!… Vae chamal-o,
    Miseria negra, vae chamal-o!…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Bate-lhe á porta, é teu vassalo,
    Que traga a enxada, é teu vassalo,
    Miseria negra, o cavador!

    O vento ulula… Tremem ninhos…
    Na noite aziaga tremem ninhos…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    A neve cae, fria d'arminhos…
    Na escuridão, fria d'arminhos…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Passa maldito nos caminhos,
    D'enxada ao hombro nos caminhos,
    Fantasma negro, o cavador!

    Vem roxa a estrella d'alvorada…
    Vem morta a estrella d'alvorada…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Montanhas nuas sob a geada!…
    Hirtas, de bronze, sob a geada…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Torvo, inclinado sobre a enxada,
    Rasga as montanhas com a enxada.
    Fantasma negro, o cavador!

    Cavou, cavou desde que é dia…
    Cavou, cavou… Bateu meio dia…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    De pé na encosta erma e bravia,
    Triste na encosta erma e bravia,
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Largando a enxada, «Ave Maria!…»
    Resa em silencio… «Ave Maria!…»
    Fantasma negro, o cavador!

    Cavou, cavou na serra agreste,
    D'alva á noitinha em serra agreste…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    E um caldo em premio tu lhe deste,
    Meu Deos!… seis filhos tu lhe deste…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Batem trindades… «Pae celeste!…
    Bemdito sejas, Pae celeste!…»
    Resa, fantasma, o cavador!

    Cavou cem montes… que é do trigo?!
    Gerou seis bocas… que é do trigo?!
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Bateu a Fome ao seu postigo…
    Bateu a Morte ao seu postigo…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    «Que a paz de Deos seja comigo!
    Que a paz de Deos seja comigo!…»
    Disse, expirando, o cavador!

    Junho–91.

    VIII

    *OS POBRESINHOS*

    OS POBRESINHOS

    Pobres de pobres são pobresinhos,
    Almas sem lares, aves sem ninhos…

    Passam em bandos, em alcateias,
    Pelas herdades, pelas aldeias.

    É em Novembro, rugem procellas…
    Deos nos acuda, nos livre d'ellas!

    Vem por desertos, por estevaes,
    Mantas aos hombros, grandes bornaes.

    Como farrapos, coisas sombrias,
    Trapos levados nas ventanias…

    Filhos de Christo, filhos d'Adão,
    Buscam no mundo codeas de pão!

    Ha-os ceguinhos, em treva densa,
    D'olhos fechados desde nascença.

    Ha-os com f'ridas esburacadas,
    Roxas de lirios, já gangrenadas.

    Uns de voz rouca, grandes bordões,
    Quem sabe lá se serão ladrões!…

    Outros humildes, riso magoado,
    Lembram Jesus que ande disfarçado…

    Engeitadinhos, rotos, sem pão,
    Tremem maleitas d'olhos no chão…

    Campos e vinhas!… hortas com flores!…
    Ai, que ditosos os lavradores!

    Olha, fumegam tectos e lares…
    Fumo tão lindo!… branco, nos ares!…

    Batem ás portas, erguem-se as mães,
    Choram meninos, ladram os cães…

    Resam e cantam, levam a esmola,
    Vinho no bucho, pão na sacola.

    Fructa da horta, caldo ou toucinho,
    Dão sempre os pobres a um pobresinho.

    Um que tem chagas, velho, coitado,
    Quer ligaduras ou mel-rosado.

    Outro, promessa feita a Maria,
    Deitam-lhe azeite na almotolia.

    Pelos alpendres, pelos curraes,
    Dormem deitados como animaes.

    Em caravanas, em alcateias,
    Vão por herdades, vão por aldeias…

    Sabem cantigas, oraçõesinhas,
    Contos d'estrellas, reis e rainhas…

    Choram cantando, penam resando,
    Ai, só a morte sabe até quando!

    Mas no outro mundo Deos lhes prepara
    Leito o mais alvo, ceia a mais rara…

    Os pés doridos lh'os lavarão
    Santos e santas com devoção.

    Para laval-os, perfumaria
    Em gomil d'ouro, d'ouro a bacia.

    E embalsamados, transfigurados,
    Tunicas brancas, como em noivados,

    Viverão sempre na eterna luz,
    Pobres bemditos, amen, Jesus!…

    Outubro–91

    IX

    *CAMPO SANTO*

    CAMPO SANTO

    Ai ao relento, ai ao relento, sonham cavadores!…
    Somno d'arminho… colxão de terra… lençol de flores!…

    Cahi dormentes,
    Cahi exanimes, trementes,
    Palidos silencios do luar dorido!
    Litanias fluidas do luar dorido!
    Misereres brancos do luar dorido!
    Balsamos, piedades, orações dolentes
    Do luar dorido!…

    Ai ao relento, ai ao relento sonham pegureiros!…
    Cama tão fresca!… cobertor branco, de jasmineiros…

    Cahi maviosas,
    Cahi somnambulas, piedosas,
    Concavas tristezas do luar magoado!
    Resonancias d'orgão do luar magoado!
    Extrema-unções profundas do luar magoado!
    Sincopes, oblivios, quietações chorosas
    Do luar magoado!…

    Ai ao relento, ai ao relento sonha a boeirinha!…
    Cama de violetas!… que lhe fez a Virgem, sua madrinha…

    Cahi radiantes,
    Angelisantes,
    Esfolhados lirios do luar divino!
    Musselina argentea do luar divino!
    Halitos de leite do luar divino!
    Perolas, opalas, beijos e diamantes
    Do luar divino!…

    Ai ao relento, ai ao relento as bisavós dormindo!…
    Cama de rosas, sobre-ceo d'astros!… que sonho lindo!…

    Cahi cantando,
    Cahi mas brando, muito brando,
    Misticas nevadas do luar de prata!
    Linho da candura do luar de prata!
    Angelus da ermida do luar de prata!
    Extasis boiando, sagrações ondeando
    No luar de prata!…

    Dormi, dormi!… que bellas camas!… ai, que bons lençoes!…
    Na travesseira, que bem que cheira! cantam roussinoes!…

    Dorme de costas, cavador, ao luar, ao luar de neve!…
    Ai, como a terra era pesada, e se fez leve, leve!…

    Dorme, pastor, ao luar de Junho, dorme sem cuidado!…
    Que anda a Senhora dos Montes-Ermos a guardar-te o gado…

    Durmam velhinhas! durmam creanças! durmam donzellas!
    Quando acordarem já tem os anjos á espera d'ellas…

    Ha-de acordar tudo lá nos ceos doirados…
    Ha-de haver banquetes, ha-de haver noivados…

    Põe a mesa a Virgem para os pobresinhos…
    Ai, que lindos fructos!… ai, que ricos vinhos!…

    Vinhos d'um vinhedo, fructos d'um pomar,
    Que no ceo os anjos regam com luar…

    Ordenhando ovelhas andam serafins,
    Cantarinhos d'oiro, leite de jasmins.

    Outros nas arribas crestam as colmeias,
    Grandes favos brancos como luas cheias.

    Ai, que bom almoço, feito n'um vergel,
    Pomos cor de aurora, leite, vinho e mel!…

    Para as avósinhas tem lá Deos bastantes
    Fusos d'esmeraldas, rocas de diamantes…

    Como vós, ó moças, lá no ceo casaes,
    Ellas darão teias para os enxovaes…

    Já no setestrello dançam nos terreiros,
    Tamboris e violas, frautas e pandeiros…

    Já lá vejo os noivos, com S. João á espera,
    N'uma ermida branca revestida d'hera…

    Ai, dormi, donzellas, ai dormi ao luar,
    Que no ceo com anjos vos ireis casar…

    Ai, dormi, creanças! que no azul divino
    Brincareis alegres com o Deos-menino…

    Partirá comvosco, porque é vosso irmão,
    A laranja,–o mundo, que lá tem na mão…

    Dormi, dormi, sem dor, sem penas…
    Dormi, dormi!…
    E em vossos leitos florescentes,
    De rosas brancas e assucenas,
    Caiam dormentes,
    Caiam exanimes, trementes,
    Graças do baptismo do luar alvissimo!
    Beijos do noivado do luar purissimo!
    Lagrimas da morte do luar tristissimo!
    Canticos d'exequias, orações dolentes
    Do luar santissimo!…

    Abril–91.

    *EPILOGO*

    REGRESSO AO LAR

    Ai, ha quantos anos que eu parti chorando
    D'este meu saudoso, carinhoso lar!…
    Foi ha vinte?… ha trinta?… Nem eu sei já quando!…
    Minha velha ama, que me estás fitando,
    Canta-me cantigas para me eu lembrar!…

    Dei a volta ao mundo, dei a volta á Vida…
    Só achei enganos, decepções, pesar…
    Oh! a ingenua alma tão desiludida!…
    Minha velha ama, com a voz dorida,
    Canta-me cantigas de me adormentar!…

    Trago d'amargura o coração desfeito…
    Vê que fundas maguas no embaciado olhar!
    Nunca eu sahira do meu ninho estreito!…
    Minha velha ama, que me déste o peito,
    Canta-me cantigas para me embalar!…

    Poz-me Deos outrora no frouxel do ninho
    Pedrarias d'astros, gemas de luar…
    Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!…
    Minha velha ama, sou um pobresinho…
    Canta-me cantigas de fazer chorar!…

    Como antigamente, no regaço amado,
    (Venho morto, morto!…) deixa-me deitar!
    Ai, o teu menino como está mudado!
    Minha velha ama, como está mudado!
    Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!…

    Canta-me cantigas, manso, muito manso…
    Tristes, muito tristes, como á noite o mar…
    Canta-me cantigas para ver se alcanço
    Que a minh'alma durma, tenha paz, descanço,
    Quando a Morte, em breve, m'a vier buscar!…

    90.

    *NOTA*

    NOTA

    É este o primeiro dos tres volumesinhos, que hão-de encerrar as minhas
    liricas ineditas. Os outros dois–_Flores de Ideal_–e _Infinito_
    (_Livro d'orações_) virão a lume successivamente, com intervalos de
    mezes.

    Duas palavras sobre os _Simples_.

    Precocemente chegado, pelo sofrimento, ao ocaso da vida, atravessei ha
    anos um periodo agudo, bem doloroso e triste, mas ao mesmo tempo
    salutar. Ante a morte proxima, n'uma anciedade inenarravel, senti-me
    electrisado, como por encanto, de energias subitas. O problema do _alem_
    (como agora se diz) impunha-se, dilacerante e devorador, á minha
    natureza inquieta de religioso e de metafisico. Mas o problema da
    _morte_ é, no fundo, o problema da vida. Estudei, pensei, meditei. Li
    com sofreguidão milhares de paginas. Dias, noites, semanas, mezes,
    revolvi no cerebro escandecido todos os enigmas torturantes. Pedi á
    historia natural (unica historia verdadeira) o segredo intimo das
    coisas. Questionei a razão, ouvi a consciencia. Dei balanço a mim
    proprio. E consegui, ao cabo, o que desejava: ter da vida, ter do
    universo uma ideia metodica e definitiva. Qual? Não é este o momento de
    dizel-o, nem isso interessa seguramente.

    A minha metafisica é para uso proprio. Não construi um sistema de
    filosofia humana. Tratei de responder apenas ás duvidas e curiosidades
    do meu espiríto. Não cheguei sequer a pontos de vista fundamentaes,
    muitissimo diversos dos que já tinha anteriormente. Mas o que era
    intuição tornou-se certeza, e o que era hipotese, mais ou menos
    sentimental e imaginaria, transformou-se n'um corpo de doutrina
    raciocinado e logico. Continuei pela mesma estrada; mas d'antes ia ás
    cegas e tateando, e agora d'olhos bem abertos e a passo firme e
    resoluto.

    D'uma visão mais intima e profunda do universo germinaram em mim novas
    emoções, e portanto uma nova arte. O poeta renasceu e cresceu. Fecundo
    renascimento psicologico, e não apenas uma evoluçãosinha toda literaria,
    meramente verbal e de superficie.

    No prefacio d'outro livro explanarei com vagar as conclusões ultimas do
    meu exame de consciencia, não pelo seu merito intrínseco, repito, mas
    como util comentario da minha obra poetica, de que ellas são
    verdadeiramente a alma essencial e geradora.

    Apasiguada um pouco a dupla crise de angustia intelectual e padecimento
    fisico, esbocei e dei começo a este pequenino poema lirico d'_Os
    Simples_.

    Quiz mentalmente viver a vida singela e primitiva de boas e santas
    creaturas, que atravessam um mundo de miserias e de injustiças, de
    vicios e de crimes, de fomes e de tormentos, sem um olhar de maldição
    para a natureza, sem uma palavra de queixume para o destino. E então
    encarnei, por assim dizer, no pastor grandioso e asceta, na moleirinha
    octogenaria e sorridente, no cavador tragico, nos mendigos bíblicos, na
    mansidão dos bois arroteando os campos e nas lavarêdas d'oiro do
    castanheiro, aquecendo a velhice, alegrando a infancia, iluminando a
    choupana. E, depois d'uma existencia de sacrificio e de puresa,
    d'abnegação e de bondade, deitei esses ingenuos e pobres aldeões na
    terra misericordiosa e florida do campo-santo, pondo-lhes por cima das
    sepulturas rasas o ceo maravilhoso e candido, que em vida sonharam e
    desejaram.

    É claro que essas figuras não são inteiramente reaes, da realidade
    estricta, efemera e tangivel. Criei-as, ou antes completei-as com a
    minha alma, com o meu proprio ideal.

    Quem vir n'este livrinho somente o lado externo e literario, a forma, a
    paisagem, a pintura rustica, não o entendeu, nem o soube ler.

    É muito mais uma auto-biographia psicologica que uma serie de quadros
    campestres e bucolicos.

    A feição, por assim dizer, regional, do livro é, embora importante,
    subordinada e secundaria. A _Moleirinha_ é mínhota. O _Prestito funebre_
    minhoto é. Mas coisa curiosa, o segundo canto–_In Pulvis_ é já de todo
    transmontano. Inconscientemente, sem dar por tal, levei o castanheiro
    para a minha terra, e queimei-o no lar saudoso da minha meninice. Tambem
    eu me queria aquecer a elle, sentar-me ao pé da sua chama…

    Engana-se quem entre _Os Simples_ e a _Velhice do Padre Eterno_
    descobrir porventura contradições. Este lirismo é o reverso d'aquella
    satira. Aquella indignação é o comentario d'esta elegia. O christianismo
    dos _Simples_ é o innocente e meigo christianismo popular, feito com a
    ignorancia absoluta do dogma e com a intuição humana dos Evangelhos. A
    exegese do povo, na sua rudeza nativa e embrionaria, é por vezes d'uma
    penetração sublime e reveladora.

    As minhas antigas opiniões religiosas, em vez de se modificarem,
    acentuam-se cada vez mais. Redobra em mim, com um desenvolvimento
    progressivo de misticismo naturalista, a aversão e a hostilidade á
    egreja catolica, grosseira formula materialisada do transcendente e
    divino espirito de Jesus.

    Em quanto á tecnica do poema, muitissimo havia que dizer, se esta nota
    não fosse escripta rapidamente, á ultima hora, com o impressor á espera.

    A forma poetica encaminha-se á evolução final. Horisonte imenso. O pouco
    que fiz de novo, em tal sentido, não deve nada a ninguem. É meu,
    pertence-me.

    E, de passagem, uma ligeira observação. Este livro, só hoje dado a
    publico, é d'ha muito conhecido entre homens de letras e poetas. E valha
    a verdade exerceu, aqui e alem, ainda inedito, uma certa influencia,
    que, embora leve, é inegavel e manifesta. Podia apontar, citar. Inutil.
    Desejo apenas estabelecer o facto, mais nada.

    Concluindo: tentei uma obra d'arte, que fosse ao mesmo tempo
    absolutamente individual, ingenitamente portugueza e vasta e
    fundamentalmente humana. Alcancei-o? O tempo o dirá.

    14 de Maio de 1892.

    _G. J._

    *INDICE*

    PRELUDIO
    I–A Caminho
    II–De Volta

    I–A MOLEIRINHA

    II–CADAVER
    I–Prestito funebre
    II–In Pulvis

    III–EIRAS AO LUAR

    IV–AS ERMIDAS

    V–CANÇÃO PERDIDA

    VI–O PASTOR

    VII–O CAVADOR

    VIII–OS POBRESINHOS

    IX–CAMPO SANTO

    EPILOGO
    Regresso ao lar

    NOTA

    ERRATA

    Passaram desapercebidos varios erros, principalmente ortograficos,
    de facil emenda para o leitor.

    PREÇOS DA TIRAGEM ESPECIAL

    Exemplar unico em pergaminho 45$000
    Exemplares em papel Wathman 4$000

    _A 1.^a edição d'este livro, destinada a Portugal, pertence ao snr.
    Baptista Domingues, Vianna do Castello, a quem devem dirigir-se todas as
    requisições_.

  • Os meus amores contos e balladas

    Os meus amores contos e balladas

    Aproximadamente 60.805 palavras.

    Produced by Ricardo F. Diogo (Spelling modernization of
    the original version, already available at Project
    Gutenberg: #17503; Actualização ortográfica da versão
    original, já disponível no Project Gutenberg.)

    OS MEUS AMORES

    TRINDADE COELHO

    *OS MEUS AMORES*

    (Contos e Baladas)

    _2.^a edição_

    LISBOA

    Livraria de António Maria Pereira

    50, 52–Rua Augusta–52, 54

    1894

    _LISBOA_

    Tipografia e Estereotipia Moderna

    11–_Apóstolos_–11

    Ao Doutor

    António Xavier Perestrelo

    «_Os Meus Amores_»

    _Folhas dispersas dos meus anos de ouro,
    Vivo enxame das minhas alvoradas,
    Tenho zelos de vós, folhas sagradas,
    As Desdémonas sois de um outro mouro.

    As brancas horas que eu em sonhos douro,
    Essas horas febris, iluminadas,
    Ei-las fugindo, em tristes debandadas…
    Levais nas asas todo o meu tesouro.

    Folhas: subi, voai ao céu tão alto,
    Que o céu em estrelas vos converta e mude,
    Lá nas longínquas ilusões que exalto;

    Como as frementes águas de um açude,
    Levai a Deus, no derradeiro salto,
    O derradeiro adeus da juventude_…

    _Luís Osório_.

    IDÍLIO RÚSTICO

    _A Fialho de Almeida_.

    Quando atravessou a povoação, rua abaixo, com o rebanho atrás dele,
    era ainda muito cedo. Ao longo das ruas tortuosas, as portas
    conservavam-se fechadas, e não vinha das habitações o mais
    insignificante ruído. Dormia-se a sono solto por todas aquelas casas.
    Apenas algum cão, subitamente acordado em sobressalto pelo chocalhar do
    rebanho, ladrava do alto dos escadórios de pedra onde ficara de
    sentinela, ou de dentro das curraladas, onde levara a noite fazendo
    companhia aos novilhos. Donde em onde, galos madrugadores entoavam
    matinas sonoras, que eram como risadas vibrantes de boémios, nalguma
    estúrdia, a desoras…

    Mas passadas as últimas casas, o silêncio condensava-se para toda a
    banda, numa grande pacificação de templo adormecido. Nem vivalma pela
    ladeira que levava ao rio, por um caminho em zig-zags. Fulgiam no céu
    azul-escuro cardumes prateados de estrelas. A toda a largura, a
    paisagem era torva e indecisa, imersa numa luz muito mortiça que nem
    era bem a da madrugada, nem era bem a da noite. No entanto a manhã era
    calma; nem rumores de brisa pela rama das azinheiras velhas que faziam
    guarda ao córrego por onde o rebanho tomara. Cigarras, grilos nas
    ervagens, rãs que coaxavam nas regueiras, era o mais que se ouvia acima
    do rumor brando dos chocalhos. Nem um balido de ovelha em todo o rebanho
    que se ia submissamente à mercê do pequeno pastor, parando se ele
    parava a colher as amoras frescas dos silvados, recomeçando marcha se de
    novo ele se punha a caminhar.

    Quando passou rente ao meloal da fidalga, ouviu-se o ruído de um tiro,
    que o eco levou para longe.

    –Não gastes pólvora, António!–recomendou o pastor.–Ouviste?

    E logo a voz do guardador:

    –Madrugas hoje, Gonçalo!

    –P'ra que saibas: cá um homem não tem medo.

    –Está bem. Adeus!

    –Saudinha.

    A esse tempo ia-se já definindo a manhã, na luz, no som, na cor. Invadia
    a amplidão da cúpula celeste uma tinta alvacenta, onde as estrelas
    feneciam no seu brilho. Ao alto, na ladeira de além, entravam de fazer-se
    nítidas as linhas sinuosas das cristas, onde enormes rochedos tinham
    altitudes de uma imobilidade misteriosa e sinistra… Neste assomo
    de alvorada, as coisas iam despertando lentamente para a alacridade
    vigorosa da luz. Das moitas e sebes, calhandras em bandos levantavam-se
    repentinamente, em voo perpendicular, e cortavam ares fora, chilreantes
    e alegres, até se perderem de vista por detrás dos arvoredos e cabeços.
    De cauda em riste e orelhas imóveis, o rafeiro espreitava as ervagens
    secas, onde algum réptil passasse vagaroso.

    –Busca, Turco!–fazia-lhe o Gonçalo que tinha medo às cobras.–Busca,
    valente!

    À medida que descia a ladeira, um marulhar monótono de águas ouvia-se,
    mais e mais distinto. Era o rio que parecia perto; mas primeiro que lá
    se chegasse ainda era preciso andar… Era um poder de passos e de
    paciência,–reflectia o pastor, a quem aborreciam de morte os
    intermináveis torcicolos da vereda. Ia andando, descendo sempre, à
    frente do rebanho silencioso. E quando os sapatos começaram de calcar
    areia, e ali, perto, o rio lampejava, sob aquele céu ainda estrelado,
    o Gonçalo desabafou:

    –Uff! até que enfim!–E pensava aliviado:–Nada mais fácil do que
    terem-me saído os lobos!…

    Mas vista àquela hora, e no meio de tal silêncio, a corrente líquida
    tinha o que quer que fosse de sinistro, que evocava lembranças
    aterradoras, espectros dos que ali mesmo tinham morrido afogados, numa
    luta desesperada com as águas, clamando em vão que lhes acudissem, em
    tamanho transe aflitivo. A margem de lá, especialmente, era toda
    acidentada de rochedos informes, blocos medonhos, por entre os quais no
    Inverno o vento assobiava lúgubre, e as águas faziam remoinho, o que era
    um perigo para os pobres barcos que se aventurassem incautos, num
    descuido involuntário–simples remadela pouco a tempo, manobra menos
    segura de leme, ou impulso errado de vara.

    E então, cabeços enormes de um lado e doutro, projectando sobre o largo
    leito do rio a sua sombra pesada e desconforme, que mais triste fazia o
    sitio e parece que mais solitário, pois fechavam-no bruscamente, fazendo
    limitada a paisagem.

    A todo o comprimento da margem, o rebanho pôs-se então a beber manso e
    manso, e sem o mínimo ruído.

    Foi quando o Gonçalo acabou de se convencer que na margem de lá, um
    pouco mais abaixo, outro rebanho bebia também.

    –Tate, Gonçalo! Aquela chocalhada…

    E imóvel, remordendo o lábio, com o ouvido à escuta, pensava:

    –Ora se será ela?…

    Súbito, estremeceu. Ante o seu espírito infantil perpassou, como um
    clarão de relâmpago, a imagem de uma rapariga, pastora como ele, com
    quem se havia encontrado mais vezes, mas que havia muito não vira.

    –Ai, se fosse a Rosária!… dizia consigo.

    E impondo silêncio ao rebanho, que acabara de beber, pôs-se atentamente
    à escuta do tilintar dos chocalhos na margem oposta.

    «O rebanho parecia o mesmo, lá isso… Agora o pastor é que podia ser
    outro que não a Rosária…»

    Senão quando, uma ideia lhe acudiu que o fez sorrir de contente. Atirou
    ao chão a manta e o marmeleiro, e puxando para diante o bornal, feito da
    pele de uma ovelha branca, morta pelas segadas, tirou de lá a sua
    flauta e pôs-se a tocar apressadamente um trecho de cantiga rústica.

    No mesmo instante, uma voz muito sonora gritou-lhe:

    –Eh lá, Gonçalo, és?

    O pastor desatou a rir.

    –Uh lá, Rosária, eu mesmo! Guarde-te Deus, pimpona!

    E logo a voz fresca da rapariga lembrou:

    –Não te esqueceu a moda, rapaz!

    –Isso esquece ela!… Ouviste, Rosária?–Se outra fosse que ma
    tivesse ensinado…

    Neste meio tempo já o Gonçalo retomara a manta e o marmeleiro para ir
    ter com a Rosária. Mas primeiro perguntou:

    –Boto pela ponte, ou és tu que vens, ó cachopa?

    –Vem tu daí. Por cá sempre é outra coisa p'r'as ovelhas. Hã?

    –Basta!

    E dando o sinal da partida, o Gonçalo pôs-se em marcha. Daí a
    pouco, entrava mais o rebanho pela velha ponte mourisca, toda severa de
    construção nos seus três arcos lançados sem elegância, atufados de
    parasitas seculares que a faziam pitoresca, heras, silvas, ortigas
    bravas.

    A meio da ponte, mão piedosa fizera construir pequeno oratório ao Senhor
    Salvador, cujo rosto sereno, espreitando por grades de arame, diziam dar
    coragem a barqueiros e almocreves, que ante o pequeno e humilde nicho
    com respeito se descobrissem, e com devoção rezassem uma velha prece que
    era como um talismã precioso para livrar de maiores
    desgraças–naufrágios no rio, e então maus encontros por aqueles
    caminhos escabrosos, que eram um perigo constante para homens e animais.

    Daí a pouco, as duas crianças estavam perto uma da outra, cada qual
    seguida do seu rebanho.

    –Ora viva a Rosária!–disse o pastor muito alegre, parando defronte da
    cachopa.

    –Bons dias, Gonçalo; então que ventos?

    Entre os dois travou-se então um longo diálogo em que se contaram tudo o
    que haviam feito desde aquele dia em que ambos tinham voltado juntos da
    feira dos Caniços.

    –Por sinal que nem rês se vendeu!–lembrou o Gonçalo.

    –Por sinal!–disse com pena a Rosária.

    Mas ele contou que viera por ali muitas vezes, muitas, sempre na fé que
    a encontrava. «Vê-la agora, só por milagre de santo; quem o havia de
    sonhar! Nanja ele…»

    –Mas se eu estive tão doente!–volveu triste a Rosária.

    E como o outro acudiu a informar-se, ela explicou:

    –Umas quartãs que me tiveram mondada! A peste as mate! Febre que era
    mesmo lume desde manhã até ao escurecer… Uma assim!

    E na sua ingenuidade infantil, contou ao Gonçalo que muitas vezes, na
    febre, sonhara com ele, que se encontravam os dois por montes e prados,
    como agora tinha acontecido, «tal e qual».

    –Assim te Deus salve, ó Rosária?–atalhou rápido o pastor, a quem
    enchiam de orgulho os sonhos daquela pequena amiga.

    –Assim; pois que dúvida?–tornou-lhe confiada a Rosária.

    –Não!–disse agastado o Gonçalo.–Não hás-de dizer assim… Diz certo,
    hás-de jurar direito.

    –Pois assim me Deus salve…

    –Como é verdade…–Diz tudo, Rosária!–suplicava o pastor.

    –Sim, volveu-lhe paciente a companheira,–como é verdade que sonhava
    que nos encontrávamos–concluiu por fim, muito risonha.

    E sem disfarçar o júbilo, prestes o Gonçalo a certificou de que também
    não a esquecera. «Tanto é que tirava da flauta as cantigas todas que
    ela lhe tinha ensinado.»

    –Lembras-te?

    A Rosária faz que sim com a cabeça. E logo, batendo na flauta de
    sabugueiro, o pastor apressou-se a declarar:

    –Saem daqui sem falhar uma.–E resoluto:–Vá feito, Rosária, pede por
    boca!

    A Rosária pediu então a _Pastorinha_.

    –Eu é da que mais gosto,–explicou.–É a mais linda.

    –E é!–concordou o Gonçalo.–Ora escuta lá.

    E levando aos lábios a avena, pôs-se a tocar a _Pastorinha_, enquanto a
    Rosária, com a sua vozita em surdina, entrava a tempo com a letra:

    Onde _vás_, ó Pastorinha,
    Ai-li, ai-li, ai-li, ai-lé…

    –Sabes essa! É mesmo assim!–disse-lhe a Rosária a rir-se.

    –É como vês!–afirmou contente o Gonçalo.

    Aos seus pés tinham-se deitado os rafeiros, e já os dois rebanhos,
    confundidos, andavam na pastagem.

    –Olha as ovelhas juntas!–notou o Gonçalo.

    –Também nós nos quedámos juntos,–volveu-lhe a pequena, sorrindo.–As
    pobres dão-se bem, são amigas…–continuou com júbilo.

    –E nós também, ora também, Rosária?

    –Também–respondeu afoita a pastora.

    E foram-se ter conta no rebanho, que choviam as coimas e as denúncias.

    * * * * *

    A esse tempo, no céu alto e lavado a estrela da alva fenecera por fim, e
    o horizonte começava de carminar-se ao de leve. Por todo o céu em
    cúpula, a luz fresca e viva da manhã vibrava harmonias estranhas que iam
    despertar tudo, a cor da paisagem e a música dos ninhos, cantigas de
    perdizes e rumor de gente por moinhos e atalhos. Manhã de Verão, serena,
    tranquila, dulcíssima. Ia pelo ar um movimento extraordinário de
    asas–passarada alegre que saía agora dos ninhos e voava a matar a sede
    à borda das ribeiras, andorinhas que deixavam as suas casinholas em
    recôncavos de rocha e tomavam para hortejos convizinhos onde a vegetação
    era mais rica de seiva e mais fácil a presa dos insectos, perdizes
    gralhadoras que iam de monte em monte, tordos, poupas, melros. Nos
    vinhedos das encostas, por entre os renques verdejantes, gente em mangas
    de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos, em torcicolos,
    viam-se os que desciam aos moinhos, tangendo machos carregados de
    taleigos, e berrando-lhes cada _chó_! que se ouvia na outra ladeira. Já
    nas povoações próximas sinos chamavam para a missa de alva ou tocavam a
    ave-marias. Nas quintas e casas fumegavam os tectos, dizendo horas de
    almoço. De modo que o sol quando rompeu, solene e triunfante no céu
    imaculado, encontrou muita vida pelos campos, toda a natureza acordada
    para a labuta interminável do dia. Numa clareira elevada, dominando o
    rio e um trecho de paisagem para sul, tinham-se sentado os dois pastores
    e continuavam conversa.

    Ao pastor parecia-lhe agora mais bonita a pequena amiga, com a sua cor
    trigueira levemente pálida desde que tivera as maleitas. Não se
    lembrava com que santa que ele tinha visto se lhe parecia agora a
    Rosária…

    –Mas o cabelo assim cortado…–disse com mágoa, mirando-lhe a cabeça
    nua, e passando a mão pela dele,–é que te não fica bem!

    «Melhor fora que lhe tivessem deixado as tranças. Negras, de mais a
    mais, que era como ele gostava…»

    –Promessa da mãe se eu melhorasse–explicou a Rosária–Lembranças… A
    gente quando está aflita…

    –…Quando está aflita…–repetiu como um eco o pequeno. E depois,
    amuado:–Se promete os olhos…

    A rapariga fitou-o, espantada.

    –…é porque tos tirava!–concluiu convicto.

    Houve um momento de silêncio, em que o Gonçalo se pôs a escavar o chão
    com uma pedra, e a Rosária a torcer um fio saliente do seu vestido
    grosseiro. Ouviam-se as ovelhas chocalhando nas pastagens, ia a passar
    na rodeira, longe, um carro que chiava, com uvas para algum lagar.

    –Não falas, Rosária?–perguntou o pastor sem levantar os olhos para
    ela.

    –Também tu…–começou com medo a pequena,–logo te zangas! Olhem a
    lembrança dos olhos! Se a mãe fazia isso, credo!–E depois
    animando-se:–Já foste à Senhora dos Remédios?

    O Gonçalo fez sinal que não tinha ido.

    –Pois foi lá que deixámos as tranças, eu mais a mãe. Num prego ao lado
    do altar, um lacinho verde nas pontas. Ficou lindo.

    O pastor teve um movimento de enfado, não lhe agradava a conversa. E
    para acabar com ela:

    –Que enfim como melhoraste…–fez que concordava, pondo o bilro a
    girar.–Olha como dança…–E depois, mais pensativo, batendo com o
    bilro nos dentes:

    –Que às vezes as promessas pouco fazem…–E interrompendo:–Sabes quem
    fez este bilro?

    –Foste tu, aposto.

    Bateu no peito e fez com a cabeça que sim, mostrando-lho
    orgulhoso–«que visse os _torneados_.» Depois continuou:

    –Vai uma pessoa andando e os santos não se importam. Ora, os
    santos!–Olha a minha Joaquina, tu não conheceste. A gente bem rezou e
    bem promessas fez, mas ela foi-se.

    E pondo-se de joelhos, começou a procurar pelo rebanho.

    –Aquela ovelha, a branca, não vês? A que se vai agora deitar… Pois
    era p'ra Nossa Senhora, repara que é a melhor.–E deitando-se para
    trás:–Lá anda ela a pastar!–concluiu desalentado.

    –Mas tinha de ser,–volveu-lhe triste a Rosária,–que as promessas
    sempre fazem, lá isso…

    E convicta, a pequena contou casos acontecidos para convencer o Gonçalo
    de que sempre valiam as promessas. No entanto, deitado de costas, com a
    jaqueta a fazer de travesseiro, as pernas em ângulo tocando-se com os
    joelhos, o Gonçalo soprava pela palha o bugalhinho que constantemente ia
    subindo e descendo, acompanhado pelo olhar bondoso do cão que ali perto
    se deixara estar sentado. E contando, contando casos, a Rosária ia
    entretendo o pastor. Mas quando ela fazia pausa, logo o rapaz acudia,
    firme na sua objecção:

    –Ora! mas a nossa Joaquina morreu-se! Coitadinha da Joaquina!

    * * * * *

    À medida que o sol ia subindo, no céu glorioso e fulvo, iam os dois
    conduzindo as ovelhas para sítios mais ensombrados, para se livrarem da
    estiagem que ia valente. Calor de rachar, ali por volta do meio-dia, que
    foi quando tomaram para a banda das azinheiras, e para os pinheirais,
    depois. E sempre ao lado um do outro, os dois companheiros levaram de
    conversa quase o dia inteiro. Nunca tinham dado fé que as horas
    passassem tão depressa. Ainda armaram aos pássaros, mas foi o mesmo que
    nada, os demónios andavam espantados e já conheciam as esparrelas.

    –Olha lá não caiam,–tinha dito o Gonçalo, já cansado de estar à
    espreita, agachado, com o fio da armadilha preso ao dedo.–Se eles
    fossem tolos…

    E foi-se a recolher as esparrelas, dando ao demónio os pássaros. Ela
    então propôs que jogassem a pocinha.

    –E o fito, ó Rosária? Sabes jogar ao fito? No adro, aos Domingos de
    tarde, bato-me com qualquer, sabias?

    E generoso:–Mas a ti dou-te partido: vinte e cinco às quarenta…

    Como o tempo rendia, jogaram tudo–a pocinha, o fito, as necas, a
    bilharda. Na bilharda, como o rafeiro trazia à mão, era ele que ia
    buscar o pauzinho, quando zinia longe.

    –Turco, traz cá!

    * * * * *

    No entanto, ia descaindo a tarde. Ao alto, o largo céu esmorecia no seu
    azul suavíssimo. Em todo o espaço o ar estava tranquilo e sereno, e já
    começava para poente a decoração fantástica do ocaso. Parece que se
    ouvia mais distinto o marulhar das águas no rio; já não faiscava assim
    tão viva a areia branca das margens.

    Foi quando o Gonçalo lembrou que era melhor irem-se chegando, mais as
    ovelhas, para as terras onde tinham de pernoitar. E fitando fixamente os
    olhos negros da Rosária, disse-lhe assim:

    –Mas olha o que prometeste… Inda vais feita no que disseste?

    «Ora que lhe custava a ela! Já que as ovelhas tinham andado juntas todo
    o santo dia, que mais era que dormissem no mesmo curral, essa noite?»

    –E o mais, ó Rosária?–perguntou de novo com interesse.

    A pequena ficou perplexa. Mas como o pastor não cessava de a olhar,
    respondeu:

    –Também.–E sorriu-se.–Pois eu…

    Só depois desta segunda promessa o Gonçalo se levantou, e deu o sinal
    de partida, assobiando aos cães.

    Daí a pouco, estavam de marcha para o curral, Quando passavam a velha
    ponte, a obliquidade dos raios do sol fazia alongar desmedidamente pelo
    areal a sombra dos três arcos. Nas rugas da corrente, uma luz alaranjada
    tremeluzia, tirando à água a sua translucidez normal.

    –É bonito!–fez notar o pastor.

    A Rosária explicou logo:

    –São as moiras a caçar com redes de oiro, sabias?

    Para a outra banda, um pouco mais abaixo, assomavam à flor da corrente
    as cabeças dos dois rapazotes do moleiro. Dentro da _chata_ que vogava
    serenamente, a mãe com o mais novito ao colo não os perdia de vista,
    enquanto o pai, em mangas de camisa, de pé num topo de fraga, lhes ia
    ensinando as _manobras_. Ao fundo, três vitelas passavam o rio a vau,
    muito devagar, parando a espaços, alongando o pescoço para a veia de água
    serena, bebendo mansamente. Sobre o vitelo das malhas brancas, o
    guardador cantarolava, acenando com o chapéu ao moleiro–«boas tardes!
    boas tardes!» Ao sair da ponte, o rebanho teve de se afastar um pouco
    do caminho: aproximava-se um almocreve com a longa fila de machos
    carregados, tilintando campainhas.

    –Adeus pequenos! cumprimentou.

    –Venha com Deus!–tornaram-lhe ambos.

    E de novo se puseram em marcha. As ovelhas continuavam confundidas,
    confraternizavam os cães como bons e leais amigos. À frente, o Gonçalo
    ia tocando na flauta o mesmo que a Rosária cantava. O brando rumor dos
    chocalhos, que se levantava de todo o rebanho, casava-se com a música,
    fundindo-se numa nota subtil, de um pitoresco ingénuo de balada…

    Até que chegaram a um topo de serra, escurentado de matagal rasteiro, e
    então, parando um momento, o Gonçalo perguntou, colocando na sua frente
    a Rosária, e pondo-lhe à cara a flauta, na direcção em que devia olhar.

    –Vês além… neste direito? Resvés do castanheiro, não enxergas?

    A outra fez que sim com um gesto, e interrogou:

    –Então é ali?

    –Ali mesmo–volveu-lhe já de marcha.

    E repousando a mão direita sobre o ombro esquerdo da rapariga,
    repetiu-lhe muito contente:

    –É mesmo além.

    Numa terra de restolho, um largo quadrado de cancelas marcava o espaço
    que as ovelhas tinham de ocupar essa noite.

    –Falta pouco; a gente vai pelo atalho que é só mau p'ra quem passa a
    cavalo.

    E como ele ia expansivo, e a companheira não dava palavra, quis então
    saber:

    –Estás triste, ó Rosária?

    –Triste… não. Já agora… tem de ser–volveu-lhe cabisbaixa.

    –Huum! Arrependeu-se…–volveu consigo o pastor.

    * * * * *

    Até que por fim chegaram, tinha anoitecido havia instantes. Gado para
    dentro e toca a merendar; o que era de um era doutro: ele ainda trazia
    azeitonas, um naco de queijo, pão. Mal acabaram de comer, o Gonçalo
    apontou para a cabana que ficava ali perto, e propôs que se deitassem:
    estavam moídos da soalheira de todo o dia e da caminhada agora.

    Quando o Gonçalo e a Rosária entraram na cabana e se deitaram sobre o
    colmo, cobrindo-se com as mantas, e achegando para a cabeça um do outro
    os bornais que faziam de travesseiro, cerrara de todo a noite, e
    formigueiros de estrelas cintilavam vivezas de prata polida no azul
    indefinido do céu.

    –E os lobos?–perguntou a Rosária com medo.

    –Não há perigo–tranquilizou-a o Gonçalo.–Isso é lá com os cães.

    * * * * *

    Pouco a pouco, foi-se extinguindo no curral a música triste dos
    chocalhos. A ladrar, os cães faziam eco. O rebanho devia dormir
    profundamente, imerso no mesmo sono em que jazia prostrada toda a
    Natureza, ao largo. Dentro da cabana, os dois conversaram algum tempo,
    num ciciar brando de vozes, até que por fim, vencidos da fadiga, se
    deixaram adormecer,–quando a história das moiras encantadas ia no seu
    melhor episódio…

    E lá no alto céu, mesmo sobre a cabana, a estrela da tarde não era nem
    mais pura nem mais luminosa do que a alma simples e boa daquelas duas
    crianças…

    Quando ao repontar da manhã se levantaram, e saíram a ver o céu…

    –Bonito dia, Gonçalo!

    –Bonito dia, Rosária! Olha…

    …na calma placidez do azul, bandos de pombas mansas iam voando…
    voando…

    SULTÃO

    (Copiado do Natural)

    _Ao meu Henrique e a Beldemónio, seu amigo_.

    I

    Ao cair da tarde, o Tomé da Eira entrava em casa, cansado, esfalfado de
    andar um dia inteiro a mourejar no campo.

    –Meus pecados, boa tarde!–dizia ele para a mulher, com um sorriso a
    afectar seriedade.

    Vinha logo o pequeno, o Manuel, de mãos postas pedindo-lhe a bênção.

    –Deus te abençoe.

    –Pai, olhe que o «Sultão»… ia a dizer o pequeno.

    –Bem sei! atalhava logo o Tomé.–O «Sultão» é um maroto e tu és outro.

    E enquanto procurava no bolso da jaqueta a sua bela navalha de
    _meia-lua_, que lhe custara um pinto havia bons quinze anos, e abria a
    gaveta do pão, o Tomé punha-se a fazer de interesseiro consigo mesmo,
    resmungando alto p'ra que a mulher o ouvisse:

    –É que por este caminho não tenho um dia descansado… Nem uma hora…

    Vinha a mulher com as azeitonas, com o queijo, sem dar palavra.

    –…Pois vamos já que já era tempo… Porque p'ra mim há-de chegar… A
    modos que vou já cansando…

    Mas o Tomé não era homem que dissesse estas coisas de coração.
    Pareciam-lhe longos, intermináveis, os aborrecidos Domingos que passava
    sem ir campos fora, madrugador como um melro.

    –Uma aquela como outra qualquer! dizia o bom do Tomé encolhendo os
    ombros, como quem está desgostoso com um génio assim.

    Partiu uma ampla fatia, um naco de queijo muito branco, do leite da sua
    cabrada, e veio sentar-se, consolado, ao fundo da larga escada de pedra
    que dava para a rua, arregaçado, em mangas de camisa, muito à vontade.

    Costume velho do Tomé:–mal se sentava, mastigando o «bocado», dizia
    logo para o filho:

    –Ouves, Manuel? Bota cá fora o «Sultão».

    O rapazito corria o caravelho de uma pequena porta lateral, que rangia
    nos gonzos ao impulso dos seus bracitos roliços, e punha-se a pular de
    contente, dizendo cá da rua:

    –«Sultão»! Sai cá p'ra fora, «Sultão»!

    No fundo negro do pequeno cortelho, na moldura rectangular da porta
    baixa, destacava-se então a cabecita parda de um jumento, orelhas em
    riste, grandes olhos de uma tristeza perpétua, num movimento moroso de
    pálpebras pestanudas…

    E ali se quedava parado, absorto, muito bem posto nas suas pequeninas
    pernas delgadas, a olhar o Tomé que o chamava,–um grande riso de
    alegria nas feições amorenadas, contente de ver o seu «Sultão».

    Mas o pequeno jumento não avançava um passo, divertindo-se em arreliar o
    Tomé, fitando-o com um ar estagnado. Altivo na sua nobre linha de
    quadrúpede de boa raça, alguém lhe poderia ler no olhar, mole e
    impassível, o frio, gelado desprezo a que parecia votar o dono…

    Mas era àquilo mesmo que o bom do lavrador achava graça. E punha-se
    então a falar muito sério, entre resignado e cortês, para o pequeno e
    desdenhoso jumento–o pão e o queijo esquecidos numa das mãos, na outra
    a navalha de _meia-lua_:

    –Então, «Sultão», não vens?

    –Não! parecia responder-lhe o animal. E abstracto, continuava a
    envolvê-lo no seu olhar profundo. A quebrar a harmonia daquela
    imobilidade de estátua, apenas de quando em quando uma pequenina patada
    na soleira, zap!

    –Zangado, «Sultão»? perguntava o lavrador.–De mal comigo?

    E prestes voltava a cara para a outra banda, para se rir à
    vontade…–que não fosse vê-lo o «Sultão»… Metia entre dentes um
    pedacito de queijo, logo uma côdea de pão, e fazendo umas grandes rugas
    na testa, de quem começa a zangar-se, voltava-se então muito sério:

    –Ficas aí, «Sultão»? Já não és meu amigo?

    O jerico abatia um pouco as orelhas, inclinava o pescoço, parece que
    fazendo-se humilde…

    –Então se és, anda daí. Olha…–E mostrava um pedacito de pão.–P'ra
    ti se vieres…

    O «Sultão» dava três passos, e ficava fora do cortelho. E por se vingar,
    o Tomé carregava o semblante numa seriedade muito pesada, e erguendo o
    rosto iracundo chamava-lhe interesseiro, maroto, afirmando que já lhe
    não dava o pão. E desfechando-lhe enfim a ameaça de o vender a um
    cigano, entrava a tratá-lo por senhor–_sôr_ «Sultão»…

    Mas o pequeno jumento ia andando muito devagar… andando… orelhas
    baixas, pescoço caído, a modo de arrependido, parece que pedindo perdão
    da arrelia.

    Nervoso, sapateando, o Tomé voltava a cara para a outra banda, a rir
    como um perdido.

    –Diabo do jerico! diabo do ratão! Capaz é ele de fazer rir as pedras,
    o mariola!–E tossia de engasgado, uma migalhita de queijo na goela.

    No entanto, o «Sultão» ia avançando, muito ronceiro, até que tocava com
    o focinho, levemente, nos joelhos do lavrador. O Tomé sacudia-o:

    –Sai-te p'ra lá! dizia ele muito amuado, sem se voltar.–Cuidas talvez
    que te não conheço, cuidas? Já te não quero, vai-te!

    Mas como que irreflectidamente, fingindo não querer, chegava-lhe ao
    focinho um pedacito do pão, o melhor da fatia. «Sultão» lançava um olhar
    oblíquo, entre sorrateiro e medroso, levantava cautelosamente o beiço
    superior, a tremer, e roubava-lho da mão.

    Pazes feitas! Era então rir a perder, numas casquinadas agudas, muito
    estrídulas.

    –Credo, homem! dizia de cima, da janela, a Sr.^a Josefa.–Até pareces
    doido!

    –Você assim rouba seu dono? Diga! Você assim rouba seu dono? perguntava
    o Tomé, nuns grandes gestos.–Vamos que eu lhe não queria dar da
    merenda? Ladrão, de mais a mais!… Ora bem! agora brinque.

    Era precisamente o que o Tomé queria:–ver o «Sultão» a brincar.

    …Nada, com efeito, meus amigos, que mais divertisse o bom do
    lavrador, e melhor o indemnizasse daquelas fainas laboriosas que lhe
    consumiam os dias, imperturbavelmente, perpetuamente, sob sóis
    causticantes e chuvas torrenciais.

    Por isso, era de ver como ele ria, com uma boa vontade deliciosa, das
    «partidas» e «diabruras» do «Sultão»! Às vezes, o pequeno jumento,
    ferido não sei por que vespa invisível, despedia sem mais nem menos
    numa carreira aberta, focinho entre as pernas dianteiras, agitando a
    cauda, por aquela rua fora. Rompia de toda a banda num alarido o
    rancho pacífico das galinhas, que já no ar andavam como doidas,
    cacarejando, como se um pé de vento as levasse. Acudia gente aos
    postigos, às portas, às janelas, a ver a polvorosa; e súbito se
    inundava a rua de rapazes, rotos, descalços, alguns quase nus, correndo
    atrás do burro, gritando-lhe, acenando-lhe, espantando-o–como se o
    mesmo vento de folia os houvesse varrido a todos, varrendo a própria
    rua… E um lá ia a terra, e sobre esse passavam os outros, e sobre
    todos voava o «Sultão», apupado, perseguido, aclamado, na malta
    espavorida dos inimigos…

    –«Sultão»! eh lá! «Sultão»!

    Súbito, como se lhe estalasse a corda, o animal estacava, e logo de
    volta dele postava-se a rapaziada, mas num alor de nova fuga, não lhe
    desse na bolha atacá-los… E abriam alas de repente, quando ele,
    tomado de novo acesso, voava para as bandas do dono, que por se não
    deixar atropelar investia com o «Sultão» de braços abertos, o que era,
    já se vê, um modo de o abraçar, fingindo medo. E vinham as gargalhadas
    estrídulas, os rogos para que pusesse tréguas, as súplicas para que se
    acomodasse, recuando o lavrador até ao último degrau da escada, onde
    se deixava cair,–derrotado!

    –P'ra lá, «Sultão»! p'ra lá! fazia então o Tomé, opondo-lhe os pés,
    desviando-o, apoiando-se nos cotovelos, muito inclinado para trás, a rir
    como um perdido.

    Então o pequeno jumento estacava, ofegante. Mas prestes rompia a
    girândola dos coices, em que era exímio, sacudindo muito as patas, cauda
    no ar, muito direita, ao mesmo tempo que o Tomé solícito dava aos
    rapazes o aviso de se arredarem–«porque era doido, aquele demónio»!…

    Outras vezes, parece que variando de táctica, entrava de seguir muito
    cauteloso, num ronceirismo pérfido, como um borrego ou como um cão,
    certa mulher que passava. Até que lá ia uma focinhada, e logo após os
    saltos do costume, respondendo com uma ameaça de pinotes à surpresa da
    viandante.

    –Dê, tia Luísa! bata nesse maroto! fazia de lá o Tomé, com ares de
    zangado. E depois, batendo o pé, pedindo que lhe dessem uma
    verdasca:–«Sultão»! venha já p'r'aqui! intimava.

    E se encontrava um cão? Se encontrava um cão, ia logo direito a ele,
    muito devagar, cauda caída, orelhas murchas, num cumprimento humilde
    de focinho. O cão regougava, desconfiado, entreabrindo a dentuça,
    preparando a sua dentada. Não dava o «Sultão» sinais de medo, e humilde
    prosseguia para o outro, propondo paz. Mas ao primeiro latido, recuava um
    passo, espertando da sua indolência passiva; e de espinha arqueada
    ganhava o terreno perdido–fitando impassível o cão… O bruto formava
    então o salto, regougando forte, o pêlo eriçado; e ao investir para a
    primeira dentada, salvava-o de um pulo o «Sultão», evitando-o, até que
    por compaixão lhe dava um pequenino coice, «mais feitio que outra
    coisa», pondo em fuga o mastim, corrido, ganindo, vencido:

    –Eh! valente! gritava-lhe então o Tomé.

    E com duas palmadas na anca, espantava-o enfim para o cortelho, dizendo
    ao correr a caravelha:

    –Não há dinheiro que te pague, assim me Deus salve!

    E comido o caldo-verde da ceia, nunca o Tomé da Eira ia para a cama sem
    primeiro descer a ver o «Sultão»,–de candeia na mão esquerda, e na
    direita, contra o sovaco, a bela quarta do grão, acogulada.

    Muitas vezes acontecia esquecer-se o Tomé a vê-lo comer, de candeia
    atenta, encostado à manjedoura, sorrindo: e, de cima, a Sr.^a Josefa
    tinha de intervir então, gritando-lhe pelas frinchas do sobrado:

    –Tomé, vê se te vens deitar, meu pasmado! olha que são horas.

    E piamente, como fanático, achava verosímil a lenda da burra que
    falou,–história que uma tarde, passando, o abade lhe contara. Tanto
    que mais de uma vez, dando ao burro as boas-noites, estranhou com certo
    desgosto que o «Sultão» lhe não respondesse:

    –Boas noites!

    * * * * *

    Mas o demónio, que sempre as arma, armou-lha também um dia! Foi ao
    cortelho, de manhã cedo, e não encontrou o burro. Ficou parvo! Pôs-se a
    mirar, espantado, a loja que lhe pareceu enorme, e além de
    enorme–gelada…

    –Ó Josefa! Josefa! entrou de gritar da rua.–Ó Josefa!

    A mulher assomou à janela, sobressaltada.

    –Queres apostar que me roubaram o burro, ó mulher?!

    –Que te roubaram o quê? fez a Sr.^a Josefa, muito atónita.

    –O burro, o «Sultão»! Vem cá ver que mo roubaram!

    E como ao tempo acudira já o Manuel, em camisa, descalço, romperam todos
    três na gritaria, defronte do cortelho vazio:

    –À d'el-rei! À d'el-rei! À d'el-rei!

    Até que o regedor, que era compadre, intervindo estremunhado, pôs na
    peugada do burro, mais dos larápios, os cabos que compareceram.

    Mas em vão! Um a um foram regressando, pelo dia adiante, e desfechando
    ao peito abatido do Tomé a negra e vazia palavra:

    –Nada!…

    II

    Dois anos depois. Tarde de Agosto. Ao longe, fechando o horizonte que a
    eira dominava, as arestas dos montes quebravam-se numa sombra igual, e
    embaciavam ainda o poente as suaves, brandas pulverizações doiradas da
    última luz do sol. Riscos vermelhos de nuvens, como grandes vergas de
    ferro levadas ao rubro, destacavam imóveis num fundo verde-mar,
    esvaecido e meigo, raiado de listrões de uma coloração leve de laranja.
    Pequenos algodões transparentes, com alvuras de neve, cortavam aqui e
    além, alegremente, a monotonia profunda do azul. Num deslado, sob os
    castanheiros próximos, surgiam os telhados da aldeia, a torre branca da
    igreja, as paredes caiadas da escola.

    A vasta eira comum, levemente acidentada, apresentava àquela hora o
    aspecto tranquilo e de paz de uma grande oficina em repouso. Poucas
    «medas», iam no fim as colheitas: mais uma semana, duas quando muito, e
    estaria tudo recolhido. Já sobre a palha das «parvas» ou ao sopé das
    «medas» altas, entre os utensílios da trilha e a criançada estrídula que
    brincava, os da lavoura descansavam–vermelhos da soalheira intensa de
    todo o dia, alguns deitados, em mangas de camisa, peito nu, arregaçados
    os braços musculosos, numa prostração regalada de matilha que alfim tem
    a sua hora de sossego, após um dia de caçada. Parecem prostrados da
    fadiga os próprios malhos, os trilhos, as pás, os «baleios» que levaram
    todo o santo dia varrendo o chão em volta das «parvas». E aqui e ali,
    dando uma sensação agradável de fartura, perfilam-se os altos sacos no
    meio das rasas, extravasando de grão. Além, gente em mangas de camisa,
    ao redor de um grande montão de palha triturada, vai «limpando»–visto
    que sopra um «ventinho». E sente-se sobre as pás a chuva do grão, ao
    mesmo tempo que a palha, voando, faz monte da outra banda, e os
    «baleios», em mãos de mulheres, não cessam de arrebanhar o grão,
    varrendo em roda num afã… Em certo ponto, carros vazios; um além, de
    altíssimas «angarelas», vai-se enchendo de palha; enquanto outros,
    atulhados de sacos, em rimas entre as cancelas mais baixas,
    estridulamente chiando abalam para as tulhas, levados pelos bois
    gigantes.

    Eiras além, livres dos trilhos que ficavam em cima da palha, levas de
    bois caminhavam vagarosamente, as largas orelhas pendentes, caudas
    oscilantes afagando nas ancas espaçosas o luzidio pêlo. E lá vão
    encosta abaixo, roçando pelos troncos ásperos dos castanheiros a enorme
    corpulência, fartar o largo bandulho à serena água das ribeiras,
    sorvendo vagarosamente, impando a cada sorvo, pesadamente,
    monotonamente, parece que insaciáveis no meio da água em que se atolam,
    submissa…

    Ao fundo da eira, rente aos castanheiros escuros, um rancho de mulheres
    cantava alegremente, em coro. Acabara de ensacar-se o último grão da
    farta colheita do Tomé da Eira.

    –Colheita rica, sim senhor! vinham dizer-lhe os vizinhos.–A primeira
    da aldeia!

    –Qual? isso sim! vão vocês ver a tulha. Muita palha, é que vocês hão-de
    dizer, muita palha e pouco grão…

    E muito azafamado, sem prosápias de maioral nem jeitos de soberba, as
    mangas arregaçadas pelos cotovelos, o Tomé ia e vinha, dando ordens,
    repetindo avisos, distribuindo aqui e além as últimas tarefas.

    –Aí vai um saco, ó tu! É p'r'as «rabeiras». Que não fique nem um
    grão, ouviram? É aviar, toca a aviar! Cautela que não fique por aí
    alguma coisa esquecida: essas pás, esses «baleios», tudo isso.
    Margarida! ó Margarida! qu'é da tua rasa? Deixa! se vai no carro está
    bem.

    E era como um doido a meter-se no serviço de todos, muito expedito,
    loquaz, alegre, pedindo pelas bentas almas que se não deixassem agora
    dormir…

    –Vamos lá! vamos lá! As pás, ó tu que cantas? Deixa-me por aí alguma,
    que eu depois te ensinarei, ouviste?–Que faz aí no chão esse
    «rasouro», ó coisa?–Olha p'r'o que estás a fazer, tu: esses sacos que
    fiquem bem atados.

    O criado, que ia abalar com a carrada, perguntou, já de «aguilhada» no
    ar, se era preciso mais alguma coisa.

    –Não, podes ir. Ouves? lá em casa que tenham a ceia a horas. Avia-te.
    Ouves, Francisco? Não piques os bois, a carrada é valente. A passo,
    deixa ir os animais a passo. Vai-te.

    Como o carro chiava, levantou a voz para dizer:

    –Olha, descarrega na tulha do meio. Na tulha do meio, não ouves? Os
    bois para o lameiro.

    Mas o Francisco apontou dois sacos que ficavam:–«seria preciso vir por
    eles?»

    –Não vale a pena, lá irão.

    E depois, para aquela gente, observou que bem sabia ele quem os
    levava, aqueles dois sacos…

    –Com mil demónios! Apostar que vocês não adivinham?

    «Eles sabiam lá?… Quem quer podia levar os dois sacos, olhem agora!»

    –O «Sultão», sabem? o «Sultão»! Esse é que os levava. E digo-vos então
    que valia o dobro a colheita, assim me Deus salve!

    Alguns riram da lembrança. «Tinha graça que a cisma do animal não lhe
    passava nem à mão de Deus Padre!»

    –A modos que isso é já mania, ó Sr. Tomé?

    Nisto, porém, o lavrador soltou um «oh!» de surpresa. Voltaram-se
    todos–«que era?» Na estrada que a eira dominava, um homem ia passando,
    a cavalo.

    –Vocês não querem ver, ó rapazes?! perguntou o lavrador, fazendo-se
    pálido.–Aquele burro, hein? se não é o «Sultão» é o diabo por ele…

    Recordaram:–«estrela malhada na testa, a mão direita branca»…

    –É ele, com um milhão de diabos! não há que ver! E aquele é o ladrão!

    E cuspindo nas mãos, e arregaçando mais as mangas da camisa, arrancou,
    de um abanão, o cabo de uma «espalhadoura» e botou a fugir direito à
    estrada.

    Prestes ouviu-se um berreiro, as mulheres do rancho em alarido:

    –Que o mata! gritavam todas.–Ai que o mata! Acudam! Ai a desgraça! Nem
    a alma lhe deixa! Acudam!

    Os homens deitaram a correr atrás dele, afluía gente de todas as
    bandas da eira, os cães ladravam.

    –Então, Sr. Tomé? olhe que se perde, Sr. Tomé! diziam-lhe, já
    agarrados a ele.–Largue o cabo, que se desgraça! Tudo se faz a bem,
    Sr. Tomé, largue vossemecê o cabo!

    –Qual bem nem qual diabo! Qual larga? Arreda! Racho-lhe as costelas,
    mais a vocês, se me não largam! Arreda!

    E esbracejava furioso, levando-os de roldão, agarrados a ele mais ao
    cabo. Chegou a ferir um, os outros desanimaram por instantes.

    –Vê, Sr. Tomé?!

    «Não via nada, não queria ver coisa nenhuma! Arreda!» E num rompante de
    ira, abrindo brecha com um «sarilho», de um pulo saltou à estrada, aos
    tropeções nas pedras que encontrava, mal se equilibrando.

    –Abaixo! intimou.–Você é um ladrão!

    –Um quê?

    –Um ladrão! É meu esse burro! Hei-de matá-lo aqui, seu patife!
    Deixem-me! larguem-me! Há-de aí ficar estendido, como um cão!

    E no meio da malta em alvoroço, com a arreata do burro na mão esquerda,
    e na direita o minacíssimo cacete, berrava que o deixassem, que ia tudo
    raso–«com seiscentos milhões de diabos!»

    Seguiu-se altercação, vieram razões de parte a parte, insultos.

    –Já lhe disse que você é um ladrão!

    –Ladrão será você!–tornou-lhe o outro já de pé, avançando de punhos
    cerrados.–E não mo diga outra vez, que o racho!

    Aflitas, algumas mulheres voltavam-se, de mãos postas, para a
    capelinha próxima, rogando o socorro da Virgem. O lavrador entrava de
    tremer como varas verdes, desfigurava-o a raiva, uma saliva muito branca
    bordejava-lhe os cantos da boca. Pela camisa rota, via-se-lhe já um
    pedaço de ombro. Tinham, alfim, conseguido arrancar-lhe o cacete, mas
    agora esbracejava, punhos no ar sobre aquelas cabeças em desordem.

    Já, para uns certos do grupo, o homem do burro se desculpava:–«tinha-o
    comprado a uns ciganos, fossem lá adivinhar que o burro era roubado…»

    –Vê, Sr. Tomé? acudiram logo uns poucos.–O homem não tem culpa.–E
    gritavam-lhe aos ouvidos:–Não tem culpa! Comprou o animal na boa fé.
    Vês–aí está!

    –Mente! objectava incrédulo o Tomé, cada vez mais irado.–Mente!

    –Mente?! perguntava o outro de lá, assanhado.

    –Como um judeu! cuspia-lhe da outra banda o Tomé.

    De modo que para o convencerem, foi preciso afinal levá-lo quase à má
    cara, chamar-lhe homem de rixas, despropositado, bulhento. Ele então,
    abrindo os braços como se fosse para nadar, sossegou um pouco,
    amainou,–prometeu levar aquilo com paciência, às boas. Chegou quase a
    pedir desculpa, limpando com a manga branca as bagas das
    camarinhas.–«Mas tinha perdido a cabeça, que lhe queriam?»

    Chegou-se por fim a um acordo. «Sim, senhores, acomodava-se, mas
    punha uma condição: largasse ele o burro, e o burro é que havia de
    resolver…»

    –Serve-lhe o contrato?

    –Qual contrato?

    –Mau! Larga-se o burro, você entende? deixa se o burro às soltas.
    Depois, é p'ra onde ele for. Se o burro larga p'ra trás, lá p'r'as
    bandas donde você vem… Você donde vem?

    –Dos Casais.

    –Pois aí está. Se o burro tomar p'r'os Casais, o burro fica seu…

    –E tomando direito à aldeia, é do Sr. Tomé,–concluíram alguns do
    grupo, conciliadores.

    –Nem mais! Serve-lhe assim? Diga se lhe serve assim.

    Por um desfastio, o outro concordou. Mas lá lhe parecia história que o
    burro tomasse para a aldeia… Vinha de tão má vontade, que até lhe
    custara tirá-lo de casa.

    –Olhe que vai pr'os Casais! Digo-lhe então que vai pr'os
    Casais…–afirmou.

    –Melhor p'ra você. Mas nós veremos p'ra onde vai. Você está pelo
    dito?–quis saber o Tomé.

    –Sim senhor, estou! Pois que dúvida tem que estou? disse-lhe o outro
    num rompante. Olhe: uma, duas, três; às três largo-lhe a arreata.

    Ia já a abrir a boca para dizer–«uma!»

    –Alto! fez o Tomé. Espere lá um pouco. Primeiro hei-de fazer duas
    festas ao animal.

    E pôs-se a bater-lhe na anca, no pescoço, no peito, demorando-se um
    pouco a fitá-lo de frente, «para que o animal o conhecesse.»

    –«Sultão»! gritou-lhe de repente. Eh! «Sultão»!

    O burro estremeceu… Dir-se-ia que no fundo da sua memória, a
    lembrança porventura adormecida daquele nome despertara subitamente…

    –Eh! Eh! riu-se muito satisfeito o lavrador. O burro, agora, vira-se
    p'ra ali. Isso. Nem é p'r'os Casais nem p'r'o lugar. Assim. Eh! Eh!

    E afastou-se para o lado, aguardando.

    Uma ansiedade dominava naquele momento os do grupo; o Tomé pôs-se a
    roer as unhas, nervoso…

    –Então você porque espera? perguntou.

    Ouviu-se logo a voz do outro, dizendo:

    –À uma!…

    O Tomé sentiu um calafrio; sapateava nervoso, cheio de medo, o olhar de
    esguelha, e entre os dentes ferrados o polegar da mão direita…

    –…às duas!

    –Ih! c'um raio!… dizia baixo o Tomé.

    E sem querer, os olhos cerraram-se-lhe com força.

    –…às três!

    Foi então um barulho de palmas, um berreiro atroador de vivas e
    gargalhadas! O Tomé vencera: corriam todos a abraçá-lo, afirmando que
    o caso era para foguetes.

    –Viva o Sr. Tomé! Viva o «Sultão»! Aquilo é que é burro!

    –Aquilo é que é amigo, hão-de vocês dizer!–emendava o Tomé a rir.
    Tenho-os com dois pés, que não valem metade…

    –Oh! Sr. Tomé! protestavam alguns.

    –Isto não é com vocês, mas é como quem se confessa… Está visto que
    não é com vocês.

    E ria, ria como um perdido, enquanto, estrada fora, o «Sultão» corria
    que voava, cauda no ar, corda de rastos, perdendo-se por fim lá ao
    fundo, na poeirada imensa da estrada, como que nimbado num resplendor
    de apoteose. E na peugada do burro, esbaforido e como doido, seguia
    agora o lavrador, após o fraternal abraço, pregado no dos Casais…

    Quando o Tomé chegou a casa, ofegante, a suar, cheio de gestos e de
    palavras entrecortadas de riso, já o «Sultão», relinchando, pateava à
    porta do antigo cortelho, numa grande impaciência, um «rap-rap»
    contínuo na soleira.

    –Venham ver! Venham cá ver! berrava o Tomé para a vizinhança. Ó
    António! Ó compadre! Ó Maria Engrácia!

    Às janelas assomava gente, perguntando se era fogo.

    –Qual fogo, nem qual carapuça! É o «Sultão», mas é! Este inimigo! Ó
    Josefa! Josefa! cá temos o burro, este demónio. Assoma.

    Ora imaginem agora os senhores, se podem, a efusão do lavrador.
    Abraços? E até beijos. Aquilo era um tesouro perdido que reaparecia
    alfim. A mulher, do alto da escada, benzia-se, perguntando se o seu
    homem teria endoidecido…

    –Palavra de rei, «Sultão», palavra de rei! Anda daí pelos sacos. São
    só dois. Ó Josefa! Ouves? p'ra cá esse garrafão que está ao pé da arca,
    avia-te. A caneca também, ouviste? Essa das riscas vermelhas, a maior.

    E atirando as mãos ambas para a albarda, montou muito regalado, de um
    pulo.

    –Ah!

    A senhora Josefa assomava, ajoujada com o enorme garrafão.

    –Anda, mulher, põe aqui diante de mim. Avia-te.

    Ia a boa da senhora Josefa arriscar uma observação, um conselho,
    qualquer coisa de tomo…

    –Adeus, minhas encomendas! Não me fanfes, mulher, não me fanfes. Põe
    aqui, que mando eu, avia-te. Assim. Está bem.

    –Nome do Padre…

    –Então que lhe queres? Deu-me agora p'r'aqui!

    –Nome do Padre, nome do Filho…

    –A caneca! Venha de lá agora a caneca!

    –…nome do Espírito Santo!

    –Passa bem, ó mulher,–concluiu às gargalhadas, entre as gargalhadas
    dos demais.–Ouves? Quando o Manuel vier dos ninhos, esse maroto,
    manda-mo às eiras. A trote, «Sultão»! Eh! valente!

    E lá parte, veloz como uma seta. Já de longe volta-se do repente:

    –Josefa! ó Josefa! nesse alguidar do meio umas sopas de vinho p'r'o
    «Sultão», ouviste? No do meio. O grande é muito grande, e esse pequeno
    não presta. Ouves? mas quer-se coisa que farte, bem entendido.

    E de novo despediu como uma flecha, abraçado ao garrafão. Arreata para a
    direita, arreata para a esquerda, pernas a dar a dar, ele lá vai numa
    corrida, sumido numa onda de poeira, até chegar às primeiras «medas».

    –Vinho, rapaziada! Ó Maria do Carmo, toma lá uma pinga, mulher! Lá por
    andarmos de mal há 15 anos isso acabou-se!

    E o Tomé atravessou a eira sempre a cavalo no «Sultão», caneca de
    vinho para a direita, caneca de vinho para a esquerda.

    * * * * *

    Meia hora depois regressava, o «Sultão» pela arreata, o Manuel no meio
    dos sacos, e adiante do Manuel o belo garrafão–sem pinga…

    Pelo caminho, a todos o Tomé contava a história, a rir como um perdido,
    num ah! ah! de gargalhadas sonoras, muito íntimas.

    –Colheita rica, sim senhores, um colheitão!

    E parando à porta, ainda a mulher se benzia do alto da escada, mexendo e
    remexendo o alguidar de barro:

    –Nome do Padre, do Filho, do Espírito Santo.

    …Ao mesmo tempo que o Tomé, abrindo os braços, respondia reclamando
    as sopas:

    –Ámen!

    ÚLTIMA DÁDIVA

    _Ao dr. A.A. da Fonseca Pinto_.

    Distante do rio apenas um tiro de bala ficava o horto do José Cosme,
    belo horto ainda que pequeno, todo mimoso de frutas e hortaliças,
    fechado entre velhas paredes musgosas, atufadas em silvedo, comunicando
    com a estrada por um pequeno portelo mal seguro. E eis ali quanto ao
    pobre homem restava dos seus antigos haveres:–o horto, a um canto a
    nora, e perto da nora, sob a umbela tufada e virente da antiga magnólia
    gigantesca, a mísera casinhola de alpendre, apenas com uma porta e duas
    janelitas laterais mas toda pitoresca das heras que a revestiam, que
    lhe pendiam dos beirais enlaçadas com as trepadeiras.

    De modo que na Primavera, quando as parasitas abriam serenamente os seus
    melindrosos cálices sobre esse fundo de verdura reluzente, e a magnólia
    toda se toucava de flores fazendo docel à vivenda, aquele pequeno canto
    de horto, com a sua nora e com a sua água espelhante e límpida, tomava a
    feição ingénua de uma delicadíssima tela de paisagista, aguarela
    deliciosa, alegre e idílica, cheia de encantos na poesia rústica da sua
    simplicidade.

    No Verão, às horas de calor, quando o sol caía a pino sobre a larga
    paisagem adormecida e turva, e as árvores da estrada não davam sombra
    que aliviasse, aquela tranquilidade com que o José Cosme ressonava sob
    o alpendre, braços nus e peito nu, o chapeirão de palha grossa
    resguardando-lhe a cara, fazia inveja aos que por ali passavam, cansados
    e cheios de poeira, flagelados por aquela estiagem inclemente.

    –Ó tio José!–gritavam-lhe do caminho.–Tio José! Ó regalado!

    Mas os que entendiam de lavoura, proprietários e maiorais, esses
    deixavam dormir o José Cosme e ficavam-se a admirar o horto.

    Ora na verdade!… Belo horto, sim senhores! Por aquelas redondezas
    não havia outro que se lhe comparasse, tão esmerada era a sua
    cultura–tão esmerada e tão completa, pois que de mais a mais nem palmo
    de terra ficara inculto. Nas leiras, dispostas com simetria agradável,
    verdejavam cheios de viço, frescos e medrados, legumes de todas as
    castas–desde a alface muito tenra, de folhas verde-claras, toda
    acaçapada no chão húmido das regas, até às trepadeiras das vagens que
    enroscadas ascendiam pela basta «rodriga» de castanho aparada com todo o
    esmero, formando maciços de verdura sombria que os casulos esguios dos
    feijões crivavam de alto a baixo. Árvores, apenas as precisas para
    aformosearem o horto, sem prejudicarem com a sombra a vegetação franca
    das hortaliças. Mas todas as que havia eram mimosas de frutas nas
    estações competentes–cerejas, peras, maçãs, pêssegos mesmo.

    Poucas flores: uma coisa que todos notavam com estranheza. Mas desde que
    lhe morrera a mulher mais a filha, o José Cosme deixara-se de as
    cultivar, e nos canteiros assim devolutos tinha semeado repolhos, que
    por sinal vinham enfezados. Só teve o cuidado de não deixar morrer os
    goivos. Uma vez por ano, em fins de Maio, colhia-os todos de uma vez, e
    ia levá-los em braçado à sepultura rasa das suas defuntas.

    Exactamente nessa tarde tinha ele ido ao cemitério fazer a fúnebre
    visita. Quando se recolheu era já noite. Mal acabou de cear levantou-se
    bruscamente da mesa e foi-se para o horto, com uma grande vontade de
    chorar. Estava nas suas horas tristes, nessas horas em que as energias
    todas da sua alma e até as do seu corpo vergavam sob o flagelo de uma
    dor violenta, exacerbada agora pela saudade dos que lhe tinham
    morrido… E para maior desgraça fugira-lhe o bem das lágrimas. De modo
    que sem esse lenitivo, aquelas medonhas tempestades custavam o dobro a
    suportar. Abstracto, numa espécie de entorpecimento idiota, percorria
    sem descanso todas as ruas do horto, cabisbaixo, acabrunhado, autómato.
    Se por vezes parava, recolhendo-se numa quietação atenta, logo um
    gesto brusco desmanchava a sua imobilidade de estátua, soltava um fundo
    gemido, e punha-se de novo a andar.

    –Vens ou não vens?–perguntava ele, evocando com dorido esforço a
    imagem da mulher ou da filha. Não vinha; e quando aparecia era como se
    fosse um relâmpago, apagava-se logo.

    Nesta lua com a sua dor as horas iam passando longas. Era já tarde,
    talvez a uma da noite. Luz, apenas a das estrelas, pois que o luar
    nascia tarde. Pesava sobre toda a paisagem o largo silêncio da noite,
    apenas cortado, ao longe, pela melopeia sonolenta do rio.

    Um rapaz que ia na estrada olhou por acaso para o horto do José Cosmo e
    viu um vulto perpassar de repente e de repente sumir-se num recanto
    onde a sombra era mais densa.

    –Temos história…–resmungou consigo o rapaz.

    E, rente a uma árvore, quedou-se alapardado, à espreita. Não desconfiou
    que fosse o José Cosme: aquilo era mariola de larápio que vinha por ali
    fazer das suas. Agachou-se então, e pôs-se a procurar uma pedra. Apanhou
    duas, para o caso de não acertar a primeira.

    –Cão do diabo!–exclamou baixo o rapaz, pondo-se em posição de jogar a
    pedra.–Espera que eu te arranjo…–E já ia arremessá-la na direcção do
    canto, quando o vulto saiu da sombra e tomou por um carreiro, direito ao
    lugar onde o rapaz estava.

    –Melhor! Mais a jeito ficas…

    E debruçando-se um pouco na parede, pôs-se a fixar o vulto que avançava,
    para ver se o conhecia. Quem quer que era trazia a jaqueta sobre os
    ombros, alvejavam-lhe as mangas da camisa. A meio do carreiro, mesmo
    defronte dele, parou. Foi então que o rapaz se lembrou do José Cosme.
    O vulto parecia, com efeito, ser o dele; lembrava-se agora de ter
    ouvido que o pobre homem, quando o ralavam saudades da mulher e da
    filha, levava noites em claro, a percorrer como doido aqueles carreiros
    por onde elas tinham andado.

    Quando ouviu soluçar, acabou então de se convencer. Insensivelmente,
    deixou cair as pedras e perguntou:

    –Tio José! Ó tio José! Sou eu, o Luís… Vossemecê que tem?

    O lavrador não respondeu, parece que nem tinha ouvido. O rapaz insistiu:

    –Dói-lhe alguma coisa, ó tio José?

    –Não dói, não. Sabes que mais? peço-te pelas alminhas que me deixes.
    Bem me bondam as minhas aflições. Vai com Deus, vai.

    O rapaz ficou surpreendido, triste do tom de súplica dorida que o José
    Cosme dera àquelas palavras, e retirou-se silencioso, quase aterrado
    agora com a ideia de que poderia ter matado o pobre homem, caso jogasse
    a pedrada.

    No entanto a noite ia avançando, grave, soturna, sem outro ruído que não
    fosse o das águas do rio. E o José Cosme, sem despegar do seu fadário,
    ia e vinha pelas ruas do horto, lembrando um autómato ou um sonâmbulo.
    Às vezes abeirava-se da porta de casa e punha-se a escutar. Como não
    sentia nada, voltava de novo ao seu passeio. Nisto, de uma vez que
    passava em frente do cancelo, pareceu-lhe ouvir passos.

    –Ó Tomás!

    –Sr. José!–respondeu o que entrava, numa voz que era mesmo voz de
    barqueiro.

    O Cosme sentiu então uma grande vontade de chorar, mas remordendo os
    beiços dominou-a. Como o barqueiro estranhasse encontrá-lo a pé, ele
    então redarguiu-lhe que nem se tinha deitado.

    –Como tinha de madrugar…

    –Pois são horas de largar, Sr. José; isto vai p'r'as duas. Não tarda
    que comece a amanhecer.–E como estavam à porta de casa:–Será bom
    acordar já o pequeno: veste, não veste, é tempo que se vai.–Iam à vela
    se o tempo não mudasse. Era bom aviar, por isso.

    Mas à ideia de ter de acordar o pequeno, o José Cosme deixou-se cair
    sobre o banco que estava debaixo do alpendre, e desatou a chorar
    violentamente.

    O barqueiro tentou animá-lo, constrangido.

    –Então, Sr. José?… O chorar é lá para as mulheres. Olhem agora que
    homem!–E tentava levantá-lo, pô-lo de pé.–Limpe lá essas lágrimas, que
    vai afligir o pequeno! Ou quer que ele vá a chorar todo o caminho?

    O Cosme fez que não com a cabeça, violentamente, e pôs-se a enxugar os
    olhos com a manga da camisa.

    –Pois então levante-se lá.–E segurou-o com força por baixo dos
    braços.–Assim! Lá porque o pequeno vai para o Brasil não fique
    vossemecê a pensar que o não torna a ver.

    Mas era isso mesmo o que ele pensava…

    –Porque não sei que me adivinha que não torno a ver o pequeno–concluiu
    a chorar o José Cosme.

    –Cismas! lembranças que vêm à gente quando está aflita. Mas há-de
    vê-lo que o não há-de conhecer, digo-lho eu. Mais ano menos ano,
    aparece-lhe aí rico…

    Rico! bem lhe importava a ele que o pequeno viesse rico. O que desejava
    era que voltasse e que ele ainda fosse vivo só para o abraçar.

    Pois sim, mas era preciso aviar, que tivesse paciência: o José Cosme que
    se animasse para animar o pequeno–recomendava o barqueiro.

    –Sim… sim…–tartamudeava o Cosme.–Vamos lá com Deus! Com'assimU+2026.

    E num profundo ai dolorosíssimo, foi-se direito à porta para chamar a
    pequeno. Não havia remédio, tinha nascido em má hora, havia de ser
    desgraçado até que o levassem para a cova… Sobre a estreita e humilde
    cama o filho dormia profundamente. Que dor, ter de o acordar! Vieram-lhe
    tentações de mandar embora o Tomás e deixar dormir a criança. Quem sabe
    se a sua sorte futura, se toda a sua vida, valeria a boa tranquilidade
    daquele sono! Não tinha coragem para o acordar, fazê-lo vestir: era
    quase um pecado quebrar aquele último sono dormido sob o tecto
    paterno… O último sono! o último sono!

    –Ainda se o deixássemos acordar…–aventurou-se a dizer o triste.

    Mas o Tomás que estava com pressa, lembrou secamente que eram horas de
    pôr o barco a andar.

    O José Cosme acendeu então a candeia, receoso de que a luz o
    acordasse, e achegando-se do filho pôs-se a escutar-lhe a respiração.
    Dormia!… Mas brandamente pousou-lhe a mão sobre a cabeça e chamou
    baixinho, quase ao ouvido, beijando-o, sobressaltado como se fosse
    praticar um grande crime:

    –Filho, olha que são horas, meu filho…

    Quando o pequeno se sentou na cama, estremunhado, ainda sob o
    estonteamento do sono, cerrando os olhos àquela hostilidade viva da
    luz, o pai agarrou-se a ele num abraço, e ambos romperam a chorar.

    –Adeus, pai!

    –Adeus, filho!

    Confrangido, o Tomás que se deixara ficar à porta, avançou para desatar
    aquele abraço.

    –Olhe que é tarde, Sr. José. Perdoe, mas olhe que é tarde!

    O pai vestiu o pequeno, beijou-o ainda muito, e saíram. Debaixo do
    alpendre, o Joaquinzito ficou-se um instante a olhar o tecto.

    –A andorinha, filho?–perguntou o José Cosme.–Deixa que eu hei-de
    olhar por ela, mais pelos filhos quando os tiver. Vai sossegado.

    Mas o pequeno quis vê-la, pediu ao pai que o erguesse, era só um
    instante. Lá estava ela, coitadinha! sentiu-a estremecer quando lhe
    tocou com as pontas dos dedos…

    –Adeus!–disse-lhe o pequeno afagando-a.

    A esta palavra, o pai retraiu os braços e tomando o filho no colo
    seguiu. Atrás, o barqueiro levava ao ombro a mísera arca de pinho: toda
    a bagagem do Joaquim.

    Ao transpor o cancelo o José Cosme deteve-se um pouco e perguntou
    soluçando:

    –Quando voltarás ao horto, meu filho?

    O pequeno não respondeu. Chorava constantemente de ver que o separavam
    de tudo o que adorava–a andorinha, depois da andorinha o horto, as
    árvores, a velha nora, o cancelo, tudo enfim.

    Atravessaram então a estrada e tomaram para a banda do rio. Quando o
    sentiram murmurar, aperraram mais o abraço, deram-se um longo beijo,
    húmido das lágrimas que ambos derramavam. Ah, como o triste pai desejava
    que o rio ficasse ainda longe, mui longe, que fugisse diante deles, de
    modo que nunca o alcançassem! Mas eis que a areia principiava,
    divisava-se já perto o vulto escuro do barco onde os da tripulação
    falavam alto.

    –Pronto?–perguntou ainda de longe o Tomás.

    Do barco responderam que era só marchar, de mais a mais ia romper a lua.

    Chegaram enfim. Num leve silêncio de acaso ouviam-se os soluços dos
    dois, parece que prolongados infinitamente, na sua expressão de
    angústia, pelo deslizar monótono das águas… Aquilo confrangia o
    barqueiro, ele também era pai… Por isso, mal chegaram à beira do rio,
    apressou-se a dizer para o pequeno:

    –Ora bem, Joaquinzinho, beija a mão a teu pai e dize-lhe adeus.

    Ouviu-se um chorar lancinante, a voz do pobre José Cosme a querer animar
    o filho:

    –Então, meu filho?… Deus te abençoe, meu amor… Nossa Senhora te
    veja ir.–E fez-lhe prometer que havia de rezar sempre a Nossa Senhora,
    ele também lhe rezaria, pois era ela quem dava saúde, quem fazia a
    gente feliz.

    –Não te esqueças dela mais da alminha de tua mãe e de tua irmã…

    Mas o pequeno chorava cada vez mais, agarrado ao pescoço do pai,
    beijando-o sofregamente, acarinhando-o, sem forças para dizer palavra.
    Então o José Cosme, perdida a esperança de animar o filho, só exclamava
    desvairado:

    –Valha-me Deus! O Senhor me valha pela sua infinita misericórdia!

    E o Joaquim sempre agarrado a ele, beijava-o na cara, na cabeça, nas
    mãos. Até que o Tomás teve de intervir, era preciso despegar dali por
    uma vez.

    –Com'assim, Sr. José, isto tem de ser…–E segurando o pequeno com
    força puxou-o para ele. Quando já o tinha nos braços, ouviu-se o José
    Cosme que suplicava de mãos postas:

    –Só um instante, só um quase-nadinha, Tomás!–E o pobre pai caía de
    joelhos na areia, numa atitude de súplica.

    Mas nesse momento, o barqueiro saltou de um pulo para o barco, levando
    ao colo a criança.

    –Rema!–intimou em voz rápida.

    O barco recuou então subitamente, ao mesmo tempo que os remos fizeram
    _plhau_! sobre a água.

    Então o choro do José Cosme tornou-se de uma violência desesperada, ao
    ouvir a voz lacrimosa do pequeno dizendo-lhe adeus lá do barco.

    –Adeus, Joaquim, adeus!

    –Adeus, pai!

    –Adeus!

    Mas repentinamente, com voz resoluta e firme, o José Cosme gritou na
    direcção do barco:

    –Tomás! ó Tomás! por alma de teu pai faz lá alto um instante.

    Acabou-se! custara-lhe tomar aquela resolução, mas já agora era melhor
    ficar sozinho de todo. E segurando nos dentes um pequeno objecto,
    arremessou a jaqueta ao areal e de um lance deitou-se a nado. O Tomás
    que ouvira o mergulho do corpo, fez recuar o barco; mas o José Cosme,
    velho nadador destemido, com meia dúzia de braçadas ganhou-lhe de
    pronto a quilha. O filho tinha-se debruçado, na ânsia de esperar o pai,
    de o ver ainda outra vez. Num movimento rápido, o José Cosme entregou
    ao pequeno o que levava entre os dentes, dizendo-lhe a chorar:

    –É a medalha, Joaquim; é a medalhinha de tua mãe, meu filho!…
    Reza-lhe, sim?!

    E chorando cada vez mais, o pobre José Cosme pediu ao barqueiro que lhe
    chegasse o pequeno para o último beijo…

    Dado o último beijo, o barco pôs-se de novo em marcha. Vinha a romper a
    lua, enorme, torva, afogueada, como se viesse de algum banho de sangue
    em região misteriosa de lágrimas… E no silêncio agoireiro da noite,
    apenas cortado pelo bater monótono dos remos e pelo bracejar desalentado
    do triste nadador, à voz do filho que chamava respondia cada vez de mais
    longe–longe como se fora do Infinito! a voz lacrimosa do pai–com o seu
    fúnebre _adeus_! que ele bem sabia ser eterno…

    * * * * *

    …Só quando o eco do último adeus do Joaquim, perdido na distância,
    diluído no luar que surgia, desfeito no lugente murmúrio das águas,
    fundido no derradeiro suspiro da brisa matinal, deixou de chegar à
    praia, é que o pobre abandonou o areal e se foi, sempre a chorar,
    tiritando ao frio da sua desgraça, como a um vento agudíssimo do Pólo,
    na direcção do horto silencioso…

    COMÉDIA DA PROVÍNCIA

    _A Alberto Braga_.

    I

    PRELÚDIOS DE FESTA

    Esse ano, a festa da senhora das Dores devia ser coisa de estalo. A
    começar pelo juiz, todos os da mesa eram de respeito–abonados e
    decididos. Tanto assim, que o fogo preso, que afinal era o melhor da
    festa, vinha lá de Chaves, longe que nem seiscentos diabos. Mas era obra
    de jeito, acabou-se! Tinha-se dito ao homem que trouxesse coisa que
    representasse uma cegonha. O homem respondera que sim, e dava mesmo a
    entender que traria mais animalejos, uma bicharada, talvez um macaco, se
    tivesse tempo de o acabar.

    –Homem de uma cana! resumiu o juiz quando acabou de ler a carta. E
    correu a espalhar a notícia, orgulhoso de que «no seu ano» a _coisa_
    fosse de arromba! Depois, era um despique. No ano atrás, o José da
    Loja, que tinha sido o juiz, gabara-se do seu fogo, só porque vinha lá
    uma peça que era um castelo a dar tiros, assim: Fff! Pum!

    –Ora deixa estar que eu te arranjo… murmurou com os seus botões o
    António Fagote. E sorria satisfeito, de se lembrar que na noite do
    arraial todo o povo o havia de aclamar, dar-lhe vivas pelo fogo que
    apresentara. Espalhou-se a novidade. Uma hora depois, na vila, ninguém
    falava noutra coisa.

    –Então você já sabe?

    –Já sei. A cegonha.

    –A cegonha e o mais: um cavalo, um bezerro…

    –O que eu quero ver é o camelo. Feio bicho, já viu?

    –Pintado. No Monteverde se me não engano. Logo adiante do _Valente Rei
    Arauto Fiel_.

    Enganava-se.

    O escrivão da Câmara, que tinha laracha, encontrou-se na rua com o Alves
    aferidor.

    –Até que enfim, amigo Alves. Até que enfim vou ter o gosto de o ver
    arder.

    O outro não percebeu. «Que se explicasse…»

    –Um urso, no arraial queima-se um urso.

    –Então ardemos ambos, redarguiu embezerrado o Alves.–Também se lá
    queima um burro.

    Às duas por três, o António Fagote viu a casa cheia de gente. Quem não
    ia, mandava recado: todos queriam saber se vinha o animalejo da sua
    predilecção.

    O homem começava a azedar-se. Chegou mesmo a mandar fechar a porta, por
    dentro.

    –Põe a tranca, se for preciso.

    Mas então era cá da rua:

    –Ó Sr. António!

    E na porta as pancadas ferviam:

    –Truz! truz! truz! Sr. António!

    –Éna! c'um raio de diabos!–fazia lá de dentro o homem, furioso.

    –O senhor faz favor? É só uma palavrinha.

    À janela assomava então o António Fagote, com os óculos na ponta do
    nariz e a carta do foguetório na mão.

    –O camelo? perguntava zangado.–O urso?! Camelos me parecem vocês,
    ouviram? O que o homem diz é isto.

    E lia a carta, rematando:

    –Uma cegonha, outros animalejos, quem sabe lá o que serão, e talvez o
    macaco, se houver tempo de o acabar. E agora, sabem que mais?… Tirava
    os óculos e ia-se embora, capaz de os trincar a todos.–Irra!

    E lá de si para si pensava que era melhor ter guardado segredo. Não
    fosse ele burro… Mesmo porque cada um começou logo a inventar
    animais, e todos é que não podiam vir. Claro! E não vindo todos, aí
    tínhamos nós descontentes. E havendo descontentes, quem lucrava era o
    José da Loja.

    –Temos o caldo entornado! pensava aflito o Fagote, amedrontado com
    aquele espectro do José da Loja, o seu rival! De mais a mais, já lhe
    tinha chegado aos ouvidos que o outro agoirava mal do negócio…

    –Farófias! tinha dito o José da Loja. Farófias!

    –Pois se mo diz na cara, arrebento-o! vociferava o Fagote, quando tal
    soube.

    E arrebentava, que o Fagote era homem para isso, tinha pulso. Desde
    rapaz que uma lenda de valentia se fizera na sua vida: contavam-se
    proezas, desde uma vez que varrera uma feira, por causa de eleições.
    Depois, bom olho para a caçadeira. Duma ocasião, que foi preciso dar
    montaria aos ladrões, portou-se como um leão, foi ele que deu voz de
    preso ao chefe da quadrilha. E como foi que lha deu? A frase ficou
    lendária:

    –Como-te a alma se te mexes!

    –E o outro não se mexeu, que ele comia-lhe a alma! comentavam
    convictos.

    Como esta, muitas outras. E foi talvez por estas proezas que a sua
    figura adquiriu para a velhice o jeito desempenado que tinha. Estava com
    60 anos e a sua atitude viril impressionava ainda agora. Não era
    nutrido, mas era sanguíneo, tez morena, cara rapada, olhos pequenos, uma
    largura de ombros que era o principal indício de força. Pescoço curto.
    Mesmo a brincar, quando cerrava os punhos e arremetia com força,
    conhecia-se-lhe a rijeza dos músculos naquele movimento sacudido.

    –Safa! que isso aí é de ferro! diziam os rapazes. Duma cana, hein?

    Mas bom homem, de uma grande franqueza de modos, simples e afável. Para
    se sair era preciso picá-lo. E uma vez, quando era juiz ordinário, uma
    testemunha tanto o picou em audiência, que ele desceu lá da cadeira,
    foi-se a ela e quebrou-lhe a cara. Por isso falava sério quando
    prometia arrebentar o José da Loja. A mulher interveio pacificadora:

    «Que não desse ouvidos a ditos. Deixasse o homem, que não era tão mau
    como o pintavam.»

    –Ó mulher! cala a caixa e não me defendas esse velhaco! redarguiu o
    Fagote. Do que ele é capaz sei eu.

    Mas nesta ocasião, de todas as velhacarias do José da Loja, só lhe
    lembrava uma: ter sido juiz o ano atrás!

    Isto parecia-lhe com efeito uma velhacaria, feita a ele que era juiz
    este ano.

    –Pois tu que pensas? dizia ele para a mulher. Quem me meteu a festa
    em casa foi ele. Ele é que se lembrou de me escolher, como quem diz:
    «entrego-te a vara, sempre quero ver como te arranjas…»

    –Nome do Padre, do Filho… A mulher benzia-se «das ideias do seu
    António.»

    –Sejam ideias, que não sejam! teimou o Fagote. Isto foi tal e qual,
    assim me Deus salve!

    –Mas quem to disse, homem? Quem foi que to disse?

    –Quem mo disse? Olha! E mostrou-lhe o dedo mínimo da mão direita.–Foi
    este mindinho. Não falha.

    E então desabafou: «que não pensasse o José da Loja, que o havia de
    levar à parede. Agora levava! A festa há-de se fazer, e festa de
    arromba; _nanja_ como a dele que só levava seis anjos, e não sei
    quantos andores, acho que meia dúzia!»

    –Ó mulher, então é para que saibas onde chega o brio de um homem!
    Caramba! Sendo preciso, ouves? sendo preciso até vendia a camisa do
    corpo. Nem trinta sanfonas como o sanfona do José da Loja! E espipava
    olhos de cólera para a mulher que remendava uns sacos, compungida de
    ver assim o seu António.

    E pôs-se então a renovar ordens, recomendações que a mulher já estava
    farta de ouvir. «Mas com tempo é que as coisas se pensavam, não era ao
    atar das sangrias!»

    –Leitões se os cá não houver, manda-se o Miguel à cata deles por
    esses povos à roda. Querem-se de 7 semanas, três pelo menos.

    A mulher contraveio:–«dois seriam bastantes…»

    –Mau que aí principiamos nós!–E pôs-se a assobiar e a rufar com o pé
    no soalho, arreliado.–Três é que hão-de ser. Não quero cá dois, porque
    dois eram os do _outro_, o ano passado.

    A esta razão, a mulher calou-se. O António Fagote gostou do silêncio da
    mulher, que o lisonjeava nos seus despeitos contra o _outro_.

    –Agora não fanfas tu… insistiu ele, risonho. É assim mesmo que eu
    gosto. Sinal é que tens vergonha. A _outra_ tamém não é mais que a ti.

    A _outra_ era a mulher do José da Loja, está visto.

    –Nem mais, nem tanto, emendou a Luísa Fagote, abespinhada.

    –Isso mesmo! abundou o juiz da festa. Não me lembrava agora que antes
    de casarem…

    –E olha que depois de casada… insinuou a Sr.^a Luísa, de venta no ar,
    enfiando a agulha. Cala-te boca.

    Façamos de conta que a boca se calou, com efeito. Que não se calou.
    Mas neste particular, o resto do diálogo convém que se omita, mesmo
    porque afinal nem eu nem os senhores queremos mal à mulher do José da
    Loja. Há-de perdoar-me o António Fagote, mas nisto não lhe faço a
    vontade. O pudor acima de tudo! E ademais ele bem sabe que eu sou
    conhecido da mulher. Adiante. Basta que lhes diga que por uma associação
    lógica de ideias a conversa veio parar em vitelas…

    –É preciso vermos como há-de ser isso da vitela, disse o António
    Fagote. Sem vitela é que se não faz nada. Uma perna sempre se gasta.

    Combinaram falar com tempo ao Manuel Cortador, segurar esse negócio. De
    mais a mais sabia-se que o pregador dava o cavaco por um bom pedaço de
    vitela assada.

    –O pregador é que arrasta aí muita gente, observou a Sr.^a Luísa. Para
    um bocado de sentimento não há como ele. Quando foi das missões, o que
    ele dizia daquele púlpito abaixo! É quanto se pode!

    –A mim o devem, se cá vem!–disse orgulhoso o Fagote. Que o homem não
    queria vir, desculpava-se com a saúde: que tinha de ir a umas caldas, e
    14 léguas a cavalo por estas canículas eram de acabar com ele.

    –Isso desaba aí o poder do mundo! Em se sabendo que é o missionário…

    Estavam nisto, quando bateram à porta. O Fagote foi ver à janela.

    –Bem, muito obrigado. E a senhora mestra? Estimo, estimo.

    Era a criada da mestra régia, foram abrir.

    –A senhora mestra manda muitos recadinhos, saber como está a Sr.^a
    Luísa, e este bilhetinho para o Sr. António.

    Entraram todos na saleta. Como era já tarde, o António Fagote foi
    acender uma luz.

    «Que conversassem, enquanto ele via se tinha resposta.»

    –Muito calor, começou a Sr.^a Luísa.

    –E então a casa da Sr.^a mestra que é mesmo um forno, disse por demais
    a criada.

    E antes que a conversa pegasse, avisou a Sr.^a Luísa, ao ouvido, de que
    lhe queria uma palavrinha.

    Foram para uma varanda que havia nas traseiras. A tarde descaía, numa
    serenidade calma. Sentaram-se uma junto da outra, muito familiares.

    –Está-se aqui bem! exclamou consolada a Sr.^a Luísa.

    –Está. E então bonitas vistas. Mas o que eu queria dizer era pedir-lhe
    um favor, disse atrapalhada a criada.

    –Se estiver na minha mão…

    A outra começou: «A Sr.^a Luísa estava ao facto do que se dizia dela
    com o criado do inglês. Decerto estava ao facto. Mas era mentira.
    Jurava-lhe pelo que havia de mais sagrado que era redonda
    mentira.»–Estamos para casar! é o que estamos! «Ele já mandara vir os
    papéis lá da terra, não podiam tardar».–Está claro que eu tenho
    afeição ao rapaz…

    –Ele esteve aí doente uma temporada, interveio a Sr.^a Luísa, para
    dizer alguma coisa.

    –Esteve. Umas quartãs que o iam arrebanhando. Mas é aí que eu quero
    chegar.

    –Que experimente o limão azedo, aconselhou a Sr.^a Luísa. É milagroso
    nas quartãs. Não se aflija, que isso não há-de ser nada.–E
    dispunha-se a consolar a rapariga, a dizer-lhe tudo o que sabia de bom
    para matar quartãs, pensando que era o que ela queria, afinal.

    –Não senhora. O rapaz está melhor. Caso é que não recaia. Mas é por via
    disso que eu lhe quero pedir um favor.

    Chegou para ela o banco de cortiça e confidenciou:

    –Já o andam a desinquietar para ir com os mais furtar a bandeira,
    qualquer noite. E ele vai, prometeu que sim. Mas veja, naquele
    estado! inda não há nada que saiu da cama.

    –Pelos modos, os rapazes vão este ano longe pelo pau, disse com pompa
    a Sr.^a Luísa.–Muito longe!

    –Ouvi que à Ribeira Velha, ao lameiro do Canelas. E logo com quem
    eles se vão meter, o Canelas! Se desconfia, vai-se para lá de clavina
    e faz alguma desgraça. Mais ele, que é atrevido!

    Cautelosa, a mulher do juiz redarguiu que lá onde eles iam pelo pau é
    que ela não sabia.

    –A outra noite é que para aí estiveram a combinar, o meu António mais
    os mordomos. Não ouvi.

    –Pois é lá! exclamou a criada. Mas o que eu queria, Sr.^a Luísa, é que
    o seu marido me não deixasse ir o rapaz na malta,–suplicou aflita a
    rapariga.

    –Lá isso, esteja descansada, não vai! prometeu com grande autoridade
    a Sr.^a Luísa.–Digo-lhe eu que não vai. E se não quer mais nada…

    –Era só isto, muito agradecida à senhora.

    Nesse momento entrava o Fagote, em mangas de camisa, os óculos para a
    testa.

    –Ora pois então aqui vai a resposta. Má letra, a Sr.^a mestra que
    desculpe. Mas enfim que leia como puder.

    –Então muita maçada co'a festa? inquiriu solícita a rapariga.

    –Muita. Faz lá ideia? Maçada e despesa. Olhe que se faz despesa. Todos
    os dias são precisas coisas, mais isto, mais aquilo. Aí está que já
    hoje mandei pedir para o Porto uma palheta para o clarinete do Alves.

    –Chh! fez admirada a rapariga.

    –Pois é verdade. Fora o mais! fora o mais! Nicas! E depois de uma
    pausa:–Só com o que se gasta no jantar, e é verdade que há muita coisa
    de casa, mas só com o que se gasta no jantar, a bem dizer que se fazia
    uma horta, além no prado.

    –Muita gente… disse a rapariga.

    –Muita! e depois de certa aquela… À mesa talvez vinte e quatro
    pessoas…

    A rapariga benzeu-se!

    –Vinte e quatro, p'ra mais que não p'ra menos, insistiu o António
    Fagote.–Olhe: o pregador…

    –Isso dizem que é coisa asseada! interrompeu a rapariga.

    –É. Não o há melhor. Missionário…–explicou o juiz. Pois o pregador,
    um; com mais quatro padres, cinco; com quatro músicos, nove; o compadre,
    os pequenos, dois, doze.

    –A comadre não vem! que pena! fez do lado a Sr.^a Luísa.

    –Não. O compadre e os pequenos já disse. Doze. O Morgado da Fonte e o
    António Capador, catorze. O Teles, é verdade, Teles escrivão, quinze.
    (_Pausa_). Com mais alguém que venha, vinte e quatro. Pode-se contar com
    mais de vinte e quatro pessoas à mesa.–E a rir-se: Mas há-de sobrar
    muita coisa, graças a Deus… E depois os pobres?

    –Isso então é uma praga! exclamou a Sr.^a Luísa. Até parece que vêm do
    chão assim… E colocava em pinha os dedos todos das mãos ambas.
    Assim…

    Mas fazia-se tarde, a rapariga despediu-se.–«Adeusinho! o que havia de
    estimar é que tudo corresse como desejavam.»–E se for preciso qualquer
    coisa… ofereceu-se. As minhas fracas posses…

    –Obrigada. Não faltarão ocasiões. Muitos recadinhos à senhora
    mestra…

    –E que hei-de estimar que o mano chegue de saúde, concluiu o António
    Fagote.

    E então explicou à mulher: «Aquele bilhete da mestra era a mandar-lhe
    perguntar se sempre era certo vir o macaco de fogo».

    –Diz que o irmão, o brasileiro, assim que souber que há macaco de fogo
    no arraial, não tem mão em si que não venha. E Deus o queira, porque o
    ponho ao pálio. Como três e dois serem cinco.

    A senhora Luísa quis saber a resposta que lhe mandara.

    –Disse-lhe que sim. Pois?! O que eu quero cá é o brasileiro. Sempre é
    homem que sabe dar o merecimento às coisas… Mas o diabo agora é o
    macaco! ponderou muito apreensivo. Está para aí meio mundo à espera
    do macaco…

    A senhora Luísa quedou-se pensativa, absorta no seu receio de que o
    bicho não viesse.

    –Tate! fez o António Fagote, batendo uma palmada rija na testa.–Dá cá
    daí a minha véstia. Manda-se uma «parte» ao homem.

    –Também pode ser, concordou a senhora Luísa. Mas hoje é que não,
    aquilo já está fechado, o fio.

    –Vai amanhã. «Agradeço favores. Traga macaco sem falta». Isto. Talvez
    acrescente: «Não se olha a dinheiro». Mas é que acrescento, por via
    das dúvidas.

    Então, a senhora Luísa confidenciou quase ao ouvido do homem:

    –Ouves? já se não pode ir ao lameiro do Canelas pelo pau.

    –Hã? qual pau?

    –O da bandeira. Todo o mundo já o sabe.

    Ele riu-se.

    –Todo o mundo, hein? Melhor! Oh! oh! todo o mundo!…

    E como ela ficasse estupefacta.

    –Nunca ouviste dizer que se põe o ramo numa porta e que se vende o
    vinho noutra?

    –Ah!…

    –Mas são verdes. Pois aí é que vai a história, e cantarolou,
    satisfeito:

    O ladrão do negro melro
    Onde foi fazer o ninho

    * * * * *

    Mas o melhor do caso foi no dia seguinte, quando logo de manhãzinha o
    António Fagote sentiu bater à porta, de rijo.

    –Vai lá ver o que será, ó Luísa!–disse da cama o Fagote sobressaltado.

    Não tardou nada que o José Manco lhe entrasse de rompante pelo quarto.

    –Vista-se, homem! Ande daí depressa! Vista-se.

    –Há novidade? perguntou logo o Fagote, sobressaltado.

    –Vista-se! com dez milhões de diabos! Insistiu o outro.

    –Hom'essa! fez espantado o Fagote. Alguém à morte?

    –Pior do que isso! resumiu o José Manco.

    –Pior do que isso, então não sei…

    –Não tardará que o saiba. Avie-se, que eu cá o espero na rua.

    O António Fagote vestiu-se à toa, aparvalhado. Foi já na rua que acabou
    de enfiar a jaqueta. As correias dos sapatos iam de rastos, não levava
    chapéu.

    –Pronto! cá estou!

    –Venha comigo, avie-se. Abotoe as calças, se faz favor.

    E rodaram rua acima.

    –Diabo! mas então…? ia perguntando o Fagote.

    –Aguarde, que já vai saber. Não tarda.

    De quatro escanchadas foram dar ao adro da igreja.

    –Roubaram Nosso Pai, aposto?!

    –Pior! redarguiu o outro. Pior! Alto aí! Ora arregale-me esses olhos
    e veja vossemecê isto, esta porcaria!

    E tragicamente, o José Manco apontou para meia folha de papel, pregada
    na torre com miolo de pão centeio mastigado. Era um pasquim! Vários
    desenhos de animais, sobressaindo um burro de grandes orelhas, aos
    coices. E no fundo, em grandes caracteres, isto:–_Farófia_!

    Por um pouco, António Fagote, de mãos atrás das costas, amarasmou-se,
    com os olhos fitos no papel.

    E quando o outro pensava que ele ia romper desaustinadamente numa
    escamação, aos lábios do António Fagote aflorou apenas um sorriso.

    –Hum! resmungou. Bem sei…

    –Não tem que saber,–fez o outro.

    –O patife do José da Loja…

    –Pois está visto.

    –Bem, levará quatro lambadas, epilogou com grande sossego o
    Fagote.–Arranque lá isso, e venha você daí, se quer ver.

    O José Manco não queria ver, fazia ideia. Mas opinou prudentemente que
    era melhor botar o patife ao desprezo.

    –Pois sim, disse o António Fagote, dobrando em quatro o papel e
    metendo-o na algibeira de dentro.–Pois sim!

    Mas o outro que o conhecia, insistiu no pedido, com certos argumentos
    arrancados do código penal. «Que não fosse agora pagar por bom
    semelhante estafermo. Como mordomo, também era com ele a ofensa, com
    ele José Manco. Mas fazia de conta… Como o outro que diz, vozes de
    burro não chegam ao céu».

    –Bem, levará só uma lambada, atendendo a que mais ninguém viu isto,
    disse num grande ar de condescendência o Fagote.–E você vá lá regar a
    horta.

    Foi-se dali direito à casa do José da Loja. Estava ainda fechada.
    Pôs-se à coca, de longe, com a ira muito exulcerada pela arrelia
    daquela demora.

    –Grande cão! grande cão! monologava.

    Até que enfim reparou que a porta se abria. Era o rendeiro em pessoa, de
    casaco de lona e chinelos de trança, muito fresco. Não deu pelo António
    Fagote senão quando se viu ao pé dele, cara a cara entre o balcão e a
    porta.

    –Ó Sr. José.

    –Dirá.

    –Venho aqui saber de um caso.

    Tirou do bolso o papel, desdobrou-o, devagar, e depois de lho pôr ao pé
    da cara:

    –Foi o Sr. José que fez isto?

    O outro olhou-o, atónito.

    –Sim! se foi o Sr. José que fez isto?

    –Nada, eu não senhor.

    –Jura pela boa sorte dos seus filhos?

    Aqui, o tendeiro entupiu, desconfiado.

    –Jura pela boa sorte dos seus filhos? repetiu mais de rijo o Fagote.

    O José da Loja, moita! Então o juiz explicou-lhe:

    –É porque se jura, muito bem. Se não jura o caso é outro.

    –É outro, que outro?!–disse arrogante o José da Loja, num ímpeto,
    barriga panda sob o casacório de lona.

    –Isto!–E foi-lhe uma bofetada para a cara.–E muito caladinho, que eu
    também não digo nada. Agora o papel, olhe! Fê-lo em pedaços, e
    atirou-lhe com eles à cara aparvalhada.

    Saiu dali e foi _matar o bicho_, tranquilamente, como quem vem de
    cumprir uma obra de misericórdia.

    * * * * *

    Na véspera da festa, um sábado às 10 horas da manhã, o fogueteiro
    passava enfim num deslado da vila direito à capela da Senhora das
    Dores. Largou um foguete, que estrondeou no ar, galhardamente.

    –O fogueteiro! chegou o fogueteiro!

    Por toda a vila passou um longo frémito de entusiasmo quando se ouviu o
    foguete. Desabituados, os cães ladravam, em correria doida pelas ruas.
    O rapazio levantou-se em algazarra, e correu ao encontro do fogueteiro,
    a admirá-lo, a oferecer-se. Na labuta viva das casas renovavam-se
    ordens já dadas. Aquele foguete era a bem dizer o primeiro ruído da
    festa, não havia tempo a perder. De casa dos mordomos saíam esbaforidas
    as criadas, com ordem de se informarem do que precisaria «o Sr.
    fogueteiro». Alguns mais previdentes mandaram almoço, e que dissesse o
    que queria para o jantar.

    Solenemente, o juiz da festa atravessou quase a correr a vila,
    perguntando a todo o mundo se o que estoirara tinha sido efectivamente
    um foguete.

    –Foi foguete! pois que dúvida! diziam-lhe radiantes. Prometia, sim
    senhor! prometia! Se fossem todos assim… Caramba! que estoiro! Pum!

    –P'ra que saibam! clamava o António Fagote. E então isto? e punha-se a
    girar de volta com o braço–o que é fogo do chão?–Mas tinha-se visto em
    calças pardas para que o homem não faltasse. Complicações! Pelos modos
    tinham-no convidado para outra festa, com mais bagalhoça, está claro. O
    caso tinha estado sério!

    Mentia.

    –Hein? mas não o enganavam?

    –Qual! era o fogueteiro sem tirar nem pôr. Lá ia ele a atravessar as
    eiras, com duas bestas carregadas. Caramba! duas cargas de fogo!

    O juiz botou a fugir. Quando passou pela porta do abade, gritou cá da
    rua:

    –Senhor abade! ó senhor abade!

    –Que é lá?

    –Chegue à janela, faz favor?

    –Mas está muito sol, entre você, se quer.

    –Só duas palavras:

    O abade, um rapaz novo, assomou à janela.

    –Que é?

    –Chegou o homem!

    –O homem! que homem?

    –O fogueteiro, quem há-de ser?

    –Ah, sim, disse o abade a rir-se, velhaco. E você vai ter com ele?

    –De cara.

    –Faz-me então um favor?

    –Dirá.

    –Dê-lhe recados meus.

    E retirou-se da janela, a rir, enquanto o António Fagote prosseguia no
    seu caminho, esbaforido, espalhafatoso, perguntando a toda a gente se
    aquilo tinha sido o fogueteiro.

    –Grande homem! com seiscentos diabos!

    Quando chegou ao adro estava tudo cheio de rapazes, em redor dos dois
    machos carregados. O Fagote cuidou morrer de contente. Foi-se ao
    fogueteiro, com fúria.

    –Esses ossos! e abraçou-o arrebatado, enternecido, chamando-lhe «seu
    amigo, seu grande amigo».

    –Rapazes! gritou ele então. E tirou o chapéu da cabeça, muito
    solene.–Viva o senhor fogueteiro!

    –Viva!

    …Isso não juro, porque não reparei. Mas estou em dizer aos senhores
    que o António Fagote–chorou!…

    II

    TIPOS DA TERRA

    Desembocaram num largo. Era o ponto mais central da terra,–«_a
    praça_.»–Aqui e ali, ao acaso, algumas árvores enfezadas, quase tudo
    olmos brancos, vegetavam a medo, com os troncos protegidos por velhas
    grades de madeira, desmanteladas. Era um terreiro vasto, muito chato,
    com casas em volta,–o que na vila havia de melhor em construções.
    Ficava ao meio o pelourinho, exótico, mutilado, de uma pedra grosseira e
    muito negra. Era uma alta coluna de oito faces, com o seu anel de
    ferro ao meio, e uma argola pendente do anel. A coluna, que se eleva
    sobre um pedestal de três degraus, em hexágono, terminava ao alto num
    grande _X_ de pedra deitado horizontalmente. Um espigão de ferro, de
    três gumes como os floretes de esgrima, irrompia hostilmente do meio do
    _X_, perfurando o espaço. Em volta, a casaria era triste, sem estilo,
    sem gosto, sem cal. Algumas _pedras de armas_ em velhas paredes
    decrépitas, desequilibradas, hidrópicas, atestavam aristocracias
    remotas, agora de todo extintas. Ao alto, dominando a negrura
    chamuscada dos telhados, o velho castelo, romano de origem, fazia
    tristeza com as suas ameias derrocadas, e as grossas paredes em ruínas.
    Ao lado do castelo erguia-se destacadamente a velha torre do relógio,
    de uma arquitectura primitiva. Tinham dado onze horas, mas eram apenas as
    sete: aquele–«_estafermo_»–é que não andava nunca direito. De dia
    ninguém o entendia, com o seu ponteiro de ferro girando num mostrador
    sem letras, de uma pedra azulada. De noite fartava-se de badalar,
    alvoroçando a povoação como se fosse a fogo, ora atrasado ora adiantado,
    dando meia-noite quando eram quatro da tarde, e meio-dia mal despontava
    o sol.

    Eram as sete. Àquela hora é que os–«_figuros_»–da terra, quase tudo
    empregados públicos, vinham para o largo, à fresca. Alguns
    passeavam,–seu fraque, sua bengala de cana com castão, chapelinho à
    banda, sapato branco um ou outro. Nas escadas do pelourinho, sentados,
    outros do mesmo feitio cavaqueavam,–coletes desabotoados, perna
    cruzada, chapéu para a nuca, às três pancadas. Um de pêra comprida, no
    degrau superior, contava facécias. Os outros riam alarvemente,
    chamavam-lhe intrujão. Algumas–«_madamas_»–pelas janelas em volta,
    nostálgicas, anafadas, de claro. À porta do estanco, em cima, havia
    outra roda,–uns de pé, outros sentados em caixas, alguns montando
    cadeiras de pinho. Era a–_roda mais forte_,–quase tudo maiores
    burocratas:–o Melo da Administração, o Antunes da Câmara, o Escrivão
    de Fazenda, o Rodrigues do Real de Água. E outros. À porta, perfilado e
    muito cerimonioso, o dono do estanco, alto, esguio, flexível, com a sua
    cara rapada e o seu chinó castanho, eriçado e velho. Era de maneiras
    feminis, uma falinha melíflua, cantante, viva, muito desempenado
    quando andava, saracoteando-se todo, em biquinhos de pés como se fosse
    levantar voo. Chamavam-lhe Ernestinho. Não se podia falar diante dele
    num rato morto, numa carocha. Aquilo «fazia-lhe nervoso», enojava-o,
    ficava-se a cuspinhar meia hora, dizendo constantemente:

    –Ai Jesus! ai Jesus! Caticha! Nossa Senhora do Carmo! Nem sei como não
    lanço fora.»

    E se riam, ele exasperava-se: não compreendia como pudessem falar em
    tais coisas… De resto, bom sujeito, finório para o seu negócio,–um
    poucochinho beato,–diziam-lhe.

    –Meu proveito. Não que eu não quero a minha alma nas penas do inferno,
    a arder. Leiam a _Missão Abreviada_, leiam esse rico livro.

    E as palavras saíam-lhe a correr, espremidas nos seus lábios delgados,
    um poucochinho sibiladas nos _ss_.

    –Cigarros, Ernestinho, um vintém deles. Querem-se dos de Lima,
    desses fortes.

    Declarou que também havia dos «especiais.» Algum senhor queria? Tinham
    chegado três maços, p'ra ver. Oito por um vintém.

    –Pois guarde-os!–disseram alguns, horrorizados com a ideia de dar um
    vintém por oito cigarros.–Guarde-os!

    «O senhor engenheiro, quando vinha à vila, perguntava-lhe sempre por
    eles. Dos de Lima nem o cheiro, não gostava.»

    –Olha o figurão!–disseram a rir. Por esse mundo fora sempre há muito
    idiota! forte cavalgadura!

    O Ernestinho veio com os cigarros, em feixe nas pontinhas dos dedos. À
    porta, antes de os entregar contou-os de novo. Doze. Estavam certos.

    –O senhor Ernesto, se faz favor, ponha isto lá no caderno, ao pé dos
    outros.

    Ernestinho foi para dentro, contrafeito, fazer o apontamento. Houve um
    silêncio oprimido, o dos cigarros tossiu para o quebrar, ao mesmo tempo
    que num gesto acanhado, receoso, fazia menção de oferecer:–«alguém
    era servido?»

    Dentro do balcão, ao pé das garrafas com licor, e das botijas de
    genebra, Ernestinho somava a conta. Era já taluda.–«E vão dois e dois
    quatro e dois seis, seiscentos e vinte! Sabe Deus quando os
    receberia!»–E suspirava, arrumando os maços encetados, sob o olhar
    tranquilo e indiferente do Santo Antoninho que lá estava em cima, ao
    alto das estantes quase vazias, no seu nicho feito de um caixote forrado
    a verde, com flores artificiais muito sujas e duas velinhas dos lados.
    Mas resignava-se, que não tinha outro remédio. Eram os ossos do
    ofício…

    Cá fora tinham dado fé, acotovelavam-se chamando asno ao
    Ernestinho,–um pulha a quem ajudavam a viver… Se hoje não há
    dinheiro, há-o amanhã, essa é boa! E pagava-se, c'os diabos! E
    pagava-se. Mas não senhor! aquela besta mostrava sempre má cara, o
    alarve! A culpa tinham-na eles, afinal que o procuravam, que o
    preferiam. Tomaram os outros ter aquela freguesia…

    O dos cigarros fiados anuía, assobiando baixo o _Água leva o
    regadinho_. Por fim levantou-se, lentamente, com um ar de enfado, um
    sorrisinho de despeito nos lábios, encolhendo os ombros.

    –Estender as pernas,–disse. Quem vem daí?

    Todos ficavam, era uma estopada andar p'ra trás p'ra diante, naquela
    sensaboria da praça.

    –Até logo. Você aparece no _sítio_, à noite?

    –Apareço, vou à desforra.

    E cumprimentando em roda:

    –Meus caros! Muito boa tarde, Sr. Ernesto.

    Foi-se, puxando para baixo as pernas da calça, alisando as joelheiras.

    –Que tal está o asno, hein? Quer, ainda por cima, que o Ernestinho lhe
    diga _bem-haja_…

    Era um parvo.–Era um tolo.–Tinha dívidas nos outros estancos.–Em toda
    a parte.–Lá em casa a família passava fomes.–Um batoteiro de marca.

    Houve agitação, alguns puseram-se de pé, outros mudaram de lugares. Ia a
    passar um grande carro de palha chiando muito. Ernestinho chegava-se de
    novo, muito ronceiro, roendo as unhas.

    –Com que então… _ponha lá ao pé dos outros_?–disseram-lhe, para o
    lisonjear nos seus despeitos.–Bem bom freguês!

    Ele encolheu os ombros e cerrou os olhos, beatificamente, num gesto
    de mártir resignado. E não disse palavra–p'ra falar daquele tinha de
    falar também deles…

    Mandaram vir limonadas,–três limonadas!

    –Aí vão trinta réis!

    Diabo! era preciso animar aquilo. Assim não tinha jeito. E puseram-se a
    falar do tempo, das moscas, daqueles idiotas que andavam na praça a
    dar-se ares. Ensoberbecia-os a ideia de que iam tomar três limonadas,–e
    sentiam-se felizes, alegres, um tanto estroinas.

    O Ernestinho deu dois passos fora da porta, e chamou para a varanda,
    onde grandes manjericões floriam:

    –Ó Emília! Emilinha!

    A mulher assomou, gorducha, muito mole.

    –Três limonadas, ouves? Três limonadinhas, depressa.

    As conversas animavam-se. Pois senhores! havia de ser difícil encontrar
    uma colecção de asnos assim. Falavam dos que passeavam na praça, aos
    grupos.–Deus os faz, Deus os ajunta. O palerma do Fernandinho dera-lhe
    agora para cantar. Lá andava ele. Volta meia volta,

    _Vai alta a lua na mansão da morte_

    com umas tremuras na voz, que eram mesmo de o esbofetear. Estava
    antipático, aborrecido, desde que andava de namoro com a Marques. Só
    tinha uma coisa boa–a caligrafia.–Um talhe de letra
    bonito,–confessavam.–E as calças, hein? reparem vocês naquelas
    calças, vai flamante. Casualmente, Fernandinho olhou de longe para os
    do estanco, disse-lhes _adeus_ com a mão, afável. Corresponderam todos,
    muito risonhos, mas a chamar-lhe nomes por entre os dentes:–idiota,
    palerma, pechisbeque…

    Sozinho, numa lentidão moribunda, olhos nas botas, olhos no céu, o
    Teles escrivão passava ao largo, ruminando alguma poesia. Às vezes
    quedava-se extático, suspenso, o polegar esquerdo entre os dentes, um
    olho cerrado fortemente, a meditar. Vinha um gesto e punha-se de novo em
    marcha, contrafeito.

    –Ó senhores! mas não me dirão em que anda a parafusar o Teles, aquele
    telhudo? E isto:–e pôs-se a imitar o escrivão.

    Riram. O Melo imitava-o bem, o alma do diabo, no andar especialmente.
    Mas aquilo era um logogrifo. Há uma semana às turras a um logogrifo
    em acróstico.

    –Isso é o Teles!–fez um que vinha da praça.–Aquilo é um intrujão.
    Na rua não é que se adivinham logogrifos. Ó Ernestinho, você ainda tem
    daquilo que _ferve_?

    O Ernestinho deixou descair o lábio, não percebia…

    –Homem! daquilo que vinha numas garrafórias escuras, compridotas…

    –Quer dizer gasosas. Uma rolha segura com guitas…

    –Ora é isso mesmo, nem mais.

    –Bem sei.

    Mas não tinha já. Nem mesmo queria mais, p'ra quê? Achavam caro um
    tostão…

    –Eram aos três para beber uma garrafa…

    –Pudera! Por um pataco, trinta réis levando o açúcar, fazia o _Ervas_
    uma soda,–objectaram alguns. Ponha lá que em gosto é a mesma coisa.

    –E aquela porcaria, ó Ernestinho, e aquela porcaria amarela que
    sujava tudo de escuma?

    Alguns cuspiram, disseram ao Alves que se calasse, que vomitavam, com
    seiscentos diabos!

    –Cerveja!–disse o Ernestinho–cerveja! uma coisa que lá p'ra baixo
    toda a gente bebe por gosto, as senhoras mesmo.

    E com um sorriso de desdém, exclamou:

    –O que é ser do calcanhar do mundo! Em nome do Padre, e do Filho…

    Mas na praça um grupo altercava. Ouviu-se distintamente a
    palavra–«_pulha_»–pronunciada com força. Saíram em tropel, ficaram só
    três.–O que pagava as limonadas exultou:–Homem! nem de propósito!
    Ficava exactamente quem ele queria, estava mesmo a ver que aquela
    súcia lhe chupava o refresco:

    –Tó Ruça! já lá vai esse tempo.

    Precisamente, a senhora Emília chegava, com os copos numa bandeja:–Que
    provassem, diriam se precisava mais açúcar. Mas parecia-lhe que devia
    estar bom…

    Beberam de um trago, estava óptima. A senhora Emília tinha dedo para
    aquelas coisas.

    –Obrigado, ó Melo!

    –Obrigado, ó menino!

    E os dois saíram de rompante, chamando _pato_ ao Melo, rindo-se dele
    e limpando os beiços.

    Quando o Melo ia sair,–a ver o que ia na praça,–o Ernestinho, muito
    cortês, objectou-lhe que faltavam trinta réis:–Se ali não tinha,
    depois. Isso era o mesmo…

    –Mas trinta réis?!… De que são os trinta réis?–perguntou desconfiado
    o Melo.

    –Do açúcar, foi do refinado,–explicou o Ernestinho. O mascavado
    acabou-se. Amanhã ou depois já devo ter mais. O senhor Melo desculpe.

    Não tinha que desculpar; somente notava que aquelas coisas diziam-se no
    princípio.–E saiu sem dar mais palavra, furioso:–Uma ladroeira! Três
    vinténs não valiam os dois que lhe tinham chupado o refresco…

    Na praça tinha cessado a altercação, os grupos, reunidos, formavam uma
    grande roda, comentava-se. O Melo quis informar-se:–que lhe
    contassem–«_o escândalo_».

    Ora! não fora nada: o Veiga que se tinha lembrado que as
    correspondências na _Voz do Distrito_ eram escritas pelo Albano.
    Disse-lho na cara. O Albano negou, deu a palavra de honra. O Veiga que
    é casmurro, teimou:–que não acreditava, ainda assim!–Vai o outro
    chama-lhe pulha, iam-se pegando. Ora aí está!

    –Mas afinal, quem diabo escreve aquilo?–quis saber o Melo. Aquilo
    há-de ser escrito por alguém, está claro.

    Dez réis pela novidade! Que havia de ser escrito por alguém sabiam
    eles…

    –Quem, então?

    Divergiam as opiniões. Podia ser Fulano, podia ser Beltrano. Um ou outro
    dava a sua palavra de honra que também não era ele, jurava-o. Houve um
    que se lembrou se aquilo seria do padre Mendonça.

    –Qual! Do padre Mendonça não é. Fazia coisa melhor, se se metesse
    nisso. Olha o padre Mendonça, o da _gibreira_ de Braga…

    Mas o da ideia insistiu, renitente:–havia ali suas coisas que o faziam
    lembrar, certas facécias, como a de chamar _Frei Asneira_ ao Reitor e
    _Cabeça de Comarca_ ao Felisberto.

    –Pois se é ele, que se regale, pode limpar as mãos à parede. Mente
    como um alarve, mente da primeira linha até à última!–disse firmemente
    o verdadeiro autor das correspondências. Olhem o que ele diz do juiz
    de direito, só calúnias! O juiz! um homem teso! Tem lá o seu fraco
    pelas saias, mas isso, que diabo! isso não é defeito.

    De resto, eram todos acordes em que as correspondências eram uma
    infâmia. O que se chama uma infâmia pegada. Mexericos e mais nada, uma
    coisa de soalheiro. E depois, o dizer-se lá que entre os rapazes não
    havia duas amizades leais, que era tudo uma impostura…

    Houve um silêncio significativo, talvez de aprovação.

    –Só de pulha!–rematou, por fim o Nunes da Fazenda, o tal que escrevia
    as correspondências com o pseudónimo de _Aramis_. Vejam vocês aquelas
    galegadas ao comendador. Aquilo chama-se lá fazer política?!
    Discuta-se o homem como presidente da Câmara, sim senhor, discuta-se o
    homem público, o funcionário; mas deixe-se-lhe em paz a _marreca_, os
    fundilhos das calças; ninguém quer saber se os criados lhe param em casa
    ou se não. E depois, aquelas alusões à família, aquelas piadas à D.
    Engrácia, pobre velha…

    –A quem?–interrogaram uns poucos. À Dona quê?

    –À D. Engrácia, está bem de ver. Aquela beata que fazia peúgas de lã
    aos missionários é ela. Presumo eu que é ela–fazia o Nunes das
    correspondências com um grande ar de suposição. Eu cá foi para onde
    deitei.

    Os outros não. E como o das correspondências tinha prometido explorar a
    crónica beata, aguardariam mais informações. Supunham, no entanto, ser
    com a D. Joana, a do–«_chá de erva-cidreira_.»–Outra canalhice! A D.
    Joana, para festejar os anos da filha, convidara tudo, _lazarões e
    penicheiros_, não fizera política. Depois foi aquela tareia que se
    viu:–que o chá era erva-cidreira, que tinham bolor os doces de ovos,
    que ela parecia a Quaresma e a filha o Entrudo. Ora isto não se diz, a
    pobre mulher doeu-se. Citavam-se de cor frases inteiras da
    correspondência. Por exemplo:–_A deusa da festa dizem que recebeu
    telegramas de… amor_.–Uma facécia de mau gosto aludindo ao Proença
    telegrafista. Depois do que por aí se diz, é forte… Que afinal, quem
    sabe lá? Entre os dois que diabo pode haver? Namoro?

    No grupo alguns tossiram forte, rindo. O Nunes interveio:

    –Não senhores! Isto agora alto lá. A Amélia é uma rapariga séria…

    Riram às gargalhadas, foi um barulho com a tosse.

    –Quando digo uma rapariga séria… Mau! Acomodem-se lá com o _banzé_,
    vocês deixem falar,–tornou o Nunes, formalizado. Quando digo uma
    rapariga séria, quero dizer… sim… quero dizer…–e procurava a
    frase, entalado,–por exemplo, que ela não é capaz de receber ninguém,
    alta noite, lá pelos quintais, como o tal das correspondências quer
    fazer suspeitar.

    Iam replicar-lhe, mas ele atalhou:

    –Chama-se àquilo ser canalha às direitas, arre! Isto agora é falar
    franco.

    Saltaram-lhe:

    –E você jura, ó Nunes? você jura?–perguntou, com gesto perfurante, o
    Alves dos Pesos e Medidas.

    Não… isso agora…Jurar, não jurava, mas, c'os diabos! pelo que se
    via, pelo que se podia julgar…

    –Léria!–disseram todos.

    O Nunes parece que estava com os beiços com que mamara. Com que então,
    para ele era tudo uma récua de _santas_? Desenganasse-se, que era tudo
    uma canalha, uma corja de sonsas. Que diabo de ingenuidade!

    O Nunes observou modesto, quase agradecido:

    –Ingenuidade, eu te digo… Não é bem isso… O que sou é prudente.
    Desconto sempre noventa por cento àquilo que vocês dizem, aí é que
    está…

    –Vocês é um modo de falar,–emendaram alguns.

    –Vocês, digo eu, vocês… quando escrevem correspondências,–explicou
    sofisticamente o Nunes.

    Calaram-se, disfarçaram. Próximo deles, a Amélia toda de verde, com
    guarnições de fita preta, caminhava ao lado da mãe, solenemente.
    Tiraram todos o chapéu, cortejando risonhos, respeitosos. O Nunes foi
    cumprimentá-las, submisso.

    –Dar o seu passeio, não é verdade?–E apertando-lhes a
    mão:–Vosselência como passou? A senhora D. Amélia? Obrigadíssimo.
    Assim… assim…

    Então? que diziam àquele calor?

    –Abafava-se, ali pelas duas. Que forno!

    –O Brasil tal e qual–reforçou o Nunes.

    Mas que fora feito, que as não tornara a ver desde os anos? Uma noite
    de truz, aquilo sim!

    –Olhe, senhora D. Amélia, a flauta… a flauta é que nem por isso, foi
    pena! O Abelzito andava constipado.

    A D. Amélia explicou. A mãe ficara doente, já não era para aquelas
    noitadas.–E em voz mais baixa, quase dolente:

    –Depois, veio a _Voz do Distrito_, aquilo chocou-a muito.

    –Não há tal!–fez a mãe. Meteu-se-te isso na cabeça. Deixe-a falar,
    senhor Nunes.

    E por pouco que não chorava ao dizer isto.

    O Nunes afectou um sentimento profundo:–Era melhor não falar nisso,
    não pensar em tal; todos as conheciam, todos lhes faziam justiça. Tinham
    acabado de falar na tal correspondência, agora mesmo. Uma
    garotada!–resumiu o Nunes.–E em tom confidencial:

    –Anda-se na pista do garoto. Ele há-de aparecer. E depois… e
    depois… Muito boa tarde, minhas senhoras! O que for soará. É preciso
    dar um exemplo,–concluiu terminantemente. Uma severa lição!

    Despediram-se, elas agradeceram ao Nunes–«a parte que tomava no seu
    desgosto.»–E seguiram cumprimentando para as janelas, perguntando se
    vinham daí, um bocadinho até à capela, espairecer.

    As Silvas pediram que subissem. Um bocadinho só. Ficava muito bem
    aquele vestido à Amélia.

    Não podiam subir, talvez à volta.

    –Pois sim, hás-de ver o meu bordado a missanga. O papagaio está quase
    pronto, que trabalhão!

    Estava na dúvida se lhe poria o bico assim, de gancho. Não gostava. O
    risco era do Fernandinho. Já lhes fizera outro, talvez mais bonito.
    Coisas de anjinhos:

    –Verás.

    Os grupos tinham-se reunido em volta do Pelourinho. Passava gente que
    vinha do trabalho, da labuta áspera da eira,–homens com malhos, e
    mulheres de cestas à cabeça. A tarde descaía numa serenidade calma. No
    degrau de cima, o Paula, oficial da administração, com fama de tipo de
    chalaça, cantava em surdina umas cantigas de caserna, obscenas,
    zaranzando na barriga como se fosse uma guitarra. De volta, os outros
    formavam roda. Todos riam, pediam _bis_.

    –Tu hás-de conhecer isto, ó Chico,–dizia o Paula para o Francisco
    Maria, um cabo que estava de licença. Tu hás-de conhecer isto.

    O administrador do concelho, um pobre diabo desmazeladão e filósofo,
    afirmava que lhe lembrava Coimbra, a pândega das vielas. Ao Paula
    valia-lhe a prenda, palavra de honra que lhe valia a prenda, senão já o
    tinha demitido, às vezes que lhe entrava borracho pela repartição. E
    pedia a rir, boçalmente:

    –Ó Paula, aquela do _bate-bate_, canta lá.

    E trauteava as primeiras notas, castanholando com os dedos.–Se era
    preciso, o Fernandinho ia pelo violão.

    –É verdade, você que fez hoje que não me apareceu na repartição, ó
    Fernando?

    –Dormi, está claro. Ao senhor doutor acontece-lhe o mesmo às vezes.
    Olhem que pergunta!

    Mas o Paula tinha-se calado, bocejava.

    –Então, ó Paula…–suplicava o administrador.

    –Está fechado o realejo… Depois.

    Quem lhe dera que fossem as nove para irem até ao «sítio». Ou perder ou
    ganhar; tinha ali seis tostões que eram para um _mico_.

    –Mas eu não lhe dizia, Sr. doutor? eu não lhe dizia ontem que a _dama_
    se negava? Eu estava mesmo a ver aquilo… Bem feito! «gramou» um
    entalão que se consolou.

    –Quatro coroas.–Na véspera tinha ganho um quartinho.

    Nesse momento passava o juiz, sozinho como sempre. Todos tiraram o
    chapéu, ele passou gravemente, cortejando.

    –Quem eu te quero à perna é o _Aramis_…–rosnou o Teles escrivão que
    embirrava com o juiz desde que o suspendera uma vez.–E ainda ele não
    sabe tudo…–insinuava perfidamente.

    –Pois o resto diga-lho você, diga-lho no _Almanaque de Lembranças_, em
    verso–fez de um lado o Rodrigues do Real dU+2019.água.

    O Teles, com famas de literato, redarguiu que não dava confiança a
    analfabetos.

    –E eu a brutos, sabe você?

    Mau! que eles lá começavam. Oficiais do mesmo ofício… Ó senhores,
    lá porque ambos faziam versos não se seguia que devessem embirrar um com
    o outro. Pelo contrário.

    O Teles, furioso, disse que não embirrava com o outro, que nem lhe dava
    essa importância, essa honra.

    O Rodrigues ia saltar-lhe, tiveram mão nele. Mas jurou que doutra vez
    seria, que fizesse de conta que já lá tinha na cara quatro bofetadas
    tesas.

    –Tesas, hein? olá! quatro bofetadas tesas.

    Havia de dar-lhas, tão certo como dois e dois serem quatro, só para ter
    o gosto de dizer depois, num comunicado, que desafrontara as letras
    portuguesas,–ele, o Rodrigues, ele, um simples fiscal do Real dU+2019.Água.

    Aquilo fez surpresa, convidaram-no a explicar-se.

    –Não senhores! dizia colérico o Rodrigues, com grandes gestos.–Bem sei
    que não valho nada. Escrevi, é verdade que escrevi; faço ainda o meu
    verso quando me dá na cabeça. Uma rapaziada! Estão maus? Concordo. Mas
    não há de ser aquele _négalhé_ que o há-de dizer. Não o julgo
    habilitado. Lá porque tem soletrado dois romances, não se segue. Mas o
    que mando para público sim, o que entrego aos prelos–é meu!–E batia no
    peito com a larga mão espalmada, furioso, numas raivas, de orgulho
    triunfante.–Não roubo! nunca roubarei!–afirmou mais alto o
    Rodrigues, para que o Teles que se ia retirando, no meio de dois
    amigos, conciliadores, o ouvisse.–Repito: não roubo, não faço como
    ele!–E as palavras saíam-lhe salivadas, violentas, por entre os
    lábios espumantes, atiradas ao Teles como pedradas.

    Os outros escutavam agora com interesse. Estavam a dar razão ao
    Rodrigues, instintivamente, sem compreender bem o que ele queria
    dizer.

    –As provas…–e meteu a mão no bolso do seu casaco de lona, com
    ímpeto:–as provas, vê-las aqui estão!

    Mostrou no ar a brochura verde do _Almanaque de Lembranças_.–Era do ano
    que vem, tinha-lhe chegado hoje. Ali estava o Peres do correio que lho
    tinha entregado ele mesmo.

    –Sou testemunha–confirmou do lado não sei quem.

    O Rodrigues, então, afirmou que era preciso historiar, contaria a coisa
    em duas palavras. O Sr. Teles, o borra-botas do Sr. Teles, lembrara-se
    um dia de ser escritor, de ser poeta. O alarve! Todos os anos–zás!
    versalhada para o _Lembranças_…

    –Era colaborador–disse o Antunes da Câmara que admirava o talento de
    Teles.–Era colaborador.

    –Era quê?–interrogou logo o Rodrigues, de mão atrás da
    orelha.–Maçador, maçador é que ele era. Nunca lhe admitiram as
    asneiras, se me faz favor, nunca! Na _correspondência_ troçavam-no,
    chegaram a dizer-lhe que podia fazer fortuna pelas tombas, que o não
    chamava Deus para as letras. Aquele _Serei ousado_? é ele, sei que é
    ele. Nunca o admitiram.

    –Lembro-lhe a _Flor do Campo_, Sr. Rodrigues, lembro-lhe esses
    versos–insistiu o Antunes.

  • Os Lusíadas

    Os Lusíadas

    Aproximadamente 56.628 palavras.

    Luís Vaz de Camões
    Os Lusíadas

    Canto Primeiro

    1
    As armas e os barões assinalados,
    Que da ocidental praia Lusitana,
    Por mares nunca de antes navegados,
    Passaram ainda além da Taprobana,
    Em perigos e guerras esforçados,
    Mais do que prometia a força humana,
    E entre gente remota edificaram
    Novo Reino, que tanto sublimaram;

    2
    E também as memórias gloriosas
    Daqueles Reis, que foram dilatando
    A Fé, o Império, e as terras viciosas
    De África e de Ásia andaram devastando;
    E aqueles, que por obras valerosas
    Se vão da lei da morte libertando;
    Cantando espalharei por toda parte,
    Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

    3
    Cessem do sábio Grego e do Troiano
    As navegações grandes que fizeram;
    Cale-se de Alexandro e de Trajano
    A fama das vitórias que tiveram;
    Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
    A quem Neptuno e Marte obedeceram:
    Cesse tudo o que a Musa antígua canta,
    Que outro valor mais alto se alevanta.

    4
    E vós, Tágides minhas, pois criado
    Tendes em mim um novo engenho ardente,
    Se sempre em verso humilde celebrado
    Foi de mim vosso rio alegremente,
    Dai-me agora um som alto e sublimado,
    Um estilo grandíloquo e corrente,
    Porque de vossas águas, Febo ordene
    Que não tenham inveja às de Hipoerene.

    5
    Dai-me uma fúria grande e sonorosa,
    E não de agreste avena ou frauta ruda,
    Mas de tuba canora e belicosa,
    Que o peito acende e a cor ao gesto muda;
    Dai-me igual canto aos feitos da famosa
    Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;
    Que se espalhe e se cante no universo,
    Se tão sublime preço cabe em verso.

    6
    E vós, ó bem nascida segurança
    Da Lusitana antígua liberdade,
    E não menos certíssima esperança
    De aumento da pequena Cristandade;
    Vós, ó novo temor da Maura lança,
    Maravilha fatal da nossa idade,
    Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,
    Para do mundo a Deus dar parte grande;

    7
    Vós, tenro e novo ramo florescente
    De uma árvore de Cristo mais amada
    Que nenhuma nascida no Ocidente,
    Cesárea ou Cristianíssima chamada;
    (Vede-o no vosso escudo, que presente
    Vos amostra a vitória já passada,
    Na qual vos deu por armas, e deixou
    As que Ele para si na Cruz tomou)

    8
    Vós, poderoso Rei, cujo alto Império
    O Sol, logo em nascendo, vê primeiro;
    Vê-o também no meio do Hemisfério,
    E quando desce o deixa derradeiro;
    Vós, que esperamos jugo e vitupério
    Do torpe Ismaelita cavaleiro,
    Do Turco oriental, e do Gentio,
    Que inda bebe o licor do santo rio;

    9
    Inclinai por um pouco a majestade,
    Que nesse tenro gesto vos contemplo,
    Que já se mostra qual na inteira idade,
    Quando subindo ireis ao eterno templo;
    Os olhos da real benignidade
    Ponde no chão: vereis um novo exemplo
    De amor dos pátrios feitos valerosos,
    Em versos divulgado numerosos.

    10
    Vereis amor da pátria, não movido
    De prémio vil, mas alto e quase eterno:
    Que não é prémio vil ser conhecido
    Por um pregão do ninho meu paterno.
    Ouvi: vereis o nome engrandecido
    Daqueles de quem sois senhor superno,
    E julgareis qual é mais excelente,
    Se ser do mundo Rei, se de til gente.

    11
    Ouvi, que não vereis com vãs façanhas,
    Fantásticas, fingidas, mentirosas,
    Louvar os vossos, como nas estranhas
    Musas, de engrandecer-se desejosas:
    As verdadeiras vossas são tamanhas,
    Que excedem as sonhadas, fabulosas;
    Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro,
    E Orlando, inda que fora verdadeiro,

    12
    Por estes vos darei um Nuno fero,
    Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço,
    Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero
    A cítara para eles só cobiço.
    Pois pelos doze Pares dar-vos quero
    Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço;
    Dou-vos também aquele ilustre Gama,
    Que para si de Eneias toma a fama.

    13
    Pois se a troco de Carlos, Rei de França,
    Ou de César, quereis igual memória,
    Vede o primeiro Afonso, cuja lança
    Escura faz qualquer estranha glória;
    E aquele que a seu Reino a segurança
    Deixou com a grande e próspera vitória;
    Outro Joane, invicto cavaleiro,
    O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro.

    14
    Nem deixarão meus versos esquecidos
    Aqueles que nos Reinos lá da Aurora
    Fizeram, só por armas tão subidos,
    Vossa bandeira sempre vencedora:
    Um Pacheco fortíssimo, e os temidos
    Almeidas, por quem sempre o Tejo chora;
    Albuquerque terríbil, Castro forte,
    E outros em quem poder não teve a morte.

    15
    E enquanto eu estes canto, e a vós não posso,
    Sublime Rei, que não me atrevo a tanto,
    Tomai as rédeas vós do Reino vosso:
    Dareis matéria a nunca ouvido canto.
    Comecem a sentir o peso grosso
    (Que pelo mundo todo faça espanto)
    De exércitos e feitos singulares,
    De África as terras, e do Oriente os marços,

    16
    Em vós os olhos tem o Mouro frio,
    Em quem vê seu exício afigurado;
    Só com vos ver o bárbaro Gentio
    Mostra o pescoço ao jugo já inclinado;
    Tethys todo o cerúleo senhorio
    Tem para vós por dote aparelhado;
    Que afeiçoada ao gesto belo e tenro,
    Deseja de comprar-vos para genro.

    17
    Em vós se vêm da olímpica morada
    Dos dois avós as almas cá famosas,
    Uma na paz angélica dourada,
    Outra pelas batalhas sanguinosas;
    Em vós esperam ver-se renovada
    Sua memória e obras valerosas;
    E lá vos tem lugar, no fim da idade,
    No templo da suprema Eternidade.

    18
    Mas enquanto este tempo passa lento
    De regerdes os povos, que o desejam,
    Dai vós favor ao novo atrevimento,
    Para que estes meus versos vossos sejam;
    E vereis ir cortando o salso argento
    Os vossos Argonautas, por que vejam
    Que são vistos de vós no mar irado,
    E costumai-vos já a ser invocado.

    19
    Já no largo Oceano navegavam,
    As inquietas ondas apartando;
    Os ventos brandamente respiravam,
    Das naus as velas côncavas inchando;
    Da branca escuma os mares se mostravam
    Cobertos, onde as proas vão cortando
    As marítimas águas consagradas,
    Que do gado de Próteo são cortadas

    20
    Quando os Deuses no Olimpo luminoso,
    Onde o governo está da humana gente,
    Se ajuntam em concílio glorioso
    Sobre as cousas futuras do Oriente.
    Pisando o cristalino Céu formoso,
    Vêm pela Via-Láctea juntamente,
    Convocados da parte do Tonante,
    Pelo neto gentil do velho Atlante.

    21
    Deixam dos sete Céus o regimento,
    Que do poder mais alto lhe foi dado,
    Alto poder, que só co'o pensamento
    Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado.
    Ali se acharam juntos num momento
    Os que habitam o Arcturo congelado,
    E os que o Austro tem, e as partes onde
    A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde.

    22
    Estava o Padre ali sublime e dino,
    Que vibra os feros raios de Vulcano,
    Num assento de estrelas cristalino,
    Com gesto alto, severo e soberano.
    Do rosto respirava um ar divino,
    Que divino tornara um corpo humano;
    Com uma coroa e ceptro rutilante,
    De outra pedra mais clara que diamante.

    23
    Em luzentes assentos, marchetados
    De ouro e de perlas, mais abaixo estavam
    Os outros Deuses todos assentados,
    Como a razão e a ordem concertavam:
    Precedem os antíguos mais honrados;
    Mais abaixo os menores se assentavam;
    Quando Júpiter alto, assim dizendo,
    C'um tom de voz começa, grave e horrendo:

    24
    "Eternos moradores do luzente
    Estelífero pólo, e claro assento,
    Se do grande valor da forte gente
    De Luso não perdeis o pensamento,
    Deveis de ter sabido claramente,
    Como é dos fados grandes certo intento,
    Que por ela se esqueçam os humanos
    De Assírios, Persas, Gregos e Romanos.

    25
    "Já lhe foi (bem o vistes) concedido
    C'um poder tão singelo e tão pequeno,
    Tomar ao Mouro forte e guarnecido
    Toda a terra, que rega o Tejo ameno:
    Pois contra o Castelhano tão temido,
    Sempre alcançou favor do Céu sereno.
    Assim que sempre, enfim, com fama e glória,
    Teve os troféus pendentes da vitória.

    26
    "Deixo, Deuses, atrás a fama antiga,
    Que coa gente de Rómulo alcançaram,
    Quando com Viriato, na inimiga
    Guerra romana tanto se afamaram;
    Também deixo a memória, que os obriga
    A grande nome, quando alevantaram
    Um por seu capitão, que peregrino
    Fingiu na cerva espírito divino.

    27
    "Agora vedes bem que, cometendo
    O duvidoso mar num lenho leve,
    Por vias nunca usadas, não temendo
    De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve:
    Que havendo tanto já que as partes vendo
    Onde o dia é comprido e onde breve,
    Inclinam seu propósito e porfia
    A ver os berços onde nasce o dia.

    28
    "Prometido lhe está do Fado eterno,
    Cuja alta Lei não pode ser quebrada,
    Que tenham longos tempos o governo
    Do mar, que vê do Sol a roxa entrada.
    Nas águas têm passado o duro inverno;
    A gente vem perdida e trabalhada;
    Já parece bem feito que lhe seja
    Mostrada a nova terra, que deseja.

    29
    "E porque, como vistes, têm passados
    Na viagem tão ásperos perigos,
    Tantos climas e céus experimentados,
    Tanto furor de ventos inimigos,
    Que sejam, determino, agasalhados
    Nesta costa africana, como amigos.
    E tendo guarnecida a lassa frota,
    Tornarão a seguir sua longa rota."

    30
    Estas palavras Júpiter dizia,
    Quando os Deuses por ordem respondendo,
    Na sentença um do outro diferia,
    Razões diversas dando e recebendo.
    O padre Baco ali não consentia
    No que Júpiter disse, conhecendo
    Que esquecerão seus feitos no Oriente,
    Se lá passar a Lusitana gente.

    31
    Ouvido tinha aos Fados que viria
    Uma gente fortíssima de Espanha
    Pelo mar alto, a qual sujeitaria
    Da índia tudo quanto Dóris banha,
    E com novas vitórias venceria
    A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha.
    Altamente lhe dói perder a glória,
    De que Nisa celebra inda a memória.

    32
    Vê que já teve o Indo sojugado,
    E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso,
    Por vencedor da Índia ser cantado
    De quantos bebem a água de Parnaso.
    Teme agora que seja sepultado
    Seu tão célebre nome em negro vaso
    D'água do esquecimento, se lá chegam
    Os fortes Portugueses, que navegam.

    33
    Sustentava contra ele Vénus bela,
    Afeiçoada à gente Lusitana,
    Por quantas qualidades via nela
    Da antiga tão amada sua Romana;
    Nos fortes corações, na grande estrela,
    Que mostraram na terra Tingitana,
    E na língua, na qual quando imagina,
    Com pouca corrupção crê que é a Latina.

    34
    Estas causas moviam Citereia,
    E mais, porque das Parcas claro entende
    Que há de ser celebrada a clara Deia,
    Onde a gente belígera se estende.
    Assim que, um pela infâmia, que arreceia,
    E o outro pelas honras, que pretende,
    Debatem, e na porfia permanecem;
    A qualquer seus amigos favorecem.

    35
    Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura
    De silvestre arvoredo abastecida,
    Rompendo os ramos vão da mata escura,
    Com ímpeto e braveza desmedida;
    Brama toda a montanha, o som murmura,
    Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida:
    Tal andava o tumulto levantado,
    Entre os Deuses, no Olimpo consagrado.

    36
    Mas Marte, que da Deusa sustentava
    Entre todos as partes em porfia,
    Ou porque o amor antigo o obrigava,
    Ou porque a gente forte o merecia,
    De entre os Deuses em pé se levantava:
    Merencório no gesto parecia;
    O forte escudo ao colo pendurado
    Deitando para trás, medonho e irado,

    37
    A viseira do elmo de diamante
    Alevantando um pouco, mui seguro,
    Por dar seu parecer, se pôs diante
    De Júpiter, armado, forte e duro:
    E dando uma pancada penetrante,
    Com o conto do bastão no sólio puro,
    O Céu tremeu, e Apolo, de torvado,
    Um pouco a luz perdeu, como enfiado.

    38
    E disse assim: "Ó Padre, a cujo império
    Tudo aquilo obedece, que criaste,
    Se esta gente, que busca outro hemisfério,
    Cuja valia, e obras tanto amaste,
    Não queres que padeçam vitupério,
    Como há já tanto tempo que ordenaste,
    Não onças mais, pois és juiz direito,
    Razões de quem parece que é suspeito.

    39
    "Que, se aqui a razão se não mostrasse
    Vencida do temor demasiado,
    Bem fora que aqui Baco os sustentasse,
    Pois que de Luso vem, seu tão privado;
    Mas esta tenção sua agora passe,
    Porque enfim vem de estâmago danado;
    Que nunca tirará alheia inveja
    O bem, que outrem merece, e o Céu deseja.

    40
    "E tu, Padre de grande fortaleza,
    Da determinação, que tens tomada,
    Não tornes por detrás, pois é fraqueza
    Desistir-se da cousa começada.
    Mercúrio, pois excede em ligeireza
    Ao vento leve, e à seta bem talhada,
    Lhe vá mostrar a terra, onde se informe
    Da índia, e onde a gente se reforme."

    41
    Como isto disse, o Padre poderoso,
    A cabeça inclinando, consentiu
    No que disse Mavorte valeroso,
    E néctar sobre todos esparziu.
    Pelo caminho Lácteo glorioso
    Logo cada um dos Deuses se partiu,
    Fazendo seus reais acatamentos,
    Para os determinados aposentos.

    42
    Enquanto isto se passa na formosa
    Casa etérea do Olimpo onipotente,
    Cortava o mar a gente belicosa,
    Já lá da banda do Austro e do Oriente,
    Entre a costa Etiópica e a famosa
    Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente
    Queimava então os Deuses, que Tifeu
    Com o temor grande em peixes converteu.

    43
    Tão brandamente os ventos os levavam,
    Como quem o céu tinha por amigo:
    Sereno o ar, e os tempos se mostravam
    Sem nuvens, sem receio de perigo.
    O promontório Prasso já passavam,
    Na costa de Etiópia, nome antigo,
    Quando o mar descobrindo lhe mostrava
    Novas ilhas, que em torno cerca e lava.

    44
    Vasco da Gama, o forte capitão,
    Que a tamanhas empresas se oferece,
    De soberbo e de altivo coração,
    A quem Fortuna sempre favorece,
    Para se aqui deter não vê razão,
    Que inabitada a terra lhe parece:
    Por diante passar determinava;
    Mas não lhe sucedeu como cuidava.

    45
    Eis aparecem logo em companhia
    Uns pequenos batéis, que vêm daquela
    Que mais chegada à terra parecia,
    Cortando o longo mar com larga vela.
    A gente se alvoroça, e de alegria
    Não sabe mais que olhar a causa dela.
    Que gente será esta, em si diziam,
    Que costumes, que Lei, que Rei teriam?

    46
    As embarcações eram, na maneira,
    Mui veloces, estreitas e compridas:
    As velas, com que, vêm, eram de esteira
    Dumas folhas de palma, bem tecidas;
    A gente da cor era verdadeira,
    Que Faeton, nas terras acendidas,
    Ao mundo deu, de ousado, o não prudente:
    O Pado o sabe, o Lampetusa o sente.

    47
    De panos de algodão vinham vestidos,
    De várias cores, brancos e listrados:
    Uns trazem derredor de si cingidos,
    Outros em modo airoso sobraçados:
    Da cinta para cima vêm despidos;
    Por armas têm adargas o terçados;
    Com toucas na cabeça; e navegando,
    Anafis sonoros vão tocando.

    48
    Co'os panos e co'os braços acenavam
    As gentes Lusitanas, que esperassem;
    Mas já as proas ligeiras se inclinavam
    Para que junto às ilhas amainassem.
    A gente e marinheiros trabalhavam,
    Como se aqui os trabalhos se acabassem;
    Tomam velas; amaina-se a verga alta;
    Da âncora, o mar ferido, em cima salta.

    49
    Não eram ancorados, quando a gente
    Estranha pelas cordas já subia.
    No gesto ledos vêm, e humanamente
    O Capitão sublime os recebia:
    As mesas manda pôr em continente;
    Do licor que Lieo prantado havia
    Enchem vasos de vidro, e do que deitam,
    Os de Faeton queimados nada enjeitam.

    50
    Comendo alegremente perguntavam,
    Pela Arábica língua, donde vinham,
    Quem eram, de que terra, que buscavam,
    Ou que partes do mar corrido tinham?
    Os fortes Lusitanos lhe tornavam
    As discretas respostas, que convinham:
    "Os Portugueses somos do Ocidente,
    Imos buscando as terras do Oriente.

    51
    "Do mar temos corrido e navegado
    Toda a parte do Antártico e Calisto,
    Toda a costa Africana rodeado,
    Diversos céus e terras temos visto;
    Dum Rei potente somos, tão amado,
    Tão querido de todos, e benquisto,
    Que não no largo mar, com leda fronte,
    Mas no lago entraremos de Aqueronte.

    52
    "E por mandado seu, buscando andamos
    A terra Oriental que o Indo rega;
    Por ele, o mar remoto navegamos,
    Que só dos feios focas se navega.
    Mas já razão parece que saibamos,
    Se entre vós a verdade não se nega,
    Quem sois, que terra é esta que habitais,
    Ou se tendes da Índia alguns sinais?"

    53
    "Somos, um dos das ilhas lhe tornou,
    Estrangeiros na terra, Lei e nação;
    Que os próprios são aqueles, que criou
    A natura sem Lei e sem razão.
    Nós temos a Lei certa, que ensinou
    O claro descendente de Abraão
    Que agora tem do mundo o senhorio,
    A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio.
    Informações. A Ilha de Moçambique.

    54
    "Esta ilha pequena, que habitamos,
    em toda esta terra certa escala
    De todos os que as ondas navegamos
    De Quíloa, de Mombaça e de Sofala;
    E, por ser necessária, procuramos,
    Como próprios da terra, de habitá-la;
    E por que tudo enfim vos notifique,
    Chama-se a pequena ilha Moçambique.

    55
    "E já que de tão longe navegais,
    Buscando o Indo Idaspe e terra ardente,
    Piloto aqui tereis, por quem sejais
    Guiados pelas ondas sabiamente.
    Também será bem feito que tenhais
    Da terra algum refresco, e que o Regente
    Que esta terra governa, que vos veja,
    E do mais necessário vos proveja."

    56
    Isto dizendo, o Mouro se tornou
    A seus batéis com toda a companhia;
    Do Capitão e gente se apartou
    Com mostras de devida cortesia.
    Nisto Febo nas águas encerrou,
    Co'o carro de cristal, o claro dia,
    Dando cargo à irmã, que alumiasse
    O largo mundo, enquanto repousasse.

    57
    A noite se passou na lassa frota
    Com estranha alegria, e não cuidada,
    Por acharem da terra tão remota
    Nova de tanto tempo desejada.
    Qualquer então consigo cuida e nota
    Na gente e na maneira desusada,
    E como os que na errada Seita creram,
    Tanto por todo o mundo se estenderam,

    58
    Da Lua os claros raios rutilavam
    Pelas argênteas ondas Neptuninas,
    As estrelas os Céus acompanhavam,
    Qual campo revestido de boninas;
    Os furiosos ventos repousavam
    Pelas covas escuras peregrinas;
    Porém da armada a gente vigiava,
    Como por longo tempo costumava.

    59
    Mas assim como a Aurora marchetada
    Os formosos cabelos espalhou
    No Céu sereno, abrindo a roxa entrada
    Ao claro Hiperiónio, que acordou,
    Começa a embandeirar-se toda a armada,
    E de toldos alegres se adornou,
    Por receber com festas e alegria
    O Regedor das ilhas, que partia.

    60
    Partia alegremente navegando,
    A ver as naus ligeiras Lusitanas,
    Com refresco da terra, em si cuidando
    Que são aquelas gentes inumanas,
    Que, os aposentos cáspios habitando,
    A conquistar as terras Asianas
    Vieram; e por ordem do Destino,
    O Império tomaram a Constantino.

    61
    Recebe o Capitão alegremente
    O Mouro, e toda a sua companhia;
    Dá-lhe de ricas peças um presente,
    Que só para este efeito já trazia;
    Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente
    Não usado licor, que dá alegria.
    Tudo o Mouro contente bem recebe;
    E muito mais contente come e bebe.

    62
    Está a gente marítima de Luso
    Subida pela enxárcia, de admirada,
    Notando o estrangeiro modo e uso,
    E a linguagem tão bárbara e enleada.
    Também o Mouro astuto está confuso,
    Olhando a cor, o trajo, e a forte armada;
    E perguntando tudo, lhe dizia
    "Se por ventura vinham de Turquia?"

    63
    E mais lhe diz também, que ver deseja
    Os livros de sua Lei, preceito eu fé,
    Para ver se conforme à sua seja,
    Ou se são dos de Cristo, como Crê.
    E porque tudo note e tudo veja,
    Ao Capitão pedia que lhe dê
    Mostra das fortes armas de que usavam,
    Quando co'os inimigos pelejavam.

    64
    Responde o valeroso Capitão
    Por um, que a língua escura bem sabia:
    "Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação
    De mim, da Lei, das armas que trazia.
    Nem sou da terra, nem da geração
    Das gentes enojosas de Turquia:
    Mas sou da forte Europa belicosa,
    Busco as terras da índia tão famosa.

    65
    A lei tenho daquele, a cujo império
    Obedece o visíbil e ínvisíbil
    Aquele que criou todo o Hemisfério,
    Tudo o que sente, o todo o insensíbil;
    Que padeceu desonra e vitupério,
    Sofrendo morte injusta e insofríbil,
    E que do Céu à Terra, enfim desceu,
    Por subir os mortais da Terra ao Céu.

    66
    Deste Deus-Homem, alto e infinito,
    Os livros, que tu pedes não trazia,
    Que bem posso escusar trazer escrito
    Em papel o que na alma andar devia.
    Se as armas queres ver, como tens dito,
    Cumprido esse desejo te seria;
    Como amigo as verás; porque eu me obrigo,
    Que nunca as queiras ver como inimigo."

    67
    Isto dizendo, manda os diligentes
    Ministros amostrar as armaduras:
    Vêm arneses, e peitos reluzentes,
    Malhas finas, e lâminas seguras,
    Escudos de pinturas diferentes,
    Pelouros, espingardas de aço puras,
    Arcos, e sagitíferas aljavas,
    Partazanas agudas, chuças bravas:

    68
    As bombas vêm de fogo, e juntamente
    As panelas sulfúreas, tão danosas;
    Porém aos de Vulcano não consente
    Que dêem fogo às bombardas temerosas;
    Porque o generoso ânimo e valente,
    Entre gentes tão poucas e medrosas,
    Não mostra quanto pode, e com razão,
    Que é fraqueza entre ovelhas ser leão.

    69
    Porém disto, que o Mouro aqui notou,
    E de tudo o que viu com olho atento
    Um ódio certo na alma lhe ficou,
    Uma vontade má de pensamento.
    Nas mostras e no gesto o não mostrou;
    Mas com risonho e ledo fingimento
    Tratá-los brandamente determina,
    Até que mostrar possa o que imagina.

    70
    Pilotos lhe pedia o Capitão,
    Por quem pudesse à Índia ser levado;
    Diz-lhe que o largo prémio levarão
    Do trabalho que nisso for tomado.
    Promete-lhos o Mouro, com tenção
    De peito venenoso, e tão danado,
    Que a morte, se pudesse, neste dia,
    Em lugar de pilotos lhe daria.

    71
    Tamanho o ódio foi, e a má vontade,
    Que aos estrangeiros súbito tomou,
    Sabendo ser sequazes da verdade,
    Que o Filho de David nos ensinou.
    ó segredos daquela Eternidade,
    A quem juízo algum nunca alcançou!
    Que nunca falte um pérfido inimigo
    Aqueles de quem foste tanto amigo!

    72
    Partiu-se Disto enfim coa companhia,
    Das naus o falso Mouro despedido,
    Com enganosa e grande cortesia,
    Com gesto ledo a todos, e fingido.
    Cortaram os batéis a curta via
    Das águas de Neptuno, e recebido
    Na terra do obsequente ajuntamento
    Se foi o Mouro ao cógnito aposento.

    73
    Do claro assento etóreo o grão Tebano,
    Que da paternal coxa foi nascido,
    Olhando o ajuntamento Lusitano
    Ao Mouro ser molesto e avorrecido,
    No pensamento cuida um falso engano,
    Com que seja de todo destruído.
    E enquanto isto só na alma imaginava,
    Consigo estas palavras praticava:

    74
    "Está do fado já determinado,
    Que tamanhas vitórias, tão famosas,
    Hajam os Portugueses alcançado
    Das Indianas gentes belicosas.
    E eu só, filho do Padre sublimado,
    Com tantas qualidades generosas,
    Hei de sofrer que o fado favoreça
    Outrem, por quem meu nome se escureça?

    75
    "Já quiseram os Deuses que tivesse
    O filho de Filipo nesta parte
    Tanto poder, que tudo submetesse
    Debaixo de seu jugo o fero Marte.
    Mas há-se de sofrer que o fado desse
    A tão poucos tamanho esforço e arte,
    Que eu co'o grão Macedónio, e o Romano,
    Demos lugar ao nome Lusitano?

    76
    "Não será assim, porque antes que chegado
    Seja este Capitão, astutamente
    Lhe será tanto engano fabricados
    Que nunca veja as partes do Oriente.
    Eu descerei à Terra, e o indignado
    Peito revolverei da Maura gente;
    Porque sempre por via irá direita
    Quem do oportuno tempo se aproveita."

    77
    Isto dizendo, irado e quase insano,
    Sobre a terra africana descendeu,
    Onde vestindo a forma e gesto humano,
    Para o Prasso sabido se moveu.
    E por melhor tecer o astuto engano,
    No gesto natural se converteu
    Dum Mouro, em Moçambique conhecido
    Velho, sábio, e co'o Xeque mui valido.

    78
    E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas
    A sua falsidade acomodadas,
    Lhe diz como eram gentes roubadoras,
    Estas que ora de novo são chegadas;
    Que das nações na costa moradoras
    Correndo a fama veio que roubadas
    Foram por estes homens que passavam,
    Que com pactos de paz sempre ancoravam.

    79
    E sabe mais, lhe diz, como entendido
    Tenho destes cristãos sanguinolentos,
    Que quase todo o mar têm destruído
    Com roubos, com incêndios violentos;
    E trazem já de longe engano urdido
    Contra nós; e que todos seus intentos
    São para nos matarem e roubarem,
    E mulheres e filhos cativarem.

    80
    "E também sei que tem determinado
    De vir por água a terra muito cedo
    O Capitão dos seus acompanhado,
    Que da tensão danada nasce o medo.
    Tu deves de ir também co'os teus armado
    Esperá-lo em cilada, oculto e quedo;
    Porque, saindo a gente descuidada,
    Cairão facilmente na cilada.

    81
    "E se inda não ficarem deste jeito
    Destruídos, ou mortos totalmente
    Eu tenho imaginado no conceito
    Outra manha e ardil, que te contente:
    Manda-lhe dar piloto, que de jeito
    Seja astuto no engano, e tão prudente,
    Que os leve aonde sejam destruídos,
    Desbaratados, mortos, ou perdidos."

    82
    Tanto que estas palavras acabou,
    O Mouro, nos tais casos sábio e velho,
    Os braços pelo colo lhe lançou,
    Agradecendo muito o tal conselho;
    E logo nesse instante concertou
    Para a guerra o belígero aparelho,
    Para que ao Português se lhe tornasse
    Em roxo sangue a água, que buscasse.

    83
    E busca mais, para o cuidado engano,
    Mouro, que por piloto à nau lhe mande,
    Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano,
    De quem fiar-se possa um feito grande.
    Diz-lhe que acompanhando o Lusitano,
    Por tais costas e mares com ele ande,
    Que, se daqui escapar, que lá diante
    Vá cair onde nunca se alevante.

    84
    Já o raio Apolíneo visitava
    Os montes Nabatêos acendido,
    Quando o Gama, colos seus determinava
    De vir por água a terra apercebido.
    A gente nos batéis se concertava,
    Como se fosse o engano já sabido:
    Mas pode suspeitar-se facilmente,
    Que o coração pressago nunca mente.

    85
    E mais também mandado tinha a terra,
    De antes, pelo piloto necessário,
    E foi-lhe respondido em som de guerra,
    Caso do que cuidava mui contrário;
    Por isto, e porque sabe quanto erra
    Quem se crê de seu pérfido adversário,
    Apercebido vai como podia,
    Em três batéis somente que trazia.

    86
    Mas os Mouros que andavam pela praia,
    Por lhe defender a água desejada,
    Um de escudo embraçado e de azagaia,
    Outro de arco encurvado e seta ervada,
    Esperam que a guerreira gente saia,
    Outros muitos já postos em cilada.
    E, porque o caso leve se lhe faça,
    Põem uns poucos diante por negaça,

    87
    Andam pela ribeira alva, arenosa,
    Os belicosos Mouros acenando
    Com a adarga e co'a hástia perigosa,
    Os fortes Portugueses incitando.
    Não sofre muito a gente generosa
    Andar-lhe os cães os dentes amostrando.
    Qualquer em terra salta tão ligeiro,
    Que nenhum dizer pode que é primeiro.

    88
    Qual no corro sanguino o ledo amante,
    Vendo a formosa dama desejada,
    O touro busca, e pondo-se diante,
    Salta, corre, sibila, acena, e brada,
    Mas o animal atroce, nesse instante,
    Com a fronte cornígera inclinada,
    Bramando duro corre, e os olhos cerra,
    Derriba, fere e mata, e põe por terra:

    89
    Eis nos batéis o fogo se levanta
    Na furiosa e dura artilharia,
    A plúmbea péla mata, o brado espanta,
    Ferido o ar retumba e assovia:
    O coração dos Mouros se quebranta,
    O temor grande o sangue lhe resfria.
    Já foge o escondido de medroso,
    E morre o descoberto aventuroso.

    90
    Não se contenta a gente Portuguesa,
    Mas seguindo a vitória estrui e mata;
    A povoação, sem muro e sem defesa,
    Esbombardeia, acende e desbarata.
    Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa,
    Que bem cuidou comprá-la mais barata;
    Já blasfema da guerra, e maldizia,
    O velho inerte, e a mãe que o filho cria.

    91
    Fugindo, a seta o Mouro vai tirando
    Sem força, de covarde e de apressado,
    A pedra, o pau, e o canto arremessando;
    Dá-lhe armas o furor desatinado.
    Já a ilha e todo o mais desemparando,
    A terra firme foge amedrontado;
    Passa e corta do mar o estreito braço,
    Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço

    92
    Uns vão nas almadias carregadas,
    Um corta o mar a nado diligente,
    Quem se afoga nas ondas encurvadas,
    Quem bebe o mar, e o deita juntamente.
    Arrombam as miúdas bombardadas
    Os pangaios subtis da bruta gente:
    Desta arte o Português enfim castiga
    A vil malícia, pérfida, inimiga.

    93
    Tornam vitoriosos para a armada,
    Co'o despojo da guerra e rica presa,
    E vão a seu prazer fazer aguada,
    Sem achar resistência, nem defesa.
    Ficava a Maura gente magoada,
    No ódio antigo mais que nunca acesa;
    E vendo sem vingança tanto dano,
    Somente estriba no segundo engano.

    94
    Pazes cometer manda arrependido
    O Regedor daquela iníqua terra,
    Sem ser dos Lusitanos entendido,
    Que em figura de paz lhe manda guerra;
    Porque o piloto falso prometido,
    Que toda a má tenção no peito encerra,
    Para os guiar à morte lhe mandava,
    Como em sinal das pazes que tratava.

    95
    O Capitão, que já lhe então convinha
    Tornar a seu caminho acostumado,
    Que tempo concertado e ventos tinha
    Para ir buscar o Indo desejado,
    Recebendo o piloto, que lhe vinha,
    Foi dele alegremente agasalhado;
    E respondendo ao mensageiro a tento,
    As velas manda dar ao largo vento.

    96
    Desta arte despedida a forte armada,
    As ondas de Anfitrite dividia,
    Das filhas de Nereu acompanhada,
    Fiel, alegre e doce companhia.
    O Capitão, que não caía em nada
    Do enganoso ardil, que o Mouro urdia,
    Dele mui largamente se informava
    Da Índia toda, e costas que passava.

    97
    Mas o Mouro, instruído nos enganos
    Que o malévolo Baco lhe ensinara,
    De morte ou cativeiro novos danos,
    Antes que à Índia chegue, lhe prepara:
    Dando razões dos portos Indianos,
    Também tudo o que pede lhe declara,
    Que, havendo por verdade o que dizia,
    De nada a forte gente se temia.

    98
    E diz-lhe mais, com o falso pensamento
    Com que Sinon os Frígios enganou:
    Que perto está uma ilha, cujo assento
    Povo antigo cristão sempre habitou.
    O Capitão, que a tudo estava a tento,
    Tanto com estas novas se alegrou,
    Que com dádivas grandes lhe rogava,
    Que o leve à terra onde esta gente estava.

    99
    O mesmo o falso Mouro determina,
    Que o seguro Cristão lhe manda e pede;
    Que a ilha é possuída da malina
    Gente que segue o torpe Mahamede.
    Aqui o engano e morte lhe imagina,
    Porque em poder e forças muito excede
    A Moçambique esta ilha, que se chama
    Quíloa, mui conhecida pela fama.

    100
    Para lá se inclinava a leda frota;
    Mas a Deusa em Citere celebrada,
    Vendo como deixava a certa rota
    Por ir buscar a morte não cuidada,
    Não consente que em terra tão remota
    Se perca a gente dela tanto amada.
    E com ventos contrários a desvia
    Donde o piloto falso a leva e guia.

    101
    Mas o malvado Mouro, não podendo
    Tal determinação levar avante,
    Outra maldade iníqua cometendo,
    Ainda em seu propósito constante,
    Lhe diz que, pois as águas discorrendo
    Os levaram por força por diante,
    Que outra ilha tem perto, cuja gente
    Eram Cristãos com Mouros juntamente.

    102
    Também nestas palavras lhe mentia,
    Como por regimento enfim levava,
    Que aqui gente de Cristo não havia,
    Mas a que a Mahamede celebrava.
    O Capitão, que em tudo o Mouro cria,
    Virando as velas, a ilha demandava;
    Mas, não querendo a Deusa guardadora,
    Não entra pela barra, e surge fora.

    103
    Estava a ilha à terra tão chegada,
    Que um estreito pequeno a dividia;
    Uma cidade nela situada,
    Que na fronte do mar aparecia,
    De nobres edifícios fabricada,
    Como por fora ao longe descobria,
    Regida por um Rei de antiga idade:
    Mombaça é o nome da ilha e da cidade.

    104
    E sendo a ela o Capitão chegado,
    Estranhamente ledo, porque espera
    De poder ver o povo batizado,
    Como o falso piloto lhe dissera,
    Eis vêm batéis da terra com recado
    Do Rei, que já sabia a gente que era:
    Que Baco muito de antes o avisara,
    Na forma doutro Mouro, que tomara.

    105
    O recado que trazem é de amigos,
    Mas debaixo o veneno vem coberto;
    Que os pensamentos eram de inimigos,
    Segundo foi o engano descoberto.
    Ó grandes e gravíssimos perigos!
    Ó caminho de vida nunca certo:
    Que aonde a gente põe sua esperança,
    Tenha a vida tão pouca segurança!

    106
    No mar tanta tormenta, e tanto dano,
    Tantas vezes a morte apercebida!
    Na terra tanta guerra, tanto engano,
    Tanta necessidade avorrecida!
    Onde pode acolher-se um fraco humano,
    Onde terá segura a curta vida,
    Que não se arme, e se indigne o Céu sereno
    Contra um bicho da terra tão pequeno?

    Canto Segundo

    1
    Já neste tempo o lúcido Planeta,
    Que as horas vai do dia distinguindo,
    Chegava à desejada e lenta meta,
    A luz celeste às gentes encobrindo,
    E da casa marítima secreta
    Lhe estava o Deus Noturno a porta abrindo,
    Quando as infidas gentes se chegaram
    As naus, que pouco havia que ancoraram.

    2
    Dentre eles um, que traz encomendado
    O mortífero engano, assim dizia:
    "Capitão valeroso, que cortado
    Tens de Neptuno o reino e salsa via,
    O Rei que manda esta ilha, alvoroçado
    Da vinda tua, tem tanta alegria,
    Que não deseja mais que agasalhar-te,
    Ver-te, e do necessário reformar-te.

    3
    "E porque está em extremo desejoso
    De te ver, como cousa nomeada,
    Te roga que, de nada receoso,
    Entres a barra, tu com toda armada:
    E porque do caminho trabalhoso
    Trarás a gente débil e cansada,
    Diz que na terra podes reformá-la,
    Que a natureza obriga a desejá-la.

    4
    "E se buscando vás mercadoria
    Que produze o aurífero Levante,
    Canela, cravo, ardente especiaria,
    Ou droga salutífera e prestante;
    Ou se queres luzente pedraria,
    O rubi fino, o rígido diamante,
    Daqui levarás tudo tão sobejo
    Com que faças o fim a teu desejo."

    5
    Ao mensageiro o Capitão responde
    As palavras do Rei agradecendo:
    E diz que, porque o Sol no mar se esconde,
    Não entra para dentro, obedecendo;
    Porém que, como a luz mostrar por onde
    Vá sem perigo a frota, não temendo,
    Cumprirá sem receio seu mandado,
    Que a mais por tal senhor está obrigado.

    6
    Pergunta-lhe depois, se estão na terra
    Cristãos, como o piloto lhe dizia;
    O mensageiro astuto, que não erra,
    Lhe diz, que a mais da gente em Cristo cria.
    Desta sorte do peito lhe desterra
    Toda a suspeita e cauta fantasia;
    Por onde o Capitão seguramente
    Se fia da infiel e falsa gente.

    7
    E de alguns que trazia condenados
    Por culpas e por feitos vergonhosos,
    Por que pudessem ser aventurados
    Em casos desta sorte duvidosos,
    Manda dous mais sagazes, ensaiados,
    Por que notem dos Mouros enganosos
    A cidade e poder, e por que vejam
    Os Cristãos, que só tanto ver desejam.

    8
    E por estes ao Rei presentes manda,
    Por que a boa vontade, que mostrava,
    Tenha firme, segura, limpa e branda;
    A qual bem ao contrário em tudo estava.
    Já a companhia pérfida e nefanda
    Das naus se despedia e o mar cortava:
    Foram com gestos ledos e fingidos,
    Os dous da frota em terra recebidos.

    9
    E depois que ao Rei apresentaram,
    Co'o recado, os presentes que traziam,
    A cidade correram, e notaram
    Muito menos daquilo que queriam;
    Que os Mouros cautelosos se guardaras
    De lhes mostrarem tudo o que pediam:
    Que onde reina a malícia, está o receio,
    Que a faz imaginar no peito alheio.

    10
    Mas aquele que sempre a mocidade
    Tem no rosto perpétua, e foi nascido
    De duas mães, que urdia a falsidade
    Por ver o navegante destruído,
    Estava numa casa da cidade,
    Com rosto humano e hábito fingido,
    Mostrando-se Cristão, e fabricava
    Um altar sumptuoso, que adorava.

    11
    Ali tinha em retrato afigurada
    Do alto e Santo Espírito a pintura:
    A cândida pombinha debuxada
    Sobre a única Fénix, Virgem pura;
    A companhia santa está pintada
    Dos doze, tão torvados na figura,
    Como os que, só das línguas que caíram,
    De fogo, várias línguas referiram.

    12
    Aqui os dous companheiros conduzidos
    Onde com este engano Baco estava,
    Põem em terra os giolhos, e os sentidos
    Naquele Deus que o mundo governava.
    Os cheiros excelentes, produzidos
    Na Pancaia odorífera, queimava
    O Tioneu, e assim por derradeiro
    O falso Deus adora o verdadeiro.

    13
    Aqui foram de noite agasalhados,
    Com todo o bom e honesto tratamento,
    Os dous Cristãos, não vendo que enganados
    Os tinha o falso e santo fingimento.
    Mas assim como os raios espalhados
    Do Sol foram no mundo, e num momento
    Apareceu no rúbido horizonte
    Da moça de Titão a roxa fronte,

    14
    Tornam da terra os Mouros co'o recado
    Do Rei, para que entrassem, e consigo
    Os dous que o Capitão tinha mandado,
    A quem se o Rei mostrou sincero amigo;
    E sendo o Português certificado
    De não haver receio de perigo,
    E que gente de Cristo em terra havia,
    Dentro no salso rio entrar queria.

    15
    Dizem-lhe os que mandou, que em terra
    Sacras aras e sacerdote sinto; viram
    Que ali se agasalharam o dormiram,
    Enquanto a luz cobriu o escuro manto;
    E que no Rei e gentes não sentiram
    Senão contentamento e gosto tanto,
    Que não podia certo haver suspeita
    Numa mostra tão clara e tão perfeita.

    16
    Com isto o nobre Gama recebia
    Alegremente os Mouros que subiam;
    Que levemente um ânimo se fia
    De mostras, que tão certas pareciam.
    A nau da gente pérfida se enchia,
    Deixando a bordo os barcos que traziam.
    Alegres vinham todos, porque crêm
    Que a presa desejada certa têm.

    17
    Na terra, cautamente aparelhavam
    Armas e munições que, como vissem
    Que no rio os navios ancoravam,
    Neles ousadamente se subissem;
    E, nesta treição determinavam
    Que os de Luso de todo destruíssem,
    E que incautos pagassem deste jeito
    O mal que em Moçambique tinham feito.

    18
    As âncoras tenaces vão levando
    Com a náutica grita costumada;
    Da proa as velas sós ao vento dando
    Inclinam para a barra abalizada.
    Mas a linda Ericina, que guardando
    Andava sempre a gente assinalada,
    Vendo a cilada grande, e tão secreta,
    Voa do Céu ao mar como uma seta.

    19
    Convoca as alvas filhas de Nereu,
    Com toda a mais cerúlea companhia,
    Que, porque no salgado mar nasceu,
    Das águas o poder lhe obedecia.
    E propondo-lhe a causa a que desceu,
    Com todas juntamente se partia,
    Para estorvar que a armada não chegasse
    Aonde para sempre se acabasse.

    20
    Já na água erguendo vão, com grande pressa,
    Com as argênteas caudas branca escuma;
    Cloto eo'o peito corta e atravessa
    Com mais furor o mar do que costuma.
    Salta Nise, Nerine se arremessa
    Por cima da água crespa, em força suma.
    Abrem caminho as ondas encurvadas
    De temor das Nereidas apressadas.

    21
    Nos ombros de um Tritão, com gesto aceso,
    Vai a linda Dione furiosa;
    Não sente quem a leva o doce peso,
    De soberbo com carga tão formosa.
    Já chegam perto donde o vento teso
    Enche as velas da frota belicosa;
    Repartem-se e rodeiam nesse instante
    As naus ligeiras, que iam por diante.

    22
    Põe-se a Deusa com outras em direito
    Da proa capitaina, e ali fechando
    O caminho da barra, estão de jeito,
    Que em vão assopra o vento, a vela inchando.
    Põem no madeiro duro o brando peito,
    Para detrás a forte nau forçando;
    Outras em derredor levando-a estavam,
    E da barra inimiga a desviavam.

    23
    Quais para a cova as próvidas formigas,
    Levando o peso grande acomodado,
    As forças exercitam, de inimigas
    Do inimigo inverno congelado;
    Ali são seus trabalhos e fadigas,
    Ali mostram vigor nunca esperado:
    Tais andavam as Ninfas estorvando
    A gente Portuguesa o fim nefando.

    24
    Torna para detrás a nau forçada,
    Apesar dos que leva, que gritando
    Mareiam velas; ferve a gente irada,
    O leme a um bordo e a outro atravessando;
    O mestre astuto em vão da popa brada,
    Vendo como diante ameaçando
    Os estava um marítimo penedo,
    Que de quebrar-lhe a nau lhe mete medo.

    25
    A celeuma medonha se alevanta
    No rudo marinheiro que trabalha;
    O grande estrondo a Maura gente espanta,
    Como se vissem hórrida batalha;
    Não sabem a razão de fúria tanta,
    Não sabem nesta pressa quem lhe valha;
    Cuidam que seus enganos são sabidos,
    E que hão de ser por isso aqui punidos.

    26
    Ei-los subitamente se lançavam
    A seus batéis velozes que traziam;
    Outros em cima o mar alevantavam,
    Saltando n'água, a nado se acolhiam;
    De um bordo e doutro súbito saltavam,
    Que o medo os compelia do que viam;
    Que antes querem ao mar aventurar-se
    Que nas mãos inimigas entregar-se.

    27
    Assim como em selvática alagoa
    As rãs, no tempo antigo Lícia gente,
    Se sentem por ventura vir pessoa,
    Estando fora da água incautamente,
    Daqui e dali saltando, o charco soa,
    Por fugir do perigo que se sente,
    E acolhendo-se ao couto que conhecem,
    Sós as cabeças na água lhe aparecem:

    28
    Assim fogem os Mouros; e o piloto,
    Que ao perigo grande as naus guiara,
    Crendo que seu engano estava noto,
    Também foge, saltando na água amara.
    Mas, por não darem no penedo imoto,
    Onde percam a vida doce e cara,
    A âncora solta logo a capitaina,
    Qualquer das outras junto dela amaina.

    29
    Vendo o Gama, atentado, a estranheza
    Dos Mouros, não cuidada, e juntamente
    O piloto fugir-lhe com presteza,
    Entende o que ordenava a bruta gente;
    E vendo, sem contraste e sem braveza
    Dos ventos, ou das águas sem corrente,
    Que a nau passar avante não podia,
    Havendo-o por milagre, assim dizia:

    30
    "Ó caso grande, estranho e não cuidado,
    Ó milagre claríssimo e evidente,
    Ó descoberto engano inopinado,
    Ó pérfida, inimiga e falsa gente!
    Quem poderá do mal aparelhado
    Livrar-se sem perigo sabiamente,
    Se lá de cima a Guarda soberana
    Não acudir à fraca força humana?

    31
    "Bem nos mostra a divina Providência
    Destes portos a pouca segurança;
    Bem claro temos visto na aparência,
    Que era enganada a nossa confiança.
    Mas pois saber humano nem prudência
    Enganos tão fingidos não alcança,
    Ó tu, Guarda Divina, tem cuidado
    De quem sem ti não pode ser guardado!

    32
    "E se te move tanto a piedade
    Desta mísera gente peregrina,
    Que só por tua altíssima bondade,
    Da gente a salvas pérfida e malina,
    Nalgum porto seguro de verdade
    Conduzir-nos já agora determina,
    Ou nos amostra a terra que buscamos,
    Pois só por teu serviço navegamos."

    33
    Ouviu-lhe essas palavras piedosas
    A formosa Dione, e comovida,
    Dentre as Ninfas se vai, que saudosas
    Ficaram desta súbita partida.
    Já penetra as Estrelas luminosas,
    Já na terceira Esfera recebida
    Avante passa, e lá no sexto Céu,
    Para onde estava o Padre, se moveu.

    34
    E como ia afrontada do caminho,
    Tão formosa no gesto se mostrava,
    Que as Estrelas e o Céu e o Ar vizinho,
    E tudo quanto a via namorava.
    Dos olhos, onde faz seu filho o ninho,
    Uns espíritos vivos inspirava,
    Com que os Pólos gelados acendia,
    E tornava do Fogo a esfera fria.

    35
    E por mais namorar o soberano
    Padre, de quem foi sempre amada e eriça,
    Se lhe apresenta assim como ao Troiano,
    Na selva Idea, já se apresentara.
    Se a vira o caçador, que o vulto humano
    Perdeu, vendo Diana na água clara,
    Nunca os famintos galgos o mataram,
    Que primeiro desejos o acabaram.

    36
    Os crespos fios d'ouro se esparziam
    Pelo colo, que a neve escurecia;
    Andando, as lácteas tetas lhe tremiam,
    Com quem Amor brincava, e não se via;
    Da alva petrina flamas lhe saíam,
    Onde o Menino as almas acendia;
    Pelas lisas colunas lhe trepavam
    Desejos, que como hera se enrolavam.

    37
    C'um delgado sendal as partes cobre,
    De quem vergonha é natural reparo,
    Porém nem tudo esconde, nem descobre,
    O véu, dos roxos lírios pouco avaro;
    Mas, para que o desejo acenda o dobre,
    Lhe põe diante aquele objeto raro.
    Já se sentem no Céu, por toda a parte,
    Ciúmes em Vulcano, amor em Marte.

    38
    E mostrando no angélico semblante
    Co'o riso uma tristeza misturada,
    Como dama que foi do incauto amante
    Em brincos amorosos mal tratada,
    Que se aqueixa e se ri num mesmo instante,
    E se torna entre alegre magoada,
    Desta arte a Deusa, a quem nenhuma iguala,
    Mais mimosa que triste ao Padre fala:

    39
    "Sempre eu cuidei, ó Padre poderoso,
    Que, para as cousas que eu do peito amasse,
    Te achasse brando, afábil e amoroso,
    Posto que a algum contrário lhe pesasse;
    Mas, pois que contra mim te vejo iroso,
    Sem que to merecesse, nem te errasse,
    Faça-se como Baco determina;
    Assentarei enfim que fui mofina.

    40
    "Este povo que é meu, por quem derramo
    As lágrimas que em vão caídas vejo,
    Que assaz de mal lhe quero, pois que o amo,
    Sendo tu tanto contra meu desejo!
    Por ele a ti rogando choro e bramo,
    E contra minha dita enfim pelejo.
    Ora pois, porque o amo é mal tratado,
    Quero-lhe querer mal, será guardado.

    41
    "Mas moura enfim nas mãos das brutas gentes,
    Que pois eu fui…" E nisto, de mimosa,
    O rosto banha em lágrimas ardentes,
    Como co'o orvalho fica a fresca rosa.
    Calada um pouco, como se entre os dentes
    Se lhe impedira a fala piedosa,
    Torna a segui-la; e indo por diante,
    Lhe atalha o poderoso e grão Tonante.

    42
    E destas brandas mostras comovido,
    Que moveram de um tigre o peito duro,
    Co'o vulto alegre, qual do Céu subido,
    Torna sereno e claro o ar escuro,
    As lágrimas lhe alimpa, e acendido
    Na face a beija, e abraça o colo puro;
    De modo que dali, se só se achara,
    Outro novo Cupido se gerara.

    43
    E co'o seu apertando o rosto amado,
    Que os soluços e lágrimas aumenta,
    Como menino da ama castigado,
    Que quem no afaga o choro lhe acrescente,
    Por lhe pôr em sossego o peito irado,
    Muitos casos futuros lhe apresenta.
    Dos fados as entranhas revolvendo,
    Desta maneira enfim lhe está dizendo:

    44
    "Formosa filha minha, não temais
    Perigo algum nos vossos Lusitanos,
    Nem que ninguém comigo possa mais,
    Que esses chorosos olhos soberanos;
    Que eu vos prometo, filha, que vejais
    Esquecerem-se Gregos e Romanos,
    Pelos ilustres feitos que esta gente
    Há-de fazer nas partes do Oriente.

    45
    "Que se o facundo Ulisses escapou
    De ser na Ogígia ilha eterno escravo,
    E se Antenor os seios penetrou
    Ilíricos e a fonte de Timavo;
    E se o piedoso Eneias navegou
    De Cila e de Caríbdis o mar bravo,
    Os vossos, mores cousas atentando,
    Novos mundos ao mundo irão mostrando.

    46
    "Fortalezas, cidades e altos muros,
    Por eles vereis, filha, edificados;
    Os Turcos belacíssimos e duros,
    Deles sempre vereis desbaratados.
    Os Reis da índia, livres e seguros,
    Vereis ao Rei potente sojugados;
    E por eles, de tudo enfim senhores,
    Serão dadas na terra leis melhores.

    47
    "Vereis este, que agora pressuroso
    Por tantos medos o Indo vai buscando,
    Tremer dele Neptuno, de medroso
    Sem vento suas águas encrespando.
    Ó caso nunca visto e milagroso,
    Que trema e ferva o mar, em calma estando!
    Ó gente forte e de altos pensamentos,
    Que também dela hão medo os Elementos!

    48
    "Vereis a terra, que a água lhe tolhia,
    Que inda há-de ser um porto mui decente,
    Em que vão descansar da longa via
    As naus que navegarem do Ocidente.
    Toda esta costa enfim, que agora urdia
    O mortífero engano, obediente
    Lhe pagará tributos, conhecendo
    Não poder resistir ao Luso horrendo.

    49
    "E vereis o mar Roxo, tão famoso,
    Tornar-se-lhe amarelo, de enfiado;
    Vereis de Ormuz o Reino poderoso
    Duas vezes tomado e sojugado.
    Ali vereis o Mouro furioso
    De suas mesmas setas traspassado:
    Que quem vai contra os vossos, claro veja
    Que, se resiste, contra si peleja.

    50
    "Vereis a inexpugnábil Dio forte,
    Que dous cercos terá, dos vossos sendo.
    Ali se mostrará seu preço e sorte,
    Feitos de armas grandíssimos fazendo.
    Invejoso vereis o grão Mavorte
    Do peito Lusitano fero e horrendo:
    Do Mouro ali verão que a voz extrema
    Do falso Mahamede ao Céu blasfema.

    51
    "Goa vereis aos Mouros ser tomada,
    A qual virá depois a ser senhora
    De todo o Oriente, e sublimada
    Co'os triunfos da gente vencedora.
    Ali soberba, altiva, e exalçada,
    Ao Gentio, que os ídolos adora,
    Duro freio porá, e a toda a terra
    Que cuidar de fazer aos vossos guerra.

    52
    "Vereis a fortaleza sustentar-se
    De Cananor, com pouca força e gente;
    E vereis Calecu desbaratar-se,
    Cidade populosa e tão potente:
    E vereis em Cochim assinalar-se
    Tanto um peito soberbo e insolente,
    Que cítara jamais cantou vitória,
    Que assim mereça eterno nome e glória.

    53
    "Nunca com Marte instructo e furioso,
    Se viu ferver Leucate, quando Augusto
    Nas civis Actias guerras animoso,
    O Capitão venceu Romano injusto,
    Que dos povos da Aurora, e do famoso
    Nilo, e do Bactra Cítico e robusto
    A vitória trazia, e presa rica,
    Preso na Egípcia linda e nego pudica.

    54
    Como vereis o mar fervendo aceso
    Colos incêndios dos vossos pelejando,
    Levando o Idololatra, e o Mouro preso,
    De nações diferentes triunfando.
    E sujeita a rica Áurea Quersoneso,
    Até ao longínquo China navegando,
    E as ilhas mais remotas do Oriente,
    Ser-lhe-á todo o Oceano obediente.

    55
    "De modo, filha minha, que de jeito
    Amostrarão esforço mais que humano,
    Que nunca se verá tão forte peito,
    Do Gangético mar ao Gaditano,
    Nem das Boreais ondas ao Estreito,
    Que mostrou o agravado Lusitano,
    Posto que em todo o mundo, de afrontados,
    Ressuscitassem todos os passados."

    56
    Como isto disse, manda o consagrado
    Filho de Maia à Terra, por que tenha
    Um pacífico porto o sossegado,
    Para onde sem receio a frota venha;
    F, para que em Mombaça, aventurado,
    O forte Capitão se não detenha,
    Lhe manda mais, que em sonhos lhe mostra
    A terra, onde quieto repousasse.

    57
    Já pelo ar o Cileneu voava;
    Com as asas nos pés à Terra desce;
    Sua vara fatal na mão levava,
    Com que os olhos cansados adormece:
    Com esta, as tristes almas revocava
    Do Inferno, e o vento lhe obedece.
    Na cabeça o galero costumado.
    E desta arte a Melinde foi chegado.

    58
    Consigo a Fama leva, por que diga
    Do Lusitano o preço grande e raro,
    Que o nome ilustre a um certo amor obriga
    E faz, a quem o tem, amado e caro.
    Desta arte vai fazendo a gente amiga,
    Co rumor famosíssimo, e perclaro.
    Já Melinde em desejos arde todo
    De ver da gente forte o gesto e modo.

    59
    Dali para Mombaça logo parte,
    Aonde as naus estavam temerosas,
    Para que à gente mande que se aparte
    Da barra amiga e terras suspeitosas:
    Porque mui pouco val esforço e arte,
    Contra infernais vontades enganosas;
    Pouco val coração, astúcia e siso,
    Se lá dos Céus não vem celeste aviso.

    60
    No feio caminho a noite tinha anelado,
    E, as estrelas no Céu, coa luz alhea,
    Tinham o largo Mundo alumiado;
    E só co'o sono a gente se recreia.
    O Capitão ilustre, já cansado
    De vigiar a noite que arreceia,
    Breve repouso então aos olhos dava,
    A outra gente a quartos vigiava;

    61
    Quando Mercúrio em sonhos lhe aparece,
    Dizendo: "Fuge, fuge, Lusitano,
    Da cilada que o Rei malvado tece,
    Por te trazer ao fim, e extremo dano;
    Fuge, que o vento, e o Céu te favorece;
    Sereno o tempo tens e o Oceano,
    E outro Rei mais amigo, noutra parte,
    Onde podes seguro agasalhar-te.

    62
    "Não tens aqui senão aparelhado
    O hospício que o cru Diomedes dava,
    Fazendo ser manjar acostumado
    De cavalos a gente que hospedava;
    As aras de Busíris infamado,
    Onde os hóspedes tristes imolava,
    Terás certas aqui, se muito esperas.
    Fuge das gentes pérfidas e feras.

    63
    "Vai-te ao longo da costa discorrendo,
    E outra terra acharás de mais verdade,
    Lá quase junto donde o Sol ardendo
    Iguala o dia e noite em quantidade;
    Ali tua frota alegre recebendo
    Um Rei, com muitas obras de amizade,
    Gasalhado seguro te daria,
    E, para a índia, certa e sábia guia."

    64
    Isto Mercúrio disse, e o sono leva
    Ao Capitão, que com mui grande espanto
    Acorda, e vê ferida a escura treva
    De uma súbita luz e raio santo.
    E vendo claro quanto lhe releva
    Não se deter na terra iníqua tanto,
    Com novo espírito ao mestre seu mandava
    Que as velas desse ao vento que assopravam.

    65
    "Dai velas, disse, dai ao largo vento,
    Que o Céu nos favorece e Deus o manda;
    Que um mensageiro vi do claro assento
    Que só em favor de nossos passos anda."
    Alevanta-se nisto o movimento
    Dos marinheiros, de uma e de outra banda;
    Levam gritando as âncoras acima,
    Mostrando a ruda força, que se estima.

    66
    Neste tempo, que as âncoras levavam,
    Na sombra escura os Mouros escondidos
    Mansamente as amarras lhe cortavam,
    Por serem, dando à costa, destruídos;
    Mas com vista de linces vigiavam
    Os Portugueses, sempre apercebidos.
    Eles, como acordados os sentiram,
    Voando, e não remando, lhe fugiram.

    67
    Mas já as agudas proas apartando
    Iam as vias húmidas de argento;
    Assopra-lhe galerno o vento, e brando,
    Com suave e seguro movimento.
    Nos perigos passados vão falando,
    Que mal se perderão do pensamento
    Os casos grandes, donde em tanto aperto
    A vida em salvo escapa por acerto.

    68
    Tinha uma volta dado o Sol ardente
    E noutro começava, quando viram
    Ao longe deus navios, brandamente
    Co'os ventos navegando, que respiram:
    Porque haviam de ser da Maura gente,
    Para eles arribando, as velas viram:
    Um, de temor do mal que arreceava,
    Por se salvar a gente à costa dava.

    69
    Não é o outro que fica tão manhoso;
    Mas nas mãos vai cair do Lusitano,
    Sem o rigor de Marte furioso,
    E sem a fúria horrenda de Vulcano;
    Que como fosse débil e medroso
    Da pouca gente o fraco peito humano,
    Não teve resistência; e se a tivera,
    Mais dano resistindo recebera.

    70
    E como o Gama muito desejasse
    Piloto para a Índia que buscava,
    Cuidou que entre estes Mouros o tomasse;
    Mas não lhe sucedeu como cuidava,
    Que nenhum deles há que lhe ensinasse
    A que parte dos céus a Índia estava;
    Porém dizem-lhe todos, que tem perto
    Melinde, onde achará piloto certo.

    71
    Louvam do Rei os Mouros a bondade,
    Condição liberal, sincero peito,
    Magnificência grande e humanidade,
    Com partes de grandíssimo respeito.
    O Capitão o assela por verdade,
    Porque já lhe dissera, deste jeito,
    Cileneu em sonhos; e partia
    Para onde o sonho e o Mouro lhe dizia.

    72
    Era no tempo alegre, quando entrava
    No roubador de Europa a luz Febeia,
    Quando um e outro corno lhe aquentava,
    E Flora derramava o de Amalteia:
    A memória do dia renovava
    O pressuroso Sol, que o Céu rodeia,
    Em que Aquele, a quem tudo está sujeito,
    O selo pôs a quanto tinha feito;

    73
    Quando chegava a frota àquela parte,
    Onde o Reino Melinde já se via,
    De toldos adornada, e leda de arte
    Que bem mostra estimar o santo dia.
    Treme a bandeira, voa o estandarte,
    A cor purpúrea ao longe aparecia;
    Soam os atambores o pandeiros,
    E assim entravam ledos e guerreiros.

    74
    Enche-se toda a praia Melindana
    Da gente que vem ver a leda armada,
    Gente mais verdadeira, e mais humana,
    Que toda a doutra terra atrás deixada.
    Surge diante a frota Lusitana,
    Pega no fundo a âncora pesada;
    Mandam fora um dos Mouros que tomaram,
    Por quem sua vinda ao Rei manifestaram.

    75
    O Rei, que já sabia da nobreza
    Que tanto os Portugueses engrandece,
    Tomarem o seu porto tanto preza,
    Quanto a gente fortíssima merece:
    E com verdadeiro ânimo e pureza,
    Que os peitos generosos enobrece,
    Lhe manda rogar muito que saíssem,
    Para que de seus reinos se servissem.

    76
    São oferecimentos verdadeiros,
    E palavras sinceras, não dobradas,
    As que o Rei manda aos nobres cavaleiros,
    Que tanto mar e terras tem passadas.
    Manda-lhe mais lanígeros carneiros,
    E galinhas domésticas cevadas,
    Com as frutas, que então na terra havia;
    E a vontade à dádiva excedia.

    77
    Recebe o Capitão alegremente
    O mensageiro ledo e seu recado;
    E logo manda ao Rei outro presente,
    Que de longe trazia aparelhado:
    Escarlata purpúrea, cor ardente,
    O ramoso coral, fino e prezado,
    Que debaixo das águas mole cresce,
    E como é fora delas se endurece.

    78
    Manda mais um, na prática elegante,
    Que co'o Rei nobre as pazes concertasse,
    E que de não sair naquele instante
    De suas naus em terra o desculpasse.
    Partido assim o embaixador prestante,
    Como na terra ao Rei se apresentasse,
    Com estilo que Palas lhe ensinava,
    Estas palavras tais falando orava:

    79
    "Sublime Rei, a quem do Olimpo puro
    Foi da suma Justiça concedido
    Refrear o soberbo povo duro,
    Não menos dele amado, que temido:
    Como porto mui forte e mui seguro,
    De todo o Oriente conhecido,
    Te vimos a buscar, para que achemos
    Em ti o remédio certo que queremos.

    80
    "Não somos roubadores, que passando
    Pelas fracas cidades descuidadas,
    A ferro e a fogo as gentes vão matando,
    Por roubar-lhe as fazendas cobiçadas;
    Mas da soberba Europa navegando,
    Imos buscando as terras apartadas
    Da Índia grande e rica, por mandado
    De um Rei que temos, alto e sublimado.

    81
    "Que geração tão dura há hi de gente,
    Que bárbaro costume e usança feia,
    Que não vedem os portos tão somente,
    Mas inda o hospício da deserta areia?
    Que má tenção, que peito em nós se sente,
    Que de tão pouca gente se arreceia?
    Que com laços armados, tão fingidos,
    Nos ordenassem ver-nos destruídos?

    82
    "Mas tu, e quem mui certo confiamos
    Achar-se mais verdade, ó Rei benigno,
    E aquela certa ajuda em ti esperamos,
    Que teve o perdido Ítaco em Alcino,
    A teu porto seguro navegamos,
    Conduzidos do intérprete divino;
    Que, pois a ti nos manda, está mui claro,
    Que és de peito sincero, humano e raro.

    83
    "E não cuides, ó Rei, que não saísse
    O nosso Capitão esclarecido
    A ver-te, ou a servir-te, porque visse
    Ou suspeitasse em ti peito fingido:
    Mas saberás que o fez, porque cumprisse
    O regimento, em tudo obedecido,
    De seu Rei, que lhe manda que não saia,
    Deixando a frota, em nenhum porto ou praia.

    84
    "E porque é, de vassalos o exercício,
    Que os membros tem regidos da cabeça,
    Não quererás, pois tens de Rei o ofício,
    Que ninguém a seu Rei desobedeça;
    Mas as mercês e o grande benefício,
    Que ora acha em ti, promete que conheça
    Em tudo aquilo que ele e os seus puderem,
    Enquanto os rios para o mar correrem."

    85
    Assim dizia; e todos juntamente,
    Uns com outros em prática falando,
    Louvavam muito o estâmago da gente,
    Que tantos céus e mares vai passando.
    E o Rei ilustre, o peito obediente
    Dos Portugueses na alma imaginando,
    Tinha por valor grande e mui subido
    O do Rei que é tão longe obedecido.

    86
    E com risonha vista e ledo aspeito,
    Responde ao embaixador, que tanto estima:
    "Toda a suspeita má tirai do peito,
    Nenhum frio temor em vós se imprima;
    Que vosso preço e obras são de jeito
    Para vos ter o mundo em muita estima;
    E quem vos fez molesto tratamento,
    Não pode ter subido pensamento.

    87
    "De não sair em terra toda a gente,
    Por observar a usada preminência,
    Ainda que me pese estranhamente,
    Em muito tenho a muita obediência;
    Mas, se lho o regimento não consente,
    Nem eu consentirei que a excelência
    De peitos tão leais em si desfaça,
    Só porque a meu desejo satisfaça.

    88
    "Porém, como a luz crástina chegada
    Ao mundo for, em minhas almadias
    Eu irei visitar a forte armada,
    Que ver tanto desejo, há tantos dias;
    E se vier do mar desbaratada,
    Do furioso vento e longas vias,
    Aqui terá, de limpos pensamentos,
    Piloto, munições e mantimentos."

    89
    Isto disse; e nas águas se escondia
    O filho de Latona; e o mensageiro
    Coa embaixada alegre se partia
    Para a frota, no seu batel ligeiro.
    Enchem-se os peitos todos de alegria.
    Por terem o remédio verdadeiro
    Para acharem a terra que buscavam;
    E assim ledos a noite festejavam.

    90
    Não faltam ali os raios de artifício,
    Os trêmulos cometas imitando;
    Fazem os bombardeiros seu ofício,
    O céu, a terra e as ondas atroando.
    Mostra-se dos Ciclopas o exercício
    Nas bombas que de fogo estão queimando;
    Outros com vozes, com que o céu feriam,
    Instrumentos altíssonos tangiam.

    91
    Respondem-lhe da terra juntamente,
    Co'o raio volteando, com zunido;
    Anda em giros no ar a roda ardente,
    Estoura o pó sulfúreo escondido.
    A grita se alevanta ao céu, da gente;
    O mar se via em fogos acendido,
    E não menos a terra; e assim festeja
    Um ao outro, a maneira de peleja.

    92
    Mas já o Céu inquieto revolvendo,
    As gentes incitava a seu trabalho,
    E já a mãe de Menon a luz trazendo,
    Ao sono longo punha certo atalho;
    Iam-se as sombras lentas desfazendo,
    Sobre as flores da terra em frio orvalho,
    Quando o Rei Melindano se embarcava
    A ver a frota, que no mar estava.

    93
    Viam-se em derredor ferver as praias
    Da gente, que a ver só concorre leda;
    Luzem da fina púrpura as cabaias,
    Lustram os panos da tecida seda;
    Em lugar das guerreiras azagaias
    E do arco, que os cornos arremeda
    Da Lua, trazem ramos de palmeira,
    Dos que vencem, coroa verdadeira.

    94
    Um batel grande e largo, que toldado
    Vinha de sedas de diversas cores,
    Traz o Rei de Melinde, acompanhado
    De nobres e seu Reino e de senhores:
    Vem de ricos vestidos adornado,
    Segundo seus costumes e primores;
    Na cabeça uma fota guarnecida
    De ouro, e de seda e de algodão tecida.

    95
    Cabaia de Damasco rico e dino,
    Da Tíria cor, entre eles estimada,
    Um colar ao pescoço, de ouro fino,
    Onde a matéria da obra é superada,
    C'um resplendor reluze adamantino;
    Na cinta, a rica bem lavrada;
    Nas alparcas dos pés, em fim de tudo,
    Cobrem ouro e aljôfar ao veludo.

    96
    Com um redondo emparo alto de seda,
    Numa alta e dourada hástia enxerido,
    Um ministro à solar quentura veda.
    Que não ofenda e queime o Rei subido.
    Música traz na proa, estranha e leda,
    De áspero som, horríssono ao ouvido,
    De trombetas arcadas em redondo,
    Que, sem concerto, fazem rudo estrondo.

    97
    Não menos guarnecido o Lusitano
    Nos seus batéis, da frota se partia
    A receber no mar o Melindano,
    Com lustrosa e lograda companhia.
    Vestido o Gama vem ao modo Hispano,
    Mas Francesa era a roupa que vestia,
    De cetim da Adriática Veneza
    Carmesi, cor que a gente tanto preza:

    98
    De botões douro as mangas vêm tomadas,
    Onde o Sol reluzindo a vista cega;
    As calças soldadescas recamadas
    Do metal, que Fortuna a tantos nega,
    E com pontas do mesmo delicadas
    Os golpes do gibão ajunta e achega;
    Ao Itálico modo a áurea espada;
    Pluma na gorra, um pouco declinada.

    99
    Nos de sua companhia se mostrava
    Da tinta, que dá o múrice excelente,
    A vária cor, que os olhos alegrava,
    E a maneira do trajo diferente.
    Tal o formoso esmalte se notava
    Dos vestidos, olhados juntamente,
    Qual aparece o arco rutilante
    Da bela Ninfa, filha de Taumante.

    100
    Sonorosas trombetas incitavam
    Os ânimos alegres, ressoando;
    Dos Mouros os batéis, o mar coalhavam,
    Os toldos pelas águas arrojando;
    As bombardas horríssonas bramavam,
    Com as nuvens de fumo o Sol tomando;
    Amiúdam-se os brados acendidos,
    Tapam com as mãos os Mouros os ouvidos.

    101
    Já no batel entrou do Capitão
    O Rei, que nos seus braços o levava;
    Ele coa cortesia, que a razão
    (Por ser Rei) requeria, lhe falava.
    C'umas mostras de espanto e admiração,
    O Mouro o gesto e o modo lhe notava,
    Como quem em mui grande estima tinha
    Gente que de tão longe à índia vinha.

    102
    E com grandes palavras lhe oferece
    Tudo o que de seus Reinos lhe cumprisse,
    E que, se mantimento lhe falece,
    Como se próprio fosse, lho pedisse.
    Diz-lhe mais, que por fama bem conhece
    A gente Lusitana, sem que a visse;
    Que já ouviu dizer, que noutra terra
    Com gente de sua Lei tivesse guerra.

    103
    E como por toda África se soa,
    Lhe diz, os grandes feitos que fizeram,
    Quando nela ganharam a coroa
    Do Reino, onde as Hespéridas viveram;
    E com muitas palavras apregoa
    O menos que os de Luso mereceram,
    E o mais que pela fama o Rei sabia.
    Mas desta sorte o Gama respondia:

    104
    "Ó tu, que só tiveste piedade,
    Rei benigno, da gente Lusitana,
    Que com tanta miséria e adversidade
    Dos mares experimenta a fúria insana;
    Aquela alta e divina Eternidade,
    Que o Céu revolve e rege a gente humana,
    Pois que de ti tais obras recebemos,
    Te pague o que nós outros não podemos.

    105
    "Tu só, de todos quantos queima Apolo,
    Nos recebes em paz, cio mar profundo;
    Em ti dos ventos hórridos de Eolo
    Refúgio achamos bom, fido e jocundo.
    Enquanto apascentar o largo Pólo
    As Estrelas, e o Sol der lume ao Mundo,
    Onde quer que eu viver, com fama e glória
    Viverão teus louvores em memória."

    106
    Isto dizendo, os barcos vão remando
    Para a frota, que o Mouro ver deseja;
    Vão as naus uma e uma rodeando,
    Porque de todas tudo note e veja.
    Mas para o céu Vulcano fuzilando,
    A frota coas bombardas o festeja,
    E as trombetas canoras lhe tangiam;
    Co'os anafis os Mouros respondiam.

    107
    Mas depois de ser tudo já notado
    Do generoso Mouro, que pasmava
    Ouvindo o instrumento inusitado,
    Que tamanho terror em si mostrava,
    Mandava estar quieto e ancorado
    N'água o batel ligeiro que os levava,
    Por falar de vagar co'o forte Gama,
    Nas cousas de que tem notícia e faina.

    108
    Em práticas o Mouro diferentes
    Se deleitava, perguntando agora
    Pelas guerras famosas e excelentes
    Co'o povo havidas, que a Mafoma adora;
    Agora lhe pergunta pelas gentes
    De toda a Hespéria última, onde mora;
    Agora pelos povos seus vizinhos,
    Agora pelos úmidos caminhos.

    109
    "Mas antes, valeroso Capitão,
    Nos conta, lhe dizia, diligente,
    Da terra tua o clima, e região
    Do mundo onde morais distintamente;
    E assim de vossa antiga geração,
    E o princípio do Reino tão potente,
    Co'os sucessos das guerras do começo,
    Que, sem sabê-las, sei que são de preço.

    110
    "E assim também nos conta dos rodeios
    Longos, em que te traz o mar irado,
    Vendo os costumes bárbaros alheios.
    Que a nossa África ruda tem criado.
    Conta: que agora vêm co'os áureos freios
    Os cavalos que o carro marchetado
    Do novo Sol, da fria Aurora trazem,
    O vento dorme, o mar e as ondas jazem.

    111
    "E não menos co'o tempo se parece
    O desejo de ouvir-te o que contares;
    Que quem há, que por fama não conhece
    As obras Portuguesas singulares?
    Não tanto desviado resplandece
    De nós o claro Sol, para julgares
    Que os Melindanos têm tão rudo peito,
    Que não estimem muito um grande feito.

    112
    "Cometeram soberbos os Gigantes,
    Com guerra vã, o Olimpo claro e puro;
    Tentou Pirítoo e Teseu, de ignorantes,
    O Reino de Plutão horrendo e escuro.
    Se houve feitos no mundo tão possantes,
    Não menos é trabalho ilustre e duro,
    Quanto foi cometer Inferno o Céu,
    Que outrem cometa a fúria de Nereu.

    113
    "Queimou o sagrado templo de Diana,
    Do subtil Tesifónio fabricado,
    Heróstrato, por ser da gente humana
    Conhecido no mundo e nomeado:
    Se também com tais obras nos engana
    O desejo de um nome avantajado,
    Mais razão há que queira eterna glória
    Quem faz obras tão dignas de memória."

    Canto Terceiro

    1
    Agora tu, Calíope, me ensina
    O que contou ao Rei o ilustre Gama:
    Inspira imortal canto e voz divina
    Neste peito mortal, que tanto te ama.
    Assim o claro inventor da Medicina,
    De quem Orfeu pariste, ó linda Dama,
    Nunca por Dafne, Clície ou Leucotoe,
    Te negue o amor devido, como soe.

    2
    Põe tu, Ninfa, em efeito meu desejo,
    Como merece a gente Lusitana;
    Que veja e saiba o mundo que do Tejo
    O licor de Aganipe corre e mana.
    Deixa as flores de Pindo, que já vejo
    Banhar-me Apolo na água soberana;
    Senão direi que tens algum receio,
    Que se escureça o teu querido Orfeio.

    3
    Prontos estavam todos escutando
    O que o sublime Gama contaria,
    Quando, depois de um pouco estar cuidando,
    Alevantando o rosto, assim dizia:
    "Mandas-me, ó Rei, que conte declarando
    De minha gente a grão genealogia:
    Não me mandas contar estranha história,
    Mas mandas-me louvar dos meus a glória.

    4
    "Que outrem possa louvar esforço alheio,
    Cousa é que se costuma e se deseja;
    Mas louvar os meus próprios, arreceio
    Que louvor tão suspeito mal me esteja;
    E para dizer tudo, temo e creio,
    Que qualquer longo tempo curto seja:
    Mas, pois o mandas, tudo se te deve,
    Irei contra o que devo, e serei breve.

    5
    "Além disso, o que a tudo enfim me obriga,
    É não poder mentir no que disser,
    Porque de feitos tais, por mais que diga,
    Mais me há-de ficar inda por dizer.
    Mas, porque nisto a ordens leve e siga,
    Segundo o que desejas de saber,
    Primeiro tratarei da larga terra,
    Depois direi da sanguinosa guerra.

    6
    "Entre a Zona que o Cancro senhoreia,
    Meta setentrional do Sol luzente,
    E aquela que por f ria se arreceia
    Tanto, como a do meio por ardente,
    Jaz a soberba Europa, a quem rodeia,
    Pela parte do Areturo, e do Ocidente,
    Com suas salsas ondas o Oceano,
    E pela Austral o mar Mediterrano.

    7
    "Da parte donde o dia vem nascendo,
    Com Ásia se avizinha; mas o rio
    Que dos montes Rifeios vai correndo,
    Na alagoa Meotis, curvo o frio,
    As divide: e o mar que, fero e horrendo,
    Viu dos Gregos o irado senhorio,
    Onde agora de Tróia triunfante
    Não vê mais que a memória o navegante.

    8
    "Lá onde mais debaixo está do Pólo,
    Os montes Hiperbóreos aparecem,
    E aqueles onde sempre sopra Eolo,
    E co'o nome, dos sopros se enobrecem.
    Aqui tão pouca força tem de Apolo
    Os raios que no mundo resplandecem,
    Que a neve está contido pelos montes,
    Gelado o mar, geladas sempre as fontes.

    9
    "Aqui dos Citas grande quantidade
    Vivem, que antigamente grande guerra
    Tiveram, sobre a humana antiguidade,
    Co'os que tinham então a Egípcia terra;
    Mas quem tão fora estava da verdade,
    (Já que o juízo humano tanto erra)
    Para que do mais certo se informara,
    Ao campo Damasceno o perguntara.

    10
    "Agora nestas partes se nomeia
    A Lápia fria, a inculta Noruega,
    Escandinávia Ilha, que se arreia
    Das vitórias que Itália não lhe nega.
    Aqui, enquanto as águas não refreia
    O congelado inverno, se navega
    Um braço do Sarmático Oceano
    Pelo Brúsio, Suécio e frio Dano.

    11
    "Entre este mar e o Tánais vive estranha
    Gente: Rutenos, Moseos e Livónios,
    Sármatas outro tempo; e na montanha
    Hircínia os Marcomanos são Polónios.
    Sujeitos ao Império de Alemanha
    São Saxones, Boêmios e Panónios,
    E outras várias nações, que o Reno frio
    Lava, e o Danúbio, Amasis e Albis rio.

    12
    "Entre o remoto Istro e o claro Estreito,
    Aonde Hele deixou co'o nome a vida,
    Estão os Traces de robusto peito,
    Do fero Marte pátria tão querida,
    Onde, colo Hemo, o Ródope sujeito
    Ao Otomano está, que submetida
    Bizâncio tem a seu serviço indino:
    Boa injúria do grande Constantino!

    13
    "Logo de Macedónia estão as gentes,
    A quem lava do Axio a água fria;
    E vós também, ó terras excelentes
    Nos costumes, engenhos e ousadia,
    Que criastes os peitos eloquentes
    E os juízos de alta fantasia,
    Com quem tu, clara Grécia, o Céu penetras,
    E não menos por armas, que por letras.

    14
    "Logo os Dálmatas vivem; e no seio,
    Onde Antenor já muros levantou,
    A soberba Veneza está no meio
    Das águas, que tão baixa começou.
    Da terra um braço vem ao mar, que cheio
    De esforço, nações várias sujeitou,
    Braço forte, de gente sublimada,
    Não menos nos engenhos, que na espada.

    15
    "Em torno o cerca o Reino Neptunino,
    Co'os muros naturais por outra parte;
    Pelo meio o divide o Apenino,
    Que tão ilustre fez o pátrio Marte;
    Mas depois que o Porteiro tem divino,
    Perdendo o esforço veio, e bélica arte;
    Pobre está já de antiga potestade:
    Tanto Deus se contenta de humildade!

    16
    "Gália ali se verá que nomeada
    Co'os Cesáreos triunfos foi no mundo,
    Que do Séquana e Ródano é regada,
    E do Giruna frio e Reno fundo.
    Logo os montes da Ninfa sepultada
    Pirene se alevantam, que segundo
    Antiguidades contam, quando arderam,
    Rios de ouro e de prata então correram.

    17
    "Eis aqui se descobre a nobre Espanha,
    Como cabeça ali de Europa toda,
    Em cujo senhorio o glória estranha
    Muitas voltas tem dado a fatal roda;
    Mas nunca poderá, com força ou manha,
    A fortuna inquieta pôr-lhe noda,
    Que lhe não tire o esforço e ousadia
    Dos belicosos peitos que em si cria.

    18
    "Com Tingitânia entesta, e ali parece
    Que quer fechar o mar Mediterrano,
    Onde o sabido Estreito se enobrece
    Co'o extremo trabalhado Tebano.
    Com nações diferentes se engrandece,
    Cercadas com as ondas do Oceano;
    Todas de tal nobreza e tal valor,
    Que qualquer delas cuida que é melhor.

    19
    "Tem o Tarragonês, que se fez claro
    Sujeitando Parténope inquieta;
    O Navarro, as Astúrias, que reparo
    Já foram contra a gente Mahometa;
    Tem o Galego cauto, e o grande e raro
    Castelhano, a quem fez o seu Planeta
    Restituidor de Espanha e senhor dela,
    Bétis, Lião, Granada, com Castela.

    20
    "Eis aqui, quase cume da cabeça
    De Europa toda, o Reino Lusitano,
    Onde a terra se acaba e o mar começa,
    E onde Febo repousa no Oceano.
    Este quis o Céu justo que floresça
    Nas armas contra o torpe Mauritano,
    Deitando-o de si fora, e lá na ardente
    África estar quieto o não consente.

    22
    "Esta é a ditosa pátria minha amada,
    A qual se o Céu me dá que eu sem perigo
    Torne, com esta empresa já acabada,
    Acabe-se esta luz ali comigo.
    Esta foi Lusitânia, derivada
    De Luso, ou Lisa, que de Baco antigo
    Filhos foram, parece, ou companheiros,
    E nela então os Íncolas primeiros.

    22
    "Desta o pastor nasceu, que no seu nome
    Se vê que de homem forte os feitos teve;
    Cuja fama ninguém virá que dome,
    Pois a grande de Roma não se atreve.
    Esta, o velho que os filhos próprios come
    Por decreto do Céu, ligeiro e leve,
    Veio a fazer no mundo tanta parte,
    Criando-a Reino ilustre; e foi desta arte:

    23
    "Um Rei, por nome Afonso, foi na Espanha,
    Que fez aos Sarracenos tanta guerra,
    Que por armas sanguinas, força e manha,
    A muitos fez perder a vida o a terra;
    Voando deste Rei a fama estranha
    Do Herculano Calpe à Cáspia serra,
    Muitos, para na guerra esclarecer-se,
    Vinham a ele e à morte oferecer-se.

    24
    "E com um amor intrínseco acendidos
    Da Fé, mais que das honras populares,
    Eram de várias terras conduzidos,
    Deixando a pátria amada e próprios lares.
    Depois que em feitos altos e subidos
    Se mostraram nas armas singulares,
    Quis o famoso Afonso que obras tais
    Levassem prémio digno e dons iguais.

    25
    "Destes Anrique, dizem que segundo
    Filho de um Rei de Ungria exprimentado,
    Portugal houve em sorte, que no mundo
    Então não era ilustre nem prezado;
    E, para mais sinal d'amor profundo,
    Quis o Rei Castelhano, que casado
    Com Teresa, sua filha, o Conde fosse;
    E com ela das terras tornou posse.

    26
    "Este, depois que contra os descendentes
    Da escrava Agar vitórias grandes teve,
    Ganhando muitas terras adjacentes,
    Fazendo o que a seu forte peito deve,
    Em prémio destes feitos excelentes,
    Deu-lhe o supremo Deus, em tempo breve,
    Um filho, que ilustrasse o nome ufano
    Do belicoso Reino Lusitano.

    27
    "Já tinha vindo Anrique da conquista
    Da cidade Hierosólima sagrada,
    E do Jordão a areia tinha vista,
    Que viu de Deus a carne em si lavada;
    Que não tendo Gotfredo a quem resista,
    Depois de ter Judeia sojugada,
    Muitos, que nestas guerras o ajudaram,
    Para seus senhorios se tornaram;

    28
    "Quando chegado ao fim de sua idade,
    O forte e famoso Úngaro estremado,
    Forçado da fatal necessidade,
    O espírito deu a quem lhe tinha dado,
    Ficava o filho em tenra mocidade,
    Em quem o pai deixava seu traslado,
    Que do mundo os mais fortes igualava;
    Que de tal pai tal filho se esperava.

    29
    "Mas o velho rumor, não sei se errado,
    Que em tanta antiguidade não há certeza,
    Conta que a mãe, tomando todo o estado,
    Do segundo himeneu não se despreza.
    O filho órfão deixava deserdado,
    Dizendo que nas terras a grandeza
    Do senhorio todo só sua era,
    Porque, para casar, seu pai lhes dera.

    30
    "Mas o Príncipe Afonso, que desta arte
    Se chamava, do avô tomando o nome,
    Vendo-se em suas terras não ter parte,
    Que a mãe, com seu marido, as manda e come,
    Fervendo-lhe no peito o duro Marte,
    Imagina consigo como as tome.
    Revolvidas as causas no conceito,
    Ao propósito firme segue o efeito.

    31
    "De Guimarães o campo se tingia
    Co'o sangue próprio da intestina guerra,
    Onde a mãe, que tão pouco o parecia,
    A seu filho negava o amor e a terra.
    Com ele posta em campo já se via;
    E não vê a soberba o muito que erra
    Contra Deus, contra o maternal amor;
    Mas nela o sensual era maior.

    32
    "Ó Progne crua! ó mágica Medeia!
    Se em vossos próprios filhos vos vingais
    Da maldade dos pais, da culpa alheia,
    Olhai que inda Teresa peca mais:
    Incontinência má, cobiça feia,
    São as causas deste erro principais:
    Cila, por uma, mata o velho pai,
    Esta, por ambas, contra o filho vai.

    33
    "Mas já o Príncipe claro o vencimento
    Do padrasto e da iníqua mãe levava;
    Já lhe obedece a terra num momento,
    Que primeiro contra ele pelejava.
    Porém, vencido de ira o entendimento,
    A mãe em ferros ásperos atava;
    Mas de Deus foi vingada em tempo breve:
    Tanta veneração aos pais se deve!

    34
    "Eis se ajunta o soberbo Castelhano,
    Para vingar a injúria de Teresa,
    Contra o tão raro em gente Lusitano,
    A quem nenhum trabalho agrava ou pesa.
    Em batalha cruel o peito humano,
    Ajudado da angélica defesa,
    Não só contra tal fúria se sustenta,
    Mas o inimigo aspérrimo afugenta.

    35
    "Não passa muito tempo, quando o forte
    Príncipe em Guimarães está cercado
    De infinito poder; que desta sorte
    Foi refazer-se o inimigo magoado;
    Mas, com se oferecer à dura morte
    O fiel Egas amo, foi livrado;
    Que de outra arte pudera ser perdido,
    Segundo estava mal apercebido.

    36
    "lulas o leal vassalo, conhecendo
    Que seu senhor não tinha resistência,
    Se vai ao Castelhano, prometendo
    Que ele faria dar-lhe obediência.
    Levanta o inimigo o cerco horrendo,
    Fiado na promessa e consciência
    De Egas Moniz; mas não consente o peito
    Do moço ilustre a outrem ser sujeito.

    37
    "Chegado tinha o prazo prometido,
    Em que o Rei Castelhano já aguardava
    Que o Príncipe, a seu mando sometido,
    Lhe desse a obediência que esperava.
    Vendo Egas que ficava fementido,
    O que dele Castela não cuidava,
    Determina de dar a doce vida
    A troco da palavra mal cumprida.

    38
    "E com seus filhos e mulher se parte
    A alevantar com eles a fiança,
    Descalços e despidos, de tal arte,
    Que mais move a piedade que a vingança.
    –"Se pretendes, Rei alto, de vingar-te
    De minha temerária confiança,
    Dizia, eis aqui venho oferecido
    A te pagar, coa vida, o prometido.

    39
    "Vês aqui trago as vidas inocentes
    Dos filhos sem pecado e da consorte;
    Se a peitos generosos e excelentes,
    Dos fracos satisfaz a fera morte.
    Vês aqui as mãos e a língua delinquentes:
    Nelas sós exprimenta toda a sorte
    De tormentos, de mortes, pelo estilo
    De Cínis e do touro de Perilo"!–

    40
    "Qual diante do algoz o condenado,
    Que já na vida a morte tem bebido,
    Põe no cepo a garganta, e já entregado
    Espera pelo golpe tão temido:
    Tal diante do Príncipe indinado,
    Egas estava a tudo oferecido.
    Mas o Rei, vendo a estranha lealdade,
    Mais pôde, enfim, que a ira a piedade.

    41
    "Ó grão fidelidade Portuguesa,
    De vassalo, que a tanto se obrigava!
    Que mais o Persa fez naquela empresa,
    Onde rosto e narizes se cortava?
    Do que ao grande Dario tanto pesa,
    Que mil vezes dizendo suspirava,
    Que mais o seu Zopiro são prezara,
    Que vinte Babilónias que tomara.

    42
    Mas já o Príncipe Afonso aparelhava
    O Lusitano exército ditoso,
    Contra o Mouro que as terras habitava
    D'além do claro Tejo deleitoso;
    Já no campo de Ourique se assentava
    O arraial soberbo e belicoso,
    Defronte do inimigo Sarraceno,
    Posto que em força e gente tão pequeno.

    43
    "Em nenhuma outra cousa confiado,
    Senão no sumo Deus, que o Céu regia,
    Que tão pouco era o povo batizado,
    Que para um só cem Mouros haveria.
    Julga qualquer juízo sossegado
    Por mais temeridade que ousadia,
    Cometer um tamanho ajuntamento,
    Que para um cavaleiro houvesse cento.

    44
    "Cinco Reis Mouros são os inimigos,
    Dos quais o principal Ismar se chama;
    Todos exprimentados nos perigos
    Da guerra, onde se alcança a ilustre fama.
    Seguem guerreiras damas seus amigos,
    Imitando a formosa e forte Dama,
    De quem tanto os Troianos se ajudaram,
    E as que o Termodonte já gostaram.

    45
    "A matutina luz serena e fria,
    As estrelas do Pólo já apartava,
    Quando na Cruz o Filho de Maria,
    Amostrando-se a Afonso, o animava.
    Ele, adorando quem lhe aparecia,
    Na Fé todo inflamado assim gritava:
    –"Aos infiéis, Senhor, aos infiéis,
    E não a mim, que creio o que podeis!"

    46
    "Com tal milagre os ânimos da gente
    Portuguesa inflamados, levantavam
    Por seu Rei natural este excelente
    Príncipe, que do peito tanto amavam;
    E diante do exército potente
    Dos imigos, gritando o céu tocavam,
    Dizendo em alta voz:–"Real, real,
    Por Afonso alto Rei de Portugal."

    47
    "Qual co'os gritos e vozes incitado,
    Pela montanha o rábido Moloso,
    Contra o touro remete, que fiado
    Na força está do corno temeroso:
    Ora pega na orelha, ora no lado,
    Latindo mais ligeiro que forçoso,
    Até que enfim, rompendo-lhe a garganta,
    Do bravo a força horrenda se quebranta:

    48
    "Tal do Rei novo o estâmago acendido
    Por Deus e pelo povo juntamente,
    O Bárbaro comete apercebido,
    Co'o animoso exército rompente.
    Levantam nisto os perros o alarido
    Dos gritos, tocam a arma, ferve a gente,
    As lanças e arcos tomam, tubas soam,
    Instrumentos de guerra tudo atroam.

    49
    "Bem como quando a flama, que ateada
    Foi nos áridos campos (assoprando
    O sibilante Bóreas) animada
    Co'o vento, o seco mato vai queimando;
    A pastoral companha, que deitada
    Co'o doce sono estava, despertando
    Ao estridor do fogo que se ateia,
    Recolhe o fato, e foge para a aldeia:

    50
    "Desta arte o Mouro atónito e torvado,
    Toma sem tento as armas mui depressa;
    Não foge; mas espera confiado,
    E o ginete belígero arremessa.
    O Português o encontra denodado,
    Pelos peitos as lanças lhe atravessa:
    Uns caem meios mortos, e outros vão
    A ajuda convocando do Alcorão.

    51
    "Ali se vêem encontros temerosos,
    Para se desfazer uma alta serra,
    E os animais correndo furiosos
    Que Neptuno amostrou ferindo a terra.
    Golpes se dão medonhos e forçosos;
    Por toda a parte andava acesa a guerra:
    Mas o de Luso arnês, couraça e malha
    Rompe, corta, desfaz, abola e talha.

    52
    "Cabeças pelo campo vão saltando
    Braços, pernas, sem dono e sem sentido;
    E doutros as entranhas palpitando,
    Pálida a cor, o gesto amortecido.
    Já perde o campo o exército nefando;
    Correm rios de sangue desparzido,
    Com que também do campo a cor se perde,
    Tornado carmesi de branco e verde.

    53
    "Já fica vencedor o Lusitano,
    Recolhendo os troféus e presa rica;
    Desbaratado e roto o Mauro Hispano,
    Três dias o grão Rei no campo fiei.
    Aqui pinta no branco escudo ufano,
    Que agora esta vitória certifica,
    Cinco escudos azuis esclarecidos,
    Em sinal destes cinco Reis vencidos,

    54
    "E nestes cinco escudos pinta os trinta
    Dinheiros por que Deus fora vendido,
    Escrevendo a memória em vária tinta,
    Daquele de quem foi favorecido.
    Em cada uni dos cinco, cinco pinta,
    Porque assim fica o número cumprido,
    Contando duas vezes o do meio,
    Dos cinco azuis, que em cruz pintando veio.

    55
    "Passado já algum tempo que passada
    Era esta grão vitória, o Rei subido
    A tomar vai Leiria, que tomada
    Fora, mui pouco havia, do vencido.
    Com esta a forte Arronches sojugada
    Foi juntamente, e o sempre enobrecido
    Scalabicastro, cujo campo ameno,
    Tu, claro Tejo, regas tão sereno.

    56
    "A estas nobres vilas sometidas,
    Ajunta também Mafra, em pouco espaço,
    E nas serras da Lua conhecidas,
    Sojuga a fria Sintra o duro braço;
    Sintra, onde as Naiades, escondidas
    Nas fontes, vão fugindo ao doce laço,
    Onde Amor as enreda brandamente,
    Nas águas acendendo fogo ardente.

    57
    "E tu, nobre Lisboa, que no Mundo
    Facilmente das outras és princesa,
    Que edificada foste do facundo,
    Por cujo engano foi Dardânia acesa;
    Tu, a quem obedece o mar profundo,
    Obedeceste à força Portuguesa,
    Ajudada também da forte armada,
    Que das Boreais partes foi mandada.

    58
    "Lá do Germânico Albis, e do Rene,
    E da fria Bretanha conduzidos,
    A destruir o povo Sarraceno,
    Muitos com tensão santa eram partidos.
    Entrando a boca já do Tejo ameno,
    Co'o arraial do grande Afonso unidos,
    Cuja alta fama então subia aos Céus,
    Foi posto cerco tos muros Ulisseus.

    59
    "Cinco vezes a Lua se escondera,
    E outras tantas mostrara cheio o rosto,
    Quando a cidade entrada se rendera
    Ao duro cerco, que lhe estava posto.
    Foi a batalha tão sanguina e fera,
    Quanto obrigava o firme pressuposto
    De vencedores ásperos e ousados,
    E de vencidos já desesperados.

    60
    "Desta arte enfim tomada se rendeu
    Aquela que, nos tempos já passados,
    A grande força nunca obedeceu
    Dos frios povos Cíticos ousados,
    Cujo poder a tanto se estendeu
    Que o Ibero o viu e o Tejo amedrontados;
    E enfim co'o Bétis tanto alguns puderam
    Que à terra de Vandália nome deram.

    61
    "Que cidade tão forte por ventura
    Haverá que resista, se Lisboa
    Não pôde resistir à força dura
    Da gente, cuja fama tanto voa?
    Já lhe obedece toda a Estremadura,
    Óbidos, Alenquer, por onde soa
    O tom das frescas águas, entre as pedras,
    Que murmurando lava, e Torres Vedras.

    62
    "E vós também, ó terras Transtaganas,
    Afamadas co'o dom da flava Ceres,
    Obedeceis às forças mais que humanas,
    Entregando-lhe os muros e os poderes.
    E tu, lavrador Mouro, que te enganas,
    Se sustentar a fértil terra queres;
    Que Elvas, e Moura, e Serpa conhecidas,
    E Alcácere-do-Sal estão rendidas.

    63
    "Eis a nobre Cidade, certo assento
    Do rebelde Sertório antigamente,
    Onde ora as águas nítidas de argento
    Vem sustentar de longo a terra e a gente,
    Pelos arcos reais, que cento e cento
    Nos ares se alevantam nobremente,
    Obedeceu por meio e ousadia
    De Giraldo, que medos não temia.

    64
    "Já na cidade Beja vai tomar
    Vingança de Trancoso destruída
    Afonso, que não sabe sossegar,
    Por estender coa fama a curta vida.
    Não se lhe pode muito sustentar
    A cidade; mas sendo já rendida,
    Em toda a cousa viva a gente irada
    Provando os fios vai da dura espada.

    65
    "Com estas sojugada foi Palmela,
    E a piscosa Cezimbra, e juntamente,
    Sendo ajudado mais de sua estrela,
    Desbarata um exército potente:
    Sentiu-o a vila, e viu-o a serra dela,
    Que a socorrê-la vinha diligente
    Pela fralda da serra, descuidado
    Do temeroso encontro inopinado.

    66
    "O Rei de Badajoz era alto Mouro,
    Com quatro mil cavalos furiosos,
    Inúmeros peões, d'armas e de ouro
    Guarnecidos, guerreiros e lustrosos.
    Mas, qual no mês de Maio o bravo touro,
    Co'os ciúmes da vaca, arreceosos,
    Sentindo gente o bruto e cego amante
    Salteia o descuidado caminhante:

    67
    "Desta arte Afonso súbito mostrado
    Na gente dá, que passa bem segura,
    Fere, mata, derriba denodado;
    Foge o Rei Mouro, e só da vida cura.
    Dum pânico terror todo assombrado,
    Só de segui-lo o exército procura;
    Sendo estes que fizeram tanto abalo
    Não mais que só sessenta de cavalo.

    68
    "Logo segue a vitória sem tardança
    O grão Rei incansábil, ajuntando
    Gentes de todo o Reino, cuja usança
    Era andar sempre terras conquistando.
    Cercar vai Badajoz, e logo alcança
    O fim de seu desejo, pelejando
    Com tanto esforço, e arte, e valentia,
    Que a fez fazer às outras companhia.

    69
    "Mas o alto Deus, que para longe guarda
    O castigo daquele que o merece,
    Ou, para que se emende, às vezes tarda,
    Ou por segredos que homem não conhece,
    Se até que sempre o forte Rei resguarda
    Dos perigos a que ele se oferece;
    Agora lhe não deixa ter defesa
    Da maldição da mãe que estava presa.

    70
    "Que estando na cidade, que cercara,
    Cercado nela foi dos Lioneses,
    Porque a conquista dela lhe tomara,
    De Lião sendo, e não dos Portugueses.
    A pertinácia aqui lhe custa cara,
    Assim como acontece muitas vezes,
    Que em ferros quebra as pernas, indo aceso
    A batalha, onde foi vencido e preso.

    71
    "Ó famoso Pompeio, não te pene
    De teus feitos ilustres a ruína,
    Nem ver que a justa Némesis ordene
    Ter teu sogro de ti vitória dina,
    Posto que o frio Fásis, ou Siene,
    Que para nenhum cabo a sombra inclina,
    O Bootes gelado e a linha ardente,
    Temessem o teu nome geralmente.

    72
    "Posto que a rica Arábia e que os ferozes
    Eníocos e Colcos, cuja fama
    O Véu dourado estende, e os Capadoces,
    E Judeia, que um Deus adora e ama,
    E que os moles Sofenos, e os atroces
    Cilícios, com a Arménia, que derrama
    As águas dos dous rios, cuja fonte
    Está noutro mais alto e santo monte;

    73
    "E posto enfim que desde o mar de Atlante
    Até o Cítico Tauro monte erguido,
    Já vencedor te vissem, não te espanto
    Se o campo Emátio só te viu vencido,
    Porque Afonso verás, soberbo e ovante,
    Tudo render-se ser depois rendido.
    Assim o quis o conselho alto e celeste,
    Que vença o sogro a ti, e o genro a este.

    74
    "Tornado o Rei sublime finalmente,
    Do divino Juízo castigado,
    Depois que em Santarém soberbamente
    Em vão dos Sarracenos foi cercado,
    E depois que do mártire Vicente
    O santíssimo corpo venerado
    Do Sacro Promontório conhecido
    A cidade Ulisseia foi trazido;

    75
    "Porque levasse avante seu desejo,
    Ao forte filho manda o lasso velho
    Que às terras se passasse d'Alentejo,
    Com gente e co'o belígero aparelho.
    Sancho, d'esforço o d'ânimo sobejo,
    Avante passa, e faz correr vermelho
    O rio que Sevilha vai regando,
    Co'o sangue Mauro, bárbaro e nefando.

    76
    "E com esta vitória cobiçoso,
    Já não descansa o moço até que veja
    Outro estrago como este, temeroso,
    No Bárbaro que tem cercado Beja.
    Não tarda muito o Príncipe ditoso
    Sem ver o fim daquilo que deseja.
    Assim estragado o Mouro, na vingança
    De tantas perdas põe sua esperança.

    77
    "Já se ajuntam do monte a quem Medusa
    O corpo fez perder, que teve o Céu;
    Já vem do promontório de Ampelusa
    E do Tinge, que assento foi de Anteu.
    O morador de Abila não se escusa,
    Que também com suas armas se moveu,
    Ao som da Mauritana e ronca tuba,
    Todo o Reino que foi do nobre Juba.

    78
    "Entrava com toda esta companhia
    O Miralmomini em Portugal;
    Treze Reis mouros leva de valia,
    Entre os quais tem o ceptro imperial;
    E assim fazendo quanto mal podia,
    O que em partes podia fazer mal,
    Dom Sancho vai cercar em Santarém;
    Porém não lhe sucede muito bem.

    79
    "Dá-lhe combates ásperos, fazendo
    Ardis de guerra mil o Mouro iroso;
    Não lhe aproveita já trabuco horrendo,
    Mina secreta, aríete forçoso:
    Porque o filho de Afonso não perdendo
    Nada do esforço e acordo generoso,
    Tudo provê com ânimo e prudência;
    Que em toda a parte há esforço e resistência.

    80
    "Mas o velho, a quem tinham já obrigado
    Os trabalhosos anos ao sossego,
    Estando na cidade, cujo prado
    Enverdecem as águas do Mondego,
    Sabendo como o filho está cercado
    Em Santarém do Mauro povo cego,
    Se parte diligente da cidade;
    Que não perde a presteza coa idade.

    81
    "E coa famosa gente à guerra usada
    Vai socorrer o filho; e assim ajuntados,
    A Portuguesa fúria costumada
    Em breve os Mouros tem desbaratados.
    A campina, que toda está coalhada
    De marlotas, capuzes variados,
    De cavalos, jaezes, presa rica,
    De seus senhores mortos cheia fica.

    82
    "Logo todo o restante se partiu
    De Lusitânia, postos em fugida;
    O Miralmomini só não fugiu,
    Porque, antes de fugir, lhe foge a vida.
    A quem lhe esta vitória permitiu
    Dão louvores e graças sem medida:
    Que em casos tão estranhos claramente
    Mais peleja o favor de Deus que a gente.

    83
    "De tamanhas vitórias triunfava
    O velho Afonso, Príncipe subido,
    Quando, quem tudo enfim vencendo andava,
    Da larga e muita idade foi vencido.
    A pálida doença lhe tocava
    Com fria mão o corpo enfraquecido;
    E pagaram seus anos deste jeito
    A triste Libitina seu direito.

    84
    "Os altos promontórios o choraram,
    E dos rios as águas saudosas
    Os semeados campos alagaram
    Com lágrimas correndo piedosas.
    Mas tanto pelo mundo se alargaram
    Com faina suas obras valerosas,
    Que sempre no seu Reino chamarão
    "Afonso, Afonso" os ecos, mas em vão.

    85
    "Sancho, forte mancebo, que ficara
    Imitando seu pai na valentia,
    E que em sua vida já se exprimentara,
    Quando o Bétis de sangue se tingia,
    E o bárbaro poder desbaratara
    Do Ismaelita Rei de Andaluzia;
    E mais quando os que Beja em vão cercaram,
    Os golpes de seu braço em si provaram;

    86
    "Depois que foi por Rei alevantado,
    Havendo poucos anos que reinava,
    A cidade de Silves tem cercado,
    Cujos campos o bárbaro lavrava.
    Foi das valentes gentes ajudado
    Da Germânica armada que passava,
    De armas fortes e gente apercebida,
    A recobrar Judeia já perdida.

    87
    "Passavam a ajudar na santa empresa
    O roxo Federico, que moveu
    O poderoso exército em defesa
    Da cidade onde Cristo padeceu,
    Quando Guido, coa gente em sede acesa,
    Ao grande Saladino se rendeu,
    No lugar onde aos Mouros sobejavam
    As águas que os de Guido desejavam.

    88
    "Mas a formosa armada, que viera
    Por contraste de vento àquela parte,
    Sancho quis ajudar na guerra fera,
    Já que em serviço vai do santo Marte.
    Assim como a seu pai acontecera
    Quando tomou Lisboa, da mesma arte
    Do Germano ajudado Silves toma,
    E o bravo morador destrue e doma.

    89
    "E se tantos troféus do Mahometa
    Alevantando vai, também do forte
    Lionês não consente estar quieta
    A terra, usada aos casos de Mavorte,
    Até que na cerviz seu jugo meta
    Da soberba Tui, que a mesma sorte
    Viu ter a muitas vilas suas vizinhas,
    Que, por armas, tu, Sancho, humildes tinhas.

    90
    "Mas entre tantas palmas salteado
    Da temerosa morte, fica herdeiro
    Um filho seu, de todos estimado,
    Que foi segundo Afonso, e Rei terceiro.
    No tempo deste, aos Mouros foi tomado
    Alcácere-do-Sal por derradeiro;
    Porque dantes os Mouros o tomaram,
    Mas agora estruídos o pagaram.

    91
    "Morto depois Afonso, lhe sucede
    Sancho segundo, manso e descuidado,
    Que tanto em seus descuidos se desmede,
    Que de outrem, quem mandava, era mandado.
    De governar o Reino, que outro pede,
    Por causa dos privados foi privado,
    Porque, como por eles se regia,
    Em todos os seus vícios consentia.

    92
    "Não era Sancho, não, tão desonesto
    Como Nero, que um moço recebia
    Por mulher, e depois horrendo incesto
    Com a mãe Agripina cometia;
    Nem tão cruel às gentes e molesto,
    Que a cidade queimasse onde vivia,
    Nem tão mau como foi Heliogabalo,
    Nem como o mole Rei Sardanapalo.

    93
    "Nem era o povo seu tiranizado,
    Como Sicília foi de seus tiranos;
    Nem tinha como Fálaris achado
    Gênero de tormentos inumanos;
    Mas o Reino, de altivo e costumado
    A senhores em tudo soberanos,
    A Rei não obedece, nem consente,
    Que não for mais que todos excelente.

    94
    "Por esta causa o Reino governou
    O Conde Bolonhês, depois alçado
    Por Rei, quando da vida se apartou
    Seu irmão Sancho, sempre ao ócio dado.
    Este, que Afonso o bravo, se chamou,
    Depois de ter o Reino segurado,
    Em dilatá-lo cuida, que em terreno
    Não cabe o altivo peito, tão pequeno.

    95
    "Da terra dos Algarves, que lhe fora
    Em casamento dada, grande parte
    Recupera co'o braço, e deita fora
    O Mouro, mal querido já de Marte.
    Este de todo fez livre e senhora
    Lusitânia, com força e bélica arte;
    E acabou de oprimir a nação forte,
    Na terra que aos de Luso coube em sorte.

    96
    "Eis depois vem Dinis, que bem parece
    Do bravo Afonso estirpe nobre e dina,
    Com quem a fama grande se escurece
    Da liberalidade Alexandrina.
    Com este o Reino próspero florece
    (Alcançada já a paz áurea divina)
    Em constituições, leis e costumes,
    Na terra já tranquila claros lumes.

    97
    "Fez primeiro em Coimbra exercitar-se
    O valeroso ofício de Minerva;
    E de Helicona as Musas fez passar-se
    A pisar do Monde-o a fértil erva.
    Quanto pode de Atenas desejar-se,
    Tudo o soberbo Apolo aqui reserva.
    Aqui as capelas dá tecidas de ouro,
    Do bácaro e do sempre verde louro.

    98
    "Nobres vilas de novo edificou
    Fortalezas, castelos mui seguros,
    E quase o Reino todo reformou
    Com edifícios grandes, e altos muros.
    Mas depois que a dura Átropos cortou
    O fio de seus dias já maduros,
    Ficou-lhe o filho pouco obediente,
    Quarto Afonso, mas forte e excelente.

    99
    "Este sempre as soberbas Castelhanas
    Co'o peito desprezou firme e sereno,
    Porque não é das forças Lusitanas,
    Temer poder maior, por mais pequeno.
    Mas porém, quando as gentes Mauritanas,
    A possuir o Hespérico terreno
    Entraram pelas terras de Castela,
    Foi o soberbo Afonso a socorrê-la.

    100
    "Nunca com Semirâmis gente tanta
    Veio os campos idáspicos enchendo,
    Nem Atila, que Itália toda espanta,
    Chamando-se de Deus açoute horrendo,
    Gótica gente trouxe tanta, quanta
    Do Sarraceno bárbaro estupendo,
    Co'o poder excessivo de Granada,
    Foi nos campos Tartésios ajuntada.

    101
    "E vendo o Rei sublime Castelhano
    A força inexpugnábil, grande e forte,
    Temendo mais o fim do povo hispano,
    Já perdido uma vez, que a própria morte,
    Pedindo ajuda ao forte Lusitano,
    Lhe mandava a caríssima consorte,
    Mulher de quem a manda, e filha amada
    Daquele a cujo Reino foi mandada.

    102
    "Entrava a formosíssima Maria
    Pelos paternais paços sublimados,
    Lindo o gesto, mas fora de alegria,
    E seus olhos em lágrimas banhados;
    Os cabelos angélicos trazia
    Pelos ebúrneos ombros espalhados:
    Diante do pai ledo, que a agasalha,
    Estas palavras tais, chorando, espalha:

    103
    –"Quantos povos a terra produziu
    De África toda, gente fera e estranha,
    O grão Rei de Marrocos conduziu
    Para vir possuir a nobre Espanha:
    Poder tamanho junto não se viu,
    Depois que o salso mar a terra banha.
    Trazem ferocidade, e furor tanto,
    Que a vivos medo, e a mortos faz espanto.

    104
    –"Aquele que me deste por marido,
    Por defender sua terra amedrontada,
    Co'o pequeno poder, oferecido
    Ao duro golpe está da Maura espada;
    E se não for contigo socorrido,
    Ver-me-ás dele e do Reino ser privada,
    Viúva e triste, e posta em vida escura,
    Sem marido, sem Reino, e sem ventura.

    105
    "Portanto, ó Rei, de quem com puro medo
    O corrente Muluca se congela,
    Rompe toda a tardança, acude cedo
    A miseranda gente de Castela.
    Se esse gesto, que mostras claro e ledo,
    De pai o verdadeiro amor assela,
    Acude e corre, pai, que se não corres,
    Pode ser que não aches quem socorres."–

    106
    "Não de outra sorte a tímida Maria
    Falando está, que a triste Vénus, quando
    A Júpiter, seu pai, favor pedia
    Para Eneias, seu filho, navegando;
    Que a tanta piedade o comovia
    Que, caído das mãos o raio infando,
    Tudo o clemente Padre lhe concede,
    Pesando-lhe do pouco que lhe pede.

    107
    "Mas já co'os esquadrões da gente armada
    Os Eborenses campos vão coalhados:
    Lustra co'o Sol o arnês, a lança, a espada;
    Vão rinchando os cavalos jaezados.
    A canora trombeta embandeirada,
    Os corações à paz acostumados
    Vai às fulgentes armas incitando,
    Pelas concavidades retumbando.

    108
    "Entre todos no meio se sublima,
    Das insígnias Reais acompanhado,
    O valeroso Afonso, que por cima
    De todos leva o colo alevantado;
    E somente co'o gesto esforça e anima
    A qualquer coração amedrontado.
    Assim entra nas terras de Castela
    Com a filha gentil, Rainha dela.

    109
    "Juntos os dous Afonsos finalmente
    Nos campos de Tarifa estão defronte
    Da grande multidão da cega gente,
    Para quem são pequenos campo e monte.
    Não há peito tão alto e tão potente,
    Que de desconfiança não se afronte,
    Enquanto não conheça e claro veja
    Que co'o braço dos seus Cristo peleja.

    110
    "Estão de Agar os netos quase rindo
    Do poder dos Cristãos fraco e pequeno,
    As terras como suas repartindo
    Antemão, entre o exército Agareno,
    Que com título falso possuindo
    Está o famoso nome Sarraceno.
    Assim também com falsa conta e nua,
    À nobre terra alheia chamam sua.

    111
    "Qual o membrudo e bárbaro Gigante,
    Do rei Saul, com causa, tão temido,
    Vendo o pastor inerme estar diante,
    Só de pedras e esforço apercebido,
    Com palavras soberbas o arrogante
    Despreza o fraco moço mal vestido,
    Que, rodeando a funda, o desengana
    Quanto mais pode a Fé que a força humana:

    112
    "Desta arte o Mouro pérfido despreza
    O poder dos Cristãos, e não entende
    Que está ajudado da Alta Fortaleza,
    A quem o inferno horrífico se rende.
    Co ela o Castelhano, e com destreza
    De Marrocos o Rei comete e ofende.
    O Português, que tudo estima em nada,
    Se faz temer ao Reino de Granada.

    113
    "Eis as lanças e espadas retiniam
    Por cima dos arneses: bravo estrago!
    Chamam (segundo as leis que ali seguiam)
    Uns Mafamede, e os outros Santiago.
    Os feridos com grita o Céu feriam,
    Fazendo de seu sangue bruto lago,
    Onde outros meios mortos se afogavam,
    Quando do ferro as vidas escapavam.

    114
    "Com esforço tamanho estrui e mata
    O Luso ao Granadil, que, em pouco espaço,
    Totalmente o poder lhe desbarata,
    Sem lhe valer defesa ou peito de aço.
    De alcançar tal vitória tão barata
    Inda não bem contente o forte braço,
    Vai ajudar ao bravo Castelhano,
    Que pelejando está co'o Mauritano.

    115
    "Já se ia o Sol ardente recolhendo
    Para a casa de Tethys, e inclinado
    Para o Ponente, o Véspero trazendo,
    Estava o claro dia memorado,
    Quando o poder do Mauro grande e horrendo
    Foi pelos fortes Reis desbaratado,
    Com tanta mortandade, que a memória
    Nunca no mundo viu tão grã vitória.

    116
    "Não matou a quarta parte o forte Mário
    Dos que morreram neste vencimento,
    Quando as águas co'o sangue do adversário
    Fez beber ao exército sedento;
    Nem o Peno asperíssimo contrário
    Do Romano poder, de nascimento,
    Quando tantos matou da ilustro Roma,
    Que alqueires três de anéis dos mortos toma.

    117
    "E se tu tantas almas só pudeste
    Mandar ao Reino escuro de Cocito,
    Quando a santa Cidade desfizeste
    Do povo pertinaz no antigo rito:
    Permissão e vingança foi celeste,
    E não força de braço, ó nobre Tito,
    Que assim dos Vates foi profetizado,
    E depois por Jesu certificado.

    118
    "Passada esta tão próspera vitória,
    Tornando Afonso à Lusitana terra,
    A se lograr da paz com tanta glória
    Quanta soube ganhar na dura guerra,
    O caso triste, e dino da memória,
    Que do sepulcro os homens desenterra,
    Aconteceu da mísera e mesquinha
    Que depois de ser morta foi Rainha.

    119
    "Tu só, tu, puro Amor, com força crua,
    Que os corações humanos tanto obriga,
    Deste causa à molesta morte sua,
    Como se fora pérfida inimiga.
    Se dizem, fero Amor, que a sede tua
    Nem com lágrimas tristes se mitiga,
    É porque queres, áspero e tirano,
    Tuas aras banhar em sangue humano.

    120
    "Estavas, linda Inês, posta em sossego,
    De teus anos colhendo doce fruto,
    Naquele engano da alma, ledo e cego,
    Que a fortuna não deixa durar muito,
    Nos saudosos campos do Mondego,
    De teus fermosos olhos nunca enxuto,
    Aos montes ensinando e às ervinhas
    O nome que no peito escrito tinhas.

    121
    "Do teu Príncipe ali te respondiam
    As lembranças que na alma lhe moravam,
    Que sempre ante seus olhos te traziam,
    Quando dos teus fermosos se apartavam:
    De noite em doces sonhos, que mentiam,
    De dia em pensamentos, que voavam.
    E quanto enfim cuidava, e quanto via,
    Eram tudo memórias de alegria.

    122
    "De outras belas senhoras e Princesas
    Os desejados tálamos enjeita,
    Que tudo enfim, tu, puro amor, despreza,
    Quando um gesto suave te sujeita.
    Vendo estas namoradas estranhezas
    O velho pai sesudo, que respeita
    O murmurar do povo, e a fantasia
    Do filho, que casar-se não queria,

    123
    "Tirar Inês ao mundo determina,
    Por lhe tirar o filho que tem preso,
    Crendo co'o sangue só da morte indina
    Matar do firme amor o fogo aceso.
    Que furor consentiu que a espada fina,
    Que pôde sustentar o grande peso
    Do furor Mauro, fosse alevantada
    Contra uma fraca dama delicada?

    124
    "Traziam-na os horríficos algozes
    Ante o Rei, já movido a piedade:
    Mas o povo, com falsas e ferozes
    Razões, à morte crua o persuade.
    Ela com tristes o piedosas vozes,
    Saídas só da mágoa, e saudade
    Do seu Príncipe, e filhos que deixava,
    Que mais que a própria morte a magoava,

  • Os fidalgos da Casa Mourisca

    Os fidalgos da Casa Mourisca

    Aproximadamente 147.699 palavras.

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    OS FIDALGOS DA CASA MOURISCA

    OS FIDALGOS

    DA

    CASA MOURISCA

    CHRONICA DA ALDEIA

    POR

    *JULIO DINIZ*

    *VOLUME I*

    *PORTO*

    TYPOGRAPHIA DO JORNAL DO PORTO
    Rua Ferreira Borges, 31

    1871

    OS FIDALGOS DA CASA MOURISCA

    I

    A tradição popular em Portugal, nos assumptos de historia patria, não se
    remonta além do periodo da dominação arabe nas Hespanhas.

    Pouco ou nada sabe o povo de celtiberos, de romanos e de wisigodos. É,
    porém, entre elle noção corrente que, em outros tempos, fôra este paiz
    habitado por mouros, e que só á força de cutiladas e de botes de lança
    os expulsaram os christãos para as terras da Mourama. Os vultos heroicos
    de reis e cavalleiros nossos, que se assignalaram nas luctas d'essa
    época, ainda não desappareceram das chronicas oraes, onde vivem
    illuminados por a mesma poetica luz das xacaras e dos romances
    nacionaes; e hoje ainda, nas dansas e jogos que se celebram nos logares
    publicos das villas e aldeias, por occasião das principaes solemnidades
    do anno, apraz-se a memoria do povo de recordar os feitos d'aquelles
    tempos historicos por meio de simulados combates de mouros e christãos.

    Nos contos narrados em volta da lareira, onde nas longas noites de serão
    se reune a familia rustica, ou ás rapidas horas d'uma noite de estio, na
    soleira da porta, ao auditorio attento que segue com os olhos a lua em
    silenciosa carreira por um céo sem estrellas, avulta uma creação
    extremamente sympathica, a das mouras encantadas, princezas
    formosissimas que ficaram d'esses remotos tempos na peninsula, em paços
    invisiveis, á espera de quem lhes venha quebrar o captiveiro, soltando a
    palavra magica.

    Falla-se em diversos pontos das nossas provincias, com a seriedade que é
    propria a uma arreigada crença, de thesouros enterrados, que os mouros
    por ahi deixaram, na esperança de voltarem um dia a resgatal-os, e já
    não tem sido poucas as escavações emprehendidas no ávido intuito de os
    descobrir.

    Esta mesma noção historica do povo é a que dá logar a um outro frequente
    facto. Quando, no centro de qualquer aldeia, se eleva um palacio, um
    solar de familia, distincto dos edificios communs por uma qualquer
    particularidade architectonica mais saliente, ouvireis no sitio
    designal-o por o nome de Casa Mourisca, e, se não se guarda ahi memoria
    da sua fundação, a chronica lhe assignará infallivelmente como data a
    lendaria e mysteriosa época dos mouros.

    Era o que succedia com o solar dos senhores Negrões de Villar de Corvos,
    que, em tres leguas em redondo, eram por isso conhecidos pelo nome dos
    Fidalgos da Casa Mourisca.

    Não se persuada o leitor de que possuia aquelle solar feição
    pronunciadamente arabe, que justificasse a denominação popular, ou que
    mãos agarenas houvessem de feito cimentado os alicerces da casa nobre
    denominada assim. Ás pequenas torres quadradas, que se erguiam, coroadas
    de ameias, nos quatro angulos do edificio, ao desenho ogival das portas
    e janellas, ás estreitas setteiras abertas nos muros, e finalmente a
    certo ar de castello feudal, que um dos antepassados d'esta fidalga
    familia tentou dar aos paços de sua residencia senhoril, devêra ella a
    qualificação de mourisca, que persistira, apesar dos protestos da arte.
    Nenhum estylo architectonico fôra na construcção escrupulosamente
    respeitado; o gosto e capricho do proprietario presidiram mais que tudo
    á traça e execução da obra; não ha pois exigencias artisticas que me
    imponham a obrigação de descrevel-a miudamente.

    Diga-se porém a verdade; fossem quaes fossem os defeitos de
    architectura, as incongruencias e absurdos d'aquella fabrica grandiosa,
    quem, ao dobrar a ultima curva da estrada irregular por onde se vinha á
    aldeia, via surgir de repente do seio de um arvoredo secular aquelle
    vulto escuro e sombrio, contrastando com os brancos e risonhos casaes
    disseminados por entre a verdura das collinas proximas, mal podia reter
    uma exclamação de surpreza e involuntariamente parava a contemplal-o.

    Ou o sol no poente lhe doirasse a fachada de granito, ou as ameias, que
    o coroavam, se desenhassem como negra dentadura no céo azul, alumiado
    pela claridade matinal, era sempre melancolico e triste o aspecto
    d'aquella residencia, sempre magestoso e severo.

    Reparando mais attentamente, outros motivos concorriam ainda para
    fortalecer esta primeira impressão. O tempo não se limitára a colorir o
    velho solar com as tintas negras da sua palheta; derrocára-lhe aqui e
    além uma ameia ou um balaustre do eirado, mutilára-lhe a cruz da
    capella, desconjunctára-lhe a cantaria em extensos lanços de muro,
    abrindo-lhe intersticios, d'onde irrompia uma inutil vegetação parasita:
    e esta permanencia de estragos, trahindo a incuria ou a insufficiencia
    de meios do proprietario actual, iniciava no espirito do observador uma
    serie de melancolicas reflexões.

    E se o movesse a curiosidade a indagar na visinhança informações sobre a
    familia que alli habitava, obtel-as-ia proprias a corroborar-lhe os seus
    primeiros e espontaneos juizos.

    Os chamados Fidalgos da Casa Mourisca eram actualmente tres. D. Luiz, o
    pae, velho sexagenario, grave, severo, e taciturno; Jorge e Mauricio, os
    seus dois filhos, robustos e esbeltos rapazes: o mais velho dos quaes,
    Jorge, ainda não completára vinte e tres annos.

    A historia d'aquella casa era a historia sabida dos ricos fidalgos da
    provincia, que, orgulhosos e imprevidentes, deixaram, a pouco e pouco,
    embaraçar as propriedades com hypothecas e contractos ruinosos,
    desfallecer a cultura nos campos, empobrecer os celleiros, despovoar os
    curraes, exhaurir a seiva da terra, transformar longas varzeas em
    charnecas, e desmoronarem-se as paredes das residencias e das granjas e
    os muros de circunscripção das quintas.

    Filho segundo de uma das mais nobres familias da provincia, D. Luiz fôra
    pelos paes destinado para a carreira diplomatica, na qual entrou
    apadrinhado e favorecido por os mais altos personagens da côrte.

    Nas primeiras capitaes da Europa, em cujas embaixadas serviu, obteve o
    fidalgo provinciano um grau de illustração e de tracto do mundo, um
    verniz social, que nunca adquiriria se, como tantos, de moço se creasse
    para morgado.

    Quando, por morte do primogenito, veio a succeder nos vinculos, D. Luiz
    podia considerar-se, graças á occupação dos seus primeiros annos de
    mocidade, como o mais instruido e civilisado proprietario da sua
    provincia; e como tal effectivamente foi sempre havido pelos outros, que
    o tractavam com uma deferencia excepcional.

    Ainda depois da morte do irmão, D. Luiz, costumado ao viver da grande
    sociedade e á esplendida elegancia das côrtes estrangeiras, não
    abandonou a carreira que encetára. Secretario de embaixada em Vienna,
    casou alli com a filha de um fidalgo portuguez, que então residia n'essa
    corte, encarregado de negocios politicos.

    Ao manifestarem-se em Portugal os primeiros symptomas da profunda
    revolução, que devia alterar a face social do paiz, D. Luiz mostrou-se
    logo hostil ao movimento nascente, e abandonando então o seu logar
    diplomatico, voltou ao reino para representar um papel importante nas
    scenas politicas d'essa época.

    Ahi tiveram origem grande parte dos desgostos domesticos, que lhe
    amarguraram o resto da vida.

    Os parentes de sua esposa abraçaram a causa liberal.

    D. Luiz, com toda a intolerancia partidaria, rompeu completamente as
    relações com elles, ferindo assim no intimo os affectos mais sanctos da
    pobre senhora, que sentia esmagar-se-lhe o coração entre as fortes e
    irreconciliaveis paixões dos que ella com igual affecto amava.

    O rancor faccioso foi ainda mais longe em D. Luiz. Impelliu-o á
    perseguição.

    O irmão mais novo da esposa, obedecendo ao enthusiasmo de rapaz e á
    vehemencia de uma convicção sincera, sustentára com a penna, e mais
    tarde com a espada, a causa da ideia nova, que tanto namorava os animos
    generosos e juvenis.

    Sobre a bella e arrojada cabeça d'aquelle adolescente pesaram as sombras
    das suspeitas e das vinganças politicas; e D. Luiz, cego pela paixão,
    não duvidou em fazer-se instrumento d'ellas.

    Este era o irmão querido da esposa, que o fidalgo estremecia; mas nem as
    supplicas, nem as lagrimas d'ella puderam abrandar a força d'aquelle
    rancor.

    O imprudente moço viu-se perseguido, prêso, processado e em quasi
    imminente risco de expiar, como tantos, no supplicio o crime de pensar
    livremente. Conseguindo, quasi por milagre, escapar á furia dos seus
    perseguidores, emigrou para voltar mais tarde n'essa memoranda
    expedição, que principiou em Portugal a heroica iliada da nossa
    emancipação politica.

    Guerreiro tão fogoso, como o fôra publicista, o pobre rapaz não assistiu
    porém á victoria da sua causa. Ao raiar da aurora liberal, por que tanto
    anhelava, cahiu em uma das ultimas e mais disputadas refregas d'aquella
    sanguinolenta lucta, crivado de balas inimigas, sendo a sua ultima voz
    um grito de enthusiasmo pela grande ideia, em cujo martyrologio se ia
    inscrever o seu nome.

    A morte d'este enthusiasta levou o lucto e a tristeza ao solar de D.
    Luiz. O coração amoravel e extremoso da infeliz senhora recebeu então um
    golpe decisivo; das consequencias d'aquella dôr nunca mais podia ella
    convalescer. A sua vida foi depois toda para luto e para lagrimas.

    Fez-se a paz, implantou-se no paiz a arvore da liberdade; D. Luiz deixou
    então a vida da côrte e veio encerrar no canto da provincia os seus
    despeitos, os seus odios e os seus desalentos. Trouxe comsigo um enxame
    de misanthropos, a quem o sol da liberdade igualmente incommodava, e que
    tinham resolvido pedir á natureza conforto contra os suppostos delictos
    da humanidade.

    O solar do fidalgo transformou-se pois em asylo de muitos
    correligionarios, como elle desgostosos e irreconciliaveis com a nova
    organisação social.

    Instituiu-se alli uma pequena côrte na aldeia, uma especie de assembleia
    ou conventiculo politico, que não poucas vezes attrahiu as vistas dos
    liberaes desconfiados e as ameaças dos mais insoffridos. Havia alli
    homens de todas as condições, e alguns de illustração e sciencia.

    A hospitalidade do fidalgo era magnifica. D. Luiz mostrava ignorar, ou
    não querer saber, qual o preço por que ella lhe ficava. Indifferente a
    tudo, dir-se-ia sêl-o tambem á ruina da sua propria casa, que apressava
    assim.

    A victoria da causa contraria; a morte, em curtos intervallos, de tres
    filhos, que parecia cahirem victimas de uma sentença fatal; o receio
    pela vida dos outros; a tristeza e doença progressivas da esposa, a quem
    aquelles odios e luctas tinham despedaçado o coração; ás vezes uma vaga
    consciencia da sua situação precaria, e por ventura ainda remorsos pelas
    violencias, a que os odios politicos o impelliram, quebrantaram o
    caracter, outr'ora varonil, d'aquelle homem, que desde então começou a
    mostrar-se taciturno e descoroçoado. A prova evidente de que alguns
    remorsos tambem lhe torturavam o espirito fôra a insolita generosidade,
    com que recebeu e gasalhou permanentemente em sua casa um pobre soldado
    do exercito liberal, meio mutilado pela guerra d'esses tempos, e que
    tinha sido o fiel camarada do infeliz mancebo, contra quem tanto se
    encarniçára o odio do implacavel realista.

    Viera o soldado entregar á esposa do fidalgo uma medalha, ultima
    lembrança do irmão que lh'a enviára, quando já agonisante no campo do
    combate. Havia-a confiado ao camarada para que a entregasse áquella, a
    quem tanto queria.

    D. Luiz não só permittiu que o soldado fizesse a entrega em mão propria
    da esposa, mas deixou-o com ella em larga conferencia, não querendo que
    a sua presença a reprimisse na ancia natural de saber as menores
    particularidades da vida e da morte do infeliz, de quem o emissario fôra
    companheiro inseparavel. Não se limitou a isso a tolerancia do fidalgo.
    Viu, sem a menor reflexão, que o mensageiro se demorava alguns dias na
    Casa Mourisca, e não oppôz resistencia alguma ao pedido, que a esposa
    mais tarde lhe fez para que o deixasse ficar alli, no logar do hortelão
    que fallecêra.

    Este facto insignificante foi de não pequena influencia nos destinos
    d'aquella familia.

    Os filhos de D. Luiz, creados no meio d'essa côrte de provincia,
    cresciam sob influencias que actuavam d'uma maneira contradictoria sobre
    os seus caracteres infantis.

    Não lhes faltavam mestres que os instruissem, que muitos eram os
    habilitados para isso nas salas do fidalgo, refugio de tantos illustres
    descontentes. Graças a estas especiaes condições, puderam os dois
    rapazes receber uma educação, difficil de conseguir em um canto tão
    retirado da provincia, como aquelle era.

    Mas, ao lado da lição dos mestres, que, juntamente com a sciencia, se
    esforçavam por imbuir-lhes os seus principios politicos, aos quaes se
    atinham como a artigos de fé, havia uma outra lição mais obscura, mas
    por ventura mais efficaz. Era a lição da mãe e a do veterano.

    A esposa de D. Luiz era uma senhora de esmeradissima educação e de um
    profundo bom senso. Amava o marido, mas via com pezar os excessos, a que
    o impelliam as suas opiniões politicas. Educada no seio de uma familia
    liberal, possuia sentimentos favoraveis ás ideias novas; mas sabia
    guardal-os no coração, para não despertar conflictos na familia.

    Porém, no tracto intimo entre mãe e filhos, trahia-se muita vez essa
    prudente discrição, e as fidalgas crianças iam recebendo a doutrina, de
    que os outros lhes blasphemavam como de heresias, e naturalmente,
    seduzidas pela origem d'onde ella lhes vinha, abriam-lhe de melhor
    vontade o coração, do que aos preceitos austeros e um pouco pedantescos
    dos mestres.

    Demais, ouviam tantas vezes a mãe fallar-lhes do irmão que perdêra, dos
    seus sentimentos generosos, do seu nobre caracter e da sua dedicação
    heroica a bem da causa liberal, que elles, e o mais velho sobre tudo,
    costumaram-se a venerar a memoria do tio, como a de um heroe e a de um
    martyr e a vêl-o aureolado de um verdadeiro prestigio lendario.

    Para isto porém concorreu mais que outrem o hortelão.

    O velho soldado era uma chronica viva das batalhas e façanhas d'aquelles
    tempos historicos e um panegyrista ardente do seu pobre official, cujo
    ultimo suspiro recolhêra.

    As crianças sentiam-se instinctivamente attrahidas para a companhia do
    velho, em cujas narrações pintorescas e vivamente coloridas achavam um
    encanto irresistivel. Feria-lhes fundo a curiosidade a maneira por que
    elle fallava dos trabalhos da emigração, dos episodios do cerco do
    Porto, da fome, da peste e da guerra, triplice calamidade que conhecêra
    de perto, das batalhas em que havia entrado, da bravura do seu amo, e
    finalmente do Imperador, por quem o mutilado veterano professava um
    enthusiasmo quasi supersticioso, e a cujo vulto a sua narrativa
    imaginosa dava um aspecto epico e sobrenatural.

    As crianças não se fartavam de interrogar aquella testemunha presencial
    de tantos feitos heroicos.

    E assim eram neutralisadas as doutrinas dos pedagogos eruditos,
    encarregados da educação dos filhos de D. Luiz, e estes iam crescendo
    affeiçoados aos principios liberaes, que amavam de instincto, antes de
    os amarem de reflexão.

    Mas dias de maior provação estavam reservados para esta familia.

    A munificencia que o senhor da Casa Mourisca mantivera no voluntario
    desterro, a que se condemnou, obrigára-o a enormes e perigosos
    sacrificios.

    D. Luiz nunca propriamente se occupára da gerencia dos seus bens. Fiel
    aos habitos aristocraticos dos seus maiores, deixára desde muito a
    procuradores todos os cuidados de administração, e de quando em quando
    recebia d'elles a noticia de que a sua casa se estava perdendo, sem que
    se lembrasse de perguntar a si proprio se não seria possivel oppôr um
    obstaculo áquella ruina.

    O padre Januario, ou frei Januario dos Anjos, velho egresso, homem de
    letras gordas, que se estabelecêra commodamente n'aquella acastellada
    residencia, como em casa sua, era um d'esses procuradores.

    Faça-se justiça ao padre, que não era de má fé, nem em proveito proprio,
    que elle apressava, com mão poderosa, a decadencia de D. Luiz. Mas,
    homem de curtas faculdades e de nenhum expediente financeiro, se obtinha
    capitaes para o seu constituinte, nas crises mais apertadas, era sempre
    sob condições de tal natureza, que deixava de cada vez mais onerada a
    propriedade e mais irremediavel o triste futuro d'ella. Succedeu pois o
    que era de esperar. Dispersou-se a côrte de D. Luiz. Por muito que
    fizessem os administradores da casa para a manter no costumado
    esplendor, cêdo principiaram a transparecer os signaes da declinação.
    Foi o aviso para a debandada. Uns porque delicadamente comprehenderam
    que a sua permanencia concorreria para augmentar as difficuldades, com
    que o fidalgo já luctava; outros, porque aspiravam melhores auras, longe
    d'alli, em solares menos estremecidos pelo vaivem da adversidade; é
    certo que todos se foram retirando, a um por um, e deixaram a familia
    só.

    Augmentou com este isolamento a taciturnidade do fidalgo.

    Depois veio a doença e a morte da esposa, d'aquella que lhe tinha sido
    tão fiel amiga, que, para lhe poupar desgostos, até escondia as
    lagrimas, que elle lhe fazia verter; veio essa nova dôr atribular-lhe
    ainda mais a existencia. E ainda não haviam acabado as provações! No
    fundo do calice estavam ainda depositadas as gotas mais amargas.

    D. Luiz tinha por esses tempos uma filha, mimoso legado da esposa, cuja
    missão consoladora continuava no mundo. Queria-lhe muito o pae! Se não
    havia de querer! O coração árido d'aquelle velho e o tenro coração
    d'aquella criança procuravam-se, como para um pelo outro se completarem.

    O velho fidalgo, concentrado e quasi rispido para com os outros filhos,
    se alguma vez teve nos labios sorrisos desanuviados e sinceros, foi na
    presença da sua Beatriz. Aquelle desgraçado coração, vazio de affectos,
    queimado de odios e de paixões esterilisadoras, sentia um grato
    refrigerio em deixar-se penetrar do suave influxo das caricias da
    criança, que beijava as faces rugosas do pae e lhe brincava com os
    cabellos prateados; e muitas vezes, n'esses momentos, lagrimas de
    desafogo dissipavam a cerração que ia na alma d'aquelle homem, que com
    tanta força sabia odiar.

    E não era só o pae que experimentava essa influencia.

    Jorge, que de pequeno fôra pensativo e serio, sentia-se tomar por a
    bondade e ternura de Beatriz. Criança ainda, tinha ella, quando a sós
    com o irmão, um olhar penetrante e um gesto grave como o d'elle, um
    espirito para communicar á vontade com o seu. Ella parecia comprehender
    o alcance do auxilio que poderia receber um dia d'aquelle rapaz sisudo,
    que a fitava, e elle sentia-se engrandecer aos proprios olhos,
    lembrando-se de que seria sua missão na vida proteger aquelle anjo.

    Mauricio, genio mais impetuoso e impaciente, dobrava tambem a vontade a
    um aceno da fragil e delicada creatura, em quem um estouvamento seu
    desafiava lagrimas. E estas lagrimas eram a unica repressão que o
    continham nos desvarios.

    Pois até n'esta filha feriu o Senhor o pobre ancião.

    Criança mimosa, colheu-a um sopro da morte, ainda com o sorriso nos
    labios, e prostrou-a exanime no tumulo.

    Fez-se então devéras escuro no espirito do pae.

    Quando aquella pequena fada domestica desappareceu, como uma visão
    vaporosa em contos de magia, foi como que se todos ficassem em trevas. A
    vida era tão outra! O ente que absorvia os instantes d'aquelles tres
    homens, a quem todos tres tributavam os seus mais puros affectos e os
    seus pensamentos mais constantes, desapparecêra, e elles olhavam-se
    assustados, meio loucos, como se de subito se lhes tivesse apagado a luz
    que os alumiava; sentiam a indecisão do homem, a quem no meio da estrada
    fulmina inesperada cegueira.

    Passada a violencia da primeira dôr, em todos ficou a saudade, negra e
    concentrada em D. Luiz, melancolica em Jorge, expansiva e vehemente em
    Mauricio; e para todos o nome de Beatriz, a recordação dos seus gestos,
    das suas palavras, era um talisman, cuja efficacia nunca se desmentia. A
    alma d'aquelle anjo assistia ainda á familia, que o chorava, e á sua
    mysteriosa direcção obedeciam todos, sem o perceberem.

    Morta aos dezeseis annos, Beatriz vivia ainda nos logares que habitava.

    Ha entes assim, cuja influencia posthuma lhes dá uma quasi
    immortalidade, á maneira da luz sideral, que continua a scintillar para
    nós, depois de aniquilado o fóco que a emittia.

    O padre Januario tornou-se desde então a creatura indispensavel, e a
    companhia exclusiva de D. Luiz, que via n'elle o unico representante da
    sua antiga côrte.

    Acerrimo partidario do regimen absoluto, apesar de lhe não ser possivel
    enfeixar dois argumentos serios em defeza d'elle, o padre Januario
    passava a vida aproveitando os mais ridiculos ensejos para premissas dos
    seus corollarios anti-liberaes, artificio com que lisongeava as paixões
    do seu illustre amo e patrono, e mantinha n'elle o fogo sagrado.

    O padre achava-se bem n'aquella vida monotona, que exercia sobre si os
    mais notaveis effeitos analepticos. Podia dizer-se que elle dividia alli
    o tempo entre duas occupações exclusivas: comer e esperar com
    impaciencia as horas da comida.

    Uma unica circumstancia assombrava os dias do padre. Era a presença na
    Casa Mourisca do hortelão, em quem fallamos, e que mantinha com elle uma
    aberta hostilidade. Frei Januario exasperava-se sempre que o ouvia
    fallar no Imperador e no Cerco e nos Voluntarios da Rainha e na Carta,
    com o enthusiasmo e a emphase de um soldado d'aquelles tempos. Por vezes
    rompiam ambos em scenas violentas; por vezes o capellão ia aconselhar ao
    fidalgo a demissão d'aquelle homem, que ameaçava infectar de liberalismo
    a familia inteira.

    D. Luiz porém, apesar de nunca fallar com o hortelão, não attendia
    n'estas reclamações o padre. Conservando no seu serviço o veterano,
    satisfazia a um pedido da esposa, e não teria coragem para fazer o
    contrario. Assim perpetuavam-se os conflictos entre os dois, porque nem
    o procurador supportava as rudes franquezas do soldado, nem este os
    remoques encapotados do procurador.

    Tal era a situação da familia da Casa Mourisca na época em que vae
    procural-a a nossa narração.

    Já se vê quão mal assegurado andava o futuro dos dois jovens filhos de
    D. Luiz. A educação que elles haviam recebido não tendêra a fim algum
    prático.

    D. Luiz não podia soffrer a ideia de dar a seus filhos uma profissão. A
    nobre carreira das armas, que mais lhes conviria, estava-lhes fechada
    pelas ultimas evoluções politicas. Os descendentes dos ultra-monarchicos
    Negrões de Villar de Corvos não eram para se assalariarem em defeza dos
    principios e das instituições que abalaram os velhos thronos, firmados
    no direito divino. Nobre era tambem a carreira ecclesiastica, que muitos
    dos seus antepassados haviam trilhado, apoiados no baculo episcopal; mas
    se D. Luiz estava persuadido de que já não havia religião n'este
    territorio de antigos crentes? e se frei Januario teimava, ensinado pelo
    mallogro de longas pretenções ás honras de umas meias vermelhas, que só
    se adiantava nas phalanges do clero quem fosse pedreiro livre!

    Assim pois os jovens descendentes do velho realista passavam o tempo
    cavalgando e caçando nas immediações, e fruindo em sancto ocio uma vida,
    cujos espinhos todos procuravam occultar-lhes. Caminhavam por estrada de
    rosas para um fundo precipicio, d'onde lhes desviavam as vistas.

    Deve porém dizer-se que não caminhavam ambos igualmente desprevenidos;
    porque de criança era diverso o caracter dos dois, e de dia para dia
    mais a differença se pronunciava.

    Jorge, na infancia como na juventude, fôra sempre grave e reflectido.
    Nos brinquedos tomava para si o desempenho de um papel serio. Era o pae,
    o mestre, o commandante, o medico, o padre, tudo aquillo que o obrigasse
    a um porte sisudo e a uma gravidade de homem. Adolescente, nunca as
    raparigas do logar lhe ouviram uma phrase atrevida; era sempre uma
    saudação affectuosa, casta e quasi paternal a que lhes dirigia, ainda
    quando as encontrasse a sós nas veredas mais solitarias das devezas ou
    pinheiraes. Ellas habituaram-se áquella juvenil seriedade, saudavam-n'o
    como a um velho, fallavam d'elle com acatamento, certas de encontrarem
    n'aquelle silencioso rapaz um protector na occasião precisa, mas nunca
    um namorado. E comtudo a figura esbelta de Jorge, a varonil e
    intelligente expressão d'aquelle rosto bem desenhado e um certo fulgor
    no olhar, que denunciava energia de caracter, obrigavam a desviar-se
    para o vêr mais de um olhar feminino, quando elle passava com um livro
    debaixo do braço ou a cavallo pelos caminhos do campo.

    As pessoas da indole de Jorge impoem uma especie de estranho temor ás
    mulheres, que se afastam d'ellas como de um ser mysterioso, d'onde lhes
    podem vir perigos desconhecidos.

    Mauricio, pelo contrario, mal podia dizer de que idade encetára o seu
    primeiro amor. Com os brinquedos pueris misturára já uns arremedos de
    galanteio e mais o competente cortejo de arrufos e de ciumes. Desde
    então nunca lhe andou o coração devoluto, ainda que tambem nunca tão
    tomado e absorvido por amores, que o fizesse passar por qualquer belleza
    feminina, sem uma lisonja e sem um sorriso.

    Era popularissimo entre as raparigas da aldeia; todas o conheciam, e
    elle a todas designava por os nomes. A todas não, que para as feias
    tinha uma memoria ingrata.

    Além d'isso Jorge gastava muito do seu tempo na leitura. Era bem provida
    a livraria da casa. A educação esmerada da mãe e bom gosto litterario
    tinham enriquecido a bibliotheca dos melhores modelos da litteratura
    nacional e da estrangeira. Ahi encontraram os dois rapazes farto
    alimento para a sua curiosidade. Jorge lia tambem furtivamente os poucos
    livros, espolio do tio fallecido, os quaes o hortelão guardára como
    reliquia, furtando-os ao auto de fé a que os condemnaria inevitavelmente
    a indignação do fidalgo e do padre. N'esses livros aprendeu Jorge a
    pensar, a comprehender o alcance de certas ideias e de certas
    instituições, e a fazer a justiça devida a muitos preconceitos, que lhe
    haviam imposto como dogmas.

    A um espirito d'estes, educado em observar e reflectir, não podiam
    passar por muito tempo desapercebidos os numerosos symptomas da
    decadencia que apresentava a Casa Mourisca. Assim, por vezes vinha-lhe
    ao espirito uma secreta apprehensão pelo seu precario futuro.

    Mauricio, imaginação mais forte, natureza mais ardente, caracter mais
    frivolo e voluvel, vivia a sua vida de joven fidalgo de provincia;
    deixava-se ir na corrente dos seus amores faceis, dos seus prazeres e
    das suas dissipações, allucinado por os sonhos e chimeras de uma fertil
    fantasia, e não profundava os olhos até o seio obscuro das realidades. A
    sua leitura era exclusiva de romancistas e poetas. Imaginação nimiamente
    inquieta, razão por indolencia inactiva, não via, nem quereria vêr, o
    espectro, que ás vezes apparecia aos olhos do irmão.

    Uma circumstancia havia, a que mais que a outras devia Jorge a apparição
    d'esse espectro, que, á semelhança da sombra do rei da Dinamarca, em
    Hamlet, ia exercendo uma funda influencia no animo do adolescente.

    Esta circumstancia não era só para elle manifesta. Ao viajante, que já
    suppozemos parado a contemplar o vulto denegrido da Casa Mourisca, não
    passaria ella tambem desapercebida.

    Na raiz da collina fronteira áquella, onde o solar dos fidalgos erguia
    as suas torres ameiadas, assentava o mais risonho e prospero casal dos
    arredores. Era uma completa casa rustica, conhecida por aquelles sitios
    pelo nome, que por excellencia se lhe dera, da Herdade.

    O contraste entre a Herdade e o velho solar era perfeito.

    Ella graciosa e alvejante, elle severo e sombrio; de um lado todos os
    signaes de actualidade, de vida, de trabalho, da industria que tudo
    aproveita, que não dorme, que não descança; a economia, a previdencia, o
    futuro: do outro, o passado, a tradição esteril, o silencio, a incuria,
    o desperdicio, a ruina: a cada pedra que o tempo derrubava do palacio,
    correspondia uma que se assentava na Herdade para alicerces de novas
    construcções; aqui desmoronava-se um pavilhão, alli levantava-se um
    celleiro, uma azenha, um lagar; aos velhos carvalhos, ás heras
    vigorosas, aos avelludados musgos, aos lichens multicores, severas
    galas, com que se adornava a casa nobre, oppunha a Herdade os pomares
    productivos, as ondulantes searas, os prados verdes, as vinhas ferteis e
    proximo de casa, os canteiros de rosas e balsaminas, onde volteavam
    incessantes as abelhas das colmeias proximas. Nas amplas cavallariças do
    palacio, onde outr'ora relinchavam duzias de cavallos das mais apuradas
    raças, ainda batiam com impaciencia no lagedo dois velhos exemplares de
    bom sangue, cujo sacrificio a economia não exigira ainda; nas mais
    modestas cavallariças do casal, duas eguas robustas, promptas para o
    serviço, e domaveis por uma criança, preparavam-se em fartas mangedouras
    para frequentes e longas excursões; e ao entardecer abriam-se os curraes
    a numerosas cabeças de gado, cujos mugidos chegavam até o alto da Casa
    Mourisca, onde o velho fidalgo muita vez os escutava, pensativo e
    melancolico.

    Este contraste, que apontamos, era a circumstancia que evocava no
    espirito de Jorge o espectro que o entristecia.

    O dono da Herdade fôra pobre, servira como criado na casa dos fidalgos,
    passára depois a rendeiro de um pequeno casal, mais tarde arrendára uma
    fazenda maior; chegando emfim a ser proprietario, tornára-se em pouco
    tempo possuidor de extensos bens, e era já o chefe d'uma familia
    numerosa e talvez o primeiro agricultor d'aquelle circulo.

    Porque prosperava a Herdade, e porque declinava o palacio? Se de tão
    pouco se chegára a tanto, como se podia cahir de tanto em tão pouco?

    Taes eram, em summa, as vagas reflexões que se assenhoreavam do espirito
    de Jorge, quando das janellas do seu quarto, em uma das torres do
    palacio, ou do alto de alguma eminencia, observava a animação, a vida da
    propriedade do seu antigo criado, e voltava depois os olhos para o vulto
    silencioso e como adormecido do velho paço dos seus maiores.

    II

    Por uma manhã de setembro, limpida e serena, como ás vezes são na nossa
    terra as manhãs do outomno, Jorge sahiu a pé, a passear pelos campos.
    Errou ao acaso por bouças e tapadas, seguiu a estreita vereda a custo
    cedida ao transito pela sôfrega cultura nas terras marginaes do pequeno
    rio da aldeia. Depois, subindo a uma eminencia, parou a contemplar do
    alto o aspecto do feracissimo valle, que suavemente se lhe abatia aos
    pés, e no fundo do qual se erguia, d'entre veigas e pomares, a Herdade,
    de que já fallamos.

    Jorge sentou-se sobre uma d'essas enormes moles de granito, que se
    encontram com frequencia em certos logares da provincia, soltas pelos
    montes, como se fossem roladas para alli em remotas eras por mãos de
    fundibularios gigantes, empenhados em encarniçada lucta. Os olhos
    dirigiram-se-lhe instinctivamente para a Herdade, onde se fixaram, como
    se com força irresistivel os attrahisse o espectaculo que via.

    Era a época de mais intensa vida nas granjas. Os cereaes, cobrindo as
    eiras, lourejavam aos raios desanuviados do sol; carros, a vergarem sob
    o fardo das colheitas, transpunham lentos as portas patentes do
    quinteiro, chiando estridorosamente; apinhavam-se além em montes as
    cannas e o folhelho de milho, restos de recentes descamisadas; longas
    series de mêdas elevavam-se mais longe, á maneira de tendas em um
    arraial de campanha; juntas de bois, já livres do jugo, repousavam das
    fadigas d'aquelles dias de azafama, ruminando em socego; os moços da
    lavoura iam e vinham, atarefados em diversos misteres; e de tudo isto
    erguia-se um clamor de trabalho, que o socego dos campos e a serenidade
    do dia deixavam chegar distincto até o alto da collina.

    O dono da Herdade, o antigo criado da Casa Mourisca, presidia áquellas
    tarefas, e em volta d'elle moviam-se, saltavam e riam duas ou tres
    robustas crianças, com quem brincava um formidavel rafeiro.

    E era esta a scena que Jorge contemplava, e que em tão profundas
    meditações parecia absorvêl-o. De repente distrahiu-o o som dos passos
    de alguem que se aproximava d'aquelle mesmo logar, em que tão
    desapercebidamente lhe ia correndo a manhã.

    Voltando-se, viu seu irmão Mauricio, que em traje rigoroso e competentes
    petrechos de caça, e com a esmerada elegancia e apuro, que lhe eram
    habituaes, subia a collina, precedido de dois ou tres cães de boa raça,
    que de longe descobriram Jorge e correram para elle, afagando-o, com
    latidos e cabriolas.

    Mauricio, assim avisado e conduzido pelos cães, veio ter com o irmão,
    exclamando jovialmente á distancia de alguns passos:

    –Em flagrante delicto de meditação poetica, o snr. Jorge! Bravo! Já não
    desespero de te vêr um dia fazer versos.

    Jorge respondeu, encolhendo os hombros:

    –Quem se senta no alto de um monte, depois de subir toda a encosta
    d'elle sem parar, póde fazêl-o simplesmente com o prosaico intento de
    tomar fôlego. Se isto fosse symptoma de poesia, então…

    –Pois sim, mas já isso de subir o monte com as mãos vazias, como estás,
    sem uma espingarda que revele um razoavel fim no passeio, é um symptoma
    importante. Quem é que se dá ao incommodo de uma ascensão d'essas,
    quando o gozo da perspectiva que espera encontrar lhe não compensa as
    fadigas? E quem tem d'essas compensações senão os poetas, que são os
    unicos que sabem _ce qu'on entend sur la montagne_?

    Avez vous quelque fois, calme et silencieux,
    Monté sur la montagne en presence des cieux?

    E, a recitar os primeiros versos da poesia alludida, sentava-se ao lado
    do irmão, pousava a espingarda, e descobrindo a cabeça, sacudia aos
    ventos os formosos e bastos cabellos castanhos, objecto de muitos
    cuidados seus.

    Os cães andavam inquietos a farejar por entre as urzes e as tojeiras do
    monte.

    Interrompendo de subito a recitação, Mauricio proseguiu:

    –Mas que teima a tua em te mostrares frio ante estas magnificencias!
    Que escrupulos póde haver em declarar isto tudo admiravel? Repara como é
    bem talhado aquelle córte além, no monte; parece feito de proposito para
    deixar vêr no plano posterior aquella povoação distante, que não sei que
    nome tem. E alli o campanario, com a sua alameda? Quem teria a feliz
    inspiração de o assentar tão bem? Onde é que elle ficaria melhor? Parece
    que andou um gosto de artista a dirigir estas coisas.

    E acrescentou, suspirando:

    –Ai, na aldeia o scenario bem está, pouco tem que se lhe diga; mas os
    actores e a comedia que aqui se representa é que são de uma insipidez!

    Os instinctos urbanos de Mauricio, cuja indole mal se accommodava á
    simplicidade campesina, e o fazia suspirar pela vida das capitaes,
    arrancavam-lhe frequentemente d'estas exclamações.

    Jorge, que escutára o irmão sob uma meia distracção e sem desviar os
    olhos da Herdade, replicou-lhe sorrindo:

    –Ha quasi uma hora que estou aqui, e posso jurar-te que não tinha
    notado uma só d'essas particularidades da paisagem que descreves.

    –Gostas mais da contemplação em globo. Até isso é de poeta. Analysar
    minuciosamente as impressões recebidas não é o seu forte.

    –Enganas-te ainda; não era tambem o conjuncto da paisagem que eu
    observava; mas um ponto limitado d'ella, muito limitado.

    –Qual era então?

    –Olha alli para baixo; a Herdade de Thomé, aquella azafama, aquella
    gente toda a trabalhar, a vida que alli vae!

    –Ora adeus!–exclamou Mauricio–é justamente o que me não roubaria um
    momento de attenção. Não te estou a dizer que para mim o que ha de
    insupportavel no campo é a gente que o habita, a vida que n'elle se
    passa? Faz pena vêr que especie de contempladores tem a natureza para
    estas maravilhas. A indifferença com que estes selvagens encaram tudo
    isto! Repara, vê aquelle labrego passar lá em baixo na ponte; olha lá se
    elle desvia a cabeça para algum dos lados, ou se pára um momento para
    gozar do bello espectaculo que d'alli observa. Olha para aquillo!
    Selvagem! Pergunta ao Thomé ou a toda essa gente que lá anda em baixo a
    trabalhar quantas vezes admiraram as bellezas de uma noite de luar,
    vista do alto do oiteiro pequeno, ou se o pôr do sol lhes produz alguma
    sensação na alma, a não ser a lembrança de que vão sendo horas da ceia.

    Jorge sorria ao ouvir o irmão, e tornou placidamente:

    –Que homem este! A poesia precisa de ter quem a entenda e quem a faça;
    e olha que nem sempre os que a entendem a fazem, nem os que a fazem a
    entendem. Esta pobre gente do campo é uma parte integrante d'elle; não o
    contemplam, completam-n'o. Que querias tu? Gostavas talvez mais de que
    em vez d'essa gente indifferente, que trabalha, estivessem por ahi os
    montes, os valles e as ribeiras povoados de poetas contempladores como
    tu? Deves confessar que seria um campo bem ridiculo esse. Se eu até,
    para que te diga a verdade, estou persuadido de que não encontraria
    encantos nos logares muito visitados, que ha por as quatro partes do
    mundo, onde, a cada momento, apreciadores inglezes, francezes, russos e
    allemães passeiam, soltando exclamações polyglotas, e onde o nosso
    enthusiasmo nos é prescripto a paginas tantas do GUIA DO VIAJANTE. O que
    torna os lavradores poeticos é a inconsciencia com que elles o são.

    –Vistos de longe. Pelo menos concorda n'isto; vistos de longe, e de
    muito longe.

    –Vistos de longe, sim, que duvida? como tudo o mais. Ao perto tambem
    muitos d'esses prados são pantanos mal cheirosos, que infectam, e
    mexe-se uma miryada de insectos repugnantes n'essa verdura que tanto
    admiras. Dize-me uma coisa, Mauricio, parece-te que o nosso velho solar
    prejudica a belleza d'esta paisagem?

    –Se prejudica? Ora essa! Adorna-a. Olha que bem que elle sahe d'aquelle
    fundo que lhe fazem os castanheiros!

    –Muito bem, e comtudo, visto de perto, ha lá tristes e prosaicas
    realidades–observou Jorge, suspirando.

    Ao olhar de estranheza, com que, ao ouvir-lhe estas palavras, o irmão o
    fitou, Jorge correspondeu, dizendo:

    –Sim, Mauricio, triste e prosaica realidade para quem o olhar de perto.
    Ha nada mais triste do que aquelles campos invadidos pelas ortigas, que
    nós lá temos, do que aquelles pomares mal tractados, e aquelles
    celleiros em ruinas? Quererás encontrar poesia na nossa pobreza,
    Mauricio?

    –Pobreza?!

    –Pobreza, sim; pois que nome lhe queres dar? Olha, compara o aspecto
    d'essa casa branca de um andar, que ahi fica em baixo, com o do nosso
    paço acastellado, a actividade d'aquelles homens com a somnolencia
    chronica do nosso capellão; compara ainda, Mauricio, compara a
    desafogada alegria de Thomé com a tristeza sem conforto do nosso pae.

    Mauricio curvou a cabeça, e uma como sombra de tristeza parou-lhe algum
    tempo na fronte, habitualmente desanuviada. Dir-se-ia que pela primeira
    vez o vulto descarnado da realidade se lhe apresentava aos olhos, até
    então fascinados pelo fulgor de lisongeiras illusões.

    Mas, depois de breves instantes de silencio, respondeu ao irmão:

    –Pois bem, será como dizes. Creio até que seja essa a verdade. A
    riqueza está alli, a pobreza do nosso lado; porém a poesia… oh! essa
    deixa-nol-a ficar, que bem sabes que não é ella a habitual companheira
    da opulencia.

    –Da opulencia ociosa, egoista e inutil, de certo que não; mas da
    opulencia activa, benefica, que semeia, que transmitte a vida em volta
    de si, da opulencia que fomenta o trabalho, que cultiva os terrenos
    maninhos, que fertilisa a terra esteril, que sustenta, que educa e
    civilisa o povo, oh! d'essa é a poesia companheira tambem. Se o castello
    arruinado tem poesia bastante para fazer correr lagrimas de saudade; a
    granja, activa e prospera, tem-n'a de sobra para as provocar de
    enthusiasmo e de fé no futuro.

    Mauricio ficou outra vez silencioso; depois, como se pretendesse sacudir
    de si as ideias negras evocadas pelas palavras do irmão, exclamou
    erguendo-se e com affectado estouvamento:

    –Estás enganado, Jorge, o que reina alli em baixo não é a poesia, é…
    é… é a economia. A poesia não assiste ao edificio que se levanta, mas
    ao que se arruina; gosta mais dos musgos, do que da cal; do lado do
    passado é que a encontras, melancolica, que é o ar que lhe convém. E
    ella tem razão; o futuro tem muita vida para precisar do prestigio
    poetico. A poesia dos utilitarios! Com o que tu me vens! Não sei quem
    foi que ha tempos me disse ter lido uma noticia curiosa a respeito da
    Inglaterra. Parece que o espirito industrial e economico d'aquella gente
    vae por lá destruindo as florestas, as matas, as sebes vivas, o que
    emmudecerá dentro em pouco os córos das aves; os rebanhos, que d'antes
    pastavam pelas campinas verdes, hoje já prosaicamente se vão engordando
    nos estabulos! Que mais falta? A voz dos camponezes, as cantigas e as
    musicas ruraes hão de calar-se ao ruido do ranger das machinas e do
    silvo do vapor. Admiravel! Em vez do fumo alvo e tenue das choças ficará
    o céo coberto de fumo negro e espesso do carvão de pedra. Que modelo de
    aldeia o que nos vem da Inglaterra! Na verdade! que poesia!

    –No que tu me vens fallar! Na Inglaterra agricola!–acudiu Jorge–Mas
    antes lá é que bem se comprehende a poesia da vida rural, que até a
    nobreza a não despreza. Sempre ouvi dizer que os senhores das terras e
    os rendeiros fraternisam e auxiliam-se mutuamente, e que os trabalhos do
    anno succedem-se entre festas e solemnidades populares, lucrando todos,
    trabalhando todos, e enriquecendo cada vez mais a terra. Deves confessar
    que ha mais poesia nos dominios senhoris dos lords de Inglaterra, que
    dirigem por si mesmos as suas vastas emprezas agricolas, do que nos
    pardieiros em ruinas dos nossos morgados, em cujas velhas salas dormem
    os proprietarios o somno da ignorancia, da inutilidade e da devassidão.

    –Não o nego, mas… na nossa casa, naquella triste Casa Mourisca, ha um
    quê de poesia, de poesia elegiaca, se assim quizeres. Essa de que fallas
    será a poesia das georgicas; mas a da elegia deixa-m'a ficar.

    –O peior, Mauricio, é que um dia virá talvez em que o tremendo
    prosaismo da completa miseria dissipará esse tenue perfume que dizes.

    –Safa! Estás hoje com uns humores de Cassandra, Jorge! Deixa lá;
    lembra-te de que se diz que nas nossas propriedades ha um thesouro
    escondido desde o tempo dos mouros, e que um dia alguem de nossa familia
    o achará, ficando fabulosamente rico. Que essa esperança dissipe o humor
    negro que tens. Vamos, vem d'ahi. Pega n'esta espingarda e vae caçar. É
    bom para dissipar visões.

    –Não estou hoje para caçar.

    –Então vaes reatar aqui o fio das tuas cogitações?

    –Não, vou reatal-o acolá.

    –Vaes á Herdade?!

    –Vou.

    –Fazer o quê?

    –Vêr de mais perto aquella poesia, ou aquella prosa, como quizeres.

    –Sabes que o pae não gosta que lidemos muito de perto com o Thomé?

    –Sei. É um preconceito. Elle não o saberá.

    –Um preconceito! Bom! Estás hoje muito philosopho. Adeus, Jorge; espero
    vêr-te ao jantar de melhor aspecto.

    –Adeus, Mauricio.

    E os dois irmãos separaram-se. Mauricio, precedido pelos cães, seguiu em
    direcção dos montes, cantando. Jorge desceu a collina e caminhou para a
    Herdade.

    III

    Thomé da Povoa era o typo mais completo de fazendeiro, que póde
    desejar-se.

    «Alma sã em corpo são»: esta phrase do poeta é a que descreve melhor o
    homem; no physico, a força e a saude em pessoa; no moral, a honradez e a
    alegria.

    Emquanto houvesse alguem que trabalhasse em casa, não descançava elle.
    Delicias do somno de madrugada, attractivos das sestas, a tudo resistia
    com nunca desmentida coragem. Na abastança conservava os costumes
    laboriosos de tempos mais arduos. Tudo lhe corria pelas mãos, a tudo
    superintendia. Antes de almoçar já elle havia passado revista á Herdade
    toda. No decurso do dia montava a cavallo e lá ia inspeccionar uma ou
    outra propriedade mais distante, que não deixava entregue á discrição
    dos caseiros. Uma ou duas vezes no mez estendia as suas excursões até o
    Porto, chamado por negocios relativos á lavoura.

    Franco, lizo de contas, pontual nos pagamentos, cavalheiro nos
    contractos, não se lhe limitava o credito á circumscripção da sua
    aldeia, estendia-se até á cidade, onde o seu nome era melhor garantia em
    certas transacções, do que o de muitos faustosos negociantes. Em
    familia, perfeitamente patriarchal, estremecia a mulher e os filhos; e a
    lembrança de que para elles trabalhava, illudia-lhe as fadigas e os
    desalentos.

    Quando Jorge se dirigiu á Herdade, presidia ainda Thomé aos diversos
    trabalhos, em que a sua gente andava occupada n'aquella manhã.

    Não havia alli braços quietos, nem movimentos inuteis. N'aquellas casas
    o trabalho não distingue sexo nem idade. Todos desde a infancia se
    familiarisam com elle. Dá-se o mesmo que se dá com o tracto dos bois;
    sómente na cidade é que estes possantes e bondosos animaes mettem medo
    ás mulheres e ás crianças; na aldeia umas e outras os afagam e dirigem.

    Assim pois trabalhava-se, fallava-se, ria-se e cantava-se com alma nas
    eiras e quinteiros da Herdade.

    E Thomé, centro d'aquelle movimento, lançando os olhos a tudo, dirigindo
    a todos a palavra e a todos prestando o auxilio do seu braço robusto; e
    da porta da casa, assistindo tambem áquella scena rural, a boa e sancta
    mulher do fazendeiro, a socia fiel nos seus prazeres e penas,
    sustentando ao collo o ultimo dos seus filhos, emquanto que os mais
    crescidos jogavam as escondidas por entre aquella gente azafamada.

    –Olha lá esse carro que não está bem seguro, ó Manoel. Vê lá se me
    arranjas ainda hoje por aqui alguma desgraça… Ó meu maluco, não
    reparas que me vaes semeando as espigas pelo chão? Salta, apanha-me tudo
    isso, que eu não quero nada desperdiçado… Está quieto, João, vae para
    casa, agora não se brinca no quinteiro. Sahe-me de ao pé dos bois,
    menino! Ai que tu… Ó Luiza, olha se mandas dar uma pinga áquelles
    homens…. Que quer você, tio? Cubra-se, ponha o seu chapéo. Ai, vem por
    causa de muro que cahiu? Olhe, tenha paciencia, volte cá ámanhã. Hoje
    não posso olhar por isso… Ó Chico Engeitado, que diabo estás tu
    fazendo, pateta? Deixa-me estar essas pipas. Vae-me recolher aquelle
    milho que eu te disse; corre… O moleiro já veio? Pois as azenhas já
    moem, e o homem não tem desculpas que dê pela demora… Ó Manoel, arreda
    esse carro mais para o meio, senão não póde entrar o outro, homem de
    Deus! Disseram ao Luiz que visse como estava o milho da baixa do rio?
    Que m'o não vá cortar antes do tempo. Eu sempre quero lá ir primeiro;
    elle não apodrece na terra. Ó mulher, chama para lá esses pequenos, que
    podem aleijar-se por aqui. Vae, Joãosinho, vae para casa e leva o mano.
    Olha, queres uma espiga assada? Ó Chico, escolhe ahi duas espigas para
    os pequenos. Que demonio anda aquelle cão a fazer atraz das gallinhas?
    Aqui já, atrevido! Vá, vá, rapazes! Vocês n'esse andar não acabam hoje.
    Dá cá um ensinho, que eu vou arredando este folhelho.

    No meio d'este fogo cerrado de ordens, de conselhos e de observações foi
    Thomé da Povoa interrompido pela voz da mulher, que exclamou:

    –Ai, ó Thomé, olha quem alli está!

    O fazendeiro voltou-se e deu com os olhos em Jorge, que do portão do
    quinteiro viera, cumprindo o que tinha dito ao irmão, contemplar o mesmo
    espectaculo, que tanto o havia attrahido ao observal-o da collina.

    Era raro que os filhos de D. Luiz visitassem a Herdade. O velho fidalgo
    ainda se não costumára á prosperidade do homem que fôra seu criado. A
    granja era como que uma censura pungente á sua imprevidencia; era uma
    lição muda que elle recebia a todos os momentos, que o humilhava no seu
    orgulho e pungia-lhe o coração de remorsos.

    Thomé não se mostrava soberbo nem insolente, antes conservava por a
    familia da Casa Mourisca, e principalmente por D. Luiz, certa deferencia
    e respeito, que se ressentiam ainda da passada posição do fazendeiro em
    casa do fidalgo.

    Este porém procurára o primeiro pretexto para interromper as relações
    com Thomé. Uma questão de aguas, occasionada por a abertura de uma mina
    em terrenos da Herdade, serviu-lhe para o intento. D. Luiz, sempre
    indifferente a litigios d'essa ordem, mostrou-se então muito cioso de
    seus hypotheticos direitos, e, não obstante a nenhuma animosidade que
    houve da parte do lavrador, desde essa época nunca mais conviveu com
    elle.

    Jorge e Mauricio, que costumavam frequentar a casa do homem que os
    trouxera ao collo e que lhes queria devéras, receberam ordem para não
    voltarem lá.

    Thomé da Povoa sentiu-se com este proceder, que não tinha merecido; mas
    possuia bastante finura para perceber a verdadeira causa da irritação do
    fidalgo; por isso limitou-se a encolher os hombros, dizendo para a
    mulher:

    –Então que queres tu que eu lhe faça? assim nasceu, e assim ha de
    morrer.

    Eis a razão porque a presença de Jorge o surprendeu; mas, sem dar
    signaes de estranheza, caminhou para elle com as mãos estendidas e o
    rosto aberto em risos da mais cordial hospitalidade.

    –Entre, snr. Jorge, entre. Isto por aqui está tudo uma desordem, mas
    emfim é casa de lavrador, e em setembro não ha maneira de a ter asseada.
    Ó Luiza, manda para aqui uma cadeira… ou deixa estar, é melhor entrar
    lá para dentro.

    –Não, Thomé, eu prefiro ficar aqui. E não se incommode. Olhe, já estou
    sentado.

    –Ora! n'um carro! Isso é que não. Nada, não tem geito. Luiza, manda
    então a cadeira, manda. Quer beber alguma coisa, snr. Jorge?

    –Agradecido, Thomé; não tenho sêde. Appeteceu-me vir vêr de perto esta
    lida, que por aqui vae, e que estive observando, perto de uma hora, alli
    de cima: por isso desci.

    –Ora essa! Pois bem vindo seja, que sempre me dá alegria ver aquelles
    meninos, que conheci tão pequerruchos como estes.

    E apontava para as crianças que, agarradas ás pernas do pae, olhavam com
    grandes olhos para Jorge.

    –São todos seus?–perguntou Jorge, afagando-as e sentando uma nos
    joelhos.

    –E aquelle que a mãe traz ao collo e a pequena que está na cidade.

    –Ai, sim, a Bertha. Deve estar uma senhora?

    –Está crescidita, está. Mas vamos, tome alguma coisa. Olhe que o meu
    vinho é puro e não faz mal de qualidade alguma. Aquillo é sumo de uva e
    nada mais.

    –Obrigado, obrigado; mas não bebo agora. Peço-lhe que continue com o
    seu trabalho, sem se importar commigo. Para isso é que vim.

    –Ai, isto está a acabar. Vae no meio dia–acrescentou olhando para o
    sol–d'aqui a nada vae esta gente jantar e… Para onde levas tu esse
    carro, ó desalmado? Perdoe-me, snr. Jorge, mas estes diabos… Eu
    attendo-o já.

    E, sem poder conter-se, collocou-se elle proprio á frente dos bois, e
    encaminhou o carro na direcção conveniente.

    –Vocês juraram dar-me cabo dos limoeiros. Olhe que tenho tido limões
    este anno, que é uma coisa por maior, snr. Jorge–disse elle,
    regressando ao seu posto com um enorme limão, que mostrava com orgulho.

    Luiza voltou com uma cadeira para offerecer a Jorge.

    –Como está crescido e fero–dizia ella, olhando-o com curiosidade e
    complacencia–e o mano como vae? Vi-o ha dias passar a cavallo alli na
    ponte do Giestal. Pareceu-me bom.

    –E como está seu pae, snr. Jorge?–perguntou Thomé gravemente.

    Jorge ia respondendo a estas perguntas e seguindo o movimento dos
    criados da lavoura, a quem de quando em quando Thomé dava ordens e fazia
    recommendações, que entremeiava na conversa, sem perder o fio d'esta.

    Luiza, com o filho ao collo, não abandonou tambem a scena, senão quando
    o sino da igreja parochial bateu as tres badaladas que recordam aos
    fieis a oração do meio dia. O trabalho na eira e no quinteiro
    suspendeu-se como por encanto. Os homens descobriram-se a fazer uma
    curta reza, no fim da qual a mulher de Thomé, depois de dar aos
    presentes as boas tardes, disse, seguindo o caminho de casa:

    –Venham jantar.

    Todos obedeceram immediatamente á agradavel ordem, e em pouco tempo
    ficou só e silenciosa a scena, havia pouco tão ruidosa e animada.

    –São horas do seu jantar, Thomé–disse Jorge, levantando-se para sahir.

    –Depois d'esta gente acabar, é que eu principio. A Luiza não póde
    attender a todos a um tempo. Deixe-se o menino estar. Eu não lhe
    offereço do meu jantar, porque não é feito para si; mas se quizer dar
    uma volta por os campos emquanto elles jantam…

    –Se lhe não causar incommodo…

    –Nenhum; até preciso de ir vêr o que elles hoje trabalharam no poço que
    mandei abrir lá em baixo.

    E empurrando a porta, que dava para as outras partes do casal, Thomé
    obrigou Jorge a passar adiante e seguiu-o logo depois.

    E de caminho ia-lhe commentando tudo que viam; narrou como alporcára uns
    pecegueiros, o resultado que tirára do enxoframento das vinhas, a
    quantidade de fructa que o laranjal lhe produzira, quanto despendêra na
    construcção do lagar, as difficuldades que encontrou na abertura da
    nora, o que fizera pouco productiva aquelle anno a cultura do trigo, os
    cuidados que lhe mereceram os meloaes, e mil outras coisas relativas ao
    amanho das suas terras, das quaes nem um só palmo se poderia encontrar,
    onde as plantas nocivas usurpassem o logar das proveitosas.

    Jorge escutou-o com uma attenção e interesse, que estavam causando
    grande estranheza a Thomé, pouco acostumado a vêr as pessoas da
    categoria de Jorge, e da idade d'elle ainda menos, interrogarem-n'o com
    tanta curiosidade e ouvirem-n'o com tanta sisudez sobre objectos de
    lavoura.

    E as perguntas do joven fidalgo não eram vagas e ociosas, como essas que
    por condescendencia se fazem, para lisongear a vaidade natural de um
    proprietario. Havia n'ellas uma precisão, uma minuciosidade;
    acompanhavam-n'as reflexões tão acertadas, duvidas tão racionaes, que
    Thomé não podia illudir-se, e via bem que o descendente dos nobres
    Negrões de Villar de Corvos o interrogava com desejo de saber.

    Esta convicção enthusiasmava Thomé, que proseguia com ardor as suas
    informações.

    Jorge quiz saber aproximadamente o custeio necessario para manter uma
    propriedade como aquella no ponto de cultura em que estava, e o capital
    exigido para a elevar a esse grau de florescencia.

    Thomé era forte na especialidade dos orçamentos; por isso deu com a
    melhor vontade a Jorge as informações que este lhe pedia.

    A final Jorge, depois de um mais longo intervallo de silencio, que
    terminou com um suspiro, disse, como a medo, e desviando a cabeça, a
    fingir-se entretido no exame da roda hydraulica de uma nora:

    –E porque será que só os campos que nos pertencem estão cheios de
    ortigas e saramagos, Thomé?

    Thomé da Povoa voltou-se de repente para Jorge, e fitou n'elle um olhar
    penetrante. Porque o fazendeiro tinha ás vezes um certo olhar, que ia
    até o fundo do pensamento de uma pessoa.

    –Quer que lhe diga porque é, snr. Jorge?–perguntou elle logo depois,
    com um tom de voz serio e quasi triste.

    –Quero, sim.

    –É porque o dono d'elles é o snr. D. Luiz Negrão de Villar de Corvos, o
    fidalgo da Casa Mourisca, como por aqui lhe chamamos todos.

    Jorge olhou interrogadoramente para Thomé, que continuou:

    –É pela mesma razão porque chove nas salas do morgado do Penedo e
    porque seus primos do Cruzeiro perderam o anno passado todo o Casal de
    Mattoso. Se eu tivesse agora vagar para contar-lhe a minha vida, desde
    que sahi aos vinte e dois annos de sua casa, snr. Jorge, até hoje, o
    menino não me perguntava depois porque os seus campos estão cheios de
    serralha e de saramagos. Trabalhei muito, snr. Jorge, não é só com agua
    que se regam estas terras para as ter no ponto em que as vê; é com o
    suor do rosto de um homem. É preciso que o dono vigie por ellas, sem
    confiar em ninguem, como um pae vigia pela educação dos filhos. Ora ahi
    está. As bençãos de um padre capellão não dão adubo ás
    terras–acrescentou Thomé com um sorriso epigrammatico a commentar a
    allusão, que não escapára a Jorge.

    –Mas como se explica isto, Thomé?–continuou Jorge com a docilidade de
    um discipulo–os meus avós nunca se occuparam muito com a lavoura;
    passaram a vida quasi toda na côrte e nas embaixadas, e raras vezes
    visitaram as suas terras, onde só vinham para caçar, e comtudo a nossa
    casa era então uma das mais ricas da provincia, e hoje…

    –Isso lá… Olhe, snr. Jorge, se elles se não occuparam dos seus bens e
    não sentiram o mal, é porque tinham ainda muito que perder. Quem hoje o
    está pagando é seu pae e amanhã serão os meninos. Isto é como uma pessoa
    robusta que leva vida extravagante. Emquanto é nova e tem muitas forças,
    não dá por as que perde e julga que nada lhe faz mal, mas chega lá a um
    certo ponto e de repente acha-se fraca e então é que considera o damno
    que fez a si mesma e aos filhos que gerou. Entende o que eu digo?

    –Entendo, Thomé, entendo, e creio que é essa a verdade. Além de
    que–proseguiu Jorge pensativo–n'aquelles tempos, as classes
    privilegiadas podiam entregar-se sem receio a uma vida de incuria e de
    dissipação, porque os privilegios velavam por ellas e remediavam-lhes os
    desvarios; adormeceram n'essa confiança e não sentiram que tinham mudado
    as condições sociaes, e agora ao acordarem…

    Jorge, que dissera estas palavras mais para si do que para o seu
    interlocutor, interrompeu-as subitamente, e apontando para a Casa
    Mourisca, que d'alli se avistava, exclamou quasi com desespero:

    –E não será ainda possivel sustentar aquella casa na sua quéda?

    Thomé da Povoa sorriu com uma expressão de intelligencia.

    –Entregue-a ás mãos de um lavrador, de um homem de trabalho, que possa
    dispôr d'alguns capitaes para os primeiros tempos, e verá.

    –Principiaria por deitar abaixo aquellas paredes velhas e aquellas
    arvores–observou Jorge, olhando com tristeza para o seu meio arruinado
    solar e para os bosques seculares que o rodeavam.

    –Talvez deitasse–disse Thomé–póde bem ser que o fizesse, porque lá
    amor a essas coisas não teem elles, não. Mas não seria necessario. Eu,
    que tambem lhes tenho affeição, áquelle arvoredo e áquellas paredes
    negras, porque alli passei um tempo… mau era elle de certo… mas
    emfim… sempre tinha vinte annos…, eu, que me não atreveria a
    deitar-lhe o machado… ainda me aventurava a pôr aquillo no pé em que
    esteve.

    Jorge não pôde tirar ás suas palavras um ligeiro tom de amargura e quasi
    de ironia, quando, depois d'esta resposta de Thomé, exclamou voltando-se
    para a Casa Mourisca:

    –Espera pois, casa de meus paes, que a nossa miseria nos expulse dos
    teus tectos e te abra as portas á familia de um lavrador abastado, para
    vêres reparados os teus muros, e cultivados esses campos maninhos; assim
    Deus dê a esse homem um pouco de amor ás coisas velhas, para te não
    destruir na reforma.

    Thomé, que percebeu a occulta expressão d'estas palavras, replicou com
    dignidade:

    –Porque não ha de antes dizer, snr. Jorge: Espera, casa de meus paes,
    que Deus inspire um dos teus donos, para que olhe por seus proprios
    olhos para os teus achaques e os cure por suas mãos?

    –Os remedios são caros na botica, Thomé. Os pobres vêem ás vezes morrer
    um doente, porque não podem comprar a droga que o salvaria.

    –Senhor Jorge–acudiu Thomé com um ar quasi solemne–resolva-se devéras
    a ser homem, deixe-se de viver como vivem e teem vivido os seus, queira
    do coração fazer-se economico, trabalhador e vigilante, livre-se da
    praga dos seus mordomos e procuradores, deixe o padre dizer missas, mal
    ou bem, conforme puder, porque isso é lá com Deus e elle, faça tudo isto
    e os capitaes não lhe faltarão. O homem que principiou a ganhal-os
    n'aquella casa será um dos que não porá duvida em empregal-os, até onde
    chegarem, para a sustentar e não deixar cahir; e onde não chegarem os
    capitaes, chegará o credito.

    –É uma esmola que me offerece, Thomé?–perguntou Jorge, mas sem o menor
    signal de irritação.

    –Não, snr. Jorge, não é. Nem o menino m'a aceitava, nem eu poderia
    fazêl-a, sem prejudicar meus filhos. Não é uma esmola, é um emprestimo,
    menos perigoso do que os arranjados pelo padre capellão. Não é vergonha
    um emprestimo, quando se faz em condições de poder por elle alliviar-se
    um homem de dividas mais pesadas e de credores mal intencionados, e
    resgatar e melhorar a propriedade. Ha muito que a sua casa vive d'isso,
    mas a taes portas tem ido bater e tão mau uso tem feito do pouco e caro
    que obtinha que, em vez de se salvar, cada vez se perdia mais. Não fica
    mal um emprestimo, snr. Jorge, quando se procura satisfazer com lealdade
    os compromissos que se ajustaram. Então não vê que até os governos pedem
    emprestado?

    –Mas quando, como no meu caso, não ha garantias a offerecer, o
    emprestimo é bem parecido com a esmola, deve confessar.

    –Não ha garantias? Quem foi que lhe disse isso? E a sua probidade?…
    Sabe que mais? Eu sempre lhe vou contar a minha historia e verá depois
    se tenho razão no que digo.

    E Thomé da Povoa, conduzindo Jorge para a sombra da ramada que toldava a
    nora, na roda da qual se sentaram ambos, principiou:

    –Quando sahi da casa de seu pae, por esta vontade, ás vezes bem doida,
    que a gente tem de trabalhar por sua conta, empreguei algum dinheirito,
    que juntára, em arrendar um casebre e uma horta, da qual, lidando do
    romper do dia até á noite, tirava quando muito o preciso para não morrer
    de fome. O menino sabe aquella nesga de campo, que eu tenho ao pé dos
    açudes e o palheirito que fica ao lado?

    –Bem sei.

    –Pois foi essa a minha primeira casa. A Luiza, com quem por esse tempo
    casei, trabalhava tanto como eu, e assim iamos vivendo, sabe Deus como,
    mas pagando pontualmente o nosso aluguel e sem ficar a dever nada na
    tenda. O meu senhorio era um homem muito rico e muito de bem. Deus lhe
    falle n'alma! O menino ha de ter ouvido fallar d'elle: era o doutor
    Menezes, pessoa de muito saber e que tinha sido da relação do Porto.

    –Ainda tenho uma ideia de o vêr.

    –Não havia melhor senhorio; nada exigente com os caseiros e até sempre
    prompto a ajudal-os. Um anno veio uma sequeira, que matou toda a
    novidade. Foi uma coisa de fazer dó. Nem gota de agua, as fontes sêcas,
    as levadas enxutas, os moinhos parados, e os lavradores a agarrarem as
    mãos na cabeça e a pedir a Deus misericordia! A coisa foi de maneira
    que, chegado o tempo de pagar a renda, poucos tinham com que a pagar.

    –Succedeu-lhe o mesmo a si? Está visto.

    –A mim?! eu nada colhi n'esse anno; mas de maneira nenhuma queria
    faltar ao ajustado com o senhorio. Fui-me ao escaninho da caixa, tirei
    para fóra uns cruzados novos que, a muito custo, puzera de lado para o
    caso de uma doença; mas não era coisa que chegasse. Como ha de ser, como
    não ha de ser, eis que a minha Luiza, que sempre foi boa companheira, me
    diz: «Não te afflijas, homem; ahi vão as minhas arrecadas, pega», e
    atirou-m'as para cima dos cruzados. Lá me custava o servir-me das
    arrecadas da rapariga, que era a unica riqueza que ella tinha; mas não
    houve outro remedio. Pul-as em penhor, e com o dinheiro que me deram
    completei o aluguer, e no dia marcado apresentei-me em casa do doutor
    Menezes.

    –E elle?

    –Parece-me que ainda o estou a vêr no seu quarto de estudo, com as
    pernas embrulhadas em uma manta e olhando-me por cima dos oculos: «Então
    o que o traz por cá, Thomé?» «Eu, snr. doutor, venho para o que v. s.ª
    sabe.» «Ah! sim, estamos no S. Miguel. O anno pelos modos foi mau.» «Ora
    se foi! mas emfim vamo-nos conformando com a vontade do Senhor. Outro
    virá melhor.» E fui-me chegando para a banca e tirei do bolso o
    dinheiro, que me puz a contar e a encastellar. O homem estava calado a
    vêr aquillo. Quando cheguei ao fim olhou para mim d'uma certa maneira e
    disse-me: «Então está ahi tudo?» Está, sim senhor, v. s.ª não viu? «E
    você quer-me dar tanta coisa?» D'esta vez fui eu que me puz a olhar para
    elle admirado. «Então não é este o preço ajustado no arrendamento?» «É
    celebre, disse o snr. doutor abanando a cabeça, é o primeiro rendeiro
    que me paga tão prompto este anno e sem pedir que lhe perdoe alguma
    coisa, vista a escassez da estação. Onde foi você buscar esse dinheiro,
    ó Thomé? Você é o mais pobre dos meus caseiros e eu lá vi o estado do
    seu campo.» Eu não tive remedio senão contar-lhe tudo. Elle nem me
    deixou acabar. «Leve isso d'aqui, homem, e desempenhe as arrecadas da
    sua mulher. Eu não sou nenhum vampiro para sugar o sangue do meu
    proximo.»

    –Bella alma!–exclamou Jorge commovido pela narração.

    Thomé continuou:

    –«Em todo o caso–disse-me d'ahi a pouco o snr. doutor–você fez hoje
    um grande negocio sem o saber. Você é trabalhador, que isso tenho eu
    visto por a maneira porque me traz bem aproveitado o campito que lhe
    aluguei. Mas, para tirar partido dos seus bons desejos, faltava-lhe o
    capital e hoje arranjou-o.

    –Que queria elle dizer n'isso?

    –Foi o que eu lhe perguntei. «Arranjou-o sim, senhor, respondeu elle,
    porque arranjou credito, que vale por um capital enorme. O que você fez,
    mostra-me o de que é capaz. Appareça ámanhã por aqui, porque temos que
    tractar.»

    –E que lhe queria elle?–perguntou Jorge, cada vez mais attento.

    –No dia seguinte fui procural-o, sem imaginar o que fosse que elle
    tinha para dizer-me. Mal me viu, exclamou logo: «Ora venha cá, Thomé,
    sente-se aqui, porque temos um contracto a fazer.» E, obrigando-me a
    sentar ao lado d'elle, continuou: «Vocemecê vae assignar-me um escripto
    de arrendamento da minha propriedade das Barrocas.» Ora faça ideia o
    menino de como eu fiquei, assim que tal ouvi. Conhece a quinta das
    Barrocas? aquillo é um condado, se póde dizer. Como havia eu de
    arrendal-a, Sancto Deus! Elle, conhecendo o meu espanto, acudiu logo:
    «Não lhe pareça isso uma coisa por ahi além. Nós ajustamos a renda e
    você vae tomar conta d'aquillo. A quinta está bem educada e nutrida, e
    estou certo de que não o deixará ficar mal no fim do anno.» «Mas,
    disse-lhe eu, v. s.ª bem vê que uma peça d'aquellas precisa de braços
    para ser bem trabalhada, de braços e de certas despezas.» Mas, homem,
    torna-me elle, quem lhe diz menos d'isso? Olhe lá que eu a deixe ao
    desamparo, para você m'a entregar no estado em que por ahi em geral os
    caseiros as entregam aos senhorios. Mas é bem feito, que elles tambem
    fazem uns arrendamentos taes, que os caseiros morreriam esfomeados, se
    não esfomeassem a terra.

    –Mas esse homem era um grande philosopho!–observou Jorge.

    –«Vá você para lá–continuou elle–tracte-me bem d'aquillo, e os
    capitaes precisos para instrumentos, gado, adubos, jornaleiros e algumas
    obras, eu lh'os adiantarei. Você é trabalhador, a terra é boa, ia
    apostar que ambos havemos de lucrar.

    –E o Thomé foi?

    –Fui, e foi o principio da minha felicidade. A terra era abençoada! e
    depois, alli nada faltava para a fazer produzir. Creia o snr. Jorge que
    o dinheiro tambem nasce como a semente. O dinheiro, enterrado assim na
    terra, produz dinheiro, senhor. Eu lá o vi, que quanto mais se gastava
    com a terra, mais ella produzia. Foi lá que eu aprendi a ser lavrador.
    Muito devi aos conselhos d'aquelle homem. «Anda para diante Thomé,
    dizia-me elle. Se queres que o cavallo te não deite a terra e te leve a
    longa jornada, dá-lhe bem de comer; a ração de aveia que lhe furtares da
    mangedoura é a que mais cara te sahe.» Mais tarde, quando eu, com a
    ajuda de Deus, já ia, além de pagar as minhas dividas a pouco e pouco,
    juntando algum peculio no canto da caixa, foi elle que me disse: «Não
    abafes o dinheiro, Thomé. Põe-n'o ao ar para elle se não estragar; tudo
    quer ar n'este mundo.» E ahi me animei eu, ao principio com mêdo, que
    fui perdendo depois, a dar emprego ás minhas economias; e era um gosto
    vêr como ellas augmentavam. Passados annos eram taes, que já eu pensava
    em comprar umas terras, que era cá o meu sonho. Foi elle ainda quem me
    tirou isso da cabeça. «Não tenhas pressa de ser proprietario, prégava-me
    elle, olha que os lucros que vaes ter, gastando todo o teu dinheiro em
    comprar qualquer leira de terra, não correspondem ao gostinho de te
    chamares dono d'ella. Não te afogues em pouca agua. Se comprares um
    cavallo e ficares sem cinco reis para o sustento d'elle, vê lá que
    negociarrão; pois as terras tambem comem e tu bem o deves saber.» E o
    caso é que me convenceu e nem pensei mais n'isso.

    –Mas a final sempre comprou?

    –Quando elle mesmo m'o disse. Foi á praça esta granja, que não era
    ainda o que é hoje. «Vê agora se ficas com aquillo», disse-me o snr.
    doutor. A propriedade era de valor e eu não queria empregar na compra
    todo o meu capital. O snr. doutor ajudou-me mais uma vez, e a
    propriedade passou para as minhas mãos. Então trabalhei mais do que
    nunca. Todo o meu empenho era remir depressa a minha divida, porque,
    emquanto o não fizesse, parecia-me que não podia chamar ainda meu a
    isto. Deus ajudou-me com annos felizes e com boas colheitas, e como
    continuava com o arrendamento das Barrocas e depois com este negocio de
    gado, pude, mais cêdo do que esperava, pagar a minha ultima prestação e
    remir a divida.

    Chegando a este ponto da sua narrativa, animou-se a physionomia de Thomé
    da Povoa de um clarão de enthusiasmo e com as faces córadas e os olhos
    radiantes proseguiu, suspirando com desafogo.

    –Que dia aquelle, snr. Jorge! Eu nem lhe sei dizer o que sentia em mim!
    Eu sei lá?! Quando voltei da casa do doutor, com o escripto da quitação
    no bolso, vinha a tremer, pulava-me no peito o coração como o de uma
    criança; abri surrateiramente aquella porta da quinta, e sósinho, como
    um ladrão, sem que ninguem me visse, entrei aqui. Digo-lhe que estava
    quasi louco. Até fallei alto; lembra-me bem de que disse ao vêr-me cá
    dentro: Isto é meu! E depois que sabia que era meu, parecia-me outra
    coisa tudo isto. Meu! eu não me fartava de repetir esta palavra! Meu!
    Estas arvores eram minhas, estas fontes eram minhas, até estes passaros,
    que por ahi cantavam, eram meus, porque emfim vinham fazer ninho e
    cantar no que me pertencia. Vae rir-se, se eu lhe disser o que fiz. Eu
    abracei estas arvores, eu bati palmadas n'estes muros, lavei-me n'esses
    tanques todos, bebi agua d'essas fontes, deitei-me á sombra d'essas
    arvores, eu cantei, eu saltei, eu chorei, e a final…. quer que lhe
    diga? Não tive mão em mim que não ajoelhasse para beijar esta terra!
    beijei, sim, beijei esta terra, que eu ganhára á custa de muito
    trabalho, de muito suor e de nenhuma vileza. Tinha orgulho, e tenho-o,
    em me lembrar de que tudo isto me viera de eu ser honrado e amigo de
    cumprir a minha palavra. Eu não me recordo de ter um contentamento assim
    na minha vida, a não ser no dia em que estreitei nos braços a Luiza, e
    que tambem pela primeira vez lhe chamei minha mulher. Era quasi a mesma
    coisa; este era o meu segundo casamento. D'ahi em diante foi que eu
    soube o que é ter amor á terra. Desde a sementeira á colheita era um
    cuidado incessante com o campo. Ver crescer as plantas, para mim
    causava-me tanto prazer como vêr o crescer dos filhos; cada novo rebento
    era como que um nascimento em casa. Media o quanto iam crescendo as
    arvores que plantava e trazia contados os fructos dos pomares. Aquillo
    nos primeiros tempos foi uma loucura. Aqui tem a minha vida. Deus
    ajudou-me, e d'ahi por diante tudo me tem corrido bem. Já vê, snr.
    Jorge, que quem deve o que é a ter sido honesto, não póde recusar o seu
    pouco auxilio a um rapaz de brios e de probidade como é o menino.

    Jorge estendeu a mão a Thomé, dizendo-lhe sensibilisado:

    –Fez-me bem ouvil-o, Thomé. A sua vida é um exemplo, é uma lição, e
    n'ella procurarei aprender. Eu tambem sinto os mesmos desejos de remir a
    rninha ultima divida para depois chamar meu ao que me pertence. E n'esse
    dia eu tambem abraçaria com enthusiasmo aquellas velhas arvores, e
    ajoelharia para beijar a terra, que os meus antepassados me deixaram.
    Mas não sei se a empreza estará ao alcance das minhas forças.

    –Está. Eu lhe digo. Ha aqui só uma difficuldade a vencer. Empregue toda
    a sua força para esse fim, porque se tracta do bem de sua casa, do seu
    futuro e da sua dignidade. É preciso que o pae lhe dê licença para o
    menino administrar a casa e que o padre capellão se contente com dizer
    missas, porque depois…

    –Ainda quando vencesse essa difficuldade, que é grande, Thomé, porque
    meu pae ainda vê em mim uma criança, surgiria outra. De si nunca meu
    pae…

    Thomé da Povoa não o deixou concluir.

    –Eu sei, mas o snr. D. Luiz não se mette por miudo nos negocios da
    casa, desde que tem um procurador encarregado d'elles. Consiga que elle
    ponha em si a confiança que tão mal emprega no padre, e eu lhe prometto
    que o mais se fará. Eu não exijo mais garantias para o meu dinheiro, do
    que um escripto seu, snr. Jorge. Demais, como a sua experiencia é pouca,
    eu, se m'o permittir, guial-o-hei nos primeiros tempos. Como seu pae não
    gosta de que o menino venha por aqui, virá sem que elle o saiba. Os
    serões de inverno são longos, nós conversaremos algumas noites.

    Jorge disse finalmente com resolução:

    –Aceito, Thomé. Fallarei a meu pae. O dever de salvar a minha casa da
    ruina me dará coragem. Aceito, porque tenho fé em que me não será
    impossivel pagar-lhe mais tarde a divida que contrahir.

    –E eu tenho fé em que ha de ainda haver dias alegres e de festa
    n'aquella triste casa. Não é verdade que se diz que ha lá um thesouro
    escondido? Pois cave na terra, que o ha de encontrar.

    A voz de Luiza, ao longe, annunciou n'este momento ao marido que o
    jantar esperava por elle.

    Jorge sahiu d'alli com o coração palpitando de esperanças e de commoção,
    que lhe estava já causando a ideia da entrevista que precisava de ter
    com o pae.

    Thomé jantou com o appetite de quem tinha feito uma boa acção e
    realisado uma ideia, com que havia muito tempo lhe lidava o cerebro.

    A mulher achou-o mais fallador do que de costume; e depois de jantar
    voltou para a eira, cantando.

    Era feliz n'aquelle momento a sua alma generosa.

    IV

    Em uma das espaçosas salas da Casa Mourisca, alumiada por tres rasgadas
    janellas ogivaes e mobilada ainda com certa opulencia, vestigios do
    esplendor passado, esperavam a hora de jantar o velho fidalgo e o seu
    capellão-procurador frei Januario dos Anjos.

    Não foi rigoroso o emprego no plural do verbo da ultima oração.

    Frei Januario era quem esperava, porque essa era tambem a principal
    occupação dos seus dias. Os gozos do paladar mal lhe compensavam as
    amarguras d'estas longas expectações. Eram ellas talvez que não o
    deixavam medrar na proporção dos alimentos consumidos, porque frei
    Januario era magro. O mysterio physiologico d'esta magreza ainda não era
    para se devassar de prompto.

    D. Luiz lia as folhas absolutistas, que lhe mandavam da capital e do
    Porto, e dava assim em alimento ao seu odio contra as instituições
    liberaes um dos fructos mais saborosos d'ellas–a liberdade de
    imprensa–; fructo, em que os seus correligionarios mordem com demasiada
    complacencia, apesar de ser para elles fructo prohibido.

    De quando em quando D. Luiz interrompia a leitura com uma phrase de
    approvação ao artigo que lia ou de censura a qualquer medida promovida
    pelo governo, que nunca tinha razão.

    Frei Januario secundava, com toda a força do seu obscuro credo politico,
    as reflexões de s. exc.ª, e requintava na intensidade dos anathemas, com
    que eram fulminados os homens da época.

    Mas, solta a phrase que o caso pedia, e as competentes exclamações,
    voltava o padre a consultar o relogio, a abrir a bôca, a suspirar; dava
    dois ou tres passeios na sala e terminava por ir inspeccionar a cozinha.
    Os intervallos das refeições eram para elle seculos!

    –Humh!–disse D. Luiz n'aquella manhã, poisando a folha, como enojado
    com o que lêra–Lá foi concedido um subsidio para a construcção do lanço
    de estrada de Valle-escuro!

    –Fartos sejam elles de estradas!–acudiu logo frei Januario–Para esta
    gente a moralidade e a ventura de um paiz consiste em ter estradas e
    diligencias, e acabou-se. Olhem lá se elles levantam sequer uma igreja?
    Isso sim! O dinheiro do clero sabem elles roubar! E que pena não terão
    por não deitarem a baixo os templos que por ahi ainda ha! Mas atraz do
    tempo tempo vem. Vontade não lhes falta.

    Não sei se foi esta ultima phrase que recordou ao padre que tambem a
    elle não faltava vontade… de comer. O certo é que, mudando de tom,
    acrescentou:

    –Querem vêr que o Bernardino se esqueceu hoje do jantar? Isto são quasi
    duas horas, e eu não ouço tugir nem mugir na cozinha! Nada, aqui anda
    coisa. Com licença, eu vou vêr e volto já.

    E frei Januario sahiu da sala para ir pela vigesima vez á cozinha, que
    elle suspeitava abandonada pela incuria do cozinheiro, estando pois a
    familia toda ameaçada com a tremenda catastrophe d'uma retardação do
    jantar.

    D. Luiz pegou de novo nas folhas e deixou-se ficar lendo até á volta do
    padre, que entrou indignado.

    –Eu que dizia?! Posto á taramela com o hortelão, sem se lembrar do
    jantar? Olhem se eu lá não ia! Não que dizem que uma pessoa póde
    descançar nos criados. Ha de poder! São uma corja! E, v. exc.ª não quer
    crêr, aquelle excommungado d'aquelle hortelão ha de ser a ruina d'esta
    casa. Foi uma imprudencia da parte do snr. D. Luiz metter em casa um
    libertino d'aquelles, mação nos ossos e no sangue. Foi um passo muito
    errado… Aquillo é um pessimo exemplo para os outros. Sabe v. exc.ª em
    que elle estava fallando? Na cantiga do costume. No desembarque do
    Mindello. Quando eu cheguei ainda lhe ouvi dizer que eram sete mil e
    quinhentos bravos que vieram pôr fóra da cidade os oitenta mil lobos que
    andavam lá, e coisas assim. E o cozinheiro a dar-lhe ouvidos, e o leitão
    a queimar-se e a sôpa a pegar-se no fundo da panella, que logo me
    cheirou a esturro. É preciso que v. ex.ª dê as providencias, quando
    não…

    D. Luiz, tomando menos a peito do que o capellão os destinos do jantar e
    da sôpa, e fiel ao habito de nunca fallar, nem em mal nem em bem, do
    hortelão, não respondeu e proseguiu a leitura das folhas.

    D'ahi a pouco referiu ao padre a noticia que tinha lido do desastre
    succedido a uma diligencia ao passar em uma ponte que na occasião
    abatêra, resultando muitas victimas.

    A indignação do padre exaltou-se.

    –Pois se esta gente que nos governa deixa as estradas e pontes em um
    abandono d'esses! Vejam que tempos os nossos! e que governos que não se
    importam com as vidas dos cidadãos! Em que paiz do mundo se vêem
    estradas assim arruinadas como as nossas? São os bens que nos trouxeram
    os homens da Carta! Isto é bonito!

    E o padre Januario continuou ainda por algum tempo a condemnar, pelo
    crime de desleixo e de falta de protecção á viação publica, os mesmos
    governos que, momentos antes, accusára de conceder para esse fim
    subsidios e de lhe dar importancia demasiada.

    A politica de frei Januario é vulgar na nossa terra.

    D. Luiz, tendo concluido a leitura da folha, pôl-a de lado e resumiu a
    serie de pensamentos que essa leitura lhe suggerira, na seguinte e
    contrahida synthese:

    –Isto vae cada vez melhor, frei Januario.

    –Isto vae bonito, não tem duvida nenhuma–secundou o padre.

    –O peior é o futuro–tornou o fidalgo, assombrado.

    –Ai, o futuro ha de ser fresco!–repetiu o procurador, fungando uma
    pitada.

    –Emfim, quem viver verá aonde isto vae parar, onde nos leva esta
    torrente.

    –E não é preciso viver muito. Mais dia menos dia temos ahi os
    hespanhoes, ou então passamos a ser inglezes. Não ha que vêr; da maneira
    por que vão as coisas…

    –Ai, pobre Portugal!–exclamou melancolicamente D. Luiz.

    –Que vaes á vela–concluiu o padre.–Desde que puzeram a cabeça á roda
    a esta gente com liberalismos… ficou tudo transtornado. Agora todos
    mandam, todos fallam, e não ha quem governe. Isto de não haver um que
    governe… Estes patetas não se desenganam de que um paiz é como uma
    casa. Ora deixem á vontade os criados em uma cozinha, sem ninguem que os
    vigie, e verão o que vae! esperem por o jantar, que hão de achar-se
    servidos!

    O simile fôra suggerido a frei Januario pela sua constante preoccupação.

    –O que me custa é lembrar-me de que meus filhos teem de viver n'esta
    sociedade assim organisada. Quem sabe a sorte que lhes está reservada,
    aos pobres rapazes!–disse o fidalgo, suspirando com escuras
    apprehensões sobre a posição precaria da familia.

    –Os filhos de v. exc.ª não devem transigir em caso algum com estes
    homens!–exclamou com vehemencia o padre–É não fazer como a sobrinha de
    v. exc.ª, a snr.ª D. Gabriella, que já é baroneza das feitas por elles.
    Quando se é fidalgo é preciso ser fidalgo.

    –É bem negro o futuro que espera as casas como a nossa, e sabe Deus se
    em parte preparado por nós–insistia o fidalgo.–Tambem peccamos.

    –Pois é uma triste verdade, mas isso não é razão para que os que
    nasceram n'essas casas se abaixem diante dos que nem sabem aonde
    nasceram. Deixe v. exc.ª medrar quanto quizer o Thomé da Herdade, que no
    fim de tudo sempre ha de mostrar que andou descalço em criança e que foi
    levar a beber o gado d'esta casa. Ha certas coisas que não dá o
    dinheiro.

    –O Thomé da Herdade!–repetiu D. Luiz com amargura–Esse é que
    prospéra, os tempos estão para elle. Quem viu e quem vê aquillo!

    –Então que quer? Inda mais havemos de ver. E então não sabe v. ex.ª que
    o homem mandou educar a filha na cidade, como se fosse a filha de
    alguem?

    –A Bertha?

    –Sim, a que é afilhada de v. exc.ª Com que fim faz aquelle toleirão uma
    coisa d'essas? Veja a parlapatice d'aquelle homem. Não repara na posição
    falsa em que colloca a rapariga. Metteu-se-lhe talvez na cabeça que
    ainda a casava com algum fidalgo! Póde ser. Veja v. exc.ª se ella serve
    para algum dos seus filhos.

    D. Luiz sorriu, encolhendo os hombros.

    –Ora para que precisa a mulher de um lavrador, que é a final o que ella
    tem de ser, das prendas e da educação que o pae lhe mandou dar? Não me
    dirá v. exc.ª?

    –Todos hoje teem aspirações a subir–reflectiu D. Luiz com ironia.–A
    maré sóbe.

    –Eu bem sei o que é que dá causa a estas tolerias. Tudo isto vem da
    barulhada que estes liberalões fizeram na sociedade. Tudo está remexido
    e ninguem se entende. O sapateiro que nos vem tomar medida de umas botas
    parece um visconde. Onde isso é bonito, segundo dizem, é em Lisboa. Hoje
    todos por lá tem excellencia!

    N'estes sediços commentarios sobre o estado do seculo deixaram-se ficar
    os dois por muito tempo, desafogando assim a sua má vontade contra as
    instituições modernas. O padre Januario porém não perdia com isto a
    ideia do jantar, e de quando em quando voltava os olhos para o relogio,
    cujos lentos ponteiros não correspondiam nunca á impaciencia dos seus
    desejos. Emfim deu uma hora e frei Januario ergueu-se instinctivamente
    para ir vêr se o jantar estava servido.

    Passado pouco tempo tocava a sineta, tão grata aos ouvidos do reverendo.
    Vibraram pelos desertos aposentos e extensos corredores da Casa Mourisca
    aquelles sons, que em felizes tempos punham em movimento uma numerosa e
    esplendida côrte, que os ventos da adversidade tinham dispersado.

    D. Luiz entrou na sala do jantar, onde com impaciencia o aguardava já o
    capellão.

    Aquella grande sala vazia, aquella extensa mesa, apenas servida com
    quatro talheres, fallava tanto do esplendor passado e da decadencia
    presente, que poucos logares havia na casa que deixassem no fidalgo mais
    melancolicas impressões. Nunca se lhe anuviava tanto o coração como ao
    sentar-se á cabeceira da mesa, em torno da qual outr'ora vira rostos
    conhecidos e amigos, hoje tão solitaria e abandonada.

    D. Luiz, reparando que o escudeiro principiava a servir, perguntou,
    apontando para os logares dos filhos, que ainda estavam de vago.

    –Então os senhores não ouviram a sineta?

    –Os senhores ainda não vieram.

    –Nem Jorge?–perguntou D. Luiz, como se estranhasse menos a ausencia de
    Mauricio.

    –Nem um, nem outro.

    –O snr. D. Mauricio–observou o padre, que temia um adiamento do
    jantar–sahiu para a caça; quando virá elle agora?

    E dizendo isto, fazia signal ao criado para que servisse o fidalgo.

    –E Jorge?–insistiu o pae.

    –O snr. D. Jorge… esse não sei… talvez esteja ahi por alguma parte.

    O fidalgo, evidentemente contrariado com a ausencia dos filhos, que
    ainda mais augmentava a solidão d'aquella sala, resignou-se a principiar
    a jantar sem elles.

    O jantar correu em silencio.

    O humor negro de um dos commensaes e o appetite do outro não davam azo
    ao dialogo.

    Estava o padre deliciando-se com uma farta posta de assado e o
    competente accessorio de massas, quando Jorge entrou na sala.

    D. Luiz não lhe dirigiu a palavra, nem sequer um olhar.

    Jorge formulou uma vaga desculpa, que o pae interrompeu com um gesto a
    mandal-o sentar; e, passados momentos, levantou-se elle e sahiu
    silencioso.

    Frei Januario, tendo já satisfeito as primeiras e mais urgentes
    exigencias do seu estomago, achou-se disposto a continuar o dialogo. Por
    isso, ao encetar a sobremesa, dirigiu por comprazer a palavra a Jorge:

    –Com que vem do seu passeio, hein? A manhã estava bem bonita. E então o
    que viu por esses campos?

    –Muito trabalho, snr. frei Januario, muita vida rural–respondeu Jorge.

    –Sim, agora é o tempo das colheitas. Anda por ahi tudo azafamado.

    –Mas porque é, snr. frei Januario, que nos campos da nossa casa não
    vejo o movimento dos outros?

    A imprevista interpellação do adolescente ia entalando o padre.

    –Causou-me sensação isto hoje–proseguiu Jorge.–Quem subir ao alto do
    outeiro da Faia, por exemplo, e olhar de lá, em roda de si, para o
    valle, póde marcar as propriedades da nossa casa; onde vir um campo
    quasi maninho, um muro a cahir, umas paredes negras, um aspecto de
    cemiterio, tenha a certeza de que nos pertencem esses bens.

    –Não é tanto assim… É verdade que… meu rico filho, que quer? depois
    que os homens do liberalismo tomaram conta d'este paiz, as coisas
    mudaram. Quem não está por o que elles querem…

    –Não vejo em que elles influam para isto, snr. frei Januario. Quem nos
    impede de fazer o que os outros fazem? de cultivar os nossos campos? de
    pôr homens a trabalhar n'essas terras incultas?

    –O que os outros fazem, diz elle! Os outros… os outros… e quem são
    os outros? Uns miseraveis que eu conheci de pé descalço, a limpar os
    cavallos e a cavar nos campos d'esta casa.

    –Tanto mais para admirar e para louvar o esforço que os tirou d'essa
    posição humilde e os elevou áquella, que hoje occupam.

    –Olhem que grande milagre! Homens que não devem respeito a si mesmos,
    para quem todo o trabalho está bem, como não hão de enriquecer? Ora essa
    é muito boa!

    –E os que devem respeito a si mesmos estão pois condemnados á miseria?

    –Á miseria… á miseria!… Que palavra! Ora para o que lhe deu hoje!
    Foi febre que se lhe pegou? Se ella anda por ahi tão accêsa! O menino
    ainda é muito criança para pensar n'estas coisas. Coma e beba e…

    As faces de Jorge tingiram-se de um rubor intenso, e redarguiu com
    energia e irritação:

    –Não sou criança, frei Januario; acredite que o não sou. Tenho mais de
    vinte annos e estou resolvido a ser homem. Córo da minha ociosidade,
    quando vejo que sómente as nossas terras fazem vergonha á actividade
    d'este povo. Tenho annos para viver, deveres de honra a cumprir, um nome
    para conservar sem mancha, e quero saber que futuro me preparam os
    gerentes da nossa casa, quero desviar a tempo de mim a tremenda
    responsabilidade de ser na minha familia talvez o primeiro a faltar um
    dia aos seus compromissos. É por isso que fallei e que desejo que me
    responda, snr. frei Januario.

    –Ai, menino, menino; isso não é seu! Ahi anda doutrina liberal. Eu
    cheiro-a a distancia de legoas. Então quando o senhor seu pae me honra
    com a sua confiança, é acaso justo, é acaso bonito que eu seja
    suspeitado e interrogado por uma criança, que ainda nada sabe do mundo?

    –E quando hei de aprender? Querem-me estupido, como esses morgados que
    por ahi se arruinam?

    –Mas que quer o snr. Jorge a final? Então não sabe que desde que os
    lavradores se fizeram fidalgos, ninguem lucta com elles? O dinheiro está
    de lá; para lá vão os trabalhadores, senhor. Ora é boa! Eu acho graça a
    certa gente!

    –O dinheiro está de lá! Mas como conseguiram elles enriquecer? Pois não
    diz que eram uns miseraveis?

    –Ah! então quer principiar como elles principiaram, cavando com uma
    enxada todo o dia e furtando á bôca para juntar ao canto da caixa com o
    fim de comprar uns bois? etc. etc. Veja se quer.

    –Não principiavamos de tão longe como elles, escusavamos de tantos
    sacrificios. Bastava que olhassemos com attenção para o muito que temos
    ainda, e que tentassemos desenredar, a pouco e pouco, esta meiada, que
    nos enleia e que nos ha de afogar a todos.

    –Ora é boa! E então o que é que eu faço, o que é que estou fazendo ha
    quasi trinta e oito annos em que o snr. D. Luiz me distingue com a sua
    confiança? Mas a coisa não é tão facil, como lhe parece. É boa!

    –Mas quaes são os seus planos, padre Januario, qual é o seu systema de
    administração?

    –Os meus planos?!… Ora essa!… Então que planos quer que sejam os
    meus? Systema de administração!… isso é phrase de côrtes… Humh!
    tenho entendido… É o que eu digo… Ó snr. Jorge, ora falle-me a
    verdade, ahi andam ideias de liberalismo. Com quem fallou esta manhã?
    ora diga.

    –Venham d'onde vierem as ideias. A origem pouco importa, a questão é
    que ellas sejam boas. Eu não tracto de liberaes nem de absolutistas
    agora. Vejo que a minha casa se perde, vejo cahirem os muros e nunca se
    repararem; vejo campos e campos sem a menor cultura, encontro em tudo
    quanto nos pertence profundos signaes de decadencia, e quero saber a
    grandeza do mal que nos opprime.

    –E se fôr grande o mal, o que quer que se lhe faça?

    –Quero que se trabalhe para remedial-o; que se façam sacrificios uteis,
    que deixemos a louca vergonha e o orgulho enfatuado que nos faz viver
    hoje ainda uma vida que não é d'estes tempos. Desenganemo-nos; a época
    não é de privilegios nem de isenções nobiliarias, é de trabalho e de
    actividade. Plebeu é hoje só o ocioso, nobre é todo o que se torna util
    pelo trabalho honrado.

    –Jesus! O que ahi vae! O que ahi vae! Eu bem o digo! Ha liberal na
    costa! Isso é tão certo como dois e dois serem quatro. Se o pae o ouvia!

    –Ha de ouvir-me, porque tenciono hoje mesmo fallar-lhe.

    –Que vae fazer, snr. Jorge?

    –O meu dever. Eu e meu irmão seremos um dia os representantes da nossa
    familia. Para que nos orgulhemos do nome que herdamos, é necessario que
    esse nome não tenha manchas e que nós lh'as não lancemos.

    –Mas quem lhe diz, quem lhe falla em manchas? Ora… ora… ora… ora
    esta não está má!

    –Frei Januario, eu não sou criança, repito-o. Sel-o-ia hontem, hoje não
    o sou já. Faça de conta que o sol d'esta manhã me amadureceu. Por isso
    não me illudo emquanto á natureza dos meios com que se sustenta ainda
    n'esta casa um resto do esplendor de antigos tempos. Pois mais valeria
    comer em louça nacional e vender as matilhas e os dois cavallos de luxo,
    que ainda temos, para comprar dois bois.

    –Mas…

    –Até logo, frei Januario, conversaremos mais de espaço sobre isto.

    –Mas…

    Jorge, sem o attender, dispunha-se a sahir, quando o padre, quasi
    assustado, o chamou.

    –Mas venha cá. Ouça-me, valha-me Deus! Olhem que homem este! Tem muita
    razão no que diz. Sim, senhor. As coisas não vão bem. Hoje não é hontem;
    e esta casa já viu melhores tempos do que os que correm. Mas de quem é a
    culpa? É de mim ou do senhor seu pae? Pois não foste! Para remediar o
    mal trabalhamos nós ha muito. A culpa é d'esta gente que nos governa,
    d'estes homens que juraram perder tudo quanto era nobreza para poderem á
    vontade fazer das suas, sem ter quem lhe vá á mão. Percebe agora? Desde
    que os liberaes…

    –Por quem é, frei Januario, não me venha outra vez com os liberaes. Eu
    tenho a razão bastante clara para vêr as coisas como ellas são, e não me
    deixar levar por essa cantiga do costume. Os liberaes!… Os liberaes o
    que fizeram foi alliviar a agricultura dos enormes encargos que d'antes
    pesavam sobre ella e que não a deixavam prosperar, foi crear leis e
    instituições que facilitassem os esforços dos laboriosos e castigassem
    severamente a incuria e a ociosidade. Quando ao desopprimir-se o
    lavrador de tributos pesados e iniquos e dos odiosos vexames do fisco,
    ao tornarem-se-lhe mais faceis os contractos e as transmissões da
    propriedade, ao crearem-se-lhe recursos para elle tirar do seu trabalho
    e da sua intelligencia dez vezes mais do que d'antes podia obter, quando
    na época em que tudo isto se realisa, uma casa como a nossa, em vez de
    prosperar como tantas, vê apressada a sua decadencia, é porque tem em si
    um velho e incuravel cancro a roêl-a. E é esse cancro que eu quero
    conhecer, para extirpal-o, se ainda fôr possivel.

    –Eu estou pasmado! Pelo que ouço, acha o menino que todas essas
    fornadas de leis, que esta gente tem feito, são muito boas e que a sua
    casa devia ser muito bem servida com ellas?

    –Essas leis de que se queixa, são racionaes; uma casa racionalmente
    administrada não póde pois perder com ellas.

    –Sim, senhor! Visto isso, o menino, que depois da morte dos manos,
    ficou sendo o filho mais velho da familia, gostou talvez muito de vêr
    acabar com os morgados? Sim, como as leis modernas são tão boas, havia
    de gostar–argumentou o procurador, com ares de finura, como de quem
    apanhava em falso o seu adversario.

    Jorge respondeu serenamente:

    –E porque não? A abolição dos morgados acho eu que foi um grande acto
    de justiça e de moralidade; além de ser uma medida de longo alcance
    politico.

    –Ai… ai… ai… O que mais terei de ouvir! O menino está perdido!…
    Pois já me applaude a maldita lei, que ha de dar cabo das familias mais
    illustres do reino… Ai, como elle está!…

    –Deixe-se d'isso. A abolição dos vinculos só trouxe a morte ás casas
    que deviam morrer. O que ella fez foi proclamar a necessidade do
    trabalho indistinctamente para quem quizer prosperar. O esplendor das
    familias deve ficar sómente ao cuidado dos membros d'ellas e não da lei.
    Quando esses não tenham brio nem dignidade para o sustentar, justo é que
    elle se apague, e que o nome dos antepassados não continue a ser
    deshonrado pelos vicios e ociosidade dos descendentes. Mas deixemo-nos
    d'estas discussões, frei Januario. O meu partido está tomado. Mais tarde
    saberá das consequencias d'elle.

    E Jorge sahiu da sala, deixando o egresso apatetado com o que ouvira.

    –Que anda aqui liberalismo, isso para mim é de fé. Mas que mosca o
    morderia? Querem vêr que já fizeram do rapaz mação? Pois olhem que não é
    outra coisa. Eu quando os ouço fallar muito do trabalho… já estou de
    pé atraz. Tem graça! Quem os ouvir, persuade-se de que o trabalho é um
    prazer. Ora adeus! O trabalho é uma necessidade, o trabalho é um
    castigo. Para ahi vou eu. Que trabalho tinha Adão no paraizo? E não lhe
    chamam os livros sagrados um logar de delicias? Amassar o pão com o suor
    do rosto, olhem que titulo de nobreza! Estes modernismos! Mas é a
    cantiga da moda. O trabalho ennobrece, o trabalho consola, o trabalho é
    uma coisa muito appetitosa… Será, será, mas eu, por mim, se pudesse
    deixar de trabalhar… Ah! ah! ah.

    Aqui bocejava o egresso.

    –Mas que alli anda liberalismo, isso é tão certo como eu estar onde
    estou. Como elle fallou nos morgados!… Provará que é tão pateta que,
    sendo elle morgado, diz d'aquillo. E que vae declarar ao pae… Não
    declara nada. Um criançola que não sabe senão passear. Tomára elle que o
    deixem… O ocioso é que é o plebeu, o nobre é o que trabalha. Sim, sim,
    contem-me d'essas. Aquillo é musica de anjos. Diga-se o que é verdade,
    quem puder deixar de trabalhar…

    Frei Januario, n'estas graves ponderações, deixou-se a pouco e pouco
    invadir pelo somno, e acabou por adormecer á mesa, sonhando-se em uma
    especie de paraizo, como o tal logar de delicias de Adão, cuja
    ociosidade sempre fôra objecto muito dos seus enlevos.

    Deixemol-o adormecido, e vamos ter com Jorge a um dos menos arruinados
    angulos da Casa Mourisca.

    V

    Jorge continuou no seu quarto a serie de meditações com que trouxera
    occupado o espirito toda a manhã. Abria alguns livros, consultava-os com
    attenção, afastava-os depois com impaciencia, porque raros pareciam
    responder cabalmente ás mudas interrogações que elle lhes dirigia.

    A bibliotheca da Casa Mourisca era na maior parte composta de livros
    proprios para a cultura do espirito, mas sem definida tendencia para uma
    applicação pratica qualquer.

    Jorge tinha o gosto bem educado e não era indifferente ás obras de pura
    arte; mas d'esta vez dominava-o uma ideia fixa, um ardente desejo de se
    instruir nos preceitos positivos de economia rural, e nos conhecimentos
    necessarios para a realisação da grande obra em que meditava. Algumas
    arithmeticas, um ou outro raro folheto de agricultura e poucos numeros
    soltos de jornaes estrangeiros, foi tudo quanto pôde encontrar e que
    consultou, sem que o satisfizessem as noções rudimentares que n'elles
    lia. A pequena livraria do tio, á qual devêra grande parte dos seus
    avançados principios sociaes, estava já esgotada por elle; além de que
    não abundava em livros de indole verdadeiramente didactica.

    Depois de ter folheado por algum tempo todas essas brochuras, Jorge
    fechou os olhos, como para concentrar o espirito, e resolver só por elle
    os problemas, cuja solução em vão procurára na leitura. E a razão de
    Jorge era poderosa bastante para o servir no empenho; colheu d'ella mais
    fructos do que das paginas dos livros elementares, que anciosamente
    consultava.

    A estas cogitações veio emfim arrancal-o a chegada de Mauricio, já quasi
    ao fechar da tarde.

    Mauricio, logo que transpôz a porta, arremessou o chapéo sobre a mesa
    com certa vivacidade de movimentos, que trahia uma profunda agitação.
    Atravessou silenciosamente o quarto com passos apressados, sentou-se ou
    antes deixou-se cahir sobre uma cadeira, e correu a mão por a fronte,
    sacudindo para traz os cabellos com um movimento febril.

    Jorge, que percebeu em todos estes signaes um dos costumados frenesis do
    irmão, interrogou-o:

    –Que é isso, Mauricio? Que é o que tens? Que te succedeu lá por fóra?

    –Deixa-me, Jorge–respondeu Mauricio, levantando-se outra vez e
    pondo-se a passear no quarto.–Se soubesses como eu venho suffocado de
    raiva?

    –Contra quem?

    –Contra esta canalha d'esta gente do campo. Uns miseraveis insolentes
    que lançam a lama suja, onde nasceram e vivem, á face da gente com o
    mais intoleravel arrojo! Mas eu esmago-os com a sola da bota!

    –Bom! Temos bravatas de fidalguia! Esses arreganhos de senhor feudal
    hoje são de mau gosto, Mauricio. Olha que já passou o tempo d'elles.

    –É sempre tempo de castigar um insolente. O essencial é que se tenha
    sangue nas veias e pundonor no coração.

    –E sangue tambem no coração–emendou Jorge, sorrindo.–Olha que tambem
    é lá preciso.

    –Não rias, Jorge! Por quem és!–tornou o irmão despeitado.–Bem vês que
    fallo seriamente.

    –Então conta-me tudo. Receio que haja ahi alguma das tuas exagerações.

    –Não exagero. Esta manhã fui caçar, como sabes. Corri o monte com pouca
    felicidade; os cães pareciam ter perdido o faro. Voltava já para casa
    sem esperança, quando, alli pela Quebrada do Moinho, levantaram-se-me
    quatro codornizes; atiro-lhes, mas mal as feri. Ellas seguem na direcção
    das azenhas, atravessam os campos que estão em baixo e vão poisar no
    pinhal que fica para lá da prêsa do Queimado. Sabes? Eu desço com os
    cães, e, para não dar a volta do portello, galguei o murito da fazenda
    do Luiz da Azinhaga e ia para atravessar o campo, quando aquelle
    grosseirão do matto, aquelle villão infame sahe da casa da eira, aonde
    andava com os criados, e berra-me: «Olá, ó fidalguinho, isto aqui não é
    terra baldia, nem roupa de francezes.» Eu olhei para elle, mas não lhe
    respondi e continuei andando; elle tornou de lá, e já caminhando para
    mim: «Menino, não ouviu? Eu não quero os meus campos trilhados.» «O que
    estragar, pagarei», respondi-lhe já azedado. O estupido soltou uma
    risada insolente, e disse-me: «Com o que? Pergunte primeiro em casa se o
    que lá tem chega para pagar o que devem já.» Ouvindo isto, perdi a
    cabeça e corri para o homem, exclamando: «Para que não duvides da minha
    palavra, eu te vou já pagar uma divida, canalha.» Elle estava desarmado,
    mas recuou para pegar em uma enxada; os homens que trabalhavam na eira
    correram para mim com malhos e mangoaes; armei a espingarda logo; o
    primeiro que me ameaçasse estendia-o, palavra d'honra! N'isto ouvi uns
    gritos por detraz de mim. Era o Thomé da Povoa que passava e que correu
    a separar-nos. Fez-nos um sermão e trouxe-me quasi á força d'alli. Ahi
    tens como está esta gentalha. Já não podemos sahir sem nos arriscarmos a
    ser insultados e assassinados. Quem deu a esses miseraveis o atrevimento
    de fallar nas dividas da nossa casa?

    –Quem as contrahiu e não procura pagal-as–respondeu, triste mas
    placidamente, Jorge.

    E logo depois acrescentou:

    –Mas dizes bem, Mauricio, foi uma desagradavel occorrencia. Já vês
    agora que eu tinha razão no que te dizia esta manhã.

    –O que foi?

    –Isto não póde continuar assim, Mauricio. Nem tu nem eu temos animo
    para soffrer humilhações, e ellas são inevitaveis.

    –Inevitaveis?! Eu te juro…

    –Não jures; não é pela violencia que os obrigaremos a calar. Ou, se se
    calarem, tem a certeza de que o olhar com que nos seguirem, o pensamento
    que lhes despertarmos, serão para nós igualmente humilhantes. Ha muito
    que eu adivinho esse pensamento na maneira por que nos fitam. E foi isso
    que me fez pensar.

    –Mas que intentas fazer então? Qual é o teu plano?

    –Fazer-me respeitado; mostrar que não sou inferior a elles.

    –Sim, mas de que maneira?

    –Resgatando a nossa casa, calando com a paga a bôca d'esses credores
    insolentes, e collocando-nos, pela prosperidade das nossas terras, ao
    lado d'elles todos, e acima, pela nobreza dos nossos sentimentos.

    –Queres então fazer-te lavrador?

    –Quero trabalhar. Olha, Mauricio, tenho pensado muito estes ultimos
    dias, e hoje mais do que nos outros. A nossa regeneração depende de nos
    despirmos dos preconceitos sem fundamento, com que nos educaram. A nossa
    perda é uma inevitavel e justa consequencia do nosso louco modo de
    pensar e de viver, do nosso falso orgulho e dos nossos habitos viciosos.
    Pois que quer dizer este infatuamento com que fallamos dos nossos avós?
    Qual foi a acção nobre, magnanima, que deu tal esplendor a nossa
    familia, que se não possa apagar esse esplendor com a vida de
    ociosidade, de desleixo e de dissipação ingloria que levamos? A chronica
    não é clara a esse respeito. Tivemos guerreiros que morreram pela
    patria, é nobreza, de certo; mas quantos soldados obscuros não existiram
    entre os ascendentes d'esses pobres homens que por ahi ha, tão heroes
    como os nossos, mas ignorados? tivemos um ou dois bispos; elles, algum
    pobre sacerdote, modesto e humilde, que fez por ventura mais serviços á
    religião do que o nosso parente mitrado; mas não lhes deu isso nobreza.
    O que lhes faltou talvez foi um avoengo que prestasse serviços
    particulares a algum rei benevolente, que em compensação o fez nobre por
    toda a eternidade; porque tambem ha d'estas raizes em muitas arvores
    genealogicas; desengana-te.

    –Estás eivado de uma philosophia democratica e revolucionaria, que não
    sei onde te levará, Jorge. E em vista d'isso que resolves?

    –Resolvo não continuar a merecer essas humilhações, que não posso
    deixar de reconhecer que são justas. Elles teem mais direito de nos
    desprezar do que nós a elles.

    –Desprezar-nos!–repetiu indignado Mauricio.

    –Sim, sim; desprezar-nos. E senão repara. A nossa casa deve muito.
    Grande parte dos nossos bens estão hypothecados. O nome da nossa familia
    não é já segura garantia nos contractos, e os emprestimos, que todos os
    dias os nossos procuradores contrahem, são obtidos por um preço que em
    pouco tempo nos levará á miseria. Na aldeia todos sabem isto. Não queres
    pois que nos desprezem, ao verem-nos, rapazes de vinte annos, robustos,
    e com energia e intelligencia, gastar ociosamente a vida e a juventude
    em passeios e em caçadas, olhando por cima do hombro para esses homens
    que talvez ámanhã, authorisados por a lei, nos virão pôr fóra de nossas
    casas e tomar posse d'ellas? É acaso nobre este nosso proceder,
    Mauricio? Esta cegueira, com que vamos na corrente que nos arrasta ao
    precipicio, não merece pelo menos um sorriso de compaixão?

    –Tu exageras, Jorge. Acaso teremos já chegado a taes extremos, que…

    –Nem tu imaginas a que extremos temos chegado; mas ainda nos poderemos
    salvar, se quizermos ser homens.

    –E como?

    –Mudando de vida, applicando-nos devéras á restauração d'esta casa.

    –Mas…

    –D'aqui a pouco tenciono procurar o pae e fallar-lhe desenganadamente,
    pedir-lhe que me deixe olhar por mim proprio para a administração das
    nossas propriedades, que nas mãos de fr. Januario caminham a uma perda
    certa.

    –Mas que entendes tu de administração?

    –Aprenderei. O interesse é um grande mestre. Não tiveram outro esses
    rusticos proprietarios, que por ahi vemos enriquecer.

    Mauricio ficou pensativo.

    A ideia do irmão parecia havel-o ferido profundamente. Estava-lhe
    achando um sabor de poesia que lhe agradava. Porque Mauricio, não tendo
    o caracter meditativo e o espirito analytico de Jorge, era nas coisas da
    vida guiado mais pela imaginação do que pela razão. Se uma causa o
    seduzia, adoptava-a, sem a julgar. Igualmente a rejeitaria, se á
    primeira intuição lhe desagradasse. Era tão facil de se enthusiasmar por
    o que ao principio repellira, que não se podia ter muita confiança
    n'aquelle ardor. Lavrava muito depressa a lavareda para ser de longa
    duração.

    Assim aconteceu d'esta vez, pois voltando-se para Jorge, disse-lhe com
    uma impetuosidade juvenil:

    –Dizes bem, Jorge. O nosso dever manda-nos acabar com esta vida de ocio
    e de inutilidade. É assim. É preciso que sejamos homens. Temos uma
    missão a cumprir, generosa e nobre. Trabalhemos. O trabalho traz comsigo
    a recompensa e os gozos. De certo deve sentir-se orgulhosa e satisfeita
    a alma do que trabalha, porque vê que cumpre um dever. O que se nos
    figura fadiga é prazer. Pois não te parece que um escriptor, por
    exemplo, deve ser feliz nas horas de composição? e que o artista curvado
    sobre os instrumentos do seu officio, e o lavrador vergado no campo, nem
    sequer sentem o suor que lhes corre da fronte? Tens razão, trabalhemos,
    a poesia visitar-nos-ha nas nossas horas de labor, e não nos deixará
    sentir saudades dos perdidos ocios de fidalgo.

    Jorge escutava o irmão com um sorriso triste e innocentemente malicioso,
    e commentava com um movimento de cabeça uma e outra d'estas estrophes em
    honra do trabalho. Quando Mauricio concluiu, elle ponderou-lhe com a sua
    habitual serenidade:

    –Valha-te Deus, Mauricio, que estás tu ahi a dizer? Não sonhes nem
    adoptes uma resolução séria, como a de que fallo, sob o dominio d'essas
    illusões. Vê as coisas como ellas são. O trabalho é nobre por certo, mas
    a poesia d'elle nem sempre a percebe quem muito de perto lhe conhece as
    fadigas. Não vás seduzido para a carreira do trabalho, porque cedo te
    desanimaria um cruel desengano. É preciso entrar n'isto guiado pela
    razão, e não por um enthusiasmo fugaz. O escriptor nas horas de
    composição, e principalmente o artista e o lavrador nas fadigas do seu
    mister, não teem esses gozos que fantasias; antes devem sentir muitas
    vezes grandes desalentos e grandes fastios. O que os estimula, mais do
    que a poesia, é o dever. Recompensas ha, não nego que as haja, além das
    materiaes. Deve haver uma certa tranquillidade de consciencia, uma
    ausencia de remorsos, isto de um homem poder fitar sem vergonha os que
    trabalham a seu lado, como se lhes dissesse: «Tambem tenho direito a
    viver.» Isso sim; mas o ideal, que sonhas, anda longe das officinas, das
    fabricas e dos gabinetes de estudo, ou se ahi penetra, é á maneira
    d'aquelles deuses do paganismo, que acompanhavam invisiveis os heroes
    que protegiam. Estarás sob a influencia d'elle, mas não o verás. Se a
    contemplação d'essa divindade é a recompensa que esperas, deixa-te antes
    ficar a montear por estas aldeias.

  • Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 07

    Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 07

    Aproximadamente 50.547 palavras.

    Produced by Carla Martins Ramos, Ricardo Diogo, and Tiago
    Tejo and edited by Rita Farinha (Biblioteca Nacional
    Digital–http://bnd.bn.pt).

    OPUSCULOS

    *OPUSCULOS*

    POR

    A. HERCULANO

    SOCIO DE MERITO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE LISBOA

    SOCIO ESTRANGEIRO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE BAVIERA

    SOCIO CORRESPONDENTE DA R. ACADEMIA DA HISTORIA DE MADRID DO INSTITUTO
    DE FRANÇA (ACADEMIA DAS INSCRIPÇÕES) DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE
    TURIM DA SOCIEDADE HISTORICA DE NOVA-YORK, ETC.

    *TOMO VII*

    *QUESTÕES PUBLICAS*

    TOMO IV

    1.^a EDIÇÃO

    LISBOA

    TAVARES CARDOSO & IRMÃO–EDITORES

    _5, Largo de Camões, 6

    1898

    Typ. da Empreza Litteraria e Typographica

    Rua de D. Pedro, 184–Porto

    ADVERTENCIA

    O inedito em forma de projecto de decreto insérto n'este volume com a
    data de 1851, e de certo modo os estudos que o volume encerra relativos
    ao concelho de Belem, relacionam-se com factos pouco conhecidos da vida
    do auctor, e por isso expomos sobre elles os seguintes esclarecimentos
    para sua melhor intelligencia. Em 1851 combinara A. Herculano collaborar
    com o ministerio que subiu ao poder em 23 de maio d'esse anno, em um
    vasto plano de reformas destinadas a melhorar o estado economico,
    politico e administrativo do nosso paiz. Com esse proposito se prestou a
    entrar em varias commissões não remuneradas para que foi nomeado,
    entregando-se desde logo á sua patriotica empresa. Mas este pacto tão
    esperançoso para o paiz, apenas pôde manter-se por alguns dias, antes da
    recomposição ministerial de 7 de julho do mesmo anno, cessando de todo
    quando ella occorreu. Dos trabalhos de que o historiador se encarregara
    e em que n'aquelle breve espaço de tempo pozera mão, ainda por morte
    d'elle se conservavam nas suas pastas apontamentos e manuscriptos em
    diversos estados de desenvolvimento; e foi entre esses vestigios de um
    formoso sonho patriotico, que achamos aquelle projecto que, pela materia
    de que tracta, nos pareceu dever ser incluido no presente volume. Com
    esse projecto pretendia A. Herculano promover em grande escala a cultura
    dos nossos terrenos maninhos, especialmente a dos que eram vinculados,
    facultando a alienação do dominio util d'estes ultimos, por meio de
    emphyteuse, e interessando na acquisição d'elles o povo do campo e na
    cessão os administradores de vinculos. No preambulo, como o
    apresentâmos, faltam algumas considerações com que o auctor o precedeu
    ácerca do alcance economico dos decretos dictatoriaes de D. Pedro IV,
    pois que do respectivo manuscripto apenas apurámos fragmentos truncados;
    mas a omissão não o prejudica quer na redacção quer na doutrina, quanto
    ao seu essencial objectivo, sendo certo que o assumpto de taes
    considerações está largamente tractado pelo auctor no seu estudo sobre
    vinculos publicado no vol. IV d'esta collecção. Com o conhecimento
    d'este estudo facil nos foi deduzir da leitura de um dos referidos
    fragmentos, que A. Herculano attribuia ao seu projecto a vantagem de
    poder obstar a que os maninhos que se tornassem allodiaes pela extincção
    dos vinculos, viessem a accumular-se, malbaratados e incultos, nas mãos
    de poucos e já abastados proprietarios, á similhança do que succedera
    com muitos dos bens territoriaes que as leis de D. Pedro libertaram para
    o dominio do estado. A extinccão dos vinculos viria depois, com maior
    proveito de todos os interessados incluindo a sociedade. Em outro dos
    fragmentos se lê que o governo tencionava mandar rever o decreto de 22
    de junho de 1846, sobre foraes, para o reconduzir ao genuino pensamento
    do decreto de 13 de agosto de 1832, sobre a mesma materia, aclarando-se
    tambem as disposições d'este ultimo. Mas alguns annos depois, como se
    conclue de uma correspondencia que o auctor mandou para o _Archivo
    Rural_ e que fecha este volume, já elle achava tarde para se proceder a
    essa revisão, attenta a multiplicidade de transacções já então
    effectuadas segundo a lei de 1846.

    Quanto aos estudos relativos ao concelho de Belem são do tempo em que A.
    Herculano presidiu á camara municipal d'aquelle concelho, no biennio de
    1854-1856, e constam de duas representações da camara, uma ao governo,
    outra ás côrtes, e de um projecto de _Caixa de Soccorros Agricolas_.
    Foram todos publicados em folhetos e vão reproduzidos no presente volume
    apenas com leves emendas de revisão que o auctor deixou indicadas. Estes
    importantes estudos e a presença do auctor na vereação do concelho,
    tambem se relacionam com os factos politicos a que acima nos referimos.
    A medida administrativa traduzida pelos decretos de 11 de setembro de
    1852, que extinguiram o termo de Lisboa e com elle constituiram os
    concelhos de Belem e dos Olivaes, estava incluida no plano de reformas
    do ministerio de 23 de maio de 1851; mas o ministerio seguinte não
    attendera n'estes diplomas a todas as razões de justiça em que ella
    devia basear-se, succedendo que os novos concelhos ficaram privados dos
    recursos a que tinham natural direito e lhes eram imprescindiveis para
    prover á sua livre administração e manter a sua independencia. Como as
    opiniões de A. Herculano n'esta materia e a sua intervenção n'aquelle
    plano de reformas eram conhecidas de muitas pessoas influentes do
    concelho de Belem, d'ahi nasceu a idea de o investirem no encargo de
    vereador, para que elle viesse reclamar contra a injustiça e aclarar o
    pensamento originario da medida decretada. Accresce que em 1854 o
    ministerio ainda era o mesmo que referendara aquelles decretos, e d'este
    modo se explica a eleição do historiador e pelo theor das representações
    da camara se ajuiza de toda a questão. Porém, não foi apenas para
    satisfazer aquelles justificados designios dos seus constituintes que A.
    Herculano acceitou o encargo popular para que fôra eleito. Uma aspiração
    mais elevada, sobrelevando quaesquer intuitos politicos, o guiou n'esse
    procedimento, aspiração que se revelou em todos os actos da camara da
    sua presidencia, e accentuadamente se patenteia nos estudos de que
    falamos: era crear no concelho de Belem uma norma de administração local
    que, tornando-o florescente, podesse servir de incentivo a outros
    concelhos: era tentar a propaganda do municipalismo pelo exemplo, já que
    em 1851 lhe escapara o ensejo para fazer revigorar em todo o paiz, a
    grande instituição que elle tanto encarecia e que, segundo as suas
    profundas investigações historicas, foi n'outras éras a base da nossa
    prosperidade e força politica.

    Não é para este logar a narração de como a camara presidída por A.
    Herculano veio a ser dissolvida pelo governo, não conseguindo o
    historiador levar a cabo a sua nobre tentativa. Os esclarecimentos que
    ficam expostos são bastantes para o fim a que se destinam.

    1898.

    Os editores.

    DUAS EPOCHAS E DOUS MONUMENTOS OU A GRANJA REAL DE MAFRA

    1843

    Houve entre nós um rei nascido com uma indole generosa e magnifica: foi
    D. João V. Favoreceu a fortuna a grandiosidade do seu animo. Durante o
    reinado d'este principe as entranhas da America pareciam converter-se em
    ouro, e a terra brotar diamantes para enriquecerem o thesouro portuguez,
    e o nosso primeiro rei do seculo XVIII pôde emular Luiz XIV em fasto e
    magnificencia. Ha, porém, differenças entre os dous monarchas: Luiz XIV,
    mais guerreador que guerreiro, malbaratou o sangue de seus subditos em
    conquistas estereis; D. João V, mais pacífico que timido, comprou
    sempre, sem olhar ao preço, a paz externa dos seus naturaes. Luiz XIV
    levou a altissimo gráu d'esplendor as letras e as sciencias: D. João V
    tentou-o; mas ficou muito áquem do principe francez. Devemos todavia
    lembrar-nos de que Luiz XIV era senhor de uma vasta monarchia, e D. João
    V rei de uma nação pequena. Uma litteratura extensa e ao mesmo tempo
    vigorosa só apparece onde ha muitos homens. É como a grande cultura, que
    só pode fazer-se em opulentas propriedades e dilatados terrenos.

    D. João V teve como Luiz XIV o seu Louvre; mas um Louvre em harmonia com
    o caracter, não tanto religioso como beato e hypocrita, do seu paiz
    n'aquella epocha. Mafra ficou duvidosa no desenho, entre o mosteiro e o
    palacio. As duas entidades architectonicas compenetram-se ahi d'um modo
    inextricavel. A púrpura está lá remendada de burel; o burel alindado com
    púrpura, e o sceptro do rei enlaça-se com a corda d'esparto, ao passo
    que a alpargata franciscana ousa pisar os degráus do throno. Os que
    sabem quão corrompidos foram os costumes em Portugal no princípio do
    seculo passado, e quão esplendido e ostentoso foi o culto divino; quão
    brilhante foi a côrte portugueza n'esse tempo, e por quão frouxas mãos
    andou o leme do estado, não precisam vêr Mafra. Mafra é a imagem de tudo
    isso.

    Um grande edificio, fosse qual fosse o destino que seu fundador lhe
    quizesse dar, é sempre e de muitos modos um livro de historia. Os que
    n'elle buscam só um typo por onde aferir o progresso ou decadencia das
    artes na epocha da sua edificação, lêem apenas um capitulo d'esse livro.
    Os castellos, os templos, e os palacios, triplice genero de monumentos
    que encerra em si toda a architectura da Europa moderna, formam uma
    chronica immensa, em que ha mais historia que nos escriptos dos
    historiadores. Os architectos não suspeitavam que viria tempo em que os
    homens soubessem decifrar nas moles de pedras affeiçoadas e accumaladas
    a vida da sociedade que as ajuntou, e deixavam-se ir ao som das suas
    inspirações, que eram determinadas pelo viver e crêr e sentir da geração
    que passava. Elles não sabiam, como os historiadores, que no seu livro
    de pedra, tambem como nos d'aquelles, se podia mentir á posteridade. Por
    motivo tal foi a architectura sincera.

    Mafra é um monumento rico, mas sem poesia, e por isso sem verdadeira
    grandeza: é um monumento de uma nação que dormita após um banquete como
    os de Lucullo: é o toucador de uma Lais ou Phrine assentado dentro do
    templo do Deus dos christãos, e sob outro aspecto, é a beataria d'uma
    velha tonta, affectando a linguagem da fé ardente e profunda d'Origines
    ou de Tertulliano.

    Sem contestação, Mafra é uma bagatella maravilhosa, o dixe de um rei
    liberal, abastado e magnifico; é pouco mais ou menos o que foi Portugal
    na primeira metade do seculo XVIII.

    Collocai pela imaginação Mafra ao pé da Batalha, e podereis entender
    quanto é clara e precisa a linguagem d'estas chronicas, lidas de poucos,
    em que as gerações escrevem mysteriosamente a historia do seu viver. A
    Batalha é grave como o vulto homerico de D. João I, poetica e altiva
    como os cavalleiros da ala de Mem Rodriguez, religiosa, tranquilla,
    santa como D. Philippa rodeada dos seus cinco filhos. As mãos que
    edificaram Santa Maria da Victoria, meneando as armas em Aljubarrota,
    deviam ser vencedoras. A Batalha representa uma geração energica, moral,
    crente: Mafra uma geração afeminada, que se finge forte e grande. A
    Batalha é um poema de pedra: Mafra é uma semsaboria de marmore. Ambas,
    ecchos perennes que repercutem nos seculos que vão passando a expressão
    complexa, e todavia clara e exacta, de duas epochas historicas do mesmo
    povo, sua juventude viçosa e robusta, e sua velhice cachetica.

    O caracter de um monumento do tempo presente não póde ser por certo um
    edificio gigante, um templo, ou um palacio. Onde as crenças religiosas
    vacillam como a luz que se apaga, o templo seria uma pagina de historia
    fabulosa: onde a pobreza extrema substitue a riqueza, um tanto estupida
    e fastosa com mau gosto, o palacio esplendido seria um capitulo
    anachronico. O monumento deve resumir a sociedade, e em nenhum d'esses
    generos de _memoradum_ se acharia representado o actual existir.

    Que somos nós hoje? Uma nação que tende a regenerar-se: diremos mais:
    que se regenera. Regenera-se, porque se reprehende a si propria; porque
    se revolve no lodaçal onde dormia tranquilla; porque, se irrita da sua
    decadencia, e já não sorri sem vergonha ao insultar d'estranhos; porque
    principia, emfim, a reconhecer que o trabalho não deshonra, e vai
    esquecendo as visagens senhorís de fidalga. Deixai passar essas paixões
    pequenas e más que combatem na arena politica, deixai fluctuar á luz do
    sol na superficie da sociedade esses corações cancerosos que ahi vêdes;
    deixai erguerem-se, tombar, despedaçarem-se essas vagas encontradas e
    confusas das opiniões! Tudo isto acontece quando se agita o oceano; e o
    mar do povo agita-se debaixo da sua superficie. O sargaço immundo, a
    escuma fétida e turva hão-de desapparecer. Um dia o oceano popular será
    grandioso, puro e sereno como sahiu das mãos de Deus. A tempestade é a
    precursora da bonança. O lago asphaltite, o Mar-Morto, esse é que não
    tem procellas.

    O nosso estrebuxar, muitas vezes colerico, muitas mais mentecapto e
    ridiculo, próva que a Europa se enganava quando cria que esta nobre
    terra do ultimo occidente era o cemiterio de uma nação cadaver. Vivemos:
    e ainda que similhante viver seja o delirio febril de moribundo, esta
    situação violenta, aos olhos dos que sabem vêr, é uma crise de salvação,
    posto que dolorosa, e lenta. Confiemos e esperemos: o nome portuguez não
    foi riscado do livro dos eternos destinos.

    Um dos signaes evidentes da restauração social do paiz, e ao mesmo tempo
    o caracter mais notavel que distingue esta epocha é o seu movimento
    industrial, industrial na mais extensa significação da palavra. Primeira
    entre as differentes industrias é a agricultura, e a agricultura tem
    incontestavelmente sido o nosso principal progresso.

    Qual será portanto o monumento que melhor resuma este periodo de
    regeneração? Será o aspecto do solo, o viço dos campos, a abundancia
    substituida á escaceza na morada do homem laborioso. Arroteai algumas
    geiras de terra: em um marco esculpi a data d'essa transformação: cobri
    a superficie de Portugal d'estes marcos. Eis ahi, não um, porém mil
    monumentos que significarão o espirito do presente.

    Plantai o bosque na serrania escalvada: que elle braceje virente para o
    céu, e enrede as suas raizes nas rachas da penedia. Agitada pelo vento,
    a selva com o seu rugir irá contando a cada seculo que nascer as
    tendencias laboriosas do nosso, que já começam a apparecer. Os cimos das
    montanhas são as verdadeiras aras de Deus: é lá que oravam as nações
    virgens. Sanctificai a vossa religião de patriotismo pelo culto
    universal e primitivo: o bosque murmurando com o espirar da aragem é um
    hymno ao Ancião dos Dias: que este hymno nos consagre a memoria ao amor
    e gratidão de nossos filhos!

    Ao lado dos paços monasticos de Mafra, monumento de uma era de vans
    grandezas, vai-se hoje alevantando sem ruido o monumento modesto, mas
    eloquente e sancto, da idéa progressiva da actualidade. Ao lado d'essas
    pedras amontoadas, d'esses torreões gigantes, macissos, e pesadamente
    estupidos, serpeam já os prados virentes por veigas e valles, cobertos
    ainda ha pouco de abrolhos e urzes. Contrastando com os lanços de
    muralhas caiádas da ochre, que amarelleja bestialmente, como um cordão
    de ouropel enfiado em diamantes, por entre a côr severa dos marmores
    tisnados pelo tempo, vêem-se ao longo verdejar os pinheirinhos, que
    coroam as alturas ao norte e oriente d'aquelle edificio monstruoso,
    hybrido, e extravagante como uma composição pseudo-poetica da
    Phenix-Renascida. As folhas de terra cultivada dilatam-se pelas chapadas
    e encostas, várias na côr segundo a altura das cearas, ou conforme a
    qualidade do solo, nos sitios onde ainda as sementeiras não surgem no
    comêço do germinar. É como um xadrez enorme, cujas casas se houvessem
    repartido ao acaso n'um taboleiro irregular e immenso.

    A vontade real fez apparecer o edificio: outras Vontades Reaes fizeram
    nascer a granja-modelo. Para a primeira requeria-se ouro e força; para a
    segunda intelligencia e amor do paiz. O sceptro foi robusto e potente
    quando amontoou aquella penedia lavrada e esculpida: o sceptro é o
    symbolo da paz e da beneficencia quando em vez de converter pão em
    pedras, converte gandra bravia e esteril em um nobre exemplo que mostre
    ao povo onde está a sua derradeira esperança, o progresso da industria e
    o amor do trabalho.

    Para a maravilhosa inutilidade de D. João V gastaram-se por largos annos
    os milhões que de continuo nos entregava a America: o lidar accumulado
    de cincoenta mil homens consumiu-se em desbastar e pulir essas pedras
    hoje esquecidas, que apenas servem para alimentar por algumas horas a
    curiosidade dos que passam. É uma verdade cem vezes repetida, que o
    preço de Mafra teria coberto Portugal das melhores estradas da Europa;
    mas nem por ser trivial essa verdade deixa de ser dolorosa. E todavia
    tal preço era o menos! As maldiccões submissas dos que foram arrastados
    de todos os angulos da monarchia, para esta grande anudúva nacional, e
    as lagrymas das suas familias, não as pôde suffocar a adulação cortezã;
    transsudaram até nós nas paginas da historia, e cahindo sobre o ataúde
    dourado do principe que as fez verter, deixaram a inscripção do seu nome
    manchada de uma nódoa que o tempo não gastará.

    A vasta e risonha granja que viceja ao lado do negro e carrancudo
    edificio não custou uma só mealha dos dinheiros publicos; não arrancou
    uma lagryma. Não são maldicções o seu fructo: são bençãos dos que vivem:
    serão no futuro bençãos da posteridade.

    O convento-palacio, nascido sob manto de púrpura, alegre na sua
    juventude e habituado a pompas de longos annos, ahi está, illustre
    mendigo, assentado hoje n'um como ermo, onde a vida robusta de seculos
    que lhe fadára o fundador, se vai convertendo em antecipada decrepidez.
    Inutilmente com a sua grande voz de bronze elle pede que o abriguem das
    injurias das estacões. As aguas do céu, filtrando-lhe por entre os
    membros, lá os vão lentamente desconjuntando, o sol cresta-lhe a fronte
    e faz prosperar os musgos, que lhe arrugam a rija epiderme: o vento
    redemoinha atravez das suas janellas mal seguras, e bramindo n'aquellas
    solidões do seu recinto, atira ao rosto das estatuas, aos acanthos dos
    capiteis, á face polida das paredes de marmore, o pó que tomou nas azas
    passando pelas serranias. No meio do estrepitar do mundo ninguem escuta
    o gemer do gigante de pedra; ninguem se lembra de tirar do peculio do
    estado a mais pequena somma para elle. E porque? Porque a sua miseria
    não fala aos corações nem aos entendimentos. Memorias gloriosas? Não as
    ha lá. Utilidade? Para que serve essa pedreira immensa?

    A granja, porém, de Mafra nem teme as aguas do céu, nem os raios
    creadores do sol: povôa os seus agros outeiros de pinhaes, a cujo abrigo
    zombará em breve da furia dos ventos. Não vae pedir soccorros á
    munificencia publica: util já aos pequenos e humildes, sê-lo-ha tambem
    algum dia a quem a fez nascer, util em proveitos materiaes, e, o que
    mais vale, em fructos de verdadeira gloria.

    Ha quatro annos apenas, que os muros da cêrca ou tapada de Mafra,
    estirando-se como serpe monstruosa por tres leguas, atravez de valles e
    outeiros, encerravam um vasto maninho coberto de sarças rasteiras, onde
    raro se via alevantar uma arvore solitaria, curva e pendida pelo açoutar
    continuo das ventanias, ou algum pequeno e enfezado pinhal perdido no
    meio d'aqueles mattos inuteis. Era um symbolo de barbaria ao pé d'um
    symbolo de opulencia. O edificio e o parque pareciam significar no seu
    conjuncto–o orgulho tendo por fundamento o nada.

    Ha tres annos ordenaram SS. MM. se começassem a desbravar esses terrenos
    incultos. O actual intendente das cavalheriças reaes, o Snr. A. Severino
    Alves, foi encarregado de administrar as caudelarias alli estabelecidas,
    e da direcção daquelle arroteamento. Obra de uma sexta parte da tapada
    mais proxima do edificio destinou-se immediatamente para a cultura, e os
    trabalhos principiaram. O estado em que estes se acham, comparado com as
    despezas, proporcionalmente diminutas, que se tem feito, provam que
    talvez houvesse quem fosse tão digno de ser encarregado de realisar o
    pensamento generoso, nobre, e civilisador dos nossos Principes, mas que
    ninguem por certo o seria mais que o Snr. A. Severino Alves.

    O que vamos dizer não é completo; não é a historia particularisada de
    tudo que examinámos com os proprios olhos; porque não queremos ser
    prolixos. O nosso intento é vêr se contribuimos para o verdadeiro
    progresso da terra em que nascemos. Se os grandes ou pequenos
    proprietarios que abandonam os seus campos e herdades, ou que desprezam
    os meios de os tornar mais productivos, se mostram surdos ao bradar da
    imprensa e de todos os homens sisudos, revocando esta malaventurada
    nação á actividade e ao trabalho, que se envergonhem ao menos com o
    exemplo que lhes dá o throno. Em quanto os governos e os parlamentos
    ponderam a conveniencia, a necessidade do estabelecimento das quintas de
    estudo, em Mafra, sem ruido, sem verbosos relatorios e discursos, se vae
    estabelecendo e aperfeiçoando uma granja modelo, que esperâmos faça
    sentir dentro de pouco á agricultura portuguesa o seu benefico influxo.
    Certos de que SS. MM. se collocarão á frente do movimento agricola do
    paiz, porque o augmento da agricultura deve trazer a prosperidade aos
    seus subditos, n'este jornal, que se derrama por todos os angulos de
    Portugal, daremos noticia das experiencias que se forem fazendo, dos
    melhoramentos que se forem introduzindo nas propriedades do apanagio da
    Corôa. A nossa situação especial nos habilita para obter a este respeito
    exactas informações. A utilidade que d'ahi possa resultar aos
    agricultores, retribuam-n'a elles em gratidão aos Principes que souberam
    ser dignos do amor dos portuguezes, e entenderam plenamente o grave e
    progressivo pensamento d'este seculo.

    Escolhida a porção de terreno na tapada de Mafra, que se devia destinar
    á cultura, dividiu-se aquella parte em oito grandes tractos ou folhas,
    cujo arroteamento se tem seguido successivamente e sem interrupção até
    hoje.

    O systema adoptado para este fim foi o melhor que era possivel imaginar.
    Alem da cultura feita á custa da Casa Real, vão-se distribuindo aos
    habitantes da villa de Mafra os terrenos que elles querem desbravar. O
    inteiro uso-fructo d'estes terrenos fica pertencendo por tres annos a
    quem os converte de maninhos que eram em terras araveis, e ainda que o
    solo da tapada me pareça de inferior qualidade, e se achasse muito
    deteriorado pelas plantas ruins de que estava coberto, todavia essa
    cultura tem dado excellentes resultados. A producção da batata, planta
    tão conveniente para terrenos arroteados de novo, ha sido tal, que no
    anno passado se alevantaram na tapada 1:800 carradas d'este util solano,
    cuja introducção na Europa tornou impossiveis as fomes espantosas, que
    de annos a annos lhe desbastavam a povoação. N'essas encostas e veigas
    onde, tão pouco tempo ha, os olhos esmoreciam alongando-se pelos
    sarçaes, vêem-se estendidas as searas, os campos de milho e os batataes,
    e nos rostos dos habitantes da villa e dos povoádos circumvisinhos, e
    nos seus trajos e porte, vê-se que se o amor da taberna tem diminuido,
    os habitos do trabalho, e por isso a abastança tem augmentado.

    Mais de vinte egoas, mãis e filhas, e de quarenta poldros, constituem já
    uma caudelaria que vai adquirindo rapido crescimento. Cincoenta vaccas
    entre as de casta vulgar, torinas e de uma excellente raça asiatica, ahi
    são tractadas com esmero talvez não inferior ao que se emprega na
    começada caudelaria. Os estabulos e curraes, ordenados pelos melhores
    methodos modernos, e com attenção a importantes considerações
    hygienicas, seriam um bom modelo para aquelles que pensam reduzir-se o
    tratamento dos gados unicamente a dar-lhes muito de comer, não importa
    se bom ou máu.

    Ainda que na granja de Mafra os animaes sejam alimentados, por via de
    regra, á manjadoura, systema hoje aconselhado nos paizes mais adiantados
    como preferivel por graves motivos, nem por isso deixa de haver n'este
    estabelecimento agricola muitos prados pastaveis, compostos, alem da
    azevem, de uma mistura de certo numero d'aquellas plantas de que
    separadamente se compõem os artificiaes. Estes, porém, merecem com razão
    os especiaes cuidados do Snr. Severino Alves.

    As plantas que constituem estes prados, tanto regados como seccos, são a
    luzerna, os trevos, branco e encarnado, o onobrychis (sainfoin), a
    anafa, a cenoura, e a ervilhaca. A cultura d'algumas d'estas forragens
    ainda se limita a diminutas experiencias, mas a de outras já tem
    adquirido bastante extensão. Admirámos sobretudo um luzernal, onde o
    methodo da transplantação produziu magnificos resultados. Cada pé de
    luzerna lançando em roda os seus muitos rebentões ou filhos, fórma uma
    especie de mouta robusta, que produz em cada córte muito maior porção de
    pasto do que produziria uma superficie egual á que occupa, semeada de
    luzerna que não fosse transplantada.

    O incremento que estes prados podem ter n'aquelles, d'antes tão pobres e
    tristes, hoje tão ricos e risonhos terrenos, é d'extrema importancia.
    Duas enormes lagôas, uma das quaes é constantemente refrescada e
    supprida por uma pequena veia d'agua perenne, foram limpas e vedadas
    construindo-se canos subterraneos por onde se hajam de sangrar
    convenientemente. Estas lagôas, collocadas em certa altura, podem regar
    um valle extensissimo, optimo para o augmento de prados.

    A silvicultura, essa parte tão interessante e tão bella da sciencia de
    agricultar, tem em Mafra um terrivel inimigo–o noroeste. Este vento
    sopra ahi com violencia extraordinaria. Alguma arvore silvestre, que
    vivia solitaria no meio d'aquelles mattos rasteiros, vergada para sueste
    na altura das arrancas, estende rachytica os seus ramos açoutados pelas
    ventanias quasi parallelos com a terra. Estabeleceu-se porém um systema
    d'abrigos, que deve dentro d'alguns annos tornar não só possivel, mas
    até facil, a propagação de arvores de floresta e de fructo. Os
    pinheirinhos bravos (_pinus maritima_) cobrem já os cabeços escalvados
    que se alevantam por meio das chapadas, encostas, e valles, e os
    castanheiros, carvalhos, e azinheiros bordam os caminhos: estes bosques,
    quando crescidos, annullarão em grande parte a violencia dos ventos, e
    então será possivel o plantio de outras arvores silvestres e
    fructiferas, principalmente das oliveiras, de que já se vão preparando
    extensos e bem ordenados viveiros.

    Uma consideração que occorre naturalmente ao imaginar similhante
    extensão de cultura, é a dos adubos, e a do modo de os fazer
    progressivamente augmentar. Ácerca d'este ponto capitalissimo, daremos
    brevemente curiosas e interessantes noticias, em um artigo especial.
    Então teremos occasião de falar dos differentes methodos de amanhar as
    terras, que progressivamente se vão introduzindo na granja de Mafra.

    Os instrumentos aratorios e mais machinas do serviço agricola são
    construidos no mesmo estabelecimento em officina para isso
    principalmente deputada. Ahi se encontra a charrua ingleza, a araveça
    grande de uma aivéca, a pequena de duas, o semeador, as grades
    triangulares e de diversos feitios, o trilho de debulhar, o engenho de
    traçar cevada, carros inglezes, etc., alem dos instrumentos proprios do
    paiz construidos com perfeição.

    Tal é o rapido quadro da transformação que apresenta uma parte d'esses
    maninhos inuteis da tapada de Mafra. Importante em si, similhante
    transformação muito mais o tem sido pela influencia que o exemplo produz
    n'aquelles arredores: o agricultor, que por assim dizer palpa as
    vantagens que resultam de um systema illustrado de agricultar, vae
    abandonando as suas grosseiras usanças, que todos os discursos dos
    livros não alcançariam estirpar. Mafra está sendo um fóco de luz, uma
    fonte de progresso agricola. Entre os beneficios que tem produzido este
    é porventura o maior. Aquella vasta granja, se proporciona a muitos
    abastança, o alimento para o corpo, offerece a muitos mais as revelações
    da sciencia–o alimento para o espirito.

    O edificio ahi está mendigo, abandonado, canceroso já, e inutil, ao lado
    da granja cheia de viço, rica, generosa, e abençoada d'esperanças. São
    dous monumentos de dous seculos diversos, ambos obras de Reis. Que a
    philosophia julgue um e outro, e julgue tambem as vontades e as
    intelligencias que fizeram surgir um e outro.

    BREVES REFLEXÕES SOBRE ALGUNS PONTOS DE ECONOMIA AGRICOLA

    1849

    Ajuda, 8 de março de 1849

    Circumstancias meteorolOgicas extraordinarias ameaçam o nosso bello paiz
    de uma colheita nulla. Perto de trez mezes de aridez, na epocha do anno
    em que as chuvas são mais necessarias, têm quasi destruido as esperanças
    dos agricultores. Um mez mais que dure esta situação, e o mal
    tornar-se-ha intensissimo e, em grande parte, irremediavel.

    Os espiritos fracos contentam-se com blasphemar ou carpir-se. Isto é
    cobardia. Muitos voltam-se para Deus e imploram a Providencia. Isto é
    respeitavel. Outros pensam nos alvitres para occorrer á miseria e á
    fome, que pode vir a pesar sobre a população menos abastada. Isto é
    generoso e nobre. Mas aquillo em que poucos pensam é em converter esta
    situação assustadora n'uma lição salutar; em deduzir do mal presente
    proveito para o futuro.

    O nosso povo actual é um pouco similhante a seus avós, os marinheiros do
    seculo XVI, que affrontavam as procellas dos mares da India e da
    America. Rudes e feros na bonança, voltavam-se para o céu quando a
    tempestade ameaçava submergil-os. Era d'aquelles trances que os
    sacerdotes, seus companheiros de riscos e aventuras, se aproveitavam
    para os revocar ás sanctas doutrinas da fé, e era ordinariamente então
    que n'essas almas rudes achavam accesso o arrependimento e as verdades
    da religião.

    Desejariamos que a imprensa fosse tambem um pouco similhante aos bons
    missionarios do seculo XVI; que nos dias da angustia dissesse algumas
    verdades duras aos povos, quando mais não fosse, ao menos para
    interromper a monotonia das que diariamente diz aos reis. A imprensa que
    vive da publicidade, da publicidade que se estriba na bolsa do povo,
    praticaria um acto de devoção mais corajosa, falando severamente aos
    seus naturaes patronos, do que dirigindo-se aos principes, de quem ella
    depende incomparavelmente menos para existir e prosperar.

    Por isso nós a convidariamos para que, sem distincção de partidos, sem
    lhe importar com a diversidade da sua missão politica ou litteraria,
    aproveitasse o ensejo de temores que assaltam geralmente os animos, para
    insinuar n'estes importantes verdades.

    A natureza do flagello que nos opprime, as observações que fizemos n'uma
    pequena excursão para o lado de Cintra, nos suscitaram estas reflexões,
    a que esperamos associem outras de mais valor as pessoas competentes.
    Posto que dominados por uma viva affeição á agricultura, a essa rainha
    das industrias, somos apenas curiosos n'esta materia. Ha, porém, uma
    certa somma de verdades iniciaes na sciencia que estão ao alcance de
    todos os que as buscam, seja como estudo, seja como curiosidade.

    Portugal tem uma agricultura incompleta. Se exceptuarmos o Minho,
    podemos dizer que o producto do nosso sólo é exclusivamente representado
    pelos cereaes, pelo vinho e pelo azeite. Por importantes, comtudo, que
    sejam os dous ultimos, o principal é, como em todos os paizes, o dos
    cereaes.

    Mas é doutrina incontestavel que para a cultura d'estes poder prosperar
    é necessaria a copia de estrumes; que para haver copia d'estes é
    necessario gado; que este não existe, ou tem uma existencia precaria
    onde não ha pastagens, e estas são sempre miseraveis e insufficientes
    n'um paiz onde a _intensidade_, digamos assim, do systema agricola não é
    proporcional á sua _extensão_; onde a arte não ajuda energicamente a
    natureza a supprir a alimentação dos animaes.

    Portugal não tem creações de gado: queremos dizer, não tem n'este ramo
    de industria rural senão o restrictamente necessario para a lavoura,
    pelo que respeita a gado grosso; e o seu gado lanigero é pouco numeroso,
    imperfeito, e rareado annualmente pelos resultados de um tractamento
    quasi selvagem. Porque? Porque ainda não adoptámos a doutrina
    fundamental de toda a agricultura judiciosa, a creação dos animaes n'uma
    larga escala, nem buscámos ainda os meios para isso adequados.

    As nossas terras mais ferteis produzem de 10 a 15 sementes, e a
    producção das mediocres é entre 5 e 8. Tendo a cultura adquirido uma
    grande _extensão_, com esta producção acanhada o lavrador acha-se
    collocado entre dous extremos deploraveis. Se o anno é mau, a limitada
    proporção entre a semente e o producto torna-se ainda mais restricta, e
    embora suba o preço do genero, o fabrico absorve quasi a colheita: se o
    anno é propicio, a barateza no mercado vem a inutilisar a abundancia, e
    o cultivador fica sempre miseravel.

    A imperfeição das machinas e dos methodos, o pessimo systema, ou antes a
    negação de systema nas rotações, e varias outras causas, contribuem para
    este estado violento; mas a causa principal é a desproporção enorme na
    distribuição do solo: o homem crê fazer para si a parte do leão, e
    engana-se. Espoliando os animaes que o ajudam nas suas laboriosas
    tarefas, os animaes que o vestem ou lhe fertilisam os campos, do quinhão
    que lhes cabe nos fructos d'estes, torna-se desgraçado a si no meio de
    uma abundancia mais apparente que real.

    Na Inglaterra, o paiz modelo da agricultura, os productos de um terço,
    pelo menos, da terra cultivada pertencem aos animaes domesticos. Nós
    talvez não lhes reservamos um centesimo. O erro n'esta parte produz uma
    infinidade de factos, que principalmente determinam a falta de progresso
    _d'intensidade_ na agricultura nacional.

    Um anno pouco favoravel, como o que vae correndo, descobre logo por
    diversos modos a nossa situação deploravel.

    De que ouvimos principalmente queixar os agricultores, quando os
    interrogamos sobre os fataes effeitos d'este estio inesperado, que veio
    pesar sobre nós no coração do inverno? De que esse pouco gado que
    possuem morrerá á fome. Porque? Porque o lavrador põe quasi
    exclusivamente as suas esperanças nas hervagens espontaneas; entrega á
    Providencia o cuidado dos seus bois e das suas ovelhas. Esta confiança
    nem é prudente, nem religiosa. Deus não deu inutilmente ao homem a
    faculdade de reflectir, nem os braços para o trabalho. A protecção da
    Providencia não vae até o ponto de supprir o desprezo da nossa
    actividade intellectual e material.

    Perdemos os poucos gados, que possuimos, quando o inverno é secco;
    perdemol-os se é excessivamente chuvoso. Pode-se dizer que este facto
    pinta e resume o estado do nosso progresso agricola.

    Que prevenções faz em geral o cultivador para obviar a qualquer d'eslas
    hypotheses terriveis, tão faceis de verificar-se, principalmente a
    segunda? Nenhumas. Onde estão os fenos devidamente colhidos e
    reservados, onde as raizes das plantas chenopodeas e cruciferas, onde os
    prados artificiaes, regados pelos ribeiros, onde, emfim, todos esses
    recursos, de que o agricultor dos paizes centraes e do norte lança mão
    para resistir ás incertezas das estações?

    O lavrador cultivou cereaes, muitos cereaes, e repousou, pelo que tocava
    ao seu gado; nos dons espontaneos do inverno. O inverno negou-os. Resta
    pedir a Deus que reduza á regularidade as variações atmosphericas,
    variações incertas só para nós, e dependentes de leis naturaes, que
    porventura os progressos da meteorologia virão ainda revelar-nos, e que
    não cremos se hajam de alterar a favor da nossa imprevidencia.

    Sabemos o que se costuma responder a isto: «Esses fenos, esses prados,
    essas raizes fusiformes, que constituem uma alimentação abundante para
    os animaes, são possiveis nos paizes humidos do norte. O nosso clima
    adusto torna impossivel a applicação de um systema analogo.»

    Seria longo, mas pouco difficil, mostrar sob todos os aspectos o
    sophistico d'este argumento; mostral-o por factos. Impressionados pelo
    que, com tristeza, acabamos de ver n'um tracto de terra de cinco leguas,
    limitar-nos-hemos a algumas considerações especiaes.

    E primeiro que tudo, com que direito se invoca, para defender a incuria
    agricola, falta de humidade no nosso clima, quando deixamos correr
    annualmente para o mar milhões de pipas d'agua pelos grandes rios e por
    centenares de regatos, que podiam, muitas vezes com leve trabalho,
    fertilisar os campos visinhos e alimentar prados, cuja producção
    excederia quanto a cultura dos paizes do norte offerece, n'este género,
    mais admiravel?

    Depois, que meios se empregam para temperar pela arte os effeitos da
    nossa situação meridional? Os habitos adversos a esses meios são os que
    dominam entre a população campestre. É sabido que as arvores, ainda nas
    noites mais seccas do estio, attrahem á terra uma grande porção de
    humidade. A que deve o Minho a frescura dos seus valles, os enormes
    productos do seu solo, que não soffre comparação com as nossas terras
    fortes da Estremadura? A uma arborisação admiravel. O homem do sul tem
    odio, litteralmente odio, não só ás selvas, mas até á arvore solitaria,
    que pode assombrar-lhe algumas pavêas de cereaes, porque os cereaes são
    o idolo que resume todos os seus affectos, embora a cruel experiencia
    lhe venha provar, nos annos desfavoraveis á cultura das gramineas, que o
    seu systema acanhado e exclusivo conduz facilmente á miseria e à
    perdição.

    Este ódio às mattas e arvoredos tem-se tornado n'uma especie de
    contagio, que vae lavrando e ameaça as provincias septentrionaes. A
    Beira ha muito que começou a ser despojada dos seus magnificos bosques,
    que por partes a tornavam rival do Minho. Os effeitos, porém, do
    destroço insensato dos grandes vegetaes sentem-se principalmente na
    Estremadura, e sobretudo n'este tracto de terra entre dous mares, onde
    se acha situada a capital. Os vapores, que as arvores, povoando os cimos
    dos montes, attrahiriam para os valles, não descem á terra: os ventos do
    norte, precipitando-se livres dos visos calvos das collinas, fustigam as
    encostas do sul, remoinham nas planicies, e não consentem sequer que o
    orvalho console á noite a vegetação devorada pelo sol do meio-dia. Na
    verdade, a aridez dos campos na estação estival pouco importa ao
    cultivador exclusivo de cereaes; mas quando causas desconhecidas
    impedem, durante o inverno, o curso dos ventos chuvosos, quando o verão
    vem substituir-se ao inverno, não sabemos se como castigo se como
    advertencia, então elle maldiz essas torrentes de ventania, que produzem
    mais seccura em vinte e quatro horas do que tres dias de sol ardente.
    Maldil-as, sem se lembrar ou sem saber, que seus paes e elle proprio
    contribuiram para a existencia de similhante flagello pela destruição
    das mattas, ou, quando menos, pelo descuido no plantio d'ellas.

    O ciume cego com que a menor leira de terra aravel é disputada aos
    arvoredos, por causa do predominio exclusivo dos cereaes, explica
    indirectamente esse furor com que são perseguidas as arvores, até nos
    sitios mais inferteis; com que se lhes disputa a vida até por entre as
    penedias das serras. Como a cultura das forragens é insignificante, e
    enormemente desproporcionada á dos cereaes; como o céu está encarregado,
    pelo commum dos agricultores, de prover á sustentação dos gados, o
    baldio é o segundo artigo do credo agricola d'elles. Os pastos communs
    são a cidadella da inercia e o theatro reservado pela ignorancia ás
    maravilhas da Providencia. Todas as desvantagens de conservar incultos
    terrenos que poderiam servir ao homem se adoptassemos um systema mixto,
    ou se attendessemos ás indicações da sciencia e á natureza do nosso
    clima, para promovermos a arborisação nos logares accommodados para
    ella, não são comparaveis ao delicioso espectaculo de ver retouçar meia
    duzia de ovelhas, vaccas, e bois hecticos, nas gandras bravias, quando,
    n'um systema de cultura judicioso, conservariamos gordos e anafados
    dobrado numero de animaes, unicamente com a producção da nossa
    propriedade particular, _sem que deixassemos de colher n'esta a mesma
    quantidade de trigo_, que nos produz o deploravel methodo da cultura
    exclusiva.

    A existencia dos baldios municipaes, dos pastos communs, é um dos mais
    graves embaraços ao progresso da agricultura entre nós. Favorecendo a
    natural indolencia do homem do campo, facilitando-lhe recursos que, até
    certo ponto, supprem os defeitos de um methodo errado e incompleto de
    afolhamentos, de uma cultura sem proporção nem equilibrio, elles oppõem
    uma barreira, as mais das vezes invencivel, á introducção de um systema
    sensato e proficuo. Ignorando os melhoramentos que as rotações
    judiciosas trazem ao solo, as vantagens da estabulação, os methodos de
    multiplicar em quantidade e em energia os adubos animaes, desconhecendo
    a applicação dos correctivos mineraes, o agricultor baseia nos maninhos,
    não só uma substituição á cultura das forragens, mas tambem um meio de
    adubar as suas terras, embora os estrumes vegetaes que d'elles tira,
    pessimamente preparados, dêem á terra uma alimentação miseravel. É-lhe
    necessario que as urzes povoem as serras nuas de arvoredo, tanto para
    ahi pascerem os gados durante uma parte do anno, como para supprirem a
    carencia d'estrumes, resultado d'essa alimentação erradia do gado, em
    que o cultivador, podemos dizer, lança fóra o mais rico thesouro de
    principios restauradores, um dos productos mais importantes da creação
    dos animaes.

    Se as grandes verdades na sciencia são, em regra, ferteis de
    consequencias proveitosas, os grandes erros não são menos ferteis de
    consequencias fataes. Como as urzes expulsam as arvores dos terrenos
    incultos, é justamente nas visinhanças de extensos maninhos onde muitas
    vezes mais se experimenta a falta de lenhas, e que por consequencia os
    povos mais rapidamente destroem as cepas d'esses mesmos mattos que os
    supprem de pastagens e d'estrumes. Sendo esse o unico meio de obter
    combustivel, e não correspondendo o desenvolvimento das raizes lenhosas
    á rapidez e extensão do consumo, o resultado final é facil de prever. Ha
    de chegar um dia em que a imprevidencia tenha dado inteiro o seu fructo.
    Esses cabeços e gandras, rareados pela mão do matteiro, espoliados
    emfim, dos ultimos fragmentos da sua triste corôa de piornos e tojos,
    achar-se-hão convertidos em arneiros escalvados, onde a falta absoluta
    de humus torne impossivel a vida da herva mais rasteirinha. É um facto
    que, por muitas partes, se tem já verificado, e que successivamente se
    vae verificando por outras. Então os effeitos dos erros agronomicos, a
    que a gente do campo tem um affecto tão cégo, pesarão terrivelmente
    sobre ella, vindo depois o remedio só pelo excesso do mal.

    Admittindo por um pouco as suppostas vantagens dos baldios, e no
    interesse d'esses mesmos pastos communs, a necessidade de dedicar uma
    porção d'elles á silvicultura torna-se evidente. Em Cintra, por exemplo,
    cujos antigos bosques desappareceram ha muito, e onde a cepa já começa a
    escacear, como é facil de conhecer á simples inspecção do terreno
    correndo os recessos da serra, os habitantes d'aquelles contornos
    deviam, por muitas razões, mas sobretudo por causa do combustivel,
    forcejar para que os cimos escalvados das cordilheiras se povoassem de
    pinhaes ou de soutos e devesas de outras arvores, que esses magros
    terrenos consentissem. Independentemente das influencias, que a nudez ou
    o selvoso d'aquelles escarpados rochedos possa ter na cultura dos campos
    visinhos; ainda sem attender a que Cintra perde de dia para dia, pela
    devastação dos grandes vegetaes, os encantos que ahi attrahem os felizes
    do mundo, e que por longos annos teem sido para os povos dos arredores
    um manancial de prosperidade; ao menos a consideração de que a falta de
    um dos objectos mais necessarios á vida, igualmente indispensavel para o
    rico e para o pobre, vae em sensivel progresso, devia conduzil-os a
    reconhecer que a arborisação da serra é reclamada talvez já pelo
    interesse da geração actual, e sem duvida pelo das gerações que hão de
    vir.

    E todavia, um successo recente, um successo que fez certo ruido, prova
    que ou todas estas idéas se desconhecem, ou se pospõem a considerações
    de um egoismo, que nem sequer tem o merito de ser habil, ou que
    finalmente o nosso paiz está condemnado a vêr sujeitar ao arrebatamento
    das paixões politicas as questões mais estranhas, as conveniencias
    economicas, os meios de progresso material, as indicações da
    experiencia, trazendo-se para um campo neutro, e que para todos devêra
    ser sagrado, as luctas deploraveis dos nossos bandos civis. O facto a
    que alludimos foi lançado nos debates da imprensa, e por isso é hoje do
    nosso dominio.

    S.M. El-Rei pretendeu aforar uma porção das cumiadas da montanha de
    Cintra contiguas ao parque da Pena. Aquella porção de terreno ingrato e
    calvo era destinado á sementeira ou plantio de um bosque que cobrisse de
    verdura e de vida uma pequena parte d'essa ossada de rochedos, que se
    vão prolongando até a beira do oceano.

    Muitos moradores das aldeias circumvisinhas viram, porém, n'este empenho
    uma calamidade. O maninho era ameaçado nos seus direitos inauferiveis, o
    dorso dos penhascos offendido na sua pudibunda nudez. Realmente o caso
    era grave. Agitou-se tudo, protestou-se, requereu-se. A urze e o piorno
    acharam logo advogados contra o pinheiro orgulhoso, contra o luxo da
    vegetação. Isto é absurdo e incrivel. Embora. A celebre phrase «_creio
    porque é impossivel_» não tem só applicação aos mysterios do céu;
    tem-n'a ás miserias da terra.

    Se os principios mais solidos da economia agricola não são uma solemne
    mentira, a pretensão d'El-Rei era legitima; as suas intenções liberaes.
    Não se tractava de constranger os povos a abandonarem subitamente o
    deploravel systema dos pastos communs: tractava-se de dar um exemplo de
    previdencia e de progresso: tractava-se de applicar ao solo um capital,
    que só depois de quinze ou vinte annos poderia produzir um diminuto
    redito: de certo não havia aqui, pelo menos, uma inspiração de cubiça.
    Nenhum homem desapaixonado e que ame sinceramente o desenvolvimento da
    industria agricola, pondo a mão na consciencia, deixará de qualificar a
    pretensão de justa, e a intenção de progressiva.

    E nós limitamo-nos a estas qualificações, porque o lyrismo em materias
    economicas é um pouco sem sabor; porque nos fazem nausea os extases e as
    metaphoras de velho estylo, com que se costumam sempre avaliar os actos
    dos principes. Ainda não decorámos as phrases fundidas com que é d'uso
    exaltar esses actos, sejam máus, indifferentes ou bons, e que só servem
    de desvirtuar os ultimos. Somos pessimos cortezãos, e, demais,
    incorregiveis. Mas tambem não sabemos lisonjear o povo; porque a lisonja
    perde-o, como perde os principes: temos por isso bastante consciencia de
    nós mesmos, para reclamar a favor d'El-Rei, que não tem o habito das
    discussões publicas, que não pode vir a essa arena, a justiça que lhe
    compete e a que tem tanto direito como o cidadão mais obscuro. Não
    acreditamos que um homem, porque se chama rei, esteja banido do direito
    commum; que, pária de nova especie, deva soffrer em silencio que lhe
    calumniem uma intenção pura, que o condemnem por actos que n'outro
    qualquer seriam louvados. Quando a imprensa se perturba e cega até o
    ponto de assim o practicar, entristecemo-nos por ella; porque estamos
    convencidos da sanctidade da sua missão, e temos os olhos fitos, não nas
    paixões pequenas do presente, mas sim nas esperanças do futuro.

    Consideramos aquelle aforamento em si, no seu resultado, nas idéas que o
    aconselhavam. Não sabemos se, no modo de o realisar, se faltou a alguma
    das solemnidades legaes. Não valia a pena. Que valesse, os agentes de
    S.M. deviam ser dobradamente zelosos em guardal-as. Fizeram mal se as
    preteriram. Do que porém já foi confessado em um jornal se deduz que não
    aconteceu assim.

    O requerimento a favor da sanctidade do deserto, da integridade do
    maninho, appareceu estampado. É um monumento: não podia ser outra cousa.
    Pinta o paiz.

    Se os nossos governos de todas as epochas e de todas as opiniões
    tivessem gastado a centesima parte do dinheiro, que tantas vezes
    malbaratam, em ensinar a lêr os habitantes do campo, em inculcar-lhes as
    verdades practicas com que a sciencia tem vivificado outros povos, não
    appareceria, no anno do Senhor de 1849, um tal requerimento.

    Como epigraphe a elle faça-se uma advertencia. O maninho total de Cintra
    abrange dez milhões de braças quadradas: os pedregaes aforados teem
    quatrocentas e sessenta de comprido sobre cento e cincoenta de largo. A
    mutilação é horrivel. Os requerentes declaram que esta área abrange uma
    grande parte da serra.

    Quando Sancho Pança, o aldeão manchego, se persuadiu de que subira às
    solidões do espaço, e mirara das alturas o nosso planeta, disse que lhe
    parecera a terra do tamanho de uma avellan, e os homens mais pequenos
    que carneiros. O bom Sancho era um typo!

    Pondera-se a escaceza de lenhas nos arredores da serra. Qual é o
    remedio? É impedir que n'um angulo d'ella sejam semeados pinhaes ou se
    façam plantios de outras arvores. O alvitre é infallivel e sobretudo
    logico.

    Na historia, na litteratura, nos documentos, achareis testemunhos
    frequentes e irrecusaveis de um facto. Cintra foi por seculos a montanha
    das selvas. Onde estão estas? Cahiram sob o machado da imprevidencia. Os
    estevaes seguiram-nas. Agora revolve-se o chão para arrancar algumas
    raizes. Que arrancarão as gerações futuras? Pedras? Christo converteu-as
    em pão: mas os moradores d'aquelles contornos não teem absoluta certeza
    de que seus filhos e netos serão capazes de maravilhas analogas: de as
    converter em combustivel.

    E que teem elles com seus filhos e netos? Elles que pertencem a uma
    epocha profundamente caracterisada pelo egoismo?

    No requerimento figuram os operarios indo ao domingo buscar lenha á
    serra, por não poderem dispensar um dia de semana para esse mister, o
    que prova evidentemente não ser licito aforar sessenta e tantas mil
    braças quadradas de terreno n'um baldio de dez milhões d'ellas.

    Depois, os mesmos trabalhadores apparecem de mãos cruzadas por falta de
    trabalho, mandando os filhos arrancar matto para viverem, prova de egual
    força e de uma concordancia admiravel com a antecedente. Estes
    jornaleiros, occupados e desoccupados, são pobres e miseraveis que
    possuem ovelhas, vaccas, eguas, etc., situação na verdade só comparavel
    à dos operarios de Bethnal-Green, symbolo e resumo da miseria industrial
    ingleza. Por fim invocam-se as leis; leis modificadas pela
    jurisprudencia administrativa moderna; leis promulgadas em epochas, nas
    quaes ou eram desconhecidos os verdadeiros principios de economia
    agricola, ou estes eram ignorados pelos legisladores; leis que, se o uso
    não houvesse obliterado uma grande parte das suas disposições, iriam
    lançar nas garras do fisco muitos d'esses tractos de cultura chamados
    vulgarmente _tomadas_, que se encontram hoje onde só existiam, ha um ou
    meio seculo, extensos maninhos, e em cujo aforamento os homens
    laboriosos que os desbravaram se viram sempre combatidos pelo ciume do
    vulgo, que não pode tolerar irem-lhe encurtando os dominios da
    indolencia, romperem-lhe um só lanço da barreira mais forte, que se
    oppõe ao verdadeiro progresso agricola.

    Isto não se discute. Pelo menos a nós fallecenos o animo para tanto.
    Como demonstrar que dous e dous são quatro a quem quer que sejam cinco?

    Deploramos o abandono em que se deixa a intelligencia do povo:
    deploramos que a classe media, que tem a força porque está organisada;
    que tem a força porque possue a riqueza; que tem a força porque é
    illustrada, não vote uma parte dos seus recursos a allumiar os rudes, os
    homens de trabalho, que são seus irmãos, e que teem direito não só ao
    pão do corpo mas ao do espirito, ou antes que sem este não chegarão
    nunca a minorar as difficuldades com que luctam para obter aquelle, nem
    a rodear-se dos confortos que são compativeis com a sua condição.
    Deploramos, sobre tudo, o talento naturalmente nobre quando sacrifica ás
    conveniencias transitorias verdades que, em outra situação, proclamaria
    sem hesitar; deploramol-o n'esses momentos aziágos, em que se esquece de
    elevar-se acima das antipathias ou sympathias pessoaes. Quando se tem um
    passado de independencia e de probidade politica, é generoso não
    vacillar ante a viciosa vergonha de fazer justiça aos que se crêem
    poderosos, embora essa justiça haja de remontar até um rei.

    A questão dos maninhos de Cintra é a questão perpétua dos pastos
    communs, que tem agitado todos os paizes, e que em toda a parte está
    resolvida em theoria e em practica, menos na Peninsula. Submettida essa
    questão ás discussões da imprensa, mal haveria intelligencia que não
    vergasse na tentativa de defender o baldio; o baldio no que elle tem de
    mais nocivo e absurdo. Confundiram-se idéas que importa distinguir;
    estabeleceram-se proposições que julgamos contrarias ao melhoramento da
    agricultura, inconvenientes ao bem estar futuro do homem de trabalho,
    aos seus interesses reaes. Persuadidos de que as nossas opiniões na
    questão geral, que ess'outra particular veio suscitar, podem ser uteis,
    accrescentaremos n'um subsequente artigo[1] algumas reflexões sobre a
    distribuição e applicação dos maninhos.

    A GRANJA DO CALHARIZ

    1851

    Este nosso Portugal que em tantas cousas é uma terra de maravilhas,
    maravilhas na verdade bem tristes ás vezes, offerece uma das não menos
    curiosas na primeira, na mais grave questão de progresso material que se
    pode agitar entre qualquer povo, e sobretudo entre nós. Falo da questão
    das reformas agricolas. É rara a semana em que não se tracta na imprensa
    litteraria, e ainda na imprensa politica, um ou outro ponto da arte ou
    sciencia de cultivar, considerada debaixo d'este ou d'aquelle aspecto.
    Escriptos ha no meio de tantas publicações que estão revelando em seus
    auctores vastidão de conhecimentos theoricos; poucos onde se exponham e
    discutam os systemas de agricultar nacionaes, que nem todos, nem em tudo
    são maus; raros onde se nos mostrem verificadas pela practica propria as
    doutrinas dos livros estranhos. Entretanto é incontestavel que se
    escreve muito ácêrca da agricultura, e traduz-se ainda muito mais. Mas
    quando se forceja tanto por espalhar _novas_, e, talvez no maior numero
    de casos, _melhores_ doutrinas entre os agricultores, quando todos falam
    na creação de granjas experimentaes; quando os proprios lavradores e
    pessoas affeiçoadas ás cousas do campo já pensam, até, em formar
    associações, não para agiotar com a agricultura, mas para discutir as
    reformas rasoaveis, que se pódem tentar, não é admiravel que exista no
    paiz, a cinco leguas da capital, uma granja modelo dirigida por um
    cultivador habil theorico e distincto practico, o snr. Gagliardi, sem
    que os homens competentes annunciem esta boa nova, sem que, visitando
    uma e muitas vezes aquelle magnifico estabelecimento, dêem conta aos
    interessados n'estas questões dos factos que ahi observaram, dos
    resultados das innovações ahi levadas a effeito? Em vez de
    subministrarem aos cultivadores portuguezes as razões scientificas,
    (para a maior parte d'elles inintelligiveis) pelas quaes se lhes
    aconselham como preferiveis taes systemas, taes methodos ou taes
    especies de cultura, não seria melhor, mais perceptivel para todos pôr
    ao lado da regra o exemplo, ao lado da theoria o facto, mas o facto
    positivo, concludente, irrecusavel, porque é d'esta terra, está aqui,
    onde todos o pódem verificar? Não valeria isto tanto como as mais uteis
    paginas de Thaer, de Dombasle, ou de Gasparin, bem ou mal traduzidas,
    bem ou mal soldadas, mas quasi sempre obscuras para uma população rural
    pouco illustrada na sua generalidade? A mim parece-me que similhante
    trabalho, emprehendido pelos homens profissionaes, seria um dos
    melhores, talvez o melhor serviço que poderiam fazer ao adiantamento
    agricola de Portugal. Quem sae de Lisboa e fala com lavradores,
    d'aquelles mesmos que são instruidos, sabe que a repugnancia a alterar
    os systemas de longos annos seguidos no paiz é geral. Esta repugnancia,
    contra a qual tanto se tem escripto, não é nem um capricho estolido, nem
    unicamente afferro irreflectido ás usanças do passado. Nasce em boa
    parte de causas legitimas. O agricultor vive da sua industria: um erro,
    uma experiencia com mau resultado, uma confiança desacautelada em
    qualquer theoria erronea, que se lhe inculque n'um livro ou n'um jornal,
    não tem para elle por consequencia unica uma mortificação de amor
    proprio: leva-lhe o pão que ha de comer; leva-lhe o pão de seus filhos.
    A natureza é tão implacavel como as antigas leis do talião e da
    revindicta: em agricultura, quem comette erros paga-os. Os agronomos que
    tanto bradam contra os preceitos inveterados, e que até certo ponto e em
    certos casos teem razão, deviam reflectir n'isto. Depois, crê-se que
    todos os nossos cultivadores hão sido surdos á voz da imprensa? Não, por
    certo. Tem-se adoptado, não um, mas cem, mas mil conselhos dados por
    ella. Foram, porém, bons todos esses conselhos? Tambem não, por certo. É
    necessario confessar que muitas vezes se tem discursado em materias
    agronomicas sem consciencia, e que muitas mais o camponez tem sido
    illudido pelos escriptores, illudidos tambem pelos livros de fóra,
    feitos para outros climas, para dirigir os amanhos de propriedades
    rusticas diversamente constituidas, e cujo systema de cultivação é
    determinado por differentes circumstancias economicas, como procura de
    productos variados, facilidade de transporte, abundancia de mercados,
    preço do trabalho, frequencia de capitaes disponiveis, etc. Essas
    illusões são fataes. O cultivador, que, movido pelas decisivas
    doutrinas, pelas promessas magnificas, pelas invectivas acerbas do
    jornal ou do livro que lhe chegou ás mãos, tentou em certa escala, na fé
    da _letra redonda_, uma revolução no seu systema de agricultar, e que
    tira em resultado d'isso uma perda irreparavel, pragueja contra a
    sciencia por culpa da insciencia, e fecha-lhe para sempre a porta.
    Depois não teem faltado enthusiastas, que, arrastados pela poesia
    bucolica, não rara em muitos livros de agricultura, e deslumbrados como
    o Triptolemo de Walter-Scott pelas dissertações dos Columellas e Varrões
    modernos, se arrojam impetuosos á conquista de descommunaes riquezas,
    que se lhes promettem, olhando com soberano desprezo os methodos mais
    sensatos dos seus visinhos, mudam tudo, revolvem tudo, gritam contra a
    _rotina_, e os _rotineiros_ e obtêm no fim de trez ou quatro annos uma
    gloriosa… mendicidade. Estes exemplos (e prouvera a Deus que, de
    quinze annos a esta parte, elles fossem apenas cinco ou dez ou vinte)
    ainda são mais fataes. Aquelle espectaculo aterrador, aquelle fructo
    amargo do estonteamento e da imprudencia é para os animos atemorisados a
    condemnacão irrevogavel de toda a sciencia, de todo o progresso. E, á
    vista dos factos, ao menos considerados superficialmente, como os
    consideram em geral os habitantes do campo, podemos acaso negar que
    esses a quem se dá desdenhosamente a alcunha franceza de _rotineiros_,
    teem até certo ponto razão?

    D'aqui a necessidade absoluta de espectaculos, de exemplos contrarios:
    d'aqui a necessidade extrema de estribar a doutrina escripta com a penna
    na doutrina escripta com a charrua, com a enchada e com o alvião. Não
    seria bom que se usasse de uma reserva prudente em propagar a parte
    especulativa e sobretudo os requintes da sciencia, cuja utilidade é
    contestavel ainda em paizes mais adiantados, emquanto essa parte não
    estiver confirmada entre nós pela apreciação practica em maior ou menor
    escala? Parece-me que sim.

    E todavia, repito, tal apreciação, feita já sobre muitas questões
    agronomicas na vasta propriedade de Calhariz, é desconhecida do publico.
    Alguns curiosos, alguns lavradores, alguns agronomos teem visitado
    aquelle estabelecimento, que talvez já podemos chamar o nosso instituto
    de Grignon ou de Roville, e que decerto lh'o poderiamos chamar dentro de
    quatro annos, se a morte não houvera privado este paiz de um animo
    grandioso e amigo do progresso da patria, o defuncto duque de Palmella.
    Mas esses curiosos, esses lavradores, esses agronomos teem-se contentado
    com uma admiração esteril. Se procederam a inqueritos severos sobre os
    resultados das diversas culturas experimentadas n'aquelle
    estabelecimento, sobre machinas, adubos, rotações, sobre todas as
    cousas, em summa, de que dependem os bons ou os maus systemas de
    agricultar; se mais que tudo, em cada genero de cultura compararam o
    custo com o valor venal do producto, que é a suprema questão agricola,
    não o sei eu; mas é certo que até agora nada se publicou a este respeito
    que eu saiba. E comtudo, o fazel-o seria mais util do que repetir
    opiniões peregrinas, sem sancção de experiencia, e quem sabe se
    accommodadas sempre a este solo e a este clima?

    Eu não posso fazel-o: sou n'estas materias um curioso. Faltam-me os
    elementos scientificos para ser agronomo. A direcção dos meus estudos
    foi outra. Amo, porém, ardentemente o progresso moral e material da
    terra em que nasci; e vejo que elle deve sobretudo vir do
    desenvolvimento da agricultura, da solução racional das questões
    scientificas, economicas, e até juridicas e politicas que pódem ter
    relação com a primeira das industrias, primeira em todos os paizes, mas
    que entre nós está immensamente acima de quaesquer outras, e praza a
    Deus que o esteja sempre. É por isso que escrevo isto, não como
    desempenho do dever que incumbe a outros, mas como incitamento aos mais
    habeis. Faço-o tambem para practicar um acto de justiça. Emquanto a
    imprensa, durante quinze annos, clamou debalde aos governos a favor dos
    institutos agricolas, sem os quaes está demonstrado até á saciedade que
    não haverá progresso real na maxima industria portugueza, um simples
    particular tentava com sacrificio de avultados cabedaes uma empreza que
    os governos não ousavam tentar, ou que esqueciam, enlevados na
    edificação de theatros, de jardins, de praças, de monumentos, em
    manifestações luxuarias, indispensaveis para provarmos ao mundo que
    nadamos em ouro, e para darmos sabida á superabundancia dos lucros dos
    nossos quasi unicos contribuintes, os cultivadores, que não saberiam a
    que applicar o seu immenso superfluo, se o tributo os não alliviasse
    d'elle para comprarmos esse luxo das creanças barbadas da inclita
    Lisboa. Faço-o, digo, porque a imprensa devia á memória do fallecido
    duque de Palmella um testemunho de gratidão pela sua nobre devoção á
    patria, devoção que só com o decurso do tempo podia ser apreciada
    devidamente; porque era practicada sem ostentação nem ruido.

    Este testemunho, que eu me atrevo a dar em nome do paiz, é insuspeito.
    Nunca procurei a intimidade do duque, nunca traduzi em convites para a
    acceitar os signaes de benevolencia, a distincção immerecida com que
    sempre me tractou, quer em publico quer em particular, quando
    casualmente nos encontravamos. Confesso mais: pensava mal d'elle em
    muitas coisas; tinha-lhe esta especie de antipathia inoffensiva que
    tenho á maior parte dos homens politicos do nosso paiz. Nem na emigração
    nem na patria fui nunca isso a que se chamava _ser palmellista_. Começo
    a sel-o desde que visitei o Calhariz; desde que examinei o que alli se
    tem feito, e sobretudo desde que vi a correspondencia do duque com o
    snr. Gagliardi, correspondencia que não era destinada, que não podia
    sel-o, a vêr a luz publica. O desapego do ouro para ordenar experiencias
    custosas, de resultado incerto, e a que elle punha uma só condição, a
    _de poderem redundar em proveito do paiz_, é evidente n'essas cartas,
    que corrigiram as minhas ideas ácêrca do homem que as escreveu.

    Dou graças a Deus de ter visitado tão tarde a granja do Calhariz. Hoje
    as minhas palavras vão murmurar sobre um tumulo, em volta de pobres
    cinzas, que não teem poder para a recompensa e nem sequer voz para o
    agradecimento. N'este seculo de grandes corrupções falta muitas vezes
    esforço para fazer justiça, quando se pode suspeitar de venalidade ou
    lisonja o que não passa de um tributo de admiração legitima.

    PROJECTO DE DECRETO

    1851

    Senhora!

    O alvo do presente projecto de decreto é abrir o caminho ao homem de
    trabalho para o goso puro e legitimo que nasce do sentimento de
    propriedade, pôr-lhe nas mãos o mais efficaz, o mais seguro instrumento
    de prosperidade, a terra, habilital-o, emfim, para sem temor do futuro
    acceitar as doçuras e os encargos de chefe de familia, facilitando-se
    assim um desenvolvimento vigoroso de população.

    Senhora! No meio d'este grande lavor de transformação social em que a
    Europa se debate, a braços com as ideas tempestuosas que agitam os
    espiritos e com os males economicos que a devoram, e que, se não
    legitimam as ideas de reformas absurdas, legitimam pela sanctidade de
    uma agonia profunda a agitação das classes laboriosas, o povo tem dado
    mais de uma vez documentos de ferocidade e bruteza repugnantes e
    terriveis. Em mais de um paiz o proletariado sempre crescente, ruge de
    contínuo ameaças contra a paz e ordem publicas e contra a patria, porque
    o pobre não sabe o que é patria, não a ama, ou antes não a tem, visto
    que não ha um forte laço moral que o ligue a ella por affectos ou por
    esperanças. É n'estes corações chagados que alguns espiritos ardentes
    illudidos e fanatisados pela propria imaginação, e ao mesmo tempo muitos
    especuladores ambiciosos instillam theorias destructoras da sociedade,
    que tendem a lançar as multidões n'um cháos de desordem, em que a
    propriedade e a familia sejam completamente annulladas.

    Em Portugal, Senhora, o atrazo industrial do paiz, a sua civilisação
    comparativamente pequena, são garantias contra os graves perigos que
    rodeam outras sociedades onde a condição das classes pobres é
    incomparavelmente peior, porque o capital abuza da sua força immensa
    para as opprimir. Mas cumprirá acaso que para nos premunirmos contra os
    riscos do futuro fechemos a porta á civilisação? Não romperia quaesquer
    diques esse oceano de progresso que invade todas as regiões do velho e
    do novo mundo? O augmento da industria fabril, a concorrencia, mil
    factos economicos nascidos mais da natureza das cousas, que da vontade
    dos homens, teem trazido essa collisão fatal entre o que possue e o que
    não possue, entre o trabalho e o capital, collisão que forma hoje o
    supremo, o tremendo problema politico e social das nações mais
    adiantadas. Deixariamos por isso de proteger a nossa industria fabril;
    combateriamos a concorrencia, esse maximo incentivo da actividade
    humana; annullariamos as consequencias de certos factos que d'ahi
    nascem? Deveriamos, ou poderiamos fazel-o? Seria preciso negar a
    liberdade individual, contrariar os principios politicos e economicos
    mais incontestaveis e voltar, como pretendem alguns espiritos fracos,
    aterrados pelas manifestações das classes laboriosas, á theocracia ou ao
    feudalismo dos seculos de barbaria, para adoptarmos prevenções de
    similhante natureza.

    Que ha, pois, a fazer? Encarar com frieza o futuro, estudar as
    complicadas causas que trouxeram gradualmente a esta penosa situação uma
    grande parte da Europa, e evitar o perigo, sem entrar em um combate
    desigual com a civilisação cuja victoria final é sempre certa. Complexas
    e variadas em si, essas causas enfraquecem-se por diversas maneiras;
    previnam-se os seus desastrados effeitos com medidas adequadas;
    aproveitem-se para isso as custosas experiencias dos outros povos, de
    modo que nem as consequencias das phases economicas sejam tão fataes,
    nem venham tão rapidas que criem embaraços insoluveis. As nações mais
    atrazadas teem, na falta de outras vantagens, a de saber com antecipação
    as difficuldades prácticas do progresso material e de poderem proceder
    com prudencia.

    Quem observar, Senhora, a marcha de certas ideas de desorganisação,
    ha-de notar que ellas predominam onde ou a industria fabril tem
    accumulado em breves limites populações numerosas de obreiros, que
    possuem apsnas o salario de um trabalho mal retribuido, ou onde a terra
    pouquissimo dividida ou cultivada transitoriamente por colonos
    oppressos, não consente ao homem do povo o sentimento da propriedade. Em
    todos os paizes os districtos mais pacificos e onde as classes
    inferiores não pensam em dissolver a sociedade são os districtos ruraes,
    e sobretudo aquelles onde o solo retalhado e possuido com segurança
    pelos pequenos cultivadores, tem creado para elles uma patria; porque a
    patria para as comprehensões vulgares e rudes e até certo ponto para
    outras mais elevadas, é o logar restricto a que as prendem os
    interesses, o longo habito e os affectos profundos, que só a familia e a
    propriedade sabem inspirar.

    Favoreçamos a industria fabril, porque ella é uma necessidade da epocha
    e da civilisação; mas forcejemos ainda mais por desenvolver a população
    agricola, que subministrará a essa industria, no seu excedente, braços
    robustos, organisações cheias de seiva e de vida. Façamos caminhar de
    frente as duas industrias; porque cada uma d'ellas é a grande
    consumidora dos productos da outra; mas procuremos sobretudo dilatar o
    espirito de familia e o amor da propriedade pela agricultura. O que
    rodeou com sebes um campo, o que o roteou e semeou pelas proprias mãos e
    pelas mãos de sua mulher e de seus filhos, será forçosamente um homem de
    paz, um defensor da ordem publica. As revoluções sociaes podem
    comprimir-se com o ferro; mas só se ferem de morte quando se removem as
    suas causas reaes, e se faz sentir practicamente ao povo que as
    exaggerações dos estouvados ou dos ambiciosos, são falsas ou ridiculas.

    Não é necessario, Senhora, dizer que a presente proposta de decreto terá
    dous resultados principaes: levar a cultura a uma grande porção de
    terrenos incultos, e fomentar poderosamente a divisão da propriedade.
    Basta lêl-a para se ver que n'ella predomina esse pensamento. Mas
    presidiram á sua elaboração tantas outras considerações de conveniencia
    publica e de progresso material e moral, que os ministros de V.
    Magestade teem por dever seu explanal-as, para que seja possivel avaliar
    se elles comprehenderam ou não, n'esta parte, as maternaes intenções e
    os vivos desejos de V. Magestade, em tudo o que respeita a futura
    prosperidade do paiz.

    Adoptando o principio geral de libertar temporariamente dos tributos
    directos os tractos de terra inculta que se arroteassem, o governo
    procurou tornal-o verdadeiramente util e prolifico, modificando-o por
    condições essenciaes. A divisão do solo pela emphyteuse, e a preferencia
    de protecção dada a certas culturas, são no entender do governo as
    provisões mais importantes do decreto sob este ponto de vista.
    Considerado em relação ao Estado esse principio tem a vantagem de
    produzir o bem sem gravame do thesouro. Os maninhos que se desbravarem,
    não offerecem actualmente materia tributavel: reduz-se, portanto, tudo a
    suppor que esta situação, que aliás só pode acabar rapidamente por meio
    de exempções valiosas, continua em relação ao imposto directo a
    subsistir por um periodo maior ou menor, segundo a categoria da cultura
    a que for destinado este ou aquelle terreno. Em relação, porém, ao
    imposto indirecto é obvio que o augmento de producção e consumo, effeito
    necessario da lei, trará desde logo por esse lado um accrescimo
    progressivo da renda publica.

    A emphyteuse, favorecida por este decreto é, não só um grande meio para
    facilitar a applicação do capital á terra, porque não sendo necessário
    applical-o á acquisição antecipada, digamos assim, da materia prima,
    pode operar em maior escala sobre a producção, mas tambem, e
    principalmente pela sua tendencia natural a tornar-se parcellaria, como
    effeito da maior protecção que a esta sua modalidade a lei concede, o
    instrumento mais poderoso que se pode empregar para trazer o
    proletariado á propriedade, e que portanto produzirá todos os resultados
    politicos e moraes cujo influxo benefico na paz futura do paiz, não pode
    ser duvidoso para a alta penetração de V. Magestade.

    Á emphyteuse e ao systema parcellario teem opposto, Senhora, varias
    considerações economicas, os adversarios d'essa instituição, filha da
    civilisação romana, que resistindo a todos os abalos, a todas as
    transformações profundas verificadas durante os seculos medios, chegou
    até nós, abonando por esse facto a sua congruencia com a indole das
    sociedades humanas. Considerada no seu valor absoluto, e pelas regras da
    moral e da justiça, nada se vê na separação entre o dominio directo e
    util, que offenda uma ou outra. Os motivos para a preferir á
    allodialidade, ou para lhe preferir esta são todos relativos,
    condicionaes. Olhada a questão em these, como theoria abstracta, algumas
    razões podem militar a favor da allodialidade, mas, era hypothese, em
    relação ao nosso estado actual, a emphyteuse é preferivel se quizermos
    dar impulso á cultura e mais rapido movimento á transmissão da
    propriedade. N'um paiz onde a representação monetaria escacea, onde o
    atrazo da sciencia agronomica é incontestavel, onde, emfim, a elevação
    do salario e a depreciação dos generos teem produzido um desiquilibrio
    embaraçoso para o cultivador, a consideração acima feita de que o
    principio da allodialidade, isto é, a compra do fundo, absorve desde
    logo uma parte do capital, que nos aforamentos se substitue, em rigor,
    pela promessa de um juro, juro pagavel depois de obtido o producto da
    applicação do capital, bem demonstra que aquelle principio não soffre
    comparação com o emphyteutico, e quanto este será efficaz para os fins a
    que se destina o presente decreto.

    Modificada pelo systema parcellario a emphyteuse contrapõe-se ao systema
    dos latifundios allodiaes. Caracterisados assim, a antinomia entre os
    dous principios torna-se mais evidente e profunda. Mas é aqui tambem
    onde a superioridade de um ao outro, se torna mais incontestavel. Os
    defensores dos vastos allodios ponderam que a grande cultura é só
    propria dos extensos terrenos, só ella é compativel com os grandes
    melhoramentos, só ahi se podem introduzir as machinas, que produzindo
    mais barato facilitam o consumo; e, não podendo negar os inconveníentes
    sociaes da grande propriedade, accrescentam que sujeitos ao direito
    commum, esses predios se retalharão pela divisão forçada das successões,
    resultando d'ahi que dentro de curto praso ha-de apparecer um novo
    phenomeno economico e agricola; isto é, que a propriedade, dividindo-se
    quanto ao dominio, se conservará unida quanto ao trabalho, porque de
    outro modo, separando-se, individualisando-se o trabalho, a grande seria
    forçosamente substituida pela pequena cultura, e inutilisando-se as
    machinas, os novos possuidores do solo teriam de annullar um capital
    avultado sem vantagem conhecida. Assim quanto a elles, a exploração
    industrial da terra se conservará unida pela associação, ao passo que o
    dominio se irá retalhando atravez de todas as phases possiveis, n'uma
    esphera separada.

    Estas doutrinas, Senhora, são inexactas em grande parte. Pondo de lado
    os inconvenientes, as difficuldades prácticas da associação applicada ao
    trabalho agricola, quando, separado o dominio, o valor do producto
    relativo a cada fracção do fundo, não é só determinado pela applicação
    do trabalho, mas tambem pela força productiva do solo, grandemente
    variavel em vastos tractos de terra; suppondo possivel e até fácil
    similhante associação, e admittindo sem reserva os seus importantes
    effeitos, não se vê como o incitamento do interesse individual não possa
    conduzir os colonos no systema emphyteutico, a associarem-se para
    substituir pela grande a pequena cultura, adoptando as machinas que
    barateam os productos e empregando um trabalho commum. Por outra parte é
    inexacto que a pequena cultura não possa simplificar-se pela introducção
    de machinas e instrumentos novos ou aperfeiçoados, embora n'um grau
    inferior ao da grande cultura, e por isso fazer tambem descer até certo
    ponto o valor das subsistencias e dos outros productos agricolas,
    accrescendo a essa consideração o facto incontestavel, de que se a
    introducção dos instrumentos e machinas que simplificam o trabalho
    agricola, acha mais poderosos incentivos na grande cultura, os methodos
    aperfeiçoados teem nascido e nascem quotidianamente, da experiencia e
    das necessidades da pequena cultura. Independentemente porém, d'este
    argumento, sendo a divisão do solo pela indole da allodialidade sem
    questão mais tardia do que pela emphyteuse parcellaria, favorecida
    immediatamente pela lei, porque privaremos a geração presente, o homem
    de trabalho actual, do beneficio que queremos proporcionar aos
    vindouros? Emfim, Senhora, os que attribuem tão rapidos e efficazes
    effeitos aos obitos e ás successões, attenderam a todos os factos que
    modificam e retardam esses effeitos? Lembraram-se, por exemplo, dos
    consorcios, dos dotes, das terças e de tantas outras instituições civis,
    tendentes a entorpecer esse meio, sem duvida poderoso, de retalhar os
    predios rusticos? Attenderam acaso aos usos immemoriaes de algumas
    provincias, como o Alemtejo, onde o costume dos chamados quinhões torna
    a allodialidade inutil para a divisão das grandes herdades, porque se
    reparte a renda mas fica o solo unido em poder de um só agricultor?

    Que o systema da emphyteuse parcellaria seja o meio mais efficaz e
    talvez unico de chamar as classes humildes á propriedade, parece
    evidente. A acquisição do dominio pleno de vastos predios suppõe
    avultados capitaes. A dos pequenos predios suppõe-nos menores; mas ainda
    os suppõe. Nos emprazamentos de áreas limitadas como aquellas cujo
    maximo se fixa no presente decreto, e que é o mesmo estabelecido no
    Alvará de 27 de novembro de 1804, as economias do simples seareiro, do
    operario rural, bastarão de ordinario para as despezas do arroteamento.
    Elle conta além d'isso com os proprios braços, com o auxilio de sua
    mulher e de seus filhos, recursos cuja efficacia o sentimento da
    propriedade sabe redobrar de um modo maravilhoso. Como consequencia do
    facto logo que os aforamentos d'esta especie se facilitem e protejam, o
    trabalhador celibatario, a quem convidam as exempções concedidas por
    este decreto, e que uma ambição legitima incita a aproveitar-se do
    beneficio da lei, cuidará em associar a si uma companheira que o auxilie
    na sua laboriosa empreza. Assim os consorcios serão promovidos e
    portanto o desenvolvimento da população.

    Se, porém, a applicação do capital quasi unico das classes pobres, o
    trabalho dos proprios braços se torna não só possivel mas tambem facil
    pela emphyteuse parcellaria, o emprego do grande capital monetario
    torna-se onde ella predomina assaz difficil. A experiencia quotidiana
    nos ensina que os pequenos predios ruraes cultivados por conta do seu
    dono, mas não pelas mãos d'elle são constantemente causa de ruina. A
    pequena cultura exige grande numero de prevenções, e de economias
    insignificantes mas severas, uma actividade contínua, um zelo sem
    limites, um meditar incessante em tornar productiva a minima parcella de
    terra. Nada d'isto se obtem a troco de salarios, com que o homem do
    capital monetario tem de contar para alem d'isso obter um lucro, e com
    que o homem de trabalho não conta porque tirando da cultura o seu
    salario e o da sua familia, elle considera a somma d'esses salarios como
    o principal lucro. Assim os capitaes amoedados não podendo fraccionar-se
    em pequenas e ruinosas emprezas, operarão com dobrada energia na grande
    cultura que sempre ha-de ser avultada, ao passo que se tornarão mais
    accessiveis á industria fabril.

    A consideração mais grave que se pode oppor á idea que predomina n'esta
    proposta de decreto, e o Governo não quer, Senhora, dissimulal-a, é que
    abrindo-se em larga escala o caminho da propriedade ás classes
    trabalhadoras, os agricultores actuaes, que já laboram na difficuldade
    do augmento gradual do salario ao lado da diminuição de valor nos
    productos, verão crescer essa difficuldade pela distracção de um
    avultado numero de braços que habilitados para trabalhar por conta
    propria, recusarão fazel-o por conta alheia. Até certo ponto a
    consideração é verdadeira. Mas por um lado ha algumas que a attenuam, e
    por outro o governo pode e ha-de empregar os meios para que esse
    inconveniente seja compensado. Primeiro que tudo como o recurso unico do
    operario é o trabalho, ha-de verificar-se frequentemente o que já
    acontece por muitas partes. Nos tractos de terra mais ferteis que se tem
    arroteado pelo systema parcellario, porque, ainda sem o favor da lei, o
    interesse individual tem sido bastante para o fazer adoptar em diversos
    logares, o novo proprietario redobrando d'esforcos reparte as suas lidas
    entre a cultura propria e a alheia. Essa divisão é grandemente
    facilitada pelo atrazo da agricultura entre nós, porque sendo esta na
    maxima parte dedicada aos cereaes, ás vinhas e aos olivedos apresenta
    uma procura mui desigual de trabalho, de modo que elevando o salario
    desmesuradamente em certas epochas em outras essa procura affrouxa,
    chegando o obreiro rural a ponto de não achar muitas vezes emprego.
    Onde, porém, não for possivel restabelecer o equilibrio por similhante
    meio, esse embaraço irá gradualmente desapparecendo com o accrescimo da
    população, sendo entretanto um incentivo poderoso para os grandes
    cultivadores irem trocando o systema das culturas exclusivas pelo das
    culturas alternas, que, exigindo n'um tempo dado menor numero de braços,
    exige um mais constante emprego d'elles. Finalmente tendo a peito o
    governo acudir quanto antes á primeira necessidade do paiz, a
    construcção das estradas, para as quaes vae applicar todos os recursos
    de que pode dispor, a facilidade da viação e por consequencia a barateza
    do transporte, compensarão amplamente qualquer elevação de salarios, que
    n'um ou n'outro caso possa resultar da applicação do presente decreto.

    Não é necessário nem possivel, Senhora, entrar em largas explicações
    sobre os motivos que levaram o governo a propor a V. Magestade, a
    promulgação das disposições contidas nos diversos paragraphos do art.
    4.^o. A gradação estabelecida entre as varias culturas corresponde ao
    estado actual da nossa industria agricola e á necessidade de não dirigir
    cegamente o impulso que se pretende dar-lhe. O favor, desproporcionado
    na apparencia, que se liberalisa á plantação dos bosques, não se estriba
    só na consideração do demorado resultado que se dá no seu cultivo;
    funda-se tambem na da repugnancia á arborisação que é um dos erros mais
    communs e que parece necessario combater energicamente. É obvia tambem a
    causa das excepções ácerca do pinheiro maritimo, unica madeira que
    superabunda no nosso mercado. O favor comparativamente excessivo que o
    decreto pretende dar á cultura collectiva ou singular das forragens, das
    amoreiras e do canhamo, importa a idéa de fortalecer pela sabedoria das
    leis civis as reformas que hão-de trazer o ensino e educação dos futuros
    agricultores, por via das sociedades agrícolas, das escholas, e dos
    predios rusticos experimentaes, que o governo começou já a promover e
    fundar, e que está resolvido a fazer progredir logo que para isso se lhe
    proporcionem recursos, contando aliás com o auxilio de todos os homens
    de boa vontade e sinceros amigos do paiz. Escaceam entre nós os gados,
    sobretudo nas provincias do sul, porque a cultivação dos cereaes tem
    progredido em extensão e não em intensidade; porque os systemas biennal
    e triennal, que ahi predominam e que em certas circumstancias serão
    desculpaveis, serão até preferiveis, nunca podem ser uma regra geral
    senão onde a agricultura está na infancia: emfim, a falta de gados e de
    bons methodos de afolhamento explicam a maior parte dos embaraços da
    grande cultura em Portugal. Por outro lado se considerarmos os enormes
    valores que a Italia, o paiz mais analogo ao nosso e ainda
    agronomicamente inferior a elle, sabe tirar da producção da seda,
    devemos propagar até onde for possivel o cultivo da amoreira. Tambem a
    experiencia tem provado que o canhamo do nosso paiz, cultivado
    judiciosamente e nos terrenos convenientes, excede em bondade não só o
    da Russia mas o proprio canhamo de Bolonha, reputado o melhor da Italia.
    Por ultimo os fundamentos da menor protecção dada aos ramos de
    agricultura largamente espalhados pelo reino, fundamentos que em parte
    derivam do que fica dito, são obvios para V. Magestade.

    Era impossivel, Senhora, propor a promulgação de um decreto tendente a
    trazer á producção os terrenos incultos e a fomentar a divisão
    espontanea da propriedade territorial, sem estender a sua acção ao solo
    vinculado. São sobretudo os vinculos que nos offerecem o triste
    espectaculo de terras, muitas vezes de primeira qualidade, inuteis e
    desaproveitadas. Entre as razões moraes, politicas e economicas, que
    condemnam a instituição dos vinculos, esse facto subministra contra ella
    um argumento assaz ponderoso. A sua extincção parcial ou completa é
    questão, na verdade, que os ministros de V. Magestade não poderiam
    discutir aqui, e que se deve tractar pausada e reflectidamente; porque,
    resolvida de leve e, sobretudo, decretada de golpe, a abolição dos
    vinculos ainda parcial, teria, talvez, inconvenientes politicos e até
    economicos maiores do que geralmente se pensa. Todavia a instituição é
    em these insustentavel e se considerações de tempo e de circumstancias,
    podem absolver a sua existencia e aconselhar a sua condicional
    conservação, essas considerações são absolutamente inapplicaveis aos
    terrenos incultos, que na maior parte dos casos não representam valor
    algum, ou só o representam minimo. Exemptar os vinculos de contribuirem
    para o bem commum n'esta parte seria absurdo.

    Egualal-os para os effeitos da lei ás propriedades allodiaes, dar-lhes
    as mesmas vantagens e impor-lhes as mesmas restricções era justiça. Foi
    o que se fez n'este projecto de decreto.

    É evidente que nos aforamentos dos maninhos vinculados se dá um facto
    similhante ao que se verifica nos dos maninhos allodiaes. A somma total
    dos fóros representa um juro e portanto a creação de um capital. O
    decreto, suppondo para estabelecer as suas ulteriores providencias, que
    a somma dos fóros representa um juro de cinco por cento, faz d'ahi
    resultar um capital inferior á realidade, porque é sabido que os
    emprazamentos difficilmente produzem essa renda. Em todo o caso esta
    nascerá do favor da lei, favor que se não é um sacrificio effectivo e
    presente, virá a sel-o de futuro. Um tal favor, tendo por fim
    exclusivamente desenvolver o progresso de uma agricultura sensata e
    chamar o proletariado ao amor da paz e da ordem, pela acquisição da
    propriedade, produziria ao mesmo tempo, sem as convenientes restricções,
    a consequencia de augmentar o valor dos vinculos ou por outra, daria
    maior vulto a um genero de propriedade que á luz das indicações
    economicas apenas pode ser tolerado. Era, portanto, dever do governo
    obstar a similhante augmento, e o governo obstou-lhe com as providencias
    consignadas nos artigos 11.^o, 12.^o, 13.^o, 14.^o e 15.^o. Ao passo que
    firmou o principio de libertar um cumulo de bens igual em valor ao
    capital accrescido pelos novos aforamentos, deu o maximo alvedrio aos
    administradores de vinculos para se aproveitarem do beneficio do
    decreto, pelo modo que reputassem mais conveniente, e até para não se
    aproveitarem d'elle. Entretanto elle feriu n'um ponto a integridade dos
    cumulos vinculados. Foi na disposição do artigo 13.^o; mas este
    sacrificio é tão tenue comparado com o alto objectivo de promover a
    divisão do solo, que os ministros de V. Magestade poderão antes ser
    taxados de nimiamente escrupulosos a favor da instituição, do que
    suspeitos em demasia de seus adversarios.

    Alguem poderá objectar, Senhora, que em logar do systema um tanto
    complicado que os ministros de V. Magestade adoptaram, para operar um
    grande movimento de propriedade nos bens vinculados, seria mais simples,
    depois de auctorisar e favorecer a alienação do dominio util dos
    terrenos incultos pela emphyteuse parcellaria, auctorisar também a
    alienação do dominio directo d'esses mesmos bens, ou pela remissão ou
    pela venda. Com a lealdade que professam os ministros de V. Magestade,
    dirão a proposito d'esta consideração, que parece razoavel, o seu
    pensamento inteiro. Primeiro que tudo o movimento dos valores, da
    propriedade considerada de um modo absoluto, seria na verdade o mesmo;
    mas o movimento do dominio util da propriedade territorial seria
    equivalente a metade, a um terço, e em certos casos ainda a menos. O fim
    principal do decreto, o augmentar o numero dos proprietarios, tão
    favorecido pelos artigos 12.^o e 13.^o, ficaria incomparavelmente mais
    restricto; o numero dos afiliados pelo sentimento da propriedade e da
    familia ao partido da paz e da ordem, seria muito menor. Por outro lado
    esse systema complexo cria um incentivo poderoso e talvez irresistivel,
    para o rapido aforamento dos baldios vinculados. Não será tanto o homem
    de trabalho que procure obter um tracto de terra para cultivar, como o
    administrador de vinculo que busque o homem de trabalho para lh'o
    offerecer, porque um grande interesse o incita. Gravados por dividas em
    grande parte ficticias e fructo monstruoso dos desvarios das paixões e
    de uma agiotagem infrene, uma parte dos possuidores de vinculos e
    sobretudo dos grandes vinculos, laboram em graves difficuldades
    economicas, de que os soltará em muitos casos a libertação de uma parte
    dos bens vinculados. Nem se diga que a muitos d'elles faltará a cordura
    para aproveitar utilmente o beneficio da lei: a obcecação d'estes não
    deve reverter em damno dos prudentes e avisados; ao passo que esses
    taes, ainda quando se não verificasse a libertação de uma parte do
    vinculo, saberiam sempre completar de um ou de outro modo a propria
    ruina, ajudados pela agudeza infernal da usura e da agiotagem.

    Em todo o caso, Senhora, o governo respeitou com escrupulo o fundo
    hypothecario e os direitos de terceiro, sem entrar no exame da
    legitimidade moral da origem d'esses direitos. Depois de um grande
    movimento de propriedade dentro d'essa instituição immobilisadora, o
    fundo vinculado fica em rigor sendo o mesmo e portanto a mesma a
    garantia dos encargos e hypothecas. É esse na opinião dos ministros de
    V. Magestade, o principal merito, n'esta parte, da presente proposta de
    decreto.

    Por todos os motivos e fundamentos economicos e politicos até aqui
    ponderados, o governo tem a honra de offerecer á Regia approvação de V.
    Magestade o seguinte:

    DECRETO

    Artigo 1.^o São confirmadas, ampliadas, alteradas ou revogadas as
    disposições dos Alvarás de 23 de julho de 1766, de 27 de novembro de
    1804 e de 11 de julho de 1815, da Carta de Lei de 24 de novembro de
    1823, e de outra qualquer legislação geral existente, relativas a
    maninhos ou terrenos incultos de qualquer especie ou denominação que
    sejam, possuidos allodialmente, e que forem reduzidos a cultura por
    contractos d'emprazamento, debaixo das condições declaradas nos artigos
    do presente decreto.

    Artigo 2.^o Os emprazamentos a que se refere o artigo antecedente
    constituirão prazos fateosins perpetuos hereditarios. Fica a respeito
    d'elles supprimido o direito senhorial do laudemio, bem como o de opção
    e prelação. O canon será fixado livremente por accordo entre o senhorio
    e o emphyteuta.

    Artigo 3.^o Os terrenos assim reduzidos a cultura ficarão
    temporariamente exemptos de todos e quasquer impostos directos geraes ou
    municipaes, tanto em relação à renda liquida do emphyteuta, como ao foro
    estipulado por este com o senhorio directo.

    Artigo 4.^o Os novos predios constituidos em virtude d'este decreto, e
    cuja superficie não exceder dez mil braças quadradas (proximamente dez
    geiras) gosarão da exempção concedida no artigo antecedente, debaixo das
    condições e com as limitações seguintes:

    § 1.^o–A exempção durará 30 annos em relação aos predios que forem
    applicados, ao menos em duas terças partes da sua superficie, ao plantio
    de bosques de arvores de córte, que não sejam pinheiros maritimos, salvo
    sendo o predio situado na orla do mar oceano, até a distancia de uma
    legua para o interior das terras, dentro da qual a cultura dos pinheiros
    maritimos é equiparada á de quaesquer outros arvoredos de córte.

    § 2.^o–A mesma exempção durará 16 annos sendo os predios applicados, ao
    menos em dous terços da sua superficie, á cultura, singular ou
    collectiva, da amoreira branca, do canhamo e dos prados artificiaes,
    quer permanentes, quer temporarios, sendo porém necessario, no caso de
    se applicarem os dous terços sobredictos á cultura dos prados
    artificiaes, com exclusão da amoreira branca e do canhamo, que se
    conserve sempre um quarto do dicto predio em prados artificiaes
    permanentes, para se verificar a exempção concedida.

    § 3.^o–A mesma exempção durará 12 annos se ao menos os dictos dous
    terços forem applicados ao plantio de oliveiras.

    § 4.^o–Durará 8 annos a sobredicta exempção se ao menos dous terços do
    predio forem applicados á cultura da vinha.

    § 5.^o–Se ao menos dous terços do predio forem applicados á cultura dos
    cereaes ou a outras quaesquer culturas não especificadas nos §§
    antecedentes, esse predio gosará por seis annos de igual exempção.

    Artigo 5.^o O beneficio da exempção não é applicavel em nenhum caso aos
    prazos instituidos em terrenos incultos de regadio ou pantanosos, que se
    applicarem no todo ou em parte á cultura de arrozaes.

    Artigo 6.^o Se a superficie do prazo exceder a que é fixada no artigo
    4.^o, o periodo da exempção será reduzido a metade do tempo, em cada uma
    das hypotheses dos diversos §§ do mesmo artigo.

    § unico–Exceptua-se a cultura dos arvoredos de córte de que tracta o §
    1.^o do artigo 4.^o, á qual é applicavel favor igual, seja qual for a
    extensão do terreno emprazado.

    Artigo 7.^o Se um individuo possuir, quer como emphyteuta originario,
    quer como cessionario, dous ou mais prazos d'aquelles de que tracta o
    artigo 4.^o, a exempção ficará reduzida a metade do tempo em relação a
    cada um d'elles, salva sempre a hypothese do § 1.^o do dicto artigo 4.^o.

    Artigo 8.^o O beneficio reduzido, designado no artigo 6.^o, é igualmente
    concedido ao proprietario que, conservando em si unidos os dominios
    directo e util, tornar productivos os seus terrenos incultos, dando-lhes
    a applicação de que tractam o § unico do dicto artigo e o § 1.^o do
    artigo 4.^o.

    Artigo 9.^o O presente decreto fica sendo extensivo a quaesquer maninhos
    ou terrenos incultos que tenham a natureza vincular. Para os effeitos
    d'esta disposição os dictos terrenos são considerados como livres e
    allodiaes, e os administradores actuaes ou futuros dos vinculos havidos
    como proprietarios d'esses terrenos com dominio pleno, unicamente para
    poderem celebrar com respeito a elles os contractos emphyteuticos,
    permittidos nos artigos anteriores, com as condições n'estes expressas.

    Artigo 10.^o Os fóros estabelecidos em cada um dos prazos, cuja
    instituição é facultada no artigo antecedente, ficarão incorporados no
    vinculo a que pertencia o terreno emprazado, e sujeitos desde logo aos
    encargos e hypothecas que pesarem sobre o mesmo vinculo.

    Artigo 11.^o Tanto que o administrador de um vinculo houver emprazado,
    pela maneira precedentemente prescripta, a totalidade dos terrenos
    incultos pertencentes ao mesmo vinculo, ser-lhe-ha licito alienar o
    dominio pleno de uma porção de predios urbanos, ou de predios rusticos
    cultivados anteriormente á data deste decreto, e pertencentes ao cumulo
    vinculado. Esta porção alienavel será igual em valor ao capital que
    corresponderia á importancia dos fóros, considerados como juro de cinco
    por cento; isto é, será igual em valor a vinte vezes a somma dos fóros.
    A livre alienação de taes predios não poderá ser embaraçada pelos
    encargos ou hypothecas que possam pesar sobre o vinculo, ou por
    quaesquer outros motivos ou pretextos.

    Artigo 12.^o Se o administrador do vinculo preferir alienar unicamente
    por contractos de emprazamento na fòrma estabelecida no artigo 2.^o,
    unica admittida para os effeitos d'este decreto, o dominio util dos
    predios urbanos ou dos rusticos cultivados, alienaveis em virtude do
    artigo precedente, a porção d'elles será igual em valor ao capital que
    corresponderia á importancia dos fóros accrescidos, considerados como
    juro de dous e meio por cento; isto é, será igual em valor a quarenta
    vezes a importancia dos dictos fóros accrescidos. N'esse caso o canon
    estabelecido nos respectivos contractos emphyteuticos, não poderá ser
    inferior a metade da renda dos predios aforados, calculada pelo
    rendimento medio dos ultimos trez annos. Os fóros resultantes d'esses
    contractos ficarão incorporados no vinculo.

    Artigo 13.^o Se os emprazamentos facultados no artigo anterior forem
    feitos por superficies iguaes ou inferiores a dez mil braças quadradas,
    ao menos em metade da porção de bens alienaveis, calculada pela fórma
    estatuida n'esse artigo, o administrador do vinculo poderá alienar pela
    dicta fórma, ou segundo a que se faculta no artigo 11.^o, mais outra
    porção de bens vinculados, igual a um decimo do fundo libertado pelas
    disposições dos referidos artigos. N'esta hypothese como na outra os
    fóros ficarão vinculados, e nunca serão inferiores a metade da renda
    media, calculada sobre o rendimento dos ultimos trez annos.

    Artigo 14.^o Se o administrador preferir um systema mixto de venda do
    dominio pleno, de emprazamentos por vastas superficies, e
    d'emprazamentos por superficies restringidas a dez mil braças, o computo
    do fundo alienavel será proporcionado, em harmonia com as disposições
    dos artigos 11.^o, 12.^o e 13.^o.

    Artigo 15.^o Se o administrador do vinculo não usar da faculdade que lhe
    é concedida nos tres artigos antecedentes, uma porção de bens do
    vinculo, computada do modo estatuido no artigo 11.^o, ficará por sua
    morte livre, allodial e exempta de quasquer encargos ou hypothecas que
    pesem sobre o vinculo, por mais especíaes que sejam, regulando-se a
    successão d'esses bens pelo direito commum.

    Artigo 16.^o As medições a que se procederá previamente para se
    verificar o disposto nos artigos 4.^o e 9.^o, dependerão da approvação
    da auctoridade administrativa local, ouvido o delegado ou subdelegado do
    procurador regio.

    Artigo 17.^o As avaliações indispensaveis para se verificar o disposto
    nos artigos 11.^o, 12.^o, 13.^o, 14.^o e 15.^o, serão feitas
    judicialmente, ouvidos os successores dos vinculos, e aquelles que
    tiverem acção sobre os rendimentos dos mesmos vinculos por encargos ou
    por hypothecas.

    Artigo 18.^o Fica revogada toda a legislação em contrario.

    O PAIZ E A NAÇÃO

    (ARTIGOS PUBLICADOS NO JORNAL–«o PAIZ»)

    1851

    I

    Por falta de tempo temos deixado de dizer algumas palavras sobre as
    observações fulminantes com que _A Nação_ reduziu a pó impalpavel, o
    nosso artigo sobre as differenças profundas que caracterisavam o
    cartismo de 1832 a 1834, e o pseudo-cartismo de 1842 a 1850.

    O nosso artigo feria o absolutismo se não nas suas tradições mais
    hediondas e atrozes, ao menos nas mais odiosas para o povo, nas suas
    instituições espoliadoras e vexatorias; nas suas rapinas legaes com que
    elle sustentava uma nobreza servil e devassa, uma côrte prostituida, uma
    alcatéa de magistrados venaes, com que mantinha esses tribunaes de
    inquisição, de inconfidencia, de policia, onde se passavam mysterios
    horriveis, com que locupletava essa patriarchal, esses cabidos, essas
    congregações religiosas, onde reinavam dissoluções sem numero e sem
    nome, onde os vicios, alimentados por grossas prebendas, não faziam
    differença dos que reinam nos salões e alcovas da agiotagem, senão em
    serem mais hypocritas, e estarem velados pelo silencio de ferro que a
    censura impunha aos animos generosos e independentes que poderiam
    apontal-os ao paiz. Um gemido ou um murmurio de qualquer d'esses animos
    mais audazes, bastava para sepultar nas masmorras ou repellir para o
    exilio, o revolucionario que ousava apontar para as orgias clericaes,
    para as corrupções cortezãs, para a venalidade dos ministros e
    tribunaes, para a baixeza de uma fidalguia desmoralisada, tão abjecta
    ante a tyrannia, como oppressora e orgulhosa para com o povo. Foram
    víctimas e testemunhas d'esse systema de Baixo-Imperio, d'esse governo
    de eunuchos immoraes, de salteadores legitimos, o padre Vieira,
    Francisco de Lucena, José Anastacio da Cunha, o padre Theodoro de
    Almeida, Phylinto Elysio, e tantos outros homens que a gloria vingou dos
    velhacos corruptos, que reduziram esta nação livre, forte e respeitada
    ha quatrocentos annos, a ser, como era já na segunda decada d'este
    seculo, a fabula e o escarneo das gentes.

    Vós dizeis que _O Paiz_ conta com ser o unico documento da historia
    contemporanea para o futuro. Enganaes-vos. Fizestes de nós um espelho em
    que se reflectia a vossa imagem. Vós é que imaginaes que a historia da
    tyrannia está só escripta nos vossos hymnos insensatos á ignorancia, ao
    obscurantismo, á intendencia da policia, á inquisição e aos
    conventos-prostibulos de sua magestade fidelissima o muito poderoso,
    virtuoso e excellente rei, o senhor D. João V, o benevolo soberano, que,
    ao arrancar-se dos braços de alguma freira de Odivellas, mandava
    arrastar entre linhas de soldados imbelles as populações das provincias,
    para virem trabalhar na grande demencia e ridicularia de pedra e cal
    chamada o convento de Mafra, onde para seu divertimento sua real
    magestade queria metter uma grande manada de frades comilões e
    ignorantes.

    Nós não pensamos que _O Paiz_ seja o unico documento para a historia do
    presente. Mas tambem não crêmos que a historia do absolutismo esteja nas
    _Gazetas_ e _Relações_ de Fr. Francisco Brandão, nem nos _Mercurios_ de
    Sousa de Macedo, nem nas estupendas orações jaculatorias dos fidalgos
    tolos que constituiam a maioria da academia de historia, nem nas gazetas
    de Montarroio e dos seus successores até o divertidissimo Lopes. Estae
    certos de que o presente ou o futuro ha de estudar essas epochas
    saudosas por bem diversos monumentos.

    Houve um frade, membro illustre da ordem monastica mais respeitavel, da
    que só talvez era respeitavel, a benedictina, que escreveu a historia
    secreta e sincera dos reinados de Affonso VI e de Pedro II. Deveis
    conhecel-a porque sois eruditos. Colligi todas as prostituições, todas
    as villanias, todas as ladroeiras, todas as anarchias, todas as
    cobardias, todas as infamias dos ultimos dezoito annos, e comparae-as
    com as descriptas pelo secretario geral da congregação de S. Bento, e
    depois com as dos dous livros horriveis da _catastrophe_ e da
    _anti-catastrophe_, e dizei-nos quantos annos de desordem moral e
    material serão ainda precisos, para formalisar uma conta corrente entre
    a epocha liberal e esse pequeno periodo das eras do absolutismo?

    Sois singularmente esquecidos!

    Dizei-nos uma coisa. Estes homens chamados liberaes, que nos teem
    roubado, mal-governado, ludibriado, traído, quem os viu nascer, quem os
    educou, quem os fez homens publicos? Foi o governo liberal que creou
    essa alcatéa de velhacos e salteadores? É muito moderno para isso. Longe
    de nós citar nomes. Mas se os podessemos citar vêl-os-ieis approvados
    era costumes e sciencia pela vossa velha universidade, despachados pelo
    vosso desembargo do paço, empregados pelos vossos ministros e pela vossa
    regencia nos cargos de administração e fazenda; promovidos aos postos
    militares pela vossa côrte beata; recompensados com distincções
    honorificas e lucrativas pelos vossos virtuosos e pios governos. Que tem
    a geração nova, fervorosa nas suas crenças, ardente nas suas esperanças,
    pundonorosa nos seus sentimentos, com essas fézes que ainda escorrem
    sobre nós, da sentina do absolutismo?

    N'este campo do jornalismo sabeis que differença ha entre nós e vós. É a
    que provém da indole dos respectivos partidos. Nós combatemos com as
    armas francas e leaes da sinceridade: vós com as armas, que crémos não
    tomastes por vossa vontade, mas que eram as unicas que o vosso partido
    vos podia subministrar, e que o deshonram mais a elle do que a vós;
    combateis com as armas atraiçoadas da falta de sinceridade e de
    franqueza. A imprensa independente e liberal accusa os seus homens
    publicos sem disfarce, aponta francamente os defeitos das suas leis,
    reforma as suas opiniões erradas, reprova os proprios actos quando,
    reflectindo melhor, julga que errou; porque o partido dos impios
    reconhece que é composto de homens sujeitos aos erros e paixões. Vós,
    partido devoto e temente a Deus, bateis-vos debaixo dos escapularios,
    dos bentinhos, das camandulas, dos agnus-dei: corações mais fidalgos,
    sentis que estaes e sempre estivestes acima das fragilidades humanas: o
    absolutismo e os seus desembargadores, inquisidores, esbirros e
    carrascos, eram impeccaveis, omniscientes, infalliveis. Se o diabo
    tivesse sido alguma vez capitão-mór, geral dos bernardos, alguazil,
    monsenhor, intendente da policia, declaraveis o diabo um sancto
    benemerito da monarchia.

    Nas vossas instituições, nas vossas leis, nas vossas crenças, ou antes
    nas vossas farças politicas e religiosas, nada ha que deitar fóra, desde
    as sandices das côrtes de Lamego até ás ourinas de côres com que ha
    poucos annos querieis inventar uma sancta de carne e osso, para metter
    pelo chão abaixo os socarrões d'este seculo blasphemo, sancta que os
    malvados maçons, professores e facultativos do hospital de S. José,
    tiveram a insolencia de demonstrar que não passava de um mísero
    instrumento das imposturas do beaterio e dos negociantes e pregoeiros da
    tyrannia.

    Vós negaes-nos o direito de denominar liberrimas as tradições de D.
    Pedro, porque os decretos com que elle libertou a sua patria dos
    comilões e mandriões ao divino e ao profano, que devoravam o fructo do
    suor do povo, que lhe bebiam o sangue por taças de prata, assentados nos
    antros escuros da hypocrisia, reclinados no collo de mulheres perdidas,
    foram promulgados na epocha em que elle exercia a dictadura, em que,
    empenhado n'uma lucta de morte com o despotismo, que se erguia tenebroso
    e desesperado para a ultima e decisiva batalha, fizera o que sempre
    practicaram os chefes dos povos, quer nas monarchias, quer nas
    republicas, em circumstancias analogas; negaes o liberrimo d'essas
    tradições porque D. Pedro concentrava em si todos os poderes? Essa
    negativa vinda de outra parte dava materia á discussão: da vossa é uma
    cousa ridicula. Podeis, estribados nos solidos fundamentos das côrtes de
    Lamego, negar a legitimidade de D. Pedro; mas suppor que, como rei que
    fôra, como representante de sua filha, como seu logar-tenente, como seu
    tutor e protector natural, não podia temporariamente evocar a si uma
    auctoridade, de que, segundo as vossas doutrinas, tinham tido direito de
    usar permanentemente os seus predecessores, é uma d'aquellas finuras da
    logica realista que vós inventastes para divertimento d'esta terra.
    Dizei-nos: d'onde veiu a legitimidade das leis e actos governativos de
    D. João VI, como principe regente, quando ainda não era rei de Portugal
    e sendo viva a legitima soberana, posto que impossibilitada de exercer a
    suprema magistratura? Onde estão as actas dos tres-estados que lhe
    conferiram o poder absoluto de legislador? Onde as actas dos
    tres-estados que deram a um principe, que respeitamos porque é
    desgraçado e proscripto, o direito de usar na abrilada de poderes
    magestaticos, estando o soberano vivo? A necessidade? A salvação
    publica? Então concedei-nos tambem a nós o direito de vermos a
    necessidade e a salvação publica, na dictadura de D. Pedro.

    O liberrimo das tradições do duque de Bragança, não está na origem da
    sua auctoridade; está no espirito e nas tendencias d'esses decretos com
    que a posteridade lhe tecerá a sua corôa de gloria. Está em ter desfeito
    e atirado para a feira da ladra, os instrumentos carunchosos e sebentos,
    com que os phlebotomistas da monarchia absoluta, sugavam a melhor parte
    e a mais pura, da substancia dos que trabalham; está em ter rasgado a
    trapagem de instituições e leis espoliadoras, por cujo restabelecimento
    os velhos sybaritas do partido realista, aquelles que choram pelas
    grossas commendas e grossas prebendas, iam ha annos fazer preces ao céu,
    junto do leito da sua sancta improvisada. O liberrimo dos decretos da
    dictadura de D. Pedro, consiste em serem esses os látegos com que
    sacudimos os vendilhões do templo, e enxotámos das vias publicas os
    salteadores legaes; consiste em serem elles que tornaram impossivel uma
    restauração absolutista; porque o absolutismo, que só se firmava em
    abusos, não teria hoje em que se estribar. Os capitães-móres, os
    dizimos, os frades, as bruxas, as milicias, os quartos, os oitavos, as
    jugadas, a patriarchal, os lobis-homens, as cortes de Lamego, as alçadas
    _ad hoc_, os tractos espertos, a legitimidade dos adulterios
    desembargatorios, foram-se. Foram-se, pobres comilões das commendas e
    prebendas, todas as coisas poeticas e sanctas, cuja irreparavel perda
    deploraes, accesos em sancto amor da monarchia e da religião de nossos
    antepassados.

    Sois imprudentes! Porque falámos na extincção dos tributos foraleiros,
    como de um dos actos capitaes da dictadura de D. Pedro, como de uma
    providencia que por si só faria a gloria de um principe, redarguis-nos
    com a miseria de muitas familias nobres, que ficaram privadas de
    subsistencia pelo decreto de 13 de agosto.

    Quereis um excellente conselho para essas familias nobres? Trabalhem. É
    exactamente o que fazem os homens do povo quando teem fome: é
    exactamente o que Deus ordenava que Adão fizesse, se queria comer, e
    posto que a fidalguia não provenha d'esse primeiro tronco das castas
    populares, aquelle exemplo biblico não é absolutamente para despresar.

    Depois a queixa é mal fundada. A lei de junho de 1846, remediou até onde
    era possivel o escandalo de que vos queixaes. Essa lei perfilhae-a, que
    é conforme no seu pensamento ás vossas aspirações. Escandalo! Tão
    escandalo como seria o de colher a policia um bando de salteadores na
    sua caverna, tirar-lhes a preza já dividida entre elles, e restituil-a
    aos passageiros nús, famélicos, espoliados.

    A historia d'esses tributos, da sua conservação ao lado dos tributos
    geraes do paiz, da sua delapidação, apesar dos protestos solemnes dos
    povos, repetidos por seculos nas assembléas nacionaes, em quanto o
    absolutismo não esmagou as antigas liberdades d'esta terra, é que é um
    d'aquelles escandalos que ás vezes as nações apagam com sangue, quando
    os principes não sabem como D. Pedro, riscal-os com o _traço de penna_
    que amaldiçoaes.

    Quando quizerdes que vos desenhemos aquella negra historia em largos
    traços de penna, far-vol-o-hemos, ajuntando-lhe ao lado um quadro das
    façanhas d'essa nobreza, cuja sorte lamentaes. Estae certos de que a
    sapiencia realista ha de scismar alguns dias, antes de vos tirar das
    aperturas da situação em que viestes collocar-vos. Tendes discutido
    tanto o presente, que é preciso discutir-vos tambem o passado.

    Não quereis que falemos da liberdade da terra, porque não falamos dos
    _bens usurpados á egreja_. A que bens vos referís? Aos das congregações
    religiosas? Dizei-nos: 1.^o, se ellas possuiam esses bens em virtude das
    leis, se por derogações especiaes d'ellas; 2.^o, se o poder temporal
    podia ou não recusar a conservação das corporações monasticas; 3.^o, se
    extinctas ellas, os seus bens, possuidos em contradicção com as leis de
    amortisação, caíam ou não no dominio do estado. Pensae um pouco antes de
    responder. Vêde não estragueis as doutrinas dos bons tempos que já lá
    vão.

    Perdoae-nos: mas quando alludís aos pescadores, argumentaes com todo o
    mimo e garbo da dialectica monsenhora, miliciana e dizimeira. Sois de má
    fé tão exemplar, que merecieis ser feitos abbades de Lobrigos, antes
    d'essa abbadia de trinta mil cruzados ser chamada á muxila por uma das
    nobres familias, cobertas hoje de lucto, por verem os rombos que os
    impios e demagogos fizeram no throno e no altar. Redarguis-nos que
    apezar das liberdades e excepções que D. Pedro concedeu á pesca, os
    pescadores andam a mendigar. Pois não era d'isso que nós nos
    queixavamos? Não era justamente por ter o pseudo-cartismo de 1842 matado
    a liberdade cartista de 1832, que nós bradavamos _aqui d'el-rei_?
    Quereis, porém, saber um facto curioso? Quando os Cabraes, pela lei de
    10 de julho de 1843, restabeleceram os vexames de que D. Pedro libertara
    a pesca, estribaram-se n'uma lei miguelista de 1830. Foi d'esta lei que
    partiram, foi esta lei que invocaram, ligando o absolutismo de 1842 ao
    de 1828, o systema espoliador antigo ao systema espoliador recente.
    Andae, que n'esta parte os Cabraes são vossos primogenitos, e por isso
    não admireis que os pescadores mendiguem: é o mesmo que succedia antes
    da odiosa dictadura de D. Pedro, quando estes iam a Queluz, aos duzentos
    e trezentos, pedir esmola ao snr. D. Miguel.

    Não consentís que folguemos da extincção dos dizimos, porque o clero
    está na miseria e o systema actual de retribuição aos parochos é
    inconveniente. N'este ultimo ponto estamos de acordo. Mas ahi tendes a
    differenca entre a nossa lealdade e a má fé realista. Nós não nos
    envergonhamos de dizer que os liberaes erraram em querer que os parochos
    fossem directamente subsidiados pelos seus parochianos, e que os
    resultados moraes e religiosos de um tal systema são máus; não hesitamos
    em proclamar a reforma, em accusar duramente os governos que não a
    emprehendem. Vós, pelo contrario, quereis remediar o inconveniente com
    um mal maior, só porque os dizimos coexistiram com o absolutismo. Que
    vos importa que nove decimos d'esse tributo absurdo, d'esse tributo
    iniquo porque feria só uma classe, a classe mais digna de contemplação,
    d'esse tributo anti-economico que recahia, não sobre o producto liquido,
    mas sobre o producto bruto, fossem devorados por uma fidalguia safada e
    corrompida, que só sabia arrastar-se e comer; e por bispos opulentos que
    com os dizimos fundavam fartos patrimonios para todos os seus parentes,
    por conegos devassos, por essa comedia ao divino, publica-fórma em
    miniatura da egreja romana, chamada a patriarchal; por conventos de
    frades gordos e ignorantes; por beneficíados _supplices_ e _in quocumque
    statu_, por todos aquelles, e por tudo aquillo, emfim, que mais abusivo
    era, que mais fóra estava do espirito do christianismo? Com que fronte
    ousaes falar da miseria actual dos parochos? Nem ella é como a pintaes,
    nem é toleravel que alludam a ella os defensores dos governos immoraes
    que introduziram tão vergonhosos abusos, que consentiam aos padroeiros,
    aos beneficiados, aos commendadores, aos conegos, que despendessem nos
    banquetes, no luxo, no jogo, nos lupanares, o fructo dos suores do
    lavrador, extorquido impiamente em nome de Deus, em quanto os curas de
    alma só obtinham d'esses poderosos senhores, congruas de fabulosa
    exiguidade.

    Quereis um contracto? Temos meios de verificar quaes são as congruas
    actuaes das diversas parochias do reino: tambem os temos para saber
    quaes eram no tempo do absolutismo. Tomemos uma diocese qualquer, para
    instituirmos a comparação entre uma e outra epocha. Se, na sua maioria,
    as congruas actuaes forem inferiores ás antigas nas parochias
    dizimeiras, tendes vós razão de nos accusardes de causadores da miseria
    do clero curado, pela extincção dos dizimos; se porém se verificar o
    contrario, haveis de acceitar a qualificação de hypocritas, pois
    defendeis as instituições do passado não porque eram melhores, mas
    porque rendiam mais para os agiotas do absolutismo, isto é, para os
    fidalgos, para os commendadores, para os abbades nedios, para os
    beneficiados _in quocumque_. Se nós fomos tão maus para o clero
    aproveitae a nossa proposta. Olhae que é uma limpa veniaga.

    Por ultimo increpaes-nos de que referindo-nos à suppressão do systema
    vicioso das milicias e ordenanças, d'esse Potosi inexgotavel dos
    capitães-móres e coroneis de _tibiquoque_, não nos lembrassemos dos
    soldados, que verteram o sangue e perderam os membros ha quarenta annos
    em defesa da patria, e que morreram de fome. Dirigis n'esta parte uma
    increpação justa, não a nós, que não somos poder, que nunca o fomos, mas
    aos governos posteriores á restauração de 1833. Todavia, que tem isso
    com a extincção das ordenanças e milicias? A vossa dialectica realista
    dá, na verdade, saltos mortaes. A nossa vae mais devagar. Se esses
    soldados esquecidos perderam o sangue e os membros em defesa da patria,
    ha quarenta annos, o esquecimento indigno dos seus serviços divide-se
    por metade: vinte annos com curtos intervallos pertencem ao absolutismo,
    vinte á restauração. Onde estão, absolutistas, registadas as pensões que
    lhes déstes: onde é situado o hospital de invalidos que edificastes? O
    unico que existe devem-no os veteranos portuguezes a uma nobre e sancta
    princeza, á viuva do principe D. José, á _Tia Malhada_, que vós sabeis.
    De edificações vossas não temos noticia, senão da continuação do palacio
    da Ajuda, uma das primeiras necessidades do paiz, das forcas erectas na
    praça nova do Porto e no caes do Sodré, de uns paredões em Carnaxide
    para a egreja da Senhora da Rocha, e das formidaveis fortificações do
    Tejo, com que tornastes Lisboa inconquistavel.

    Talvez vos referis unicamente aos officiaes realistas separados do
    quadro do exercito em 1834. Isto é mais natural, porque vós,
    fidalguinhos, não curaes da soldadesca, peonagem indecente, vil relé
    popular. Nós lamentamos tambem que os serviços d'esses antigos militares
    se menoscabem por causa de odios politicos, que a victoria devia ter
    feito esquecer. Como vós, estamos promptos para reprehender e accusar,
    para deplorar e pedir; para execrar e amaldiçoar estes nossos satrapas
    pseudo-liberaes, que deixam ir de porta em porta os velhos Belisarios de
    Portugal. Mas, realistas, escondei sob as vossas capas de S. Ignacio
    essas mãos tinctas em sangue, derrubae para o rosto o chapéu da
    companhia, não vos descubram esse olhar implacavel! Entre os militares
    que pendurastes das forcas; entre aquelles com que atulhastes as cadéas
    e as masmorras das fortalezas, com que povoastes as praias do desterro e
    os presidios de Africa, não havia nenhuns d'esses que verteram o sangue
    em defeza da patria commum? Por que, durante cinco annos, mansos
    cordeiros do evangelho, rosicléres ambulantes de veronicas e relicarios,
    não vos veiu ao espirito um unico pensamento de perdão e de piedade?
    Dizei-nos o que terieis feito de todos esses militares, se a providencia
    tivesse deixado protrair-se até agora o vosso reinado? Eram para vós
    inimigos politicos? É exactamente o que foram para nós os vossos
    officiaes. Maldicto o liberal que ainda conserva rancores para os
    vencidos: maldicto o governo que não lhes paga a divida da patria. Mas
    que a justiça divina cáia tambem sobre aquelles que derramaram nos
    patibulos o sangue dos valentes que já o tinham derramado por esta
    terra; ou lhes fizeram verter durante cinco annos o suor da agonia sobre
    as lageas dos calabouços, ou os tornaram errantes por praias estranhas,
    onde lhes branquearam os cabellos as saudades da sua terra, onde teriam
    acabado a vida, proscriptos e miseraveis, se o braço da Providencia e o
    genio do duque de Bragança não os houveram salvado.

    Collegas, deixae-vos d'estas questões de que não entendeis nada. Ide lêr
    a vida do padre Anchieta, que decididamente é o sancto que fez mais
    milagres n'este mundo, ou se preferis occupar-vos em outra obra pia, ide
    ajudar os cabralistas a vender a bulla da sancta-cruzada, que elles
    compraram a prazos, ao vosso virtuoso amigo o cardeal Antonelli. Será
    uma vergonha que não haja dinheiro para o pagamento, quando elle sacar
    letras sobre o escriptorio da salvação de Portugal.

    II

    Na viva discussão entre Proudhon e Bastiat, sobre o credito e a
    legitimidade dos juros, este ultimo dizia ao seu irritado adversario na
    carta com que terminou a discussão: «_Todos os gremios religiosos se
    parecem uns com os outros: quando não teem razão, agoniam-se._» É o caso
    da redacção da _Nação_ comnosco.

    O nosso artigo foi provocado. Não tinhamos atacado o jornal realista.
    Apreciaramos n'um artigo nosso o espirito das reformas de D. Pedro
    comparando-o com o espirito que caracterisou a reacção de 1842. Era uma
    questão estranha ao partido realista. Na verdade alludimos então
    accidentalmente ao absolutismo; mas imaginavamos que a _Nação_,
    reservando para o seu partido a nacionalidade, considerava o
    absolutismo, cujo predominio no paiz, durante certos periodos da nossa
    historia, é incontestavel, como uma aberração, um abuso da constituição
    primitiva do paiz, constituição assaz livre, posto que não tão
    democratica como o indicariam algumas provisões d'essas côrtes, a que a
    _Nação_ foi buscar duas linhas para lenda da sua bandeira, se táes
    côrtes houveram existido. Imaginavamos que a _Nação_ comprehendia nos
    seus affectos esses seculos de nobre recordação, em que este cantinho do
    mundo se governava com garantias e liberdades singulares para o povo; em
    que o feudalismo não transpunha as nossas fronteiras, em quanto, a bem
    dizer, toda a Europa gemia debaixo do seu jugo de ferro. Imaginavamos
    que a _Nação_ se recordava das nossas admiraveis cartas de
    municipalidade, dos nossos parlamentos, d'essas duas heranças de
    liberdade romana e de liberdade germanica, que nossos avós haviam
    salvado atravez da edade media. Enganava-mo-nos. A _Nação_ regeita tudo
    isso: a _Nação_ cifra todo o passado nos seculos mais recentes. Da
    comedia monastica das côrtes de Lamego salta á comedia real das côrtes
    de 1641. Para ella a velha monarchia não é a dos primeiros Affonsos, de
    D. Diniz, de Affonso IV, de D. Fernando, de João I ou de Affonso V: é o
    absolutismo, comparativamente moderno, na sua forma pura, exclusiva. Só
    depois vimos isto; só depois vimos que os tempos anteriores ao
    estabelecimento do poder real sem limites, estavam tanto fóra da
    communhão realista, eram tão hereticos para a sua monarchia orthodoxa,
    como estes tempos liberaes, que, em nossa profunda ignorancia,
    suppunhamos estribarem a sua legitimidade historica nas tradições
    primitivas. Sem o saber tinhamos blasphemado do credo realista: do
    sancto, do legitimo, do divino absolutismo. Mas a ignorancia do credo de
    uma egreja alheia, não devia concitar o anathema contra o ignorante. A
    _Nação_ devia ter advertido com caridade a nossa rudeza, conforme manda
    o evangelho. Era uma obra de misericordia. Em logar d'isso fustigou-nos
    duramente. Foi um proceder ferino.

    Irritamo-nos tambem. Poderiamos discutir com a _Nação_ sobre as formulas
    da liberdade. Talvez muitas d'aquellas com que a monarchia cresceu e
    vigorou fossem, accommodadas á civilisação de hoje, preferiveis ás
    actuaes: era uma questão de doutrina disputavel. Acceitar como base de
    controversia a negação completa da liberdade humana, o predominio de um
    homem sobre a humanidade, a sciencia certa e o poder absoluto
    individual, como fundamento do direito; eis o que a consciencia, a
    dignidade do homem, o seu espirito immortal, não consente á
    intelligencia que dispute com placidez. O absolutismo como theoria
    politica é a nossos olhos um insulto feito a Deus e ao genero humano.
    Isto é, para nós, uma verdade de consciencia. Seguimos o impulso da
    indignação; porque só a indignação póde corresponder a essa theoria a um
    tempo immoral e feroz. N'um artigo de jornal, escripto a correr, talvez
    haja uma ou outra phrase mais ou menos inconveniente: retiramol-a. Mas
    as idéas, nem uma, por mais violenta que os nossos adversarios a
    supponham; porque a verdade não se retira diante da apotheose da
    corrupção e da tyrannia.

    No meio, porém, da cólera não esquecemos a cortezia de jornalistas.
    Evitámos tudo que fosse pessoal aos redactores da _Nação_; lançamos até
    á conta do seu partido a deslealdade da sua argumentação. E não
    respeitámos só os redactores; procurámos não ferir individualmente
    ninguem. Nas increpações a um partido a responsabilidade que se lança
    sobre elle reparte-se em tantas quotas, que o valor de cada uma é
    inapreciavel. A _Nação_ dirigiu-se ao individuo, aproximou escriptos
    cujo tom, cujo caracter era diverso, e que, a haverem sido similhantes,
    ella se teria prostituido discutindo alguns e elogiando-os em parte.
    Falou no _Raio_ e no _Rabecão_, n'esses papeis abjectos, que insultavam
    os individuos e penetravam na vida particular; n'esses papeis que
    apparecem em toda a parte em que reina a liberdade de imprensa, a
    liberdade da idéa e da palavra; n'esses papeis que não provam outra
    cousa senão uma verdade sediça, senão que se abusa ás vezes das coisas
    mais legitimas e uteis. Era, porém, ao orgão do absolutismo que tocava
    fazer allusões d'estas? De que epocha são o _Mastigoforo_, o _Cacete_, a
    _Besta-Esfolada_, e centenares de publicações analogas? Eram essas
    publicações hediondas como aquellas que alludis, especulações torpes de
    alguns miseraveis que exploravam o escandalo para viver? Não. Eram
    composições de homens que vós elevaveis ao episcopado; eram obra de
    sacerdotes, que iam consagrar a hostia ao cordeiro, e prégar o evangelho
    (sabe Deus o que elles prégavam) com os labios escorrendo em fel, com as
    mãos immundas de tincta que elles sabiam se havia de converter em
    sangue. E era isso um abuso da liberdade de escrever, que vós tão
    largamente aproveitaes, embora seja invenção diabolica dos
    liberdadeiros? Não. A censura, a auctoridade, o poder publico,
    inexoravel, frio, grave, calculado, lá estava. Esses sacerdotes iam com
    os seus libellos subir as escadas do desembargo do paço, onde se
    enfileiravam as solemnes cabelleiras dos bons tempos, ou bater á cella
    onde curtia os periodos do Larraga, o sabio de então, o frade ou o monge
    pedante. E o desembargador, ou o frade, ou o monge liam pausadamente o
    libello, e a injuria torpe, calumniosa, pessoal, sanguinolenta, descia
    para os prélos legitimada pelo tribunal, sanctificada pelo convento,
    irreplicavel, fulminante; porque o magistrado e o frade lá tinham nas
    mãos o açamo para impedir a retaliação, para obstar ao gemido da
    victima. Liberdadeiros detestaveis, que fizestes libertando a palavra e
    o pensamento? Para vossa vergonha eterna ahi tendes o _Rabecão_ e o
    _Raio_.

    Nós chamámos as coisas pelo seu nome: chamámos prostituição á
    prostituição; mas remontámos os seculos; buscámos nas gerações,
    extinctas ha muito, os nossos exemplos. Sabeis, e se não sabeis
    perguntae-o em segredo aos vossos compartidarios, que não precisavamos
    de remontar muitas decadas, ou andar muitas leguas, para irmos encontrar
    debaixo dos freixos de um parque, espalhadas no chão, as folhas avulsas
    do capitulo 26 do livro XI dos Annaes de Tacito. Vós accometteis os
    vivos, insultaes quem não se póde defender, porque só o faria
    envilecendo-se, cuspis nas faces de uma mulher, vilipendiaes a
    sanctidade da fraqueza, quando nós vos davamos o exemplo do respeito
    pela sanctidade da proscripção e da desgraça. Cavalleiros portuguezes
    antigos, erguei-vos das vossas camilhas de pedra; vinde contemplar as
    gentis façanhas dos defensores do passado!

    Que a _Nação_ prosiga em vinte columnas com que nos ameaça, refutar as
    nossas seis columnas cuja extensão a espantaram. Esperamol-a. Depois
    nós. Veremos se saindo dos accidentes vem aos factos: se acceita a luva
    que lhe atirámos. Se nos prova a justiça, a conveniencia, a moralidade
    das prestações foraleiras, dos dizimos, da soltura clerical e monastica,
    dos gravames sobre a pesca; emfim, de todas essas vergonhas de que D.
    Pedro nos libertou, pelo que a sua memoria nos é cara.

    III

    Os sete seculos

    Agora nós.

    Defensores do absolutismo, vós escrevestes um livro a proposito de um
    artigo do _Paiz_, que tinheis provocado, e atulhastes com elle não
    sabemos quantas columnas do vosso jornal. É que esse artigo vos feriu
    profundamente. As nossas ignorancias, as nossas falsidades, as nossas
    faltas de logica e de estylo, as nossas loucuras, o nosso orgulho
    insensato, todas as miserias do espirito humano, epilogadas em nós, que
    deveriam despertar a compaixão d'essas almas catholicas e pias,
    fizeram-vos proromper em rugidos de uma cólera essencialmente heretica,
    pagã, selvagem. Atirastes-nos com os thuribulos, com as galhetas, com os
    flabellos, com os tocheiros, com as sacras, com os missaletes.
    Apinhastes-vos á porta da sacristia a gritar, a vociferar, a quererdes
    saltar uns por cima dos outros. Os remoques, os vituperios, as
    maldições, as pragas choveram por dias sobre nós, que de braços cruzados
    e com as lagrimas nos olhos, contemplavamos compungidos a vossa
    resignação christã.

    Defensores do absolutismo, isso não é bonito! Tanto fogo, tantas
    descargas cerradas sem ordem nem disciplina, não prestam para nada. Uma
    carga de bayoneta vale mais que tudo isso. Granadeiros do Mindello,
    conforme nos chamaes, sabemos como o simples reluzir das bayonetas era
    efficaz comvosco. Ficastes sempre um pouco milicianos. Gastaes muita
    polvora; mas atrapalhaes-vos demasiado ao desfechar, e as balas zumbem
    apenas por cima da cabeça dos inimigos.

    Caricatura de Eumenide, a _Nação_, ahi estava ha uns poucos de annos a
    descompor, não a podridão de vicios e de corrupções, com que o
    despotismo de tres seculos envenenou a seiva da sociedade; não a herança
    de envilecimento que o habito de tremer diante dos frades inquisidores,
    ou dos cabelleiras da inconfidencia e da intendencia, severos e puros
    como os accusadores da filha de Helcias, legara aos que vieram antes de
    nós, e estes á geração que vae acabando; não a abjecção aprendida nas
    ante-salas da nobreza, do alto clero, dos magistrados venaes, dos
    cortezãos que mercadejavam nas mercês regias, mas sim a liberdade, a
    civilisação, o progresso, que são leis de Deus, reveladas nas aspirações
    de todos os homens, nos caracteres dos seculos, no desenvolvimento
    invencivel do espirito humano; a liberdade, a civilisação e o progresso,
    que se conteem no Evangelho de Christo e não no Evangelho dos Phariseus,
    e que hão-de ir lentamente desbaratando esse _caput mortuum_ de
    depravações e baixezas, que os despotas passavam de mão em mão para
    dominarem pela desmoralisação e pelo terror. Eumenide de roca á cinta, a
    _Nação_ ahi estava aguentando nas costas gibosas, a canastra cheia de
    parches fetidos com que a hypocrisia da côrte, dos tribunaes, das
    sacristias, cobria as chagas purulentas do corpo social, flagellado,
    rasgado, exhaurido de forças pelos vampiros defensores do throno e do
    altar: ella ahi estava resmoninhando improperios contra a dignidade e os
    fóros do homem, e apregoando a panacea para todos os males, na immunda
    trapagem da canastra absolutista. Não lhe diziamos nada: não lh'o
    diriamos talvez nunca. Tentou-a porém o peccado um dia, para vir lançar
    á nossa porta o seu ridiculo pregão. Fez-nos asco a mumia ambulante, e
    com o bico da bota atirámos-lhe a canastra ao ar. Os parches
    espalharam-se no chão, e quem passava tapou o nariz e os olhos; era um
    espectaculo hediondo e repugnante. A velha ficou embaçada, absorta na
    dôr e na colera. Depois tornou a si, arrancou mãos cheias de cabellos
    desgrenhados: careteou, rugiu, babou-se: e, Messalina desdentada e
    tonta, fincando os punhos engelhados nos quadris angulosos, epilogou em
    si a Ribeira-Nova e blasphemou, blasphemou, blasphemou quatro dias.

    Grita, Eumenide de farça; grita, que te ouçam todos! Tens razão, pobre
    velha, a bota impia estragou-te a mercadoria. Apanha essas rodilhas
    esfarrapadas das commendas e prebendas, e concerta outra vez a canastra.
    Vitupera esta raça maldicta dos liberdadeiros, que não querem sentir os
    ossos a estalar no potro, ou vêl-os queimar nas fogueiras da
    sancta-inquisição; que não querem que os desembargadores durmam
    impunemente no thalamo nupcial, o somno do adulterio em nome do livro
    5.^o; que não querem dar cem mil cruzados a cada successor dos descalços
    apostolos, para fundarem morgados á parentella, nem grossas prebendas
    aos monsenhores, conegos e beneficiados _in quocumque_, para atulharem
    de legitimações os livros da chancellaria, e fazerem apparecer uma
    edição annual do _Cosinheiro Moderno_. Apanha a canastra e os fedorentos
    emplastros, e continua a apregoar os teus _recipes_, sacudindo de vez em
    quando esse latego imaginario com que, na tua tonteira, pensas castigar
    a civilisação, por ter enterrado a sentina do absolutismo nas ruinas das
    taipas e páus podres de que era construida.

    Vinde cá, defensores do absolutismo, quem vos deu o direito de falardes
    d'esta nobre terra de Portugal nos tempos em que era livre? Em Portugal
    o despotismo é que é moderno, e a liberdade antiga. Cerrae de todo os
    olhos, vós os que amaes curvar-vos ante um senhor dos vossos bens e das
    vossas cabeças. Não vos deslumbre o brilho dos quatro primeiros seculos
    da monarchia! As gerações d'essas eras sacrosanctas não vos pertencem;
    são as dos nossos antepassados: os vossos acham-se nas que viveram de
    joelhos á porta da inquisição, do palacio-monstro de D. Manuel e do
    convento absurdo de Mafra.

    Defensores do absolutismo! A historia dos tempos das commendas e
    prebendas por que vós choraes, começa n'uma usurpação e acaba n'outra: a
    primeira a da liberdade do povo, a segunda a do throno legitimo. Entre
    estes dous horisontes, cerrados e negros, está contida apenas a longa
    decadencia, a lenta agonia de uma nação pequena pelo numero, mas grande
    pelo esforço, grande sobretudo pela sua actividade agricola, commercial
    e maritima; grande pela politica dos seus principes populares; grande
    por um energico e tenaz amor dos seus fóros; grande pela sabedoria
    comparativa das suas instituições e leis, no meio do atrazo politico da
    Europa; grande, não pelas virtudes das classes privilegiadas, mas sim
    pelas dos villãos, pelas de nossos avós; grande pela alliança estreita
    entre a monarchia e a democracia, contra as oligarchias que nascem da
    indestructivel desegualdade humana e que, segundo os tempos, se chamam
    patriciado, fidalguia, agiotagem, e cuja manifestação suprema se exprime
    constantemente por duas palavras unicas: violencia e rapina.

    Defensores do absolutismo e da legitimidade! Os actos politicos dos
    tempos que vos pertencem e que vós defendeis, constituem apenas uma
    serie de illegitimidades: mais do que isso, uma serie de attentados
    commettidos contra o povo, pelos principes pervertidos, por uma
    fidalguia que, tão orgulhosa d'antes, se declarara vencida ao ver rolar
    algumas cabeças sob o cutello do algoz, e que achára em fim ser mais
    commodo servir, enganar, e comer, comer muito; pervertidos pelos
    jurisconsultos que tinham ido beber nas escholas estrangeiras as
    doutrinas de direito publico dos tyrannos de Roma, como vós nos accusaes
    de termos ido beber as ideas de liberdade, que estão escriptas no
    coração do homem, nos livros dos impios d'este e do precedente seculo.

    Defensores do absolutismo e do direito divino! Em que dia desceu este do
    céu sobre a cabeça d'el-rei D. Manuel, para ordenar aos seus escribas
    que rasgassem centenares de pactos constitucionaes, onde estavam
    escriptos os fóros e liberdades d'esta terra; centenares de pactos
    municipaes, onde estavam consignadas as liberdades e garantias das
    cidades e villas do reino? Em que dia desceu o direito divino a
    sanctificar a conversão em simples leis fiscaes, dos codigos em que se
    continham as immunidades e franquias populares, cujo espirito sempre, e
    cuja lettra muitas vezes provam, que esses codigos eram rigorosos
    contractos politicos, livremente offerecidos e acceitos? A reforma que
    os povos pediam á corôa era acaso a morte das suas liberdades, ou era a
    cessação dos abusos que a nobreza, a magistratura real e o clero tinham
    introduzido, pouco a pouco, em contravenção com o direito publico
    municipal, base do direito politico do paiz? Respondei.

    Respondei, defensores do absolutismo! Que eram os nossos parlamentos até
    1480, senão as assembléas onde o povo protestava sempre, ameaçava não
    raro, e castigava algumas vezes cerrando as bolças, as quebras do que,
    na linguagem imperfeita d'aquellas eras, chamava seus privilegios, e que
    nós hoje chamamos direitos e garantias politicas? Que eram esses
    parlamentos (concedei-nos o uso d'esta palavra liberdadeira e
    revolucionaria, de que já usavam nossos avós, os malhados do seculo XV)
    senão uma aferição solemne entre os actos do governo, o exercicio do
    poder real, por si ou por seus delegados, e as regras do direito
    constitucional com que crescera e vigorava o paiz?

    Respondei, se o sabeis, e se o não sabeis ide estudal-o em documentos um
    pouco mais graves e authenticos, do que esse rol de tolices bernardas a
    que chamaes côrtes de Lamego. Elles estão patentes para vós como para
    nós. Mentistes quando dissestes que fizeramos monopolio d'esses titulos
    da legitima e verdadeira gloria d'esta nação, que se constituiu e
    cresceu á sombra da liberdade, porque só assim as nações se constituem e
    crescem. Mentistes para encobrir a vossa incapacidade e preguiça. Para
    os buscar, estudal-os e comprehendel-os, é necessario o sacrificio do
    tempo, dos prazeres, da saude, dos interesses materiaes; é necessaria a
    abnegação da existencia exterior, no que ella tem mais grato, para
    viver, anno após anno, de uma vida interior que nos devora, de uma idéa
    que nos illumina. É esta idéa que vos foge, que não cabe no vosso
    espirito, enlevado na visão beatifica e longinqua das commendas e das
    prebendas, apoquentado pela saudosa imagem d'aquelles pescoços anafados,
    roliços, torneados em roscas atoucinhadas, dos bons tempos patriarchaes,
    canonicaes e monachaes. Esses tempos, essas saudades, essa religião da
    gula, do luxo, dos vicios hypocritas; essa contemplação continua da
    corrupção absolutista, é que não vos deixa erguer os olhos para os
    pulverulentos archivos do reino, cujo exame nos lançaes em rosto como se
    fôra um crime! Não! Vós não podeis vêr os pergaminhos cobertos de pó.
    Esse pó que repousa sobre elles, vôa para os ares quando se lhes toca: o
    lodo do charco em que tendes os olhos fitos é que nunca se alevanta da
    terra, e as vossas palpebras de servos estão atrophiadas; os vossos
    olhos esqueceram o movimento com que os dos homens livres olham para o
    que está elevado, para o ar e para o céu.

    É por isso que quando a verdade inexoravel vem esmagar os embustes em
    que estribaes a tyrannia, achaes mais simples negar essa verdade, e
    accusar de falsificadora a mão que a atira ás faces sem pudor do
    absolutismo. O homem de bem quando diz a outro homem–falsificaste,
    inventaste, deturpaste, sumiste os documentos de um, ou de muitos
    factos,–traz sempre na mão as provas de uma accusação, que importa um
    crime perante as leis moraes e perante as leis civis. Sem isso a injuria
    não deshonra o accusado, deshonra o accusador. Discipulos do denunciante
    do illustre Damião de Goes; discipulos do padre Simão Rodrigues; beatos
    filhos de Sancto Ignacio, bem se vê que respeitaes as tradições da vossa
    ordem, e que estudaes a moral pelos livros dos Busembaus, dos Lessios,
    dos Tamburinis, os quaes vos aconselham, que _se quiserdes deitar a
    perder qualquer pessoa, convém que comeceis por espalhar calumnias para
    a difamar, porque, acreditando-se mais facilmente o mal que o bem,
    sereis cridos, com o que o calumniado perderá a força que lhe dá a boa
    reputação, e sereis vingados_. O que é ter no bahú a roupeta, á
    cabeceira as camandulas, e haver estudado por bons livros! E que demonio
    podieis vós fazer senão calumniar sanctamente, em quanto não deixamos o
    nosso _monopolio_, e não se faculta o uso dos archivos á vossa sede de
    instrucção, ao vosso amor da verdade, ao vosso extremado afferro pelas
    instituições primitivas?

    Defensores do absolutismo, como assim? Engrifaes-vos para defender
    contra os salteadores do Mindello a _vossa propriedade_, as prestações
    foraleiras, os dizimos, os benesses das capitanias-móres, e metteis ao
    mesmo tempo no peitilho da roupeta, os sete seculos da monarchia? Isso
    não vale: isso não é para mãos bentas. Largae quatro seculos que não são
    vossos: guardae os tres que vos pertencem. Antes d'elles, não cançaremos
    de vol-o repetir, o povo portuguez era livre, não n'um latinorio piegas
    de frade bernardo, mas na realidade dos factos, e pelo mechanismo da
    sociedade politica.

    Essa liberdade não se consubstanciava inteira na existencia das grandes
    assembléas nacionaes. Pelo contrario, as côrtes eram a sua manifestação
    mais incompleta. Ahi o povo, a villanagem, que vós sabeis, nobres
    senhores, empregava, ainda ameaçando e reprehendendo, formulas cortezes
    para com o monarcha, analogas, até em phrases, ás que emprega a
    villanagem ingleza de hoje para com os seus reis. No que era novo, nas
    medidas administrativas, ou nas leis civis que a civilisação mostrava
    uteis ou justas, o povo limitava-se a discutir a sua conveniencia; mas
    no que feria o pacto fundamental das cidades e villas, ou aquella parte
    do direito consuetudinario, homologado conjunctamente com a carta
    municipal, e que representava direitos politicos, oppunha-se tenazmente
    á innovacão. A monarchia n'esse caso curvava a cabeça e reconhecia a
    sanctidade dos principios. Nunca um rei de Portugal livre ousou dizer
    aos seus concelhos: «quebrei as vossas immunidades, os vossos fóros,
    porque assim aprouve á minha sciencia certa, poder real e absoluto.»
    Quando as accusacões dos povos apontam a offensa das garantias, a
    reparação, ou a promessa solemne d'ella não falha, porventura, uma só
    vez, nas actas das côrtes dos antigos tempos.

    Assim a liberdade popular estribava-se não tanto nos parlamentos como
    nos foraes, e a garantia dos principios contidos n'estes, era a
    estructura robusta dos corpos municipaes. Os concelhos eram a
    organisação da democracia contra os poderosos, que só entravam n'esses
    gremios politicos por concessões raras, condicionaes, difficeis de
    obter, sobretudo nos tempos primitivos. Essa organisação dava os meios
    de repellir as violencias dos tyrannetes privilegiados: dava uma
    terrivel solemnidade aos aggravamentos dos povos. Os cavalleiros
    villãos, os bésteiros municipaes, a peonagem armada lá tinham o ferro
    para o desaggravo, se o rei não cumpria o seu dever. A força estava
    atraz da doutrina; porque a força e só ella mantem solidamente o
    direito. É um axioma que vós acceitaes largamente. E senão, pedi aos
    vossos amigos de Roma, da Austria, da Prussia, da Russia e da Turquia,
    que mandem para casa os seus milhões de soldados, e nós vos daremos em
    breve, novas da boa-saude do direito divino.

    Que fez a monarchia do seculo XVI e dos que se lhe seguiram, dos nossos
    velhos concelhos? Entregou-os amarrados aos fidalgos, aos padres e aos
    agentes do poder real. Substituiu gradualmente um exercito permanente á
    democracia armada, a essa democracia que tão leal fôra aos antigos reis,
    que os tinha ajudado a conterem nos limites do seu direito os dignos
    barões, avós de vossas excellencias reverendissimas. D. Manuel, que
    subiu ao throno, cuspindo nas nodoas de sangue de seus irmãos
    assassinados, enlevado dos descobrimentos e conquistas feitas pelos
    corações generosos, pelos homens ousados que os ultimos dias de
    liberdade legaram aos primeiros de tyrannia, acabou a obra do seu
    antecessor. Os foraes em vez de se cunharem de novo com os seus
    primitivos caracteres politicos, ficaram desde a sua reforma lettra
    morta para as franquias do povo, lettra morta como padrões
    constitucionaes, e só viva e bem viva para as extorsões do fisco.
    Algumas formulas externas que restavam nos costumes apagaram-se pouco a
    pouco; mas o espirito de liberdade morreu e o absolutismo assentou-se
    tranquillamente sobre o paiz.

    Até ao seculo XV, posto que já a indole politica da sociedade começasse
    a alterar-se, porque os desembargadores caminharam de longe e de vagar
    para não serem sentidos, os procuradores de côrtes tinham uma
    significação, um valor politico; atraz d'elles e do seu mandado estava
    um grupo social, a democracia, formado de muitos grupos, os concelhos.
    Desde que estes se compozeram de _clero, nobreza e povo_, desde que as
    classes se confundiram politicamente, a liberdade popular morreu. Os
    concelhos não foram mais d'ahi ávante, do que um instrumento de governo
    e uma divisão territorial e administrativa. Cessou entre nós o direito
    politico do povo, e reinou despeado o absolutismo. Que são todas essas
    côrtes posteriores senão um simulacro, ou antes um escarneo dos nossos
    antigos parlamentos? Esses procuradores do _povo_, eleitos pelo _clero_,
    _nobreza_ e _povo_, senão uns titeres com que os oppressores se
    divertiam á custa da democracia? Desde o seculo XVI Portugal teve factos
    politicos mais ou menos tyrannicos, mais ou menos vergonhosos, mais ou
    menos abusivos; mas o direito constitucional onde estava elle? Onde
    estavam os pactos sociaes que Fernão de Pina trocára por outros,
    _reformados_ exclusivamente com os olhos no céo e nas amplas barrigas
    dos alcaides-móres, dos donatarios da corôa, dos dignissimos avós de
    vossas excellencias e reverencias? Estavam esquecidos no fundo dos
    archivos do reino, onde ainda estão hoje para vossa vergonha eterna,
    raça de escravos, que succedestes n'esta nobre terra a uma raça gigante
    de homens livres; estavam onde ainda existem hoje, onde os podeis lêr e
    polluir com essas mãos servas, mentirosos insignes, porque as portas
    estão abertas para examinardes a infidelidade com que os citamos, as
    entrelinhas que n'elles escrevemos, as raspaduras com que os viciamos.
    Ide, miseraveis, punir-nos!

    Respondei, illustres Pegas _ad ordinationem_, donde veiu aos reis de
    Portugal o direito de rescindir contractos politicos solemnes? Os
    monarchas portuguezes da edade media reconheceram estarem limitados os
    deveres dos povos e os proprios direitos, por essas cartas
    constitucionaes, que reunidas eram o complexo do direito publico do
    paiz, e que tinham em si proprias as garantias da realidade: os seus
    successores proclamaram o principio contrario e derivaram d'ahi a
    manifestação do poder publico. Como agrupaes vós estas duas idéas que se
    excluem, que se negam? Como unis a morte á vida? Como ousaes dizer:
    _pertencem-nos sete seculos_? A vós? dementes! O primeiro monumento
    grave da vossa historia, o primeiro resultado practico das vossas
    adoradas doutrinas é a inquisição. A inquisição não foi filha da
    perversidade da curia romana, que tem sobejos crimes para que não se lhe
    attribuam os alheios. A inquisição foi um calculo frio e feroz do
    absolutismo de D. João III (este é vosso: guardae-o) que estava pobre
    pela sua falta de juizo e pelas vaidades paternas. Quiz queimar os
    judeus para os roubar, e pediu lume a Roma, que lh'o recusou largo
    tempo, porque não ignorava para que elle o pedia. Quando quizerdes as
    provas d'isso, fallae; já se sabe, entrelinhadas, supprimidas,
    respançadas, viciadas segundo o velho costume de que nos accusaes com as
    provas na mão, como bons e verdadeiros jesuitas.

    Absolutistas, vós acceitaes a solidariedade do passado: posto que não
    possaes reclamar senão a do que vos pertence. Falamos por isso comvosco,
    não para apontar uma ou outra mancha no vosso predominio, como vós
    modestamente imaginaes, mas para vos dizer o que elle foi na sua
    essencia. Começastes, insultando o evangelho, por queimar aquelles que
    não adoravam Deus á vossa guiza, e terminastes, matando ás machadadas
    prisioneiros inermes, diante dos quaes, armados, tantas vezes tinheis
    fugido. Na vossa historia o espectro da tyrannia esconde a fronte no
    fumo da carne humana, assada para o sancto rei D. João III ter dinheiro,
    e firma os pés nas poças de sangue, sobre os ossos triturados e as
    carnes esmagadas pelos machados dos bravos que tão valentemente fugiam
    das nossas bayonetas. Mas o vosso pedestal e a vossa corôa são
    comparativamente dous dixes infantis. O crime imperdoavel, sem nome,
    pelo qual a posteridade vos ha de escrever a maldição sobre a campa, é o
    terdes vivido abraçados durante tres seculos com esse espectro da
    tyrannia. É o terdes arrastado aos pés dos cortezãos, dos conegos de Gil
    Vicente, dos Pegas, dos bobos regios, dos frades gordos, luxuriosos e
    hypocritas, de que nos fala o viso-rei D. João de Castro na sua
    correspondencia inedita, (viciada por nós, já se sabe), as velhas
    liberdades do paiz, as liberdades do povo, que querieis espoliar sem que
    vos resistisse, concedendo-lhe apenas, se estaveis de pachorra para dar
    gargalhadas, o direito dos gemidos.

    Quando o vosso idolo vos fugiu das mãos, quando a espoliação,
    regio-fidalga, clerical e desembargatoria passou para mãos castelhanas,
    que vos tractaram como vós tinheis tractado o povo durante oitenta
    annos, veiu-vos, excellentissimos e reverendissimos senhores, um accesso
    momentaneo de febre liberdadeira. Incumbistes então um frade ignorante
    de vos redigir um codigo imaginario, em que todas as instituiçães
    sociaes da edade media estão desmentidas, e em que até o regicidio é
    elevado á altura de principio politico. Porque fizestes isto? Porque
    entre vós e as epochas de liberdade havia um abysmo insondavel; porque o
    seculo que precedêra se divorciava da antiga monarchia, em que os povos
    não precisavam do regicidio para defender os seus fóros, de que só foram
    privados por uma serie de traições cobardes e indignas.

    Na verdade depois de sacudido o jugo estranho representastes uma farça
    parlamentar, e depois outras farças analogas. Sempre gostastes de
    galhofa, como succede a todos os mandriões, que comem bem e dormem
    commodamente á custa do suor alheio. Vieram á folia politica os
    procuradores do _povo_, eleitos tambem pelo _clero_ e _nobreza_ das
    cidades e villas: vieram ahi os padres e os fidalgos. Apraziam-vos estes
    espectaculos em que o povo fazia o papel de urso. Que importa que no
    preambulo das côrtes de 1641, se escrevesse a doutrina da soberania
    nacional sobre os proprios reis. Era o horror da tyrannia, que tambem
    vos fizera experimentar como morde, quem vos arrancava esta concessão
    theorica, reproduzida por Velasco de Gouvêa, no livro com que a vossa
    recondita erudição nos assassina? Perguntae-o aos vossos cabelleiras do
    absolutismo. Essa doutrina foi declarada depois _illusiva_, _ob_ e
    _subrepticia_, _atroz_ e _sacrilega_, introduzida n'essas côrtes e no
    livro de Velasco, pelo _synedrio monarchomaco_ dos jesuitas; porque é de
    advertir que o jesuitismo e o absolutismo andaram sempre ás unhadas,
    emquanto os Franzonis e os Autonellis não os jungiram com a mesma soga,
    para trabalharem na vinha do Senhor com a benção cardinalicia.

    Entre parenthesis. Os jurisconsultos de ha cem annos pareciam-se
    convosco, doutores da _Nação_. É a mesma logica. Regeitavam as idéas
    jesuiticas sobre o direito dos subditos para deporem os reis, e
    acceitavam as côrtes de Lamego, o codigo do frade bernardo, onde se
    proclama o regicidio. O absolutismo tem ao menos uma gloria: é a de
    verificar em si um milagre: o de ser ao mesmo tempo profundamente atroz
    e soberanamente ridiculo.

    Vamos, sabichões! Que é o que vale? São as doutrinas do synedrio
    monarchomaco de Velasco e do frade regicida, ou é o direito divino?
    Podemos esganar de vez em quando o nosso reizito, se reconhecer
    supremacia estranha; depôl-o, se não nos andar a geito, ou pelo
    contrario é inviolavel a legitimidade da monarchia?

    E dizeis vós que haveis de morrer no vosso posto! Qual posto, nem qual
    morte, nem qual carapuça? Quem ha-de agora matar meia duzia de patetas,
    que parecem mandados de proposito pela Providencia para divertimento
    d'esta terra, no meio das mágoas e afllicções que lhe causa o
    cabralismo?

    Sabeis o que são, alem de farças, as vossas côrtes de 1641, e as outras
    côrtes do absolutismo? São um monte de inepcias em direito politico.
    Depois de proclamarem a soberania nacional por ordem dos jesuitas, os
    absolutistas de 1641 estabeleciam que o testamento de um rei era uma
    constituição, d'onde derivava a legitimidade de outro rei por direito
    incontroverso!

    Defensores do absolutismo, buscae nas actas parlamentares da edade
    media, alguma passagem em que os mandatarios dos concelhos de Portugal
    declarem, como os titeres de 1641, que a demissão dos tributos
    violentos, _impostos tyrannicamente_ pelos reis de Castella, era uma
    _liberalidade_, uma _magnificencia_, uma mercê d'el-rei. Onde achaes vós
    lá esta linguagem de Baixo-Imperio? Lá oppunham-se os aggravamentos dos
    concelhos aos abusos do poder. Era a distancia que vae de uma epoca de
    liberdade a outra de servidão.

    A servidão, a servidão! Eis o grande crime dos tres seculos que vos
    pertencem. Pensaes vós que nos importam, considerados em si, os
    adulterios da mulher de Affonso VI, ou que D. João V dormisse em
    Odivellas, ou cantassem n'aquella bestialidade architectonica de Mafra,
    cem ou duzentos frades comilões e ignorantes? Importa-nos tudo isso
    porque vós, que nos accusaes de não havermos feito nada em dezoito
    annos, não fizestes cóusa nenhuma em tres seculos, senão consumir a
    substancia publica em devassidões e em bugiarias; senão queimar judeus
    para os roubar, e perseguir-vos uns aos outros, jesuitas e absolutistas,
    quando vos faltou o judaismo para cevar os vossos instinctos
    sanguinarios. O que nos importa é que vós, legitimistas de agua doce,
    representaes a illegitimidade de tres seculos: a tyrannia convertida em
    principio politico, por velhacadas desembargatorias que havemos de vos
    contar um dia, e pela ingratidão fementida da dynastia manuelina para
    com o povo, que tão leal havia sido á monarchia nas suas luctas com os
    padres e fidalgos d'esta terra. Importa-nos que, accusando-nos
    diariamente de destruidores dos thronos, tendes estampada na fronte do
    vosso jornal a lei regicida do frade bernardo, e que entoando hymnos á
    lealdade, ao realismo do alto clero e da fidalguia, ousaes metter no
    peitilho da roupeta os quatro seculos de liberdade, durante os quaes o
    unico exemplo de um rei atirado do throno para o exilio, e substituido
    por um principe estrangeiro, (estrangeiro segundo as vossas doutrinas)
    foi dado pelo alto clero e pela nobreza, em quanto o povo combatia a
    favor de uma illustre desdita. Importa-nos pagar-vos a divida do partido
    liberal, que estaes insultando refalsadamente, porque tem tido a
    desgraça de haverem obtido o poder, pelos meios essencialmente
    absolutistas da corrupção e da violencia, homens cujas doutrinas
    prácticas de governo são as vossas, e contra as quaes tendes visto
    protestar a maioria do partido liberal, com a palavra e com o ferro, do
    mesmo modo que o fizera contra vós. Importa-nos que penseis parvamente
    ao vêr-nos regeitar a anarchia ou a demagogia, ter descoberto nas nossas
    idéas contradicções monstruosas. Importa-nos que enchaes as bochechas
    com as vossas crenças, escrevendo ao signal das chibatas dos vossos
    sargentos, adoradores da censura, da abnegação servil das proprias
    idéas, e tendo opiniões uniformes por que estão stereotypadas nas
    capellas e sacristias. Importa-nos que, não vos movendo impulsos de
    convicções espontaneas, quando vêdes na imprensa as provas de que o
    sacerdocio vem audazmente insultar, n'um convenio insolente, as regalias
    do imperio civil, (a sustentação das quaes é o unico ponto em que são
    acordes as doutrinas politicas dos sete seculos da monarchia) vos caleis
    cobardemente, para não terdes de despir a roupeta de sancto Ignacio, ou
    de tirar a cabelleira desembargatoria, ao que essa questão forçosamente
    vos constrangeria, provando assim que os vossos enthusiasmos
    monarchicos, o vosso patriotismo, são apenas hypocrisias necessarias
    para vêr se grangeaes de novo as commendas e as prebendas, os quartos e
    as jugadas, as alcaidarias-móres e as capitanias-móres, os bispados e as
    conezias, e os beneficios succulentos.

    _Sic valeas ut farina es_.

    IV

    As prestações foraleiras e a fidalguia

    Os servos voluntarios e perpetuos, os que venderam alma e corpo á
    tyrannia, insultam-nos a nós liberaes, e cospem sobre as cinzas de D.
    Pedro, porque não quizemos que esta terra de Portugal fosse uma vasta
    gleba de adscriptos que trabalhassem para suas excellencias
    reverendissimas. Os bens da corôa, o patrimonio publico, os tributos
    locaes eram propriedade d'esse grupo de nobres luxuarios, que enlameavam
    com o rodar dos seus coches, com o galopar dos seus cavallos, o homem
    laborioso curvado para o sólo desde que o sol rompia até que
    desapparecia no occaso. Assim nol-o affirmam. Debalde nossos avós, os
    villãos, protestaram contra a accumulação dos tributos geraes e dos
    locaes, debalde a monarchia, a propria monarchia absoluta, fazia
    recordar nas leis e nos actos, que a renda publica não era, não podia
    ser, patrimonio dos donatarios; os doutores da _Nação_, esses Pegas que
    nos atiram a proposito de tudo com a sua sabença juridica, que nos falam
    nas manuelinas e nas philippinas, nas extravagantes, e nas leis de D.
    José, declaram que os bens da corôa eram do dominio dos comilões,
    alcunham-nos de communistas e, quando dizemos a esses illustres senhores
    que vão trabalhar, respondem-nos em nome d'elles que os espoliámos já do
    fructo do trabalho dos seus antepassados, e que queremos que trabalhem
    de novo para de novo os roubarmos, porque o primeiro roubo não satisfez
    as ambições de todos nós.

    O que é mais admiravel n'estas palavras absurdas, a demencia ou a
    imprudencia?

    Mentís, porque todas as leis, todos os actos do poder, desde a lei
    mental até á lei sobre confirmações do 1769, vos estão dizendo que as
    terras, os direitos dominicaes, os tributos locaes, as jurisdições, as
    rendas, tudo emfim, quanto fôra havido da corôa pelos donatarios, era em
    seu poder um simples uso-fructo, que o rei podia fazer cessar por
    solemne, perpetua, incondicional, que fosse a concessão.

    D'onde vinha, pois, esse direito de propriedade de que falaes, em
    contradicção não só com o direito publico do tempo da liberdade, mas até
    com as leis, com as doutrinas e com os actos do absolutismo? D'onde
    vinha essa propriedade, causidicos dos orgulhosos comilões, e mandriões
    das armarias e dos reposteiros? Da prescripcão? Mas vós, doutores da
    _Nação_, ignoraes que ainda nas vossas côrtes de 1641, se proclamou a
    doutrina de que contra o paiz não ha prescripção, emquanto elle não tem
    liberdade para reclamar, e esqueceis que a tolerancia dos povos durante
    os seculos XVI, XVII e XVIII, ácerca da ladroice com que eram
    malbaratados os bens da corôa, não significa o seu consenso, mas sim os
    terrores do absolutismo?

    Vós pensaes que os redactores do _Paiz_ são os dos jornaes do conde de
    Thomar, aos quaes vós ousastes dizer que as côrtes de Lamego haviam sido
    invocadas a favor de D. Catharina em 1550, antes de as inventar o frade
    bernardo, e que não souberam punir-vos d'esta falsificação?

    Mentís quando dizeis que nós queremos que os fidalgos trabalhem para os
    espoliar de novo. Falta a primeira espoliação para d'ella inferirdes a
    segunda. O decreto de 13 de agosto que respondeu definitivamente aos
    aggravos dos nossos avós, os canalhas do tempo de D. Fernando, de D.
    João I, de Affonso V; que tornou uma realidade práctica, em harmonia com
    a sciencia economica e fiscal das eras modernas, as promessas d'aquelles
    principes e o direito que elles reconheciam nos povos, se teve algum
    defeito foi o ser nimiamente generoso com os donatarios, com os
    excellentissimos filhos do sol e netos da lua: foi a homenagem que os
    ladrões do Mindello prestaram ao trabalho e á morigeração, aos nobres
    que haviam sabido tractar d'esses bens mal-havidos por seus
    antepassados, investindo-os no dominio allodial dos predios que
    desfructavam até ahi por uma posse mal-segura, mas que, como bons
    economos, como homens de costumes regulares, os cultivavam por si ou por
    seus rendeiros, e não tinham alienado o dominio util d'elles por titulos
    permanentes. O decreto de 13 de agosto não perguntou se os que auferiam
    proveitos das suas disposições, eram liberaes ou absolutistas; libertou
    o solo e honrou a morigeração e o trabalho. O partido liberal
    deixou-vos, excellentissimos, aquillo de que segundo as vossas leis
    tinha direito de privar-vos. Os descamisados, os homens do povo que o
    absolutismo trazia subjugados pela miseria, e a classe media em cujos
    bens patrimoniaes e adquiridos licitamente, vós vos cevastes durante
    cinco annos pelos sequestros, pelas peitas dadas aos vossos esbirros
    togados, para concederem um pouco de ar nas masmorras, e pelas luvas
    para trocarem a forca pelos presidios de Africa, podiam ajustar contas
    comvosco, expulsando-vos d'esses bens mal-havidos para se resarcirem de
    lhes haverdes roubado tudo, inclusivamente a camisa, recordações
    gloriosas, em que se estriba o vosso direito de lhes chamardes
    descamisados.

    Os descamisados perguntam-vos pela nossa bocca quanto renderam na
    almoeda dos sequestros, as camisas repassadas do suor da agonia, quando
    despistes os martyres da liberdade enforcados no campo de Sanct'Anna, na
    Praça-Nova, no Cães do Tojo, no Cães do Sodré? Quanto renderam as
    camisas dos martyres da liberdade fallecidos nos presidios pestiferos da
    Africa e nas casa-matas de S. Julião e de Cascaes, as dos mortos a páu
    ao serem conduzidos das enxovias do Porto para as de Lamego, e as dos
    presos assassinados nas outras cadêas do reino? Quantas orgias fizestes
    no fundo das sacristias, nas alcovas soturnas dos palacios com esse
    dinheiro? As dos prisioneiros mortos a machado, essas haviam de estar
    muito despedaçadas. Pouco deviam valer.

    Nós vamos traçar-vos em rapido esboço os titulos da _vossa propriedade_,
    que vos convidâmos a desmentir.

    A fazenda publica do paiz consistia na sua origem em propriedades, cujos
    cultivadores pagavam fóros, pensões, quotas por um systema assaz variado
    e complexo, nos tributos dos concelhos, pagos pelo uso-fructo do sólo, e
    por um systema analogo, nas multas judiciaes, nas portagens ou direitos
    de barreira das villas e cidades, e finalmente nos impostos das
    alfandegas maritimas. Os tributos indirectos, os cobrados nas alfandegas
    e barreiras recahiam pela sua natureza sobre todas as classes. Dos
    tributos directos eram isentos os nobres. Nas honras e coutos não
    entrava o agente fiscal nem o judicial. Para as despezas do estado
    pagava o homem laborioso; o nobre mandrião não tinha nada com isso.

    O serviço militar, o tributo de sangue estava regulado pelo mesmo
    principio. Organisados os concelhos, os seus habitantes, divididos em
    cavalleiros, besteiros e peões, segundo a sua fortuna, ou a natureza
    anterior da sua propriedade, eram arrolados para o serviço da guerra, ou
    para os trabalhos de fortificação, que se consideravam analogos.
    Armavam-se, compravam cavallos e sustentavam-se á sua custa, salvo se a
    guerra ou os trabalhos se protraiam demasiadamente. Os nobres eram
    isentos da defeza da patria, salvo o caso de uma recompensa. A maxima
    parte da renda publica n'isso se consumia. Os ricos-homens governadores
    civis e militares dos districtos, recebiam uma grande parte dos tributos
    locaes, e distribuiam a percepção das rendas dos bens publicos pelos
    cavalleiros, a cada um sua aldêa, sua porção de cazaes, etc. A isto
    chamava-se prestamos. Os alcaides-móres, chefes militares, e até certo
    ponto civis dos concelhos, haviam pelo seu serviço uma porção de rendas.

    Este systema profundamente injusto, segundo as idéas de hoje, não feria
    então os espiritos. O nobre tinha o direito de não supportar encargos na
    sua propriedade patrimonial, e de não defender a patria; o villão devia
    pagar e servir, e ainda com o seu dinheiro comprava o serviço dos
    illustres suissos d'aquelle tempo.

    Rico-homias, prestamos, alcaidarias, tudo era movel: o rei tirava-o,
    dava-o, trocava-o a seu bel-prazer; porque nada d'isso passava em rigor
    de um systema de subvenções pessoaes. Entre nós não havia nada que
    recordasse a fixidade do feudalismo.

    Gradualmente estes encargos e concessões foram-se tornando menos moveis;
    mas a hereditariedade feudal nunca se introduziu: mesmo quando os filhos
    succediam aos paes, os estylos e as leis recordavam que tudo isso era
    accidental, temporario, dependente da vontade do poder central, do
    principe.

    Mas tambem gradualmente se introduziu um abuso. Ás rendas publicas
    procedidas das imposições directas sobre o solo, dadas a qualquer nobre
    e depois d'elle a seus filhos, foram-se pouco a pouco considerando como
    mercês graciosas, e d'ahi nasceram os soldos, as _quantias dos nobres_,
    isto é, um vencimento em dinheiro para servirem o paiz.

    Dizemos _quantias dos nobres_ porque tambem os villãos tinham
    _quantias_, mas negativas; isto é, avaliavam-se-lhes os bens para na
    proporção d'estes terem armas e cavallos, serem bésteiros ou lanceiros,
    para formarem, digamos assim, a cavalleria, a infanteria pezada e a
    infanteria ligeira, tudo gratuito.

    Introduzido aquelle abuso dos soldos, a economia d'esta organisacão
    ficou sendo: o povo pagar na proporção dos seus meios, e servir
    militarmente na mesma proporção: os nobres serem isentos de tributos e
    de serviço militar, ao passo que, como homens de guerra, comiam uma boa
    porção da renda publica em soldos, e outra parte como donatarios da
    corôa.

    Nos fins do seculo XIV este iniquo systema de percepção e distríbuição
    da renda publica, tinha tomado proporções tão espantosas, que a
    principal materia dos aggravamentos populares, nas diversas assembléas
    de côrtes do reinado de D. Fernando, é este assumpto. Ahi o rei
    reconheceu a extensão do mal, e prometteu até onde fosse possivel
    remedio, que na verdade era difficultoso, attento o poder da nobreza.

    Na revolução de D. João I, uma grande parte da nobreza, ou seguiu a
    parcialidade de Castella, ou se mostrou avessa ao mestre de Aviz. Os
    fidalgos, porém, não se esqueceram no meio dos transes e miserias porque
    a nação passava na lucta gigante que emprehendera, de conservar intacta
    a malversação da fazenda publica. Emquanto as derramas e as sizas vinham
    pelas necessidades da guerra aggravar a sorte do povo, a fidalguia
    invocava o passado para que se lhe pagassem as _quantias_ em dinheiro, e
    as terras se lhe dessem gratuitamente, para ser _mercê acabada_. D. João
    I commettêra a _atrocidade_ de resolver com o povo em cortes, que aos
    fidalgos que serviam na guerra se lhes descontassem as quantias nos
    redditos das terras de que eram donatarios, já se sabe, comendo elles o
    resto de mão-beijada, porque esse resto não se dividia em prestamos para
    pagarem a outros cavalleiros que os seguissem na guerra, segundo a
    organisação primitiva. Era só o serviço pessoal que por essas terras se
    exigia dos illustres suissos dos seculos XIV e XV. Os villãos, esses
    combatiam de graça, lá estavam para sustentar com a bolça e com o corpo,
    a independencia do paiz.

    Esse vil e escandaloso requerimento da nobreza lá está impresso ha
    muitos annos na ordenação affonsina. Vós, doutores da _Nação_,
    conhecereis melhor a philippina, o codigo do rei estrangeiro, mas nós
    conhecemos melhor a affonsina, o codigo do rei portuguez.

    Sabeis vós, como a nobreza se desforrava da falta de despacho á sua
    petição? O sancto Nunalvares, os mestres das ordens e os outros
    fidalgos, roubavam os mantimentos nas povoações por onde passavam: os
    alcaides-móres em vez de pagarem ás guarnições dos castellos, pediam
    gente dos concelhos para os guardar; e os senhores quando se achavam
    n'alguma povoação com homens de armas, bastantes para sopear os villãos,
    deixavam-se ficar ahi, comendo e bebendo sem pagar e forçando mulheres.
    Lá tendes essas gloriosas paginas da nobreza nas côrtes de 1397.

    O desbarato gradual da renda publica pelas mãos dos fidalgos, fez
    apparecer o systema dos tributos geraes directos: a principio pelos
    _pedidos reaes_, que eram em rigor o mesmo que o recente imposto de
    repartição, que ha poucos annos se quiz introduzir no paiz, com a
    differença de que os pedidos só se repartiam entre os concelhos. As
    sizas foram o primeiro tributo geral directo que abrangeu tudo. Sobre
    estas bases se fundou o systema das contribuições geraes, de que o
    estado subsequentemente viveu.

    Nas côrtes do seculo XV, como nas do anterior, o povo protestou sempre
    contra a dispersão dos bens da corôa. A monarchia dava-lhe razão,
    promettia emenda, e alguma cousa chegou a fazer por vezes, mas
    insufficiente e estragada d'ahi a pouco por influencia dos poderosos. Ha
    uma observação singular a este respeito. O povo em vez de exigir a
    organisação dos impostos geraes, e a suppressão dos chamados direitos
    reaes que constituiam o grosso dos bens da corôa, queria que se
    despojassem os donatarios, e que o estado vivesse das suas rendas
    primitivas. Era um erro economico, mas que provava o desinteresse dos
    villãos, e quanto elles amavam as instituições de liberdade, com que
    estava ligado por muitos modos, aquelle systema da imposição antiga.

    O absolutismo triumphante poz emfim ordem n'estas gritarias populares. O
    paiz ficou dotado com dous systemas tributarios: o primitivo para os
    fidalgos e desembargadores comerem, pagando-se-lhes além d'isso o
    serviço que faziam: para os fidalgos e desembargadores começados por
    _mercé acabada_, como diziam os virtuosos avós de suas excellencias e
    reverencias: o outro systema para se pagar aos que comiam os fructos do
    antigo, e para o resto das despezas do estado. Como se isto não bastasse
    metteram-lhes na barriga os dizimos e os outros rendimentos das
    commendas, prebendas e beneficios.

    Realmente, os absolutistas teem razão de chorar pelos bons tempos.
    Aquillo era uma delicia. Este seculo de ferro só foi feito para os
    demagogos e para os pedreiros livres.

    E crêem os pantalões que em falando em duas ou tres batalhas, em dous ou
    tres nomes historicos, em Ourique, em Aljubarrota e em Montes-Claros, em
    Martim de Freitas, no Condestavel e em Affonso d'Albuquerque, na Sancta
    religião, no amor das nossas cousas antigas, teem feito tudo; teem-nos
    mettido pelo chão abaixo, esmagados pelo peso de tantas maravilhas.

    Pensam que ao lado da historia dos conventos, das cathedraes e dos
    palacios, não se escreve a da choupana, a do homem de trabalho? Pensam
    que se esses nobres senhores teem os seus registos esplendidos e
    luxuarios, o povo não tem tambem as suas humildes memorias de
    espoliações, de aggravos, de soffrimentos? Enganam-se. Tem-nas, e lê-as.
    Por isso é impossivel a volta do absolutismo.

    E crêdes vós que esta gente insaciavel, chegou a comprehender o
    patriotismo e a abnegação? Abri as chancellarias de Philippe II, vereis
    que ella sacrificou sempre ao egoismo e á cubica. Lá achareis os
    ferretes que o rei castelhano poz em tantas familias illustres por seus
    avós e pela sua situação. Lá estão os preços porque cada alcaide-mór,
    cada titular, cada desembargador vendia esta terra ao estrangeiro, em
    quanto a _canalha_, a villanagem, combatia e morria nas espadas e lanças
    dos soldados do duque d'Alva, pensando ter um novo D. João I no prior do
    Crato, o miseravel que tractava tambem com Philippe II sobre o preço
    d'esse povo generoso, que cria n'elle, porque era da raça dos seus
    principes.

    Depois de sessenta annos de oppressão, em que o paiz recebera duras
    lições, crêdes que os donatarios da corôa aprenderam a amar a patria e a
    morrer por ella. Quereis o reverso dos quarenta conspiradores de 1640,
    muitos dos quaes vingaram com a revolução aggravos particulares? Não vos
    falaremos das conspirações fidalgas e episcopaes contra D. João IV.
    Pedimos-vos só que leiaes um parecer, hoje impresso, do procurador da
    corôa, Thomé Pinheiro da Veiga, um dos mais venerados e veneraveis
    caracteres d'aquella epocha. Vianna, no meio da excitação popular que a
    revolução produzira, teve uma saudade, uma velleidade das suas garantias
    da edade-media. Lembrou-se dos tempos em que pertencia ao povo em muitos
    concelhos do typo de Salamanca, que fôra o da sua origem, a instituição
    electiva do seu chefe militar, do seu alcaide-mór. Pediu-a. Thomé
    Pinheiro da Veiga foi ouvido sobre a pretenção e votou por ella. N'um
    impeto de indignação, elle que tinha por dever reprimir e _amaldiçoar_
    (como elle se exprime) estas pretenções da democracia, viu-se
    constrangido a abençoal-as. E porque? Lêde-o. Porque os alcaides-móres
    comiam as rendas e desamparavam os castellos no fervor da guerra, sem
    gastarem um vintem na defesa, não havendo _quasi nenhum_, que cumprisse
    os seus deveres, no que se pareciam com os outros chefes militares, os
    capitães-móres, que comiam os soldos e roubavam os soldados. Elle ahi
    lança em rosto aos avós de vossas excellencias e reverencias, o atroarem
    o paço com petições de bens da corôa, sem fazerem cousa nenhuma. Será
    Thomé Pinheiro um dos ladrões do Mindello?

    Bem sabeis que tambem fariamos um livro contra vós, se quizessemos
    descer aos factos singulares que mostram a corrupção espalhada
    largamente entre a aristocracia dos tempos do absolutismo. Não quizemos
    senão apresentar-vos em grande, a origem monstruosa d'essa
    _propriedade_, de que nós a espoliamos, e mostrar-vos quanto ella em
    massa era digna de que se conservassem dous systemas tributarios no
    paiz: um para o estado e outro para ella: ambos, porém, tirados aos
    contribuintes.

    Direis que com esses bens da corôa recompensou o absolutismo os serviços
    das comquistas? Recompensou é verdade; mas foi os d'aquelles que vinham
    curvar a fronte gloriosa á corrupção cortezã: as almas altivas e nobres
    tinham paga diversa. Lembrae-vos de Pacheco, de Albuquerque, de Camões.
    Depois serviram elles nos tempos modernos para isso mesmo? Quantas
    alcaidarias-móres, quantos direitos reguengueiros, quantas terras da
    corôa, distribuistes pelos soldados da guerra peninsular, cuja sorte
    vindes hoje deplorar com lagrimas hypocritas? Fostes sequer buscar os
    bens da corôa a essas casas, onde elles se tinham tornado uma especie de
    patrimonio, para recompensar aquelles que se batiam contra nós os
    salteadores do Mindello? Repartistes sequer a tunica popular segundo as
    vossas idéas de justiça politica? Respondei.

    Com o decreto de 13 de agosto D. Pedro cumpriu as promessas dos seus
    antepassados, os reis da edade-media; mas cumpriu-as segundo as
    condições da civilisação moderna: aboliu o systema tributario local e
    excepcional que seria hoje absurdo, e que devorado pela nobresa era um
    duplicado escandalo. As cinzas de tantas gerações de villãos espoliados
    por seculos, foram, emfim, vingadas pelo braço de um rei. Que quereis?
    Nós, os vis, por força havemos de abençoar a memoria de D. Pedro.

    Dizei, doutores da _Nação_, é verdade ou é mentira aquillo que se
    escreveu nas actas das _vossas_ côrtes de 1641, que não ha prescripção
    contra o reino emquanto elle não tem faculdade, nem liberdade para
    reclamar os seus direitos? Outra vez: respondei.

    Sabeis vós uma coisa? Se o decreto de 13 de agosto podesse conter
    disposições de uma reparação atroz, não só seria preciso fazer cessar as
    prestações foraleiras, mas tambem mandar trabalhar nos campos com as
    cadêas da servidão aos pés, tres ou quatro gerações de donatarios de
    bens da corôa, por conta das suas victimas. Nem assim, talvez, flcaria
    compensada a oppressão e o escandalo de alguns seculos.

    V

    No momento em que escreviamos e mandavamos para a imprensa o ultimo
    artigo, em resposta ao que a _Nação_ escrevera contra nós, a proposito
    das leis da dictadura de D. Pedro, mal imaginavamos que o agente publico
    intervinha na questão, para defender nos tribunaes a memoria do
    imperador, se, como crêmos, é exacto o que se lê hoje nas columnas
    d'aquelle jornal. Se o tivessemos sabido a tempo, o nosso artigo teria
    sido supprimido. Desde o momento em que a auctoridade interveiu no
    combate, a questão acabou para nós. D. Pedro e a sua vida pertencem hoje
    á historia: na nossa opinião o defendel-o ou aggredil-o não pertence ao
    ministerio publico. Crêmos que sem negar os seus deffeitos de homem,
    teriamos meios de o fazer vêr a uma luz mais favoravel, do que o viu a
    _Nação_, e que saberiamos reivindicar para elle a justiça dos homens,
    que apreciam os actos e os successos não só em si, mas tambem nas suas
    causas e effeitos. As reivindicações da imprensa são mais efficazes e
    uteis para os mortos do que as dos tribunaes.

    Na redacção do _Paiz_ ha quem fosse soldado de D. Pedro; quem entrasse
    em mais de vinte combates sob o seu mando supremo. Não lhe consta que
    elle désse nunca ordem aos seus soldados para que, no recontro com os
    inimigos, chamassem os officiaes de justiça para os prenderem, ou os
    escrivães para os auctoarem. A ordem era levar os sessenta na patrona,
    outros sessenta no burnal, e as bayonetas bem pulidas. Se as ordens
    tivessem sido o inverso, o ministerio publico não teria hoje o incómmodo
    de accusar o jornal realista.

    De hoje ávante até que se conclua o processo da _Nação_, o orgão do
    partido do snr. D. Miguel não nos ha-de encontrar mais no campo da
    imprensa, ainda mesmo quando nos aggredisse. A perseguição sanctificou e
    tornou para nós inviolaveis os nossos adversarios politicos.

    Os redactors do _Paiz_ são em geral pobres, e os recursos de um jornal
    nascente são sempre limitados. Se, todavia, os gastos de um processo, ou
    o seu resultado na hypothese de ser desfavoravel, collocarem a _Nação_
    em embaraços pecuniarios, nós rogamos singella e sinceramente aos seus
    redactores que não se esqueçam de que no escriptorio do _Paiz_, hão de
    encontrar alguns dos seus irmãos na imprensa, posto que seus inimigos, e
    provavelmente inimigos irreconciliaveis, em opiniões politicas[2].

    REPRESENTAÇÃO DA CAMARA MUNICIPAL DE BELEM AO GOVERNO

    1854

    Senhor.

    A camara do concelho de Belem, eleita para o biennio de 1854 e 1855, no
    momento de entrar no exercicio das suas funcções, entendeu que o seu
    primeiro dever é fazer subir á presença de V.M., uma exposição fiel da
    situação economica e administrativa do novo municipio, e pedir justiça
    para os habitantes d'elle, sem o que a camara não se poderá habilitar
    para estabelecer os seus meios de administração e satisfazer aos
    encargos que pesam sobre ella. Os vereadores sentem ter de distrahir a
    attenção de V.M. e a dos seus ministros, dos negocios geraes do Estado
    para uma questão puramente local; mas constrange-os a assim procederem a
    obrigação que teem de não trahir a confiança que n'elles depositaram os
    seus concidadãos.

    Os decretos de 11 de setembro de 1852, que constituiram os dous
    concelhos de Belem e dos Olivaes com o antigo termo de Lisboa, foram uma
    providencia benefica; mas foram ainda mais do que isso: foram uma
    providencia justa no seu pensamento. O Governo reconheceu no respectivo
    relatorio a _urgencia e a justiça_ d'aquella medida reclamada pelos
    povos. Posto que ahi não se particularisassem os fundamentos d'essa
    justiça, os ministros que propozeram e referendaram aquelles decretos
    tinham-nos por certo presentes. Á camara de Belem cumpre, todavia,
    apontar os principaes para n'elles estribar as conclusões mais
    importantes d'esta representação.

    Talvez em nenhuma questão de direito publico, o legislador deva ser mais
    cauteloso em não ferir o dogma da igualdade dos cidadãos perante a lei,
    do que em materia de tributos. Era todavia n'esta relação que os
    habitantes do _denominado_ termo de Lisboa, pareciam constituir uma
    classe de ilotas no meio da população portugueza. Aos tributos geraes
    d'este territorio, que entravam nos cofres do Estado, accresciam outros
    que constituiam pela sua indole e origem, e pela sua importancia, a
    melhor porção dos impostos municipaes, sendo necessario ainda contribuir
    com uma serie de pesadas e variadas contribuições directas e indirectas,
    que conservavam o primitivo destino, para perfazer a sua quota nos
    encargos geraes do concelho de Lisboa, a que o mesmo territorio andava
    annexo. Por este modo os numerosos habitantes de algumas leguas
    quadradas em volta da capital, ficavam n'essa parte fóra do direito
    commum.

    Na apparencia, esta situação constitucionalmente impossivel, vinha a ser
    a mesma de Lisboa, onde as contribuições arrecadadas na repartição das
    Sete Casas, são verdadeiros impostos municipaes que entram no thesouro
    publico e de que o Governo deduz certa parte para dotação do concelho.
    Mas em Lisboa esta excepção tinha e tem um fim justo. Tende a
    estabelecer a igualdade parecendo destruil-a: equilibra por excesso de
    encargos um excesso de vantagens. Lisboa tem theatros, aqueductos,
    jardins, monumentos que custaram milhões tirados dos cofres publicos,
    escholas superiores, academias, museus, bibliothecas, tudo mantido á
    custa do Estado. Grande parte das contribuições geraes despendem-se no
    seu seio, e a circumstancia de ser o centro da administração, o foco do
    luxo e da civilisação do paiz, dá-lhe uma população fluctuante, que vem
    por mil modos consummir ahi boa parte da renda liquida da propriedade e
    do trabalho nacional. A applicação de uma porção das rendas do municipio
    a compensar beneficios tão custosos para o resto do reino como
    importantes para a cidade, é justa. Repetimol-o, desigualdade apparente
    é n'este caso a igualdade real.

    Estas considerações não eram nem são applicaveis ao territorio
    circumadjacente de Lisboa, districto pela maior parte rural, cuja
    industria agricola definhava, como bem advertiu o Governo, debaixo da
    pressão inevitavel da fiscalisação dos impostos de consumo. Aqui a
    desigualdade de situação, relativamente aos outros concelhos ruraes, era
    palpavel e escandalosa, porque não tinha nenhuma das compensações que
    justificam o gravame extraordinario que pesa sobre a capital. Bastava
    comparar dous factos que estavam patentes aos olhos de todos, para
    conhecer a injustiça que se practicava. Ao ponto que em Lisboa os
    edificios arruinados se reedificavam e se multiplicavam as novas
    construcções; emquanto ahi o commercio em grosso e de retalho e as
    industrias fabris cresciam a olhos vistos, na parte urbana mais populosa
    do termo e que se considerava até como um bairro da cidade, nas
    freguezias de Belem e Ajuda, viam-se cair ou serem derribadas as casas,
    fecharem-se lojas, acabarem pequenas industrias, emfim todos os signaes
    de uma rapida decadencia. A oppressão e o excesso do imposto faziam seu
    officio; o que faltava eram os elementos de vida que annullam em Lisboa
    os effeitos da desigualdade das contribuições.

    Taes deviam ser os fundamentos principaes da desannexação. A
    consequencia forçosa d'esta, era equiparar os novos concelhos aos outros
    concelhos do reino. Foi o que só se fez até certo ponto, deixando-se
    continuar a subsistir a injustiça na applicação para o thesouro publico,
    de uma parte dos impostos de sua natureza municipaes, que até então se
    cobravam pela alfandega das Sete Casas.

    Os decretos de 11 de setembro de 1852, tiveram por objecto beneficiar os
    habitantes do antigo termo. Negal-o seria negar a verdade. O que não
    lhes fizeram foi justiça inteira. Talvez se possa sustentar a
    legitimidade do imposto excepcional e gradativo, que a lei estabeleceu
    nas licenças para a venda de líquidos, até certa distancia da linha de
    circumvallação de Lisboa. É materia essa que esta camara ainda não
    examinou devidamente e sobre que, portanto, não se julga habilitada para
    reclamar, podendo acaso considerar-se tal tributo como uma transformação
    de parte dos impostos de consumo da capital, que de nenhum modo se
    poderiam cobrar nas barreiras. Mas alem d'esse, estabeleceram-se outros
    dous para os quaes a camara não acha razão plausivel. São os de dez reis
    em canada de vinho, vendido a miudo e de quinze reis em arratel de carne
    verde. A disposição que os estabeleceu, reduzindo os direitos que o
    termo pagava ás Sete Casas, importava um beneficio, uma concessão
    parcial; mas importava tambem um encargo que nada pode justificar.

    No relatorio que precede um dos decretos de 11 de setembro relativos a
    este assumpto, assevera-se que a solução dos impostos especiaes que os
    novos concelhos continuam a pagar, é justa _pelos beneficios e cómmodos
    que lhes resultam do contacto com a capital_.

    Quaes são os fundamentos d'esta affirmativa? Occultou-os o Governo. A
    camara procurou rastrial-os. Examinando a serie de factos em que ella se
    poderia estribar, não achou senão tres que não sejam insignificantes:
    1.^o a segurança publica mantida n'uma pequena porção do seu territorio
    pela guarda municipal: 2.^o desnecessidade de um estabelecimento
    especial d'expostos: 3.^o a proximidade do grande mercado de Lisboa para
    os productos da industria agricola dos dous concelhos. Fóra d'isto a
    camara não atina com as vantagens que possa trazer aos seus
    administrados a visinhança da capital.

    Pelo que respeita ao serviço de segurança publica, feito n'uma pequena
    parte do concelho, a camara de Belem, uma vez que se faça inteira
    justiça, pagará cora a melhor vontade pelo seu cofre, a quota que se
    arbitrar proporcional ao serviço da guarda municipal de Lisboa n'este
    concelho.

    Relativamente aos expostos o concelho de Belem está igualmente prompto a
    contribuir para a Sancta Casa da Misericordia de Lisboa, do mesmo modo
    que contribue a camara da cidade, guardada a relação das respectivas
    populações, alem de estar certo que a Junta Geral do Districto não
    deixará de prover n'esse caso, conforme as attribuições que lhe confere
    o § 7 do art. 216.^o do codigo Administrativo.

    Reconhecendo essas vantagens, a camara de Belem dá um documento de boa
    fé, offerecendo-se voluntariamente a retribuil-as. A mesma boa fé a
    obriga, porém, a ponderar que o 3.^o fundamento que póde occorrer para a
    conservação de impostos excepcionaes, ou não existe ou é compensado de
    sobra por desvantagens reaes.

    A população dos novos concelhos de Belem e dos Olivaes é uma população
    principalmente rural, facto que não deveria ter esquecido na confecção
    das leis de setembro. Todos sabem que hoje o maior embaraço da
    agricultura portugueza é a escacez de braços. Tendo-se desenvolvido
    muito em extensão e pouco em intensidade, o augmento progressivo do seu
    producto bruto, resultado da maior area cultivada, não está em harmonia
    com o desenvolvimento da população agricola. Assim, em quanto os
    productos da primeira industria nacional caminham regularmente para a
    baixa pela superabundancia, o salario tende de contínuo a elevar-se. No
    reino em geral a situação do proletario melhorou e muito, porém o
    cultivador por essas tendencias oppostas de alta e baixa, mas que
    convergem ambas em seu damno, cada vez se vê em maiores apuros e
    difficuldades. Este phenomeno commum aggrava-se nas cercanias de Lisboa
    por diversas circumstancias, que justamente procedem da visinhança de
    uma populosa capital. A industria fabril desenvolvida em Lisboa
    desproporcionadamente com o resto do paiz, exceptuando, talvez o Porto,
    traz uma procura maior de braços, que é causa poderosa do accrescimo do
    salario rural nos concelhos limitrophes. Depois o excesso de produccão
    geral mantendo um excesso de concorrencia por toda a parte, exaggera
    esta no principal mercado do reino, e a depressão dos preços torna-se
    correlativa d'essa exaggeração; por isso acontece, não só equipararem-se
    ás vezes, mas até acharem-se mais baratos os generos (captivos de
    direitos) na capital do que nos districtos remotos onde foram
    produzidos. Accrescente-se a isto a decadencia no mercado dos trigos
    durazios, principal producção do antigo termo, e a preferencia dada aos
    trigos ribeiros improprios d'estes terrenos; accrescente-se tambem a
    continua destruição dos pomares por uma enfermidade que não tem sido,
    que não será provavelmente atalhada, e poder-se-ha calcular se os novos
    concelhos, debaixo destas condições desfavoraveis, independentes da sua
    proximidade ou não proximidade da capital, mas peioradas pelas
    circumstancias que nascem d'essa visinhança, devem ser onerados com
    impostos extraordinarios.

    Na situação economica em que se acha a agricultura, de produzir caro e
    vender barato, a tenuidade do lucro sente-se com dobrada força na
    visinhança da capital, e essa visinhança para as populações agricolas,
    longe de ser um bem é um mal. A maxima concorrencia do numerario é em
    Lisboa, e o numerario como outra qualquer mercadoria deprime-se pela
    concorrencia; ou por outra, a vida torna-se mais cara por esse motivo
    não só na cidade mas tambem nas suas immediações. Ao passo porém, que se
    dá este facto, occorre outro que com elle se combina. A população rural
    visinha de Lisboa, cuja civilisação material é muito maior que a das
    provincias, participa mais ou menos d'essa civilisação, porque a
    influencia d'esta é inevitavel e irresistivel. D'ahi resulta para ella
    um maior numero de necessidades a satisfazer com o numerario deprimido
    no seu valor de troca. E este facto vem não só influir directamente no
    bem estar do proprietario, do agricultor, do seareiro, do pequeno
    commerciante, dos contribuintes, em summa, mas tambem associar-se ás
    causas geraes e locaes da elevação do salario, e a recair por outro modo
    indirectamente sobre elles.

    Ha mais. Quando a acção fiscal das Sete Casas abrangia tambem o termo,
    os cereaes que vinham de fóra encontravam aqui um tributo que
    rigorosamente constituia um dos chamados direitos protectores para os
    lavradores d'estes contornos. Era o de 60 reis por arroba no genero, ao
    passo que os cereaes de lavra propria consumidos no termo não soffriam
    contribuição alguma de consumo. Separados os novos concelhos, os cereaes
    estranhos vem concorrer livremente com os de producção local, que aliás
    tem de ir luctar com elles no mercado de Lisboa, onerados com os mesmos
    60 reis por arroba que os outros pagam. Accresce a isto outro
    inconveniente resultante da proximidade de um grande mercado. Os cereaes
    do Ribatejo e Alemtejo affluindo á capital, deprimidos como se notou já
    por uma concorrencia excessiva, achando aberto o mercado contiguo dos
    novos concelhos, com um favor de quasi 50 reis por alqueire que lhes
    resulta da suppressão do direito fiscal n'estes pontos, e sem differença
    de custo no transporte, affluem naturalmente aqui ainda mais do que a
    Lisboa, e augmentam pelos effeitos de urna concorrencia exaggerada, no
    mercado interno dos dictos concelhos, os embaraços geraes e particulares
    em que laboram os agricultores do nosso territorio.

    A camara, Senhor, tem de advertir de passagem, para que os seus desejos
    não sejam calurmniados e as suas idéas mal interpretadas, que não
    suspira por direitos alguns protectores, por leis d'excepção que
    favoreçam a agricultura do concelho de Belem com detrimento da alheia.
    Pelo contrario está persuadida de que a liberdade da industria e do
    commercio, quanto mais ampla melhor, hade vir a remediar os males que
    quasi sempre resultam da transição do antigo systema de tropeços
    fiscaes, para o systema contrario que é o verdadeiramente protector. A
    camara crê ser fiel interprete da opinião dos seus representados,
    asseverando que estes preferem a sua independencia municipal, a essa
    união absurda com a capital, que tinha por base a injustiça e a
    iniquidade; preferem-na a essa rede de vexames que fazia pesar sobre
    este territorio a fiscalisação das Sete Casas e que eram uma fonte
    perenne de immoralidade e de crimes; preferem-na aos tributos desiguaes
    e sem razão d'existencia com que estavam onerados. O intuito da camara é
    provar que os que se decretaram são tão injustos como os que foram
    supprimidos, porque as vantagens da visinhança de Lisboa em que a
    dictadura se fundou para os estabelecer, não existem ou são annulladas
    por desvantagens que resultam da mesma circumstancia.

    Ha, Senhor, um fado assaz significativo, que se prende a esta questão, e
    sobre o qual a camara de Belem chama a attencão dos ministros de V.M. O
    termo fiscal das Sete Casas não abrangia só o territorio dos concelhos
    novamente creados: estendia-se por freguezias de outros concelhos
    limitrophes. Acabando com o termo, e creando os novos impostos só nos
    dous municipios, a dictadura libertou indirectamente de todos os onus
    extraordinarios aquellas freguezias. Se isso era justo em relação a
    ellas, como o seria tambem que ficassem ao mesmo tempo oneradas as que
    compõem os concelhos de Belem e dos Olivaes? Nenhuns motivos podem
    existir para tão flagrante desigualdade.

    Mas supponhamos, Senhor, que as considerações em que se estriba a
    imposição dos novos tributos, cuja suppressão a camara pede, eram
    exactas. Não desapparecem essas razões diante de outro facto da propria
    dictadura, de que ella se esqueceu ao promulgar os decretos de 11 de
    setembro? O Governo contractou a feitura de um caminho de ferro que
    partindo da capital vai atravessar alguns territorios mais ferteis do
    reino. Os effeitos de uma tal via de communicação serão o approximar,
    tornar contiguos, digamos assim, das portas da capital, um grande numero
    de ricos concelhos da Extremadura e do Alemtejo. Em relação ao contacto
    commercial entre esta e muitos dos concelhos do Ribatejo; em relação á
    facilidade de transportes, e communicações de toda a ordem, esses
    concelhos ficarão mais perto do centro de Lisboa do que Odivellas,
    Carnide, Porcalhota, o valle de Oliveiras ou a ribeira de Algés, cujos
    cultivadores teem de conduzir os productos da sua industria ou de ir
    buscar os objectos de que carecem, por estradas ordinarias abertas
    imperitamente em encostas ladeirentas, estradas que não é possivel mudar
    ou sequer melhorar, sem dispendio de avultados impostos municipaes.

    Se dos novos concelhos se devem tirar algumas dezenas de contos de reis
    porque estão em proximo contacto com Lisboa, ou a igualdade dos cidadãos
    perante as leis tributarias é uma fabula, ou a esses concelhos
    corographicamente mais remotos, mas atravessados pelo caminho de ferro,
    se ha-de exigir uma maioria de impostos, tanto ou mais pesados que os
    creados pelos decretos de 11 de setembro, para o termo desannexado e
    constituido municipalmente.

    Mas abstrahindo da existencia ou não existencia do caminho de ferro,
    temos um facto actual e não contingente, que mostra com evidencia o
    nenhum fundamento de um imposto especial nos dous municipios do antigo
    termo. É o dos concelhos da margem esquerda do Tejo em frente de Lisboa.
    Todos sabem que a facilidade de transporte e communicação pelas vias
    aquaticas apenas é inferior á que proporcionam as estradas ferreas, e
    que em relação á barateza esse meio de transito é ás vezes superior ao
    d'estas. Nos seus effeitos economicos a distancia de algumas freguezias
    dos novos concelhos ao interior da cidade, empregando os meios
    ordinarios de transporte, pelos caminhos communs, está talvez n'uma
    razão quadrupla da distancia d'Almada (por exemplo) ao centro da
    capital. E todavia ninguem se lembra de fazer pagar aos habitantes
    d'aquelles territorios um imposto especial, pela rapidez e facilidade
    das suas communicações com Lisboa.

    A camara, Senhor, não pede esses impostos, porque não pede absurdos, nem
    folga com os males e oppressões alheias. Reclama simplesmente para os
    seus administrados o direito commum, a lei da igualdade garantida na
    Carta constitucional.

    Demonstrada a insubsistencia da razão do relatorio que precede um dos
    decretos de 11 de setembro, resta outra talvez menos categoricamente
    expressa no mesmo relatorio, mas que era a mais forte em relação ao
    thesouro publico. O respectivo ministro presuppunha uma diminuição de
    renda pelo facto da desannexação do termo. Obstava-lhe isto á suppressão
    de alguns direitos de consummo em Lisboa, mas influia tambem na
    conservação de parte d'elles no antigo termo. Vem proval-o a discussão
    que houve na camara dos Dignos Pares na sessão de 13 de agosto de 1853,
    exclusivamente relativa aos impostos excepcionaes conservados nos dous
    novos concelhos. N'essa sessão o mesmo ministro declarou que, attento o
    estado da Fazenda, a mente do Governo não fôra effectuar uma reducção no
    _quantitativo_ dos impostos, mas _unicamente_ alliviar os vexames. Posto
    que esta declaração seja altamente inexacta, (visto que foi diminuido o
    quantitativo na carne e no vinho, e substituida a base do consummo pela
    da venda, o que põe a salvo do mesmo imposto, todos os que mandarem vir
    de fóra do concelho aquelles dous generos directamente para o proprio
    consummo, e visto que foram inteiramente abolidos outros impostos das
    Sete Casas, no termo, como os do azeite e do combustivel) todavia a
    explicação é terminante quanto ás considerações economicas que moveram a
    dictadura a conservar nos novos concelhos _uma parte_ dos antigos
    impostos. Além da persuasão de que era justo pagar mais pela
    contiguidade de Lisboa, as apprehensões do Governo ácerca de um
    desfalque na renda publica, em frente de um _deficit_, obrigaram-no
    pois, a não estender a esta parte do paiz o beneficio do direito commum.

    Sem discutir se é licito invocar motivos de tal ordem quando se tracta
    de um negocio de justiça ou de injustiça, porque se o acto é justo as
    considerações de conveniencia ou inconveniencia são superfluas, e se é
    injusto nunca ellas o podem legitimar, a camara de Belem acceita esse
    fundamento. Se, porém, os factos vierem provar que a desannexação do
    termo, longe de trazer um desfalque nas rendas cobradas pelas Sete
    Casas, deu um resultado contrario, isto é, um augmento de receita, é
    evidente que esse mesmo fundamento cae por terra, e a conservação dos
    direitos nos novos concelhos fica reduzida á categoria de uma oppressão
    absolutamente infundada.

    E é exactamente, Senhor, o que se verifica. Tomado o rendimento das Sete
    Casas e Terreiro (repartições unidas pelas reformas de 11 de setembro de
    1852) durante os primeiros seis mezes da nova organisação, (setembro,
    outubro, novembro, dezembro, de 1852, janeiro e fevereiro de 1853)
    acha-se que o seu valor foi de 532:098$421 réis: examinando porém os
    rendimentos das duas repartições separadas, nos mezes correspondentes de
    1851 a 52, acha-se que o das Sete Casas foi de 416:054$523 réis e o do
    Terreiro de 70:894$940 réis, o que perfaz um total de 486:949$463 réis.
    Assim a concentração da acção fiscal até á linha da circumvallação, onde
    essa acção é possivel e efficaz, produziu o effeito que devia produzir,
    um augmento de receita em seis mezes de 45:148$958 réis. Na verdade, os
    novos direitos creados sobre legumes e que subiram n'esse periodo a
    5:450$561 réis, reduziriam o excesso a menos de 40 contos: mas deve-se
    attender tambem a que desappareceu do rendimento das Sete Casas a verba
    dos direitos de exportação de vinhos, e além d'isso, por effeito da nova
    lei da sisa, o producto d'esta diminuiu nos seis mezes de 1852 a 53,
    tomados por termo de comparação, de 3:500$000 réis, podendo-se deduzir
    da falta de uma verba e da diminuição da outra, que o sobredito
    accrescimo nos direitos de consummo, excede muito os 45 contos de réis.

    Taes são, Senhor, os factos e as razões que a camara municipal de Belem
    submette á consideração de V.M., ácerca dos impostos extraordinarios que
    ficaram pesando sobre os novos municipios. A abolição d'elles é
    moralmente necessaria, e de certo o Governo de V.M. não deixará, á vista
    das considerações expostas, de tomar, perante o Parlamento, a iniciativa
    de uma modificação indispensavel da lei, cujo espirito e cuja intenção
    benefica não é possivel desconhecer.

    A camara, Senhor, diz–intenção benefica–e dil-o mui de proposito.
    Repetindo ainda uma vez que os habitantes d'este concelho tiraram
    vantagens reaes dos decretos de 11 de setembro, ella sente que lhe
    cumpra representar dentro em breve a V.M., sobre as interpretações
    forçadas que se tem dado ás disposições claras e terminantes da lei,
    para se gravarem os povos, e abusos que se tem practicado e practicam,
    para conservar em proveito particular os vexames de que, na sessão de 13
    de agosto de 1853, o ministro da fazenda asseverava (provavelmente por
    falta de exactas informações) estarem livres os novos municipios. N'esta
    parte a camara recorrerá opportunamente a V.M., para que de prompto se
    occorra a males, cujo remedio depende simplesmente do executivo. Na
    presente supplica restringe-se a mostrar os inconvenientes que só podem
    ser removidos pelo legislativo.

    A insubsistencia dos motivos que se buscaram para conservar os novos
    concelhos n'uma situação excepcional produziu, como era de esperar,
    disposições que na lei contrariavam esses motivos. A consciencia de que
    realmente os novos concelhos não deviam ser onerados com os encargos
    especiaes que se lhes impozeram, inspirou a prescripção do artigo 12.^o
    do decreto de 11 de setembro de 1852, expedido pelo Ministerio do Reino,
    no qual se estatue que o Governo dará annualmente uma prestação ás
    camaras dos municipios novamente creados, equivalente á despeza media
    que anteriormente fazia a camara de Lisboa, com a illuminação e calçadas
    no territorio desannexado. Se na realidade os impostos então
    estabelecidos eram uma conpensação das vantagens obtidas pela
    proximidade da capital, se o Governo queria alem d'isso obstar com elles
    a um augmento de _deficit_, a camara de Belem não póde atinar com a
    razão porque se lhe havia de fazer um dom puramente gratuito,
    augmentando para isso o _deficit_ em detrimento commum da nação. Nem se
    diga que essa dadiva é deduzida da prestação concedida ao conselho de
    Lisboa. Não importam para este caso nem a origem ou legitimidade
    d'aquella prestação, nem a justiça das deducções que n'ella se fazem. O
    que importa é que estabelecendo a dotação que se destina a esta camara,
    a dictadura ou não estava bem firme nos principios que invocava, ou
    desbaratava uma somma que aliás deveria entrar nos cofres publicos,
    fazendo donativo d'ella aos habitantes do antigo termo.

    Mas esta disposição não é só contradictoria com os fundamentos das
    provisões tributarias de um dos decretos de 11 de setembro: é tambem
    inexplicavel em si mesma. Ordena-se ahi que as sommas dadas aos novos
    concelhos, sejam calculadas pela media da anterior despeza local, de
    illuminação e calçadas. Porque, porém, essas duas unicas verbas hão-de
    ser tomadas para base do calculo, e não conjunctamente a assaz avultada
    da limpeza, a dos vencimentos, etc.?

    Se o Governo entende, contra as suas proprias declarações, que recebendo
    d'estes dous concelhos perto de 60 contos annuaes de contribuição
    extraordinaria, tem o dever de prover ás suas despezas municipaes, não é
    por certo com supprimentos calculados arbitrariamente e muito inferiores
    aos encargos locaes, que reparará a flagrante injustiça d'aquella
    contribuição.

    Se todavia taes provisões devem cair deante das considerações que
    theoricamente as invalidam, que dirá, Senhor, esta camara ácerca do
    artigo 6.^o do decreto de 11 de setembro expedido pelo Ministerio do
    Reino, que priva o concelho das propriedades municipaes, para as
    attribuir ao de Lisboa? Acaso os logradouros communs dos visinhos e que
    só pelos visinhos podem materialmente ser utilisados, os mercados, cuja
    localidade aliás pertence á camara escolher, com approvação da Junta
    Geral de Districto, os cemiterios emfim, onde repousam as cinzas dos
    paes, irmãos e filhos dos habitantes do concelho, podem ou devem
    constituir propriedade alheia? Esta prescripção, van quanto a mercados e
    logradouros de que os habitantes de Lisboa não podem utilisar-se,
    offerece, quanto aos cemiterios, uma nova especie de servidão, a
    servidão que passa alem dos tumulos. As cinzas dos mortos do concelho de
    Belem pertencerão ao municipio da capital, e poderão ser mudadas ou
    dispersas ou vendidas com o chão que as cobre, sem que seja licito á
    propria municipalidade obstar a taes actos? Fortes deviam ser os motivos
    que a dictadura teve presentes para tomar tão estranha providencia; mas
    esta camara não os alcança, e por isso mal póde combatel-os.

    Demonstrado, como parece ficar, que os decretos de 11 de setembro,
    justos e beneficos no seu pensamento, pelas provisões especiaes que
    encerram, annullam na maior parte os bons effeitos d'esse pensamento,
    segue-se a necessidade da sua reforma. Tendo sido os mesmos decretos
    acto do Governo constituido em dictadura, e sendo para elle honroso o
    havel-os publicado, embora imperfeitos no seu desenvolvimento, esta
    camara entendeu que devia antes dirigir-se a V.M. do que ao Parlamento,
    para que o Governo podesse usar n'este negocio de uma iniciativa que
    justamente lhe pertence.

    Não só essa consideração, mas tambem o sabido e provado amor de V.M. á
    equidade e a tudo quanto possa arredar dos povos oppressões e vexames,
    asseguram feliz exito a uma pretenção tão legitima, e fundada em tão
    urgentes razões. Se, porém, os ministros de V.M. houvessem de
    desprezal-a, o que de nenhum modo esta camara espera, então ella se
    veria na necessidade de appellar directamente para os representantes do
    paiz, e não cessaria nas suas supplicas até obter desaggravo e inteira
    justiça.

    A camara de Belem está tão convencida de que não existe motivo nenhum
    razoavel para os seus administrados viverem, em relação aos impostos,
    fóra do direito commum; conhece tanto a impossibilidade de sobrecarregar
    com fintas, derramas ou outros quaesquer tributos, um concelho em cuja
    parte urbana as apparencias externas bastam para indicar decadencia, e
    que na parte rural lucta com as difficuldades que ficam ponderadas;
    repugna-lhe tão profundamente annullar pelo estabelecimento de novos
    encargos, o allivio que resultou para este territorio da sua separação
    da capital, que está na firmissima resolução de não exigir dos
    habitantes d'elle um unico ceitil para as despezas do municipio, em
    quanto não forem libertados do tributo extraordinario lançado pelas leis
    de setembro sobre dous dos mais importantes objectos de consummo, as
    carnes verdes e o vinho, tributo cuja importancia n'este concelho excede
    a 30 contos de réis. Seja qual fôr o resultado dos seus esforços, que
    serão incessantes ácerca d'este negocio, a resolução que tomou de não
    legitimar com a sua aquiescencia uma situação constitucionalmente
    impossivel, ficará inabalavel porque assenta em convicções
    indestructiveis.

    A camara reconhece que o mal não pode ser remediado senão n'um certo
    prazo, pela indispensavel intervenção do Parlamento. Existe além d'isso
    um contracto de arrematação dos novos impostos no concelho de Belem, que
    só termina em junho do corrente anno, e um dos primeiros deveres do
    Governo é manter illésa a fé publica. O tempo que resta ainda para os
    habitantes d'este municipio soffrerem a arrematação dos direitos de
    venda sobre o vinho e carnes verdes, é sufficiente para o Governo fazer
    votar nas duas casas do Parlamento, as reformas indispensaveis dos
    decretos dictatoriaes de 11 de setembro. No decurso d'este periodo a
    camara procurará conciliar os deveres que lhe impõe a voz da consciencia
    com a escrupulosa obediencia ás leis vigentes, porque sabe que a
    primeira condição da liberdade é a observancia da lei. Na orbita da sua
    acção não tolerará abusos da parte dos arrematantes d'aquelles tributos
    excepcionaes, mas não tolerará tambem que lhes sejam defraudados pelos
    habitantes do concelho do que legitimamente lhes pertencer.

    Applicando ao cofre municipal de Belem uma quota deduzida da dotação do
    de Lisboa, calculada sobre uma base desarrazoada, mas precisa, as leis
    de setembro attribuiram ao Governo e á camara da capital a avaliação
    d'essa quota, excluindo virtualmente a camara de Belem do direito de
    verificar, á vista dos documentos da mesma avaliação, a exacção d'ella.
    É mais uma violencia transitoria a que este concelho tem de
    submetter-se. A camara acceitará essa somma (qualquer que venha a ser)
    fixada pelo arbitrio do Governo e da camara de Lisboa interessada em que
    seja a mais modica possivel. Com ella, com o producto das licenças e com
    outra qualquer pequena fonte de rendimento que possa existir, occorrerá
    ás despezas de administração, de limpeza, de calçadas e de illuminação,
    até onde esses rendimentos chegarem, certa de que os seus representados
    preferirão a falta temporaria de uma parte dos cómmodos e vantagens que
    deve subministrar-lhe a administração municipal, a que esta camara
    practique o minimo acto, do qual se possa deduzir que o concelho presta
    a sancção do seu assentimento a provisões tributarias que são moralmente
    impossiveis.

    Se porventura, Senhor, o Governo de V.M. entendesse dever cerrar os
    ouvidos ás representações d'esta camara, o que nem remotamente os abaixo
    assignados suspeitam, tambem ella poderia elevar respeitosamente á
    presença de V.M., uma supplica para que ordenasse ao seu Governo que,
    usando das attribuições que lhe confere o artigo 106.^o do Codigo
    Administrativo, a dissolvesse, sendo certo que os habitantes do concelho
    de Belem facilmente achariam outros cidadãos que melhor soubessem
    promover os seus interesses municipaes do que os actuaes vereadores.

    Deus Guarde a Vossa Magestade por muitos e dilatados annos como todos
    havemos mister,–Camara 11 de fevereiro de 1854–O presidente, Alexandre
    Herculano–João Ferreira Godinho–João José Teixeira–José Street
    d'Arriaga e Cunha–Visconde da Junqueira.

    REPRESENTAÇÃO DA CAMARA MUNICIPAL DE BELEM AO PARLAMENTO

    1854

    Senhores deputados da nação portugueza.

    A camara municipal do concelho de Belem vem perante o Parlamento pedir a
    reforma dos decretos de 11 de setembro de 1852, que instituiram com o
    antigo termo de Lisboa os dous concelhos de Belem e Olivaes. Ella
    recorreu já com esse intuito ao Governo de Sua Magestade, para que o
    mesmo Governo usasse da sua iniciativa naquella reforma, pelos
    fundamentos expostos no requerimento que lhe dirigiu, e que se ajunta á
    presente súpplica. Á vista d'este o Parlamento não só apreciará, sem que
    seja necessario repetil-as aqui, as razões em que esta camara se
    estriba, para pedir uma reforma altamente reclamada pelos principios
    mais incontestaveis do direito publico constitucional e da economia
    politica, mas tambem avaliará devidamente o proceder do Governo sobre
    tão grave assumpto.

    N'esse requerimento a camara dava ao Ministerio uma prova de deferencia,
    expondo-lhe os aggravos que dos decretos de setembro resultam para os
    seus administrados, e confiando á sua iniciativa o remedio dos mesmos
    aggravos. Via na idéa fundamental dos decretos uma idéa benefica e
    justa, e esperava que o Governo adoptasse uma desenvolução mais logica
    de um pensamento que era seu. Quando assim não succedesse esta camara
    tinha o direito de contar com uma denegação franca e positiva dentro de
    curto prazo. Só assim poderia recorrer em tempo opportuno á
    Representação Nacional. Versando a questão principalmente sobre tributos
    cobrados por arrematação, e devendo esta renovar-se antes de julho do
    anno corrente, é claro que a resolução favoravel da pretensão da camara
    de Belem ficaria indefinidamente addiada, logo que, celebrada a nova
    arrematação, se creasse a necessidade de manter por um, dous ou tres
    annos a fé de um contracto, que nem o proprio Parlamento poderia
    invalidar sem prévia indemnisação aos lesados.

    Á deferencia d'esta camara o Governo respondeu com o silencio; á
    confiança d'ella na sua illustração, na sua justiça, na sua lealdade
    respondeu com uma das propostas apresentadas na Camara dos Senhores
    Deputados pelo Ministro da Fazenda, na sessão de 11 de abril, proposta
    relativa ao imposto do real d'agua, inteiramente connexa com a pretensão
    do municipio de Belem, e cuja approvacão sem restricções importa uma
    negativa ás suas justissimas súpplicas. Este procedimento, posto que
    singular, seria na verdade cómmodo para sem ruido se calcarem aos pés a
    justiça e o direito de milhares de cidadãos, se a esta camara não
    incumbisse velar por elles, e impedir que o Parlamento haja de ser
    illudido, tornando-se innocente cumplice de uma obra de iniquidade.

    Reportando-se ás ponderações feitas no requerimento dirigido ao Governo,
    sobre as diversas disposições mais ou menos irreflectidas e injustas dos
    decretos de 11 de setembro, que esta camara espera sejam abrogadas ou
    substituidas pelo Parlamento, ella invoca especialmente a attenção dos
    Senhores Deputados da Nação sobre o imposto excepcional de quinze réis
    em arratel de carne e de dez réis em canada de vinho, creado nos dous
    novos concelhos de Belem e Olivaes, e assimilado ao real d'agua, por ser
    lançado, não sobre o consumo total, mas sobre a venda a retalho, e por
    ficar incluindo em si, nos ditos concelhos, aquelle antigo tributo
    geral.

    Na representação junta á presente súpplica está ponderada largamente a
    insignificancia dos fundamentos em que a dictadura de 1852 se estribou,
    para crear aquelle tributo excepcional. Aqui, esta camara tem
    considerações de outra ordem que ajuntar ás que offereceu ao Governo, e
    que por certo não serão inuteis na discussão da materia.

    A parte tributaria dos decretos de 11 de setembro pecca desde logo na
    base. É sabido que os tributos do paiz, em harmonia com as nossas
    instituições, se dividem em duas categorias: tributos geraes e
    contribuições municipaes. Directos ou indirectos, a condição de todos os
    impostos geraes é a universalidade. A Carta consagrou este principio. A
    lei que o quebrar é de direito nulla. Pela sua indole o imposto
    indirecto affecta ás vezes mais particularmente uma classe de cidadãos,
    conforme os objectos sobre que recae; mas esse facto resulta sempre das
    leis economicas e da diversidade das condições sociaes. O direito
    publico escripto não póde nunca admittir a hypothese de se tributarem
    diversamente os habitantes de diversas circumscripções. Os impostos
    municipaes, destinados a despezas publicas exclusivamente locaes, são os
    unicos que justamente variam de localidade para localidade, porque o
    municipio é uma pequena sociedade civil dentro da grande sociedade, e os
    seus membros teem deveres e direitos, vantagens e encargos proprios e
    exclusivos da vida publica municipal. Os decretos de setembro, em
    contravenção d'estas doutrinas, crearam um tributo hybrido nos dous
    concelhos do antigo termo: fundiram no imposto do real d'agua outro, que
    é municipal na sua indole, porque exclusivo e de localidade, e que é ao
    mesmo tempo geral na sua applicação, por ser destinado a entrar nos
    cofres do Estado. Esta situação, monstruosa e constitucionalmente
    impossivel, é que o Parlamento, a quem incumbe manter as doutrinas da
    Carta e a inviolabilidade dos principios, deve primeiro que tudo fazer
    cessar.

    Na verdade a dictadura fundamentou as insolitas provisões dos decretos
    de 11 de setembro, nas vantagens que os dous concelhos deviam auferir da
    proximidade da capital. Dado, porém não concedido, o facto, a
    consequencia d'elle, se a dictadura soubesse respeitar as boas
    doutrinas, seria exigir uma compensação directa do municipio, na
    hypothese de que essas vantagens resultavam de um sacrificio especial do
    Estado, porque, resultando das condições naturaes e corographicas dos
    dous concelhos, é ignorar os elementos da economia politica, imaginar
    que taes vantagens escapam aos tributos geraes. Reduzindo os fundamentos
    allegados pela dictadura ás suas verdadeiras dimensões na representação
    junta, esta camara declarou que acceitaria de bom grado o encargo de
    retribuir directamente quaesquer beneficios, em que se dessem os
    caracteres que exigem uma retribuição especial. Era o mais que
    legitimamente d'ella se podia exigir, e que ella se apressou a offerecer
    para tirar todos os pretextos á espoliação.

    Independente da inconstitucionalidade do tributo especial, que os
    decretos de setembro estabeleceram nos dous concelhos do antigo termo,
    para elles poderem gosar de um direito desconhecido dos publicistas, o
    _direito de proximidade_, é de notar o desacordo d'este acto da
    dictadura com o systema que, como tal, e depois como poder executivo, o
    actual Ministerio parece haver adoptado. As suas tendencias, pela
    reducção das pautas, pela adopção do imposto de repartição e por outras
    providencias analogas, bem ou mal concebidas, são evidentemente para o
    tributo directo e para a sua divisão equitativa. E todavia, tractando de
    impôr uma especie de contribuição de guerra nos dous concelhos que
    creára, em vez de exigir a troca de serviços, fossem elles quaes fossem,
    a compensação directa dos sacrificios especiaes do Estado em beneficio
    especial dos mesmos municipios, por uma somma qualquer paga pelos cofres
    das respectivas camaras, a dictadura quintuplicou ahi o imposto do real
    d'agua, imposto cuja substituição ha muito houvera procurado qualquer
    Governo, que, habituando-se a fazer ou a propôr leis depois de examinar
    os factos, achasse que elle tira das bolsas dos contribuintes talvez o
    triplo do que entra nos cofres publicos, com offensa flagrante dos
    principios fundamentaes sobre materia de contribuições, acceitos por
    todos os economistas desde Adam Smith até hoje.

    A dictadura, promulgando os decretos de 11 de setembro, reconheceu nos
    respectivos relatorios uma verdade sabida por todos, a decadencia da
    riqueza nos territorios _extramuros_ sujeitos á fiscalisacão das
    Sete-Casas, decadencia que na realidade, e segundo a opinião do proprio
    Governo, procedia do peso dos impostos e dos vexames, ainda mais
    gravosos, que se ligavam á sua arrecadação e fiscalisação. Esse estado,
    procedido de uma situação tributaria especial, repugnava a todas as
    conveniencias publicas; repugnava á justiça e á moral. A primeira e mais
    importante necessidade na reforma das Sete-Casas era, na opinião dos
    Ministros, destruir esse estado anormal. O Governo entendia com a medida
    que decretava _prover amplamente ás urgentes e justas reclamações dos
    povos_. É evidente que as consequencias logicas d'estas premissas
    consistiam em acabar com o tributo excepcional e com as oppressões; em
    acabar no termo, como diziam os Ministros, com os _impostos de cidade e
    vexames a elles inherentes_. Vejamos como estas bellas promessas se
    realisaram.

    Depois d'espoliar os novos concelhos de todos os proprios, que lhes
    pertenciam pelo simples facto de existirem, attribuindo á camara de
    Lisboa baldios, logradouros, predios urbanos e rusticos, mercados,
    aqueductos, e até os ossos dos mortos, nos dous concelhos de Belem e
    Olivaes, do modo que se vê nos decretos de 11 de setembro, e vai
    largamente exposto no requerimento appenso a esta súpplica, a dictadura
    veiu á questão do imposto especial. Escondido no meio das phrases
    pomposas, dos annuncios prosperos do futuro, encontra-se no relatorio
    dos Ministros o seguinte periodo:–«os concelhos novamente creados,
    ficando sujeitos ás imposições geraes do reino, apenas são obrigados ao
    pagamento de alguns tributos a maior, que ainda os deixa em grandissima
    vantagem em relação ao seu estado anterior.»–Examinemos se os factos
    condizem com estas affirmativas.

    O antigo termo fiscal das Sete-Casas, como é vulgarmente sabido,
    compunha-se de 37 freguezias, 23 pertencentes ao termo municipal de
    Lisboa, e 14 aos termos de outros concelhos limitrophes. No anno
    economico que precedeu immediatamente a reforma das Sete-Casas e a
    creação dos dous concelhos de Belem e Olivaes, o rendimento d'essa casa
    fiscal no termo d'ella dependente foi proximamente, segundo os mappas
    officiaes, de reis 62:000$000. Suppondo as forças economicas das 23
    freguezias _extramuros_ do concelho de Lisboa similhantes ás das 14 dos
    outros concelhos, porque as desigualdades entre as de cada um dos dous
    grupos são compensadas pelas desigualdades entre as do outro grupo,
    segue-se que os habitantes dos dous novos concelhos, ou das 23
    freguezias, pagavam proximamente 38 ou 40 contos. O novo imposto foi
    arrematado nos dous concelhos em 51 contos, despresadas as fracções. É
    portanto evidente que o encargo tributario dos dous concelhos ficou
    sendo maior do que era d'antes. Á vista disto, o Parlamento poderá
    apreciar qual é essa _grandissïma vantagem_ em que os deixaram,
    relativamente ao seu estado anterior, os decretos de 11 de setembro.

    Cumpre aqui obviar a um reparo que por parte do Governo, ou dos homens
    de simples theorias se poderá fazer. Descendo á analyse dos impostos das
    Sete-Casas achar-se-ha na verdade que d'antes, no territorio dos dous
    novos concelhos, eram tributados mais generos do que hoje, e que nas
    proprias carnes verdes o imposto era duplo e no vinho quadruplo. Mas o
    ponto verdadeiro da questão é o comparar a totalidade do onus a que
    estes territorios estavam sujeitos, com aquelle a que o estão agora.
    Quando se diz que era impossivel que o termo prosperasse debaixo da
    pressão dos tributos, attende-se ao facto real, e não ao facto nominal.
    A differenca enorme, que achamos entre os suppostos resultados das
    imposições e fiscalisação das Sete-Casas e os seus resultados
    verdadeiros, o que prova? Prova o mesmo que se deduz de outro facto
    altamente significativo, observado na historia do rendimento das
    Sete-Casas no decurso de 18 ou 20 annos, isto é, que esse rendimento
    augmenta logo que se encurta o termo fiscal, diminue desde que este se
    dilata; prova que a medida de reduzir a acção das Sete-Casas ao
    perimetro da circumvallação da cidade foi profundamente judiciosa, e um
    acto em que, á justiça feita aos habitantes do antigo termo,
    separando-os municipalmente da capital, se associou a conveniencia do
    thesouro; prova finalmente que, a não suppormos uma espantosa
    malversação nas Sete-Casas, o contrabando, esse castigo supremo e
    inevitavel de leis ineptas e anti-economicas, remediava até certo ponto
    a exaggeração do tributo, sendo impotente contra elle uma fiscalisação
    violenta, assoladora, immoral nas suas consequencias, e incapaz de
    preencher os fins a que era destinada.

    O imposto sobre a carne e o vinho basta pois, na realidade, para
    compensar actualmente com um gravame novo, ainda maior, o gravame
    antigo. Mas não ha só isto. Na representação junta, dirigida ao Governo,
    esta camara absteve-se de discutir o imposto gradativo, estabelecido
    pelos decretos de 11 de setembro para as vendas de liquidos. Queria
    examinar primeiramente os effeitos positivos d'esse imposto, que ao
    simples aspecto parece ter unicamente por objecto tornar mais facil a
    fiscalisação das barreiras da cidade, e ferir especialmente, de um modo
    indirecto, o consumo de vinho feito pelas classes inferiores da capital
    fóra da linha de circumvallação. A verdade, porém, é que elle nem
    protege a fiscalisação naquella linha, nem recae só sobre o povo da
    capital que vem (quasi exclusivamente nos dias sanctos) consumir vinho
    nos arrabaldes. Por grande que seja este consumo, é evidentemente muito
    inferior ao dos proprios moradores dos novos concelhos, cujo gasto é
    diario, e que consomem outros liquidos. Assim, calculando proximamente
    em 7 contos de réis annuaes o producto das licenças gradativas de cem,
    cincoenta, vinte e dez mil réis, exigidas pelo fisco ás lojas de
    liquidos dos novos concelhos, póde-se affirmar sem exaggeração que 4
    contos de réis recaem sobre os habitantes d'elles e não sobre a
    população inferior de Lisboa. Esta somma addicionada aos 51 contos por
    que foi arrematado o imposto da carne e vinho, eleva o gravame actual
    pelo menos a 55 contos, augmentando-lhe assim o excesso sobre o gravame
    antigo. Ao mesmo tempo a nova taxa de licença, pelo lado dos seus
    effeitos economicos e commerciaes, é por muitos modos vexatoria para os
    novos concelhos; porque o resultado della foi fecharem as portas
    centenares de pequenas lojas de liquidos, que não poderam resistir a um
    direito quasi prohibitivo, convertendo-se assim a taxa n'uma especie de
    direito de patente de um exclusivo, exigida aos donos dos grandes
    armazens de liquidos. De similhante exclusivo resultou que, além de
    ficarem na miseria centenares de familias, apesar do imposto gradativo o
    preço do vinho não subiu, porque o novo encargo para os grandes
    estabelecimentos ficou superabundantemente compensado pelo triplicado ou
    quadruplicado da venda. Todavia as consequencias d'este estado de cousas
    vão mais longe. Diminuindo em virtude de tal facto o numero das licenças
    municipaes, e consequentemente os redditos das novas camaras
    provenientes d'essa origem, ellas teem de ir buscar por outro qualquer
    meio ás algibeiras dos contribuintes, o supprimento de similhante
    desfalque.

    Esta perda e gravame para os habitantes dos dous concelhos reverte,
    porém, em beneficio do fisco? Como todos os tributos, sobretudo
    indirectos, imprevidentemente estabelecidos, os 6 ou 7 contos auferidos
    por esse meio, produzem por outro lado um desfalque, talvez igual. São
    duzentos a trezentos sellos de licenças, duzentas a trezentas verbas de
    decima e do imposto de quatro por cento sobre casas, que desappareceram
    com a cessação d'esses duzentos a trezentos estabelecimentos
    commerciaes. Entretanto os 6 a 7 contos da taxa gradativa figurarão como
    um augmento de receita no orçamento geral do Estado, do mesmo modo que
    tantas outras decepções, que n'elle figuram por motivos analogos.

    Esta camara disse que o imposto gradativo não protege a fiscalisação nas
    barreiras da cidade. Efectivamente n'esta relação elle é de todo
    impotente ou nullo. Basta para o conhecer saber-se o que no nosso
    systema fiscal se entende em regra por imposto de consumo, á vista do
    Codigo Administrativo e leis correlativas. O imposto de consumo
    unicamente se póde verificar na venda a retalho. Assim, não sómente em
    virtude dos regulamentos existentes, mas tambem pelas indicações da
    experiencia, o unico meio de fiscalisação para taes impostos é o methodo
    dos manifestos combinados com os varejos dados nas lojas de retalho. O
    systema do imposto das barreiras, como existe em Lisboa, é o que
    propriamente corresponde aos direitos chamados em França d'_octroi et
    d'entrée_. Se as barreiras e registos fiscaes na orla dos dous novos
    concelhos fossem licitos, e todos os generos importados pagassem sem
    distincção um direito maior ou menor, essas barreiras, especie de guarda
    avançada das de Lisboa, defenderiam mais ou menos estas, fazendo elevar
    sempre os preços dos generos no territorio dos dous concelhos, que assim
    voltariam legalmente ao estado de oppressão e vexame, de que as leis de
    setembro tentaram libertal-os. Mas sem isto, nem o imposto de consumo
    sobre a carne e o vinho, nem a taxa gradativa das licenças conduzem, por
    essa parte, a resultado algum. O contrabandista não precisa de ser
    taberneiro, carniceiro ou merceeiro, para exercer o seu odioso mister, e
    não o sendo póde livremente conduzir o objecto destinado ao contrabando
    até á proximidade da linha de circumvallação, sem pagar nem o imposto
    nem a taxa gradativa. Uma vez que não venda a retalho o que conduz, nada
    tem com elle o fisco ou os seus subrogados.

    Que o Parlamento releve a esta camara uma observação. As linhas fiscaes
    de Lisboa defendem-se como se defenderam ha vinte annos as suas linhas
    militares. Defendem-se com animos probos; com a lealdade dos agentes
    fiscaes; com a vigilancia e actividade de quem quer e sabe cumprir o seu
    dever; com a severidade do castigo e com a justiça das recompensas. O
    espirito mais rude comprehende que uma alta muralha, dominada por um
    passeio de ronda, onde de noite e de dia se patrulhe convenientemente, e
    cujas vinte ou trinta portas sejam continuamente vigiadas por homens
    zelosos, é inaccessivel ao contrabando. Se, por hypothese, houvesse um
    Ministro que viesse perante o Parlamento dizer–«tenho nas barreiras da
    capital empregados fiscaes que trahem o seu dever: tenho chefes a quem
    incumbe vigial-os e que não os vigiam: tenho regulamentos imperfeitos:
    tenho considerações de patronato que me impedem de demitir os suspeitos,
    e de fazer punir os culpados: concedei-me, portanto, que cinja essas
    barreiras com uma faixa de territorio sujeito a uma lei excepcional, com
    um vasto _pomoerium_ de maldição, cujos habitantes innocentes,
    absolutamente innocentes, dos descaminhos que tolero por falta de
    energia e de vigilancia, ou por considerações pessoaes, sejam obrigados
    a compensar pelas suas bolsas, os effeitos da corrupção ou da
    incapacidade dos meus propostos e subordinados»,–o Parlamento
    rejeitaria com indignação esta proposta demente e atroz, e por certo o
    individuo que assim escarnecesse da intelligencia e da consciencia dos
    Representantes do paiz, não tornaria a sentar-se nos bancos do
    Ministerio.

    Não é, por consequencia, possivel que o Governo pense em defender por
    este lado a manutenção das provisões tributarias dos decretos de 11 de
    setembro, aliás já condemnadas no tribunal da razão, por contradictorias
    com a sua idéa fundamental, visto que em vez de reduzirem os impostos
    que _effectivamente_ pesavam sobre o territorio dos dous concelhos, os
    aggravam, directa e indirectamente, ainda mais.

    Ao augmento de encargos que veiu pesar pelo tributo indirecto sobre este
    opprimido territorio, em virtude de expressas disposições das leis de
    setembro, accresce o de outro imposto directo, augmento que resulta das
    leis geraes de Fazenda. Os quatro por cento sobre a renda das casas cuja
    base era em Belem, como districto municipal de Lisboa, de 30$000 réis,
    agora, convertido este territorio em concelho sobre si, teem por base a
    renda de 12$000 réis, vindo a sobrecarregar as classes pobres com um
    tributo de que estavam exemptas, e aos proprietarios urbanos que, com
    difficuldade achavam inquilinos para os seus predios, do que dão
    testemunho as casas deshabitadas e em ruinas que se encontram a cada
    passo n'esta povoação, augmentam-se por essa mudança de base tributaria,
    as difficuldades para auferirem uma renda modica dos seus capitaes
    immobilisados.

    Se, porém, aquelles decretos e as suas consequencias, não tornaram menos
    oppressivas as contribuições que affligiam o antigo termo, cumpre
    confessar que ao menos o exemptavam dos vexames a que os sujeitava a
    fiscalisação das Sete-Casas, com o seu cortejo de violencias, de
    embaraços commerciaes, de extorsões, de rixas, e até de assassinios,
    quadro repugnante, que por inutil esta camara não desenhará diante dos
    olhos dos Senhores Deputados. Mas infelizmente esse beneficio, que está
    na lei e que devia traduzir-se nos factos, não chegou a realisar-se no
    concelho de Belem. O que se tem passado a similhante respeito não se
    acreditaria, se a narrativa dos successos não se estribasse em provas
    irrecusaveis. Na representação junta, esta camara julgou dever abster-se
    de mencionar certos factos e de apreciar severamente outros, de modo que
    parecesse dirigir ao Governo acres censuras. O procedimento d'este para
    com ella, soltando-a de quaesquer considerações, habilitam-na para dizer
    a verdade nua, a verdade em toda a sua extensão, perante os
    Representantes do paiz.

    Apenas celebrados pelos fins de 1852 os contractos de arrematação dos
    novos impostos, nos dous concelhos do antigo termo de Lisboa, e o do
    real d'agua no resto do antigo termo fiscal das Sete-Casas, os
    arrematantes estabeleceram immediatamente registos fiscaes no perimetro
    do territorio que os seus contractos abrangiam. N'estes registos
    exigiam-se direitos de consumo, e davam-se guias dos generos
    despachados. Por auctoridade particular collocaram-se homens armados em
    diversos pontos, e começaram a apprehender-se individuos que, diziam os
    guardas dos arrematantes, se esquivavam ao pagamento dos impostos. A
    fiscalisação, emfim, das Sete-Casas, tão odiosa e tão justamente odiada,
    renascia n'este infeliz territorio com todo o seu sequito de abusos e
    violencias. Unanimemente, porém, as auctoridades administrativas do
    concelho dos Olivaes e dos outros concelhos limitrophes ao antigo termo
    municipal de Lisboa, aonde d'antes chegava o termo fiscal das
    Sete-Casas, intimaram os arrematantes para retirarem os registos, e
    fazerem cessar um systema de fiscalisação incompativel com os
    regulamentos e com a indole do imposto que haviam arrematado. Obedeceram
    elles ás intimações dos magistrados administrativos, e o abuso cessou.
    No Concelho de Belem não succedeu assim. A auctoridade tolerou tudo, e
    os renovados vexames das Sete-Casas continuaram. Como era natural,
    surgiram as resistencias, e os arrematantes pensaram em manter o abuso
    recorrendo ao Governo. Requereram ao Ministerio da Fazenda para que lhes
    assegurasse a conservação d'aquella especie de barreiras fiscaes que
    haviam estabelecido; mas as suas súpplicas foram indeferidas; nem podiam
    deixar de o ser. Communicou-se officialmente esta resolução ao
    respectivo Administrador de concelho, que se recusou a cumpril-a por
    motivos que esta camara ignora, e apesar das leis, dos regulamentos e da
    decisão do Ministro, as cousas continuaram no mesmo estado.

    Entretanto crescia a reacção popular contra um abuso intoleravel, e
    tanto mais intoleravel quando se considerava que os outros concelhos
    limitrophes, e sobretudo o dos Olivaes, creado pelas mesmas leis, com as
    mesmas condições de existencia, e sendo-lhe applicaveis os mesmos
    regulamentos fiscaes, estavam perfeitamente exemptos de taes vexames, só
    reservados ao territorio do concelho de Belem. Os habitantes d'este
    lembraram-se então de procurar allivio aos seus males recorrendo tambem
    ao Ministro, que já ordenara se lhes pozesse termo e que não havia sido
    obedecido. Dirigiram pelo Ministerio da Fazenda um requerimento em que
    pediam de novo essa justiça, que já espontaneamente se lhes mandara
    fazer. Mais de um anno tem decorrido desde então, e até hoje, uma
    súpplica tão simples, tão justa, tão clara, até, para o Ministro, que de
    antemão e por si proprio a resolvêra, não pôde obter uma resolução
    favoravel!

    A camara de Belem deixa á apreciação do Parlamento similhantes factos. A
    sua significação e o seu valor podem todavia calcular-se melhor pela
    comparação com outros que lhes são correlativos. Singulares e estranhos,
    esta camara não ousa nem quer explical-os. Pertence ao Parlamento
    remontar ás suas causas.

    É de antigos tempos contestavel e contestada a extensão que se deve dar
    ao imposto do real d'agua. É questionavel se elle deve recair unicamente
    sobre as carnes verdes ou se tambem abrange as seccas, salgadas ou
    fumadas. Os tribunaes teem julgado diversamente, e o Governo em diversas
    epochas e por diversos actos tem procurado fazer admittir a significação
    mais lata. Estes actos do Governo são perfeitamente indifferentes,
    porque não é ao Executivo, mas ao Legislativo que pertence a
    interpretação das leis. De que a do real d'agua é obscura não ha a menor
    dúvida. Ao passo que o Poder Judicial vacilla a este respeito, o
    Ministro da Fazenda vem ao Parlamento pedir a sua interpretação,
    reconhecendo por esse acto a nullidade de todas as portarias, circulares
    ou officios com que se tem pretendido fixar o sentido d'ella. Posto
    isto, venhamos aos factos.

    Os decretos de 11 de setembro de 1852, conglobaram o real d'agua no novo
    imposto que estabeleceram nos dous concelhos. Liberto dos impostos das
    Sete-Casas, este territorio ficava por esse facto submettido ao do real
    d'agua, a que a dictadura, por aquelles decretos, veiu accrescentar nove
    réis em canada de vinho e onze réis em arratel de carne. Os §§ 1.^o e
    2.^o do artigo 3.^o do decreto expedido pelo Ministerio da Fazenda,
    dizem que os dous concelhos são obrigados:

    «A pagar o imposto de dez réis por cada canada de vinho vendido a miudo,
    nos mesmos termos em que se paga o real d'agua.»

    «A pagar quinze réis por cada arratel de _carne verde_,
    comprehendendo-se n'este direito o real d'agua, e os tres réis
    addicionaes.»

    Se a dictadura entendia que o imposto do real d'agua era legalmente
    extensivo ás carnes seccas, é evidente que quiz restringir a nova
    imposição ás carnes verdes.: se entendia que não o era, quiz tornar bem
    sensivel a intelligencia que dava á lei do real d'agua, excluindo
    positivamente as carnes seccas. Se estas ultimas se comprehendiam
    n'aquella designação limitativa, quaes eram as que excluia a lei?

    Trez mezes depois o Ministerio da Fazenda publicava as condições para a
    arrematação do real d'agua no antigo termo fiscal das Sete-Casas,
    comprehendendo o territorio dos dous novos concelhos, desannexado do
    municipio de Lisboa, e as freguezias dos outros concelhos limitrophes,
    que haviam pertencido ao termo fiscal das Sete-Casas. A quinta condição
    dizia assim:

    Que ao arrematante ficará pertencendo no territorio que constituia o
    termo fiscal da extincta alfandega das Sete-Casas, a percepção do
    imposto do real d'agua, assim em canada de vinho que se vender para
    consumo nas ditas terras, quer seja nas tabernas, quer fóra d'ellas,
    como em arratel de carne de gado vacum, suino, lanigero e cabrum, que no
    estado de verde, secca, ou por qualquer fórma preparada, fôr vendida nos
    açougues ou fóra d'elles; sendo o sobredito imposto, nas freguezias dos
    concelhos que faziam parte do referido termo, de um real por canada de
    vinho, e quatro réis em arratel de carne, conforme foi estabelecido pelo
    alvará de 23 de janeiro de 1643, lei de 21 de novembro de 1844, e mais
    legislação a similhante respeito; e nas freguezias que formam
    actualmente os concelhos de Belem e Olivaes, de dez réis em canada de
    vinho, e quinze réis em arratel de carne, como se acha determinado nos
    n.^os 1.^o e 2.^o do artigo 3.^o do decreto de 11 de setembro do
    presente anno.

    N'esta condição o Ministerio da Fazenda revelava a intelligencia que a
    dictadura déra á lei do imposto do real d'agua, isto é, a extensiva,
    mandando regular a percepção d'elle pela legislação anterior á
    dictadura, e ao mesmo tempo mandava que nos dous novos concelhos se
    observasse na percepção do imposto excepcional dos dez réis em canada de
    vinho e dos quinze réis em arratel de carne, o disposto nos n.^os 1.^o e
    2.^o acima citados do decreto com força de lei de 11 de setembro,
    expedido pelo mesmo Ministerio, e que o restringia ao vinho e ás carnes
    verdes. A condição discriminava as duas hypotheses e referia-se nos seus
    dous membros ás leis que regulavam uma e outra. Rigorosamente a condição
    estava dentro da estricta legalidade. Seria nulla se d'ella se
    departisse.

    Os arrematantes, depois de celebrado o contracto, não entendendo a
    condição, ou fingindo não a entender, exigiram direitos das carnes
    seccas. Resistiram-lhes os interessados. Recorreram elles ao Governo. A
    12 de janeiro de 1853 expedia-se pelo Ministerio da Fazenda a seguinte
    portaria:

    «Ministerio da Fazenda.–Direcção Geral das Alfandegas.–Sua Magestade a
    Rainha, attendendo ao que lhe representaram os arrematantes do imposto
    do real d'agua, nas carnes, e no vinho dos Concelhos de Belem e Olivaes,
    sobre a necessidade de se fazer constar aos moradores d'estes Concelhos,
    que lhes cumpre pagar a elles arrematantes não só aquelle imposto na
    razão de dez réis em canada de vinho, e quinze réis em arratel de carne
    verde, e secca, de todas as qualidades d'estes generos que foram
    encontrados em ser na occasião do varejo a que se procedeu, e das que de
    novo admittirem para consumo; mas tambem o imposto addicional para
    amortisação das notas do Banco de Lisboa: Ha por bem determinar que o
    Delegado do Thesouro, no districto de Lisboa, expeça as ordens
    convenientes aos escrivães de fazenda dos Concelhos de Belem, e Olivaes,
    para que elles façam constar por meio de Editaes affixados nos lugares
    publicos dos mesmos Concelhos, quaes as condições com que o referido
    imposto foi arrematado, e as penas a que está sujeito todo e qualquer
    individuo que se recusar ao pagamento d'elle, as quaes são as de que
    tractam os §§ 4.^o e 7.^o do Alvará de 23 de Janeiro de 1643, e mais
    leis posteriores a similhante respeito.»

    O Parlamento desculpará por certo alguma expressão mais dura que possa
    escapar aos signatarios da presente súpplica, ao fazerem a repugnante
    exegese d'este singular diploma. A maior demonstração de benevolencia
    que poderiam dar ao Ministro que o assignou seria acreditar que o fez
    sem ler o que assignava. Esta camara quer suppol-o assim. Na essencia a
    portaria de 12 de janeiro illude a questão. É uma d'essas composições,
    com pretensão á ambiguidade, indignas de um Ministro da Corôa. Despojada
    do seu preambulo, das longas e tortuosas phrases que se arrastam como a
    serpente, o que resta? Uma ordem para se publicarem por Editaes as
    condições da arrematação, e as penas em que incorre quem devendo pagar o
    imposto, recusar fazel-o. Mas o que pediam os arrematantes? Pediam, que
    entre outras cousas, se fizesse constar, não aos logistas, aos
    vendedores de retalho, mas _aos moradores_ dos dous concelhos, que
    deviam pagar quinze réis de cada arratel não de carne verde, mas de
    _carne verde, e secca_. Era este o ponto importante. Na sua modesta
    súpplica elles exigiam simplesmente que ao direito de consumo cobrado
    sobre a venda a retalho, fosse substituido um direito de entrada ou
    barreiras. Queriam tornar fecundos os seus registos de Belem. Pediam
    que, limitando o decreto de 11 de setembro o imposto da carne ás carnes
    verdes, o Governo o estendesse ás carnes seccas. Eram pretensões
    absurdas que o Ministro devia desattender porque tendiam a ultrapassar
    uma lei, e lei tributaria. Pediam-lhe que perpetrasse um crime. E em vez
    de repellir a injuria; em vez de recommendar aos seus subalternos
    severidade e vigilancia em cohibirem as violencias dos arrematantes e em
    manterem o direito dos cidadãos, que se defendiam da espoliação, o
    Ministro, invocando n'esta comedia vergonhosa o nome do Chefe do Estado,
    ordenava que se lhes recordasse a penalidade fulminada contra os que
    tentam subtrahir-se ao pagamento dos tributos legitimos. Por uma
    inversão de todas as idéas administrativas e até do senso commum, a
    advertencia severa fazia-se aos cidadãos ameaçados, que se defendiam com
    a lei: a attenção era para as pretensões da cobiça insolente que
    reclamava para chegar aos seus fins, o apoio illegal do poder!

    Que todo o homem honesto diga com a mão na consciencia, se ao ler a
    portaria de 12 de janeiro não conhece o intuito com que foi redigida; se
    não sente que se busca produzir um effeito de temor, para que os
    habitantes dos dous concelhos se hajam de submetter ás exacções dos
    arrematantes justas ou injustas, sem que todavia se possa em rigor
    accusar o Ministro de exorbitar? Quem não tivesse presentes os decretos
    de 11 de setembro; quem não conhecesse bem o mechanismo dos nossos
    impostos de consumo e os diversos regulamentos sobre a sua percepção e
    fiscalisação, vendo n'essa portaria que o Governo _attendia_ ás
    representações dos arrematantes, sobre a _necessidade_ de recommendar
    aos cidadãos o cumprimento de certos deveres, e que o mesmo Governo
    depois de enumerar sem distincção esses deveres, reaes e imaginarios,
    ameaçava os renitentes com o rigor das leis; quem, dizemos, se não
    persuadiria de que os arrematantes invocavam unicamente direitos
    legitimos, resultantes de um contracto, que a boa fé do Executivo era
    obrigada a manter?

    O povo, todavia, continuou no concelho de Belem a resistir ao vexame dos
    registos e guias, e d'estas resistencias chegaram a originar-se
    symptomas de graves conflictos. Por outra parte os vendedores de carnes
    seccas, bem aconselhados, deixaram os agentes publicos affixar os seus
    Editaes, as suas condições, as suas portarias, e recorreram ao Poder
    Judicial, de quem ainda hoje está pendente a decisão do negocio. D'esse
    Poder esperam elles justiça, se antes d'isso as Côrtes não approvarem a
    actual proposta do Ministro da Fazenda; porque sanccionada ella, nada
    mais resta aos cidadãos do que curvar a cabeça ante a soberania
    nacional.

    Aos factos precedentes veiu, passados mezes, associar-se outro que os
    completa, e que illustrando o anterior procedimento do Ministerio da
    Fazenda, acaba de habilitar a Camara dos Senhores Deputados para avaliar
    aquelle procedimento e talvez remontar ás suas causas. Interpellado na
    Camara dos Dignos Pares, na sessão de 13 de agosto de 1853, sobre os
    impostos e vexames dos dous concelhos de Belem e Olivaes, o Ministro da
    Fazenda contradisse o direito e os factos, e fez revelações
    deploraveis.–Disse que a intenção do Governo, (queria dizer da
    dictadura) nos decretos de setembro fôra pôr os povos ao abrigo das
    vexações, sem o thesouro d'isso tirar partido, e que tambem o Governo (a
    dictadura) não quizera diminuir o quantitativo dos impostos nos dous
    concelhos, como o declarava no relatorio de um d'esses decretos. Tudo
    isto era inexacto. Os vexames não cessaram como se acaba de mostrar. O
    thesouro tirou partido da reforma, porque em lugar de 38 ou 40 contos
    que auferia do territorio dos dous concelhos, passou a tirar 55 contos
    como tambem se mostrou. Diminuiu-se o quantitativo dos impostos, embora
    os factos viessem depois provar que a diminuição era nominal. Emfim, a
    dictadura não declarou as intenções que o Ministro lhe attribuia n'essa
    memoravel sessão, citando aquelle relatorio, porque todas quantas
    considerações n'elle se fazem relativas a _deficit_, impossibilidade de
    reduzir impostos, etc., referem-se aos direitos fiscaes na cidade de
    Lisboa, e não aos dos dous concelhos, como facilmente verificará quem se
    der ao trabalho de o ler. E tanto assim, que depois d'essas
    considerações os Ministros da dictadura accrescentaram, que os concelhos
    de Belem e Olivaes «ficavam sujeitos ás imposições geraes do Reino, e
    apenas obrigados ao pagamento de alguns tributos a maior, que ainda os
    deixava _em grandissima vantagem em relação ao seu estado anterior_, mas
    que era justo pagassem pelos beneficios e cómmodos que lhes resultam do
    contacto com a capital.»

    Se isto é deploravel, mais o foi ainda a defesa da portaria de 12 de
    janeiro. O Ministro que nessa conjunctura confessava que não soubera
    redigir o decreto de 11 de setembro, relativo ao assumpto, podia tambem
    declarar francamente que não soubera o que tinha feito expedindo-a. A
    Camara dos Dignos Pares seria por certo indulgente á vista d'esta
    confissão ingenua. O joven Ministro achou, porém, mais facil emprehender
    a apologia d'aquella monstruosidade administrativa. Para isso preferiu
    confessar que a portaria tinha por alvo fazer considerar como extensivo
    ás carnes seccas o novo imposto. O real d'agua era-o na opinião do
    Tribunal do Thesouro, do conselho da direcção dos impostos e d'elle
    Ministro, que hoje vem pedir ao Parlamento a interpretação d'essas leis
    sobre o real d'agua, ácerca das quaes nenhuma duvida tinha. Por um
    genero novo de hermeneutica tirou d'esse facto supposto uma conclusão
    singular. O decreto de 11 de setembro era lei promulgada por uma
    dictadura. Esta, assumindo, bem ou mal, o poder legislativo, podia
    modificar, alterar, revogar todas as leis do Reino, menos o alvará de
    1643 e a carta de lei de 1844, relativos ao real d'agua. A esse poder
    nem se quer era licito dar-lhes uma interpretação menos extensiva do que
    lhes dava o Ministerio da Fazenda e as repartições ou individuos d'elle
    dependentes. Aquelle alvará e as leis correlativas eram inviolaveis como
    o Chefe do Estado, embora se dissesse no decreto de 11 de setembro que
    os dous novos concelhos pagariam o imposto de quinze réis por arratel de
    _carne verde_. Supposta a inviolabilidade do alvará de 1643 e da
    interpretação ministerial, essa designação não podia significar o que
    significa. A expressão _carnes verdes_, dizia o Ministro, é alli
    similhante á disposição _em globo_ do alvará de 1643 e da lei de
    1844.–Na sua opinião _verde_ é o genero, _secco_ a especie. Até hoje os
    adjectivos indicavam as qualidades do sujeito, e importavam sempre uma
    limitação porque excluiam as qualidades contrarias, e repugnavam ao
    absoluto; mas desde agora podem incorporar aquellas e representar este.
    Se qualificarmos de branco um corpo qualquer, isso não obstará a que
    seja ao mesmo tempo preto. _Branco_ ficará qualificando o genero;
    _preto_ ficará qualificando a especie. É pelo menos esta a theoria do
    illustre Ministro da Fazenda. A grammatica geral e o diccionario da
    lingua foram abrogados por elle naquella memorada sessão.

    Apesar, porém, da nova theoria, o Ministro não evitou a responsabilidade
    dos seus actos. Quando se publicaram as condições da arrematação do
    imposto que nos dous concelhos de Belem e dos Olivaes substituiu o real
    d'agua, essa theoria era desconhecida no mundo visivel. Podia existir na
    intelligencia do Ministro e na jurisprudencia occulta dos seus tribunaes
    e conselhos fiscaes, mas de certo não na dos licitantes d'aquella
    arrematação. O dever, portanto, do Ministro era expôl-a a tempo, e tanto
    mais que existindo ainda a dictadura seria legal, embora absurda, a
    interpretação dada por ella ao n.^o 2 do artigo 3.^o do respectivo
    decreto. Valia a pena fazel-o n'uma questão de tributos. Declarando-se
    aos licitantes que a expressão _carnes verdes_ significava igualmente
    _carnes seccas_, é evidente que o preço da arrematação subiria alguns
    contos de réis. Adoptal-a por uma portaria quinze ou vinte dias depois
    da adjudicação, e interpretal-a e confirmal-a perante o Parlamento
    passados seis mezes, foi defraudar o thesouro, em proveito particular,
    da somma differencial a que teria subido o preço da arrematação.

    Mas se tudo isto apenas merece a compaixão ou o riso dos Senhores
    Deputados, ha no acto ministerial de 12 de janeiro uma circumstancia que
    se tornava de notavel gravidade, desde que o Ministro vinha declarar
    n'uma das casas do Parlamento que a ambiguidade evidente na forma d'esse
    acto, não existia na indole e na intenção d'elle e que, praticando-o, o
    Ministro da Fazenda adoptára como verdadeiras e legitimas as indicações
    dos arrematantes. Dizia-se na portaria que os _moradores_ dos dous
    concelhos deviam pagar o imposto do vinho e de todas as carnes verdes e
    seccas existentes, ou que de futuro se consumissem. Esta doutrina
    alterava forçosamente o systema da fiscalisação. Pelo Codigo
    Administrativo os impostos sobre o consumo affectam só os generos
    vendidos a retalho dentro de qualquer circumscripção fiscal. O vinho ou
    as carnes que os moradores conduzem de fóra d'essa circumscripção, para
    seu proprio consumo e não para revenderem, são livres. D'aqui a _fórma_
    de se verificar a cobrança e fiscalisação do imposto. É a esta _fórma_
    de arrecadação a que evidentemente allude o decreto de 11 de setembro. O
    vendedor a retalho manifesta o genero perante a auctoridade quando o
    intruduz e paga o imposto: os agentes fiscaes fiscalisam pelos varejos,
    comparando os resultados d'estes com os manifestos. Considerando como
    sujeitos ao pagamento do imposto todos os moradores da circumscripção, e
    onerado sem excepção o genero tributado consumido dentro d'ella, (que é
    o que succede em Lisboa) a fórma da cobrança e fiscalisação varia
    necessariamente. Surgem então as barreiras, as linhas de circumvallação
    e, á falta d'estas, os registos, as guias, os homens armados que vigiam
    a orla do redil fiscal, que espancam e assassinam os contrabandistas, ou
    que são por elles espancados e assassinados. Volta-se ao systema das
    portagens do seculo XIII. A portaria de 12 de janeiro, confundindo o
    tributo portuguez de consumo pela venda a retalho com o tributo francez
    de _octroi_, de barreiras, ou de consumo absoluto, legitimava as guias,
    os registos, os guardas armados que existiam por excepção no concelho de
    Belem, ao passo que indeferia a súpplica dos arrematantes para os
    estabelecerem. A auctoridade local, despresando esse indeferimento e
    mantendo o vexame, era mais logica do que o Ministerio da Fazenda, e
    este mais logico deixando sem solução até hoje a representação dos
    moradores do concelho, do que indeferindo a pretensão dos arrematantes.

    De tudo quanto se passou na sessão de 13 de agosto da Camara dos Dignos
    Pares, a proposito da interpellação do Sr. Conde de Peniche, nada
    porventura é mais singular do que a audacia com que o Ministro
    exclamava: «_Hoje não ha a guia_ (nos dous concelhos): _transita-se por
    toda a parte sem o incómmodo d'esses exames geraes a que procediam os
    guardas das Sete-Casas: não ha registo, etc._» E no mesmo dia, e á mesma
    hora, talvez, em que elle orava no Parlamento, os guardas dos
    arrematantes estavam postados a espaços nas estradas do concelho de
    Belem, e os moradores que conduziam generos para seu consumo eram
    arrastados aos registos, onde se lhes exigiam os impostos, que pagavam
    ou deixavam de pagar conforme conheciam melhor ou peior o seu direito, e
    tinham mais ou menos valor para o sustentar. No dia, e talvez na hora,
    em que o Ministro falava, davam-se guias selladas e pagas n'esses
    registos, que não só existiam então, mas tambem existem hoje, embora com
    um caracter menos vexatorio, porque esta camara saberia defender os seus
    administrados se actualmente se dessem violencias, recorrendo, não ao
    Ministerio da Fazenda, mas sim ao chefe da policia para que mantivesse a
    segurança das vias publicas, e aos tribunaes para que punissem os
    culpados.

    A camara de Belem, depois da exposição de todos estes factos, tão
    incriveis como verdadeiros, transcreve um periodo da resposta dada pelo
    Ministro da Fazenda á interpellação do Digno Par Conde de Peniche. São
    as suas palavras textuaes:

    «Se o Governo substituisse os vexames dos arrematantes pelos da Fazenda
    teria feito talvez peior; porque os impostos arrematados são sempre
    cobrados com maior rigor fiscal; mas o Governo não tem admittido o
    registo pelos arrematantes; não está estabelecido o systema de guias
    como antes estava…»

    Confessa, portanto, o Ministro que em relação aos vexames, o systema que
    chama de Fazenda, e pelo qual esta camara suppõe que elle entende o das
    Sete-Casas ou de barreiras com registos, guias, etc., a situação dos
    novos concelhos, dada a hypothese da arrematação dos impostos, seria
    mais dura de soffrer do que antes, pela maior severidade da fiscalisação
    feita em proveito particular. Ora o systema que tem regido o Concelho de
    Belem é o dos registos e guias. Logo a situação dos habitantes d'este
    concelho tem sido, conforme a opinião dos Ministros, mais vexatoria do
    que sob o regimen das Sete-Casas.

    Fica, portanto, claro, á vista dos factos ponderados n'esta súpplica e
    na representação annexa dirigida ao Governo, que o concelho de Belem,
    espoliado dos bens que lhe deviam pertencer, sobrecarregado de onus
    tributarios, nominalmente menores, mas na realidade maiores do que os da
    epocha em que formava parte do de Lisboa, soffrendo em relação aos
    impostos geraes as consequencias da acquisição da sua individualidade
    municipal, continuando a experimentar por um abuso intoleravel da
    auctoridade os vexames das anteriores fórmas fiscaes, vilipendiado na
    sua magistratura municipal pelo desdenhoso silencio com que foi
    despresada a modesta e respeitosa representação dirigida ao Governo pela
    camara do mesmo concelho, não podia deixar de vir buscar protecção e
    justiça no seio do Parlamento. É o que em nome d'elle esta camara faz.
    Fal-o porque é o seu restricto dever; fal-o porque de outro modo
    trahiria a confiança dos que a elegeram. Pede a reforma dos decretos de
    11 de setembro; pede que as provisões d'esses decretos se affiram pelos
    principios eternos da moral e da justiça; que o concelho de Belem seja
    libertado de tributos excepcionaes e que tambem seja privado de
    quaesquer vantagens excepcionaes, cuja manutenção esteja a cargo da
    Fazenda Publica ou do municipio de Lisboa, uma vez que não se prefira
    haver uma compensação recebida do cofre d'esta camara; que se lhe retire
    consequentemente a subvenção deduzida das prestações dadas pelo Governo
    á camara de Lisboa; que se lhe restituam as propriedades, terrenos e
    edificios municipaes contidos no perimetro do concelho, e que fique este
    sujeito unicamente ao imposto do real d'agua como os outros concelhos do
    Reino, cobrado e fiscalisado do mesmo modo; pede em summa, em quanto
    esse admiravel invento dos economistas de D. João IV continuar a
    devastar o paiz, que aos habitantes d'este territorio seja applicado o
    direito commum, e concedido igual quinhão nos deveres e encargos que
    oneram os outros cidadãos, igualdade garantida a todos pela lei politica
    da monarchia.

    Esta camara, precisando de applicar ás despezas ordinarias do municipio
    uma somma excedente a dezeseis contos de réis, tem de rendimento actual,
    incluindo a subvenção do Governo estabelecida nas leis de setembro,
    menos de nove contos de réis. Onerados já com o imposto excepcional, a
    carne e o vinho, não poderiam ser tributados municipalmente senão n'uma
    proporção tenuissíma. No meio dos embaraços em que labora a agricultura
    do concelho, embaraços que se acham expostos na representação dirigida
    ao Governo, seria absolutamente impossivel sobrecarregar com imposições
    os cereaes, o principal, o quasi unico alimento das classes mais
    infelizes, e a unica producção importante d'este territorio. Os impostos
    indirectos sobre outras subsistencias dariam apenas sommas
    insignificantes. Resta a contribuição directa. Esta pelas nossas
    instituições administrativas não póde exceder a dez por cento da decima
    do concelho, e hoje da respectiva quota de repartição, a qual se eleva
    proximamente a 16 contos de réis, e cujo decimo, portanto, equivale
    apenas a 1:600$000 réis. Assim, ainda lançando todas as contribuições
    possiveis, directas e indirectas, esta camara difficilmente chegaria a
    igualar a sua receita com as suas inevitaveis despezas. Mas para obstar
    á decadencia da riqueza na circumscripção municipal de Belem, decadencia
    evidente a todos os olhos e que o proprio Governo reconheceu, além
    d'essas despezas ordinarias a municipalidade tem de recorrer á
    reconstrucção de estradas geraes e caminhos travessos, pela maior parte
    intransitaveis, para o que se precisam sommas avultadissimas,
    despendidas com a mais severa economia, porque a linha das estradas e
    caminhos de todo o municipio equivale á extensão de muitas leguas. Urge
    tambem a construcção de matadouros, porque a população inteira clama
    contra os abusos no fornecimento das carnes verdes, abusos que não só
    lhe affectam as bolsas, mas tambem a saude e a existencia, e para obstar
    aos quaes o unico meio é o estabelecimento de matadouros publicos, onde
    o genero se fiscalise, porque um dos resultados do imposto do real
    d'agua quer simples quer quintuplicado, como nos dous novos concelhos, é
    impossibilitar a concorrencia e converter o fornecimento das carnes
    verdes em monopolio dos arrematantes do imposto. Ás despezas porém, do
    meneio ordinario do regimen municipal, e ás extraordinarias que são
    inevitaveis para acudir á decadencia do concelho, e ás primeiras
    exigencias da hygiene publica, ajunta-se a necessidade de occorrer á
    creação do material indispensavel da administração de um concelho novo,
    constituido no termo de outro concelho, para o qual passou a maior parte
    do material empregado no serviço do territorio desannexado. Em
    similhante situação, a camara actual ignora a que meios hade recorrer
    para manter a administração do municipio, se continuar a pesar sobre
    elle o imposto excepcional.

    N'estes termos, a camara espera do Parlamento uma resolução favoravel
    sobre o presente assumpto.

    E.R.M.

    Ajuda 28 de abril de 1854. O presidente, Alexandre Herculano. Vogaes,
    João Ferreira Godinho–José Street d'Arriaga e Cunha–Joaquim Ferreira
    Pinto Basto–João José Teixeira Leal–Mathias Antonio Vieira.

    PROJECTO DE CAIXA DE SOCCORROS AGRICOLAS

    1855

    Senhor.

    A camara municipal de Belem, resolvida a occorrer a uma das maiores
    necessidades do concelho, a crear uma instituição do mais subido
    interesse e cuja utilidade já hoje ninguem se atreve a pôr em duvida,
    embora as opiniões variem sobre o modo de a realisar, offerece á
    approvação do Governo de Vossa Magestade, pedindo o uso da iniciativa do
    mesmo Governo perante o Parlamento a favor d'elle, o projecto de lei
    junto, relativo á fundação de uma Caixa de Soccorros Agricolas, especie
    de banco rural, accommodado ás necessidades d'este concelho, ao nosso
    estado economico e juridico, aos nossos usos agricolas, e até ás idéas e
    talvez ás preoccupações dos cultivadores, idéas e preoccupacões que, não
    havendo inconveniente, se devem respeitar, porque é esse o meio de fazer
    acceitar instituições novas, de cuja importancia só a experiencia de
    seus salutares effeitos póde persuadir os menos illustrados. Vossa
    Magestade permittirá que esta camara exponha, com a brevidade que taes
    materias comportam, os fundamentos que abonam a idéa geral do projecto e
    as suas varias disposições.

    Por toda a Europa se tem reconhecido a necessidade de salvar da usura a
    industria agricola, de facilitar a esta capitaes, cujo modico juro seja
    accommodado aos modestos lucros do cultivador. Em Portugal, onde tantas
    vezes e por tantas maneiras tem reinado uma agiotagem desenfreada, nem a
    industria fabril, nem o commercio, nem a fazenda publica teem padecido
    talvez por este lado metade dos males que a agricultura padece. Nas
    provincias do sul, sobretudo, os campos são devorados por uma praga de
    usurarios, que conservam o lavrador n'uma barbara servidão, e que
    defecando-lhe de continuo os recursos, não só lhe obstam a toda e
    qualquer tentativa de aperfeiçoamento rural, mas tambem o vão
    gradualmente conduzindo á miseria. Clama-se contra o atrazo dos
    cultivadores portuguezes, contra a imperfeição dos methodos, e esses
    clamores são em grande parte pouco assisados. Sem pretendermos que a
    nossa agricultura seja modelo, é certo que muitos dos defeitos que se
    lhe notam, não são senão necessidades resultantes do clima, do solo, do
    estado da viação, das condições dos mercados, do modo de ser da
    propriedade, e de mil outras circumstancias economicas e juridicas, que
    os agronomos especulativos desconhecem, ou que não apreciam. Se
    attendermos á elevação quasi constante dos salarios ruraes desde 1834
    para cá, á depreciação progressiva dos generos, e sobretudo á carestia
    sempre crescente dos capitaes, o accrescimo constante da massa dos
    nossos productos agricolas, abona a crença de que o systema de
    agricultar não é tão imperfeito como folgam de pintal-o os admiradores
    exclusivos das prácticas estrangeiras. Os grandes embaraços para o mais
    rapido desenvolvimento da agricultura consistem sobretudo na falta de
    capitaes, nas leis que por differentes modos se oppõem á divisão da
    terra e á translação do dominio, á falta de vias de transito e de
    policia rural, a circumstancias, em summa, que nada teem que vêr com
    esta ou com aquella fórma de instrumentos agricolas, com este ou com
    aquelle systema de afolhamentos, com a introducção d'esta ou d'aquella
    cultura nova, ou que, se teem alguma influencia n'essas cousas, é em dar
    razão ás vezes ao agricultor para não as adoptar, embora sejam boas
    absolutamente consideradas.

    A camara de Belem, tractando de remover o maior dos obstaculos ao
    desenvolvimento da agricultura n'este concelho, a carestia dos capitaes,
    deve fazer sentir a maneira como a usura procede na obra infernal de
    arruinar os cultivadores. O quadro que ella vae traçar é triste, mas
    verdadeiro, e oxalá não representasse ao mesmo tempo o que se passa na
    maioria dos outros concelhos, ao menos no sul do reino.

    Em geral a usura exercida sobre a agricultura é de duas especies. A 1.^a
    tem os caracteres genericos d'esta immoralidade: o mutuante, segundo a
    necessidade do agricultor, empresta sobre as hypothecas ordinarias com
    os juros mais exorbitantes que póde, suppostas taes ou taes
    circurmstancias no mutuario: é um agiota insolente, vulgar, ávido como
    qualquer outro. A 2.^a especie tem caracteres á parte: é a usura
    hypocrita, muito mais commum no campo do que a primeira. O usurario
    d'esta especie segue diverso rumo. É homem chão, modesto, exacto no
    cumprimento dos seus deveres civis, laborioso, valedor: é quasi um bom
    homem. Ignora as partidas dobradas e repugnam-lhe por via de regra, não
    só os juros exorbitantes mas até o juro legal. Quando empresta o seu
    dinheiro ao agricultor é por dó d'elle; é para lhe acudir n'um apuro. O
    que quer é assegurar o reembolso da somma mutuada. Tendo horror ás
    demandas, se o lavrador é proprietario não lhe acceita o predio como
    hypotheca, porque conhece a imperfeição das nossas leis hypothecarias:
    se o não é, nem por isso quer abandonal-o. N'esta situação que faz?
    Empresta sem juro; mas exige um contracto que lhe dê a certeza do
    reembolso. O cultivador ha de pagar-lhe em genero na eira. E como ha de
    ser o pagamento? Os cereaes regular-se-hão pelo preço mais inferior do
    genero n'essa conjunctura. É uma precaução. Para os riscos das baixas
    possiveis que depois sobrevenham de uma venda anterior, de uma divida
    desconhecida, de uma colheita insignificante, etc., o mutuario promette
    o abatimento de um, de dous, de tres vintens ou mais em alqueire. É
    outra precaução. O usurario é compassivo, é benevolo para com a sua
    victima, mas precisa de ser prudente. O contracto fica secreto ou como
    secreto; não se escreve porque o mutuante conta com a probidade do
    mutuario, ou para melhor dizer, com o temor que este terá de achar em
    novos apuros condições mais onerosas, e esses apuros são quasi
    inevitaveis desde que o cultivador caíu uma vez nas suas mãos. Taes são
    as fórmas mais communs da agiotagem rural n'este e n'outros concelhos.
    As circumstancias especiaes modificam-nas, mas em geral as transacções
    d'este genero caracterisam-se assim.

    O segredo que se guarda ácerca d'estas transacções obscuras e hediondas,
    a que se póde chamar a crapula da agiotagem, predomina tambem
    forçosamente no facto geral que resume esses mil factos de usura. A
    cargo da irregularidade das estações e dos mercados, da falta de vias de
    transito, do peso dos impostos, etc., ficam todos os males do lavrador.
    Murmura-se vagamente e em voz baixa; mas nas queixas publicas o usurario
    passa illéso. Como buscando o verme que destroe a arvore antiga, é
    preciso que o ouvido do observador seja bem agudo e o silencio á roda
    d'elle bem profundo, para sentir a usura roendo no amago da industria
    agricola. Se o Governo ou o Parlamento instituissem um inquerito solemne
    a este respeito, o mais provavel é que fosse nullo o seu resultado. O
    agricultor calar-se-hia porque não crê na auctoridade; não espera d'ella
    remedio. Martyr, olharia para o algoz e vêr-lhe-hia nas mãos os
    instrumentos dos tractos, ao passo que no poder publico só creria
    descortinar a indifferença, a fraqueza, a impotencia. Curvar-se-hia por
    isso e respeitaria o mais forte. Evitaria assim que no seguinte anno a
    sua imprudencia fosse castigada com mais uma volta na corda do potro;
    com mais um ou dous vintens de abatimento no preço por que devera vender
    cada alqueire de trigo.

    Para se avaliar bem toda a extensão do mal, é necessario, Senhor,
    attender a alguns factos. Ordinariamente o lavrador executa com um
    capital seu os primeiros trabalhos annuaes. Na prosecução d'esses
    trabalhos é que é vulgar virem a faltar-lhe os recursos, e é então que
    elle compromette o futuro. As mondas, as sachas, as cavas, as ceifas, as
    vindimas, acham-no muitas vezes desprovido. Ora entre estes ultimos
    trabalhos e o recolhimento dos fructos medeiam apenas de cinco a dous
    mezes e ainda prazos mais curtos. Por outro lado, como é vulgarmente
    sabido, a epocha em que os productos da agricultura teem menor valor é
    na occasião da colheita. Ajunte-se a isto a reducção de um tanto no
    preço de cada alqueire de cereaes ou de cada almude de vinho, e
    imagine-se qual será a exorbitancia do lucro do mutuante. Supponhamos (e
    esta supposição não vae por certo longe do que commummente succede) que
    o preço medio annual dos trigos temporãos, principal producção d'este
    concelho, corresponde a 500 reis, e que na epocha das eiras o cereal
    vale a 460 reis. Fazendo o abatimento de 20 reis em alqueire, o lavrador
    paga com cada um d'estes apenas 440 reis de uma divida que, suppondo-se
    contrahida por uma media de tres mezes, vem a soffrer um juro de 12 por
    cento em trimestre, ou 48 por cento ao anno.

    Esta camara, Senhor, não foi buscar exemplos aos casos mais
    escandalosos, que annualmente occorrem. Quando o credito do lavrador
    está abalado, muitas vezes por causa das mesmas usuras de que foi
    victima, quando a sua reputação de probidade não é inconcussa, quando os
    seus habitos de economia são pouco severos, quando as incertezas das
    estações o empobreceram, as usuras redobram de violencia. Mas, ou
    maiores ou menores, as difficuldades da sua situação augmentam de anno
    para anno, e o resultado mais ou menos remoto d'essa situação é a ruina
    e a miseria. O cancro da usura devorou-lhe interiormente a vida
    economica lento, lento e sem ruido; e esta lentidão e este silencio são
    uma das caracteristicas da agiotagem rural que a tornam mais difficil de
    extirpar. O que enleva, o que arrasta sobretudo o lavrador, é o mysterio
    d'essas transacções leoninas que não se escrevem, que não se vão contar
    na praça, porque o usurario é discreto e sabe tirar partido d'essa
    preoccupação dos agricultores.

    Foi attendendo a estes factos e ás circumstancias d'elles, que se
    concebeu o projecto de uma instituição que, supprindo com vantagem os
    bancos ruraes como existem nos outros paizes e que parecem, ao menos por
    emquanto, inapplicaveis ao nosso, trouxesse um alivio seguro á
    agricultura d'este concelho, mais compromettida e ameaçada de ruina do
    que se cuida. O pensamento do projecto foi aproveitar a experiencia,
    digamos assim, da industria da usura para a combater, organisando a
    Caixa de Soccorros de modo que á facilidade das transacções se ajuntasse
    a modicidade do juro, e o respeito por certos habitos e preoccupações
    que o progresso da illustração ha de destruir, mas que desattendidos
    emquanto são vigorosos, impedem sempre a realisação das melhores cousas.

    Affirmou, Senhor, esta camara que a Caixa de Soccorros, instituição
    simples e exequivel, substituirá com vantagem os bancos ruraes, que esta
    camara reputa inapplicaveis ao paiz. Efectivamente varias objecções
    gravissimas se pódem oppôr á tentativa de crear entre nós o chamado
    credito rural por via de bancos. Que são os bancos territoriaes ou
    hypothecarios? Uma instituição de garantia, intermedia entre o mutuante
    e o mutuario, ou mais exactamente entre o capital e a propriedade, e que
    attrahe aquelle pela segurança, esta pela barateza do dinheiro que a
    segurança do emprestimo produz. Na expressão da indole de taes bancos se
    manifesta desde logo o imperfeito da instituição, ainda absolutamente
    considerada. Não é só, diremos mais, não é tanto a propriedade rural
    como a industria rural que precisa de ser por toda a parte soccorrida
    por capitaes baratos. A terra é um capital como o dinheiro, porque não
    passa de um instrumento de producção: o productor é o que a cultiva. É
    para este, para quem representa o trabalho que sobretudo taes bancos
    deveram ser instituidos. Proprietario ou rendeiro, que importa a qual
    das duas cathegorias pertence o cultivador, o industrial agricola? Um
    carecerá só de ser mutuario do capital dinheiro; outro carecerá do
    capital dinheiro e do capital terra. Qual d'elles precisa de maior
    protecção? Evidentemente o segundo. Os bancos ruraes não satisfazem a
    esta necessidade. Aproveitam aos primeiros, porém não aos segundos, ao
    menos directamente. E todavia, não dizemos em Portugal, mas em quasi
    todos os paizes, o maximo numero dos cultivadores são os rendeiros. Na
    Polonia, na Allemanha, na Russia, na Dinamarca, na Belgica, as
    instituições de credito agricola não vão além da propriedade
    territorial. Nem outra cousa podia ser porque ellas suppõem geralmente a
    existencia do fundo, os bens de raiz, como hypotheca para o reembolso.
    D'esse facto deriva outra objecção grave contra os bancos ruraes. Os
    paizes do norte, onde a instituição nasceu, teem luctado com os mil
    tropeços, que traz á sua consolidação o regimen hypothecario, e a França
    debate-se para a crear com as difficuldades d'esse mesmo regimen, mais
    imperfeito ainda que n'aquelles paizes. Entre nós o systema de
    hypothecas póde considerar-se na infancia, e elle seria um obstaculo
    insuperavel ao estabelecimento dos bancos de credito territorial.

    Dir-se-ha que as nossas leis hypothecarias serão reformadas como acto
    preliminar á creação dos bancos? As nações mais adiantadas teem
    consumido annos e annos em estudos e tentativas para reformar essas
    leis, que prendem directa ou indirectamente com todo o direito civil, e
    ainda não o teem completamente alcançado. É permittido por isso duvidar
    de que tal facto se verifique entre nós, que ainda não temos um Codigo
    Civil e onde a legislação é um chaos. Faz, na verdade, sorrir a
    facilidade com que se imagina prover em Portugal, ao complemento e
    organisação d'esse esboço que ahi temos de um systema hypothecario.

    As instituições destinadas a servirem de intermedio entre os
    capitalistas e os proprietarios, ou dependem de associações poderosas e
    respeitaveis, ou da garantia publica. Mas quer sejam de um, quer de
    outro genero, é necessario que o seu credito se repute inabalavel. Sem
    isso debalde se buscaria obter capitaes baratos para agricultura. Mas
    quaes serão as associações poderosas e respeitaveis que possam ou
    queiram organisar entre nós os bancos territoriaes? Por outra parte a
    historia da fazenda publica e dos grandes estabelecimentos de credito
    n'este paiz, não abonaria demasiado a confiança dos mutuantes na
    garantia publica. Todos os diversos bancos ruraes actualmente existentes
    na Europa presuppõem a emissão de notas, de letras, de inscripções, de
    titulos de credito, em summa, para funccionarem. Mas quem prudentemente
    poderia esperar hoje em Portugal a acceitação de taes titulos? Mr.
    Thiers dizia em 1848 perante a assembléa nacional, n'um paiz onde o
    credito publico mal se poderia comparar com o nosso: «Basta que um papel
    se introduza n'um paiz como nota de banco para se me tornar suspeito».
    Nós os portuguezes não suspeitamos: descremos. E esta descrença matará
    todas as tentativas; porque o credito nem se improvisa, nem se decreta.

    Ás precedentes objecções vem associar-se outra, talvez não menos
    peremptoria. Os capitaes em Portugal teem um valor subido. São communs
    os emprestimos, feitos com toda a segurança compativel com o desordenado
    e incompleto das nossas leis civis, a 7, a 8 e a mais por cento. Ainda
    suppondo possivel a existencia de bancos ruraes que offerecessem solidas
    garantias, e que a situação actual da agricultura portugueza admittisse
    a exigencia de um juro de 5 ou 6 por cento, como attrahir os capitaes
    para os bancos? Como resolver o capitalista a contentar-se com um juro
    de 4 ou 5 por cento, visto ser necessario reservar pelo menos 1 por
    cento para as despezas da gerencia dos bancos, quando elle póde obter
    para o seu dinheiro um preço mais subido?

    Restaria só um meio, a emissão de notas que não representassem valores
    positivos; restariam as chimeras da mobilisação do solo e da
    multiplicação dos capitaes, ou por outra a moeda papel, que os utopistas
    crêem ter descoberto porque inventaram algumas phrases ou palavras
    novas, para exprimir erros velhos. Esta camara julga inutil combater
    similhantes preoccupações, porque o Governo de Vossa Magestade e o
    Parlamento estão acima de taes desvios. Se fosse possivel não o estarem,
    a opinião publica faria prompta e inexoravel justiça a esses papeis de
    credito, desacreditados ainda antes de emittidos.

    Esta camara, Senhor, não pretende com o que leva dito negar os
    beneficios produzidos pelos bancos ruraes nos diversos paizes da Europa,
    nem que o progresso das luzes economicas os venha a tornar mais amplos
    nos seus effeitos, nem finalmente que possa chegar um dia em que a sua
    fundação seja não só possivel, mas tambem conveniente ao nosso paiz.
    Quiz só mostar a convicção profunda que tem de que, por agora, para
    fazer alguma cousa verdadeiramente util á agricultura, considerada nas
    suas relações com o capital, cumpre tomar por base outro pensamento, e
    desenvolvel-o em harmonia com o nosso estado economico e civil, e além
    d'isso com as idéas, habitos e até preoccupações innocentes dos
    agricultores.

    Na creação da Caixa de Soccorros, que submette á approvação, e para que
    pede a iniciativa do Governo, esta camara tomou para ponto de partida o
    tributo municipal, em vez da esperança de obter capitaes alheios para
    gerir. A razão é simples: não os obteria senão por um preço que o estado
    da agricultura do concelho não comporta. Considerações mais largas a
    este proposito talvez aqui tivessem cabida, mas ella contenta-se com o
    que já ponderou, e que no caso especial é decisivo. Conhecendo pelos
    exames a que procedeu sobre a materia, que o grande mal consiste nas
    usuras a que o lavrador tem de sujeitar-se para obter os meios de
    executar os amanhos annuaes, foi sobretudo este mal que procurou
    combater. Se a usura espreita as necessidades instantes, que
    regularmente vêm assaltar o cultivador no grangeio annual, é ahi que
    deve ser repellida. A Caixa de Soccorros emprestará annualmente e só
    annualmente. D'este principio resultam a possibilidade e a proficuidade
    da instituição. Resulta: 1.^o que sendo a hypotheca do emprestimo os
    fructos em vez do predio, as questões hypothecarias desapparecem com um
    pequeno favor da lei, e sem offensa grave do direito de terceiro: 2.^o
    que limitando-se a quantia mutuada ao equivalente da renda liquida do
    cultivador, reduzida ainda a tres quartos para obviar aos inconvenientes
    das alterações inevitaveis n'essa renda, a Caixa, obrigada a
    subministrar apenas sommas comparativamente modicas, poderá multiplicar
    os emprestimos e, recolhido integralmente o capital todos os annos,
    salvo nos de escacez completa, estará sempre habilitada com recursos
    para renovar opportunamente o beneficio: 3.^o que limitando-se a
    emprestimos annuaes a mesma Caixa, evitará um dos grandes escolhos dos
    bancos hypothecarios, a absorpcão de capitaes avultados por um periodo
    indeterminado ou demasiado longo; isto é, evitará a causa mais ordinaria
    da ruina dos bancos hypothecarios: 4.^o que por esta mesma razão deixará
    de cair na justificada censura, que mais de uma vez se tem feito aos
    bancos territoriaes, de favorecerem a paixão excessiva pela propriedade,
    paixão vulgar no homem do campo, e a que se póde chamar _o vicio da
    terra_. Este vicio produz, mais frequentemente do que se cuida, a ruina
    do cultivador. Ha uma observação feita já por toda a Europa, e que é
    facil de fazer em Portugal. O lavrador que póde obter um capital por
    tempo indeterminado ou assás longo, não procura em regra dar maior
    intensidade ou aperfeiçoamento, á cultura do predio que cultiva: tracta
    de dilatar o grangeio. Ás difficuldades com que luctava accrescenta
    maiores, endivida-se cada vez mais; cada vez faz maiores sacrificios até
    que completamente se arruina. É esta a historia de muitos. O
    proprietario rural não deve estender a sua propriedade senão com
    economias realisadas: o rendeiro não deve converter-se em proprietario
    senão pelos mesmos meios. Tudo o mais é imprudente e arriscado, e tanto
    mais arriscado quanto é certo que o _vicio da terra_ cria facilmente na
    imaginação do cultivador esperanças de lucros, que se não verificam. Os
    bancos ruraes teem no meio de muitas vantagens este inconveniente. A
    amortisação pelas annuidades, systema facil para o mutuario remir a
    divida insensivelmente, não remedeia o mal senão causando outro. A
    annuidade não significa para o cultivador senão um augmento de juro, que
    excedendo as forças productivas da terra, o arruina tambem. No fim de um
    certo numero de annos não deverá o capital extincto pelas annuidades,
    mas deverá outro que tomará emprestado, quando a somma da annuidade com
    o juro annual exceder o producto liquido da sua industria.

    Nas disposições organicas da Caixa de Soccorros Agricolas, esta camara
    inseriu algumas provisões tendentes a remover uma apprehensão grave.
    Esta apprehensão, a que já anteriormente se alludiu, funda-se n'um facto
    de ordem moral: o cultivador portuguez envergonha-se de tomar dinheiro a
    juro: entende que ha o que quer que seja menos regular n'esse acto tão
    innocente como legitimo. Prefere tudo á publicidade do que elle chama a
    sua miseria, e que ás vezes o é. Não raro o usurario explora este
    sentimento de orgulho, porventura nobre na sua origem. Custa menos ao
    agricultor pedir áquelle a quem já pediu uma vez, e que não assoalha o
    facto, porque o defeito da usura não é ser vangloriosa. O usurario
    contenta-se com reter em servidão perpétua o cultivador que uma vez lhe
    caiu nas mãos. Aos olhos de muitos essa circumstancia pareceria de bem
    pouco momento: a esta camara pareceu que, practicamente, era uma das
    maiores difficuldades a vencer, e por isso insiste n'ella. Um facto,
    hoje esquecido, prova a sua importancia. Em 1845 o Governo decretando um
    emprestimo aos lavradores do Ribatejo, convidou a Companhia das Lezirias
    a fazel-o. Acceitou a Companhia o encargo com condições que presuppunham
    a publicidade como garantia. Pedia-se um juro modico em relação ás
    usuras de que ordinariamente é victima áquelle districto agricola.
    Nenhum mutuario todavia appareceu. Era o emprestimo um acto publico, e
    até certo ponto ruidoso, no qual cumpria que cada um se confessasse
    necessitado. Preferiram a usura, e uma circumstancia apparentemente
    insignificante bastou para inutilisar as intenções bemfazejas do Governo
    e da Companhia. Importava, portanto obstar a que igual successo se
    renovasse no caso presente. Imaginou-se o meio de conciliar a segurança
    da Caixa com as prevenções dos cultivadores, e esta camara crê têl-o
    achado nas disposições dos artigos 5.^o, 11.^o e 12.^o O registo dos
    emprestimos, se não dá a certeza de um segredo absoluto, offerece pelo
    menos tantas garantias de pouca publicidade como a discrição dos
    usurarios. Para o mutuario honesto ha a segurança de que, paga a divida,
    não ficarão d'ella vestigios escriptos, e de que emquanto subsistiu, o
    conhecimento da sua existencia não passou de poucos individuos. Na
    occasião da venda dos productos agricolas, raras vezes terá de se
    verificar o disposto no artigo 14.^o Ninguem duvida em geral de entregar
    ao lavrador uma parte do preço do genero vendido antes de completar a
    tróca.

    Com os simples meios de operar as transacções tanto dos emprestimos como
    da restituição adoptadas por esta camara, o cultivador evita esses
    tramites complicados a que ficaria sujeito n'outra qualquer instituição
    de credito. Os cultivadores, em troco do direito que adquirem a obter um
    capital barato quando lhes convier, não tomam senão o encargo de mandar
    buscar á Caixa de Soccorros uma certidão de corrente, se d'ella
    precisarem antes do dia 30 de agosto, para sem obstaculo negociarem os
    seus generos, e os compradores de productos agricolas nunca poderão
    allegar ignorancia, visto ser prohibido aos cultivadores do concelho
    operarem qualquer transacção sobre fructos, sem mostrarem o estado das
    suas relações com a Caixa.

    A vantagem dos cultivadores, sobretudo dos de cereaes, que são a
    grandissima maioria dos do concelho, não é só a de obterem capitaes a
    1/4 por cento ao mez, ou a 3 por cento ao anno, em logar dos juros
    exorbitantes de 30, 40 ou 50 por cento; é tambem a de poderem vender em
    conjunctura mais propicia do que a da colheita, visto que a restituição
    só tem de estar verificada no fim de janeiro: e se, por causa da
    facilidade de se harmonisarem os emprestimos com os reembolsos, os
    primeiros ficam circumscriptos ao periodo de fevereiro a julho, é esta a
    epocha em que realmente o cultivador precisa d'elles, porque é sabido
    que todo aquelle que não póde executar os primeiros trabalhos do anno
    agricola com os proprios recursos, não está habilitado para ser
    agricultor. Quando porém tal situação se désse, teria o lavrador a
    liberdade de vender na eira, restituindo o emprestimo á Caixa, fazendo
    os primeiros trabalhos com o resto, e vindo buscar em fevereiro novo
    emprestimo.

    Explicado o pensamento da camara no essencial, seria offender a
    intelligencia do Governo e do Parlamento, dar tambem a razão de cada uma
    das provisões do projecto. Em geral, ha n'elle a manifestação de
    desconfiança da boa vontade com que será mantida de futuro a nova
    instituição. Esta desconfiança existe de feito no espirito da actual
    camara. A fundação da Caixa de Soccorros Agricolas fere interesses
    poderosos. Esses interesses cuja legitimidade é mais que disputavel,
    hão-de combatêl-a antes e depois de creada, e o combate será tanto mais
    perigoso, quanto é certo que a usura tem de caminhar nas trevas, usando
    de meios indirectos. Eram necessarias prevenções contra o perigo, e a
    camara crê têl-as tomado. Quando, o que não é de esperar, viesse uma
    vereação hostil á existencia da instituição, as provisões do projecto
    são taes, que os vereadores comprometteriam seriamente a propria
    fortuna, faltando n'esta parte ao seu dever. Além d'isso, o
    administrador da Caixa, cuja subsistencia dependerá da permanencia da
    instituição, defendido de uma demissão injusta da parte da camara pelas
    disposições da lei, será um obstaculo permanente aos abusos que poderiam
    trazer a ruina da mesma Caixa.

    Resta ainda, Senhor, a esta camara dar algumas explicações sobre o meio
    adoptado para a formação do fundo, e sobre a quantia que se fixou para o
    constituir.

    Das considerações até aqui feitas deriva a creação do fundo por meio de
    um imposto. O capital assim accumulado, sendo propriedade do concelho,
    pôde mutuar-se por um juro insignificante sem detrimento de ninguem.
    Levantando-se um capital por emprestimo e applicando-se o imposto á
    amortisação d'elle, as operações da Caixa poderiam na verdade satisfazer
    desde logo a toda a procura de pequenos capitaes; mas é evidente que o
    imposto oneraria o concelho por mais annos, e o juro exigido dos
    mutuarios não poderia ser inferior a seis ou sete por cento, para
    occorrer ao pagamento do juro de 5 por cento (suppondo que se obtivesse
    dinheiro por preço tal) e ás despezas do estabelecimento. A camara,
    porém, está convencida de que a cultura do concelho, sobretudo a de
    cereaes, não soffre similhante juro. Além d'isso, sendo esta uma
    instituição nova no paiz, tendo contra si as repugnancias e hesitações
    que sempre se dão em taes casos, a fóra a guerra que lhe hão-de fazer os
    interessados em manter o estado actual das cousas, a procura de pequenos
    capitaes deve ser tenue a principio e crescer gradativamente á medida
    que o fundo augmentar.

    A base adoptada para determinar o algarismo do fundo foi a estatistica
    dos predios rusticos do concelho, a que a camara mandou proceder com a
    exacção possivel, supposta a sabida carencia de recursos que ha para
    obter a exacção em taes materias. Existem no concelho 812 predios
    rusticos, que se distribuem do modo seguinte, por uma escala gradativa
    da sua renda liquida:

    +———-+——–+———+———+———-+———-+———-+
    | |De 1$000|De 10$000|De 50$000|De 100$000|De 200$000|De 300$000|
    |FREGUEZIAS|a 10$000|a 50$000 |a 100$000|a 200$000 |a 300$000 |a 600$000 |
    | |reis |reis |reis |reis |reis |reis |
    |———-+——–+———+———+———-+———-+———-|
    |Belem | 3 | 10 | 7 | 2 | — | 2 |
    | | | | | | | |
    |Ajuda | 16 | 37 | 14 | 11 | 5 | 3 |
    | | | | | | | |
    |S. Pedro | | | | | | |
    |d' | | | | | | |
    |Alcantara | — | 2 | 11 | 10 | 3 | — |
    | | | | | | | |
    |Bemfica | 30 | 193 | 74 | 48 | 14 | 5 |
    | | | | | | | |
    |S. | | | | | | |
    |Sebastião | | | | | | |
    |da | | | | | | |
    |Pedreira | — | 20 | 20 | 24 | 4 | 3 |
    | | | | | | | |
    |Carnide | — | 49 | 8 | 10 | 2 | 2 |
    | | | | | | | |
    |Odivellas | 18 | 107 | 28 | 13 | 3 | 1 |
    | |——–+———+———+———-+———-+———-|
    |7 | | | | | | |
    |Freguezias| 67 | 418 | 162 | 118 | 31 | 16 |
    +———-+——–+———+———+———-+———-+———-+

    Tomadas as medias da escala gradativa, e multiplicando cada media pelo
    numero de predios de cada-gráu, achamos a media da renda liquida total
    ser de 57:175$000 reis.

    Mas aconselhando a prudencia que se limitem os emprestimos a trez
    quartos da renda liquida de cada mutuario, seguir-se-hia que o fundo da
    Caixa deveria ser proximamente de 42 contos de reis. Entretanto, do
    seguinte mappa, em que os predios rusticos do concelho são classificados
    segundo a natureza das respectivas culturas, deriva a consequencia de
    que uma somma menos elevada satisfará plenamente aos fins da
    instituição. Eis o mappa:

    +————+——-+——+——+——+——+——+——-+——-+
    | FREGUEZIAS |Quintas|Casaes|Terras|Hortas|Vinhas|Cercas|Olivaes|Pinhaes|
    |————+——-+——+——+——+——+——+——-+——-+
    |Belem | 4 | 2 | 14 | 4 | — | 1 | — | — |
    | | | | | | | | | |
    |Ajuda | 19 | 19 | 67 | — | — | 1 | — | — |
    | | | | | | | | | |
    |S. Pedro | | | | | | | | |
    |d'Alcantara | 13 | 6 | — | 2 | 1 | — | 1 | — |
    | | | | | | | | | |
    |Bemfica | 89 | 61 | 219 | — | 25 | — | 3 | — |
    | | | | | | | | | |
    |Carnide | 19 | 1 | 21 | 11 | 27 | 2 | 2 | — |
    | | | | | | | | | |
    |Odivellas | 22 | 34 | 123 | 16 | 9 | 1 | 3 | 2 |
    | | | | | | | | | |
    |S. Sebastião| | | | | | | | |
    |da Pedreira | 33 | 7 | 21 | 2 | 7 | — | 3 | — |
    | |——-+——+——+——+——+——+——-+——-|
    | | 199 | 130 | 465 | 35 | 69 | 5 | 12 | 2 |
    +————+——-+——+——+——+——+——+——-+——-+

    As quintas e as hortas no precedente mappa constituem mais da quarta
    parte dos predios rusticos do concelho. As primeiras pertencentes no
    maximo numero a proprietarios abastados da capital, e cultivadas por
    seus donos, sendo além d'isso muitas d'ellas antes objecto de luxo que
    de industria, não carecerão provavelmente nunca de soccorros da Caixa
    para o seu cultivo. As segundas pela indole de uma cultura, que não
    soffre a accumulação de fructos que possam servir de garantia ao
    emprestimo, estão forçadamente excluidas do beneficio da Caixa. Muitos
    dos predios, porém, incluidos n'estas duas categorias, figuram entre os
    de maior renda na lista das propriedades rusticas do concelho. Seria,
    portanto, necessario que todos os cultivadores, para cuja utilidade, ou
    antes para cuja redempção do captiveiro da usura esta instituição é
    destinada, carecessem de emprestimos integralmente equivalentes a trez
    quartos da respectiva renda liquida, para ser absorvido o fundo creado
    de 35:000$000 reis.

    O imposto destinado para este objecto, posto não seja senão a
    transformação de outro mais antigo e pesado, que hoje não poderia
    subsistir, tem encontrado as difficuldades que se costumam encontrar na
    fiscalisação e cobrança de um imposto novo. Para o realisar era
    necessario que a moderação acompanhasse a firmeza. Esta camara adoptou o
    methodo das avenças, methodo popular que facilita as operações da
    cobrança, tanto para os exactores como para os contribuintes, e que sob
    certo aspecto equivale ao systema do imposto directo e simples, e está
    demonstrando a excellencia d'elle, excellencia que infelizmente o povo
    ainda não comprehende. As avenças feitas não representam por agora a
    verba do que o imposto deve produzir; mas hão de approximar-se d'ella á
    medida que fôr possivel ir tornando a fiscalisação mais severa. Se a
    camara se não illude nas suas previsões, o fundo da Caixa estará
    preenchido dentro de sete ou oito annos, podendo e devendo cessar o
    imposto desde que estiverem preenchidos os fins d'elle.

    Reservando a quarta parte do tributo especial para as despezas geraes do
    municipio, a camara attendeu a que sem esta reserva recaíria sobre os
    outros ramos do serviço municipal a cobrança e fiscalisação d'elle, bem
    como a despeza com a gerencia da Caixa, emquanto os seus rendimentos não
    chegarem para isso, e finalmente considerou essa reserva como uma
    indemnisação pelo encargo estabelecido no ultimo periodo do artigo 23.^o.

    A camara de Belem espera que esta sua tentativa, para acudir á mais
    urgente necessidade de um concelho, em grande parte rural, merecerá a
    benevola attenção de Vossa Magestade, e que o projecto junto, corrigido
    pela sabedoria do Governo de Vossa Magestade, será submettido á
    approvação do Parlamento, que não a recusará por certo a uma
    instituição, cuja utilidade é inquestionavel.

    Deus Guarde a preciosa vida de Vossa Magestade, como todos havemos
    mister.–Camara, em Vereação, 27 de março de 1855.

    O Presidente–_Alexandre Herculano_.

    _Joaquim Ferreira Pinto Bastos_.

    _João José Teixeira Leal_.

    _Matheus Antonio Vieira_.

    _José Street d'Arriaga e Cunha_.

    CAIXA MUNICIPAL DE SOCCORROS AGRICOLAS

    Artigo 1.^o É instituido no concelho de Belem um fundo permanente com a
    denominação de Caixa Municipal de Soccorros Agricolas. O seu destino é
    subministrar capitaes baratos aos cultivadores para os amanhos ruraes.

    Artigo 2.^o O fundo d'esta Caixa formar-se-ha com tres quartos do
    producto do actual imposto de 20 reis em cada alqueire de farinha
    fabricada, até completar a somma de 35:000$000 reis.

    § unico. A camara poderá substituir o dito imposto por outro qualquer,
    uma vez que o seu producto seja pelo menos equivalente ao dos mesmos
    tres quartos do actual. Se a camara, porém, distrahir estes do fim a que
    são destinados, ou supprimir o imposto sem o substituir, antes de se
    completar o fundo, embora com approvação do Conselho de Districto, os
    vereadores ficarão responsaveis por seus bens ao complemento d'elle.

    Artigo 3.^o A administração superior da Caixa incumbe a uma direcção
    composta do presidente da camara, que será o presidente da direcção, do
    fiscal, e de um vogal eleito pelos cinco membros restantes da camara
    d'entre si.

    Artigo 4.^o A Caixa emprestará aos cultivadores do concelho, por prazos
    que nunca excederão a um anno, e a juro de 1/4 por cento ao mez, o
    capital necessario para o movimento da cultura annual dos respectivos
    predios, pela totalidade da somma existente em Caixa até ao complemento
    do fundo creado, e d'ahi ávante pelo total do mesmo fundo, o qual por
    nenhum pretexto poderá ter outra applicação, que não seja a de
    emprestimos annuaes aos cultivadores.

    Artigo 5.^o Haverá um registo, numerado e rubricado em todas as folhas
    pelos membros da direcção, de todos os cultivadores do concelho.

    Artigo 6.^o Os ditos cultivadores serão designados em duas categorias:
    1.^a lavradores; 2.^a fazendeiros.

    § 1.^o Entende-se por lavrador o cultivador de cereaes, e por fazendeiro
    o vinhateiro, o pomareiro e o que cumulativamente cultiva vinhas e
    pomares.

    § 2.^o Quando o grangeio do cultivador abranger ambas as categorias, o
    mesmo cultivador será classificado conforme a importancia relativa
    d'esse grangeio em cada uma d'ellas.

    Artigo 7.^o Abrir-se-ha um titulo a cada um dos cultivadores do
    concelho, contendo o seu nome, a natureza e condições da cultura, que
    determinaram a sua categoria, e bem assim a verba do producto liquido
    ordinario da mesma cultura, á vista da ultima quota do tributo geral
    directo, em que o cultivador tiver sido tributado. A administração,
    porém, da Caixa recorrerá ás informações que julgar opportunas para
    verificar a exacção da verba, que todavia nunca poderá ser superior á
    que corresponde a quota do tributo directo.

    Artigo 8.^o A somma mutuada por cada cultivador, nunca poderá exceder a
    tres quartos da sua renda liquida averbada no registo.

    Artigo 9.^o Serão hypotheca especial do emprestimo os fructos do anno
    corrente, produzidos no predio ou predios cultivados pelo mutuario, e na
    falta d'estes os dos annos immediatos até o reembolso da divida.

    Artigo 10.^o Os emprestimos far-se-hão durante o decurso dos mezes de
    fevereiro a julho de cada anno, por uma vez na importancia de tres
    quartos da renda liquida do mutuario, ou por duas vezes em duas
    parcellas iguaes, que completem os ditos tres quartos, ou apenas por um
    terço da renda liquida do mesmo mutuario, tudo a arbitrio d'este.

    Artigo 11.^o Haverá um livro de talão, chamado do registo annual dos
    emprestimos, numerado e rubricado em todas as folhas pelos membros da
    direcção da Caixa, onde se registarão as ementas dos mesmos emprestimos.
    Estas ementas, que conterão um numero de ordem, o nome do mutuario e a
    quantia por que fica devedor, serão escriptas, datadas e sobscriptas
    pelo administrador da Caixa e assignadas pelos mutuarios ou por outra
    pessoa a seu rogo, e por uma testemunha quando o mutuario não souber
    escrever. No talão escrever-se-ha o numero de ordem, a quantia mutuada e
    data da transacção.

    § 1.^o Cada uma das ementas feitas da maneira determinada no precedente
    artigo, será lançada n'uma folha separadamente.

    § 2.^o As certidões passadas do livro das ementas pelo administrador da
    Caixa, e referendadas pelos membros da commissão e pelo administrador do
    concelho, terão para os effeitos legaes o valor de uma escriptura
    publica de divida.

    § 3.^o O exame do registo annual dos emprestimos é vedado a todas as
    pessoas estranhas á administração da Caixa, salvo ao administrador do
    concelho.

    § 4.^o Na escripturação da Caixa de Soccorros o numero de ordem
    substituirá sempre o nome do mutuario.

    Artigo 12.^o No fim do anno, ou antes se os cultivadores o quizerem,
    verificar-se-ha o reembolso da Caixa, capital e juro, devendo esse
    reembolso estar realisado dentro do mez de janeiro immediato.
    Entregar-se-ha a cada mutuario como quitação a ementa ou ementas, que
    lhe forem relativas cortadas dos respectivos talões.

    Artigo 13.^o A acção e direito da Caixa de Soccorros terá a preferencia
    a outra qualquer acção e direito particular, sobre os fructos do anno em
    que foi contraído o emprestimo. Exceptua-se a acção da fazenda publica
    pelos impostos devidos.

    Artigo 14.^o Ninguem poderá levantar por titulo de compra, troca, cessão
    ou outro qualquer contracto, os fructos do predio rustico cultivados
    pelos individuos designados nos artigo 5.^o e 6.^o, sem que o cultivador
    lhe apresente certidão do estado da sua conta com a Caixa de Soccorros.

    § 1.^o Estas certidões serão rubricadas pelos membros da direção da
    Caixa, e passadas gratuitamente pelo administrador da mesma, e só ao
    cultivador interessado. Se a certidão declarar este em divida, o
    comprador dos fructos será obrigado a entrar na Caixa com a importancia,
    capital e juro, da dita divida, pagando ao cultivador a somma
    correspondente a essa importancia com o recibo respectivo. Se não
    cumprir o disposto n'este artigo, ficará responsavel pela divida,
    capital e juro.

    § 2.^o Se o contracto de compra ou de outra qualquer especie, e o
    levantamento dos fructos tiver sido feito occultamente, aquelle que
    houver feito o contracto ou recebido os fructos, ficará não só
    responsavel pela divida, capital e juro, mas tambem sujeito a uma multa
    de 20 por cento da mesma divida para o official da camara ou da
    administração, que descobrir o facto, ou para outro qualquer individuo
    que venha denuncial-o á direcção da Caixa.

    § 3.^o Se o cultivador tiver vendido os fructos a comprador transeunte e
    desconhecido, sendo por este levantados os mesmos fructos, ficará o dito
    cultivador incurso no crime de burla, e sujeito ás penas das leis.

    § 4.^o Aos cultivadores do concelho, que não houverem recebido
    emprestimos da Caixa, enviar-se-ha a certidão corrente n'esse anno até
    ao dia 30 de agosto, embora elles não a hajam anteriormente exigido.

    Artigo 15.^o Os cultivadores que mudarem de predio serão obrigados a dar
    aviso á administração da Caixa, e a declarar a importancia do seu novo
    grangeio e do rendimento liquido d'elle. Os que não o fizerem, ficarão
    inhabilitados por dous annos para receber emprestimos da Caixa.

    Artigo 16.^o Todos os annos, depois de concluido o lançamento dos
    tributos geraes directos, o administrador do concelho communicará á
    direcção da Caixa as alterações que houverem occorrido nas respectivas
    quotas de repartição, em relação aos cultivadores do concelho. Dadas
    essas alterações, mudar-se-ha no registo a verba, até a qual póde subir
    o emprestimo ao respectivo cultivador.

    Artigo 17.^o Acontecendo que o total das verbas pedidas pelos
    cultivadores exceda os recursos da Caixa, a preferencia será dada em
    razão ascendente da menor renda liquida para a maior.

    Artigo 18.^o Se qualquer cultivador do concelho fôr eleito vereador não
    poderá, em quanto exercer esse cargo, ser mutuario de somma alguma
    havida da Caixa de Soccorros Agricolas.

    Artigo 19.^o A nenhum dos mutuarios individualmente poderá a
    administração da Caixa espaçar o prazo fatal do reembolso no fim do
    anno. Quando por motivo de escacez das colheitas, ou de outra calamidade
    publica, se reputar necessaria a concessão de móra, a camara resolverá
    essa concessão, e fundamentando-a a offerecerá á sancção do Conselho de
    Districto. Sendo por este approvada, gosarão do beneficio da móra todos
    os mutuarios que d'ella quizerem aproveitar-se. Se a camara, porém
    entender que as circumstancias aconselham que se faca a dita concessão,
    ou só á classe dos cultivadores de cereaes, ou só á dos fazendeiros,
    conceder-se-ha a essa classe a móra especial com approvação do Conselho
    de Districto, sob a mesma condição de nunca ser individual.

    § 1.^o A móra entende-se em todo o caso para o capital; o juro será pago
    no prazo prefixo.

    § 2.^o O pagamento da divida não poderá ser exigido nos annos
    subsequentes, senão pela decima parte da renda liquida do cultivador,
    que se calculará com abatimento da mesma decima parte para o effeito de
    novos emprestimos.

    § 3.^o São hypothecas d'esta divida os bens de raiz do
    cultivador-proprietario, e os do cultivador-rendeiro, se os tiver. Se
    este não os tiver, sel-o-hão os seus bens moveis e semoventes, sendo
    além d'isso obrigado a dar fiador idoneo á divida.

    § 4.^o Estas dividas não vencerão juro, e a acção e direito da Caixa
    para as cobrar serão os mesmos da fazenda publica.

    Artigo 20.^o Para supprir até onde fôr possivel o desfalque do fundo
    pala móra, dada a hypothese do artigo antecedente, a Caixa tomará um
    emprestimo dentro das seguintes limitações:

    1.^a O total do emprestimo será equivalente ao capital representado por
    dous terços do rendimento liquido da Caixa, considerados como juro, os
    quaes effectivamente ficarão applicados ao pagamento do juro do
    emprestimo.

    2.^a O terço restante do rendimento liquido ficará destinado á
    amortisação, bem como o remanescente annual dos dous terços applicados
    para o pagamento do juro.

    3.^a A camara, sobre proposta da direcção, submetterá o contracto do
    emprestimo á sancção legal, na forma do artigo 103.^o do Codigo
    Administrativo.

    Artigo 21.^o Os membros da direcção da Caixa serão responsaveis pelos
    actos da sua gerencia, remettendo annualmente até o mez de março uma
    conta especificada das transacções operadas no anno anterior, para o
    Conselho de Districto examinar se a lei foi cumprida, e impôr a
    responsabilidade á direcção.

    Artigo 22.^o Haverá um administrador com o vencimento annual de 300$000
    reis, a quem pertencerá o meneio de todos os negocios da Caixa que lhe
    forem incumbidos pelo respectivo regulamento. Os zeladores da camara
    servirão por turno de contínuos, e o procurador da mesma camara servirá
    de agente forense, mediante uma gratificação annual arbitrada pela
    camara, e approvada pelo Conselho de Districto, a qual nunca excederá a
    20$000 reis. Quando trabalhos extraordinarios o exigirem, a direcção
    requisitará da camara o serviço de um ou mais amanuenses da secretaria
    da mesma camara.

    Artigo 23.^o O administrador da Caixa será nomeado pela camara, que lhe
    exigirá fiança idonea no valor de 3:000$000 reis; só, porém, poderá ser
    demittido por uma resolução do Conselho de Districto, sobre proposta da
    direcção, approvado pela camara, a qual aliás o póde suspender, havendo
    para isso proposta da direcção.

    Artigo 24.^o Os vencimentos acima referidos e mais despezas da Caixa
    serão pagos pelo seu rendimento e emquanto este para isso não chegar,
    será completada a somma total da despeza pelo cofre da camara.

    Artigo 25.^o O rendimento da Caixa, deduzidas as despezas da sua
    gerencia, e fóra do caso previsto no artigo 20.^o, será exclusivamente
    applicado, a arbitrio da camara, aos seguintes objectos: 1.^o á
    manutenção das escholas primarias municipaes de 1.^o ou de 2.^o grau;
    2.^o à compra de sementes, cuja introduccão se repute util, para serem
    gratuitamente distribuidas aos cultivadores, que quizerem tentar a sua
    cultura; 3.^o á compra de instrumentos, machinas ou utensilios
    agricolas, com as mesmas condições e fins; 4.^o á sementeira ou plantio
    de pinhaes ou mattas nos baldios ou terrenos de inferior qualidade,
    pertencentes ao concelho, ou adquiridos por elle para tal fim.

    § _unico_. Estas applicações só se verificarão depois de completo o
    fundo da Caixa. Até ahi o seu rendimento liquido será n'elle
    encorporado.

    Artigo 26.^o A camara fará os regulamentos opportunos para a boa
    gerencia da Caixa, os quaes terão vigor depois de approvados pelo
    Conselho de Districto.

    Camara de Belem, 27 de março de 1855.

    _Alexandre Herculano_.

    SOBRE A QUESTÃO DOS FORAES

    1858

    Meu amigo.–Sinto que as primeiras linhas que escrevo para o seu jornal,
    e que escrevo e escreverei para satisfazer ao desejo que me manifestou,
    de que o ajudasse na sua util empreza conforme as minhas escassas
    possibilidades, seja para rectificar idéas ahi contidas e que me parecem
    pouco exactas. São as de uma correspondencia insérta a paginas 94 do
    1.^o volume do Archivo. Pondera-se n'aquella correspondencia a
    necessidade de uma nova lei de Foraes. Não sei até que ponto essa nova
    lei é possivel, depois de tantos factos consummados em harmonia com a
    carta de lei de 22 de junho de 1846. Quando medito nas difficuldades,
    nas injustiças relativas, nas incertezas que resultariam de novas
    providencias contrarias ás d'aquella lei, eu, que não recuo facilmente
    diante das consequencias de commettimentos de tal ordem, quando se
    tracta de grandes reformas, de grandes actos de justiça social, titubeio
    perante as hypotheses que prevejo se dariam quando se tratasse de
    legislar com mais liberal espirito sobre tão grave assumpto, e faço
    votos para que os legisladores que tentarem tal empreza, achem a solução
    racional de um problema, que a meus olhos não a tem das mais faceis.

    A lei de 1846 é uma lei reaccionaria, profundamente reaccionaria. É a
    explosão da guerra occulta feita por interesses illegitimos ao grande
    acto de justiça nacional, chamado o decreto de 13 de agosto de 1832,
    pensamento talvez o mais grandioso da dictadura do Duque de Bragança, a
    que só faltaram desenvolvimento e provisões, que facilitassem a sua
    execução, falta que subministrou pretextos ao espirito de reacção para o
    falsificar e annullar em grande parte. A lei de 1846 não me inspira só
    hostilidade; inspira-me indignação. Mas quando uma lei tem actuado
    durante doze annos sobre o modo de ser de uma grande parte da
    propriedade territorial do paiz, quando tem regulado milhares de
    contractos, servido de norma a milhares de sentenças, influido em
    milhares de successões, determinado para mais ou para menos milhares de
    fortunas, pretender alteral-a póde não ser uma grande temeridade, mas
    requer por certo uma alta força de intelligencia, e uma circumspecção
    pouco vulgar.

    Mas o que ha mais grave na correspondencia que o meu amigo publicou é
    uma outra circumstancia. Adopta-se ahi um erro analogo ao que produziu
    as peiores disposições da lei de 22 de junho, se abstrahirmos do seu
    pensamento fundamental, o salvar tudo o que, sem extremo escandalo,
    fosse possivel salvar das velhas extorsões dominicaes. O pensamento,
    infelizmente mal desenvolvido, do decreto de 13 de agosto era libertar o
    paiz do nosso primitivo systema de renda publica, derivada por abusos de
    seculos para a algibeira de particulares, e substituido em relação ao
    estado por outro systema de renda, o que trouxera uma situação
    intoleravel para a maior parte da propriedade territorial, a solução de
    duas series de impostos uma só das quaes chegava aos cofres do erario. O
    decreto de 13 de agosto supprimia a serie primitiva, a serie delapidada.
    Era uma idéa simples, clara, justa em these. O mal veiu da
    insufficiencia dos meios na sua applicação á hypothese. O decreto de 13
    de agosto não tivera, não podia ter em mira offender contractos
    particulares sobre propriedade patrimonial: o que cumpria em qualquer
    lei posterior tendente a esclarecel-o e a rectifical-o, era reformar as
    suas provisões que de qualquer modo dessem azo a ser offendido o direito
    privado, e por outra parte completar aquellas que não bastassem a
    extirpar o grande abuso, a immensa extorsão publica a que se pozera o
    machado. Para isso tornava-se necessario designar quaes caracteres,
    quaes condições, na falta de provas directas e incontestaveis, serviriam
    para demonstrar ou para se presumir que tal fôro, tal censo, tal direito
    dominical procedia de um contracto expresso ou tacito com o estado. Onde
    e quando as condições e os caracteres fossem demonstrativos, a prova em
    contrario deveria ser supprimida; onde e quando produzissem só
    presumpções, admittir-se-hia essa prova em contrario. Tudo o mais
    reputar-se-hia resultado de contractos particulares, salvo tambem o
    direito do colono, emphyteuta, ou censuario a provar a origem publica do
    onus ligado ao predio que possuia. O principio da abolição, dada essa
    origem publica, não podia ter nem excepção nem limites. A lei devia
    reconhecer a indemnisação pelo estado na unica hypothese em que ella era
    justa, a da venda de direitos dominicaes feita pela corôa. A verba total
    não havia de ser demasiado avultada; e que o fosse era uma divida que se
    pagava. As gerações são solidarias.

    Em vez d'isto, appellou-se para a distincção cerebrina de _titulo
    generico_ e _titulo especial_, que vinha tanto para o assumpto, como uma
    sura do alcorão, ou um artigo das leis de Manú; e á sombra d'esta
    distincção que não distinguia nada, confundiu-se tudo, e restaurou-se
    quasi tudo fazendo-se aos colonos originariamente da corôa, o grande
    favor de poderem remir o onus dando por elle (considerado como juro ou
    renda) o equivalente em capital. O que os legisladores quizeram bem
    averiguado foi se a transmissão do uso da terra, reservado o dominio,
    fôra escripta para servir de titulo a muitos colonos ou a um só, se n'um
    se em muitos diplomas. Era uma curiosidade archeologica sobre a
    abundancia ou a raridade do pergaminho na idade media, que poderia
    subministrar um capitulo interessante a alguma nova edição da _Economia
    Politica del Medio Evo_, do meu amigo Luiz Cibrario.

    É este erro, esta confusão do direito privado com o publico, mas em
    sentido opposto ao da lei de 22 de junho, que me parece conter-se na
    correspondencia de que falo. Rigorosamente, e considerado na sua
    verdadeira indole, o decreto de 13 de agosto estatuiu sobre uma questão
    de direito publico. Consideral-o de outro modo é desconhecer os seus
    fins e o seu alcance. Libertar a terra é exemptal-a de onus injustos, de
    vexames, de encargos impostos pela força; não é annullar contractos
    livres particulares ácerca da propriedade patrimonial. Quando se pede
    uma lei que crie para emphyteutas e sub-emphyteutas, sem excepção, o
    direito de _remir todos os fóros_, pede-se que a lei desfaça contractos
    livremente debatidos, espontaneamente celebrados, e conformes na sua
    essencia aos principios de justiça absoluta. O canon emphyteutico, o
    censo, qualquer quota no producto da terra que o senhorio directo de um
    predio, de accordo com o colono, reserva para si transmittindo o dominio
    directo, é em rigor a renda de um capital, ou aluguer perpétuo de um
    instrumento de producção. Póde a lei expropriar o dono d'esse
    instrumento para utilidade particular, e por um preço taxado de antemão
    por ella? Se tal se houvesse de admittir porque não se admittiria a
    regra contraria? Porque não revocaria a si o senhorio directo o capital,
    o instrumento, pagando as bemfeitorias ao colono? Suppondo justa a
    primeira prescripção, porque se reputaria injusta a segunda?

    Repito: não sei se é possivel recuar no caminho que abriu a lei de 22 de
    junho. Se o é, se os fóros de Alpiarça pertencem á categoria d'aquelles
    que o decreto da primeira dictadura queria abolidos, e se a lei
    reaccionaria e insensata que destruiu, ao menos em parte, aquelle grande
    acto de justiça nacional, póde ainda ser substituida por outra mais
    conforme com o espirito d'esse acto, não é a remissão de taes fóros que
    d'ella deve resultar, quer o senhorio directo pertença hoje ao estado,
    quer a corporações, quer a individuos; é a suppressão, a abolição
    completa. Quanto a fóros em bens de origem patrimonial, é impossivel
    acceitar a doutrina da correspondencia.

    Escrevo estas linhas, meu amigo, ao correr da penna e sem os
    desenvolvimentos que requeria a gravidade do assumpto, porque antevejo
    os inconvenientes sociaes da propagação de taes doutrinas. Para mim o
    grande meio de progresso na cultivação do paiz, da melhor distribuição
    da população, do melhoramento das classes laboriosas, do chamamento do
    proletario ao goso da propriedade, e por ella aos bons costumes e ao
    amor da familia e da patria, é a emphyteuse. A meus olhos, a emphyteuse
    é o unico meio de obstar aos inconvenientes da divisão indefinita do
    solo, e ao mesmo tempo de combater os males que resultam da existencia
    dos latifundios, sobretudo dos latifundios amortisados, esterilisados
    pela instituição vincular. Mas se a opinião que proclama o direito de
    remissão a bel-prazer do emphyteuta, ameaçar de contínuo o dominio
    directo, todas as providencias que se hajam de tomar, que se devem
    tomar, para impellir indirectamente os donos de vastos tractos de terra
    a retalhal-os por aforamentos, serão baldadas. Os possuidores de
    latifundios mal cultivados preferirão o atrazamento agricola, os menores
    redditos actuaes á espoliação futura, e o paiz difficilmente sahirá de
    uma situação economicamente mais embaraçosa do que muitos crêem, e que
    nos horisontes do futuro se me representa assaz carregada.

    Que o direito emphyteutico seja simplificado; que se dispa de todos os
    accessorios de que o revestiram os costumes e as idéas de epochas
    barbaras, é necessario e justo: que se vicie na sua essencia, n'aquillo
    em que é legitimo, sensato, benefico e civilisador, é absurdo. A lei que
    tal ordenasse seria ao mesmo tempo espoliadora e inepta.

    Julho, 10 de 1858.

    _A. Herculano_.

    FIM DO VOLUME VII.

    NOTAS

    [1] O novo artigo não veio a publico.

    _Nota dos editores_.

    [2] Este artigo foi publicado em 22 de agosto e o primeiro em 7 do mesmo
    mez.

    _Nota dos editores_.

    INDICE

    Advertencia

    Duas epochas e dous monumentos ou a granja real de Mafra

    Breves reflexões sobre alguns pontos de economia agricola

    A Granja do Calhariz

    Projecto de decreto

    _O Paiz e A Nação_

    Representação da Camara Municipal de Belem ao governo

    Representação da Camara Municipal de Belem ao parlamento

    Projecto de Caixa de Soccorros Agricolas

    Sobre a questão dos foraes

  • Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 05

    Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 05

    Aproximadamente 58.014 palavras.

    Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt),
    Nuno Lopes (Projecto Enclave) and edited by Rita Farinha

    OPUSCULOS V

    *OPUSCULOS*

    POR

    A. HERCULANO

    SOCIO DE MERITO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE LISBOA

    SOCIO ESTRANGEIRO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE BAVIERA

    SOCIO CORRESPONDENTE DA R. ACADEMIA DA HISTORIA DE MADRID DO INSTITUTO
    DE FRANÇA (ACADEMIA DAS INSCRIPÇÕES) DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE
    TURIM DA SOCIEDADE HISTORICA DE NOVA YORK, ETC.

    *TOMO V*

    CONTROVERSIAS E ESTUDOS HISTORICOS

    TOMO II

    LISBOA

    VIUVA BERTRAND & C.^a SUCCESSORES CARVALHO & C.^a

    73, Chiado, 75

    M DCCC LXXX VI

    COIMBRA–IMPRENSA DA UNIVERSIDADE

    AO

    ILL-^{MO} E EX.^{MO} SENHOR CONSELHEIRO

    ANTONIO DE SERPA PIMENTEL

    DEDICAM

    OS EDITORES

    Compõe-se este volume de tres escriptos já impressos em outras épochas,
    mas provavemente desconhecidos da maior parte dos leitores actuaes, e
    bem assim de um notavel estudo inedito ácerca do Feudalismo, que o
    auctor não chegou a concluir, e em que trabalhava quando a morte o
    surprehendeu.

    Pouco diremos a respeito d'aquellas primeiras composições.

    As noticias da vida e obras de alguns historiadores portuguezes são
    extrahidas do _Panorama_. Destinadas, apenas, a satisfazer a curiosidade
    dos leitores habituaes d'este genero de publicações, nas quaes a
    variedade e a concisão são requisitos essenciaes, essas noticias não
    teem todo o desenvolvimento que o auctor hoje lhes daria, se houvesse de
    aproveital-as para algum d'estes volumes; mas, apezar d'isso, cremos que
    o leitor folgará de as encontrar aqui reunidas, não só pelo seu
    indisputavel merecimento, mas tambem por serem invocadas em todos os
    artigos do _Diccionario bibliographico_, onde coube ao laborioso
    Innocencio da Silva tractar dos escriptores a que ellas dizem respeito.

    As _Cartas sobre a historia de Portugal_ sairam á luz nos tomos 1.^o e
    2.^o da _Revista universal lisbonense_, precedidas das seguintes
    palavras do illustre redactor d'este semanario: «Temos em nosso poder a
    preciosa serie de cartas, cuja primeira publicamos hoje. N'ellas
    descobre o nosso infatigavel e eloquentissimo antiquario, o sr.
    Alexandre Herculano, um grande numero de importantes verdades ácerca dos
    principios de Portugal–da constituição, natureza e relações mutuas das
    classes, n'esses tempos tão obscuros e tão pouco averiguados. N'estes
    escriptos, que não são mais do que o preludio de uma obra, que sem falta
    sairá cabal, sobre a materia, faz o sr. Herculano á sua pátria, e
    geralmente á sciencia, um presente de altissima valia, de que a _Revista
    universal_ devidamente aprecia a honra de ser mensageira.» Com effeito,
    estas cartas, publicadas em dezeseis numeros d'este semanario, desde 7
    de abril de 1842 até 3 de novembro do mesmo anno, foram então
    interrompidas, porque o auctor, conscio já das proprias forças, dedicou
    d'ahi em deante todos os cuidados ao immenso valor da obra monumental,
    que lhe havia de conquistar o primeiro logar entre os historiadores do
    seu paiz.

    O terceiro dos opusculos agora reunidos, isto é, a carta em defeza de
    algumas asserções do primeiro volume da _Historia de Portugal_,
    appareceu, tambem, na _Revista universal_. O auctor mantem e defende as
    suas idéas, combatendo um artigo de critica publicado em 2 de abril de
    1846, e firmado com as iniciaes D. S. M. de Vilhena Saldanha, que
    suppômos serem a assignatura do respeitavel ancião D. Sancho Manuel,
    fallecido em 30 de maio de 1880. Como esta carta não trazia titulo, e
    nós tinhamos de lhe dar algum, pareceu-nos conveniente alludir á pessoa
    que escreveu o artigo a que ella responde: tanto mais que a cortezia de
    ambas as composições tornava desnecessario qualquer resguardo.

    Até aqui falámos de trabalhos que já tinham visto a luz publica, e a
    respeito dos quaes é sufficiente o que fica dicto. Agora, porém,
    chegados á parte inedita e mais valiosa do presente volume, procuraremos
    satisfazer a justa curiosidade do leitor, descrevendo minuciosamente o
    manuscripto, e declarando o systema que seguimos ao dal-o à estampa.

    O luminoso estudo ácerca da existencia ou não existencia do feudalismo
    em Portugal compõe-se (no estado em que chegou ás nossas mãos) de oito
    capitulos completos e um apenas começado, além de algumas folhas
    avulsas, de que adeante nos occuparemos.

    Os primeiros seis, que neste livros abrangem as paginas 193 a 242, foram
    escriptos em 1875, isto é, dois annos depois da publicação do _Ensaio
    sobre la historia de la propriedad territorial en España_, como o auctor
    declara, e chegaram a estar no escriptorio da _Revista occidental_, onde
    todavia não poderam sair impressos, por ter acabado esta _Revista_ em
    julho do mesmo anno. Acham-se lançados em meias folhas de papel almaço,
    escriptas de um só lado, e promptos para a imprensa, não offerecendo,
    por isso, difficuldade alguma de leitura. O grande escriptor calculava
    n'esse tempo ser esta a terça parte do que lhe seria necessario dizer em
    relação a tão interessante e debatido ponto historico.

    Ou por essa occasião ou pouco tempo depois, accrescentou os capitulos
    VII e VIII, não já em meias folhas, mas em oitavos do mesmo papel,
    formato que lhe permittia, não só intercalar quaesquer novas provas ou
    argumentos, que lhe fossem occorrendo, mas ainda dar diversa collocação
    aos paragraphos, se de futuro a deducção das idéas e a harmonia da
    composição o exigissem.

    Incommodos de saude mais ou menos graves, trabalhos litterarios de outra
    indole, e varios negocios domesticos, impediram então o auctor de
    proseguir n'este importante assumpto, e foram causa de não possuirmos
    hoje completo mais um livro serio, coisa de extrema raridade nos tempos
    que vão correndo.

    Quando, d'ahi a muitos mezes, recuperada a saude e dispondo do tempo
    necessario, pôde dedicar-se de novo ao exame da obra do sr. Cárdenas,
    tudo nos persuade de que trazia profundamente alterado o plano primitivo
    do seu trabalho. Achou-se, sem duvida, apertado e tolhido nos estreitos
    limites em que a principio o circumscrevera, e resolveu abrir mais largo
    campo, onde podesse desenvolver a grande copia de noticias que
    enthezourara, e que directa ou indirectamente se prendian com o assumpto
    em discussão.

    Foi este, a nosso, ver, o motivo por que, voltando atraz, tomou nota de
    numerosas proposições do _Ensayo_, transcrevendo as passsagens
    respectivas em meias folhas de papel de pequeno formato, e pondo no alto
    da primeira a cota: «_IV_ (_Continuação_)». O leitor encontrará este
    additamento desde paginas 242 até o fim do capitulo.

    Resolvido, pois, a dar maior amplidão ao seu trabalho, tractou o auctor
    de reconstruir os capitulos VII e VIII, que hoje apresentam em mais de
    um logar graves difficuldades de leitura, por causa das transposições,
    emendas, entrelinhas e accrescentamentos, de que estão cheios os
    respectivos borrões.

    Apezar d'isso, o capitulo VII–o magistral estudo do _Codigo
    wisigothico_–póde considerar-se completamente organisado, tanto na
    doutrina como na forma, embora deixe vêr, aqui ou alli, «as arestas
    vivas do cunho», porque o auctor não chegou a pôr-lhe a ultima lima.

    Não acontece, porém, outro tanto com o VIII, destinado ao estudo do
    _Direito consuetudinario_. Este capitulo compõe-se de 32 oitavos de
    papel, que a principio tinham tido outra ordem, e cuja disposição
    definitiva não ficou claramente marcada senão até o 17, isto é, até
    paginas 283 d'este livro. D'ahi em deante os embaraços crescem, porque
    alguns d'esses oitavos não teem numeração antiga nem moderna, e,
    formando sentido completo, sem dependencia de outros anteriores ou
    posteriores, tornam sobremodo difficil acertar com o seu verdadeiro
    logar: quer-nos parecer, porém, que não contrariámos demasiado a
    intenção do auctor, dando-lhes a ordem em que vão impressos.

    Além dos já referidos, encontrámos uma serie de oitavos numerados de 1
    até 10, mas sem designação do capitulo a que eram destinados. O ultimo
    d'elles está acabar, o que indica que foi ahi que se interrompeu o
    trabalho do insigne escriptor. Por esta circumstancia, e tambem por ser
    a materia de que ia tractar (a divisão da propriedade territorial) a que
    justamente se devia esperar, na ordem dos apontamentos que tomara do
    livro do sr. Cárdenas, não tivemos duvida em os considerar como
    principio do capitulo IX, marcando, comtudo, entre paretheses este
    numero de ordem.

    Restavam ainda duas folhas da primeira composição, que não tinham sido
    aproveitadas, nem podiamos introduzir no texto, embora se conheça que
    deviam fazer do capitulo que ficou por acabar. São, porém, tão
    importantes, e formam por si sós um corpo de doutrina tão perfeito, que
    julgamos prestar um serviço, formando com ellas o Esclarecemento A, no
    fim do volume.

    No mesmo caso está uma nota relativa á intelligencia que se deve dar á
    palavra _Feudo_, nas raras vezes que apparece nos documentos d'aquella
    edade. Esta nota estava lançada tambem em folhas inteiras, e tanto pode
    servir de elucidação ao que se diz na Carta 3.^a sobre a Historia de
    Portugal (pag. 79), como de prova da affirmativa do auctor a pag. 199,
    onde fizemos a competente chamada. Constitue o Esclarecimento B.

    Resumindo: os primeiros seis capitulos estavam promptos para serem
    impressos, segundo o plano primitivo; a continuação do VI, o VII e o
    VIII, conservavam-se no primeiro borrão, e portanto dependentes de
    ulteriores modificações, tanto na sua disposição geral, como no estylo,
    que não tinha recebido ainda as ultimas correcções; o que reputamos IX
    ficou apenas principiado; e as folhas avulsas, que aproveitámos para
    Esclarecimento, esperavam o seu futuro destino.

    Se attendermos, agora, ás doutrinas contidas nos extractos do livro do
    sr. Cárdenas, com que o auctor ampliou o capitulo VI do seu trabalho,
    reconheceremos que elle se propunha estudar detidamente a divisão da
    propriedade territorial, as relações das diversas classes entre si, o
    serviço militar, a administração da justiça, o poder central e seus
    representantes locaes; a organisação social, em summa, do nosso paíz
    n'aquellas épochas remotas. Já não era, pois, um simples opusculo que
    tinhamos a esperar da sua penna auctorisada: era um livro precioso, que
    viria supprir, em grande parte, o V volume da _Historia de Portugal_, se
    não no desenvolvimento e discussão erudita de todos os pontos
    controvertidos ou ignorados, com certeza nos resultados finaes a que
    chegara o seu longo estudo e admiravel lucidez de espirito.

    Entre Fernão Lopes e fr. Antonio Brandão mediaram dois seculos. Entre o
    douto cisterciense e o auctor d'este livro outros dois, e bem medidos.
    Oxalá que, d'esta vez, seja mais curto o prazo, em que tenha de
    apparecer o continuador idoneo dos trabalhos, que Alexandre Herculano
    deixou interrompidos.

    (1881).

    _Os editores_.

    HISTORIADORES PORTUGUEZES

    1839–1840

    I

    *Fernão Lopes*

    Tão raros ou tão pouco lido andam os antigos escriptores portuguezes,
    que muitas pessoas ha, não de todo hospedes nas letras, que apenas de
    nome os conhecem, e frequentes vezes nem de nome. Grave mal, por certo,
    e mui de lamentar é tal e tão ingrato desamor áquelles que assim lidaram
    em suas doutas vigilias ou para nos transmittirem as heroicas façanhas
    de nossos antepassados, ou para nos doutrinarem com virtuosos conselhos,
    ou para nos consolarem com um brado de poesia de mais singelas eras, ou,
    finalmente, para nos herdarem sua sciencia; que muita e boa a tiveram.
    Assustam os livros pesados e volumosos do tempo passado as almas debeis
    da geração presente: a aspereza e severidade do estylo e linguagem de
    nossos velhos escriptores offende o paladar mimoso dos affeitos ao
    polido e suave dos livros francezes. Sabemos assim quaes são os
    documentos em que estribam glorias alheias: ignoramos quaes sejam os da
    propria, ou, se os conhecemos, é porque estranhos nol-os apontam,
    viciando-os quasi sempre. Symptoma terrivel da decadencia de uma nação é
    este; porque o é da decadencia da nacionalidade, a peior de todas;
    porque tal symptoma só apparece no corpo social quando este está a ponto
    de dissolver-se, ou quando um despotismo ferrenho poz os homens ao livel
    dos brutos. Desenterra a Allemanha do pó dos cartorios e bibliothecas
    seus velhos chronicons, seus poemas dos Nibelungos e Minnesingers; os
    escriptores encarnam na poesia, no drama e na novella actual as
    tradições populares, as antigas glorias germanicas, e os costumes e
    opiniões que foram: o mesmo fazem a Inglaterra de hoje á velha
    Inglaterra, e a França de hoje á velha França: os povos do Norte saúdam
    o Edda e os Sagas da Irlanda, e interrogam com religioso respeito as
    pedras runicas, cobertas de musgos e sumidas no amago das selvas: todas
    as nações, emfim, querem alimentar-se e viver da propria substancia. E
    nós? Reimprimimos os nossos chronistas? Publicamos os nossos numerosos
    ineditos? Revolvemos os archivos? Estudamos os monumentos, as leis, os
    usos, as crenças, os livros, herdados de avoengos?

    Não.–Vamos todos os dias ás lojas dos livreiros saber se chegou alguma
    nova semsaboria de Paul de Kock; alguma exaggeração novelleira do
    pseudonymo Michel Massan; algum libello antisocial de Lamennais. Depois,
    corremos a derrubar monumentos, a converter em latrinas[1] ou tabernas
    os logares consagrados pela historia ou pela religião…

    E, depois, se vos perguntarem: de que nação sois? respondereis:
    Portuguezes!

    Callae-vos; que mentis desfaçadamente.

    Mas nós faremos lembrada, ao menos aqui, a nossa gloria litteraria.

    Como o pae da historia nacional, como o velho Fernão Lopes, começámos a
    escrever as memorias que d'elle restam moralisando primeiro, do mesmo
    modo que elle moralisava antes de entrar na materia. Não se nos leve a
    mal um defeito, se o é, em que já caiu o nosso principal chronista,
    quando é d'elle que devemos fallar.

    Escassas são as noticias que chegaram até nós ácerca de Fernão Lopes. A
    epocha do seu nascimento ignora-se; mas parece que devia ser na da
    gloriosa revolução de 1380, ou alguns annos antes. O abbade Barbosa e
    outros dizem que fôra secretario d'el-rei D. Duarte, quando infante, e
    de seu irmão D. Fernando, e cavalleiro da casa do infante D. Henrique.
    Em 1418 foi encarregado por D. João I da guarda do real archivo, cargo
    que até então andava unido a um emprego da fazenda publica.

    Por trinta e seis annos serviu Fernão Lopes de guarda dos archivos, e de
    todo este tempo existem varias certidões, passadas por elle, _das
    escripturas da torre do castello da cidade de Lisboa_. Depois de tão
    largo periodo foi substituido por Gomes Eannes de Azurara, que D.
    Affonso V nomeou em logar de Fernão Lopes, _por este ser já tam velho e
    flaco, que per sy non podia bem servir o dicto officio_, dando-o a
    outrem _por seu prazimento e por fazer a elle mercê, como é rezom de se
    dar aos boõs servidores_, segundo diz a carta de nomeação de Azurara. A
    epocha da morte do chronista ignora-se absolutamente; mas sabe-se que
    ainda vivia em 1459, cinco annos depois de ter sido exonerado do cargo
    de guarda do archivo.

    Quando D. Duarte subiu ao throno (1434) deu _carrego a Fernão Lopes, seu
    escripvam, de poer em caronyca as estorias dos Reys, que antygamente em
    Portugal forom; e esso mesmo os grandes feytos e altos do muy vertuoso e
    de grandes vertudes El-Rey seu senhor e padre_ (D. João I), dando-lhe
    por isto quatorze mil libras cada anno, mercê que foi confirmada em nome
    do moço principe, por influencia do infante D. Pedro, tão sabio quanto
    infeliz, pae e protector das letras.

    Foi, com effeito, Fernão Lopes o primeiro que poz em _caronyca_, isto é,
    em ordem, as _estorias_ da primeira dynastia dos reis portuguezes, e fez
    a bella Chronica de D. João I. Até ahi havia apenas algumas memorias
    espalhadas, alguns breves compendios dos successos publicos. N'este
    numero deve entrar um manuscripto que existia em Sancta Cruz de Coimbra,
    feito, segundo parece, nos fins do seculo XIV, em que mui de leve se
    mencionam os acontecimentos mais notaveis dos tres primeiros reinados, e
    d'elle talvez se houvessem de contar as antigas chronicas, que Duarte
    Nunes reformou, ou estragou, e que muito desconfiamos sejam as mesmas
    que _colligiu_ Acenheiro no principio do seculo XVI, e que serviram de
    fundamento a Ruy de Pina e Galvão: sobre tudo o que pesam ainda muitas
    sombras, ao menos para nós, parecendo-nos, todavia, indubitavel que
    alguma cousa havia escripta antes de Fernão Lopes; porque a alguma cousa
    eram essas _estorias_ dos antigos reis, mencionadas na carta de nomeação
    de Fernão Lopes, e que n'esse documento se distinguem claramente dos
    _feitos_ de D. João I.

    De quanto Fernão Lopes escreveu, o que hoje existe conhecido e impresso
    é a Chronica de D. Pedro I, a de D. Fernando e a D. João I. Comtudo, por
    averiguado se tem que elle escrevera as dos outros reis anteriores, e
    até Damião de Goes lhe attribue uma de D. Duarte. Seja o que for, é
    certo que para a gloria de Fernão Lopes são monumentos sobejos as tres
    chronicas que d'elle existem.

    O nosso celebre critico Francisco Dias, o homem, talvez, de mais apurado
    engenho que Portugal tem tido para avaliar os meritos de escriptores,
    diz que Fernão Lopes fôra o primeiro, na moderna Europa, que dignamente
    escrevera a historia: com razão o diz, e poderia accrescentar que poucos
    homens teem _nascido_ historiadores como Fernão Lopes. Se em tempos mais
    modernos e mais civilisados houvera vivido e escripto, não teriamos por
    certo que invejar ás outras nações nenhum dos seus historiadores. Além
    do primor com que trabalhou sempre por apurar os successos politicos,
    Lopes adivinhou os principios da moderna historia: a _vida_ dos tempos
    de que escreveu transmittiu-a á posteridade, e não, como outros fizeram,
    sómente um esqueleto de successos politicos e de nomes celebres. Nas
    chronicas de Fernão Lopes não ha só historia: ha poesia e drama: ha a
    edade media com sua fé, seu enthusiasmo, seu amor de gloria. N'isto se
    parece com o quasi contemporaneo chronista francez Froissart; mas em
    todos esses dotes lhe leva conhecida vantagem. Com isto, e com chamar a
    Fernão Lopes o Homero da grande epopea das glorias portuguezas, teremos
    feito a tão illustre varão o mais cabal elogio.

    II

    *Gomes Eannes de Azurara*

    A Fernão Lopes succedeu no cargo de guarda dos archivos Gomes Eannes de
    Azurara, como dissemos no primeiro artigo, com o consentimento d'elle,
    que por velho e doente de boa vontade resignou o emprego, que tão
    dignamente servira. Foi Gomes Eannes filho de João Eannes de Zurara ou
    de Azurara, conego de Evora e de Coimbra. Entrou, sendo mancebo, na
    ordem de cavalleria de Christo, onde chegou a ter o grau de commendador
    de Alcains, a qual commenda possuia em 1454, e que depois trocou pelas
    do Pinheiro-grande e da Granja de Ulmeiro, que achamos serem suas pelos
    annos de 1459.

    Parece que durante a sua mocidade Gomes Eannes, segundo o costume dos
    cavalheiros d'aquelles tempos, se occupou inteiramente no exercicio das
    armas, sem curar de instruir-se nas boas letras. Verdade é que o abbade
    Barbosa o faz erudito na historia desde mancebo; mas o mestre Matheus de
    Pisano, seu contemporaneo, preceptor de D. Affonso V e auctor de uma
    chronica da conquista de Ceuta, escripta em latim, diz que, sendo já de
    idade madura, se applicàra ao estudo, mas que até então fôra
    inteiramente hospede em litteratura.

    Foi depois d'esta epocha que Gomes Eannes entrou no serviço d'el-rei D.
    Affonso V, como guarda da Torre do Tombo, segundo se colhe da carta de
    sua nomeação, passada a 6 de Junho de 1454; como bibliothecario da
    livraria real fundada por aquelle monarcha, do que nos informa mestre
    Matheus na obra citada; e como encarregado de escrever varias chronicas
    das cousas portuguezas, conforme o diz o proprio Azurara no capitulo II
    da Chronica do conde D. Pedro de Menezes.

    Documentos d'aquelle tempo provam D. Affonso V fizera grande estimação
    de Gomes Eannes. Morava este em umas casas d'el-rei á porta do paço de
    Lisboa; tinha uma tença de doze mil reaes brancos; e fez-se-lhe mercê,
    em 1467, de uma capella que vagara para a corôa, graça esta que, como
    observa o abbade Corrêa da Serra, era n'aquelles tempos assaz
    extraordinaria. Doou-lhe, tambem, el-rei umas casas em Lisboa, do que se
    acha memoria no livro 3.^o dos Misticos. Antes d'isto, porém, Gomes
    Eannes era homem abastado, segundo se colhe de outros documentos coevos.

    Ácerca d'este chronista se conserva ainda uma lembrança curiosa no
    Archivo da Torre do Tombo. Em 1461 uma pelliteira viuva e rica, chamada
    Joanna Eannes, o adoptou por filho, constituindo-o seu herdeiro. O já
    citado abbade Corrêa nota, com razão, que tal adopção de um homem
    nobilitado por seus cargos e pela qualidade de cavalleiro, feita por uma
    plebea, era inteiramente opposta ás idêas do seculo XV, devendo-se por
    isso suspeitar que Azurara foi d'aquellas pessoas, para quem o respeito
    ao dinheiro é o principal de todos os respeitos.

    São incertissimas todas as datas relativas á vida de Gomes Eannes:
    apenas se póde dizer que vivera pelo meado do seculo XV. A maior parte
    das memorias que d'elle fallam não mencionam nem a epocha do seu
    nascimento, nem a da sua morte. Algumas ha que dizem fôra nomeado
    chronista em 1459: ignoramos se existe ainda a carta de tal nomeação;
    mas d'isso duvidamos. O que se póde affirmar é que Azurara acabou uma
    das suas chronicas (a do conde D. Pedro) em 1463, porque elle proprio o
    diz. Antes d'esta compozera a da tomada de Ceuta, que serve de terceira
    parte á de D. João I escripta pelo immortal Fernão Lopes; e depois
    d'ella a de D. Duarte de Menezes. Estas são as tres obras, que com
    certeza se podem attribuir a Azurara. Quer, todavia, Damião de Goes que
    na Chronica d'el-rei D. Duarte, attribuida vulgarmente a Ruy de Pina, e
    cuja melhor parte elle julga de Fernão Lopes, houvesse tambem alguma
    cousa de Gomes Eannes.

    Apesar da estimação e respeito que merecera Fernão Lopes aos seus
    contemporaneos, parece que o seu immediato successor lhe levou n'isso
    conhecida vantagem, posto que muito inferior lhe fosse em merito.
    Azurara, tendo de escrever sobre cousas de Africa, passou áquellas
    partes, e lá fez larga demora para conhecer miudamente os logares e
    circumstancias das façanhas que tinha de narrar. Estando alli, recebeu a
    celebre carta de D. Affonso V, que anda impressa no principio da
    Chronica de D. Duarte de Menezes. Este documento prova quão bella era a
    alma d'aquelle monarcha, a quem podemos sem receio chamar o ultimo rei
    cavalheiro, e cuja honrada memoria teem pretendido escurecer aquelles
    que só em seu filho encontram um grande homem. Vê-se nesta carta que D.
    Affonso entendia que uma penna vale bem um sceptro, e o engenho um
    throno. De irmão para irmão não houvera mais affavel e affectuosa
    linguagem, e mais generosas animações e mercês. Bem nos pêsa que não
    seja possivel, pela extensão d'esse documento, o lançal-o n'este logar;
    não para exemplo de reis, mas de quem mais do que elles carece de tão
    formosa lição, neste seculo que se diz allumiado, e em que ha homens que
    em nome da patria votam miseria e fome para àquelles que mais bem
    merécem.

    Do merecimento litterario de Gomes Eannes de Azurara diremos em breves
    palavras o que entendemos. Pode-se de algum modo comparar ao italiano
    Alfieri, posto que pareça pouco exacta qualquer comparação entre um
    auctor de chronicas e um poeta dramatico. E todavia muito ha em um que
    do outro se possa dizer: ambos chegaram á idade viril sem possuirem os
    rudimentos sequer das boas letras: nos escriptos de ambos apparece o
    resultado d'esta falta de educação litteraria: ha em um e outro certa
    inflexibilidade feroz e ausencia inteira d'aquellas graças de estylo que
    nascem do coração amaciado desde a infancia pela cultivação do espirito:
    as concepções nascem-lhes do entendimento, como Minerva da cabeça de
    Jupiter, cubertas, por assim dizer, de um arnez de ferro. Louva-se em
    Azurara, e de louvar talvez é, a sinceridade bravia, com que lança em
    rosto aos heroes, cujas façanhas escreve, os defeitos que tiveram, os
    erros e culpas em que cairam: n'isto se parece tambem, de certo modo,
    com Alfieri. Mas nós preferimos o systema de Froissant e Fernão Lopes:
    para cada um dos seus heroes havia n'estas almas generosas um typo ideal
    a que procuravam assemelhal-os, engrandecendo-os: e por ventura que mais
    proficua é assim a historia ao genero humano. Para acabarmos um
    parallelo, que poderiamos levar mais longe, notaremos a tendencia dos
    dois escriptores, que collocámos em frente um do outro, para
    _philosophar trivialidades_, e ostentar elegancias rhetoricas e
    erudições suadas para elles, impertinentes para os leitores. Move a riso
    ver o pobre Azurara a lidar em pôr claro como a luz do dia, com a
    auctoridade de S. Jeronymo, Sallustio, Fulgencio, e _casy todolos outros
    auctores_, que são temiveis as más linguas, como causa somno o observar
    os tractos que o illustre dramaturgo italiano dá ao juizo para nos fazer
    odiar a tyrannia, ácerca da qual escreveu um volume, cousa muito
    escusada na moderna litteratura. Todavia, em ambos elles a sinceridade
    das intenções suppre de algum modo a aridez e o vazio da obra.

    Posto, porém, que Azurara esteja em grau inferior a Fernão Lopes, não
    deixou de fazer com seus escriptos bom serviço à litteratura patria.
    João de Barros o tinha em subida conta, e até no estylo d'elle se
    comprazia. Não assim Damião de Goes, que foi o primeiro em notar-lhe as
    affectações rhetoricas. Infelizmente para Azurara, Goes era melhor juiz;
    e a posteridade, confirmando a sentença do perspicaz chronista de D.
    Manuel, rejeitou o parecer do historiador da India.

    III

    *Vasco Fernandes de Lucena–Ruy de Pina*

    O nome de Lucena parece vir pouco a ponto em uma noticia dos
    historiadores portuguezes, porque d'elle não resta uma só pagina
    _original_ sobre historia; mas julgamos dever fazer menção de Vasco
    Fernandes, não só por ter sido um dos homens mais celebres do seu tempo,
    como tambem, e principalmente, por ser d'entre elles o primeiro que,
    depois de Azurara, teve o cargo de chronista-mór. Encarregado de varias
    missões politicas nos reinados de D. Duarte, D. Affonso V e D. João II,
    e vivendo, por tal motivo, a maior parte da vida em paizes extranhos,
    occupado, além d'isso, quando residíu no reino, em grandes negocios
    d'estado, não pôde provavelmente occupar-se dos estudos historicos
    necessarios para poder desempenhar as obrigações do seu cargo, do qual
    fez desistencia em Ruy de Pina no anno de 1497.

    Escreveu, todavia, Vasco de Lucena varias obras que, ou se perderam, ou
    jazem manuscriptas em parte que se não sabe. Da _Instrucção para
    Principes_, de Paulo Vergerio, traduzida por elle de ordem do infante D.
    Pedro e que Barbosa diz existir na bibliotheca real, não achámos o menor
    vestigio, apesar de consultarmos um catalogo anterior, segundo nos
    parece, a 1807. Das outras obras suas, de que faz menção Barbosa, tambem
    nenhum rasto encontramos, ao passo que existe uma, que não duvidamos de
    lhe attribuir, e que o nosso illustre bibliographo não conheceu. É esta
    uma traducção franceza de Quinto Curcio, feita no anno de 1468, a qual
    pertenceu a Philippe de Cluys, commendador da ordem de S. João de
    Jerusalem, e que actualmente se guarda entre os manuscriptos do Museu
    britannico.[2]

    * * * * *

    Ruy de Pina succedeu, como dissemos, a Vasco Fernandes, em 1497, no
    cargo de chronista-mór, postoque muito antes exercitasse o officio de
    historiador. Dos primeiros annos de Ruy de Pina apenas se sabe que foi
    natural da Guarda, mas ignora-se o anno do seu nascimento, ainda que
    haja algumas suspeitas de fosse pelos annos de 1440. Em 1482 diz elle
    que fôra por secretario da embaixada mandada por D. João II a Castella,
    e o mesmo cargo serviu d'ahi a dous annos na embaixada de Roma. Parece
    que, voltando de desempenhar esta commissão, o encarregou el-rei de
    escrever as chronicas do reino, apesar de então ser chronista-mór
    Lucena, o que se deprehende de uma provisão de D. João II, em que lhe
    manda dar uma tença de nove mil e seiscentos réis «esguardando ao
    trabalho e á occupação grande que Ruy de Pina escripvão da nossa camara
    tem com o carrego que lhe demos de escrepver e assentar os feitos
    famosos _asy nossos_ como de nossos regnos que _em nossos dias são
    passados_, e ao diante se fizerem[3].» Em outra provisão lhe concede
    tambem seis mil réis de mantimento.

    Depois d'esta epocha ainda Ruy de Pina serviu em outra embaixada a
    Castella e andou envolvido nos difficeis negocios publicos d'aquelle
    tempo, até que, succedendo na corôa D. Manuel, não só lhe confirmou as
    mercês do seu antecessor, mas fez-lhe outras novas, dando-lhe finalmente
    o cargo de chronista-mór, e guarda-mór da Torre do Tombo e da livraria
    real.

    Em 1504 tinha Ruy de Pina concluido os seus trabalhos historicos, porque
    n'esse anno recebeu de D. Manuel uma nova tença de trinta mil réis pelas
    chronicas de D. Affonso V e de D. João II, accrescentando a esta somma
    cinco moios de trigo em Ceuta e um cazal d'el-rei no termo da Guarda.

    «Cheio de honras e de recompensas, diz o abbade Corrêa, que para aquelle
    tempo eram grandes, viveu Ruy de Pina todo o reinado de el-rei D.
    Manuel, alcançando ainda alguns annos do d'el-rei D. João III, que lhe
    encommendou a chronica de seu pae, que deixou adiantada até a tomada de
    Azamor, e de que Damião de Goes confessa ter-se servido para a
    composição da sua.»

    É Ruy de Pina de todos os nossos antigos chronistas o de que nos restam
    maior numero de chronicas. Escreveu elle a de D. Sancho I, D. Affonso
    II, D. Sancho II, D. Affonso III, D. Diniz, D. Affonso IV, D. Duarte, D.
    Affonso V e D. João II. As duas ultimas são sem duvida escriptas
    originalmente por elle. Na de D. Duarte, segundo parece a Damião de
    Goes, o substancial da historia é de Fernão Lopes; o que é relativo á
    expedição de Tangere, de Gomes Eannes de Azurara; e de Ruy de Pina
    apenas a coordenação d'esses diversos trabalhos. Quanto ás da primeira
    dynastia, quer o mesmo Goes (e esta opinião prevalece hoje) que não
    sejam mais que uma recopilação ou resumo do primeiro volume das
    chronicas de Fernão Lopes, que existia em poder de um tal Fernão de
    Novaes, e que D. João II mandou fosse entregue a Ruy de Pina. Impossivel
    parece hoje averiguar até a certeza esta opinião; porque esse volume de
    Lopes ou se perdeu, ou foi aniquilado por Pina, que, ambicioso de pouco
    suada gloria, quiz, pobre corvo de D. João II, adornar-se com as
    brilhantes pennas de pavão do Homero de D. João I.

    Segundo o testemunho de João de Barros, Ruy de Pina foi uma potencia
    litteraria no seu tempo. O historiador da India refere que o grande
    Affonso de Albuquerque tivera a fraqueza de enviar joias a Ruy de Pina,
    para que se não esquecesse d'elle na sua historia. Aquella cujo nome
    devia encher o mundo não teve a consciencia de que era o maior capitão
    do seculo, é creu que a sua immortalidade dependia de um chronista
    obscuro! Triste documento de que os genios mais portentosos estão como
    os homens ordinarios sujeitos às mais ridiculas fraquezas.

    O abbade Corrêa da Serra põe Ruy de Pina acima dos chronistas que o
    precederam. É talvez o juizo litterario mais injusto que se tem
    pronunciado na republica das letras. Que elle exceda Azurara não o
    contestaremos nós; mas que seja anteposto a Fernão Lopes é no que não
    podemos consentir: as narrações de Ruy de Pina, postoque superiores ás
    de Gomes Eannes, estão mui longe da vida e _côr local_ que se encontra
    nos escriptos do patriarcha dos chronistas portuguezes.

    Parece que os fados de Ruy de Pina eram ganhar nome e celebridade á
    custa do trabalho alheio: ajudou elle o seu destino em quanto vivo;
    ajudaram-lh'o outros depois de morto. Em 1608 publicou-se em Lisboa um
    volume em 8.^o com o titulo de _Compendio das grandezas e cousas
    notaveis d'entre Douro e Minho_, obra que no frontispicio é attribuida a
    Ruy de Pina. Este livro, porém, nada mais é do que o que compoz mestre
    Antonio, _fisiquo e solorgiam_, natural de Guimarães, e que em antigos
    codices anda juncto ás chronicas de Ruy de Pina, bastando ler uma pagina
    d'elle para nos convencermos de que é escripto em um periodo da lingua
    anterior á epocha d'este chronista, e que elle talvez não fez mais que
    copial-o, com intento de lhe chamar seu, podendo-se-lhe applicar aquelle
    distico francez:

    Pour tout esprit que le bon homme avait, Il compilait, compilait,
    compilait.

    IV

    *Garcia de Rezende*

    Com os começos do reinado de D. Manuel os horizontes da nossa
    litteratura estenderam-se consideravelmente. Era a epocha do esplendor
    nacional e, ao passo que as nossas conquistas e poderio se dilatavam,
    dilatavam-se tambem os progressos litterarios dos portuguezes. A
    imprensa tinha produzido o magnifico livro da _Vita-Christi_, e com isso
    dava mostra de que Portugal possuia, esse motor maravilhoso que devia
    conduzir a Europa com passos agigantados pela estrada da civilisação e
    do progresso. N'este reinado de gloria e de predominio–mas de uma
    gloria differente da antiga e de um predominio que assentava sobre base
    tão incerta como eram os milhões de ondas do oceano em que elle se
    estribava–proseguiu em maior escala o triste systema de D. João II de
    substituir a agricultura pelo commercio, como fonte principal da riqueza
    publica. Era então que a monarchia, aniquilando os derradeiros restos da
    sociedade feudal nas Ordenações Manuelinas, e assentando-se na larga e
    firme base do direito romano, realisava e completava, por um lado o
    pensamento politico, por outro o pensamento economico do manhoso filho
    do nosso ultimo rei cavalleiro. As palavras _e da conquista, navegação e
    commercio da Ethiopia_, etc., que D. Manuel accrescentava ao dictado de
    _senhor de Guiné_, que D. João para si tomara, eram a expressão mais
    simples e mais exacta da idêa commercial e monarchica, isto é, de que o
    commercio obtido por meio das conquistas e navegações pertencia ao
    _senhorio real_, e a historia dos ciumes de D. João II e do seu
    successor sobre os novos descobrimentos confirma a nossa opinião. Assim
    o estado se confundia ou, antes, se incorporava na corôa, e se
    constituiam essas formas politicas dos reinados seguintes que resumbram
    em toda a legislação posterior, e a que, talvez, possamos chamar meio
    termo entre o absolutismo e o despotismo, como a organisação social
    portugueza antes das côrtes de 1481 se póde também considerar como um
    meio termo entre o absolutismo e a monarchia representativa.

    Substituida, portanto, a agricultura, que era do povo, pelo commercio
    exclusivo, que era da corôa, e extinctas as tradições feudaes na nova
    compilação Manuelina, a idade media morrera, com o seu systema de luctas
    e resistencias, e começara esse seculo XVI, cujo caracter essencial em
    politica foi a unidade monarchica. Este phenomeno explica o novo aspecto
    que tomou a historia e o apparecimento de uma litteratura cortezan e
    paceira, que visivelmente se distingue nos poetas mais modernos do
    cancioneiro, nas obras latinas que por esse tempo appareceram,
    principalmente nas de Cataldo Siculo, e nos autos do Aristophanes
    portuguez Gil-Vicente, compostos para alegrar as horas de tedio nos
    paços de D. Manuel. A chronica tomou logo o sabor do elogio historico, e
    Garcia de Rezende, velho cortezão, escreveu a vida de D. João II debaixo
    dos tectos dos sumptuosos paços da Ribeira. A este pobre homem não cabe,
    todavia, a gloria da invenção d'aquelle genero historico: Ruy de Pina
    foi o seu inventor. A Chronica de D. João II escripta por este foi o
    modelo ou, antes, o original da de Garcia de Rezende, que apenas lhe
    accrescentou alguns dictos e feitos do seu heroe, algumas anecdotas
    desenxabidas e triviaes de antecamara, em que não esqueceram as
    acontecidas com o proprio auctor. Garcia de Rezende não fez senão
    aperfeiçoar a chronica individual e tornal-a, ainda mais que Ruy de
    Pina, uma biographia real. E que outra fórma podia ter a historia n'uma
    epocha em que a organisação social tinha sumido o povo, a nobreza, e
    ainda o clero, debaixo do throno do monarcha?

    Seria uma das comparações mais curiosas a do caracter historico da
    Chronica de D. João I por Fernão Lopes com o da Chronica de D. João II
    por Garcia de Rezende, se ao mesmo tempo se comparasse o estado da
    sociedade portugueza no meado do seculo XV com o em que se achava no
    principio do XVI. Esta comparação nos parece serviria para explicar as
    formulas historicas pelas politicas, e vice-versa estas por aquellas.

    Que distancia espantosa não ha, com effeito, entre o grande poema de
    Lopes e a mesquinha collecção de historietas de Garcia de Rezende, onde
    apenas avultam algumas paginas com o supplicio de um nobre, o assassinio
    de outro, e o mysterio de um rei que morre, ao que parece; envenenado?
    Que distancia espantosa de um cadafalso, de um punhal, e de uma taça de
    veneno, ao cerco de Lisboa, à batalha d'Aljubarrota, ao baquear de
    Ceuta? No livro de Garcia de Rezende vê-se o aspecto triste, e a vida de
    agonia, e o sorrir forçado de um rei sem familia, rodeado de cortezãos,
    cujos nomes pela maior parte se resolvem em fumo com o morrer de seu
    senhor, a quem seguem os ginetes de Fernão Martins, os bésteiros e
    espingardeiros da guarda, não para pelejarem com estranhos, mas para o
    defenderem contra os odios de seus naturaes. Ahi o vulto real abrange
    quasi os horizontes do quadro, e só lá no fundo, mal desenhadas e
    indistinctas, se enxergam as personagens historicas d'aquella epocha, e
    as multidões agitadas ou tranquillas a um volver d'olhos do monarcha,
    mas nullas tanto em um como em outro caso. Na chronica de Fernão Lopes
    ha, pelo contrario, a historia de uma geração: é um quadro immenso de
    muitas figuras no primeiro plano. Nos degráus do throno de D. João I
    estão assentados guerreiros e _sabedores_, e monges e clerigos, e povo
    que tumultua e brada com vóz de gigante–_patria_! Ao pé da imagem
    homerica de Nunalvrez vê-se a fronte serena e sancta do arcebispo de
    Braga, e a face meditabunda e enrugada de João das Regras, e os vultos
    terriveis do Ajax portuguez Mem Rodrigues, e do esforçadissimo Martim
    Vasques, e de tantos outros cavalleiros a quem difficilmente sobrepuja o
    rei popular, o Mestre de Aviz. O chronista faz-vos acompanhar as
    multidões quando rugem amotinadas pelas ruas e praças; guia-vos aos
    campos de batalha onde se dão e recebem golpes temerosos; abre-vos as
    portas dos paços ao celebrar das côrtes, ao discutir dos conselhos;
    arrasta-vos aos templos onde trôa a voz do monge eloquente; lança-vos,
    emfim, no existir dos tempos antigos, e embriagando-vos com o perfume da
    idade media, e deslumbrando-vos com o brilho da epocha mais gloriosa da
    historia d'esta nossa boa terra portugueza, evoca inteiro o passado, e
    rasgando-lhe o sudario em que jaz, com o sopro do genio dá alma, e vida,
    e linguagem ao que era pó, e morte, e silencio.

    Em Ruy de Pina raro se encontra a historia da nação: em Garcia de
    Rezende talvez nunca. Fernão Lopes e Azarara tinham escripto no tempo de
    Affonso V: estes escreviam no de D. Manuel. D'ahi provém a differença.

    Em poucas palavras o pouco que se sabe da biographia de Rezende.

    Ignora-se a epocha do seu nascimento; mas sabe-se que era natural de
    Evora é irmão do celebre André de Rezende, o traductor de Cícero. Foi
    pagem da escrevaninha de D. João II e seu predilecto. Grato por isto,
    lhe escreveu a vida, a qual se imprimiu Evora em 1554.[4] Compoz tambem
    uma relação da ida infanta D. Beatriz para Saboia, e outra da viagem
    d'el-rei D. Manuel a Castella, e finalmente umas trovas satyricas que
    intitulou _Miscellanea_. Colligiu em um volume as poesias avulsas que no
    seu tempo tinham mais celebridade, tanto dos poetas d'quella epocha,
    como de outros mais antigos. Este volume, que foi dado á luz por elle em
    Lisboa em 1516 com o titulo de _Cancioneiro Geral_, é hoje um dos mais
    raros monumentos da nossa litteratura, e o verdadeiro titulo de gloria
    de Garcia de Rezende.

    Em 1514 foi a Roma como secretario de embaixador Tristão da Cunha,
    mandado ao papa por el-rei D. Manuel. Voltando á patria morreu em Evora,
    não sabemos em que anno, e jaz no convento do Espinheiro.

    CARTAS SOBRE A HISTORIA DE PORTUGAL

    1842

    *CARTA I*

    1 d'abril de 1842.

    Srs. Redactores da _Revista universal lisbonense_.–A reforma ha pouco
    feita no seu estimado jornal; o agasalhado que n'elle se concede a tudo
    quanto se chama fructo de sciencia humana; a maior extensão de
    escriptura que nas suas paginas se póde hoje encerrar; e sobretudo a
    ambição, que desperta nos entendimentos ainda humildes, de se acharem á
    meza da sciencia em tão honrada companhia litteraria como a dos
    collaboradores da _Revista_; tudo isso me excitou a dirigir-lhes esta
    carta, que folgarei mereça a honra da publicação, e que se o merecer
    será seguida por outras sobre o mesmo objecto, porque traçando e
    alevantando a _Revista_ um formoso edificio de civilisação n'esta pobre
    terra de Portugal, posto que eu saiba serem as pedras que posso cortar e
    carrear para o monumento toscas e mal desbastadas, sei tambem que até
    estas teem sua cabida e serventia, quando para mais não sejam ao menos
    para sumir lá nos alicerces e na grossura dos muros, em quanto os
    artifices de primor vão aperfeiçoando as portadas, columnas, cimalhas,
    remates, e mais exterioridades de desenho, em que os architectos da obra
    põem as suas complacencias d'artistas.

    Entendi eu, que o entreter alguns momentos os leitores da _Revista_ com
    diversos estudos sobre a nossa antiga antiga historia, não seria
    fazer-lhes mau serviço. Ha n'este fallar das recordações de avós o que
    quer que é saudoso e sancto, porque a historia patria é como uma d'estas
    conversações d'ao pé do lar em que a familia, quando se acha só, recorda
    as memorias do pae e mãe que já não são, de antepassados e parentes que
    mal conheceu. Mais saboroso pasto d'espirito que esse não ha talvez,
    porque em taes lembranças alarga-se o ambito dos nossos affectos: com
    ellas povoamos a casa de mais entes para amarmos; explicamos pelos
    caracteres e inclinações dos mortos os caracteres e inclinações dos que
    vivem; os habitos actuaes pelos habitos e costumes dos nossos velhos.
    Se, abastados e engrandecidos, viemos de humildes e pobres, pretendemos
    muitas vezes fazer esquecer ao mundo o nosso berço; mas no abrigo
    familiar, deixada tão viciosa vergonha, abrimos o larario domestico e
    tiramos d'elle os deuses da meninice, grosseiros simulacros da imagens
    paternas, e folgamos de os contemplar, e de recontar ou de ouvir a sua
    historia, que temos recontado e ouvido mil vezes, que todos os da casa
    bem sabem, mas que sempre narramos ou escutamos com attenção e deleite,
    e talvez com enthusiasmo. As recordações da terra da patria não são,
    porém, mais que as memorias de uma numerosa familia.

    Ha muito que para ellas voltei as minhas predilecções. E não sei, até,
    quem possa deixar de o fazer em tempos como os que ora correm. Se o rico
    e poderoso que nasceu dos minguados e chãos vai pedir ao passado frescor
    e regalo para o espirito, como deixará o que se vê abatido e em
    amarguras de lembrar-se de opulentos e nobres avós? Qual será a nação
    que amarrada ao poste do padecer, ludibriada e appupada por tudo,
    despida, cuberta de lodo, cheia de pisaduras e de feridas, se não volte
    para os tempos que passaram quando esses tempos foram feracissimos de
    muitos generos de grandezas e de glorias, e como o Salvador no Calvario
    lhes não diga: _Tenho sêde_? Quem, vendo diante de si desfolharem-se-lhe
    uma a uma todas as esperanças, se não retrahe do presente, e não vai
    pelo campo sancto dos seculos buscar e colher saudades de consolação?

    Separado, e não de poucos dias, d'esse tumulto e ruido da sociedade
    actual, que Deus louvado não entendo nem desejo entender, e em cujas
    opiniões e idéas, ou por demasiado grandiosas ou por vergonhosamente
    pequeninas, não acho medida pela qual afira e concerte as minhas, que
    não passam de triviaes e means; ajuramentado com a propria consciencia
    para deixarmos seguir o mundo seu caminho, bom ou mau, com tanto que não
    nos embargue o nosso, tenho procurando estudar algumas epochas da tão
    poetica e formosa historia da gente portugueza. É para varios d'esses
    estudos imperfeitissimos que eu peço algumas columnas da _Revista
    universal_, não porque elles preencham completamente os fins da
    instituição d'este Jornal–a instrucção; mas porque poderão mover os que
    valem e sabem muito a que, pretendendo corrigir erros sobejos, em que
    por certo cairei; instruam verdadeiramente o commum dos leitores da
    _Revista_, e os chamem a contemplar o espectaculo da nossa sociedade
    antiga.

    Estes estudos, feitos por um systema d'historia como me pareceu que
    elles deviam ser feitos, apparecerão na _Revista_ soltos, em quanto de
    mais perfeito modo os não posso trazer á luz da imprensa. Fragmentos são
    os que unicamente se hão-de e devem lançar nas columnas de uma folha
    volante, entre cujos meritos a variedade é talvez o que mais se busca.
    Trabalhos completos são para livros, e livros d'historia estou eu (sem
    humildade hypocrita o digo) bem longe ainda de os poder fazer. Todavia
    darei a estas Cartas, quanto em mim couber, um certo nexo, que a
    natureza da materia requer. Um dos principaes defeitos dos trabalhos
    historicos do nosso paiz parece-me ser a _insulação_ de cada um dos
    aspectos sociaes de qualquer epocha, que nunca se conhecerá, nem
    entenderá, em quantop a sociedade se não estudar em todas as suas formas
    d'existir, em quanto se não contemplar em todos os seus caracteres.

    Estas Cartas, se merecerem a approvação de vv. ss., poderão algum dia
    servir, no que tiverem bom, se tiverem, de esclarecimento e notas a uma
    parte da Historia Portugueza, como eu concebo que ella se deveria
    escrever: historia não tanto dos individuos como da Nação; historia que
    não ponha á luz do presente o que se deve ver á luz do passado;
    historia, emfim, que ligue os elementos diversos que constituem a
    existencia de um povo em qualquer epocha, em vez de ligar um ou dois
    d'esses elementos, não com os outros que com elle coexistem, mas com os
    seus affins na successão dos tempos, grudados pelos tôpos
    chronicologicos com massa de papel feita das folhas _Arte de verificar
    as datas_.

    *CARTA II*

    Quando, volvendo os olhos para os tempos remotos, indagamos a historia
    de nossos antepassados e da terra em que nascemos, a primeira pergunta
    que nos occorre para fazermos ás tradições e monumentos é naturalmente a
    seguinte: onde, quando, e como nasceu este individuo moral chamado a
    Nação? O berço da sociedade de ser, com effeito, a primeira pagina da
    sua historia.

    Quem, examinando uma carta topographica da Peninsula espanhola, vê esta
    faixa de terra chamada Portugal, estreitada entre o oceano e o vulto
    enorme da Hespanha, sem divisões nascidas da natureza do solo e fundadas
    na geographia physica, que a separem naturalmente della, e quando depois
    disto sabe que por sete seculos, com a curta interrupção de sessenta
    annos, os habitadores deste cantinho do mundo conservaram intacta a sua
    independencia e individualidade nacional, prevê desde logo nesses
    homens, que assim souberam conservar-se livres d'estranho jugo, grandes
    virtudes e generoso esforço, e na organisação social do paiz uma
    extraordinaria robustez e uma harmonia notavel com as suas necessidades
    e indole; porque as instituições e costumes de qualquer povo são a sua
    physiologia, pela qual se lhe explica principalmente o curto ou o
    dilatado da vida. A curiosidade então volta-se para a primeira infancia
    desse povo, para a epocha em que disse a si mesmo: _Eu existo_. Na
    disposição daquelles tenros annos devem-se-lhe achar já os annuncios do
    vigor da juventude e da idade viril.

    Tanto que o imperio wisigodo desabou em ruinas ao embate violento do
    enthusiasmo e pericia militar dos arabes, e a policia e civilisação
    destes substituiu nas Hespanhas a muito mais viciosa e incompleta
    civilisação dos godos, a reacção christã e europea contra a violencia
    mahometana e asiatico-africana começou immediatamente. Desde a batalha
    do Chryssus ou Guadalete, em que expirou o imperio fundado por
    Theodorico e estabelecido em toda a Peninsula por Leovigildo, até o
    encontro de Canicas ou Cangas, em que pôde dizer nasceu o reino de
    Asturias, bem curto espaço mediou. Restituido pela desgraça a esse
    punhado de godos o antigo valôr e energia, em quanto os arabes perdiam o
    primeiro nos ocios do triumpho, nos deleites de uma civilisação immensa,
    e malbaratavam a segunda nas luctas intestinas, os territorios e o
    poderio christão cresceram e prosperaram até o tempo d'Affonso III rei
    d'Oviedo, ao passo que o imperio arabe se achava já decadente no rei
    reinado de Abdallah, antecessor e avô do celebre Abderranhhman III
    (Annassir). Mas Abderrahhman, o maior dos Ommaijadas, restabelecendo a
    unidade do governo na Hespanha arabe, regendo os povos com justiça e
    sabedoria, resistindo aos valentes reis de Leão e Asturias, Ordonho II e
    Ramiro II, e aproveitando habilmente, depois da morte destes, as
    dissenções dos christãos para exercitar sobre elles uma especie de
    patronato, segurou para largos annos na Peninsula o dominio do Islam.
    Seguiram-se as variadas e terriveis guerras de mais de dous seculos
    entre as duas raças inimigas que disputavam o dominio das Hespanhas, e a
    representação dos dramas ensanguentados que mancham torpemente tanto as
    paginas dos annaes christãos como as dos musulmanos. Ora os arabes levam
    de vencida os netos dos godos, ora estes os arabes; de dia para dia as
    fronteiras indecisas das duas nações inimigas circumscrevem-se ou
    alargam-se prodigiosamente: as divisões intestinas de um dos campos são
    por via de regra o signal de victoria para o campo contrario; grandes
    capitães sobem aos thronos, e d'ahi a pouco os thronos se derrocam
    debaixo dos pés de reis inhabeis, viciosos, ou crueis.

    Durante mais de cinco seculos a Peninsula foi um cahos, e a sua historia
    é um mixto confuso e monstruoso de todas as virtudes e de todas as
    atrocidades. Entre os arabes, apezar da cultura intellectual,
    predominava a barbaria moral: as letras e as sciencias, levadas a um
    alto gráu d'esplendor, não suavisaram jámais os costumes ferozes dos
    mahometanos, porque a civilisação moral nunca existiu na terra senão por
    beneficio do christianismo. Nos estados christãos, pelo contrario, era a
    rudeza intellectual que destruia as influencias moraes do evangelho. As
    paixões desenfreadas no meio do estrondo de uma lucta de morte entre
    homens diversos por origem, lingua, instituições e religião, corriam
    despeadas, e os fratricidios, os homicidios, os roubos, as violações, os
    incendios, os sacrilegios multiplicavam-se por toda a parte. As leis
    calavam-se, a espada imperava, e a bruteza do povo era tal, que o
    proprio clero, classe distincta no tempo dos wisigodos por sua cultura,
    tinha caído na extrema barbaridade. Ainda nos fins do seculo XI os
    conegos de Compostella eram comparados por um escriptor, que vivia entre
    elles, a animaes brutos e indomados[5], comparação que justificam
    milhares de successos conservados nos documentos e memorias desses
    tempos.

    Da somma, porém, dos acontecimentos daquella epocha vêem-se resultar
    dous factos geraes–a decadencia da sociedade arabe, e os progressos de
    organisação na sociedade christã. Tendia a dissolver a primeira a grande
    variedade de tribus e nações africanas, asiaticas e europeas, que
    estanceavam pelas diversas provincias da Hespanha, umas vezes sujeitas
    ao khalifado de Cordova, outras rebelladas contra elle[6]. Estas tribus
    e nações, unidas unicamente pela crença commum, guerreavam-se atrozmente
    a todos os instantes, e para maior desordem por entre ellas vivia a raça
    gothica-romana, conhecida pelo nome pouco proprio de mosarabes[7] que,
    sujeitando-se aos arabes na occasião da conquista, forçosamente devia
    desejar o triumpho e predominio dos seus correligionarios. Por outro
    lado a civilisação dos arabes, assentando sobre a falsa base do
    Islamismo, brevemente envelheceu e tornou-se em corrupção de costumes,
    enfraquecendo e envilecendo os animos. O quadro da decadencia moral da
    Hespanha mahometana no meado do Seculo XII, que no livro intitulado
    _Regimento de principes e capitães_ faz Ben Abdelvahed, é espantoso, e
    quanto ao estado politico a situação dos arabes não era melhor. Não
    havia paz nem segurança em parte alguma, e o imperio caía em pedaços no
    meio das dissenções civis[8]. Accrescentavam o mal as estreitas relações
    e unidade politica do imperio de Cordova com as provincias da
    Mauritania, cujas revoluções estendiam os seus effeitos até a Peninsula;
    e as repetidas mudanças de predominio das tribus e dynastias, por via de
    regra, procediam das alterações e guerras que se alevantavam na Africa.

    Pelo contrario os reinos christãos da Hespanha eram mais homogeneos:
    havia ahi muitas dissidencias de ambição; porém as incompatibilidades de
    raça quasi que não existiam, porque só no reinado de Affonso VI os
    francezes vieram influir na Peninsula, mas como individuos e não como
    nação, e esta influencia foi ainda ecclesiastica do que politica. Não
    houve uma colonisação franceza nos dominios de Affonso VI: houve sim a
    collocação de bispos daquelle paiz em muitas dioceses, o chamamento de
    muitos principes e cavalleiros da França aos cargos politicos e
    militares. Estes estrangeiros traziam as idéas e as instituições da sua
    terra natal, traziam ás vezes a oppressão, mas incorporavam-se na raça
    goda. Se impunham habitos e costumes estranhos, acceitavam tambem muitos
    usos e idéas da nova patria, os seus filhos eram inteiramente
    hespanhoes, e este elemento adventicío de povoação, em vez de contribuir
    para o enfraquecimento da força social, servia realmente para a
    fortalecer.

    Os resultados das invasões e conquistas, que de continuo arabes e
    christãos faziam mutuamente nos territorios dos seus a adversarios, eram
    tambem diversos. Ainda rebaixando no que dizem os escriptores arabes
    sobre a excessiva povoação das Hespanhas, é indubitavel que nas
    provincias dominadas pelos serracenos ella foi muito mais numerosa do
    que hoje é. Esta povoação, porém, era em grande parte romano-gothica ou
    mosarabe, e, como já disse, para ella as invasões feitas pelos homens da
    mesma crença não podiam ser consideradas como destinadas a subjuga-la
    mas a quebrar-lhe o jugo dos infieis. Esta circumstancia tornava-se
    tanto mais importante, quanto é certo que os wisigodos que acceitaram o
    dominio arabe, ficaram na mesma situação civil[9] em que se achavam no
    momento da conquista, e por consequencia possuidores de riquezas,
    senhores de servos, superiores por isso forçosamente a uma parte da
    população arabe, e iguaes da mais abastada. Assim não só eram um
    poderoso auxilio para os christãos no meio dos inimigos, mas por muitas
    vezes bastaram por si sós para expulsar d'algumas povoações os
    conquistadores sarracenos[10].

    Desde os meados do undecimo seculo apparece na Hespanha um systema
    regular d'organisação. O concilio, ou côrtes, de Leão convocado em 1020
    por Affonso V constitue uma data importante na historia social da
    Peninsula. N'este concilio, ou côrtes, se estabeleceram leis politicas e
    civis geraes para todas as provincias do reino leonez, que eram Leão,
    Galliza, Asturias e Castella. Fernando I celebrou igualmente côrtes em
    1046, 1050, e 1058.

    O caracter principal das resoluções d'estes parlamentos (á excepção do
    ultimo que elle convocou para dar validade á divisão do reino entre seus
    tres filhos) é o de regular e fixar o direito de propriedade. A par
    d'estas leis geraes, os _fueros_ propriamente dictos (foraes) tendiam a
    augmentar a povoação, estabelecendo as communas e ligando-as por muitos
    modos ao corpo politico. Alguns d'estes foraes conhecidos remontam ao
    tempo de Affonso V, mas multiplicam-se cada vez mais com o correr dos
    tempos. Isto é, o pensamento de organisação vigora e cresce cada vez
    mais. A sociedade christã da Hespanha revela no seculo XI um progresso
    constante de vida, de ordem, e de energia.

    E a sociedade arabe?–A queda do imperio dos Ommaijadas (1037), o qual
    durara perto de tres seculos, foi o resultado das dissenções civis.
    Tirado este centro d'unidade, que nos seus ultimos tempos era apenas um
    nome, os diversos bandos travaram luctas duradouras e sanguinolentas. A
    Hespanha arabe retalhou-se em tantos principados, quantos eram os
    cabeças de partido. A guerra civil prolongou-se por quasi todo o seculo
    XI; e bem que nos estados christãos as houvesse tambem entre os tres
    filhos de Fernando Magno, estas tinham passado rapidamente, e Affonso
    VI, vencidos seus irmãos, reinava por fim tranquillo nas Asturias,
    Galliza, Leão e Castella, e rei de uma nação energica e unida
    conquistava, ou fazia tributarias da sua corôa, as principaes cidades e
    provincias dos sarracenos da Peninsula.

    Para as suas guerras brilhantes muitos nobres cavalleiros francezes
    atravessaram os Pyreneus. Foi entre estes que Henrique de Borgonha veio
    á Hespanha, para ser o fundador da independencia dos portuguezes.

    *CARTA III*

    A origem da independencia de Portugal, e a sua separação do reino
    leonez, tem sido uniformente attribuida pelos nossos historiadores ao
    casamento do principe borgonhez Henrique com D. Thereza, filha de
    Affonso VI. É cousa assentada que o rei leonez, casando sua filha, lhe
    dera _em dote_ a terra de Portugal, que, tendo estado já separada da
    Galliza, então o foi de novo ficando-lhe servindo de limite o Minho.
    Esta opinião que até hoje tem passado inconcussa, sendo ainda recebida
    por um sabio dos nossos dias, respeitavel por todos os titulos,
    parece-me todavia involver difficuldades insuperaveis.

    Até á invação dos arabes, os godos conservaram nas Hespanhas tenazmente
    as instituições germanicas ácerca dos dotes. Pelas suas leis, contrarias
    ao que estatuiam as leis romanas, era noivo quem dotava a mulher.
    Similhante costume dos barbaros, porventura mais nobre que o romano, foi
    regulado por uma lei de Chindaswintho, inserida no _Codigo
    wisigothico_[11]. Esta lei, assim como as mais disposições d'aquelle
    codigo, atravessando o dominio dos arabes, que deixaram aos vencidos o
    governarem-se civilmente pela sua legislação e pelos seus magistrados,
    continuou a vigorar, não só até o tempo de Affonso VI, mas porventura
    até a publicação da lei das Partidas[12]. Não havia pois na legislação
    d'Hespanha, nem nos usos nacionaes, n'esta parte perfeitamente accordes
    com ella, causa alguma para o rei de Leão se lembrar de pôr em pratica,
    no casamento de sua filha, um costume romano, provavelmente até ignorado
    por elle.

    Seria este acto insolito uma imitação de costumes francezes? Fica dicto
    foi no reinado de Affonso VI, principalmente, que as idéas e
    instituições francezas se introduziram na Peninsula. Nas suas vastas
    empresas contra os arabes, este rei ajudou-se grandemente de cavalleiros
    francezes, a quem enriquecia e honrava, ao mesmo passo que enchia as
    cadeiras episcopaes de bispos d'aquella nação.

    A predilecção que elle sempre mostrou pelas cousas de França, e que
    tanto contribuiu para alterar os costumes wisigodos, podiam tê-lo movido
    a seguir, casando suas filhas com os principes borgonhezes Raimundo e
    Henrique, e outra com o conde de Tolosa, os costumes d'aquelle paiz, se
    elles n'esta parte fossem contrarios aos das Hespanhas.

    Mas não acontecia assim. Ainda n'aquelle seculo era commum por toda a
    Europa a instituição germanica ácerca dos dotes. Em Ducange, á palavra
    _Dos_, se acham colligidas as disposições dos diversos codigos europeus
    a este respeito, bem como documentos de que os factos não eram
    contrarios á legislação: o que sempre é necessario examinar na historia
    da idade media, na qual a confusão social, e a ignorancia em que jaziam
    todas as nações, faziam que a pratica das relações civis contrastasse ás
    vezes com os preceitos legaes.

    A difficuldade de acceitar a tradição de um facto incomprehensivel para
    os individuos por quem se diz praticado seria bastante para o tornar
    mais que suspeito. Mas ainda occorrem contra elle outras considerações.

    É incontestavel que Raimundo, o marido de D. Urraca, senhoreou a Galliza
    e Portugal, antes de Henrique; e que a porção do territorio hespanhol
    dado a este para governar como conde, ou consul, foi desmembrada do
    territorio governado pelo conde Raimundo antes do fallecimento d'este.
    Se Portugal foi dado em dote a D. Theresa com direito hereditario,
    segundo affirma a chronica latina do imperador Affonso Raimundez,
    provindo d'essa circumstancia o governo de Henrique, como se ha-de
    suppor que D. Urraca, filha mais velha e incontestavelmente legitima,
    não recebesse em dote tambem, _jure haereditario_, as terras que seu
    marido governou? E se assim foi, como e porque se destruiu em parte este
    direito, dando em dote de outra filha uma porção do que já era dote de
    D. Urraca, e isto sem que Raimundo se queixasse, antes fazendo pactos de
    concordia e mútua alliança, como o que fez com o conde Henrique?

    Além d'isso, D. Elvira, irmã de D. Theresa e casada com o conde de
    Tolosa, não recebeu em dote terras algumas: diz-se que fôra a causa
    d'isto o possuir Raimundo de S. Gil estados em França. Mas que lei ou
    costume d'Hespanha obstava a que elle possuisse um condado em outro
    paiz, conjunctamente com os estados que tivesse em Leão? E se não havia
    legislação ou uso em contrario, porque consentiu este principe, mais
    poderoso que os outros dois, que fossem para elles estas liberalidades,
    ao passo que ficava sem quinhão na monarchia hespanhola, que assim se
    faz retalhar loucamente pelo habil Affonso VI?[13].

    Mas admittindo que isto acontecesse, ainda resta difficuldade maior.
    Além de Urraca, Theresa e Elvira, Affonso VI teve uma filha chamada
    Sancha e outra Elvira[14], nascidas da rainha Isabel, a primeira das
    quaes casou com o conde Rodrigo Gonçalves e a segunda com Rogerio, duque
    de Sicilia. Quanto a este, nada accrescentarei ao que já disse ácerca do
    conde de Tolosa, Raimundo de S. Gil. Mas no conde Rodrigo Gonçalves não
    se dava por certo a circumstancia de ser principe estrangeiro, com
    estados fóra d'Hespanha, e todavia não consta que el-rei dotasse a
    infanta D. Sancha com terras ou provincias que elle devesse possuir
    _hereditariamente_, antes pelo contrario, possuindo o conde Rodrigo as
    honras de Asturias de Santillana, lhe foram estas tiradas por suas
    turbulencias, e reconciliado depois com Affonso VI lhe deu el-rei o
    governo de Segovia, e a alcaidaria de Toledo, que tornou a tirar-lhe
    passados tempos, ao que parece, por seu genio inquieto[15]. Porque seria
    excluido, porém, o conde Rodrigo, nobre, natural, e poderoso, do
    beneficio que recebera um estrangeiro pobre, embora illustre e valente?
    É na verdade inexplicavel similhante contradicção.

    A estes raciocinios, fundados em factos incontroversos, nenhum
    argumento, nenhuma auctoridade se póde oppor senão uma phrase do
    chronista anonymo de Affonso Raimundez, que, fallando de D. Theresa, não
    directamente mas por occasião da guerra de Affonso VII com seu primo
    Affonso Henriques, diz–que Affonso VI a casara com o conde Henrique, e
    a dotara magnficamente, dando-lhe a terra portugalense com _dominio
    hereditario_. Este testemunho singular, porque todas as outras memorias
    coevas guardam silencio a similhante respeito, será porém de tal peso
    que nos faça acreditar um facto contrario á legislação e aos costumes da
    epocha, e laborando nas difficuldades que apontei? Não o creio. A
    chronica latina é proxima, porém não contemporanea do reinado de Affonso
    VII, segundo o diz seu auctor, _que ouviu contar os successos d'aquelle
    reinado aos que os tinham presenciado_[16], o que por certo não poderia
    dizer do reinado de Affonso VI, começado, pela segunda vez, 54 annos
    antes do de seu neto. E sendo d'aquelle reinado o casamento de D.
    Theresa, deve-se confessar que para o A. da chronica eram as
    circumstancias d'elle tradições um pouco remotas.

    Ajunte-se a isso que d'esta historia apenas restavam copias incorrectas
    e incompletas quando, depois de Berganza, a publicou Flores, e que ella
    passou pelas mãos do celebre falsario, consocio de Fr. Bernardo de
    Brito, o padre Higuera[17]. Será portanto bastante por si só para
    dissolver as dúvidas apontadas? Aconselha-lo-ha a boa critica? Parece-me
    que não.

    Mas suppondo a chronica d'Affonso VII esteja correcta e sem
    interpollação, e que a sua auctoridade se deva acceitar como a de um
    testemunho contemporaneo, ainda assim ella provaria quando muito que D.
    Affonso VI dera a seu genro, em attenção a D. Theresa, o governo de
    Portugal para si e seus filhos perpetuamente, visto que o hereditario se
    ía introduzindo nos cargos administrativos como na corôa. Tal seria pois
    n'esse caso a significação da palavra _dote_, que então era mui diversa
    da que hoje lhe damos, e correspondia a _donatio_, como se vê claramente
    dos diplomas que vão indicados em nota[18].

    Mas o conde Henrique governou Portugal em quanto viveu. D. Theresa o
    governou igualmente depois da morte d'elle, em 1112[19], até seu filho a
    desapossar da suprema auctoridade em 1128. Este, finalmente, tomando o
    titulo de rei, firmou para sempre a separação e independencia de
    Portugal dos reinos de Leão e Castella. Como se consummou similhante
    facto? Qual foi a historia d'este successo, verdadeira ou pelo menos
    provavel?[20]

    Como seu primo Raimundo conde de Borgonha; como os demais cavalheiros
    francezes que n'aquella epocha vinham exercitar nas Hespanhas a maxima
    virtude do seculo–o guerrear o Islamismo, Henrique IV, filho de outro
    Henrique senhor de Borgonha ducado, serviu ao que parece por muito tempo
    nos exercitos de Affonso VI. As conquistas de Fernando Magno tinham
    alargado os ambitos do imperio leonez. Affonso VI seguiu a carreira
    gloriosa de seu pae, e Toledo, a antiga capital dos godos, caiu em suas
    mãos. Pelo lado de Portugal os dominios de Fernando Magno tinham-se
    estendido até Coimbra. Seu filho continuou a guerra por esta parte, e
    chegou a apossar-se temporariamente de Santarem, Lisboa e Cintra, mas
    empregou principalmente as forças para o lado de Toledo. O conde
    Raimundo de Borgonha, marido de sua filha D. Urraca, foi por elle
    encarregado do governo da Galliza, incluindo n'esse territorio tudo o
    que corre desde o Minho até o Mondego, e depois até o Téjo: o que n'esse
    tempo ora se considerava como parte da Galliza, ora como um ou mais
    condados distinctos d'ella[21], constituindo no todo, talvez, a mais
    vasta provincia do reino de Leão e Castella.

    Mas esta mesma grandeza tornava necessaria a divisão do territorio;
    porque, estabelecida a auctoridade militar, civil, e politica no centro
    da actual Galliza, não era facil nem admnistrar bem os logares mais
    remotos para o sul, nem preseguir com energia e actividade a guerra na
    frontaria dos mouros. Este pensamento deu provavelmente origem á escolha
    de Henrique para governar as terras que se estendiam desde o Minho até
    as raias da provincia conhecida entre os arabes pelo nome generico
    d'_Algarb_;[22] e por ventura a derrota que padece o conde Raimundo
    n'uma entrada que fizera até Lisboa[23] pelos annos de 1094 serviu para
    apressar a realisação d'este pensamento. Ou Henrique fôsse já conde e
    genro d'el-rei, ou n'esta occasião casasse, e recebesse esse titulo[24]
    pelo governo que se lhe encarregava, o que é certo é que no principio de
    1095 elle governava Coimbra, em 1096 o territorio de Braga,
    incontestavelmente desde o Minho até o Téjo em 1097.[25] Se ao principio
    esteve subordinado a Raimundo na administração parcial de Coimbra e de
    Braga; se logo governou independente d'elle toda a parte de Portugal
    moderno, conquistada já então aos mouros, é cousa que me parece não se
    poder affirmar nem negar, e que talvez algum dia se haja de resolver,
    quando venha a ser conhecido maior numero de documentos d'aquella
    epocha.

    O novo conde deu provavelmente então toda a actividade á guerra com os
    sarracenos; ainda que as noticias dos primeiros annos do seu governo
    sejam bastante escassas. A viagem, porém, que emprehendeu á Terra-Santa
    nos primeiros annos do XII seculo retardou por certo as suas conquistas.
    Esta viagem, intentada depois de 1100, estava indubitavelmente concluida
    em 1106, em que Henrique apparece fazendo uma doação a dous presbyteros
    de uma herdade em Céa.[26] Desde então até à sua morte, em 1112[27],
    elle proseguiu na administração do territorio que lhe fora confiado por
    Affonso VI, e foi no periodo que decorre de 1109, epocha da morte do rei
    de Leão, que elle se prepararou para tornar estado independente o
    condado que lhe fora dado para reger como simples consul ou governador.
    É a este tempo que me parece pertencer o pacto successorio entre
    Henrique e Raimundo, isto é, aos fins de 1106 ou principios de 1107,
    anno do fallecimento de Raimundo[28]. Henrique foi mais feliz
    sobrevivendo ao sogro, e recusando depois da morte d'este reconhecer a
    supremacia de D. Urraca, que succedera a seu pae por falta d'herdeiro
    varão, tendo morrido na batalha d'Uclés o infante D. Sancho, para quem,
    parece, elle procurava a eleição dos hespanhoes, por seu fallecimento.

    Affonso VI foi incontestavelmente um habil e valoroso rei: a morte porém
    de Sancho destruiu todos os seus intentos, e abreviou-lhe por ventura a
    vida. Proximo a morrer, viu que a Hespanha leoneza se dividiria em
    facções, e a experiencia do passado lhe ensinava que isto seria a causa
    da sua ruina. Assim, tendo já dado dous annos antes a investidura da
    Galliza a seu neto Affonso Raimundez[29], cuja mãe e sua filha mais
    velha, a viuva D. Urraca, ficava, na falta de filho varão, successora do
    reino, ordenou a esta casasse com Affonso o _Batalhador_, rei d'Aragão,
    rude e grosseiro soldado, mas por isso mesmo capaz de conservar a
    integridade do estado do leonez[30]. Por morte de D. Urraca a corôa
    devia passar para Affonso Raimundez, que entretanto possuiria a Galliza.
    Estas disposições de Affonso VI cumpriram-se; mas não produziram todo o
    effeito salutar, que elle d'ahi esperava, pelo caracter das personagens
    a quem respeitavam, ou que deviam contribuir para o seu cumprimento.

    A dissolução dos costumes n'aquelles seculos era geral, e D. Urraca não
    escapou a ella. Naturalmente d'ahi nasceram as suas dissensões com o rei
    aragonez, que com a brutalidade propria dos tempos chegou a
    espanca-la[31]. A separação dos dous conjuges deu aso á guerra civil, e
    ás suas terríveis consequencias n'uma epocha em que o vicio, a
    perversidade, e a cubiça se apresentavam em todo o seu vigor barbaro, e
    sem o veu hypocrita com que n'estes tempos mais politicos se costumam
    esconder. Os nobres e cavalleiros, a titulo de pertencerem a este ou
    àquelle bando, apossavam dos castellos de que eram alcaides, ou
    construiam-nos de novo, e d'alli faziam guerra por sua conta, ou os
    convertiam em covis de salteadores, d'onde sahiam a roubar ou matar os
    viandantes e mercadores. Tal é pelo menos o quadro que do estado da
    Galliza faz a _Historia Compostellana_, e que era provavelmente
    similhante no resto do imperio leonez. Tal pelo menos no-lo devem fazer
    suppôr as palavras de Pelaio de Oviedo, quando assevera que por morte
    d'Affonso VI o lucto e as tribulações cobriram o solo da Peninsula.

    Foi no meio d'estas perturbações que o conde Henrique pôde assegurar,
    senão de direito ao menos de facto, a independencia das terras que
    governava. Ora mostrando-se favoravel ao moço Affonso Raimundez contra a
    mãe e padrasto, que se tinham temporariamente congraçado, e incitando
    Pedro Froylaz, conde de Trava, aio do infante, a sustentar animosamente
    a causa do seu pupillo, quando o veio[32] sobre isso consultar; ora
    colligando-se com o rei d'Aragão contra D. Urraca, divorciada de novo do
    marido no anno seguinte de 1111[33]. Henrique evidentemente procurava
    aproveitar nas dissensões civis a occasião de constituir independente o
    seu condado, e, com effeito, procrastinadas as perturbações da Hespanha
    quasi até 1126, elle falleceu em 1112[34], deixando o governo a sua
    mulher D. Theresa, sem nunca submetter o collo ao jugo de D. Urraca.

    É resumidamente nisto que me parece encerrar-se a historia da separação
    de Portugal da monarchia leoneza. Sobre a origem d'este facto tem-se
    discursado muito, porque com a legitimidade d'elle quizeram legitimar a
    nossa independencia os escriptores portuguezes, e com a sua
    illegitimidade impugna-la os escriptores castelhanos. Ha um ou dois
    seculos tal materia poderia ainda parecer grave á luz politica; hoje,
    porém, não sei eu se tocaria, a similhante luz, as raias de ridicula.
    Qual é a nação que não vae achar no seu berço uma violencia ou uma
    illegalidade? E que tem com isso o presente? _Somos independentes porque
    o queremos ser_: eis a razão absoluta, cabal, inconstrastavel, da nossa
    individualidade nacional. E se essa não bastasse, ahi estão escriptos
    com sangue, desde Valdevez até Montes-Claros, por toda esta nobre e
    livre terra de Portugal, os títulos da nossa alforria. Com subtilisar ou
    torcer a historia não é que se defende a patria: a sua defensão está em
    saberem seus filhos pelejar por ella, quando o soldado estrangeiro ousar
    accommetter a terra que nos herdaram nossos paes, e onde elles morreram
    livres, como nós havemos de morrer.

    O eruditissimo auctor das _Memorias_ sobre as origens de Portugal e
    sobre o conde Henrique segue algumas opiniões acerca d'estes primeiros
    tempos da monarchia differentes das minhas. O peso, que o respeitavel
    nome d'aquelle sabio dá a todos os seus escriptos, obriga-me a
    accrescentar varias considerações em abono da opinião, que o estudo
    d'essa epocha e dos seus monumentos me constrange a seguir.

    Destruida, como me parece ficou, a tradição de haver sido dado _em dote_
    a D. Theresa _o dominio_ de Portugal, resta averiguar se não se fundaria
    em outros motivos legaes o procedimento do conde Henrique,
    alevantando-se com o condado de Portugal, e convertendo-o em estado
    independente.

    Digo _alevantando-se_, e digo-o muito de proposito, porque esta
    expressão é a que designa exactamente o facto que resulta dos documentos
    d'aquella epocha. A somma dos diplomas que colligiu J. P. Ribeiro[35],
    relativos ao governo em Portugal do conde Henrique, levam á evidencia
    que, emquanto viveu Affonso VI, seu genro se considerou sempre como um
    consul ou governador de provincia dependente do rei, segundo o systema
    politico e administrativo da Hespanha, e que por morte d'aquelle
    principe é que este reconhecimento de dependencia desapparece dos
    documentos. Não constando, porém, de acto ou diploma algum publico a
    separação legal do condado d'Henrique, antes pelo contrario, não se
    fazendo menção d'ella ajunctamento que antes de morrer, para deixar a
    Galliza a seu neto, e fazer acceitar D. Urraca por successora da
    monarchia, póde concluir-se que a independencia do conde foi apenas uma
    revolta, que as circumstancias das divisões intestinas coroaram de bom
    successo.

    O respeitavel auctor das _Memorias do conde D. Henrique_ diz que «a
    practica d'aquella edade parece _em certo modo_ favoravel ás pretenções,
    que os leonezes e castelhanos tiveram a este respeito. Os muitos e
    grandes senhores, que então havia em Leão, Castella e Galliza, e
    governavam algum grande territorio com o titulo de condes, eram sujeitos
    _como feudatarios_ aos reis…» Seja-me permittido dizer que n'estas
    palavras ha talvez uma notavel confusão d'idéas. Eram as _instituições_,
    não a _practica_, que, não _em certo modo_, mas _postivamente_, eram
    favoraveis a essas pretenções. Os grandes senhores que governavam
    condados eram sujeitos á corôa, não _como feudatarios_, mas como
    exercendo uma _delegação do soberano_. As instituições feudaes
    essencialmente diversas das da Hespanha christã, central e occidental.
    Um conde, um senhor (_princeps terrae_), um alcaide de castello
    (_municeps_) eram n'este paiz existencias e castelleiros (_castellani_)
    dos paizes feudaes. A influencia franceza introduziu na Hespanha muitas
    fórmulas da organisação aristocratica chamada feudalismo, mas na
    essencia a indole wisigothica da sociedade hespanhola subsistiu sempre
    atravez d'essa influencia. É isto o que nos dizem claramente as leis e
    os factos, os documentos, os monumentos e a historia.

    No seculo XI o systema feudal chegou ao seu desenvolvimento completo. Os
    feudos, amoviveis a principio, tinham-se tornado hereditarios, e a
    feudalidade tinha-se estendido não só á terra, mas aos cargos, ao
    serviço publico, a tudo. A perpetuidade foi o seu primeiro caracter: a
    soberania do feudatario em seu feudo, o segundo. Satifeitas as
    obrigações dos serviços do senhor territorial para com o suzerano, elle
    exercitava livremente em suas terras todos os actos, que n'um governo
    absoluto dos tempos modernos póde exercitar o rei. O terceiro caracter
    do feudalismo, que consistia nas relações mutuas entre os nobres e entre
    estes e o monarcha ou suzerano supremo, era todo, por assim dizer,
    exterior á organização interna do dominio feudal. Estes tres caracteres
    são os que distinguem essencialmente aquelle systema politico. Tudo o
    mais é variavel, accessorio, incerto[36]. Dão-se porém esses caracteres
    no que se chama feudalidade hespanhola? Não; porque as instituições do
    paiz lhes eram contrarias. O feudalismo invadindo a Peninsula aninhou-se
    geralmente nas fórmulas, mas nunca pôde penetrar no amago da organização
    social.

    Eu já lembrei o absurdo que resulta de suppôr que ao _dote_ de D. Urraca
    se tirou uma porção para dar tambem _em dote_ a D. Theresa. O mesmo
    absurdo resultaria de suppôr que ao feudo do conde Raimundo se tinha
    tirado um fragmento para infeudar a Henrique. Mas já na instituição
    d'aquelle feudo da Galliza occorre outra difficuldade: ou os condes e
    senhores, que vemos governarem differentes districtos de Galliza e
    Portugal antes de Raimundo, tinham todos morrido e _sem filhos_, quando
    este foi posto no governo do territorio gallego e portuguez, ou d'este
    successo resulta igual absurdo. Associar com taes factos a idéa de
    feudalismo é em meu intender gerar uma monstruosidade; é pretender
    destruir incompatibilidades indestructiveis; é tirar ao feudalismo o seu
    primeiro caracter.

    A célebre carta de Affonso VI ao conde Henrique, ácerca da demanda que
    corria entre o bispo de Coimbra e um tal D. Cibrão sobre a aldêa de
    Golpelhares, em que diz que não a concederá (_outorgabo_) ao D. Cibrão
    se pertencer ao mosteiro de Vacariça[37], seria um attentado flagrante
    contra o direito feudal, como elle se achava já constituido n'aquella
    epocha; seria offender a soberania do feudatario dentro dos seus
    territorios, se Portugal fosse possuido pelo conde segundo os principios
    da jurisprudencia feudal.

    Lemos na _Historia Compostellana_[38] que, tendo o conde Raimundo feito
    uma lei para obviar a certas vexações que padeciam os burguezes de
    Compostella, na qual impunha aos transgressores penas pecuniarias, vindo
    depois Affonso VI fazer as suas devoções a Sanctiago, os cidadãos e o
    proprio consul Raimundo lhe pediram a confirmação d'ella para que fosse
    valedoura no futuro. Ou Raimundo, tendo vindo do paiz do feudalismo,
    ignorava completamente os principios essenciaes do direito feudal, ou
    não se considerava de modo algum como senhor feudatario da Galliza,
    aliás regeitaria similhante confirmação.

    Poderia citar centenares de factos análogos, que estão demonstrando que
    taes feudatarios não existiam na Hespanha. Mas a demonstração capital
    d'esta verdade resulta da impossibilidade em que estava o paiz de
    admittir esses extensos feudos.

    As situações hierarchicas dos senhores de terras nos paizes feudaes eram
    n'aquelle tempo diversas. Os _vavassores majores_, ou _barões_, eram os
    feudatarios da corôa; abaixo d'estes ficavam os simples _vavassores_ e
    _castellani_, subfeudatarios dos primeiros[39]. Esta graduação era
    possivel em França, por exemplo, porque no tempo das conquistas dos
    francos nas Gallias, os capitães das hostes (_herzoge, koninge_),
    tomando para si vastas extensões de territorio, as tinham repartido pelo
    seus guerreiros. Passando da vida errante á existencia fixa, os barbaros
    sentiram logo a necessidade do principio hereditario applicado á
    propriedade territorial. D'aqui os feudos e subfeudos, e as obrigações
    diversas inherentes aos possuidores d'elles. Mas as hierarchias não se
    alteravam á mercê suzerano supremo; o filho do barão era barão como seu
    pae, o filho do vavassor, vavassor como este. Os factos que se possam
    apresentar de algum modo em contrario, ou foram practicados em terras
    que fossem primitivamente _allodios reaes_ (correspondentes aos nossos
    _reguengos_), que o rei podia infeudar a um vavassor para o elevar á
    hierarchia de _Baro_, ou custaram muitas guerras, incendios, e mortes;
    isto é, nasceram da violencia e da extra-legalidade, e não das
    instituições feudaes, a que seriam perfeitamente contrarios.

    Na Hespanha, porém, a elevação de Raimundo e de Henrique não foi
    resultado de uma conquista. Os territõrios da Galliza dados áquelle, e
    os de Portugal dados a este, para governarem como condes, estavam
    libertados do jugo árabe, na sua maxima parte, e regidos por condes,
    senhores, maiorinos, alcaides, etc., que, admittindo ser então a
    organisação politica da sociedade Hespanhola feudal, eram (pelo menos os
    condes) _barões_, isto é, feudatarios immediatos do rei. E como
    consentiriam estes _vavassores majores_ em passar para a classe de
    simples _vavassores_, o que de necessidade aconteceria se na realidade
    se tivessem creado então estes dous grandes feudos? Como não apparece o
    menor vestigio de resistencia a essa violação do direito politico do
    paiz?

    Sei que os que imaginam existirem na Hespanha instituições feudaes
    poderão talvez soccorrer-se ás clausulas, que no pacto successorio entre
    Raimundo e Henrique assentam nos principios de direito feudal[40].
    D'estas passagens muitas outras se poderiam colligir dos diplomas e
    memorias d'esse tempo; mas n'este documento, que era um tractado
    secreto, não admira que os dous principes, sendo ambos francezes,
    contractassem debaixo dos principios da jurisprudencia patria, ou que,
    bem como acontece nos outros diplomas, em que se acham passagens
    analogas, houvesse n'elle um abuso de terminologia feudal accommodada ás
    instituições hispanicas, vindo assim a significarem as palavras _ut sis
    inde meus homo, et de me eam habeas domino_, que o conde Henrique
    ficaria com o governo de Toledo, como conde delegado n'aquella
    provincia, reconhecendo a supremacia real de Raimundo n'esse districto,
    emquanto Portugal ficava sendo estado separado e independente.

    Que se fazia este abuso de termos da Peninsula é incontestavel. O
    _Feudum reddibile_ não existia ainda n'aquella epocha, porque só
    appareceu quando, degeneradas as instituições feudaes, a palavra
    _feudum_ começou a servir para indicar todo o genero de transmissão
    incompleta de propriedade[41]. Não podia, portanto, ser conhecido na
    Hespanha no principío do seculo XII um genero de falso feudo, que se
    oppunha á mesma essencia da propriedade feudal–o hereditario e a
    perpetuidade. Todavia a _Historia Compostellana_ assevera que o
    arcebispo de Santiago dera ao de Braga certas propriedades _ad tempus
    pro feudo_, e este declara que as recebera _in praestimonium sive
    feudum_, d'onde claramente se vê que então se tomava _feudo_ por
    synonymo de _prestano_, sendo aliás coisas diversissimas[42]. A rainha
    D. Urraca, tendo comprado ao mesmo arcebispo de Santiago o castello de
    Cira, pediu-lh'o depois _in pheodum_, diz o historiador compostellano, e
    elle lh'o concedeu com a condição de que logo que lhe fosse pedido o
    entregasse[43]. Se entendessemos, porém, a palavra _pheodum_ na sua
    verdadeira accepção, não houvera sido impossivel similhante contracto?

    Vemos, pois, que a idéa de ter sido dado Portugal em feudo ao conde
    Henrique é tão repugnante e inadmissível como a de lhe ter vindo em dote
    de sua mulher. Resta só um meio para deixar de attribuir pura e
    simplesmente á revolta do conde a sua independencia politica.

    Este meio consiste em suppôr que, morrendo Affonso VI sem filhos varões,
    o conde julgasse que o reino se devia dividir entre suas filhas; que a
    sua mulher tocava, pelo menos, a provincia que elle governava; e que
    finalmente se estribasse n'este fundamento para não se reconhecer
    subdito de D. Urraca. Similhante idéa parece ter occorrido ao
    respeitavel auctor das _Memorias do conde D. Henrique_, quando por
    occasião do célebre pacto successorio, diz que «_os dois condes_, vendo
    que a _herança_ de tão vastos e ricos estados, a que por suas mulheres
    _tinham direito_, lhes escapava das mãos….. isto devia…..
    inspirar-lhes o pensamento de se prevenirem, etc.»

    Tal reflexão, creio eu, não fizeram os dois condes pela mui simples
    razão de que não a podiam fazer; tal motivo não tiveram porque não o
    podiam ter. A razão do pacto, a meu ver, não foi mais que um calculo de
    forças: os dois condes unidos assim eram naturalmente mais fortes que
    qualquer outro competidor ao throno que por morte de Affonso VI se
    alevantasse. O conde Raimundo entendeu, e entendeu bem, que valia a pena
    de sacrificar uma parte de territorio á ambição de Henrique, com a
    condição de cingir a corôa d'Hespanha. Do theor o pacto successorio se
    vê que este negocio começou a ser tecido em Cluni; porque este celebre
    mosteiro era então o foco de todos os grandes enredos politicos, e
    exercia uma influencia immensa na curia romana, sempre prompta para
    proteger novidades uma vez que estas lhe produzissem as celebres
    _benedictiones_[44], de que tantas vezes falla á _Historia
    Compostellana_. E com effeito o negocio tinha assim todas as
    probabilidades de bom resultado, se a morte, como costuma, não viesse
    baralhar as combinações humanas.

    Disse que Raimundo e Henrique não podiam ter tido por motivo do pacto a
    consciência de um direito commum a ambos; porque tal direito seria
    sonhado. Que!? A coròa do reino leonez-castelhano era alguma herdade,
    aldêa, mosteiro, _testamento_[45] emfim, que se repartisse entre
    herdeiros, ficando a este o quarto, a outro o sexto, a aquell'outro o
    resto? Se o fosse, que deveriamos nós chamar a Raimundo, o qual se
    contentava com tomar para seu quinhão _hanc totam terram Regis
    Aldephonsi_, ou ao conde Henrique, que promettia ajuda-lo em tão sancta
    e louvavel empreza? Porque haviam assim de ser espoliadas as outras
    filhas de Affonso VI, entre as quaes se contam algumas com mais
    segurança legitimas que a mulher de Henrique?[46] Raimundo poderia
    talvez julgar-se com justiça na successão, por ser sua mulher a filha
    mais velha de Affonso VI: o hereditario da corôa começara de havia muito
    a fixar-se por direito consuetudinario opposto ao direito politico
    escripto, e Urraca devia succeder a seu pae por este _costume_, que
    apenas deixava a sentença do codigo wisigothico a tal respeito, como
    simples e mera formalidade: Henrique, porém, nada tinha que vêr em
    similhante negocio, e só legalmente lhe cumpria obedecer ao novo
    monarcha, como obedecia a Affonso VI.

    Mas, dir-se-ha, Raimundo podia d'antemão ceder uma parte da monarchia,
    que lhe havia de pertencer, a Henrique, seu cunhado, primo e companheiro
    d'armas, a fim de que este o ajudasse com a força a tornar effectivo o
    seu direito de successão, se este direito existia[47]. Não! A indole das
    instituições hespanholas oppunha-se formalmente a similhante cessão.

    É preciso em todas estas averiguações não esquecer nunca um grande facto
    social d'aquella epocha, facto que o historiador-philosopho Martinez
    Marina provou irrecusavelmente, e que derruba pelos fundamentos essas
    explicações violentas de um acontecimento mui simples–a revolta do
    conde Henrique. Este acontecimento não deshonra o conde, porque elle não
    podia ter as idéas de estreita legalidade, que nós hoje exigimos e
    devemos exigir dos homens politicos. No seu tempo a força corria
    trivialmente parelhas com o direito: era esta uma das infinitas e
    pessimas consequencias moraes da barbaria e rudeza dos tempos. Do mesmo
    modo nenhuma nódoa póde pôr nos fastos gloriosos da nação essa origem
    menos ajustada pelas regras da jurisprudencia politica d'aquellas eras.
    Toda a nação independente legitimamente o é, seja qual for a historia do
    apparecimento da sua individualidade ou da sua organisação. Nem a França
    recusa a usurpação de Pepino, ou de Hugo, nem a Inglaterra a conquista
    de Guilherme o _Normando_: essas nações possuem sobeja luz de gloria
    para desvanecer taes sombras. Será o velho Portugal mais pobre e obscuro
    do que ellas?

    O facto, digo, de que nunca nos devemos esquecer é, que a monarchia
    fundada por Pelaio nas Asturias, e que depois se chamou Leão e Castella,
    não foi uma nova sociedade que appareceu; não foi uma nova raça que pela
    conquista substituísse no dominio da terra uma sociedade conquistada o
    dissolvida. A monarchia leoneza foi a reacção wisigothica contra a
    invasão arabe: mais nada. O throno de Leovigildo recuou deante do throno
    dos califas até as margens do Deva, e d'abi voltou a Toledo. Ida e volta
    foi por uma estrada coberta de cadaveres, e a viagem gastou tres
    seculos. Mas com esse throno, na fuga e no triumpho, as instituições, as
    leis, quasi os costumes, que o rodeavam, subsistiram por largo tempo. As
    _Partidas_ de Affonso o _Sabio_ são a declaração de que a sociedade
    wisigothica tinha emfim expirado, depois de dilatada agonia. Este codigo
    feudal-canonico-romano é o verdadeiro ponto d'intersecção entre a
    monarchia germanica e a monarchia moderna; e ainda áquem das _Partidas_,
    quantas reminiscencias, quantos costumes, quantas leis, enraizadas no
    solo Peninsula pela cuidadosa cultura dos godos, melhor radicadas talvez
    ainda, como as arvores robustas, pelo tufão terrivel da conquista arabe,
    não ficaram vivas, perennes, activas, no meio da sociedade moderna!
    Ninguem mais que nós os filhos das Hespanhas se abraça ternamente com as
    usanças do passado. É que ainda em nossas veias gira muito sangue dos
    godos. Na historia das instituições, os povos da Peninsula são mais
    velhos do que elles pensam.

    Todos sabem que o codigo das _Partidas_ pertence á segunda metade do
    seculo XIII, e que a epocha de Affonso VI pertence aos fins do XI, e
    primeiros annos do XII. Para outro logar deixamos o exame das
    alterações, quasi todas formaes e poucas substanciaes, que os francos
    introduziram na organisação politica da Hespanha: é, porém, indubitavel
    que a natureza da monarchia não tinha sido mudada. A substituição do
    hereditario ao electivo na successão havia-se convertido em uso, é
    verdade; mas este uso não pertencia exclusivamente aos tempos
    posteriores a Pelaio. Anteriormente aos arabes, os godos tinham
    conhecido a vantagem immensa d'aquelle systema de transmissão da corôa
    ao systema electivo; e a successão de paes a filhos começava a fixar-se
    como principio politico na côrte de Toledo, quando justamente uma
    offensa feita a esse principio na enthronização de Rudericus (Rodrigo)
    produziu a guerra civil, que abriu o caminho aos conquistadores
    sarracenos.

    A eleição do rei lá ficou, todavia, escripta na lei da terra, no codigo
    wisigothico, e as consequencias naturaes do principio electivo
    designadas nesta lei, e além d'isso traduzidas nos factos. A acclamação
    do novo imperante, o _hominium_ ou preito e menagem que lhe faziam os
    barões convocados a côrtes (_concilium_), e até a expressão de
    _electus_, de que muitos reis de Oviedo e Leão usaram nos diplomas
    fallando de si, provam que elles não se esqueciam de qual era o
    fundamento legal da sua existencia politica[48]–a escolha dos godos.
    D'esta circumstancia, d'este pensamento, que por assim dizer se achava
    como incorporado no facto contrario–a successão hereditaria–e
    modificava esse facto, nascia que todas as outras disposições do codigo
    wisigothico, relativas ás obrigações contrahidas pelos reis no momento
    da acclamação, se conservavam em vigor como nos tempos em que a
    monarchia era na realidade electiva. Entre estas obrigações era uma das
    mais importantes o prestarem juramento de nunca alhearem os bens ou
    estados da corôa, e de não herdarem a seus filhos senão as terras ou
    bens que adquirissem antes de subirem ao throno, ficando no patrimonio
    do estado tudo o que depois da sua eleição n'elle tivessem
    accrescentado[49]. Era a esta lei, observa Martinez Marina[50], que D.
    Affonso o _Sabio_ se referia no seculo XIII, dizendo: «foro e
    estabelecimento fizeram antigamente em Hespanha, que o senhorio do rei
    nunca se dividisse ou alheasse.»[51] A tradição d'esta antiga
    jurisprudencia veio ainda reflectir de algum modo entre nós na feitura
    da _Lei mental_.

    Similhante instituição obsta a que qualquer cessão de Raimundo a seu
    primo tivesse validade ainda quando subisse ao throno, quanto mais sendo
    apenas um simples pretendente. Assim, ao passo que se vê não ser o pacto
    successorio mais que um documento da ambição dos dous condes, conhece-se
    tambem que é escusado procurar n'elle o titulo da independencia
    portugueza. Ainda, repito, subindo ao throno, Raimundo teria exorbitado
    das suas attribuições: teria offendido uma das partes essencialissimas
    do direito politico da Hespanha, se houvesse alheado da corôa uma tão
    importante porção de territorio como Portugal, sem consentimento do
    _concilium_, ou _côrtes_. Fernando Magno tinha entendido isto
    perfeitamente quando, para dividir a monarchia em tres estados que
    herdassem seus tres filhos, as convocou em Leão a fim de obter o
    consentimento nacional[52].

    Nestas considerações, a meu ver, está a razão capital de se dever
    recusar a sancção historica a essas tradições de dotes, d'infeudações,
    de direitos hereditarios, que se tem acceitado de antigas chronicas com
    demasiada boa fé.

    Não concluirei já agora, sem accrescentar alguns reparos aos argumentos
    negativos, que faz o sabio auctor das _Memorias do conde D. Henrique_, a
    favor da opinião que sustenta a legalidade do acto de separação que deu
    origem á monarchia portugueza.

    Aquelle erudito illustre observa que, practicando o conde depois da
    morte d'Affonso VI todos os actos de um soberano independente (e isto,
    creio eu, ninguem contesta hoje), não appareceu um documento público em
    que os leonezes accusassem Henrique e depois D. Theresa de _rebeldes_,
    ou em que exigissem vassalagem d'elles; que não _ha prova alguma
    positiva e certa de que por esse singular motivo fizessem a guerra aos
    portuguezes_; que finalmente nenhuma das _numerosas_ chronicas
    d'aquelles tempos haja feito menção da dependencia de Portugal, salvo a
    _Historia Compostellana_, a que, n'esta parte, o illustre auctor das
    citadas _Memorias_ parece recusar o seu assenso por ser obra d'estylo e
    modo d'historiar _exaggerado_, e ás vezes manifestamente apaixonado.

    O governo do conde Henrique divide-se em dois periodos distinctos: o
    primeiro, que corre de 1096 até 1109, isto é, até a morte _d'Affonso_
    VI: o segundo desde esta epocha até a morte d'elle proprio em 1112[53].
    Quanto á primeira não pode haver questãpo sobre a sua dependencia do
    monarcha: os diplomas d'esse tempo não consentem a menor sombra de
    dúvida a similhante respeito. Quanto á segunda tambem me parece
    indubitavel que o conde saccudiu o jugo de Leão; mas o que não posso
    admittir é que os leonezes legalisassem este facto com o seu
    reconhecimento antes do tempo de D. Affonso Henrique.

    Bastaria dizer aqui que um argumento negativo bem pouco fôrça pode ter
    contra provas em contrario deduzidas da propria natureza, instituições,
    leis e costumes do paiz. Mas não ha só isso; considerando em si o
    argumento, elle não parece dos mais vehementes no seu genero. Vejamos.

    Primeiro que tudo, _as numerosas chronicas d'esses tempos_ parece-me uma
    expressão demasiado vaga e incerta. Se o respeitavel sabio, a que
    alludo, intende por _chronicas d'esses tempos_ os escriptores
    _contemporaneos_ do conde e ainda de D. Theresa, que lhe sobreviveu 18
    annos, eu desejaria saber onde existe esse grande numero d'ellas, para
    as lêr, e evitar assim os avultados erros, em que por ignorancia das
    fontes historicas terei provavelmente caído. Se intende os escriptores
    dos tempos immediatos, seja-me permittido lembrar-lhe que Rodrigo de
    Toledo, escrevia na primeira metade do seculo XIII[54], concorda com a
    _Historia Compostellana_ em chamar _rebellião_ ao procedimento do
    conde[55], e n'esse caso não é _singular_ o testimunho d'aquella
    importante historia.

    Eu sei que existe um certo numero de _chronicons d'esses tempos_,
    publicados pela maior parte nos appendices da _Hespanha Sagrada_. Mas
    infelizmente para o nosso caso, aquelles em que os successos vem mais
    particularisados, e que mereceriam não o nome de _historias_, mas
    talvez, alguns pelo menos, o de _chronicas_[56], não ultrapassam a
    epocha d'Affonso VI. Taes são o d'Isidoro de Béja, o do Biclarense, o de
    Sebastião de Salamanca, o de Sampiro, o Monge de Sillos etc. Os que
    passam áquem da morte d'Affonso VI são apenas um aggregado de datas
    relativas aos seculos XII e XIII e aos anteríores, datas estremes de
    nascimentos, batalhas, obitos e phenomenos naturaes. Em taes monumentos,
    essencialmente chronologicos, como fôra possivel encontrar a menção do
    facto que pela sua propria natureza devia ser lento, e concluido por uma
    série de actos graduaes e escuros, praticados successivamente durante
    annos? Como se poderia achar uma historia politica em rudes apontamentos
    de monges ignorantes, que muitas vezes para indicarem uma batalha
    importante contentavam-se com dizer: _Era de tal_–_Foi a de Sagralias:
    foi a d'Ucles_? Eu, ao menos, não creio que similhante espécie ahi se
    podesse encontrar.

    Mas, se abstrairmos d'estes _chronicons_, que obras historicas nos
    restam escriptas n'esse tempo ou proximamente, com tal extensão, que
    devamos buscar n'ellas noticia d'este facto politico e complexo? Conheço
    apenas tres: a _Historia Compostellana_, a _Chronica d'Affonso VII_, e o
    livro de D. Rodrigo Ximenes _Das coisas de Hespanha_. Como já notei, a
    primeira e terceira chamam rebellião a esse facto: a segunda é que
    guarda silencio a similhante respeito. Tire d'aqui o leitor a conclusão
    que quizer, não se esquecendo que já ponderei sobre o valor historico
    que me parece têr a _Chronica d'Affonso VII_.

    O clarissimo auctor das _Memorias do conde D. Henrique_ regeita, ao que
    parece, n'este ponto a auctoridade dos historiadores compostellanos
    (postoque na _Memoria sobre a origem de Portugal_ os houvesse
    qualificado de _não suspeitos_) por serem _exaggerados_ e _apaixonados_.
    Esta observação é exactissima. Quem ler dez ou vinte capitulos d'aquella
    chronica ficará plenamente convencido de tão inquestionavel verdade, sem
    que lhe seja preciso ter presente a extensa dissertação de Masdeu a este
    respeito.[57] Mas o que _exaggeram_ os tres conegos de Sanctiago
    auctores do livro?–A perversidade de D. Urraca, e as virtudes do
    arcebispo Diogo Gelmirez. Não ha injúria que elles não vomitem repetidas
    vezes contra aquella rainha, que sem ser sancta, ou pelo menos beata,
    como a pinta Flores, não foi tão detestavel mulher como os tres honrados
    conegos a descreveram. Por outra parte não ha lisonja ridicula ou louvor
    despropositado que não dirijam ao seu velhaco, hypocrita, cubiçoso e
    violento patrono. Porque serão pois elles suspeitos mostrando-se
    favoraveis ás pretensões de D. Urraca ácerca de Portugal, quando, além
    d'isso, não tinham motivo nenhum de odio contra D. Theresa, que
    beneficiou a sé de Compostella, e que até, andando Diogo Gelmirez com a
    rainha D. Urraca devastando o Minho, lhe deu aviso de que sua irmã o
    queria prender ou matar? É realmente incomprehensivel para mim o motivo
    por que na questão da legitimidade ou illegitimidade da separação de
    Portugal a _Historia Compostellana_ haja de ser-nos suspeita por
    exaggeração e parcialidade.

    Finalmente, a exigencia de um documento leonez, pelo qual conste a
    pretendida sujeição de Portugal, parece-me demasiado violenta. Qual
    devia ser o documento? Um manisfesto? No seculo XII não creio existisse
    ainda essa divindade dos homens honestos, chamada opinião pública. Nas
    questões politicas recorria-se ás armas para obter justiça ou desforço,
    e não se faziam allegações. Se apparecesse um tal documento, a prova da
    sua falsidade seria a sua existencia; e todavia só por um manifesto
    poderiam constar directamente as pretensões de D. Urraca e de Affonso
    VII. Indirectamente, porém, na propria _Memoria_, a que alludo, se
    lembra seu respeitavel auctor do que D. Urraca se intitúlava _rainha de
    toda a Hespanha_. Que mais podia fazer? Doações em Portugal de bens da
    corôa? Ninguem lh'as quizera, porque não se effeituariam, visto que
    Portugal não a tinha por senhora. Providencias governativas? Não lhe
    obedeceriam. De que titulo, pois, pode resultar a prova directa que se
    exige?

    Prova directa digo, porque só esta tinha em mente por certo o sabio, de
    cuja opiniões me vejo constrangido a afastar-me, quando escreveu que não
    existe documento pelo qual _conste a pretendida sujeição_[58]. Era
    impossivel que elle se não lembrasse do tractado que traz Brandão[59] em
    cujo preambulo se lê: «É este o juramento e convenio que faz a _rainha_
    D. Urraca a sua irmã a _infanta_ D. Theresa.» Desejaria eu saber porque,
    intitulando-se a viuva do conde Henrique constantemente _regina_ nos
    documentos de Portugal, consentiu em um tractado de paz com sua irmã que
    esta reservasse para si similhante titulo, e lhe désse unicamente o
    d'_infanta_? Como se registou tal denominação no _Liber Fidei_ de Braga,
    d'onde a tirou Brandão, sendo assim offensiva da legitima independencia
    e senhorio real de D. Theresa?

    Accrescentarei uma conjectura. O documento produzido por Brandão não tem
    data. Quem lêr attentamente os capitulos 40 e 42 do livro 2.^o da
    _Historia Compostellana_ poderá talvez attribui-lo ao anno de 1121, em
    que D. Urraca acompanhada do guerreiro arcebispo Diogo Gelmirez entrou
    por Portugal dentro, e o devastou, chegando D. Theresa ás estreitezas de
    se ver cercada no castello de Lanhoso. Distraídos pelos perigos do seu
    heroe Gelmirez, que n'esta occasião D. Urraca, dizem elles, quiz prende,
    esqueceram-se de narrar expressamente as consequencias politicas da
    guerra. Mas dos factos referidos n'esses capitulos se pode deduzir que
    as duas irmãs fizeram pazes, e até os dois campos inimigos conviveram
    familiarmente[60]. Aquelle tractado não é por ventura mais que o
    desfècho da invasão; bem como as condições vantajosas que por elle devia
    obter D. Theresa, o repentino intento de prender o arcebispo, e a
    notoria perfidia e turbulencia d'aquelle sancto varão, me fazem
    suspeitar que elle tramaria alguma traição contra a sua soberana, a qual
    odiava cordialmente, e tractando secretamente com D. Theresa (cujo
    repentino accésso de amor por um homem que lhe devastava o paiz é aliás
    inexplicavel) pretenderia com a juncção das suas forças ás portuguezas
    aniquilar D. Urraca. Se assim foi, porque isto é apenas uma conjectura
    verosimil, habilmente andou a rainha em conceder uma paz vantajosa a sua
    irmã, para poder desaggravar-se da traição de Gelmirez. Admittida esta
    hypothese, o documento do _Liber Fidei_ e a _Historia Compostellana_
    concorda e explicam-se excellentemente.

    O titulo d'_infanta_, dado com exclusão de outro a D. Theresa, não
    apparece unicamente no _Liber Fidei_. Remettendo Bernardo, arcebispo de
    Toledo, a Diogo Gelmirez copia de certas letras apostolicas relativas ao
    celebre Mauricio Bordino, arcebispo de Braga, envia-lhe com ellas outras
    dirigidas á _infanta dos portuguezes_[61]. Vê-se d'esta passagem, da
    carta do primaz que tal era o titulo diplomatico com que na côrte de
    Toledo se designava D. Theresa; titulo vago, que mostra, a meu vêr, a
    incerteza d'aquella côrte entre o facto, que provavelmente não tinha
    fôrça para annullar, e o direito de supremacia, que julgava evidente.

    Ficarei aqui pelo que toca ao facto da origem da independencia de
    Portugal: algum dia examinaremos como ella se consolidou e legalisou.
    Chama-nos mais grave assumpto–a historia social do nosso paiz n'essa
    épocha.

    *CARTA IV*

    A folhinha d'algibeira, tecendo o catalogo dos nossos reis, divide-se em
    quatro dynastias: a 1.^a Luso-Capêta, a 2.^a, do Mestre d'Aviz, a 3.^a
    dos Philippes, a 4.^a Brigantina. A folhinha resume e representa o
    estado da sciencia historica do nosso paiz.

    Mas a folhinha, salvo o incompleto e inexacto d'aquellas divisões
    dynasticas, tem razão. Ella tece o catalogo das familias reaes. Quem não
    tem razão é a sciencia, que, annunciando a _Historia de Portugal_, em
    vez de distribuir as épochas chronologicas pelas transformações
    essenciaes da sociedade, sujeita a ordem dos acontecimentos sociaes ás
    mudanças das raças reinantes. Isto é altamente absurdo.

    Mr. Thierry, fallando das divisões dynasticas applicadas á historia
    franceza, já observou a impropriedade de similhante systema[62].
    «Supponde (diz elle) que um estrangeiro, pessoa de juizo, que não seja
    hospede na leitura dos historiadores originaes da decadencia do imperio
    romano, e que nunca houvesse aberto um volume moderno da nossa historia;
    supponde, digo, que ao encontrar a primeira vez um livro d'estes lhe
    corra o indice, e divise ahi por balizas, ou antes por fundamentos da
    obra, a distincção das diversas raças. Que idéa quereis que faça d'estas
    raças e do pensamento do auctor? Ha-de provavelmente crer que tal
    distincção corresponde á de diversas gentes, ou gaulesas ou peregrinas,
    cuja mistura produziu a nação franceza; e quando souber que se enganou,
    que são unicamente diversas familias de principes, sobre as quaes versa
    todo o systema da nossa historia, ficará sem duvida cheio
    d'assombro.»–Esta reflexão do mais célebre historiador francez da
    épocha presente, é inteiramente applicavel ao nosso paiz.

    Com effeito, quem, á vista das diversões estabelecidas na _Historia de
    Portugal_, imaginará, por exemplo, que os acontecimentos sociaes do
    ultimo quartel do seculo XIII, isto é, do reinado de D. Diniz, consituem
    uma divisão naturalissima, uma verdadeira épocha historica, ao mesmo
    tempo que a intrusão dos Philippes apenas mereceria tal nome? Quem
    adivinhará que no reinado de D. João II se completa uma revolução
    capital na indole da organisação politica do paiz, ao passo que a
    revolução de 1640 traz á sociedade portugueza levissimas mudanças no seu
    mode de existir? Ninguem o crerá, se attendendo unicamente ás épochas
    assentadas pelos historiadores se persuadir de que a historia é a
    biographia dos individuos eminentes.

    A historia pode comparar-se a uma columna polygona de marmore. Quem
    quizer examina-la deve andar ao redor d'ella, contempla-la em todas as
    suas faces. O que entre nós se tem feito, com honrosas excepções, é
    olhar para um dos lados, contar-lhe os veios da pedra, medir-lhe a
    altura por palmos, pollegadas e linhas. E até não sei dizer ao certo se
    estas indagações se teem applicado a uma face ou unicamente a uma
    aresta.

    Mas é similhante trabalho desprezivel? Não por certo. Este exame miudo,
    feito com consciencia, tem grande applicação, e ainda em si é
    importante; mas dar-nos isso como a historia da nação é, salvo erro,
    enganar redondamente o genero humano; é não perceber os fins da
    historia, a sua applicação como sciencia; é sobretudo fazer uma coisa, a
    que podêmos chamar novella, distincta sómente d'aquellas a que se dá tal
    titulo, pelo tedioso, árido e sem sabor da leitura que offerece.

    As divisões historicas actuaes nasceram d'este modo falso (por
    incompleto) de considerar o passado. A necessidade de estabelecer uma
    chronologia rigorosa era evidente: os factos politicos e a vida dos
    homens publicos precisavam de ser fixados com exacção no correr dos
    tempos, principalemente para o julgamento dos diplomas, genero de
    monumentos, em que as gerações extinctas se pintam melhor, que em
    nenhuns outros. O erro, a meu vêr, foi acreditar que ficando-se aqui
    existia a historia: erro digo, e completo; porque nem se quer a
    biographia dos homens eminentes surgiu de taes averiguações. Temos a
    certidão do seu nascimento, baptismo, casamento e morte. Se foi um
    guerreiro, temos a descripção das suas batalhas; se legislador, a medida
    intellectual e moral de seu espirito, os seus habitos e costumes, não os
    conhecemos. E porque? Porque esse homem é uma abstracção: está separado
    do seu seculo. As opiniões, os costumes, os usos, todos os modos, emfim,
    de existir da épocha em que viveu, são desconhecidos para nós; e todavia
    tudo isso, toda essa existencia complexa de muitos milhares de homens, a
    que se chama nação, devia ter uma influencia immensa, absoluta,
    n'aquella existencia individual do homem illustre, que o historiador
    acreditou poder fazer-nos conhecer com os simples extractos de quatro
    chronicas, cosidos com bom ou máu estylo ás respectivas certidões de
    baptismo, de casamento e de obito.

  • Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 04

    Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 04

    Aproximadamente 55.130 palavras.

    Mas tambem quizeramos que os fautores da pequena propriedade allodial e
    da subdivisão indefinita do solo, que vêem na existencia dos morgados o
    principal obstaculo á realisação das suas idéas, nos explicassem como é
    que ao norte do reino a pequena propriedade se harmonisa tão facilmente
    com a instituição vincular, e ao sul a vasta propriedade passa indivisa
    de geração em geração ao lado dos latifundios vinculados: que nos
    dissessem se essas innumeraveis subrogações, pelas quaes se tem
    libertado a terra para se immobilisarem em logar d'ella titulos de
    divida fundada, tem influido na subdivisão do solo; e se, dando-se nos
    predios ainda actualmente vinculados as mesmas condições especiaes
    agronomicas e economicas que determinam a integridade dos allodios,
    elles esperam que pelo facto da desvinculação desappareçam nos bens de
    vinculo essas condições especiaes.

    A verdade é que, considerada nas suas relações agricolas, a grande
    propriedade não presuppõe necessariamente nem a grande nem a pequena
    cultura. Em rigor os vastos predios vinculados poderiam associar-se com
    ella e, ainda, chegar á extrema exaggeração que a torna um verdadeiro
    flagello das populações ruraes. Se o nosso paiz não offerece exemplos
    assaz geraes e evidentes d'esse facto, temol-os extranhos, mas
    decisivos. É a Irlanda que nos subministra o mais singular. A Irlanda
    antes das ultimas reformas, e da revolução produzida pelo _Encumbered
    Estates Bill_, era quasi exclusivamente um paiz de substituições (os
    morgados inglezes), e, se essa lei previdente de uma immensa liquidação
    produziu grandes beneficios, os males antigos ainda subsistem em larga
    escala[1]. Em nenhuma parte se acha tão perspicuamente descripta a
    associação da grande propriedade com a pequena cultura, e bem assim os
    effeitos que pode produzir essa associação, dadas certas circumstancias,
    como na passagem que vamos transcrever de um dos lilivros mais notaveis
    que se tem publicado na nossa epocha[2]. Posto que algum tanto extensa
    transcrevemol-a inteira, porque encerra outras idéas e outros factos que
    talvez não nos sejam inuteis na prosecução d'este trabalho.

    «Gerava enleio nos fautores exclusivos da vasta propriedade, diz Mr. de
    Lavergne, a ponderação do estado da Irlanda. Mais que em Inglaterra,
    mais até que em Escocia prevaleciam ahi os vastos predios. Proprietarios
    de glebas medianas ou pequenas só os havia nas cercanias das povoações
    de vulto, onde limitado trafico commercial ou limitada industria tinham
    favorecido a existencia de uma especie de burguezia. Dividia-se o resto
    da ilha em latifundios de 1:000 até 100:000 acres ou geiras inglezas.
    Quanto maiores eram as propriedades, maior era a decadencia d'ellas. As
    de mais extensa área estavam de cavallaria, como, por exemplo, o celebre
    districto de Connemara, no Connaught, chamado vulgarmente _Martin's
    Estate_. As substituições, mais communs na Irlanda que em Inglaterra,
    tornavam estes bens inalienaveis.

    O enleio para os que reputam a pequena cultura panacéa universal, não
    vinha a ser menor. Se a Irlanda era a terra da vastissima propriedade,
    era tambem a terra da pequenissima cultura. Não se contavam ahi menos de
    300:000 casaes inferiores a dous hectares; 200:000 de dous a seis;
    80:000 de seis a doze, e de doze para cima apenas 50:000. As leis de
    successão favoreciam estas divisões, ordenando que as proprias terras de
    arrendamento se dividissem entre os filhos do rendeiro, o que não era
    uma disposição van como em Inglaterra.

    Esta união da grande propriedade com a pequena cultura, que deu optimos
    resultados n'alguns pontos da Gran-Bretanha e da Escocia, deu-os
    pessimos na Irlanda. Parecia que os proprietarios e os lavradores se
    tinham ajustado para a ruina commum, estragando o instrumento da commum
    riqueza–o solo. Em vez do fecundo habito de residencia local, que
    caracteriza os proprietarios inglezes, os _landlords_ irlandezes, sempre
    ausentes dos seus predios, tiravam d'elles quanto rendimento podiam para
    o gastarem n'outra parte. Faziam arrendamentos a longo prazo, pelo mais
    alto preço possivel, a especuladores residentes em Inglaterra, e que
    eram representados por sub-arrendatarios, denominados _middlemen_.
    Imprevidentes e gastadores como todos aquelles a quem o dinheiro não
    custa a ganhar, e não tendo, por não saberem applicar algum a tempo e
    horas nos respectivos predios, senão redditos incertos e precarios,
    dispendiam sobre posse, e as dividas absorviam-lhes por fim a maior
    parte da sua supposta fortuna.

    Do mesmo modo os _middlemen_, só empenhados em accumular lucros sem
    dispender real e descuidados do futuro, não tendo com a cultura em si
    nenhuma relação directa e pessoal tinham sublocado a terra até o
    infinito. A população rural multiplicada excessivamente, visto que subia
    a 60 almas por hectare proximamente, ao passo que em França sobe apenas
    a 40, em Inglaterra a 30, e na Escocia baixa a 12, accommodava-se aos
    seus intuitos. Havia-se creado uma concorrencia extraordinaria entre os
    cultivadores para obterem porções de terra. Tanto cabedal possuiam uns
    como outros, e por isso os meios de lançarem em praça eram eguaes para
    todos: o que cada chefe de familia queria era adquirir algumas nesgas de
    terra para cultivar com a familia.

    Assim se desenvolvera o systema das pequenas locações, a que chamaram o
    _cottiers system_, que não será precisamente mau em si se não se
    exaggerar. Além de dispensar o capital, quando o não ha, substituindo-o
    pelo trabalho braçal, tem a vantagem de supprimir a entidade a que
    propriamente se chama jornaleiro, isto é, o individuo que vive só da
    procura de trabalho e sujeito ás suas variações. A dizer a verdade, em
    Irlanda havia pouquissima gente assalariada: os que n'outras partes
    seriam jornaleiros, vivendo do jornal diario, eram alli pequenos
    rendeiros. Mas tudo tem limites, e era o que não acontecia na divisão
    dos grangeios, em razão do numero sempre maior dos concorrentes. Os
    caseiros tinham a principio obtido casaes, onde uma familia podia,
    rigorosamente fallando, viver e pagar a renda: dividiram-se estes casaes
    primeira, segunda e terceira vez, ale que se chegou ás 600:000 glebas de
    menos de 6 hectares, ou, por outra, á extremidade de não ter o
    cultivador senão o estrictamente necessario para não morrer de fome, e
    de importar a menor quebra no volume da colheita primeiro a
    impossibilidade do pagamento da renda, e a final a morte do proprio
    rendeiro.»

    O exemplo da Irlanda é uma demonstração estrondosa da inutilidade dos
    vinculos para manter pela grande propriedade a grande cultura: prova
    que, onde se derem causas efficazes para que a pequena cultura
    prepondere, os vinculos, longe de lhe pôr obstaculos, a deixarão ir até
    á extremidade em que é um verdadeiro mal, mal que egualmente pode
    resultar do fraccionamento excessivo da propriedade allodial.

    Se os vastos predios vinculados nas provincias meridionaes de Portugal
    não nos dão o espectaculo que nos offerece a Irlanda, é porque nas
    nossas provincias do sul escaceia a população rural, e falta quem,
    impellido pela fome, vá disputar a outro miseravel como elle algumas
    nesgas de terra: é que o sul do reino, sobre tudo o Alemtejo, acha-se em
    grande parte deserto. Se assim não fosse, a existencia dos vinculos não
    obstaria de certo a que a procura excessiva da terra, compensando pela
    elevação da renda parcellaria as desvantagens da divisão dos grandes
    predios, trouxesse a pequena cultura, não com os seus caracteres
    beneficos, mas com aquelles que tornam fatal o seu predominio
    illimitado.

    IX

    *Objecções fundadas contra os vinculos*

    As precedentes considerações parece-nos terem provado duas cousas: terem
    provado que a abolição dos vinculos nem é facil, nem deixa de trazer
    serios inconvenientes; e ao mesmo tempo que as vantagens, attribuidas a
    esta instituição pelos seus defensores absolutos, são em grande parte
    imaginarias. A aristocracia, a manifestação das desegualdades sociaes,
    como ella é possivel n'este seculo, vimos que não precisa d'esse meio
    artificial para se manter, porque deriva das condições impreteriveis da
    sociedade; mas tambem vimos que a conservação dos pequenos vinculos é o
    correctivo temporario a uma organisação administrativa que vicia as
    instituições politicas e que attenta pela força da propria indole contra
    a liberdade.

    Em nosso entender tanto os que combatem os vinculos como os que os
    defendem partem, talvez involuntariamente, de preoccupações oppostas que
    não os deixam apreciar desapaixonadamente o merito da questão. Tanto uns
    como outros cedem mais ao affecto do que aos frios calculos da razão. Os
    vinculos representara o passado: são um resto do edificio social
    desmoronado, cuja completa demolição julgam commummente indispensavel os
    homens das novas idéas. Para estes os vinculos devem desapparecer,
    porque são uma tradição, um memento da antiga monarchia e de uma
    sociedade affeiçoada por ella. Mas é justamente por isso que os seus
    adversarios querem amparar o que resta em pé do edificio, ou que, indo
    mais longe na irreflexão da saudade, desejariam não só conservar este,
    mas tambem colligir de novo todos os outros materiaes dispersos que
    servissem para o reconstruir.

    Este modo parcial e indiscreto de apreciar um facto economico e social
    conduz forçosamente a conclusões absolutas e extremas; mas as conclusões
    absolutas trazem a impossibilidade de uma transacção, e nós não
    consideramos nenhuma solução da contenda como util e possivel senão a
    que resultar de uma transacção entre idéas oppostas e oppostos
    interesses. Não a consideramos como util sem uma transacção, porque a
    abolição radical e completa traria os graves inconvenientes que em parte
    ficam ponderados, e que aliás estão longe de provar que a existencia dos
    vinculos é ou foi proveitosa. Não a consideramos como possível, porque,
    ferindo interesses poderosos e preoccupações arreigadas, estes
    interesses e preoccupações seriam obstaculo perpetuo a uma lei
    definitiva sobre o assumpto. N'uma epocha revolucionaria, como a de 1832
    a 1834, a abolição completa teria sido exequivel. As idéas e os
    interesses oppostos eram obrigados a calar-se diante da voz omnipotente
    da revolução. O tempo teria absolvido as injustiças relativas e os males
    parciaes pela importancia dos resultados. N'essa epocha, porém, de
    grandes ousadias, não se ousou tanto, e apenas se manifestou a guerra
    aos vinculos pela condemnação dos pequenos morgados; d'aquelles a que
    menos quadravam as accusações que se podiam fazer contra esta especie de
    propriedade. Dir-se-hia que n'essa conjunctura, em que a sociedade e a
    monarchia se transformavam, só se tivera presente o pensamento da lei de
    3 de agosto de 1770, que consagrava a amortisação dos latifundios como
    meio de conservar uma opulenta aristocracia hereditaria que cercasse de
    falso brilho o throno de um rei absoluto. Se, porém, os homens gigantes
    d'então, ardentes nas suas crenças, implacaveis contra o passado,
    capazes de combater energicamente pelas proprias idéas, armados de uma
    dictadura erguida em campos de batalha e baptizada em pegos de sangue;
    se esses animos feros de uma epocha singular, que provavelmente não
    achará tão cedo outra que a offusque ou que sequer a valha, tocaram
    apenas timidamente no collosso vincular por um acto de dictadura sem
    vigor e sem originalidade, poder-se-hão agora, no meio de uma geração de
    estatura politica sobradamente modesta, encetar luctas de idéas
    exclusivas e inexoraveis? As fileiras dos antigos pelejadores, cujo
    ardor aliás se acha enfraquecido pelo cansaço, rarearam-nas os annos, e
    os novos não tem braços assaz robustos para o combate. Hoje chama-se á
    tibieza tolerancia, e aos calculos do egoismo e da pusillanimidade
    civilisação. Os velhos interesses e as velhas preoccupações tem voz e
    voto, preponderante ás vezes, nas cousas publicas. Os tumultos, as
    luctas das facções, as guerras civis são ainda possiveis: as revoluções
    não. Para isso requer-se que nas veias dos homens haja sangue, no
    coração crenças, e na sociedade seiva moral.

    D'este estado de cousas deriva a necessidade das transacções entre idéas
    e interesses oppostos seja qual for a sua legitimidade. Independente de
    quaesquer circumstancias, o que existe tem sempre grande força contra a
    innovação; mas tem-na, sobretudo, nas epochas em que a descrença e o
    intorpecimento, por assim dizer, epidemicos, invadem os espiritos. Por
    mais terminantemente que a opinião condemne os vinculos; por mais
    poderosamente que uma ou outra intelligencia os combata, a inercia, o
    desanimo, a indifferença hão-de dar uma força de resistencia quasi
    invencivel a essa instituição, que aliás podia, não sanctificar-se pela
    sua origem ou legitimar-se pela sua indole, mas defender-se com razões
    mais ou menos plausiveis na sua manutenção.

    Que nos cumpre, pois, fazer, se quizermos chegar a um resultado practico
    e exequivel na questão dos vinculos? Não é combater radicalmente a sua
    existencia: é combater o que n'elles ha evidentemente nocivo. O facto de
    certa qualificação nobiliária ser dada a certos individuos não perturba
    a sociedade a que elles pertencem. Sabemos por experiencia o que valem e
    o que podem essas qualificações. Mui pouco importa egualmente ao bem
    commum que o juro de um determinado capital, a renda ou aluguer de
    qualquer instrumento de producção se transmitta por testamento ou _ab
    intestato_ a este ou áquelle, a um ou a mais individuos na successão das
    gerações. O que importa é que esse capital ou esse instrumento se não
    inutilise; que se adapte, ao menos na maior parte dos casos, a todas as
    necessidades, a todas as mudanças, a todas as transformações do
    progresso economico. Obtido isto, a conservação ou não conservação dos
    vinculos é uma questão que perde a maior parte da sua importancia, e que
    até se ha-de tornar assaz insignificante para deixarmos sem receio aos
    vindouros o encargo da sua solução final.

    A EMIGRAÇÃO

    1873-1875

    I

    *Val-de-Lobos, dezembro de 1873.*

    Ex.^{mo} sr.–Meu amigo, recebi no dia 9 d'este mez uma carta de v.
    ex.^a, acompanhando o questionario que no dia 18 deve servir de assumpto
    a uns debates na associação agricola de Lisboa. N'essa carta pede-me v.
    ex.^a a minha opinião ácerca dos quesitos especificados n'aquelle papel.
    São elles de duas especies: quesitos relativos a factos, quesitos
    relativos a doutrina. Quanto aos de facto, sobre a maior parte d'elles
    as noções que tenho são incompletas e pouco seguras: quanto aos de
    doutrina, e ainda aos de factos em que me reputo melhor instruido, um
    voto fundamentado sobre tão espinhosas e complexas questões exigiria um
    livro, que mal coubera em razoavel volume. Delineal-o e escrevel-o n'uma
    semana excederia as raias do possivel, não digo para a minha capacidade,
    mas para a maior capacidade do mundo. É verdade que v. ex.^a pede-me
    apenas reflexões ao correr da penna; mas em assumptos tão serios, basta
    o amor proprio para nos induzir á circumspecção, e a consciencia
    força-nos a tel-a, quando a nossa opinião, por ser nossa, como v. ex.^a
    tão benevola como inexactamente pensa a meu respeito, pode exercer certa
    influencia em outros espiritos. Assim, desejando por um lado cumprir os
    preceitos de v. ex.^a, e por outro evitar, quanto possivel, uma grave
    responsabilidade, direi successivamente o que me occorrer sobre o
    questionario, se e quando outras occupacões impreteriveis me derem logar
    a isso e v. ex.^a tiver animo para malbaratar alguns minutos em decifrar
    as minhas rabiscas. A estreiteza do tempo apenas me consente fazer
    n'esta carta algumas reflexões sobre o preambulo d'aquelle papel; e
    ainda, pelo que a estas respeita, espero que nem v. ex.^a nem ninguem dê
    a idéas tão mal elaboradas mais valor do que na realidade tem.

    Resulta do preambulo do questionario que o debate, que vai abrir-se na
    annunciada reunião, tem por alvo principal considerar o assumpto da
    emigração para a America á luz da connexão que tal facto possa ter com
    os interesses agricolas. Parece dar-se por provado que as difficuldades,
    mais ou menos graves, da nossa agricultura procedem unicamente da falta
    de braços, e da elevação dos salarios, elevação que se presuppõe
    derivada exclusivamente d'essa falta, e esta, não da _insufficiencia_
    dos braços em relação a uma _procura crescente_, mas da sua _diminuição_
    por effeito da emigração, que se inculca, talvez por obscuridade de
    redacção, como vulgar em todo o reino. A discussão terá, pois, por fim
    averiguar quaes os meios de evitar a emigração do homem de trabalho para
    fóra do reino, e de fazer com que a torrente d'ella se derive das
    provincias mais populosas para as menos populosas, sobretudo para as
    solidões do Alemtejo.

    Estou plenamente de accordo em que se empreguem todos os meios razoaveis
    e liberaes, para promover um movimento da população do norte para as
    provincias do sul, especialmente para o Alemtejo, e para reter na patria
    as classes trabalhadoras dos districtos insulares. Mas o que não posso é
    sentir essa repugnancia absoluta, esses terrores profundos, illimitados,
    da emigração, e o desejo de obstar a ella só para obter salarios baratos
    para a agricultura. A emigração é um phenomeno complexo nas suas causas,
    condições e resultados. Emigram uns por calculos e previsões, ou
    proprios ou dos que os dirigem, pela esperança, bem ou mal fundada, de
    voltarem algum dia ricos ou abastados á aldeia natal; emigram, não
    porque não podessem viver, trabalhando, vida modesta e tranquilla entre
    os seus, mas porque aspiram a mais elevada fortuna. Outros ha que
    emigram violentados, ou antes que não emigram; que são expulsos pela
    miseria; que não calculam, nem esperam, nem deliberam; que tão sómente
    se resignam. Entre estas duas situações ha, a meu vêr, um abysmo:
    confundil-as quando se tentasse annullar a ultima em beneficio das
    victimas, e não em proveito d'estes ou d'aquelles, conduziria
    provavelmente a grandes desacertos; confundil-as, porém, para as
    destruir com a mira de tirar d'ahi vantagens para certa classe ou certa
    industria, parece-me ainda peior. Faça-se tudo para supprimir a
    emigração forçada; mas evite-se tambem tudo o que possa coagir, directa
    ou indirectamente, aquelle que sente em si ambições e audacia a sopitar
    os impulsos da propria actividade; evite-se que a sociedade ponha por
    qualquer modo o seu veto (sem aliás abdicar do seu direito de inspecção)
    a que a affeição paterna ou a previdencia tutelar busquem, dentro ou
    fóra do reino, tornar melhor a sorte futura d'aquelle que a natureza ou
    a lei confiou á sua guarda. Nas questões de interesse privado, nos
    negocios da vida civil, dou incomparavelmente mais pelos resultados da
    sagacidade e do livre arbitrio dos individuos, do que pelos da
    intervenção do Estado.

    Fallo assim, porque vejo do preambulo do questionario que tambem se quer
    obviar aos intuitos dos que aos lucros modestos na patria preferem as
    riquezas que lhes promette a America, o que, segundo se affirma, _raras
    vezes se realiza_. É isto exacto? Parece-me que os factos affirmam
    claramente o contrario. Não possuo aqui livros, documentos officiaes, ou
    informações particularisadas sobre a situação economica dos nossos
    compatricios residentes no Brazil, em que me possa estribar; mas tenho
    ouvido calcular a pessoas que reputo competentes o valor medio annual
    dos ingressos monetarios, que nos traz o refluxo da emigração portugueza
    na America, em mais de 3:000 contos de réis. Não sei se é verdade: o que
    sei é uma coisa, que, se não pertence á estatistica economica, pertence
    á estatistica moral, e que não é menos eloquente que os algarismos; sei
    um facto de suprema notoriedade. A denominação de _brazileiro_ adquiriu
    para nós uma significação singular e desconhecida para o resto do mundo.
    Em Portugal, a primeira idéa, talvez, que suscita este vocabulo é a de
    um individuo, cujos caracteristicos principaes e quasi exclusivos são
    viver com maior ou menor largueza e não ter nascido no Brazil; ser um
    homem que saiu de Portugal na puericia ou na mocidade mais ou menos
    pobre, e que, annos depois, voltou mais ou menos rico. Esta noção vulgar
    da palavra _brazileiro_ não surgiu sem motivo entre o povo. É que
    milhares e milhares de factos lh'a gravaram no espirito. O _mineiro_ do
    seculo passado converteu-se no _brazileiro_ dos nossos dias. São a
    primeira e a ultima palavra da historia de uma evolução politica e
    economica altamente instructivas, que poderia acaso resumir-se no
    seguinte asserto: «_a nossa melhor colonia é o Brazil, depois que deixou
    de ser colonia nossa_.»

    Applaudo, meu amigo, o questionario, porque os estudos que promove podem
    ser grandemente proficuos ao melhoramento de muitas condições sociaes. O
    que não posso applaudir são as suas causas finaes e o modo como é
    apresentado. Acho inconvenientissimo confundir-se ahi a emigração
    espontanea com a emigração forçada, e infelicissima a idéa de combater
    egualmente uma e outra, afim de obter salarios baratos para a
    agricultura. Por via de regra, o emigrado espontaneo, aquelle que a
    miseria não atira cegamente, brutalmente, para fóra da patria, sabe o
    que quer; sabe como vai e para onde vai. Conta com o parente, com o
    amigo da familia, com o protector que lhe hão de dar as recommendações
    que leva. É pobre, porém não desvalido. Impõem-lhe os seus, ou impõe
    elle a si proprio annos e annos de laboriosidade, de sacrificios, de
    abstenções; mas, além d'esses annos, nos horizontes da vida, ergue-se
    uma luz, uma esperança que o alumia e fortifica. Esta luz e esta
    esperança ensinam-lhe a norma do seu proceder, e o seu procedimento
    redundará, não direi em toda a especie de proveitos, mas decerto em
    proveito economico d'elle e da terra que o viu nascer, e pela qual lhe
    vai redobrar o affecto o grande incentivo da ausencia.

    V. ex.^a sabe perfeitamente quaes são as applicações possiveis do
    producto liquido do trabalho humano. Ou se destina a satisfazer as
    necessidades, os commodos e os appetites do productor, ou a accumular-se
    e a converter-se em capital reproductivo, ou, finalmente, a dividir-se
    entre estas duas applicações. Ambas ellas influem na riqueza publica,
    mas com diverso gráu de intensidade. A satisfação das nossas precisões
    ou da nossa propensão para gosar tende a manter prosperas centenas de
    industrias; mas a accumulacão do capital, quando este chega a
    converter-se em instrumento de producção, tem uma influencia, sem
    comparação, mais energica no progresso da riqueza social. São verdades
    triviaes estas: fôra inutil insistir n'ellas. Qual é, porém, o teor da
    vida, em geral, do portuguez do Brazil, do futuro brazileiro de
    Portugal? É o forcejar incessante, pertinaz, por accumular capitaes,
    reduzindo ao estrictamente indispensavel a satisfação das suas
    necessidades. Dedica á prosperidade da industria, da agricultura, ou do
    commercio d'aquellas regiões a menor parte que pode do fructo do seu
    trabalho. A sua idéa constante, inflexivel, tenaz, é voltar rico, ou
    pelo menos abastado, á patria. E volta. Se, cançado de sacrificios e
    trabalho, quer gosar, é á industria, á cultura e ao commercio do seu
    paiz que atira ás mãos cheias o oiro que ajunctou. Se a sêde do ganho
    não se extinguiu n'elle, esse oiro converter-se-ha em capital
    productivo. E nós, nós que prégamos aos operarios a abstenção, a
    poupança das suas tão modestas sobras para as accumularem nas caixas
    economicas, havemos de combater a emigração voluntaria para o Brazil,
    emigração que representa uma caixa economica opulentissima, a qual, por
    mais que se fizesse, todas as outras junctas nunca poderiam egualar?

    No preambulo do questionario allude-se ás esperanças burladas de muitos
    emigrados voluntarios, ás illusões desfeitas, o que exaggeradamente se
    presuppõe ser a regra geral. Decerto a America illude, e até devora,
    muitos d'esses que acreditam ir encontrar n'ella prospero futuro. Mas
    então, porque solicitar, pelo favor directo de providencias especiaes, o
    homem de trabalho a buscar a fortuna na mineração dos metaes, na marinha
    mercante, ou na exploração das nossas colonias de Africa? As minas, o
    oceano e a Africa tambem illudem, tambem devoram. Em vez de solicitar,
    repelli. Abrireis novos mananciaes de trabalho barato para a agricultura
    nacional.

    Disse a v. ex.^a que não applaudo as causas finaes do questionario. Digo
    mais: deploro-as. São ellas que dão origem á confusão do acto espontaneo
    com o forçado, com a emigração que provém da maior das tyrannias–a
    tyrannia da miseria. Na emigração voluntaria ha um uso da plenitude da
    nossa liberdade, e é por isso que a responsabilidade da sorte futura do
    individuo recae inteira sobre elle proprio. O progresso social parece-me
    consistir, sobretudo, na ampliação da responsabilidade individual
    derivando da liberdade. O absolutismo nada mais é do que a tutela
    publica na sua manifestação extrema. Na emigração forçada é que seria
    injusto e cruel attribuir ao emigrado, que abandona o seu paiz sem
    norte, sem rumo certo, e muitas vezes sem a minima esperança, a
    responsabilidade de um facto que em rigor não é seu. A sociedade tem de
    acceital-a. Essa secreção de desgraçados, que o corpo politico súa de
    si, é anormal. Ha, aqui ou alli, na estructura d'elle um vicio de
    conformação ou um estado pathologico que produz o phenomeno. A miseria
    de um ou de outro individuo pode derivar de culpa propria: a que expulsa
    uma parte notavel da população de um paiz, onde esta, considerada
    collectivamente, está longe de superabundar, é sempre resultado de um
    defeito ou de uma perturbação nos orgãos da sociedade.

    Affligir-me-hia profundamente que o auctor ou auctores do questionario e
    do seu preambulo imaginassem que eu duvidava, n'um só ápice, da pureza
    das suas intenções, da sua humanidade, da sua justiça, do seu
    patriotismo. O que simplesmente me parece é que o problema se poz mal.
    Suppõe-se a agricultura do sul, sobretudo a do Alemtejo, collocada em
    difficuldades taes que ameaçam a sua existencia. Suppõe-se que estas
    difficuldades extremas provêm de uma causa unica–a elevação dos
    salarios agricolas–e que essa elevação nasce exclusivamente da falta de
    braços. Em tal caso, a resposta ao _quid faciendum_ é simples.
    Promova-se o abaixamento dos salarios pela multiplicidade dos braços, e
    multipliquem-se os braços combatendo indistinctamente toda a especie de
    emigração: a emigração moral e economicamente nociva, e a emigração
    socialmente legitima e economicamente boa. A questão reduz-se a achar os
    meios de inventar e de reter dentro do paiz, por todos os modos que se
    reputem licitos, trabalhadores ruraes.

    Supponhamos, porém, que os debates, a que o assumpto vai dar vasto
    campo, tornam patente que nem os embaraços da agricultura são tão graves
    como se pintam, nem essas difficuldades, maiores ou menores, nascem
    exclusivamente, e nem sequer principalmente, da elevação dos salarios,
    nem esta deriva da diminuição de braços.

    Pergunto: em tal hypothese, que não é mais gratuita do que a do
    preambulo; n'esta hypothese, digo, deixar-se-ha de attender á dolorosa
    questão da emigração pela miseria? Não! O dever commum é, não direi
    resolvel-a, porque não sei se atinaremos com os especificos, mas envidar
    os maximos esforços para obstar ao mal.

    II

    *Val-de-Lobos, janeiro de 1874.*

    Amigo e senhor.–Se, como se diz no preambulo do questionario, a
    elevação dos salarios, que se reputa effeito exclusivo da falta de
    braços produzida pela emigração, ameaça já a existencia da agricultura
    do Alemtejo, do nosso granel de cereaes colmiferos, e colloca os
    cultivadores, por todo o reino, em circumstancias tão difficeis que os
    rendeiros vão abandonando as terras, é claro que o mal ganhou
    intensidade e extensão assustadoras, e o paiz, essencialmente agricola,
    caminha rapido para profunda decadencia. Supposta sem mais exame esta
    situação, haverá desassombro bastante para não ultrapassar os meios
    indirectos de obstar ao mal? Não occorrerá facilmente a idéa da
    compulsão, de restricções e impedimentos á liberdade? O fatal mote
    _salus populi_ não virá ainda uma vez ser o pretexto de coacções mais ou
    menos deploraveis?

    Felizmente o que se apresenta como certo não passa por ora de hypothese,
    hypothese quanto ao facto e hypothese quanto á causa. A meu ver, o
    primeiro quesito do questionario deveria consistir em averiguar até que
    ponto é real a existencia da enfermidade, e a sua verdadeira correlação
    com o motivo a que se attribue. Como addição a esta especie de quesito
    preliminar, quizera eu, porém, que se inserisse outro. Suppondo
    conhecida a media dos salarios ruraes, o que não sei se é facil,
    cumpriria examinar se essa media será sufficiente para o proletario
    occorrer ás mais urgentes precisões da vida–ao alimento, ao vestuario,
    e á habitação da familia–ainda admittindo que o trabalho d'esta possa
    augmentar os recursos domesticos. Se achassemos que a retribuição do
    assalariado, embora assim accrescentada, não attingia o alvo, é evidente
    que ás difficuldades, em que se provasse laborar a agricultura, haviam
    de buscar-se remedios diversos de qualquer reducção artificial de
    salarios. A sociedade não pode honestamente sacrificar uma classe a
    outra classe, e sobretudo sacrificar o pobre, falto muitas vezes do
    necessario, ao comparativamente abastado, a quem, embora em situação
    mais ou menos precaria, será raro que falte inteiramente o superfluo.

    Achamo-nos assim, talvez sem o pensarmos, no terreno das discussões
    ardentes que perturbam profundamente as sociedades modernas.
    Encontramo-nos face a face com o socialismo. Era inevitavel. Desde que
    se affirma que existe n'este ou n'aquelle ponto, n'esta ou n'aquella
    industria, uma desproporção, para mais ou para menos, entre o preço do
    trabalho e o valor do producto, affirma-se, no estado economico actual,
    uma desharmonia, uma lucta grave, entre o obreiro e o industrial. Buscar
    temperamentos á collisão é entrar forpadamente no campo d'essas
    discussões, de ordinario tão apaixonadas. Não o reputo grande mal no
    caso presente. Pode ser, até, um bem, se tivermos força para subjugar o
    que houver excessivo no afferro ao proprio interesse; se debatermos com
    placidez, com a luz da imparcialidade e da justiça, que uma consciencia
    recta e sincera não deixará de ministrar-nos, o assumpto complexo da
    producção agricola e do trabalho rural, buscando ahi remedio á emigração
    moralmente forçada.

    Nas declamações mais gementes, mais irritadas, contra o socialismo,
    parece-me que ha por vezes o que quer que seja do carpir da mulher que
    se receia da suppressão de alguns enfeites, ou do resmoninhar colerico
    do antigo frade, ao fallar-lhe o guardião em reducção da pitança para
    avolumar o caldo da portaria. O socialismo é um perigo serio; mas o
    homem deve haver-se perante os perigos com cordura e hombridade: deve
    olhar para elles fito, em vez de se pôr a ensartar lastimas ou a
    vociferar improperios. Onde e quando o socialismo, com a taboleta de
    communismo, de internacionalismo, ou outro qualquer letreiro, recorrer á
    violencia, responda-lhe a violencia. São negocios que tem de resolver
    entre si o petroleo e a metralha. Os incendios não se discutem:
    apagam-se. Mas onde e quando o socialismo nos aggredir com as armas da
    razão, ouçamol-o. Se a razão estiver da sua parte, de-mos-lh'a.
    Demos-lh'a porém, não com uma confissão esteril, mas com actos
    efficazes. Assim, parece me que elle ha-de retrogradar, enfraquecer-se,
    desapparecer, como desappareceram as cruzadas ou as inquisições; como
    desapparecem todos os desvarios epidemicos de que adoece de seculos a
    seculos o espirito humano. Aliás, se, de accordo com o douctor Pangloss,
    assentarmos em que somos chegados á melhor das sociedades possiveis, não
    me atrevo a perscrutar a sorte que a Providencia prepara ás velhas
    nações da Europa.

    Meu amigo, no amago dos grandes extravios das multidões, de que a
    historia nos subministra terriveis exemplos, ha quasi sempre uma idéa
    justa que as paixões viciaram. As resistencias, porém, a esses extravios
    não escapam de mácula identica. No ardor do combate, a idéa justa
    obscurece-se, condemna-se, involta na proscripção das doutrinas absurdas
    e das applicações temerarias. É assim que nenhuma das grandes luctas
    entre as orthodoxias e heterodoxias deixa de nos apresentar esse triste
    espectaculo. No socialismo ha duas cousas bem distinctas: as
    affirmativas e as negações. As mais das vezes as suas doutrinas
    constituintes, os seus systemas de reforma social, afiguram-se-me
    abstrusos, infundados, inexequiveis, e não raro iniquos; e as apologias
    das quinze ou vinte escholas em que elle se divide, e muitas vezes se
    contradiz, frequentemente faltas de condescendencia para com o senso
    _commum_, o que me parece pouco democratico. Dos seus queixumes contra a
    sociedade actual é que me seria difficil dizer outro tanto. É ahi que me
    persuado está a sua idéa justa. No meio das exaggerações, das
    amplificações, de certo lyrismo tetrico, a critica socialista tem ás
    vezes razão de sobra. É d'isto que me temo. Deixem ao socialismo a
    legitimidade moral que lhe provém da existencia de certos factos, e
    queixem-se depois do resultado definitivo da contenda.

    As circumstancias difficeis em que se diz achar-se a agricultura
    merecerão duvidoso credito aos desinteressados, em quanto por um
    conjuncto de provas seguras não se mostrar a existencia do facto. As
    affirmações valerão pouco, se indicios, que todos podem apreciar, lhes
    forem adversos. Augmenta gradual e quasi constantemente a exportação dos
    productos agricolas do paiz; a população rural cresce com mais rapidez
    do que nunca; desbravam-se todos os annos novos terrenos; as aldeias
    dilatam-se; as habitações dos agricultores revestem cada vez mais o
    aspecto de aceio e conforto; o transito e o transporte pelos caminhos de
    ferro e o movimento dos nossos portos elevam-se de anno para anno de
    modo inesperado. Todas as apparencias, em summa, convergem para nos
    persuadirem que estamos mais ricos do que eramos ha quarenta ou
    cincoenta annos. Se essa riqueza é real, como explical-a, na hypothese
    de uma decadencia profunda na principal industria do reino? Parece
    altamente improvavel. Ao menos cumpre esperar pelas provas claras e
    precisas d'essa contradicção economica.

    Não devo acreditar que a affirmativa de uma elevação anormal dos
    salarios assente em irreflexivas comparações chronologicas. Na successão
    dos tempos, o mesmo preço de trabalho pode ser exprimido por algarismos
    diversos. Depende tudo das oscillações do valor da moeda, em
    consequencia da diminuição ou accrescimo dos metaes preciosos, e
    portanto do seu valor. Não me persuado de que haja quem ignore a
    abundancia sempre crescente d'esses metaes no decurso d'este seculo.
    Assim, o algarismo 15 pode, por exemplo, representar rigorosamente o
    mesmo preço de um dia de trabalho, que o algarismo 10 representava ha 30
    ou 40 annos. A proporção entre o valor venal do producto e o salario do
    trabalh o ficará sempre a mesma, porque a depreciação da moeda lá irá
    manifestar-se de egual modo no algarismo d'esse valor, se causas
    extranhas, com as quaes o obreiro nada tem que vêr, não vierem influir
    na carestia ou na barateza do producto.

    Mas, ainda evitando esse erro grosseiro, em que me parece ninguem
    cairia, nem por isso fica removido o perigo de nos illudirmos em relação
    aos salarios ruraes. Repugna á razão e á consciencia que se considerem
    estes em geral como susceptiveis de reducção illimitada. O obreiro é,
    por via de regra, o chefe ou o sustentaculo de uma familia.
    Comprehende-se o padre ou o soldado segregados d'esta e celibatarios:
    não se comprehende como o poderia ser a classe dos trabalhadores, que
    constituem tres quartos ou mais da população, sem que esta decrescesse
    gradualmente até chegar a extinguir-se. A familia do obreiro é
    inevitavel, e por isso inevitavel que a reducção dos salarios não a
    torne impossivel. Toda a industria em que o lucro ou retribuição do
    industrial não possa, em absoluto, conciliar-se com esta condição
    impreterivel, é uma industria condemnada fatalmente a perecer mais cedo
    ou mais tarde, sejam quaes forem os arbitrios a que se recorra para a
    aviventar. Ora, em Portugal, como em qualquer outro paiz, concebe-se o
    desapparecimento d'esta ou d'aquella industria fabril: o que se não
    concebe é o desapparecimento da industria agricola. Entre os dois
    termos, immutaveis, inexoraveis como o destino–existencia da
    agricultura e sufficiencia do salario–tem a sociedade necessariamente
    de buscar a solução de quaesquer difficuldades economicas que possam
    comprometter a nossa, não direi quasi unica, mas capitalissirna
    industria. Propor que se reduza indefinidamente o preço do trabalho por
    uma concorrencia artificial e illimitada, sem indagar até onde essa
    reducção poderá conciliar-se em cada districto ou provincia com a
    existencia da familia do obreiro, será dissolução: solução é que de
    certo não é.

    Sou cultivador, vivo no campo, no meio de outros cultivadores, e ouço
    frequentemente os queixumes contra a elevação sempre crescente dos
    salarios. Tenho pensado n'uma questão que me toca tambem. Sei quanto é
    difficil, ás vezes, saldar _as despesas_ da producção com o valor venal
    do producto por um saldo positivo; mas d'essas despesas, aquella que o
    lavrador tem sempre deante dos olhos, pela sua permanencia, é a das
    soldadas e jornaes. São as soldadas e jornaes que o obrigam mais vezes a
    realizar em conjuncturas inopportunas o valor dos productos. Não
    sabendo, em geral, distinguir com exacção as despesas productivas das
    improductivas, as escusadas das inevitaveis, avalia-lhes a indole apenas
    pelos algarismos que as representam, pelos obstaculos que lhe suscitam,
    e pelos apertos em que o collocam. As maiores e mais frequentes são as
    peiores: eis, em resumo, o seu criterio. Para elle o ideal do
    improductivo é o imposto, e não acho impossivel que até certo ponto
    tenha razão. O imposto, porém, que no seu espirito se confunde algum
    tanto com a extorsão, com a espoliação, irrita-o; mas irrita-o uma vez
    por anno. O salario, soldada ou jornal, é o espinho que o punge, ora
    mais ora menos, na alta ou na baixa, mas de continuo; é a fonte perenne
    de cuidados, de repugnancias, de coleras, de debates. As causas que mais
    contribuem para attenuar, e ainda para inverter, a proporção entre a
    importancia do custo e o valor do producto, tanto as que possam provir
    da sua imprevidencia, das suas poucas luzes, do seu desleixo, das suas
    preoccupações tradicionaes, da laxidão dos seus habitos, como as que
    provenham do incompleto ou do vicioso das instituições, das leis, dos
    regulamentos, que directa ou indirectamente attingem a agricultura, e
    até as que derivam da perversão dos costumes publicos, raras vezes as
    considera e aprecia nas suas relações exclusivamente agricolas. Os
    effeitos d'essas causas não se exprimem em réis, não se especificam no
    diario, supposto que se dê o caso de ter o agricultor algum simulacro de
    contabilidade, embora assás simples para lhe ser possivel. Quizera eu
    que se applicasse a causas tão variadas e complexas o dynamomelro da
    economia rural, para avaliarmos com justiça e imparcialidade o quinhão
    que lhes pertence e o que pertence ao salario nas difficuldades em que
    se diz laborar a agricultura, e que não duvido se deem em certos casos.
    Se houvessemos de seguir esta vereda, parece-me que seria um pouco
    extenso o supplemento aos quesitos do questionario que v. ex.^a teve a
    bondade de me remetter.

    Mas, se, accusado de involta com outras causas deprimentes da
    agricultura, o salario rural tiver de ir assentar-se ao pé d'ellas no
    banco dos réus, é necessario que não lhe ponham mascara; que o levem
    para alli com o seu verdadeiro aspecto. Não é só nas suas exaggerações
    transitorias que elle deve ser considerado. A indole do salario agricola
    é diversa da indole do salario fabril. O fabricante, debaixo do tecto da
    sua fabrica abrigada atraz do paredão proteccionista, produz para um
    mercado que não suppre completamente, e cujas lacunas deve vir
    preencher, saltando por cima do paredão, o producto similar estrangeiro.
    Os effeitos disso, subretudo n'um paiz pequeno, conhece-os decerto v.
    ex.^a. Que o motor e os machinismos funccionem bem, que a má
    administração não comprometta a fabrica, e o operario fabril que fizer o
    seu dever pode contar com um salario, mais ou menos elevado, mas
    regular, por todo o decurso do anno. As oscillações são ahi pequenas, e
    raras as ferias do trabalho. São outras as condições do assalariado
    rural. Na verdade, a soldada do _criado de anno_ tem, até certo ponto,
    analogia com a retribuição do lavor fabril, porque assegura, pouco mais
    ou menos, ao criado a habitação, o vestuario e o alimento por todo o
    decurso do anno. Mas pela natureza das cousas, por motivos que fôra
    demasiado longo enumerar, o criado está sempre exposto a passar á
    situação de jornaleiro. É em relação a este que é grave a questão. No
    jornal, as variações são repentinas, violentas, desordenadas. N'estes
    sitios onde vivo, a constituição da propriedade rustica e da industria
    agricola aproximam-se bastantemente do typo ideal (ideal, ao menos para
    mim) da boa organisação da agricultura, no _momentum_ actual da evolução
    agricola–a mistura da grande e da pequena propriedade, da grande e da
    pequena cultura. A população aqui não é excessiva, mas é assás numerosa:
    as aldeias crescem e até nascem; a charneca foge para o horizonte ante o
    reluzir do alferce e da enchada. E todavia, quantas vezes, n'um domingo,
    depois da missa, na _praça_, o lavrador, o feitor, ou o capataz é
    _forçado a pagar o vinho_ para o jornal de 340 ou 360 réis durante a
    semana, e no domingo seguinte faz o _favor_ de o pagar para o de 140 ou
    160 réis! Decerto aquelle jornal de 340 ou 360 réis, associado ao
    producto do trabalho da familia, e ao producto liquido da courella, da
    vinha, do _foro_, em summa, que, por via de regra, o jornaleiro possue
    (não sei se v. ex.^a conhece bem a entidade _foro_: o foro é o grande
    moralisador dos campos, o supplente efficaz do parodio e do mestre,
    mythos que a poesia politica inventou para entretenimento dos
    parlamentos e das secretarias); aquelle jornal, digo, excede a verba
    indispensavel para satisfazer as precisões, aliás tão limitadas, da
    familia rustica. Mas pode dizer-se o mesmo do jornal de 140 ou 160 réis,
    ou irão as tenues economias dos dias felizes supprir as lacunas do
    insufficiente salario, e sobretudo a carencia absoluta d'elle nos dias,
    nas semanas, nos mezes, até, de chuvas pertinazes, em que a terra
    empapada em agua se recusa ao consorcio com o trabalho humano? Fôra
    loucura pensal-o. Os jornaes de 340 ou 360 réis são a excepção: os
    vulgares são os de 140 e 160 e os que oscillam entre estes algarismos e
    o de 240 réis, aliás bastante raro, afóra os que se exprimem por zero.
    Coincidem as altas excessivas, repentinas, com as ceifas, com as sachas
    e rechegas, com as podas, empas e cavas, etc. Cumpre, porém, attender ao
    periodo da sua duração. A natureza não se dobra aos caprichos e aos
    calculos, ás vezes ineptos, do homem: o cultivador que mantém aquelles,
    ou erra estes, paga-o. Os serviços hão-de fazer-se a tempo, aliás lá
    está o producto com o látego na mão para punir o réu. São questões de
    tres, de quatro, de seis semanas. Ora, por aqui, o calendario teima em
    affirmar que o anno se dilata por 52 d'esses periodos semanaes, a
    arithmetica protesta que 35 ou 40 são algarismos superiores a 12 ou a
    15, e a physiologia e a hygíene mais rudimentaes continuam, impassíveis,
    a ensinar que a familia do obreiro ha-de comer e vestir-se todos os
    dias, e abrigar-se á noite das injurias da atmosphera: factos
    impreteriveis, fataes, emquanto a sciencia não mandar o contrario.

    Á vista d'elles e do questionario que v. ex.^a me remetteu, estive
    tentado a indagar se uma porção dos nossos trabalhadores, ao
    aproximarem-se as epochas d'esses serviços, costumavam ir contemplar as
    florestas virgens da America, e voltarem só ao despenhar-se o salario
    das alturas do excessivo nos limbos melancholicos do insufficiente.
    Obstava a distancia: não tive remedio senão absolver o Brazil, ao menos
    em relação á minha localidade, das altas desordenadas do salario.

    Desconfio de que começo a ser importuno com esta carta, já em demasia
    longa. É vasto o assumpto. Peça v. ex.^a a Deus que a multiplicidade das
    minhas occupações me não consinta tornar a importunal-o tão cedo.

    III

    Ill.^{mo} e ex.^{mo} sr.–Se, conforme creio, as condições e a indole do
    salario rural são actualmente como as descrevi na carta precedente,
    salva uma ou outra modificação accidental, segue-se que não seria licito
    empregar nenhuns meios directos ou indirectos tendentes a minorar as
    altas repentinas e transitorias, sem que ao mesmo tempo se tractasse de
    elevar o salario insufficiente. Mas, fechado no estreito campo da maior
    procura ou da maior offerta de trabalho, tendo por causa unica a
    diminuição ou o augmento de braços, o problema torna-se obviamente
    insoluvel á luz da equidade. Se a multiplicação da offerta influir na
    descida da alta, influirá do mesmo modo na descida da baixa, e tornará,
    portanto, cada vez mais miseravel a situação do obreiro. Se, pelo
    contrario, crescesse a procura sem que a offerta crescesse
    proporcionalmente, suppondo-se, como se pretende, que as difficuldades
    em que labora a agricultura d'ahi procedam, tornar-se-hiam cada vez mais
    intensas essas difficuldades. Resulta d'aqui a necessidade de buscar a
    solução do problema e o remedio á crise, se existe, n'uma ordem de idéas
    diversa.

    A meu ver, o mal não procede da escacez de braços: procede da errada
    vereda que tem seguido entre nós o desenvolvimento agricola; do
    deploravel esquecimento de certas leis economicas e de certos principios
    e doutrinas indisputaveis da sciencia de agricultar. Se isto é assim
    (depois o examinaremos) a emigração, que só pode influir na maior ou
    menor affluencia de trabalhadores, é questão distincta da questão dos
    embaraços agricolas, que não hão-de, na minha opinião, remover-se com a
    depreciação do trabalho.

    A emigração da miseria deve combater-se, não porque o agricultor vê
    n'isso, bem ou mal, o seu interesse, mas porque o emigrante é, como nós,
    filho d'esta terra; porque a emigração forçada tem para o coração humano
    as mesmas amarguras do desterro; porque ao cabo das esperanças do
    foragido (quando para elle exista a esperança) estão muitas vezes as
    desillusões e a morte. A certeza de que os altos salarios são
    transitorios, e de que após elles vem sempre o trabalho mal retribuido
    ou a falta de trabalho, é poderoso incentivo para a emigração; mas
    sel-o-ha ainda mais a manifestação de que as providencias, sejam ellas
    quaes forem, para afastar os trabalhadores de emigrarem, tem por
    principal intuito produzir uma descida nos jornaes elevados. Diz-se que
    ha embaidores incumbidos de os alliciarem para além do Atlantico,
    illudindo-os com promessas de vantagens imaginarias. É natural que seja
    assim, porque a America, em grande parte despovoada e inculta, precisa
    para o seu progresso dos braços laboriosos da Europa. Mas é justamente
    por causa d'isso que não reputo prova de grande prudencia auctorisar
    esses homens astutos a fazerem avultar as cores e lineamentos do seu
    quadro de brilhantes promessas com as sombras carregadas dos intuitos
    egoistas d'aquelles, que buscam reter o trabalhador na terra natal para
    o converterem em instrumento do proprio interesse.

    Abstrahindo da emigração razoavel, da emigração d'esses que vão para o
    Brazil com determinado destino, e com a esperança fundada de adquirir
    uma fortuna que não tem probabilidade de obter no seu paiz, ha nos que a
    pobreza impelle _per la via dolente_ dois grupos que se distinguem por
    indole e caracter diversos: uns naturalmente audazes e propensos a
    guiar-se mais pelos impulsos das paixões e da imaginação do que pela
    prudencia; outros, timidos e reflexivos, a quem as aventuras repugnam, e
    que só se precipitam n'ellas pela urgencia das precisões. Reter os
    primeiros sem violencia, quasi que o julgo impossivel, ao passo que
    desviar os segundos d'esse deploravel caminho se me afigura
    comparativamente facil.

    A ignorancia e rudeza, meu amigo, não excluem a faculdade da imaginação,
    e a credulidade impera na razão inversa da cultura do espirito. Como
    evitar nos animos propensos ás maravilhas do extraordinario, do
    longinquo, do indefinido, os effeitos das narrativas dos que voltam da
    America opulentos ou remediados? Como occultar, n'um paiz cujas relações
    com o Brazil são frequentes, intimas e variadas, qual é alli a
    retribuição do trabalho, a certeza do salario, a facilidade de
    occupar-se no commercio de retalho, a falta de operarios fabris, etc.? A
    perspectiva da vida tranquilla, a que não faltem os meios de satisfazer
    ás necessidades indispensaveis, mas uniforme, laboriosa, sem peripecias
    (e é isto o mais que a sociedade lhes pode proporcionar) fraco
    attractivo será sempre para os animos irrequietos, atrevidos, mudaveis,
    quando ao lado da nudez e da fome, que os martyrisam ou os ameaçam, se
    alevantarem as seducções, em parte verdadeiras, em parte suppostas, que
    sorriem d'além do oceano. Sobre a tela de factos mais ou menos inexactos
    borda a imaginação idylios e a credulidade milagres. E que muito, se a
    individuos, incomparavelmente mais cultos que os obreiros ruraes, tenho
    visto tecer d'esses contos de fadas em relação aos lucros do trabalho
    litterario? Não sou, me parece, dos que podem como escriptores
    lamentar-se da indifferença do publico americano. As maiores provas,
    porém, de benevolencia d'este para commigo ficaram sempre muito áquem
    das vantagens enormes que esses individuos, conforme o que lhes tenho
    ouvido, tirariam da profissão das letras no Brazil, se a fatalidade não
    os retivesse na patria, ou certa ordem de embaraços lhes não tolhesse
    alli a venda dos seus livros. Um grande talento, a quem só faltou uma
    educação litteraria condigna, e melhor sorte no seu paiz, lá foi acabar,
    arrastado por essas illusões de poeta, depois de esgottar o calix de
    amargos desenganos.

    Sinceramente, meu amigo, creio que a eloquencia dos embaidores dos
    operarios rusticos seria bem inefficaz, se a peroração do discurso não
    fosse redigida pela miseria. Porque são raros os seus triumphos entre os
    da nossa Estremadura e do Alemtejo, que aliás não me parece sejam
    nenhuns Cresos, e são tão frequentes nas provincias do norte e nos
    districtos insulares? A resposta que se poderia dar a esta pergunta não
    seria a mesma que se poderia dar a outras até certo ponto analogas?
    Porque se precipitam annualmente do norte para o meiodia do reino bandos
    e bandos de trabalhadores nas epochas das _fainas_ da nossa triste
    agricultura biennal e triennal? Qual é o embaidor que os arrasta para as
    ceifas nas campinas do sul, requeimadas por sol abrazador, que ás vezes
    os fulmina, ou para os alagamentos mornos dos arrozaes, onde ao
    amanhecer e ao entardecer o nevoeiro, cultivador de intermittentes,
    semeia dia por dia uma porção da sua terrivel seara? Nos valles do Minho
    e da Beira, que o suor de quarenta ou cincoenta gerações tornou ferteis,
    e cuja cultura é em certas relações admiravel, falta o estigma do pousio
    não adubado, da folha não alqueivada, que pede unicamente ás influencias
    atmosphericas o azote de que, um anno sim outro não, ou de dois em dois
    annos, a esgottam rachiticos cereaes. E não falta só nos prediosinhos
    que numericamente ahi predominam; falta era geral nos mais vastos, que
    correspondem á pequena herdade alemtejana e á quinta e ao casal
    estremenhos. Ahi cultiva-se annualmente todo o chão reduzido a cultura,
    a qual até certo ponto é licito qualificar de intensiva. Não lhes faltam
    os braços, porque esses amanhos, que podem chamar-se esmerados,
    fizeram-se; e fizeram-se sem perda, porque aliás a agricultura do norte,
    cujos productos augmentam, declinaria gradualmente, e a população, que
    cresce alli, como por todo o reino, apezar da emigração, diminuiria, em
    vez de seguir em progressão o accrescimo dos productos. A estatistica
    official d'essa população, comparada entre duas epochas tão proximas,
    como são os annos de 1864 e 1868, é eloquente[3]. Seja-me agora
    permittido perguntar: se as _fainas_ da agricultura do sul não tivessem
    attrahido por salarios, mais ou menos remuneradores, esses milhares de
    obreiros, que por dois ou tres mezes, e ainda mais, de lá se ausentaram,
    sem que os serviços ruraes deixassem de se ultimar, em que trabalhos os
    teriam occupado os agricultores do norte? Até que ponto chegaria a
    insufficiencia dos jornaes? Depois, quem nos diz que essas emigrações
    temporarias dentro do paiz representam completamente um equilibrio entre
    o excesso da offerta do trabalho no norte e o excesso da procura no sul?
    As previsões e esforços ordinarios do interesse privado asseguram-nos
    que a procura foi satisfeita por um preço mais ou menos elevado, dentro
    das condições de tempo, impreteriveis em agricultura. Nada, porém, nos
    prova que a offerta n'um mercado não excedesse a procura no outro. Em
    tal caso o excesso da offerta significaria a miseria de mais ou menos
    numerosos trabalhadores do norte.

    Em que se occupa grande porção d'esses obreiros, que affluem todos os
    annos para o sul de certo tempo a esta parte? No plantio de vinhas; e o
    plantio de vinhas offerece um problema, que eu teria grande gosto em ver
    resolvido pelos que acham na falta de braços a principal senão unica
    fonte dos embaraços da agricultura. Creio que ninguem deixará de
    confessar que, dos diversos ramos da industria agricola, o que mais
    cresce e se dilata por quasi todos os districtos do reino é a
    vinicultura. Repovoam-se de cepas os terrenos que desvastou o _oïdium_;
    campos que produziam cereaes transformam-se em vinhas; de anno para
    anno, collinas, recostos de montes, pedregaes, pousios apparentemente
    repugnantes á cultivação, uns apoz outros, vão-se cobrindo de verdura no
    estio com bacelladas novas; a vide invade as charnecas como o _pioneer_
    da America invade os desertos; as solidões do Alemtejo, que de memoria
    de homens ainda vivos não produziam vinho para o consumo dos seus raros
    habitantes, exporta hoje centenares de pipas d'este producto. E todavia,
    se exceptuarmos as lavouras de esgraminha dos terrenos já cultivados que
    vão converter-se em vinhedos, qual é, no nosso actual systema de
    viticultura, a machina que se emprega na plantação e subsequentes
    amanhos da vinha? O braço do homem; exclusivamente o braço do homem.
    Como, porém, conciliar este facto, que todos podem observar, que se
    realisa quasi por toda a parte, com essa falta de obreiros, com esses
    salarios monstruosos, impossiveis, que devoram a agricultura e de que é
    culpado o Brazil? Dir-se-hia que grandes, medianos e pequenos
    proprietarios se ligaram e ajuramentaram para um vasto suicidio
    economico, e que, convertendo o vidonho em alliado da America, a ajudam
    a cavar a ruina d'elles proprios e dos cultivadores de cereaes.

    Felizmente não é assim. A vinha cultivada com mais esmero ha-de
    contribuir para que a emigração diminua, trazendo não só a elevação dos
    salarios, como a sua melhor distribuição. Com os amanhos reiterados de
    uma cultura habil, e com um fabrico esmerado e cuidadosa conservação do
    producto, que devem abrir aos nossos vinhos de pasto os mercados da
    Europa, o trabalhador dos districtos vinhateiros, que são quasi todos os
    do reino, evitará em grande parte as ferias que a penuria acompanha, e
    que o fazem acceitar contractos muitas vezes leoninos, mas que lhe
    promettem permanencia no trabalho, embora em regiões apartadas. É o que
    a lavoura de cereaes, quer biennal, quer triennal, sobretudo como ella é
    entre nós, não pode prometter-lhe. Afóra as sachas e colheitas do milho,
    as mondas (quando se monda) e as ceifas dos cereaes colmiferos, ella
    exige só o serviço de abegoaria, e a elevação, as vezes exaggerada, dos
    salarios que produz não poderá nunca melhorar a condição do jornaleiro.

    Creio que nenhuma pessoa medianamente versada n'estes assumptos porá em
    duvida a superioridade da agricultura de França comparada com a de
    Portugal. E todavia, um dos agronomos mais distinctos d'aquelle paiz,
    Leconteux, ainda ha oito annos mantinha, na edição que então publicava
    do seu notavel livro sobre os melhoramentos agricolas, uma passagem que
    peço licença a v. ex.^a para transcrever. Depois de se referir á rotação
    triennal, que ainda prepondera largamente em França, embora alli se
    estribe no alqueive de primavera e estio (o que nem sempre entre nós
    succede) o redactor principal do _Jornal de Agricultura Practica_
    prosegue: «É verdade que, por beneficio da folha de alqueive, a rotação
    triennal exclusiva conserva illesa a boa ordem no serviço das
    apeiragens; mas pode dizer-se o mesmo em relação ao trabalho braçal? De
    modo nenhum. Durante os trez mezes de ceifas e de gadanhar os fenos, é
    avultado o numero de trabalhadores de que a lavoura carece. A estas
    fainas, porém, seguem-se nove mezes feriados para os numerosos obreiros
    que o lavrador chamou ás colheitas. Reduz-se tudo a ficarem na lavoura
    alguns jornaleiros por eirantes. Mas que succederá á multidão dos
    ceifeiros? Tem de ir buscar vida, uns na vinhataria, outros nos cortes
    de lenha e madeira, outros nas suas fazendinhas. Mas se nem todos tem
    estas saidas, o que succederá aos que não as tiverem? Perguntem á turba
    de obreiros que annualmente abandonam o campo para se metterem nas
    cidades, e terão de confessar que o amor do incognito não é o unico
    motor de taes desvios. Movem-os sobretudo o medo do _não-ha-que-fazer_
    nos trabalhos ruraes e o legitimo desejo de ganhar os salarios mais
    elevados e mais regulares, que subministram os estabelecimentos de
    industria fabril e as officinas e obras publicas. Que não estejam, pois,
    todos os dias a fallar aos jornaleíros ruraes das venturas da vida
    rustica. Remontem dos effeitos ás causas e verão que o systema triennal
    com folha de pousio é um dos primeiros e mais poderosos causadores de se
    ermarem os campos[4].»

    Que se reflicta sobre estas ponderações de um homem competentissimo e
    appliquem-se a Portugal. As nossas officinas, arsenaes e obras do Estado
    são nimiamente restrictas comparadas com as de França, ainda dada a
    differença entre um grande e um pequeno paiz; e na industria fabril
    maior é a desproporção. Não podem por isso as cidades, os grandes
    centros de população, absorver a torrente de trabalhadores, que um
    systema errado de cultura arvense suscita e attrae para depois os
    repellir. Assim, é a propria indole da agricultura, o afferro
    intransigente do lavrador a antigas praxes, que facilita a tarefa dos
    encarregados de induzir os obreiros a emigrarem. O cultivador queixa-se
    da America: mas quem sabe se a Providencia deu ao Brazil o destino de
    ser para comnosco um aspero missionario do progresso?

    Ha um livro bem conhecido de v. ex.^a (porque interveiu mais ou menos na
    sua publicação), cujo conteudo lança viva luz sobre alguns pontos d'esta
    grave e complexa questão, postoque não os illumine todos por conter
    apenas os resultados de trabalhos ainda incompletos. Fallo do volume que
    tem por titulo _Primeiro inquerito parlamentar sobre a emigração_. É
    obra de uma commissão da camara dos deputados e faz v. ex.^a parte
    d'ella. Os documentos annexos ao relatorio são altamente instructivos.
    Tem a primazia entre elles as informações de pessoas collocadas em
    situação official, ou habilitadas por experiencia e estudo para tractar
    a materia. Entre os documentos d'essa especie sobresaem pela sua
    importancia o informe do sr. deputado Candido de Moraes relativo á
    emigração dos Açores, o do dr. Bernardino de Almeida, obtido por
    intervenção do nosso consulado no Rio, o do consul portuguez de Boston,
    e sobretudo o do sr. Taibner de Moraes, secretario do governo civil do
    Porto. Posso divergir de qualquer d'elles no que respeita a certas
    doutrinas e a certos alvitres para obstar á emigração: o que não posso é
    recusar a seus auctores o conhecimento dos factos e o estudo reflectido
    d'esses factos. D'estes ha um em que todos concordam quando indagam as
    causas capitaes da emigração. É elle a insufficiencia dos salarios entre
    nós. Quanto aos Açores são notaveis as observações do sr. Candido de
    Moraes. «São, diz elle, geralmente pequenos os salarios dos operarios, e
    de todos elles são os trabalhadores os que menores attingem, e por isso
    são miseraveis a sua alimentação e vestuario… Os trabalhadores
    agricolas tiram do salario escassos meios para a sua sustentação e das
    familias, por pouco numerosas que ellas sejam, e por isso procuram pelo
    arrendamento de terras obter esses meios. D'aqui nasce uma concorrencia
    irreflectida e altamente nociva para esses desgraçados… Succede por
    isso um grande numero de vezes que esses infelizes completam a sua ruina
    quando julgam terem alcançado os meios de melhorar a sua condição; e
    completamente exhaustos, sem poderem satisfazer aos encargos que
    tomaram, vão acompanhados das familias procurar no Brazil os meios que o
    seu trabalhar incessante não podia proporcionar-lhes na patria.
    Condemnar esses homens que fogem á miseria, porque não tem a coragem de
    se deixar morrer á fome no paiz em que nasceram, parece-me injusto:
    tolher-lhes a liberdade de sair da terra onde não acham os recursos
    indispensaveis para subsistirem seria, mais do que injusto, cruel[5].»

    Um illustre escriptor nosso, o sr. Mendes Leal, tinha, no jornal _A
    America_, reputado principal origem da emigração a miseria, attribuindo
    esta a diversas causas que o dr. Bernardino de Almeida em grande parte
    rejeita. Admitte, todavia, e confessa, que a emigração dos trabalhadores
    se explica tambem pela penuria, e na sua opinião a penuria procede da
    insufficiente remuneração do trabalho[6]. O consul portuguez de Boston
    explica egualmente a nossa emigração para os Estados Unidos pela
    convicção que o obreiro tem de encontrar alli a remuneração condigna do
    seu trabalho, que não acha no proprio paiz[7]. No informe do sr.
    Taibner, onde abundam considerações graves, e por vezes tão verdadeiras
    como profundas, reconhecem-se francamente as estreitezas que opprimem os
    operarios ruraes. «Apezar do augmento sensivel dos salarios, pondera o
    digno funccionario, pode dizer-se que não são elles sufficientemente
    ente remuneradores do trabalho, e não evitam a emigração, a que dá causa
    o desejo de melhorar de fortuna[8].

    Não será esta mesma opinião a que está no amago do questionario que v.
    ex.^a me remetteu? Como, sem isso, explicar o quesito 29? Para este se
    entender racionalmente, é preciso presuppor a sobejidão de obreiros
    ruraes nas provincias do norte, e por consequencia o seu inevitavel
    consectario–a insufficiencia dos salarios. Ahi não se indaga se convirá
    forcejar para que elles se conservem no seu districto ou provincia
    natal: pedem-se desde logo alvitres para os attrair ao sul e fixar no
    Alemtejo. Se a escacez de braços e conseguintemente a excessiva elevação
    dos jornaes fossem, como se diz, geraes em todo o reino, com esse
    movimento de translação a agricultura do norte ficaria completameate
    arruinada.

    Temos, pois, um conjuncto de opiniões respeitaveis sobre a
    insufficiencia dos salarios ruraes. A estas opiniões vem a estatistica
    dar plena confirmação, revelando com a irresistivel eloquencia dos
    algarismos a verdadeira situação do jornaleiro, tanto em relação aos
    seus recursos como ás suas necessidades. Incompletas por abrangerem só
    uma parte dos districtos do reino, deficientes por omissões e falta de
    especificação nos elementos subministrados por alguns municipios, os
    quadros estatisticos addicionados ao _Inquerito parlamentar_, ainda
    assim são bastante numerosos nas suas varias especies para poderem
    deduzir-se d'elles conclusões geraes. Os mappas do valor dos generos e
    do preço dos salarios durante o decennio de 1862 a 1871, communicados
    pelas camaras de diversos districtos, suscitam reflexões e calculos que
    peço licença para submetter á apreciação de v. ex.^a.

    Já notei, e, conforme creio, provei, que avaliar a sufficiencia ou
    insufficiencia da retribuição do jornaleiro pela media annual do salario
    é um methodo illusorio applicado á questão da emigração. Escuso de
    repetir o que disse, porque me parece de facil intuição. Entretanto
    acceitarei a fórmula; porque, se, partindo d'essa media, ainda se provar
    que a insufficiencia predomina em larga escala, desapparecerá a idéa de
    que a elevação dos salarios e a falta de braços são as causas
    deprimentes da agricultura, idéa por duas maneiras fatal, porque afasta
    os agricultores de observarem e combaterem as causas verdadeiras do mal,
    e porque ha-de ter uma pessima influencia nas deliberações que se
    tomarem para destruir, não digo já a emigração em geral, mas o que
    n'ella é, por assim me exprimir, artificial, e que não faz senão
    conduzir a mais infeliz situação o proletario rural, já de sobra
    desgraçado.

    O districto do Porto é aquelle onde, mais do que em outro qualquer, a
    emigração tem tido notavel incremento. Nos seis annos de 1866 a 1871, de
    37:444 individuos que abandonaram o paiz pertenciam-lhe 16:450. N'um
    periodo de dez annos, de 1862 a 1871, os salarios subiram n'aquelle
    districto mais de 25 por cento; mas as consequencias d'este facto foram
    attenuadas e talvez destruidas por uma circumstancia assás grave. Os
    generos que predominam na alimentação do trabalhador do campo são o
    milho, o feijão, e a batata. Ora dos 17 concelhos do districto, em 14
    subiu o preço do milho, em 11 o do feijão, e em 7 o da batata. Na minha
    opinião, o phenomeno não proveiu da diminuição dos productos: longe
    d'isso. Proveiu da sempre crescente abundancia da moeda, devida
    principalmente ao regresso á patria de avultado numero dos _nossos
    brazileiros_. Seja, porém, esta ou aquella a causa, signifique a alta
    dos generos o que significar, o que é certo é que ella diminuiu, se não
    destruiu, o effeito da elevação dos salarios. Por outra parte, essa
    elevação dos jornaes prova antes a sua pequenez em 1862 do que a sua
    exaggeração em 1871; porque n'este ultimo anno a media d'elles em 8 dos
    17 concelhos não excedeu a 200 réis, e dos restantes, apenas no do Porto
    passou de 280 réis.

    Os districtos onde, afóra o do Porto, a emigração é importante, são os
    de Aveiro, Braga, Vianna, Vizeu, Villa Real e Coimbra. A commissão
    obteve notas estatisticas sobre os preços dos generos e dos salarios nos
    districtos de Aveiro, Vianna e Coimbra, além de outros (Lisboa, Leiria,
    Bragança e Castello Branco), cuja quota de emigração é insignificante.
    No de Aveiro, onde o numero de emigrados é o mais avultado depois do do
    Porto, a comparação entre os preços dos principaes generos alimenticios
    e os salarios ainda, porventura, é mais instructiva. Entre o primeiro e
    o ultimo anno da decada de 1862 a 1871 o custo do milho augmentou em 9
    concelhos e diminuiu em 6, o do feijão augmentou em 12 e diminuiu em 3,
    o da batata augmentou em 8 e diminuiu em 5. Como, pois, considerar as
    pequenas elevações dos jornaes, em geral, senão como compensação da
    maior carestia das principaes subsistencias? Em 1871 esses jornaes
    augmentados sobem, na verdade, um pouco acima de 200 réis em 7
    concelhos; mas são de 200 réis e ainda de menos em 9. Tal é a enormidade
    dos salarios que arruinam a agricultura! A estatistica do districto de
    Vianna é assás deficiente, sobretudo em relação aos jornaes; mas vê-se
    que alli o preço do milho e feijão subiu em 8 concelhos, diminuindo
    apenas em um ou dois. Se houve elevação nos salarios, o facto explica-se
    pela alta nos generos. No que respeita ao districto de Coimbra, as
    informações são menos incompletas, posto que ainda insufficientes quanto
    aos salarios ruraes. Ahi a proporção entre o accrescimo e a reducção no
    preço dos generos é a favor d'esta; mas os salarios parece
    conservarem-se immoveis, conforme as notas transmittidas pelas camaras
    municipaes. Dá-se até a circumstancia de diminuirem nos concelhos de
    Coimbra, Figueira e Cantanhede. Reduzidos, porém, ou estacionarios, por
    todo o districto, á excepção de um concelho, foram em 1871 de 200 réis e
    ainda de menos. O trabalho estacionou ou embarateceu como os generos.

    Qual é o resumo e substancia d'estas observações? É que, de 1862 a 1871,
    os salarios cujo augmento os fez ultrapassar a meta de 200 réis estão
    para os que se mantiveram n'esse limite, ou nem sequer o attingiram, na
    razão de 18 para 36, ao passo que o accrescimo do preço das principaes
    subsistencias do operario rural está para a diminuição do custo d'essas
    mesmas subsistencias na razão de 98 para 50. Manifesta-se, pois, uma
    forte tendencia do salario para se conservar dentro d'aquelle limite, e
    ao mesmo tempo uma não menos forte tendencia para a alta nos principaes
    generos alimenticios do trabalhador. Deixo ao discernimento de v. ex.^a
    tirar as illações que naturalmente dimanam d'estes factos.

    Encontra-se nos mappas do preço do trabalho rural de alguns concelhos
    dos districtos de Coimbra e de Castello Branco uma especie valiosa para
    apreciar bem a situação economica do proletariado do campo. É pena que
    no grande numero de concelhos em que, além d'esses, de certo existe o
    facto, não o mencionassem. Seriam mais completas e indubitaveis as
    reflexões que elle suscita. Refiro-me ás duas fórmas simultaneas da
    retribuição do trabalho–jornal _a sêcco_, e jornal _com comida_. A
    differença entre os dois jornaes representa o valor do sustento diario
    do obreiro e corresponde forçosamente á realidade. Essa differença é
    claro que resulta de um accordo livre entre o patrão e o operario, cada
    um dos quaes poderia preferir a solução integral a dinheiro, se
    porventura se reputasse lesado na avaliação do sustento. Esta é,
    portanto, razoavel. Das notas de seis concelhos em que se menciona o
    facto vé-se que, em dois, a manutenção do obreiro é computada em mais de
    metade do jornal todo a dinheiro, n'um em menos, e em tres exactamente
    na metade. Adoptarei essa metade para base do calculo, applicando este a
    uma hypothese vulgarissima entre as familias rusticas–a de um obreiro
    com mulher e dois ou tres filhos de um até dez annos de idade.
    Supponhamos que a mulher, cumpridas as obrigações domesticas, pode ainda
    trabalhar fóra os dias correspondentes aos dias uteis de um semestre,
    ganhando metade do salario do marido. Supponhamos tambem que n'esses
    seis concelhos (Pampilhosa, Oliveira do Hospital, Miranda do Corvo,
    Goes, Fundão, Oleiros) foram os jornaes, em 1871, de 200 réis, embora só
    o fossem no de Goes, e inferiores em todos os demais. Supponhamos ainda
    que a alimentação da mulher e de dois ou tres filhos apenas equivalesse
    á do jornaleiro. As condições da hypothese são o menos favoraveis que é
    possivel ao que pretendo demonstrar. Pois bem: apezar d'isso, com taes
    elementos, um calculo simples dá-nos em resultado a expressão de uma
    verdade bem triste.

    Salario de 200 réis em 365 dias 73$000

    Dito de 100 réis em 180 dias 18$000
    ————
    91$000

    Deduzindo:

    Domingos e dias festivos; 60
    para o marido e 30 para a
    mulher ou 12$000 + 3$000
    réis. Dias de interrupção de
    trabalho por temporaes e chuvas
    copiosas, calculados no decurso
    do anno em 30 para o
    marido e 15 para a mulher
    ou 6$000 + 1$00 réis 22$500
    ————

    Rendimento annual da familia 68$500

    Media da alimentação do obreiro
    em 365 dias 36$500

    Dita da mulher e filhos 36$500
    ————
    73$00
    ————
    Deficit 4$500

    E as pobres roupas e trajos? E a pobrissima habitação? E os impostos em
    dinheiro ou trabalho? E a falta de serviços? E a doença? Que o
    jornaleiro não tenha um unico vicio; que não gaste mal um ceitil. Terá
    por sorte a miseria.

    Não sei se me illudo sobre a exacção d'este calculo. Se é exacto, deixo
    a v. ex.^a deduzir d'elle as conclusões que lhe dictar a sua alta
    intelligencia.

    IV

    *Val-de-Lobos, julho de 1874.*

    Ill.^{mo} e ex.^{mo} sr.–Creio que já n'uma carta antecedente confessei
    que a nossa agricultura lucta ás vezes com difficuldades e embaraços,
    como, mais ou menos, luctam todas as industrias e todas as profissões.
    Existencias que sem obstaculos, sem revezes, deslisem serenas na vida
    são raras excepções. A lucta é o progresso: a resistencia das cousas ou
    dos homens o incentivo dos supremos esforços: os erros que custam caros
    os melhores mestres. N'este ultimo ponto a difficuldade está em acceitar
    as lições. Somos propensos a attribuir aos outros as culpas proprias, e
    é por isso que tantas vezes se inutiliza o proveito que poderiamos tirar
    dos nossos desacertos.

    As causas que obstam ao desenvolvimento agricola e á prosperidade a que
    esta industria das industrias poderia ter-se elevado são complexas e
    variadas, sendo talvez a principal a sua propria indole e a direcção que
    tem seguido. É por isso que não posso ver na reducção do salario o
    remedio para evitar os seus queixumes. Pelo contrario, como symptoma, a
    lenta elevação dos jornaes, a immobilidade, ou o descenso d'elles são
    indicios da lentidão do seu caminhar, do seu estacionamento, ou da sua
    decadencia.

    As reformas da dictadura de 1832 a 1834 impelliram energicamente a
    industria agricola na senda do progresso, desonerando-a de multiplicados
    vexames, vestigios de eras barbaras e obstaculo insuperavel á sua
    prosperidade. Por este lado a revolução foi longe; mas a revolução não
    podia transformar uma classe numerosa de agricultores atrazados em
    homens que soubessem aproveitar practica e racionalmente os effeitos das
    reformas. Assim, o progresso foi-se manifestando nos districtos do sul,
    e em grande parte nos do norte, quasi exclusivamente na extensão da
    cultura e pouquissimo na intensidade. Tem-se arroteado charnecas,
    lavrado velhos pouzios, convertido pantanos em arrozaes, multiplicado as
    vinhas e olivedos, desbastado e educado os chaparraes, dilatado por
    bravios as roças e queimadas. Forcejamos por cobrir vastas áreas de
    terreno de sulcos de arado sem perguntarmos a nós mesmos se pozemos
    todos os meios para ser remunerado o nosso trabalho. N'um paiz
    mediocremente cerealifero, ao menos com relação ás praganas, esgotamos
    os terrenos ferteis com tristes rotações biennaes e triennaes, em que
    raramente figuram as hervas de fouce. Pedimos a gandras, a encostas, a
    chans, comparativamente fracas e pobres, as mais das vezes sem
    alqueives, quasi sempre sem adubos, a maior porção dos cereaes
    colmiferos. A cultura alterna é entre nós excepção rara, até porque os
    terrenos que a admittem não são vulgares em Portugal. No sul do reino, o
    prado artificial, que poderia tornar altamente progressiva a rotação
    biennal, ainda não passou de uma curiosidade. Os nossos rios e ribeiras
    vão direitos ao mar durante o anno inteiro, embora atravessem planícies
    e valles uberrimos. Ahi a agua e o sol do estio subministrariam alimento
    a gados numerosos, e conseguintemente produziriam massas avultadissimas
    d'estrumes, cujos sobejos iriam gradualmente fertilisando os terrenos
    pobres adjacentes, onde tantas vezes o lavrador tem de contentar-se com
    tres ou quatro sementes. As vastas charcas, que suppririam a
    insufficiencia das aguas correntias e a cuja construcção tão favoravel é
    o accidentado do nosso solo, quem pensa n'ellas? E todavia, com a
    cultura racional em vez da tradicional, metade dos terrenos fundeiros
    produziriam o dobro ou mais, preparados para a irrigação, do que produz
    o todo privado d'ella. Por outro lado, os nossos instrumentos agrarios
    são em geral os mesmos que eram ha meio seculo, e os vehiculos rusticos
    conservam-se, como os instrumentos, em hostilidade permanente com as
    leis da mechanica. O que estes e dezenas de factos analogos influem no
    curso dos productos agricolas conhecem-n'o pela reflexão e pela
    experiencia os agricultores que sabem reflectir e experimentar. A outros
    basta para explicar tudo a transitoria elevação do salario.

    Costuma dizer-se que o poeta nasce. Em Portugal o que nasce é o
    lavrador. A lavoura é profissão cujo tirocinio consiste em ser filho de
    lavrador ou de proprietario rural. A sua divisa é o desdem do livro. O
    livro é o supremo perigo da producção nacional. A praxe e a experiencia
    não precisam de saber o que elle diz para o condemnarem. N'este genero
    de industria a verdadeira superioridade está em não a reconhecer
    n'aquelles que pelos factos provam que nos levam vantagem. O
    jurisconsulto pode accommodar aos costumes, ás tradições, aos habitos
    nacionaes a luz da sciencia que vem de fóra; o economista fazer selecção
    nas doutrinas alheias de tudo quanto seja util ao desenvolvimento da
    riqueza publica; o medico modificar pelas condições climatericas do paiz
    os resultados do estudo e experiencia estranhos; o militar ir
    apropriando á defesa do Estado o que nos progressos modernos da arte da
    guerra se coaduna com a nossa indole e recursos, com as nossas aptidões,
    com a configuração do nosso solo. Assim no mais, salvo em agricultura e
    em economia rural. N'isto, basta-nos affirmar que ha muitas cousas em
    que os estrangeiros teriam que aprender comnosco; que disfructamos um
    clima abençoado, que isto é o jardim da Europa, e outros apophtegmas
    egualmente sisudos e demonstrados.

    Este horror ao livro não tem sido por certo menos fatal do que o
    enthusiasmo cego por elle, achaque de que não pode negar-se que adoece
    mais de um espirito illustrado. Resultam de similhante horror
    consequencias funestas, mais funestas porque sem comparação mais geraes,
    do que essas que derivam do fanatismo pela generalisação, pelas theorias
    scientificas sem as restricções da experiencia. A agricultura, como as
    outras industrias, talvez mais do que as outras, exige a actividade
    physica, o movimento, a vida externa; mas, assim como os que se dedicam
    ás industrias fabris sabem furtar ás lidas materiaes algumas horas para
    estudar as questões technicas ou economicas que possam servir ao
    progresso d'ellas ou contrariar a sua prosperidade, do mesmo modo o
    cultivador precisa de dedicar quaesquer ocios a inquirir o que ha que
    aproveitar na observação e no estudo alheios, e a habilitar-se para
    apreciar o que na organisação economica da sociedade será vantajoso ou
    nocivo aos interesses da sua classe. A incompetencia do productor rural
    n'estes assumptos pode em certos casos ser para elle mais desastrosa que
    todas as emigrações imaginaveis de proletarios. O lavrador portuguez,
    por exemplo, é, geralmente fallando, proteccionista. Porque? Porque
    ignora que os seus verdadeiros interesses estão ligados á liberdade
    commercial. Não sabe referir ao seu paiz as questões que a tal respeito
    se ventilam lá fóra, e nem sequer sabe que existem. Não sabe, nem quer
    saber. Applaude candidamente o systema protector, e faz mais: sollicita
    com affinco, talvez com colera, a manutenção de um systema, que apenas
    tem o defeito de lhe liberalisar ampla protecção quando não a precisa, e
    de lh'a retirar, ao murmurio das populações urbanas, quando carece
    d'ella. Entretanto, á boa sombra d'esse admiravel regimen, tem de prover
    ás necessidades da vida, ao vestuario, aos objectos de serviço
    domestico, á alfaia rural, e, até ás vezes, a uma parte do alimento, por
    preços artificialmente elevados. É até certo ponto a protecção que
    explica a estagnação dos seus productos e a insufficiencia dos seus
    recursos. Não pára, todavia, no bom caminho o _homem practico_, firme em
    detestar o livro e as estrangeirices. No fim de trinta annos de
    repugnancias, já na verdade hesita em condemnar absolutamente o caminho
    de ferro, e começa a afrouxar nas suas sympathias pela azinhaga real, na
    sua commiseração do almocreve, e a tolerar, e, no inverno, quasi a
    bemdizer, a invenção de Mac-Adam. Não o faz, porém, sem prudentes
    reservas, porque sobretudo é homem practico. No verão lança olhos longos
    para a velha calçada do engenheiro juiz de fóra, e, se pode,
    aproveita-a. As novas estradas são quasi sempre mais extensas pela mania
    de evitar as ladeiras, e o chão batido de pedra britada esquenta os pés
    do gado. Nada chega a uma boa calçada. Os seus carros aguentam-se bem
    com as sobrerodas e os seus bois com as ladeiras, além de que seu pai e
    seu avô sempre por alli passaram e não morreram por isso. Como ha-de
    elle deixar, de conservar certo resentimento contra o rasto legal de
    sete centimetros que lhe tolhe o prazer de margear o leito das novas
    vias com o gume das rodas do carro de eixo movel, que ás vezes se põe a
    arder com a _doçura_ dos attritos? A simples substituição do vehiculo do
    norte e da Estremadura pela carreta alemtejana daria, na verdade, uma
    differença no menor custo dos transportes acima de dez por cento, com a
    mesma força de tracção. Não será, porém, mais simples obter essa
    economia na reducção do salario dos jornaleiros?

    Quantas ponderações equivalentes, ou pouco melhores do que estas, não
    tenho eu ouvido a cultivadores, que em outros assumptos de interesse
    privado, e até em certas questões geraes de agricultura são cordatos e
    razoaveis! Dos seus contratempos e desastres nunca elles são os motores.
    Se absolvem a natureza, no que não são faceis, as culpas vão
    impreterivelmente cair sobre a sociedade. De certo nas instituições, nas
    leis, nos regulamentos administrativos, na percepção e distribuição dos
    impostos, ha erros, vexames, desegualdades, desvios, nocivos aos
    agricultores; mas tambem no modo de pensar da maioria d'elles ha erros,
    preoccupações, ignorancias, teimosias, não menos deploraveis nos seus
    effeitos, sem contar com os que procedem de certos factos, não de ordem
    economica, mas de ordem moral, imputaveis ao cultivador e de que me
    abstenho de fallar.

    Na população rural predomina um instincto ou como queiram chamar-lhe,
    que no proletario será o mais poderoso elemento de bem-estar e de
    regeneração moral para elle, e de paz e de progresso para a sociedade,
    se esta souber favorecel-o e dirigil-o; mas que no agricultor mais ou
    menos abastado é vicio ruinoso e difficil de corrigir, porque a
    intelligencia obscurecida do vicioso o pinta a si proprio como
    manifestação de providencias de economia, de amor ao trabalho, quasi de
    virtude. Fallo d'essa affeição ardente, inquieta, tenaz, á propriedade
    de raiz, á terra, que se mantém com o mesmo vigor no coração do homem do
    campo desde a mocidade até ao ultimo dia, até a ultima hora da vida, e
    que, apenas satisfeita, logo recrudesce. De todas as causas de ruina dos
    agricultores nenhuma reputo mais desastrosa. É ella que de ordinario
    deita a perder o lavrador laborioso, poupado, mas pouco reflexivo e
    menos instruido. O que sobretudo escaceia ao cultivador portuguez é
    cabedal para o grangeio. Por via de regra, a terra é mais forte do que o
    seu cultor, e tarde ou cedo esmaga-o. Todavia elle acredita que é acto
    meritorio, acto de homem que _faz casa_, converter em terras o capital
    de que ha-de precisar para custeios, sempre incertos no seu _quantum_.
    Ainda quando elle fosse de sobra, deveria applical-o a melhorar a alfaia
    agricola, a adubos, a limpeza de arvoredos, a esgraminhar, a desviar
    enxurros dos valles e a desobstruir ribeiros, a vallagens e esgotos,
    etc. Mas o proprietario rural é radicalmente anguloso, e desadora com
    isso. Estremece pela fórma circular. _Arredonda-se_ de continuo, podendo
    e não podendo. Não é raro, até, vêl-o levantar dinheiro a 8, 10 ou mais
    por cento para adquirir um campo que lhe dará o equivalente de uma renda
    de 4 ou 5, se não menos. Se a cousa fazia tanta conta! Se endireitava a
    lavoura! Se lhe proporcionava tão boa serventia! Havia de deixar que o
    arrematasse outro confinante que cordealmente detesta? Concluiu-se o
    negocio: os amanhos, que já se não faziam bem, são cada vez peiores, e
    na producção apparece o castigo do erro. O capital loucamente amortisado
    é supprido pelo que, em momentos de apuro, se vai buscar a 12, 15 ou 18,
    por cento. Vendem-se os generos na baixa; vendem-se fructos ainda
    pendentes; atrazam-se as soldadas, e a disciplina entre os creados
    acaba. O gado anda magro, e o arado pára no rego emquanto se fuma ou
    conversa. O agricultor nada d'isto vê, porque lhe empanam a vista as
    soldadas em debito. A ruina tarda mais ou menos annos, espera ás vezes
    pela morte do lavrador, mas vem quasi sempre, implacavel, fatal. Scismam
    todos como um homem laborioso, economico, que em summa _fez casa_,
    chegou, depois de _se arredondar_, a semelhantes termos. Os advertidos
    começam então a lembrar-se das ruins searas que elle tivera desde tantos
    annos, da pouca e má producção das suas vinhas e olivedos, da morrinha
    do seu rebanho, das basseiras e ferrujões que lhe levaram dois ou tres
    bois de trabalho. Mas advertem alguns, ainda mais experientes e
    circumspectos, que essa é a historia de varios outros lavradores dos
    sitios, incansaveis como elle em fazer casa. O facto tornou-se vulgar
    desde que se não paga o dizimo a Deus, e que o reino está comido de
    pedreiros livres. Depois, os tributos devoram tudo. Ha quem tenha feito
    a conta. Paga mais a terra hoje do que nas epochas douradas dos quartos,
    das jugadas, dos relegos, das coutadas, dos dizimos, das milicias, das
    ordenanças, acogulado tudo com a decima d'el-rei nosso senhor.
    Obviamente as terras produzem agora menos e as estações mudaram. Tem
    muitas vezes notado estas cousas o reverendo prior da freguezia e o
    fidalgo do logar, ancião respeitavel, que foi capitão-mór, e commendador
    quando valia a pena de o ser. Lembram-se ambos com saudade dos bons
    tempos em que o lavrador era completamente feliz… nas eclogas da
    poesia classica.

    D'essa insaciabilidade de terra resulta ainda outro mal não menos
    grave–a dispersão do trabalho rural–causa de um sem numero de despesas
    improductivas. Ha proprietarios que se resignam ao anguloso quando se
    lhes torna impossivel o arredondarem-se; mas resta-lhes outro expediente
    para se arruinarem. Como se tracta de satisfazer um vicio, os pretextos
    não faltam. A acquisição de um campo, de uma belga de terra, de um
    olival, de uma vinha, de um brejo, de um talho de matto, seja, em summa,
    do que fôr, embora a meia ou a uma legua do centro da lavoura, é sempre
    para os taes um negocio d'aquelles que raras vezes se fazem na vida.
    Como elles esperam rir-se dos vendedores! Estes negocios raros, aliás
    tão vulgares, trazem por via de regra mais damnos ao agricultor do que
    todas as altas dos salarios. V. ex.^a conhece decerto o excellente livro
    de Fermin Caballero, sobre a povoação rural de Hespanha, traduzido pelo
    dr. Deslandes e publicado em Lisboa em 1872. É provavel que não sejam
    muitos os exemplares vendidos. E, todavia, este notavel escripto deveria
    ser tão lido e meditado (não digo cegamente adoptadas todas as suas
    doutrinas) pelos nossos cultivadores pouco instruidos, como o admiravel
    tractadinho de Matthieu de Dombasle sobre os acertos e revezes nos
    melhoramentos agricolas o devera ser pelos turbulentos e insoffridos
    reformadores das nossas velhas praxes, que tenho a fraqueza de não
    suppor todas más. Infelizmente para o lavrador, que disputa aos chins
    extremos de devoção pelo culto dos antepassados, a leitura de um livro
    que contradiz as tradições avitas seria profanação. Que Fermin Caballero
    faça apalpar aos seus hespanhoes as perdas enormes das lavouras
    retalhadas e dispersas, cousas são de castelhanos: o cultivador
    portuguez continuará todos os dias, a todas as horas e por toda a parte,
    a fazer os taes raros negocios, que mais tarde ou mais cedo tem de lhe
    inspirar serios queixumes contra os salarios devoradores, devoradores
    sobretudo quando são pagos com dinheiro de 12 a 18 por cento.

    Diz-se que a escola é uma grande necessidade para o rustico proletario.
    Deve ser assim. Affirmam-n'o os entendidos das grandes cidades. Por ora,
    suspeito que tem outras mais urgentes–a de melhor e mais abundante
    alimento, a de mais roupa, e a de mais reparada habitação. A quem me
    parece que aproveitaria desde já a escola é á _burguezia do campo_; mas
    a escola como eu a concebo, a escola que ensina mais alguma cousa do que
    a manear a ferramenta do estudo–ler e escrever,–a escola em que pouco
    se tem pensado. Seria uma attenuação prodigiosa da suppressão dos
    dizimos, da existencia do pedreiro livre, e até do fatal descobrimento
    da America.

    E é n'um paiz onde fallece a instruccão ao commum dos agricultores,
    falta que lhes mostra do invez as questões economicas; que lhes mantém
    as tendencias para immobilisarem todos os seus recursos pecuniarios,
    desequilibrando de continuo os dois instrumentos essenciaes da producção
    remuneradora–a terra e o capital; é n'este paiz que não existem
    instituições de credito agricola, d'aquelle credito que, bem organisado,
    poderia supprir com dinheiro barato a insufficiencia tão vulgar como
    ruinosa dos capitaes de grangeio, sem que todavia favorecesse o vicio da
    terra não menos vulgar, nem menos ruinoso! Pensámos nos proprietarios,
    creando o credito hypothecario; não pensámos na industria rural,
    esquecendo o credito agricola. Busca-se remover o perigo de que o dono
    de tal predio, que se chama hoje Francisco, se chame ámanhã Antonio,
    facto que, aliás, o credito hypothecario geralmente adia, mas raramente
    impede, e que importa mediocremente á riqueza publica, se é que antes
    não a contraría. Mas que o lavrador, rendeiro ou proprietario, ou
    rendeiro e proprietario a um tempo, que exerce um mister indispensavel e
    que não pode nem sabe exercer outro, se arruine atirando-se á voragem
    dos juros excessivos para effectuar em epochas precisas,
    intransgressiveis, os amanhos annuaes; que, arruinado, abandone a
    profissão; que se esterilise assim uma actividade productiva; que esta
    se converta em patriotismo eleitoral, e no estudo diurno e nocturno do
    elenco dos cargos que tem a prover o Estado ou o municipio; eis do que
    não cogitam os poderes publicos. É que o pretor não cura das cousas
    minimas, conforme o velho brocardo da jurisprudencia romana.

    Assim no mais. Durante quarenta annos, por exemplo, de governo
    representativo não tem sido possivel encontrar um meio sério e efficaz
    de manter a segurança pessoal do cultivador e o goso completo e
    exclusivo do fructo do seu trabalho. Pode dizer-se que não existe
    policia rural. D'aqui a necessidade nos grandes predios rusticos, e
    ainda nos medianos, da existencia de um ou mais guardas particulares,
    que desempenhem o serviço de segurança pessoal e real, que parece devera
    ser a primeira applicação dos tributos que a terra paga. São gravissimas
    as considerações de ordem moral e social que esse facto suscita, mas
    limitar-me-hei a uma unica observação de ordem puramente economica.

    Suppondo de 60$000 réis o vencimento annual de um guarda, entre
    comedorias e soldada, se essa entidade viesse a tornar-se inutil e
    desapparecesse, elevando-se ao mesmo tempo a media dos jornaes de 200 a
    300 réis, o cultivador poderia pagar por este ultimo preço duzentos dias
    de trabalho, sem que entre a sua receita e despesa houvesse alteração no
    saldo.

    Quiz, meu amigo, lembrar-lhe alguns exemplos dos obstaculos graves, mais
    positivos que a alta de salarios attribuida á emigração, que embaraçam o
    movimento da nossa agricultura e que attenuam a acção das causas que
    deveriam ter-lhe dado maior incremento. Não é possivel nos limites de
    uma carta considerar miudamente todos esses obstaculos e apreciar os
    seus effeitos. Temos um systema de organisação militar analogo ao das
    grandes nações, expressão de uma idéa aggressiva, e que inutilisa de
    contínuo e aos milhares os braços mais robustos da população rural, em
    vez do systema proprio dos pequenos estados, adequado unicamente á sua
    defesa: temos os impostos municipaes applicados quasi exclusivamente aos
    commodos da parte urbana dos concelhos, com esquecimento da aldeia e da
    herdade ou casal solitarios: temos o _absenteismo_, posto que menos
    frequente e esgottador do que o foi na Irlanda, mas temos além d'isso o
    semi-absenteismo–a lavoura feita de longe–, com o que se tenta
    conciliar a gloriola ou a necessidade de ser cultivador e as diversões
    que só se encontram nos grandes centros de população: temos os pastos
    communs, que significam a negação de boas pastagens e de bons
    afolhamentos: temos a frequentação exaggerada das feiras e mercados, uma
    das paixões do lavrador, que na falta de motivos sérios inventa
    pretextos para ir dispender alli o que não deve e muitas vezes o que não
    pode, emquanto os creados, livres da vigilancia do amo, addicionam a
    essas despesas os resultados do seu descuido e perguica, quando não da
    sua maldade: temos a tauromachia e a lavoura com gado bravo, duas
    barbarias que mutuamente se auxiliam e que roubam annualmente a uma
    agricultura sensata grande porção dos nossos terrenos de alluvião, isto
    é, dos nossos terrenos mais productivos: temos a falta das cadernetas de
    serviço dos creados de soldadas, que aliás, dados a nossa indole e
    costumes, talvez fossem inuteis; mas que, todavia, fora conveniente
    experimentar, porque o creado rural, desleixado, ratoneiro, ou perverso
    pode trazer grave dispendio ao amo e ser em certos casos a origem da sua
    ruina: temos as _contas de sacco_ tão vulgares e tão desastrosas, quanto
    seria impossivel para o lavrador mediano a contabilidade complexa,
    inculcada em certos escriptos de economia rural, e só applicavel a
    grandes emprezas agricolas. Sobre estes e outros factos analogos fora
    facil escrever um livro, onde ficassem patentes as causas reaes e
    profundas do insufficiente progresso da agricultura portugueza. Elle
    provaria que o quinhão da responsabilidade que a similhante respeito
    toca á emigração, é insignificante ou nullo. O que não é possivel, como
    já disse, é metter a materia de um livro na estreiteza de uma carta.

    Qual é a illacão a deduzir d'estas considerações e d'estes factos? De
    certo v. ex.^a adivinha o alvo em que ponho a mira. É em separar a
    questão da emigração das vantagens ou desvantagens da agricultura, ou
    antes dos agricultores; é em nobilital-a, elevando-a á esphera das
    questões de humanidade, de patriotismo, e de ordem social. Isto não
    impedirá que os arbitrios, a que haja de recorrer-se para pôr barreiras
    a esse triste exodo de milhares de infelizes, possam influir no augmento
    da população rural, na sua melhor distribuição, e no accrescimo dos
    productos agricolas. Imaginar, porém, que ha-de combater-se a emigração
    forçada, que a miseria alimenta, conciliando a suppressão d'ella com a
    reducção dos salarios ruraes, cuja insufficiencia resulta dos documentos
    colligidos pela commissão de inquerito, afigura-se uma pretensão
    insustentavel, pretensão que só servirá para tornar suspeitos e odiosos
    áquelles mesmos que desejamos salvar os nossos sinceros esforços para
    obter esse fim.

    Nas subsequentes cartas verá v. ex.^a que firmemente creio na
    possibilidade de se atinar com a solução do problema, uma vez que se
    pense, não no proveito d'esta ou d'aquella classe, mas exclusivamente em
    atalhar o mal.

    _P.S._ Na conjunctura em que concluia esta carta, leio nos jornaes que a
    emigração tem diminuido n'estes ultimos tempos de modo singular. Os
    recentes symptomas do rapido desenvolvimento da riqueza publica explicam
    facilmente o phenomeno. N'esta mesma conjunctura, porém, acabam de
    voltar aqui varios trabalhadores das aldeias vizinhas angariados para as
    ceifas no sul e oeste da Estremadura e no Alemtejo, os quaes asseveram
    terem obtido altos jornaes, que chegaram a elevar-se nas immediações de
    Lisboa a 640 réis. V. ex.^a tem mais á mão do que eu os meios de
    verificar se é exacto este asserto. A sel-o, v. ex.^a não deixará de
    inquirir d'aquelles a quem isso cabe, a razão porque, ao passo que a
    emigração notavelmente diminue, o salario rural se eleva de um modo não
    menos notavel. As explicações devem ser curiosas e altamente
    instructivas para nós todos.

    V

    *Val-de-Lobos, setembro de 1874.*

    Ill.^{mo} e ex.^{mo} sr.–Vimos, meu amigo, que o interesse d'uma classe
    abastada, senão rica, e que por muitos titulos merece a consideração de
    nós todos, não deve, apesar d'isso, influir na indole das providencias
    destinadas a reter na terra natal o trabalhador do campo. Vimos
    egualmente que para obstar á emigração não ha outro meio efficaz,
    liberal e legitimo senão remover, até onde for possivel, a miseria que
    afflige os proletarios ruraes. Todas as reflexões sobre os
    inconvenientes do desterro voluntario; todas as narrativas tetricas
    ácerca da sorte dos que os precederam n'aquelle caminho serão baldadas,
    porque as refuta peremptoriamente o padecer actual.

    Á commissão de inquerito, de que v. ex.^a faz ou fez parte, parece que o
    principal instrumento para arredar o proletario das tendencias para a
    emigração é a escola primaria obrigatoria. Entende a commissão que o
    saber ler e escrever o habilitará para ouvir os conselhos da razão e
    evitar os laços dos embaixadores. Sinto discordar da illustre commissão.
    Assim como podem fallar, os embaixadores podem escrever. Não faltam
    escriptos que celebrem as opulencias da America, e os recursos que a
    actividade e o trabalho encontram alli. Saber ler e escrever não
    equivale a saber discernir onde está a verdade–se n'esses escriptos, se
    nos que cinzelam o reverso da medalha. Nem attinjo a razão porque os
    conselhos verbaes das pessoas illustradas serão impotentes contra
    instigações egualmente verbaes. A meu ver, o mais efficaz antidoto da
    emigração, como de quasi todas as resoluções arriscadas, violentas,
    irreflexivas, das multidões, é a modesta felicidade domestica obtida e
    mantida pelo trabalho. O estar bem induz á circumspecção; afugenta-a o
    estar mal. A condição preliminar, indispensavel, para o melhoramento
    intellectual e moral das classes laboriosas é o seu melhoramento
    material. Sem isso, todos os esforços, por mais sinceros e energicos que
    sejam, para derramar a luz da instrucção entre estas populações rudes e
    agrestes, serão baldados, e illusorias as esperanças apparentemente mais
    bem fundadas.

    No actual estado de cousas, o ensino obrigatorio não passa de mais um
    flagello para a pobre familia obreira, que lhe opporá constantemente uma
    resistencia passiva, mas invencivel. Afigura-se-me que toca as raias da
    crueldade dizer–«manda á escola teus filhos»–ao homem que
    habitualmente dorme vestido na esteira de tabúa, na casa de telha vã,
    onde, se géa, tiritam de frio elle, a mulher e os filhos, porque a roupa
    falta; que, se chove, não tem fato para mudar, e ás vezes nem sequer
    lenha para o enxugar; cuja alimentação é de ordinario ruim, quando não
    insufficiente; e que, como se isto não bastasse, sente com frequencia
    apertar-se-lhe o coração ao dizer-lhe o lavrador, no sabbado: «Para a
    semana não ha que fazer.» D'esses filhos que lhe pedem para a escola,
    um, dois, os mais velhos, são pastores ou ajudas; sustenta-os, dá-lhes
    agasalho o lavrador, e os seus pequenos salarios mais de uma vez vão
    supprir esta ou aquella falta urgente da familia: outro leva a comida ao
    pai, que trabalha a um ou dois kilometros de distancia, o que facilita á
    mãi exercer algum mister retribuido: os de seis a nove ou dez annos
    discorrem descalços pelas estradas ajunctando nas pequenas cestas os
    excretos que na vespera ahi deixou o transito dos animaes, miseravel
    industria, que, todavia, no fim do anno produz o valor de alguns
    cruzados, que resolvem uma ou mais difficuldades da dura vida do
    obreiro: outro, pouco maior, vai á fonte, á lenha, ao recado; chamam-no
    para guardar aves domesticas, para colher ervas ou flores medicinaes,
    para afugentar os passaros que damnam os fructos ou as searas, para dez
    ou para vinte serviços analogos. E todos esses serviços tem uma
    retribuição, que se incorpora nos recursos da familia e lhe cerceia o
    numero das privações. É humano, é justo; digo mais, é moral aggravar a
    miseria do trabalhador, tornar mais escura a noite do seu viver em nome
    da luz interior? Bem desejaria eu tambem tecer a minha olympica á escola
    obrigatoria: as phrases, os periodos, as estrophes andam já vasadas em
    fôrmas: basta haver novidade na invenção das suturas. Veda-m'o a
    consciencia. Esperarei que ou a escola se ageite a estas condições da
    familia obreira, o que vejo longe, ou que, melhorada a situação d'essa
    familia, a escola deixe de significar para ella um intoleravel imposto.

    A este proposito accrescentarei só uma ponderação, para a qual chamo a
    attenção de v. ex.^a. Se ha paiz no mundo onde a escola obrigatoria
    domine em virtude de leis austeras, severamente executadas, é a
    Allemanha.

    Ora, segundo os calculos de Molinari[9], a media annual da emigração
    allemã orçava por 100:000 individuos em 1851, verificando-se n'ella a
    regra geral de todas as emigrações europeas–o augmento gradual, embora
    vacillante às vezes no movimento de ascencão por causas accidentaes.

    Os calculos de Molinari foram feitos sobre as estatisticas de 1842 a
    1851. Não será, portanto, exaggeração suppor que vinte annos depois, em
    1870, fosse essa media de 150:000 almas, ou de 900:000 n'este e nos
    cinco annos anteriores.

    A proporção entre a população da Allemanha e a de Portugal é a de 10
    para 1. Se a nossa emigração egualasse a allemã, seria no mesmo periodo
    de 90:000 individuos. Todavia, cinco annos depois, de 1866 a 1871, ella
    foi, no continente e ilhas, de 51:509[10], isto é, de pouco mais de
    metade. Pode fazer-se conceito da immensa população que a Allemanha cede
    á America, sabendo-se que nos seis annos, de 1861 a 1866, só no porto de
    Nova-York desembarcaram 312:065 emigrados allemães[11]. Se, porém,
    reflectirmos em que a União se compõe de mais de trinta Estados, muitos
    com portos notaveis aonde tambem a emigração se dirige; que os allemães
    não buscam exclusivamente fortuna no territorio da União Americana, e
    que, por exemplo, nas colonias mais importantes, fundadas pelo governo
    brazileiro, a maioria dos colonos é de origem germanica[12]; pode
    afoutamente dizer-se que a emigração allemã é proporcionalmente maior
    tres ou quatro vezes que a de Portugal. Não me parece, por isso, que a
    lei do ensino primario obrigatorio, ainda cumprida severamente como na
    Allemanha, ou antes porque o é, seja preservativo moral demasiado
    efficaz contra o mal que pretendemos evitar.

    Permitta-me, pois, v. ex.^a que, em vez de considerar a instrucção
    elementar como meio indirecto de combater a emigração, eu substitua esse
    meio por outro, na verdade menos espiritual e mais grosseiro, mas que me
    parece dever precedel-o na ordem das nossas idéas. Consiste em buscar um
    complemento ao salario rural, de modo que os recursos da familia do
    trabalhador correspondam ás suas necessidades. Esse complemento
    dar-se-hia, talvez, na elevação e permanencia dos jornaes, resultado de
    uma direcção mais acertada, de uma transformação na indole da industria
    agricola. Podem as leis, as instituições, a crescente illustração do
    paiz favorecer as tendencias em tal sentido; mas a sociedade tem de
    parar, n'estes assumptos, deante do alvedrio e da responsabilidade
    individuaes. Não se legisla o progresso. Resta outra solução, para a
    qual as leis e a acção administrativa podem contribuir fortemente,
    respeitando aliás todos os direitos individuaes na sua integridade. Este
    meio consiste em promover energicamente a associação do trabalho rural
    com a propriedade rustica, de modo que o producto liquido do trabalho
    accumulado e incorporado no solo, a que chamamos renda, suppra a
    fluctuação no _quantum_ e a incerteza do salario. É preciso dirigir
    todas as diligencias para a suppressão do proletariado rural. É preciso
    que os obreiros-proprietarios se tornem cada vez mais numerosos, e que
    sejam os verdadeiros representantes do trabalho agricola, assalariado ou
    não assalariado.

    É uma utopia que proponho como remedio ao mal? Parece-me que estou bem
    longe d'isso. O postulado que julgo indispensavel para combater a
    emigração, até onde é justo, conveniente e possivel fazel-o, só na
    apparencia é arduo. Para o realisar gradualmente, temos um meio tão
    efficaz como trivial, meio profundamente radicado nos habitos nacionaes,
    tradição romana nunca inteiramente interrompida atravez dos seculos
    barbaros, e que, na fundação e desenvolvimento dos estados néo-latinos,
    povoou e desbravou a maior parte do solo habitado e cultivado do nosso
    paiz e da Hespanha occidental; meio que ainda hoje é um dos instrumentos
    mais efficientes da ampliação da cultura e do augmento da população, e
    que de ha muito dá ao trabalhador laborioso e bem procedido accesso á
    propriedade. V. ex.^a já, por certo, alcança que fallo da emphyteuse com
    os seus varios nomes e nas suas variadas fórmas. Não é uma theoria de
    equilibrio mais ou menos socialista; é uma praxe conhecida, que tem por
    base a liberdade individual e a natureza de puro contracto, simples,
    comprehensivel, como são por via de regra todas as concepções fecundas.
    É uma cousa velha, applaudida por uns, condemnada por outros, mas que a
    população rural cada vez solicita com maior ardor. Em politica as
    revoluções radicaes podem ser ás vezes necessarias; no que, porém,
    respeita aos usos tradicionaes e aos costumes juridicos das sociedades,
    só de ordinario dão bons resultados as modificações, ou as
    transformações graduaes do que existia d'antes. Nas questões publicas
    d'esta ordem é inevitavel contar com os habitos, com as tradições, com a
    historia. A meu ver, um dos grandes erros do socialismo é esquecer isto.
    Não é menor, todavia, o erro dos que pretendem caracterisar como
    fatalmente necessaria a miseria de milhares de familias, ou escondel-a
    debaixo de um acervo de sciencia problematica, de argumentos que não
    peccam por excesso de solidez, de invectivas e ironias, que
    peremptoriamente refuta e condemna o grito instiuctivo da consciencia
    humana.

    Antes de passar a expor porque e com quaes condições a emphyteuse pode
    conduzir rapidamente á associação do trabalho actual com o trabalho
    consolidado a que chamamos propriedade, e d'ahi, por natural
    consequencia, a attenuar em grande escala a emigração nociva, consinta o
    meu amigo que ponha termo a esta carta com uma digressão sobre assumpto
    connexo, e do mais subido quilate. Refiro-me aos perigos que ameaçam a
    Europa por effeito das paixões excitadas entre as classes laboriosas
    pelas escolas socialistas extremas, isto é, inexoravelmente logicas.
    Esses perigos não são por ora demasiado graves entre nós. Contrahida a
    propaganda de certas doutrinas a uma parte dos operarios urbanos,
    parece-me que ella se estriba mais no amor da novidade e da moda, do que
    nas coleras reaes e funestas, que, n'outros paizes, suscita ás vezes o
    excesso do padecer. Mas hoje é tão intimo o contacto entre os povos
    civilisados, tão efficiente a mutua acção das idéas e dos factos, que
    não seria prudente affirmar que taes perigos se não tornarão um dia
    sérios para nós. As apprehensões ácerca das influencias estranhas
    parecem sobretudo legitimas no seio das nações pequenas. O generalisar a
    propriedade rustica; ligar o salario, que se recebe, com o dominio, que
    se exercita, não é só privar de adeptos as doutrinas dissolventes: é
    recrutar soldados para a manutenção da paz e da boa ordem. Desde que o
    trabalhador rural achar no producto liquido da sua fazendinha um
    complemento mais ou menos amplo do jornal; ou, antes, desde que não
    considerar o jornal senão como complemento d'esse producto, a negação da
    propriedade individual, longe de o lisongear, ha-de irrital-o, e os
    apostolos da demoliçao social farão bem em não evangelisar deante d'elle
    a lei nova, porque o trabalhador do campo é naturalmente rude. Seria o
    caso de applicar, porventura com mais verdade, o dito agudo, a respeito
    de Inglaterra, que De Lavergne celebra:–«Não aconselho ás choupanas,
    que se amotinem contra os solares. Esmagavam-nas logo. São vinte contra
    um.»–Depois da fusão, na familia do jornaleiro, do trabalho actual com
    a propriedade, não aconselharia ás assosiações internacionalistas
    urbanas que se amotinassem contra esta. Achar-se-hiam em bem restricta
    minoria. A paixão da terra, tão forte e tão nociva no grande e no
    mediano agricultor, arde com dobrada violencia no coração do proletario
    rural. Que sacrificios, que tenacidade, que imaginação, que industria
    para alcançar propriedade! Quando elle chega a poder proferir, de pé
    sobre as belgas do chão esmoutado e vallado, as palavras magicas–«O meu
    foro»–essa fronte, habitualmente inclinada para o solo, com os olhos
    fitos na enchada, ergue-se e illumina-se de esperança no futuro e de
    confiança no presente. Todos os ocios voluntarios ou forçados do
    jornaleiro e dos seus vão-se transformando em trabalho que a arroteia
    absorve, e que aflora depois na vinha, no tanchoal, no campinho de
    cereaes, na figueira, na ameixeeira, no batatal. A taberna perdeu acaso
    um freguez, o baralho e o chinquilho um parceiro, a rixa um arruador. É
    que o proletario recebeu da nossa mãi commum o baptismo de cidadão.